sábado, 4 de abril de 2009

AS MENINAS (LYGIA FAGUNDES TELLES)

Lygia Fagundes Telles

As Meninas

Esta obra foi digitalizada pelo grupo Digital Source para proporcionar, de maneira totalmente gratuita, o benefício de sua leitura àqueles que não podem comprá-la ou àqueles que necessitam de meios eletrônicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou até mesmo a sua troca por qualquer contraprestação é totalmente condenável em qualquer circunstância. A generosidade e a humildade é a marca da distribuição, portanto distribua este livro livremente.
Após sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim você estará incentivando o autor e a publicação de novas obras.



OBRAS DA AUTORA

Praia Viva (contos). São Paulo, Livraria Martins Editora, 1944.
O Cacto Vermelho (contos). Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras. São Paulo, Editora Mérito, 1949.
Ciranda de Pedra (romance). Rio de Janeiro, Edições O Cruzeiro, 1954; 4a edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1973.
Histórias do Desencontro (contos). Prêmio Instituto Nacional do Livro. Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1958.
Verão no Aquário (romance). São Paulo, Livraria Martins Editora, 1963; 3a edição, Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1973.
Histórias Escolhidas (contos). Prêmio Boa Leitura. São Paulo, Livraria Martins Editora, 1964.
Gaby (novela) em Os Sete Pecados Capitais (obra coletiva). Rio de Janeiro, Editora Civilização Brasileira, 1964.
O Jardim Selvagem (contos). Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro. São Paulo, Livraria Martins Editora, 1965.
“Trilogia da Confissão” em Os 18 Melhores Contos do Brasil (trabalhos premiados no 1 Concurso Nacional de Contos, promovido pelo Governo do Paraná) Rio de Janeiro, Bloch Editores, 1968.
Antes do Baile Verde (contos). Rio de Janeiro, Bloch Editores, 1970; 2.ª edição, revista e aumentada, prefácio de Fábio Lucas. Rio de Janeiro/Brasília, Livraria José Olympio Editora/Instituto Nacional do Livro, 1971, Prêmio Guimarães Rosa, da Fundepar (Paraná).
Seleta. Organização, estudo e notas da professora Nelly Novaes Coelho. Rio de Janeiro/Brasília, Livraria José Olympio Editora/Instituto Nacional do Livro, 1971.

LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA

apresenta o romance de

LYGIA FAGUNDES TELLES

As Meninas



Prêmio Coelho Neto da Academia Brasileira de Letras






5ª. EDIÇÃO
1974




RIO DE JANEIRO

Capa
Eugenio Hirsch

Contracapa
Foto Pirozelli

Copyright © 1973 by Lygia Fagundes Telles

Direitos desta edição reservados à
LIVRARIA JOSÉ OLYMPIO EDITORA, S.A.
Rua Marquês de Olinda, 12
Rio de Janeiro — República Federativa do Brasil
Printed in Brazil / Impresso no Brasil


FICHA CATALOGRÁFICA
(Preparada pelo Centro de Catalogação-na-fonte do
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, GB)

Teles, Lygia Fagundes, 1923 -
T272m As Meninas por Lygia Fagundes Telles. 5.ª ed. Rio de Janeiro,
J. Olympio, 1974.
266 p., 21 cm.

1. Romance brasileiro. I. Título.

74-0398
CDD — 869.93
CDU — 869.0 (81)-31

NOTA DA EDITORA
DADOS BIOBIBLIOGRÁFICOS DA AUTORA


Lygia Fagundes Telles é paulista, filha de Durval de Azevedo Fagundes e Maria do Rosário de Azevedo Fagundes. Passou a infância no interior do Estado, em pequenas cidades onde seu pai foi delegado e promotor público: Areias, Assis. Apiaí, Sertãozinho... Voltando à capital, cursou o ginásio do Instituto de Educação Caetano de Campos, tendo sido aluna do professor Silveira Bueno, de quem recebeu os primeiros incentivos para a carreira literária. Durante o curso secundário escreveu suas primeiras histórias, reunindo as num pequenino livro que viria a destruir anos depois porque, em sua opinião, a pouca idade não justifica o mau livro "Hoje, uma jovem de quinze anos fuma, bebe, lê Kafka, discute sexo, enfim, ousa tudo. Eu, com essa idade era só ignorância e medo.
Diplomando-se na Escola Superior de Educação Física, ingressou então na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco, estava ainda na Faculdade quando seu livro de contos Praia Viva foi publicado pela Martins em 1944. Foi publicado pela Martins em 1944. Em 1949, já casada e residindo no Rio de Janeiro, publicou pela Editora Mérito O Cacto Vermelho, contos, Prêmio Afonso Arinos, da Academia Brasileira de Letras. Seu primeiro romance, Ciranda de Pedra, saiu em 1954 nas Edições O Cruzeiro e alcança agora a quarta edição, lançada por esta Casa. Histórias do Desencontro, Prêmio do Instituto Nacional do Livro, foi editado por nós em 1958. Cinco anos depois a Martins publicou Verão no Aquário, cuja terceira edição apresentamos em nossa Coleção Sagarana. Histórias Escolhidas, Prêmio Boa Leitura, lançou-o a Martins em 1964. No mesmo ano Lygia contribuiu com a novela Gaby para ilustrar o capitulo reservado à Preguiça na coletânea Os Sete Pecados Capitais, pela Editora Civilização Brasileira e na qual colaboraram também João Guimarães Rosa, Otto Lara Resende, Carlos Heitor Cony, Mário Donato, Guilherme Figueiredo e José Condé. Em 1965 seu livro de contos O Jardim Selvagem, Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, foi editado pela Martins. “Trilogia da Confissão”, trabalho premiado no I Concurso Nacional de Contos promovido pelo Governo do Paraná, figura hoje em Os 18 melhores contos do Brasil, volume lançado em 1968 por Bloch Editores, que também publicara, em 1970, os contos enfeixados em Antes do Baile Verde, cuja segunda edição, revista e aumentada, foi por nós publicada em 1971, em convênio com o INL. Traduzido por Georgette Tavares Bastos, o conto "Antes do Baile Verde" conquistou em 1969, em Cannes, o Grande Prêmio Internacional Feminino para Estrangeiros, em língua francesa, ao qual concorreram 360 manuscritos de 21 países. Em 1971 lançamos em nossa Coleção Brasil Moço e também em convênio com o INL uma Seleta de Lygia Fagundes Telles, com organização, estudo e notas da professora Nelly Novaes Coelho.
Lygia Fagundes Telles é procuradora do Instituto de Previdência do Estado de São Paulo. Casada com o crítico de cinema e professor universitário Paulo Emílio Salles Gomes, mora atualmente na capital paulista. Tem um filho adolescente, Goffredo Telles Neto. Integra o Corpo Deliberativo de Cultura do Estado de São Paulo. A convite de instituições culturais, tem pronunciado conferências em cidades brasileiras, bem como nos Estados Unidos. Também em Portugal, onde tem diversos livros publicados. Foi distinguida pela Fundepar (do Paraná) por seu conjunto de obra Premio Guimarães Rosa, 1972.

Rio de janeiro, setembro
de 1974
"Ana Clara, não envesga" disse a irmã Clotilde na hora de bater a foto. Enfia a blusa na calça, Lia, depressa. E não faça careta, Lorena, você está fazendo careta!"A pirâmide.

As Meninas

um


Sentei na cama. Era cedo para tomar banho. Tombei para trás, abracei o travesseiro e pensei em M.N., a melhor coisa do mundo não é beber água de coco verde e depois mijar no mar, o tio da Lião disse isso mas ele não sabe, a melhor coisa mesmo é ficar imaginando o que M.N. vai dizer e fazer quando cair meu último véu. O último véu! escreveria Lião, ela fica sublime quando escreve, começou o romance dizendo que em dezembro a cidade cheira a pêssego, Imagine, pêssego. Dezembro é tempo de pêssego, está certo, às vezes a gente encontra as carroças de frutas nas esquinas com o cheiro de pomar em redor mas concluir daí que a cidade inteira fica perfumada, já é sublimar demais. Dedicou a história a Guevara com um pensamento importantíssimo sobre a vida e a morte, tudo em latim. Imagine se entra latim no esquema guevariano. Ou entra? E se ele gostava de latim. Eu não gosto? Nas horas nobres, deitava no chão, cruzava as mãos debaixo da cabeça e ficava olhando as nuvens e latinando, a morte combina muito com latim. Não tem coisa que combine tanto com latim como a morte. Mas aceitar que esta cidade cheira a pêssego, exorbita. Qué ciudad será esa? ele perguntaria na maior perplexidade. Tercer Mundo? Terceiro Mundo. Y huele a durazno? Na opinião de Lia de Melo Schultz, cheira. Ele então fecharia os olhos onde eram os olhos e sorriria um sorriso onde era a boca. Estoy bien listo con esas mis discípulas. Enfim, problema dela, o meu é M.N., um M.N. nu em pêlo, muito mais em pêlo do que eu, ele é peludo à beca, assim na base do macaco. Mas um macaco lindo, a cara tão intelectual, tão rara, o olho direito um pouco menor do que o esquerdo e tão triste, todo um lado da sua cara é infinitamente mais triste do que o outro. Infinitamente. Eu poderia ficar repetindo infinitamente infinitamente. Uma simples palavra que se estende por rios, montes, vales infinitamente compridos como os braços de Deus. As palavras. Os gestos se renovando como a pele da cobra rompendo lisa sob a pele velha. E não é viscosa, toquei nela na fazenda, era verde e espessa mas não viscosa. O gesto de M.N. também novo, não é verdade que tudo será como das outras vezes, ele virá de pele limpa, inventando o inventado nas suas minúcias. Se Deus está no pormenor, o gozo mais agudo também está na miudeza, ouviu isto, M.N.? Ana Clara contou que tinha um namorado que endoidava quando ela tirava os cílios postiços, a cena do biquíni não tinha a menor importância mas assim que começava a tirar os cílios, era a glória. Os olhos nus. Em verdade vos digo que chegará o dia em que a nudez dos olhos será mais excitante do que a do sexo. Pura convenção achar o sexo obsceno. E a boca? Inquietante a boca mordendo, mastigando, mordendo. Mordendo um pêssego, lembra? Se eu escrevesse, começaria uma história com esse nome, O Homem do Pêssego. Assisti de uma esquina enquanto tomava um copo de leite: um homem completamente banal com um pêssego na mão. Fiquei olhando o pêssego maduro que ele rodava e apalpava entre os dedos, fechando um pouco os olhos como se quisesse decorar-lhe o contorno. Tinha traços duros e a barba por fazer acentuava seus vincos como riscos de carvão mas toda a dureza se diluía quando cheirava o pêssego. Fiquei fascinada.
Alisou a penugem da casca com os lábios e com os lábios ainda foi percorrendo toda sua superfície como fizera com as pontas dos dedos. As narinas dilatadas, os olhos estrábicos. Eu queria que tudo acabasse de uma vez mas ele parecia não ter nenhuma pressa: com raiva quase, esfregou o pêssego no queixo enquanto com a ponta da língua, rodando-o nos dedos, procurou o bico, Achou? Eu estava encarapitada no balcão do café mas via como num telescópio: achou o bico rosado e começou a acariciá-lo com a ponta da língua num movimento circular, intenso. Pude ver que a ponta da língua era do mesmo rosado do bico do pêssego, pude ver que passou a lambê-lo com uma expressão que já era sofrimento. Quando abriu o bocão e deu o bote que fez espirrar longe o sumo, quase engasguei no meu leite. Ainda me contraio inteira quando lembro, oh Lorena Vaz Leme, não tem vergonha?
"Não" — diz em voz alta o Anjo Sedutor. Acendo depressa um tablete de incenso, oh mente pervertida. Queria ser santa. Pura como esse perfume de rosas que se enrola em mim e me dá sono, Astronauta também sentia sono quando eu acendia o incenso. E se espreguiçava como me espreguiço, foi com ele que aprendi a me espreguiçar. Gato à-toa, por onde você anda. Hein? Dava aulas diárias de preguiça e luxúria mas nunca repetia os movimentos, todo bailarino devia ter um gato. A astúcia. Ao mesmo tempo, o abandono. O desprezo pelas coisas realmente desprezíveis, E aquele cálculo e fixação. Todo feito de delicadezas perigosas — meu gato. Ou Demônio? Nas pausas das lições ficava me olhando, tão mais consciente do que eu na minha inconsciência, como é que eu podia saber? Ainda nem conhecia M.N., não ficava horas e horas minhocando como tenho minhocado, ai meu Pai. Só Jesus compreende e perdoa, só Ele que já curtiu como nós, Jesus, Jesus como eu te amo! Vou pôr um disco em sua homenagem, espera, ofereço música assim como Abel oferecia ovelhas, é lógico que ovelha é muito mais importante mas Jesus sabe que tenho horror de sangue, minhas, oferendas só podem ser musicais bem Hendrix. Escuta, meu amado, escuta esta última musiquinha que ele fez antes de morrer, morreu drogado o pobrezinho, todos eles morreram drogados, mas ouça e sei que você vai baixar a mão até sua carapinha cheia de suor e poeira, dear Jimi!. . .
Num salto elástico, Lorena se atirou na cama de ferro dourado, da cor do papel da parede. Ensaiou alguns passos de dança, levantou a perna até tocar com o pé descalço na barra de ferro e saltou para cair na estreita listra azul do tapete de juta. Aprumou-se, sacudiu a cabeleira para trás e, olhando em frente, foi se equilibrando na listra até chegar ao toca-discos.
— Jimi, Jimi, onde você está? — perguntou ela examinando a pilha dos discos na prateleira da estante. Vestia um leve pijama branco com florinhas amarelas e tinha no pescoço uma corrente com um coraçãozinho de ouro. Segurou o disco nas pontas dos dedos. — E você, Rômulo? Onde agora?
Apertou os olhos úmidos e colocou o disco no prato. Mansamente levantou a agulha e a conduziu como o bico de um pássaro cego até a vasilha d'água. Deixou-a tombar.
— Lorena!
A voz vinha do jardim. Rapidamente ela arrepanhou a cabeleira, torceu-a na nuca e pôs-se nas pontas dos pés. Abriu os braços. Foi andando na listra em caracol do tapete, tensa como uma equilibrista num fio de arame.
— Lorena, bota a cabeça na janela, quero falar com você!
Ela vacilou perigosamente, o pé direito plantado na listra, o esquerdo em suspenso no ar. Descontraiu-se quando conseguiu pousar o esquerdo na frente do outro sem perder o equilíbrio: chegara ao fim da travessia. Inclinou-se para os lados numa profunda reverência, os braços em arco para trás, as mãos se tocando como pontas de asas entreabertas. Agradeceu recuando um pouco, o sorriso modesto posto no chão. Mas empolgou-se ao colher uma flor no ar, beijou-a, atirou-a triunfante para as galerias e voltou rodopiando à janela. Acenou para a jovem que esperava de braços cruzados no meio da alameda. Levou as mãos ao lado esquerdo do peito e suspirou com ênfase:
— Minha amada, seja bem-vinda. Veja que dia! É primavera, Lião, primavera. Vera, é verdade, prima, naturalmente primeira, a verdade primeira. Hum? Numa manhã assim tenho que me segurar senão saio voando, olha as margaridinhas, abriram todas! — Apontou o canteiro embaixo da janela. — Coisa mais jóia. Bom dia, minhas margaridinhas!
— Lorena, será que você podia me dar um pouco de atenção?
— Fala, Lia de Melo Schultz, fala.
Com um movimento brusco, Lia puxou as grossas meias brancas até os joelhos. A sacola de couro resvalou para o chão mas ela se concentrava nas meias, atenta como se esperasse vê-las escorregar em seguida. Apanhou a sacola.
— Será que amanhã sua mãe podia me emprestar o carro? Depois do jantar. Digamos às nove, entende.
Lorena debruçou-se na janela. Sorriu.
— Suas meias estão caindo.
— Ou enforcam os joelhos ou ficam desabando. Olha aí. No começo, este elástico apertava de deixar a perna roxa.
— Mas que idéia, querida, usar meia com este calor. E sapatões de alpinista, por que não calçou a sandália? Aquela marrom combina com a sacola.
— Hoje tenho que camelar o dia inteiro, putz. E sem meia, dá bolha no pé.
Provavelmente nas solas. Cafonérrimo. Pior do que bolhas só os tais joanetes de Irmã Bula. Joanete deve vir de Joana, houve uma antiga Joana com os primeiros pés deformados e os netos herdaram a deformação e viraram os joanetos. Ai meu Pai. Primavera, eu apaixonada e Lião falando em bolha no pé.
— Tenho umas meias tão bacanas, ainda nem usei, quer ir com elas?
— Só se forem francesas, entende.
— São suíças, minha queridinha.
— Não gosto da Suíça, é limpa demais.
E nem vão servir, imagine, ela deve calçar quarenta. Que idéia usar meias que engrossam os tornozelos, a coitadinha está com patas de elefante. Ainda assim, emagreceu, subversão emagrece.
— Lião, Lião, ando tão apaixonada. Se M.N. não telefonar, me mato.
Estou demais aperreada para ficar ouvindo sentimentos lorenenses, ô! Miguel, como preciso de você. Falo baixo mas devo estar botando fogo pelo nariz.
— Lena, escuta, eu não estou brincando.
— E eu estou? Por que essa pressa? Suba, venha ouvir o último disco de Jimi Hendrix, faço um chá, tenho uns biscoitos maravilhosos.
— Ingleses? — pergunto. — Prefiro nossos biscoitos e nossa música. Chega de colonialismo cultural.
— Mas nossa música não me comove, querida. Se os seus baianos dizem que estão desesperados, acredito, acho ótimo. Mas se vem John Lennon e diz a mesma coisa, então vibro, fico mística. Sou mística.
— Você é fresca.
— Fresca, Lião? Você disse fresca — repete ela. Debruçou-se mais na janela e, em meio do riso, envesgou, botou a língua pra fora e colou os polegares na cabeça. Abanou as mãos como orelhas, ô, é preciso ter saco pra agüentar essa menina.
— Loreninha, é sério. Preciso do carro amanhã — digo.
Não me ouviu. Ficou de repente angelical enquanto acena para alguém do casarão, Madre Alix? Madre Alix que abriu a janela e corresponde ao cumprimento, a mão erguida no estilo da rainha da Inglaterra. Mas assim que a freira foi embora, fez a careta maior, a que costuma reservar para o fim. Ô, Miguel, "segure as pontas", você disse. É o que procuro fazer. Mas às vezes fico oca, está vendo? Não sei explicar mas e duro demais cumprir a rotina, queria ser presa, ficar no seu lugar, por que não fui presa em seu lugar? Queria morrer.
— A Faculdade ainda está em greve — gemeu Lorena bocejando. Apontou para minha sacola: — Que é que você tem aí? Metralhadora?
Aprumou-se como se manejasse uma, o olho cerrado na mira, os ombros sacudidos pela descarga, "teque-teque-teque-teque-te-que..." Apontou para o casarão, "teque-teque-teque". Descarregou em Irmã Bula que finge que brinca com a Gata mas está atenta em nós. Estou sorrindo porque sei que é exatamente assim que Miguel reagiria.
— Loreninha, não começa, não gosto dessa brincadeira. Vai pedir o carro? Devolvo no dia seguinte, como da outra vez. Não tem problema.
— Vocês deviam sequestrar o M.N., Lião. Por que é que não seqüestram o M.N.? Ele ficaria escondidinho debaixo da minha cama per omnia secula seculorum. Amen.
Acendo um cigarro. Que me importa dormir no meio dos bêbados, das putas, o cigarro aceso no meu peito, dói sim, mas se soubesse que você está livre, dormindo na estrada ou debaixo da ponte. Mas livre. Não sei agüentar sofrimento dos outros, entende o seu sofrimento, Miguel. O meu agüentaria bem, sou dura. Mas se penso em você fico uma droga, quero chorar. Morrer. E estamos morrendo. Dessa ou de outra maneira não estamos morrendo? Nunca o povo esteve tão longe de nós, não quer nem saber. E se souber ainda fica com raiva, o povo tem medo, ô como o povo tem medo. A burguesia aí toda esplendorosa. Nunca os ricos foram tão ricos, podem fazer as casas com as maçanetas de ouro, não só os talheres mas as maçanetas das portas. As torneiras dos banheiros. Tudo de puro ouro como o gangster grego ensinou na sua ilha. Intactos. Assistindo da janela e achando graça. Resta a massa dos delinqüentes urbanos. Dos neuróticos urbanos. E a meia dúzia de intelectuais. Os simpáticos simpatizantes. Não só explicar mas tenho mais nojo de intelectual do que de tira. Esse ao menos não usa máscara, ô Miguel. Precisava tanto de você hoje esta vontade de chorar, lá sei. Mas não choro. Nem tenho lenço Lorena não acharia fino limpar meu nariz na fralda da camisa.
— Lorena, me empresta um lenço, estou resfriada — digo tenho vontade de esfregar esta cara molhada de lágrimas. Mas, que lenço? Não quero lenço, quero o carro. — Quero o carro Lorena. Posso contar com você?
— Tenho branco, rosa, azul e verde-malva. Ah, e um turquesa, olha que lindo este turquesa. Então, Lia de Melo Schultz que cor a senhora prefere?
Fico olhando a caixa de lenços que ela foi buscar. Guarda tudo em caixinhas de pano florido, essa é de papoulas vermelhas e azuis com fundo preto. Tem ainda as de prata e couro que ficam nas prateleiras da estante. E sinos. Por onde o irmão Passa, manda um sino. Outros colecionam selos, um outro coleciona gravatas e lá adiante um entra na fila de cinema. Maurício aperta os dentes que se quebram. Não quer gritar e então aperta os dentes quando o bastão elétrico afunda lá no fundo. No desenho animado, o gato leva um trompaço e dentes e ossos se trincam. Mas na cena seguinte já se colam e o gato volta inteiro. Seria bom se fosse como nos desenhos. Silvinha da Flauta. Gigi, japona. E você, Maurício? Quando o bastão entrar mais fundo, desmaia. Desmaia depressa, morra. Devíamos morrer, Miguel. Em sinal de protesto devíamos todos simplesmente morrer. "Morreríamos se adiantasse", você disse. Lembra? Eu sei, ninguém daria a mínima. Arrancaríamos o coração do peito, olha aqui meu sangue, olha aqui meu coração! Mas tem um tipo ao lado engraxando os sapatos, que cor de graxa o cavalheiro prefere?
— O verde.
Tiro da caixa o verde-malva que está em terceiro lugar na Pilha. Tão delicados os lencinhos que Remo mandou de Istambul, adeus meu lencinho. Lião é capaz de limpar os sapatões em você mas pense no if dos lenços: a poeira é tão digna quanto as lágrimas. Não será uma poeira lunar, tão branquinha, tão fina a Poeira terrestre é da pesada, principalmente essa dos sapatos da minha amiga. Mas não se importe não, seja lenço, Solto-o no espaço. Abriu-se leve como um pára-quedas que Lião apanha impaciente.
— Você está deprimida, Lião? Angústia existencial?
— Exato. Existencial.
Está furiosa comigo, ai meu Pai. Mudou tanto, coitadinha. Quer dizer que Miguel continua preso? E aquele japonês. E Gigi. E outros, estão caindo quase todos, que loucura. E se de repente ela? Ana Clara já viu um careta meio suspeito rondando o portão, Aninha mente demais, é lógico, mas isso pode ser verdade. Sim, Pensionato Nossa Senhora de Fátima, nome acima de qualquer investigação. Mas quando aparece agora nome de padre e freira no horizonte, já ficam todos de orelha em pé.
— Devolvo amanhã — diz ela dobrando o lenço.
— Fique com ele, imagine. Quer levar mais um?
Atiro-lhe o lenço cor-de-rosa que não se abriu como o verde. Por que meu coração também se fecha? Rômulo nos braços de mãezinha, procurei um lenço e não vi nenhum, seria preciso um lenço para enxugar todo aquele sangue borbulhando. Borbulhando. "Mas que foi isso, Lorena?!" Brincadeira, mãezinha, eles estavam brincando e então Remo foi buscar a espingarda, corra senão atiro ele disse apontando. Está bem, não quero pensar nisso agora, agora quero o sol. Sento na janela e estendo as pernas para o sol.
— Fico vermelha e queria ficar marrom, olha que cor. O Fabrizio disse que meu apelido na Faculdade é Magnólia Desmaiada, já pensou?
— E o velho? Nada ainda?
Conto até dez antes de responder, grrrrr!. .. Por que chamar M.N. de velho? Primeiro, ele não é velho. Segundo, ela sabe que sou do gênero enrolado, as coisas comigo não se resolvem assim. Terceiro — qual é o terceiro? Estou me esforçando para parecer inatingível.
— Ficou de telefonar para jantarmos. Você vem com a gente?
— Estou precisada é de um bangue-bangue.
Cinema, imagine. Zona perigosa, tem milhares de zonas perigosas onde a mulher dele ou a prima. . . Acho que o melhor lugar para a gente se ver é o hospital porque se o mundo é grande aquele hospital ainda é maior. Doutor Marcus Nemesius está? eu pergunto e a enfermeira principal fala com a subordinada e a subordinada fala com a subordinada da subordinada que por sua vez fala com aquela lá longe, a que escapou da corrente, e o sapato branco, a memória branca. "Por acaso é você que está esperando o doutor Melloni?" ela vem e pergunta depois de duas hora, e meia. Não, esse não. Por acaso estou esperando o doutor Marcus Nemesius, ele está? "Acabou de sair, ela diz. Não serve outro médico?"
— Se ele não telefonar, vamos nós, Lião. Tenho oriehnid até para caviar.
— Russo?
— Não, querida, do Irã. O melhor caviar do mundo. Remo, meu irmão, mandou uma lata.
— Estou comovida. Mas fico com minha empada da esquina. Aqui tem a sopinha, o picadinho com o jeito assexuado das freiras mas é sempre melhor do que essas coisas que ela come pela rua. E nem toma mais banho, coitadinha. Antes, enchia minha banheira e lá ficava tão feliz, um dia até pediu os sais.
— Você mudou, Lião.
— Pra pior? — perguntou ela abrindo o lenço e se assoando. Bossa escapamento aberto. Nesse ponto os bichos são tão mais bacanas, nunca vi Astronauta se assoar em público. Buracos demais, secreções demais. Ai meu Pai. Comer empadas no café, que loucura. Mas se viesse com a gente acabava envenenando nosso encontro, adora fazer ironias que M.N. finge que não entende, tão sólido. Tão seguro. "Mais vinho, Lião?" O vinho ela aceita. Também aceita a lagosta, fala lagostim. Mas precisa lembrar a estatística das criancinhas morrendo de fome no Nordeste, esse assunto de Nordeste às vezes exorbita. Não sei até quando a gente vai ter que carregar esse povo nas costas, horrível pensar isso mas agora já pensei e estou pensando ainda que se Deus não está lá é porque deve ter suas razões.
— Ah. Sou um monstro. Monstro. Queria tanto ser diferente, mas queria tanto.
E esta vocação para a mesquinharia. Ai meu São Francisco, minha Santa Teresa, son tan escuras de entender estas cosas interiores.
— Devolvo amanha — diz Lião guardando o lenço na sacola. Não vai devolver, e lógico. E nem eu aceitaria, lenço é como escova de dentes, não se pode emprestar. Igualzinha a Ana Clara que até agora não aprendeu esta coisa tão simples: não se emprestam objetos pessoais.
— Lia, Lia! — chama Irmã Bula da janela do casarão.
A voz é de um gnomo da floresta saindo de dentro de um tronco de árvore. Quer gritar "telefone para você!" Leva a mão ao ouvido como se virasse uma manivela, nos telefones do seu tempo tinha que virar a manivela. Ou nasceu antes ainda? Deve ter uns duzentos anos.
Lião está com medo. Ana Clara também posa de indiferente mas se não toma tranqüilizante recomeça naquele delírio ambulatório. Com a maior sem-cerimônia do mundo abriu minha caixa de lenço-papel e levou mais da metade, anda com montes de folhas para se limpar depois do amor. O certo seria tomar um banho em seguida, é lógico, higiênico e poético correr nua até o chuveiro. No campo, correr debaixo da cascata, chuáaaaaa!... Mas fazer a toalete como uma doméstica apressada. Certos gestos e palavras de Ana Clara, coitadinha. Tudo está nos detalhes: as origens, a fé, a alegria. Deus. Principalmente as origens. "Lá sei das minhas, me disse quando ficou de fogo. Nem quero saber." A margaridinha aí embaixo pode dizer a mesma coisa, nada sei da minha raiz. Mas e a gente? Nem pai nem mãe. Nem ao menos um primo. Não tem ninguém. Pelo visto, a Bahia inteira deve ser da parentela de Lião mas Ana Clara é o avesso do quadro familiar. Nem uma tiazinha para lhe ensinar que tudo que se faz antes e depois do amor deve ser harmonioso. É antiestético masturbar-se? Não propriamente antiestético mas triste. No tempo em que Lião fazia milhares de pesquisas, fez uma entre as meninas da Faculdade, quantas se masturbavam? Incrível o resultado entre as virgens. Incrível. "Estamos saindo da Idade Média — disse ela examinando a pupilada. — Heranças das nossas mães e avós, entende. Somadas nos hábitos da adolescência, dá essa porcentagem alarmante. Você também se masturba?" — perguntou cravando em mim o olho negro da inquisição.
Duas abelhinhas louras, dessas que só fazem mel e amor, pousaram no meu pé, primeiro uma e depois a outra. Afasto as brandamente, o gesto tem que ser brando para que não se sintam rejeitadas, viu, M.N.? Se você não me quiser, é assim que deve fazer comigo, vai, minha abelhinha, vai. Antes de voar, a maiorzinha delas esfregou as duas patinhas dianteiras, como quando se lavam as mãos e em seguida esfregou uma das patas até a extremidade do abdômen listrado de amarelo. Não deu Para ver onde exatamente a mão foi parar mas se Lião fosse pesquisar também entre as abelhas, tu quoque, bestiola?! Bestiola é inseto. E abelha? Enfim, ela perguntou e se não respondi com maior nitidez foi porque nunca podia bem alcançar aquela tarde lá atrás. Masturbação? Aquilo? Treze anos, lição de piano. O Camponês Alegre. Participei tanto da alegria que a banqueta oscilava Para a frente e para trás, o ritmo se acelerando, acelerando. A ânsia no peito, o sexo pisoteando a almofada com a mesma veemência das mãos martelando o teclado sem vacilação, sem erro. Nunca toquei tão bem como naquela tarde, o que hoje me parece complacente extraordinário. Desci da banqueta como de um cavalo. Na hora do jantar, mãezinha me beijou toda comovida: "Ouvi seu piano enquanto mexia a goiabada, você tocou divinamente." Então fiquei sorrindo para o prato: meu primeiro segredo. Rômulo atirou em mim uma bolota de miolo de pão e Remo enfiou um besouro no meu cabelo mas quando fomos para a varanda, me senti luminosa como uma estrela. E se Rômulo não viesse me assustar com um lençol, poderia ter permanecido mais de dois minutos em levitação. A segunda vez também foi na fazenda, enquanto tomava banho. Ainda por acaso. Entrei na banheira vazia, deitei-me no fundo e abri a torneira. O jorro quente caiu no meu peito com tamanha violência que escorreguei e ofereci a barriga. Da barriga já pisoteada o jato passou para o ventre e quando abri as pernas e ele me acertou em cheio, senti num susto a antiga exaltação artística mais forte embora dessa vez não tivesse o piano. Fechei os olhos quando Felipe cruzou e recruzou meu corpo com sua moto vermelha, Felipe, o do blusão preto e moto. Escondi nas mãos a cara querendo fugir e ao mesmo tempo colada ao fundo da banheira com a água subindo destemperada, já me cobria inteira, as borbulhas rebentando no meu queixo, por que não abri o ralo? Saciada e insaciada ela (ou eu) pedia mais, a boca. Penetrou-me encachoeirada, tapou-me o nariz, pronto, vou morrer! pensei num salto. Fugi aos pulos. Era o amor? Era a morte? Uma coisa só, respondi num verso. Nesse tempo escrevia versos.
A Gata aproximou-se da sacola que Lia deixara no meio da alameda. Cheirou o couro, desconfiada. Sentou-se meio de lado por causa da barriga. E ficou olhando para Lorena, encarapitada na janela do quarto. Esse quarto e o banheiro — disso Lorena estava certa — foram do motorista da família dona do casarão. Embaixo, a garagem do carro provavelmente antiquado. Em cima, senhor absoluto, o chofer desordeiro e sensual, amante da copeira que se chamava Neusa, nome escrito muitas vezes com o bastão de barba ou desodorante branco na parede caiada de azul. Dela, ficaram alguns grampos apontando por entre as gretas do assoalho. E o perfume de jasmim num frasco quebrado no ladrilho do banheiro. "Com uma pequena reforma, sua menina poderá ficar muito bem aqui" — disse Irmã Priscila com um otimismo que contagiou Lorena, agarrada ao braço da mãe que por sua vez segurava firme no de Mieux. Voltou para ele a cara perplexa, nessa época o consultava até para saber se devia ou não tomar uma aspirina. "Dê sua opinião, querido. Não vou gastar demais? Isto está um horror", queixou-se repugnada com o perfume de jasmim misturado ao cheiro de urina. Mieux piscou para Lorena. Ficava eufórico quando podia mostrar seu prestígio: "Vai ficar a coisa mais jóia do mundo, já estou com umas idéias. Quero este banheiro todo cor-de-rosa, é importante que ela se sinta num ninho quando se despir para o banho — disse ele atirando a ponta de cigarro no vaso rachado Bateu a porta atrás de si e cheirou o lenço: — Este quarto imagino amarelo bem claro, tenho o papel de parede, a cama dourada ali naquele canto. A estante e a mesa naquela parede. Neste espaço, o armário embutido. Ali, a minigeladeira e o barzinho, hem. Loreninha?" Apanhou no chão uma carta de baralho, era uma dama-de-espadas. Colocou-a de pé na frincha da porta. E como mãezinha ia na frente e Irmã Priscila se ocupava em fechar a janela, ele aproveitou e passou a mão na minha bunda.
— Aconteceu alguma coisa? — pergunto à Lião que voltou correndo.
Arfava. Chutou uma bola de jornal que a Gata estraçalhou.
— O chá que ofereceu ainda está valendo? Agora aceito essa taça. Mais um telefonema desses e entorto completamente.
Tiro depressa o pijama e visto a malha preta de bale. Ouço Lião subindo a escada, degrau por degrau. Na alegria, ela sobe em três saltos, coitadinha. O namorante preso, o ano estourado por faltas, a mesada estourada antes do tempo, mais da metade dá ao tal grupo. Ai meu Pai.
— Posso baixar isto? — pergunta ela indo reta na direção do toca-discos.
Baixou tanto que a voz de Jimi Hendrix virou voz de formiguinha debaixo da mesa. Acendo o fogareiro elétrico, faço mais dois movimentos para desenvolver o busto e abro na mesa a toalha. Pego as xícaras. Os pratos. Trago a cestinha de pão com a fita vermelha entrelaçada por entre a tessitura da palha, dando a volta toda até o encontro das pontas para o laço. Fico admirando a graça do estampado da toalha com suas grandes folhas de uma tonalidade verde-quente por entre as quais espia meio escondido o olho asiático de uma ou outra laranja. O prazer que encontro neste simples ritual de preparar o chá é quase tão intenso quanto o de ouvir música. Ou ler poesia. Ou tomar banho. Ou ou ou. Há tantas pequeninas coisas que me dão prazer, que morrerei de prazer quando chegar a coisa maior. Será mesmo maior, M.N.?
— Me mato se ele não telefonar — digo abrindo os braços e indo na ponta dos pés até a geladeira. — Tenho uvas e maçãs maravilhosas, querida.
Lia sentou-se no tapete e começou a roer um biscoito. Está sombria como um náufrago comendo o último biscoito da ilha. Catou os farelos que se entranharam nas pregas da saia, mas por que essa saia hoje? Apesar do popô de baiana exorbitar, acho que ainda fica melhor de jeans.
— Problemas, Lena. Problemas, ô! esqueça — disse tentando aplacar com as mãos a cabeleira crespa. Cravou em mim o olho objetivo: — Não deixe de pedir, ouviu?
Atiro-lhe uma maçã.
— Em sua honra botei na mesa uma toalha nova, não é linda?
— Diga que é você quem vai usar, entende.
— O quê.
— O carro, Lena, pára de sonhar, presta atenção, você vai pedir o carro à mãezinha!
Deito-me de costas e vou pedalando. Posso chegar a duzentas pedaladas.
— Este exercício é ótimo para engrossar as pernas, incrível como minhas pernas são finas. Você teria que pedalar ao contrário para afinar as suas — digo e seguro o riso.
Ela mordeu a maçã com tanta fúria que senti o reflexo no meu joelho que estalou.
— Depois do jantar, Lorena. Não esqueça, depois do jantar, está me ouvindo? Diga que é pra você.
Carro, carro. A máquina está varrendo a beleza da terra, ai meu Pai. E vamos entrar na Era do Aquário, quer dizer, domínio da técnica, mais máquinas. O trânsito aéreo, balões e jatinhos individuais, o céu preto de gente. Não quero nem saber, fico lendo meus poetas em cima de uma árvore, deve sobrar alguma.
— Comprei ontem uma edição linda de Tagore — digo me sentando no tapete. Junto as palmas das mãos no peito: — Velo ao longo das noites por aquele que me roubou o sono. Construiu as paredes daquele que derrubou as minhas. Passo a vida colhendo espinhos e semeando flores. Choro por beijar aquele que não me conhece mais.
Ela atirou-me um olhar baixo. Deu uma risadinha e falou de boca cheia.
— Não precisa fazer tanto, basta não querer roubar o homem da próxima, aprendeu, Madame Tagore?
— Mas ele não gosta mais dela, querida. Acabou o amor, acabou tudo. Só se pertencem nos papéis.
— Você acha pouco? Eu me ficho com isso mas precisa ver se ele também se ficha. E onde a novidade nesse poema? Tudo isso está na Bíblia, Lena. Você não lê a Bíblia? Pode procurar, está tudo lá.
Recomeço a pedalar com mais energia.
— Comprei Proust, não é fino? M.N. tem paixão por Proust. Vou ter que ler mas confesso que acho um pouco sobre o chato.
— Grrr!... Romance de grã-fino e grã-fino de antigamente é o fim. Nunca tive sacola pra isso — disse ela e tirou o cigarro da própria.
Vou correndo buscar um cinzeiro e na volta destapo a chaleirinha. A água está quase fervendo, não deixar nunca a água do chá ferver, o paizinho ensinou. Desligo o fogareiro e vou deixando cair o chá na água. Aspiro de olhos fechados o perfume enquanto ponho o cinzeiro debaixo de Lião que não sabe onde jogar os restos da maçã. Seguro o microfone invisível e me aproximo de joelhos. Ela prendeu o cigarro entre os dentes.
— Por obséquio, queria sua opinião sobre alguns problemas importantes da nossa comunidade — digo levantando mais o microfone. — Antes de mais nada, pode declinar seu nome?
— Lia de Melo Schultz.
— Profissão?
— Universitária. Ciências Sociais.
— E... pode-se saber sua atual situação naquela casa de ensino?
— Rodei este ano. Faltas. Tranquei a matrícula.
— Muito bem, muito bem. E o livro? Disseram-me que tem um livro quase pronto. Segundo a informação, trata-se de um romance, não?
— Rasguei tudo, entende — disse ela soprando a fumaça na minha cara. — O mar de livros inúteis já transbordou. Ora, ficção. Quem é que está se importando com isso.
Deixei o microfone. Rasgou? Não tinha vocação, coitadinha. Mas gostava tanto de escrever suas histórias naqueles cadernões de capa engordurada, para onde ia levava aqueles cadernos. A cidade cheirando a pêssego, imagine. Ofereço-lhe um cacho de uvas mas ela recusa. Não sei o que dizer agora. Tão lúcida quando fala mas quando escreve fica tão sentimental, oh, a lua, o lago.
— Sabe da novidade, Lião? Vai chegar uma poetisa do Amazonas, já pensou? Só pode ser índia. Vai ficar no seu quarto, querida.
Entrego-lhe a xícara de chá fumegante. Pede mais açúcar e fica mexendo o chá e me olhando.
— Por que no meu quarto? Você aqui nesta mansarda e ainda com banheiro, putz, índio gosta de banho. O quarto de Ana Clara também pode abrigar uma tribo.
— Não, lá não, imagine. A índia em estado natural, Ana Clara vai buleversar a coitadinha.
— Mas até janeiro ela já não está casada com o industrial? Guiando um Jaguar preto com almofadas vermelhas. Um diamante do tamanho de um pires no dedo.
— E um casaco de onça até a ponta do pé. Pooodre de chique! Reviro os olhos e imito Aninha quando respira o ar de femme fatale. Mas Lião continua sombria.
— Vai mal a Ana Turva. De manhã já está dopada. E faz dívidas feito doida, tem cobrador aos montes no portão. As freirinhas estão em pânico. E esse namorado dela, o traficante. . .
— O Max? Ele é traficante?
— Ora, então você não sabe — resmungou Lião arrancando um fiapo de unha do polegar. — E não é só bolinha e maconha, cansei de ver a marca das picadas. Devia ser internada imediatamente. O que também não vai adiantar no ponto em que chegou. Enfim, uma caca.
Abro as mãos no tapete. Examino minhas unhas.
— Divino-maravilhoso se o noivo milionário se casar com ela Empresto o oriehnid para a plástica na zona sul, ele só se casaria com uma virgem, ela tem que ficar virgem. Ai meu Pai!
— Você acredita que casamento rico vai resolver? — perguntou Lia. Teve um sorriso triste: — Devia se envergonhar de pensar assim, Lorena. E vai sair casamento? O moço então não está sabendo de toda essa curtição? Ao invés de ficar pensando num milagre do casamento você devia pensar num milagre de verdade, entende? Não sei explicar mas vocês, cristãos, têm uma mentalidade tão divertida.
Vou até a chaleira e encho novamente as xícaras. Paro no meio do caminho. Ele cantava drogado, essa voz meio rouca não é de drogado? Voz turbilhonada de quem pede socorro mas não quer ser socorrido.
— Ontem ela estava tão lúcida. Diz que Madre Alix ajuda, vai recomeçar com a análise. Quem sabe, hein, Lião?
— Você acha que nessa altura uma análise vai funcionar? Teria que ser um analista bossa São Sebastião, aquele das flechas, bonito e bom. Então ela se apaixonava por ele e se salvava pelo amor, como nas revistinhas que adora ler. E mais o Jaguar e o tal casaco.
Lorena me entrega a xícara com seus fagueiros desenhos de pássaros e florinhas. A toalha de linho combina com a xícara, uma toalha com uma exuberante estamparia tropical. As poltroninhas claras. Os objetos raros.
— Tudo aqui é muito fagueiro, muito bonito. Você ainda é rica, Lorena?
Ela ficou séria. Relaxou o exercício:
— A tal agência de publicidade de Mieux deu em nada. Com a loja de decoração, mãezinha gastou à beça. E continua gastando, uma sede de novidades. Parecem aqueles milionários americanos na Europa dos anos vinte, sabe como é?
— Sei lá. Eu perguntei se você tem dinheiro
— Defendo minha parte. Por quê? Está precisando, Lião? Despejo mais chá na xícara. Um chá danado de bom. Pulo Lorena que parou de pedalar e agora faz exercício respiratório, já me explicou que tem a respiração solar e a respiração lunar.
— Acho que vou precisar, Lena. Para umas operações bem diferentes das de Ana Turva.
— Ai meu Pai. Morro de pena dela.
Morre de pena de todo mundo. Vai ver, morreu também de pena de mim quando disse que rasguei tudo. Não é uma forma de esconder seu sentimento de superioridade? Ter pena dos outros não é se sentir superior a esses outros? Rasguei o romance, eu disse. E ela ficou quieta. Bebo o chá morno. Uma boa menina. Ana Clara também é uma boa menina, eu também sou uma boa menina.
— Como vai a coleção? — pergunto examinando os sinos arrumadinhos na prateleira.
— Meu irmão Remo prometeu um dos beduínos lá da Tunísia, ele agora está em Túnis, mora numa casa linda em Cartago, já pensou? Cartago ainda existe, Lião. Delenda, delenda! Mas ainda existe.
Outro dia me pediu toda excitada pra ir a uma das reuniões do grupo essa Lorena que está aí tocando seus sininhos, tlim-tlim, tlem-tlem, tlom-tlom. Pensa que nossas reuniões são daquele estilo dos festivais de contestação: iria com essa malha, botas e um cachecol vermelho pra quebrar o pretume. Os intelectuais com seus filminhos do Vietcong. Há tanta fome e tanto sangue na tela de lençol. Tão terrível ver tanta morte, putz. Como pode, meu Deus, como pode? Revolta e náusea. "Náusea sartriana", murmura uma convidada bisonha. Que se cala quanto sente no escuro os olhares gelados na sua direção. Silêncio novamente, só o zunido exasperante do projetor, a curtição é longa, tem filme à beça esperando nas latinhas. As luzes se acendem mas as caras demoram pra acender, que horror. Uísque e patê pra aliviar o ambiente. Considerações sobre prováveis nomes nas próximas listas. Voltam os filminhos de respectivas latas enquanto aos poucos voltam todos às respectivas casas. Os que não têm carro pedem carona nos carros disponíveis, que vão pro mesmo lado. São bem humorados os intelectuais. Até piadas. Mas, justiça seja feita, estão vigilantes. Sobretudo enturmados, pudera, se reunindo como se reúnem. Sabem que você foi preso e torturado, menino corajoso esse Miguel, é preciso ter coragem, bravo, bravo. Sabem que a Silvinha da Flauta foi estuprada com uma espiga de milho, o tira soube do episódio do romance, alguém contou e ele achou genial. "Milho cru ou cozido?" perguntou o outro e ele deu pormenores: "Milho esturricado, aqueles grãos espinhudos!" Os intelectuais estão comovidos demais pra falar, só ficam sacudindo a cabeça e bebendo. A sorte é que o uísque não é nacional. Um ou outro mais fanático se irrita com o tom dos encontros, afinal, não reuniu só pro queijo e vinho quando as notícias são as piores possíveis: Eurico continua sumido, foi preso assim que desembarcou e até agora ninguém sabe dele. Desapareceu como personagem de ficção científica, quando o homem metálico emite o raio e o tipo se dissolve com revólver e tudo e fica no lugar uma manchinha de gordura. O Japona deixou uma maleta na casa do irmão, avisou que ia buscar no dia seguinte.
— Este é grego, Lião. Veja que som divino.
Contei que rasguei meu livro e foi como se dissesse que rasguei o jornal. Não gosta do que eu escrevo. Ninguém gesta, deve ser uma bela merda. Mas as pessoas sabem o que é bom? O que é ruim? Quem é que sabe? E se for válido? Não devia ter rasgado coisa nenhuma. Mas sei de cor, posso aproveitar o texto talvez num diário. Gostaria de escrever um diário. Estilo simples, direto. Dedicava a ele.
— Perfeito. Perfeito — repetiu e apanhou a sacola. — Não vá esquecer, Lena. O carro.
Lia de Melo Schultz, se você falar nisso mais uma vez, me mato. Olha, fique com este sininho, bota no pescoço. Quando a gente se perder", você faz blem-blem e já sei onde está, todo mundo devia andar com um sininho, como as cabras.
Brandamente Lia sacudiu o pequeno sino de bronze. Sorriu para a amiga enquanto procurava tirar do pescoço o cordão preto. Baixou o olhar úmido:
— Fica junto com este orixá, presente da minha mãe. Preciso escrever comprido pra mãe. Outra carta pro pai, eles são opostos. Ao mesmo tempo, iguais. Quando não mando notícia, cada qual vai chorar no seu canto, um escondido do outro.
Queriam tanto ver a filha recebendo o diploma. Noivando. Noivado na sala e casamento na igreja, com vestido de abajur. Arroz na despedida. Os netos se multiplicando, embolados na mesma casa, casa enorme, tinha tanto quarto, não tinha? "Aqui também chegou a praga dos apartamentos, escreveu o pai na última carta. Nosso bairro está sendo invadido mas resistiremos. Quando você chegar e encontrar uma única casa em toda a cidade, pode entrar que é a nossa."
— Se meu amado telefonar você vem jantar com a gente?
Lia fica me olhando. Está pensando em quê, Lião? Faz um agrado na minha cabeça e vai saindo com ar de quem carrega nos ombros o peso do mundo. Subo o volume da vitrola. Get out of here, ele grita já rouco. Espio pela janela. Desceu a escada nos seus três saltos e agora está exatamente no lugar onde esteve antes de subir. Hesita ainda como se tivesse esquecido de dizer algo importante, não lembra? Abriu a sacola, espiou dentro. Roeu sem maior interesse a unha do dedinho e apanhou um pedregulho. Atirou-o para o alto.
— É o carro, querida? Fique tranqüila, sabe que mãezinha já me deu um? Nem fui buscar o cheque, já pensou? Você fica com uma chave, detesto guiar, ih, as caras que as pessoas fazem quando guio.
Ela está concentrada inteira num ponto atrás de mim e que se distancia e se perde como a pedra que atirou no ar. Faço caretas, sei fazer caretas ótimas, nem Remo nem Rômulo sabiam fazer caretas como eu mas Lião só se interessa pelo pontinho lá longe e que parece ter voltado e caído dentro dela. A cara se buleveram como a superfície de um poço quando a pedra afunda.
— Não estacione no portão, pare na esquina. Se sair, deixe a chave na estante. Aí numa dessas suas caixinhas.
— Naquela de prata em forma de trevo, querida.
Sabe que eu sei que anda num imbróglio dos demônios mas sabe também que respeito seu segredo. A pedra repousa no fundo das águas complacente. Requiescat in pace. Faço sinal para que ela se aproxime mais:
— Quem é que tinha um hímen complacente?
Ela agora ri como nos bons tempos ria. Franziu a cara batida de sol.
— Resolva logo, Lena.
— Mas não é o que estou querendo? — pergunto e lá no escuro me respondo, acho que não estou querendo não. A alegria que me dá a idéia de ver em torno a promiscuidade dos sexos se dando sem amor, por aflição, desespero. E o meu. Virgo et intacta. Abro os braços. Que dia maravilhoso.
— Se Ana Clara aparecer diga que preciso daquele dinheiro que emprestei.
— Oriehnid, Lião, oriehnid! — grito e levanto o braço direito, o punho fechado na saudação antifascista.
Ela prende o cigarro nos dentes, fecha a mão e torce a munheca.
— Banana, Lião? Isso é uma banana?
Afasta-se a passos largos e, pelo jeito de balançar a cabeça, imagino que está sorrindo. Atravessa o jardim como um soldado em dia de desfile, a mochila ao lado, as meias desabando, podem desabar! toque-toque toque-toque. Abriu o portão com um gesto desabrido, heróico, gesto de quem assume não o seu caminho, prosaico demais, imagine, mas o próprio destino. Antes mesmo de chegar à esquina as meias já desabaram completamente. Ai meu Pai. E justo a mãezinha fornecendo condução para o aparelho, Pode ter um daqueles ataques se souber.



dois



— Coelha! Ei, Coelha, você está dormindo? — perguntou ele. Sacudiu-a pelos ombros. — Que é que você tem que não se mexe. Ana Clara esforçou-se por abrir mais os olhos. Em torno do olho esquerdo desenhara-se uma orla de carvão na medida do aro negro de um soco. Esfregou os olhos com os nós dos dedos e o delineador de pálpebras marcou também o outro olho. Voltou-se sono lenta para a fumaça espessa que o abajur projetava no cone de luz. Beijou o ombro nu do jovem, disfarçando o bocejo numa mordida.
— Estou quase desmaiando, amor. Tão bom, Max.
— Então por que está assim gelada? Ahn? Parece que estou trepando num pingüim, você já viu um pingüim?
Ela enrolou e desenrolou no dedo um anel de cabelo.
— É que hoje não estou brilhante.
— Queria que me dissesse o dia em que esta brilhante — resmungou ele sentando-se na cama.
— Max, eu te amo. Eu te amo.
Ele coçou a cabeça com as mãos em garra. Cocou o peito reluzente de suor. Voltou a coçar a cabeça.
— Mas não gosta de fazer amor, Coelha. É importante fazer amor, ahn?
— Ando meio travada. Preciso falar com meu analista, fiz uma puta confusão com essa análise.
— Diga que você se contrai no amor feito ostra quando se pinga limão nela. Ih, vontade de comer umas ostras com vinho branco bem gelado — disse ele estirando os braços.
— Tenho nojo de ostra, não posso nem ver. Uma droga de bicho.
Ele procurou no chão as calças amontoadas ao lado da poltrona. Tirou do bolso o maço de cigarros e sacudiu-o fazendo cair na palma da mão um pequeno embrulho de papel de seda.
— Uma dose adamada pra Coelha e outra pra mim, ahn? Com isto engrena.
Ela puxou o lençol até o pescoço. "Engrena nada. Se ao menos engrenasse mesmo e eu subisse pelas paredes de tanto engrenar e a cabeça deixasse roque-roque de pensar só coisas chatas. Mas por que minha cabeça tem que ser minha inimiga pomba. Só penso pensamento que me faz sofrer. Por que esta droga de cabeça tem tanto ódio de mim? Isso nenhum analista me explicou isso da cabeça. Só de porre me deixa em paz essa sacana. E aquele besta me esperando enquanto descasca seu pãozinho descasca o pãozinho com a unha até ficar só o miolo feito rato. É minha cabeça que ele descasca roque-roque. Bastardo."
— Hoje não posso demorar muito, amor — digo.
Ele apanha no chão os copos vazios, pisca um olho e vai para a cozinha levando os copos e o balde gelo. Abriu a geladeira. Abraço o travesseiro. Dormir dormir. Dormir até rachar de dormir sem nenhum sonho que sonho só serve pra encher o saco. Tem uns bons. Aqueles. Por que nunca posso dormir o quanto quero? Por que tem sempre alguém me cutucando vamos fazer um amorzinho vamos fazer um amorzinho? Mas que amorzinho que nada.
Max eu te amo. Eu te amo mas não sinto nada nem com você nem com ninguém. Faz tempo que já não sinto nada. Travada. Tinha outra palavra que ele gostava de dizer qual era mesmo? Esse Hachibe. Como vou sentir prazer com aquele escamoso se com este daqui que eu amo? Já está lá sentadinho com o pãozinho na mão tem sempre um me cutucando pra fazer amor e outro me esperando em alguma mesa. Vou da cama pra mesa e da mesa pra cama. Bloqueada agora lembro bloqueada. "É só comigo que você é assim fria?" ele perguntou. Aquele escamoso. Anão pretensioso. É que sou virgem meu bem. Me desculpe mas sou virgem e virgem não pode vibrar como. Ele então me olhou com aquele olho indecente e riu. Tudo pivô pomba. Pensa que só eu. Também ele com dinheiro e tudo entrou bem em matéria de dente. Infância pobre ombro pobre cabelo pobre. Tenho um metro e setenta e sete. Sou modelo. Uma beleza de modelo. O que mais você quer? Bastardo. Se esta cabeça me desse uma folga pomba. Queria ter uma abóbora em lugar da cabeça mas uma abóbora bem grande e amarelona. Contente. Semente torrada com sal é bom pra lombriga ainda tenho o gosto e também daquele remédio nojento. Não quero a semente mãe quero a história. Então à meia-noite a princesa virava abóbora. Quem me contou isso? Você não mãe que você não contava história contava dinheiro. A carinha tão sem dinheiro contando o dinheiro que nunca dava pra nada. "Não dá" — ela dizia. Nunca dava porque era uma tonta que não cobrava de ninguém. Não dá não dá ela repetia mostrando o dinheirinho que não dava embolado na mão. Mas dar mesmo até que ela deu bastante. Pra meu gosto até que ela deu demais. Uma corja de piolhentos pedindo e ela dando. O mais importante foi o Doutor Algodãozinho.
— Max, você está aí? Sabe como se chamava meu dentista? Doutor Algodãozinho.
Max despejou uísque no copo. Sacudiu-o e o depósito de poeira esbranquiçada ameaçou subir.
Algodãozinho? Doutor Algodãozinho?
Aperta o copo na mão. Quando Lorena sacode a bola de vidro a neve sobe tão leve. Rodopia flutuante e depois vem caindo no telhado na cerca e na menininha de capuz vermelho. Então ela sacode de novo. "Assim tenho neve o ano inteiro." Mas por que neve o ano inteiro? Onde é que tem neve aqui? Acha lindo neve. Uma enjoada. Trinco a pedra de gelo nos dentes.
— Às vezes dorme com o Pato Donald. Fica apertando a barriga dele, coem, coem. Enjoada.
Com a ponta da língua empurro o pedaço de gelo até o céu da boca. Na realidade o céu é lá em cima sem nenhuma dor. O inferno começa em seguida com as raízes. Tanta raiz se entrelaçando umas nas outras. Solidárias.
— Ele vivia trocando o algodão dos buracos dos dentes, passava semana, mês, ano e ele vinha com aquele algodãozinho na pinça, ficou sendo o Doutor Algodãozinho.
— Mas você tem bons dentes, ahn? Não tem, Coelha? Meu lindo. Meu inocente amor.
— Tenho.
— Então o Doutor Algodãozinho era bom.
Era. Era ótimo. Mudava o algodãozinho enquanto o buraco ia aumentando. Aumentando. Cresci naquela cadeira com os dentes apodrecendo e ele esperando apodrecer bastante e eu crescer mais pra então fazer a ponte. Uma ponte pra mãe e outra pra filha. Bastardo. Sacana. As duas pontes caindo na ordem de entrada em cena. Primeiro da mãe que se deitou com ele em primeiro lugar e depois. Fui passando pela ponte a ponte estremeceu água tem veneno maninha quem bebeu morreu. Quem bebeu morreu. Ela cantava pra me fazer dormir mas tão apressada que eu fingia que dormia pra ela poder ir embora duma vez. No cinema tinha sempre uma mãe cantando romântica prós filhinhos abraçados nos bichinhos de pelúcia. Avó também costuma contar histórias mas por onde andava minha avó era uma coisa que eu gostaria de saber. Queria ter uma avó como Madre Alix. Ter uma avó como Madre Alix é ter um reino.
— Freira pode ser avó, amor? Responde, pode?
Ele está de costas escolhendo os discos. Podre de lindo assim nu. Pomba tenho vontade de chorar de amor porque ele é lindo. Um sol. Acho que primeiro me apaixonei pelos dentes os dentes são perfeitos não pode haver uma boca mais perfeita. Te amo Max. Te amo mas em janeiro meu boneco. Em janeiro vida nova. Tirar o pé da lama. Você já foi rico agora é minha vez não posso? Ano que vem stop. Um escamoso mas podre de rico. Então.
— Este é o meu corpo — disse ele levantando o disco bem alto. Beijou-o. — Este é o meu sangue.
— Tenho ódio de Deus — digo virando a cara.
De Deus ou dessa música? Dessa música. Tenho ódio dessa música ódio ódio. Lorena também tem mania. Uns negros berrando o dia inteiro um berreiro desgraçado. Tenho ódio de negro. Mas Doutor Algodãozinho era branco. Olho azul o sacana. Esse era o apelido mas e o nome? Doutor Hachibe disse que a gente expulsa tudo que foi ruim e se for assim esse maldito nome não vou lembrar nunca. Mas lembro o apelido. Que é que adianta apagar o nome se ficou o roque-roque das ratazanas gordas lá da construção dia e noite roque-roque no escuro. "Mas esses futos não deixam a gente formir?" — gritava o Téo que era desdentado e trocava as letras pelo f. Mas dormia. A mãe também dormia. Até que dormia bem aquela lá. Mas eu ficava acordada pensando roque-roque. A sala de espera com a negra de lenço amarrado na cara inchada. A cestinha de flores artificiais cobertas de poeira. A negra e eu éramos as clientes mais assíduas com nosso cheiro de Cera Doutor Lustosa quando doía demais a gente tirava o algodãozinho e enchia o buraco com a cera que espalhava na boca inteira aquele cheiro que era cheiro do céu. Dona Inês falava tanto em céu céu. Só experimentei no instante em que o nervo deixou de me fisgar e dormiu completamente encerado. Então eu dormi junto. O cheiro dessa cera misturado ao cheiro de creolina são os dois cheiros fortes que me empurram até a infância a cera queimando no dente e a creolina que vinha da lata branca onde o Doutor Algodãozinho ia jogando os algodões usados. Outro cheiro que ficou fazendo parte dos cheiros é o de mijo. Mijo mesmo e não pipi ouviu Lorena? Cheiro de pipi até que fica perfumado quando é dito por você que abotoa a boquinha perfumada com pastilhas de hortelã Sen-Sen. "Refresca tanto o hálito" — ela me disse com o hálito refrescado. Masco meu chiclé para disfarçar o meu chiclé é mais forte mais fácil ah sim eu sei que não é fino. O fino é o Sen-Sen. Não é por acaso que você tem sempre alguns sutilmente se diluindo na boca. Então o pipi fica cheirando a Sen-Sen mas aquele da construção era cheiro de mijo. Outro que devia usar essas pastilhinhas era o Doutor Algodãozinho que cheirava a cerveja choca. Até hoje não posso nem ver cerveja porque ele me atendia depois do jantar hora dos clientes mais miseráveis e no jantar naturalmente emborcava sua meia garrafinha. Filho-da-puta.
— Queria botar a broca no dente dele zzzzzz e varar o dente assim bem no fundo zzzzzzzzzzzz e varar a carne e varar o osso zzzzzzzzzzzzzzzz.
— Me abraça, Coelha, estou com frio, me abraça depressa que de repente ficou o Pólo Norte com urso e tudo, não quero o abraço dele, quero o seu! Coelha, que gostoso ficar assim com você bem queridinha, tenho vontade de chorar de tão bom. Ouça essa música, ouça.
Então ele disse que precisava arrancar os quatro dentinhos da frente porque estavam perdidos que é que adiantava ficar com aqueles dentinhos perdidos? Comecei a chorar e ele me consolava alisando o guardanapo que prendeu no meu pescoço com a correntinha o melhor era botar ali uma ponte que ninguém ia notar porque ia fazer uma ponte na perfeição como fez a ponte de minha mãe e ia fazer a do Téo. Enxuguei as lágrimas no guardanapo sentindo na nuca o frio da correntinha que me beliscava a pele não era uma correntinha igual a sua Max. Ou igual a de Lorena com seu coraçãozinho de ouro. Aquela era escura e prendia um guardanapo que tinha uma mancha de sangue numa das pontas. O sangue endurecido. O fecho machucava meu pescoço principalmente depois que ele começou a alisar o guardanapo com mais força enquanto repetia a beleza que a ponte ia ficar. Mais perto o cheiro de cerveja e mais perto o olhinho azul como conta por detrás do vidro sujo dos óculos. A mão gelada e fala quente mais rápida mais rápida a ponte. A ponte. Fechei a boca mas ficou aberta a memória do olfato. A memória tem um olfato memorável. Minha infância é inteira feita de cheiros. O cheiro frio do cimento da construção mais o cheiro de enterro morno daquela floricultura onde trabalhei enfiando arame no rabo das flores até chegar à corola porque as flores quebradas tinham que ficar de cabeça levantada na cesta ou na coroa. O vômito das bebedeiras daqueles homens e o suor e as privadas mais o cheiro do Doutor Algodãozinho. Somados pomba. Aprendi milhões com esses cheiros mais a raiva tanta raiva tudo era difícil só ela fácil. Cabecinha de enfeite. Comigo vai ser diferente. Di-ferente repetia com os ratos que roque-roque roíam meu sono naquela construção embaratada di-ferente di-ferente repeti enquanto a mão arrebentava o botão da minha blusa. Onde será que foi parar meu botão eu disse e de repente ficou tão importante aquele botão que saltou quando a mão procurava mais embaixo por que os seios já não interessavam mais. Por que os seios já não interessavam mais por quê? O botão eu repeti cravando as unhas no plástico da cadeira e fechando os olhos pra não ver o cilindro de luz fria do teto piscando numa das extremidades e o botão? Não não é o botão que eu quero é a ponte a ponte. A ponte me levaria pra longe da minha mãe e dos homens baratas tijolos longe longe. Posso rir de novo e me emprego de dia e estudo num curso noturno fico manicure porque de repente vinha um homem e se apaixonava por mim enquanto eu fazia as unhas dele. As unhas arrebentando o elástico da minha calça e arrebentando a calça e enfiando o dedo de barata-aranha pelos buracos todos que ia encontrando tinha tantos lá na construção lembra? As baratas cascudas eram pretas e se agachavam como a gente se agacha pra passar pelo vão. Inteligentes essas baratas mas eu era mais inteligente ainda e como conhecia seus truques foi fácil agarrar a mãe delas pelas asas e abrir a panela e jogar ela lá dentro. Tome agora sua sopa com a baratona eu disse chorando de medo enquanto ele sacudia minha mãe pelos cabelos e ia me sacudir também bêbado de não poder parar de pé. Estou com fome gritava quebrando minha mãe e os móveis porque o imitar não estava pronto e o que aquelas vagabundas de mãe e Filha estavam pensando da vida. Lugar de puta é na rua ele gritava É na rua e não no quarto que o engenheiro tinha dado só pra ele A barata abriu as asas e começou a nadar firme em cima do fubá com a folha de couve. A sopa soltava bolhas de tão quente e até hoje não sei mesmo como ela conseguiu nadar o nado de peito num estilo tão olímpico vupt vupt vupt e já ia saindo da panela com as asas pingando gordura quando a empurrei de novo pro fundo. Agarrou-se na colher e ainda uma vez voltou à tona e juntou as patas e pedi pelo amor de Deus que não não. Por que está gritando assim minha menininha. Não grita que não pode estar doendo tanto só mais um pouquinho de paciência quieta. Quieta. A sopa está pronta! gritei e o motor da broca ligado pra disfarçar o grito porque a preta do lenço já batia na porta nem vi a cara mas adivinhei que era ela. Pronto. Pronto pensei chorando de alegria. Agora vai me soltar porque a preta conhecia a mulher dele e ele tinha medo da mulher. Vai me soltar porque a sopa está pronta com a baratona inchada debaixo da folha de couve. Mas ele arrumou o cabelo na testa e abrindo a porta falou muito calmo que não podia atender porque o tratamento da menina era demais demorado e ainda por cima dolorido ela não tinha escutado um grito? Viesse de manhã que hoje não podia mesmo atender. Compreendia ah sim compreendia muito bem o quanto ela estava sofrendo porque essa infecção dói pra cachorro mas hoje era impossível. Levasse alguns comprimidos olha aqui leva este punhado de presente e tome dois agora. Se a dor continuar mais dois e depois mais dois e assim por diante. Ouvi o fecho da bolsa se abrindo pra guardar o punhado de envelopes que ele tirou do armário de vidro. Ouvi o passo dela ir se afastando. O portão se abrindo. Quis ouvir seu andar na rua e só ouvi o passo dele por detrás da cadeira. Usava sapatos de borracha e a borracha grudava e estalava no oleado do chão como se tivesse cola. Baixou a cadeira. A correntinha que prendia o guardanapo me beliscou o pescoço. A mancha de sangue endurecido numa das pontas do guardanapo. Quietinha. Quietinha ele foi repetindo como fazia durante o tratamento. Você vai ganhar uma ponte. Não quer ganhar a ponte?
— Depressa, Max, quero beber — pediu ela fechando as mãos.
— Onde está seu copo? Ahn? Mas que é isso, não precisa chorar, por que você está chorando? Não chora, amor, senão choro junto.
Ela enxugou a cara no lençol. Abraçou-o e rolaram enlaçados como um só corpo por entre as cobertas. O copo rolou e tombou quase silencioso no tapete.
— Uma depressão — disse ela descolando-se dele. Apoiou-se nos cotovelos para beber. — E o Doutor Hachibe? Sacana.
Não era oriehnid que ele queria. Era dinheiro mesmo. Bastardo. Análise de grupo. Imagine se vou me abrir com esses piolhentos — pensou enrolando no dedo um anel de cabelo. — Ou se queixam o tempo todo das trepadas ou curtem aquelas dúvidas fico veado? Não fico? Ora dane-se. Quem é que está se importando?"
Encolheu-se. Fechou as mãos e escondeu-as no peito. Muito fácil atribuir tudo à infância tinha ombros largos essa daí. "Que merda o Doutor Batista ter viajado e aparecer aquele doido de pedra pior do que eu. Como se chamava aquele feto? Cara de feto. Nome comprido mas perna curta. A perna e o resto. Porcaria de homem. Piorei com ele pomba. Sujeito mais doido."
— Não cobrava mas como podia cobrar? — perguntou ela massageando a própria nuca. — Me tratei depois com um velho podre de velho que falava o tempo todo na mulher que estava com câncer e ia morrer. E eu com isso? Ia lá pra relaxar um pouco e ficava ouvindo a história do velho apaixonado pela mulher que ia morrer de câncer. Tinha pena mas também ficava puta da vida porque cobrar isso ele cobrava. Infância. Na realidade tudo se simplifica quando se descobre lá longe uma tia querendo enfiar o dedo no olho da gente. Em mim enfiaram em outro lugar mas não me manquei sozinha? Então. Ficaram todos no subsolo. Só eu.
Deitou-se de bruços. Estava tomando coisas, certo. Mas quem podia se agüentar de pé sem viagem e sem analista.
— Quem? — perguntou olhando fixamente o travesseiro. Aquelas flores lá de cabo quebrado. Elas não precisavam de morrer. Então. Duro sustentar. Vergando de chateação. Mas no ano que vem, meu boneco, vida nova. Está me ouvindo, amor? Vida Nova.
Com dinheiro e casada não precisaria mais de nenhuma ajuda. Nenhum problema mais à vista. Livre. Destrancaria a matrícula, faria um curso brilhante. Os livros que teria que ler. As descobertas sobre si mesma. Sobre os outros.
— Mesmo essas coisas que a gente. Me enriqueci com a experiência, não enriqueci? Intelectual burguesa. Podre de chique. E aquela terrorista subdesenvolvida ainda. Papo furado, minha boneca. Liberdade é segurança. Se me sinto segura, sou livre.
Bebeu no copo de Max que dormia com uma expressão afável, a mão erguida num gesto de quem convidava algum visitante para se aproximar. Com um saco de ouro se curaria fácil. Ou não? E mesmo que curtisse uma ou outra crise, que importância tinha se era dentro de um Jaguar. O duro era se desbundar num ônibus. E Lorena dizendo que era uma escritora menor a francesa que escreveu isso. "Mas por que menor? Menor nada. Não pode ser menor quem descobre uma coisa dessas pomba. Nenhuma originalidade. Concordo. Mas é como a história do ovo que ninguém conseguiu botar de pé muito fácil muito fácil mas ninguém pensou só depois que o Galileu. Foi Galileu?"
Sacudiu o companheiro:
— Responde, Max! Não é melhor curtir num carro de luxo do que num ônibus via marginal? Os marginais dentro matando a gente a coronhadas.
"Então. Em dezembro me costuro e em janeiro. Valdo faz o vestido. Quero branco. Estilo medieval. Pérolas um fio de pérolas brancas. Enormes."
— Max, que horas são? Seu relógio? Onde está seu relógio?
— Comprei um suíço que tem até cineminha. Aperto um botão e sai o horóscopo, aperto outro e sai o aviso do banco e do dia em que vou ser corneado, bacana, ahn? Que relógio! As viagens, Coelha. O botão vermelho é dose de cinco horas, o azul dá uma viagem de um dia com direito a baldeação, desço e continuo noutro trem. E o botão preto, ai, esse botãozinho. Que medo! A piruleta branca já vem de tarja preta no braço, vem de luto a marota — disse e riu se sacudindo frouxamente.
— Pra quem você vendeu, responde, Max!
— Pro vovozinho.
Dou-lhe murros no peito mas ele me morde o pescoço. O pescoço não! quero pedir mas estou rindo tanto que não consigo falar a única coisa que posso fazer é tapar sua boca e ele me morde a mão. A mão pode não pode é o pescoço que o pescoço o escamoso vê na hora que mancha é essa? Pergunta tudo quer saber tudo enquanto vai comendo a casquinha do pão nojento assim pelado. "Janto com a Nona e depois a gente pode cear no Zuza." Como se eu fosse vibrar com a idéia. Levar a noiva num inferninho desses. Por que não me convidou pra jantar com a Nona por quê? Bastardo. Sempre me esfregando a família na cara.
— Não tenho família — eu disse. — Morreram todos num desastre de aviação. Vôo internacional. Voltavam da Escócia onde foram passar o Natal com meus tios. Ah, seus tios moram na Escócia? Moravam. Morreram todos quando aquele monstro do lago se levantou uma noite e engoliu meus tios e primos com casa e tudo. Monstro escocês, a Loreninha sabe o nome dele, ela sabe tudo sobre esses monstros. Podre de chique ser engolido por um monstro ao lago escocês. Não sobrou ninguém ninguém ninguém — repito e bebo no copo que Max me estendeu. Bebo até o fim. — Até o amargo fim não foi uma fita? Onde vi esse nome?
— Queria comprar uma ilha, Coelha. Sabe que não é difícil comprar uma ilha? Ahn? Tem ilha por aí de dar com o pau.
E ele com essa família de encher um navio. Dane-se. Dane-se que o colete está se derretendo tinha um puto de um colete aqui me fechando o peito. Posso agora respirar viver. É bom viver pomba. Quem foi que disse que. Sou linda brilhante vou sair em dez capas Revistas importantérrimas. Sucesso. Deixa os piolhentos morrerem de inveja. A nhem nhem tem razão é preciso respirar o tempo todo e então seria ótimo. Podia me convidar o bastardo. A Nona com seu chinelinho de pelúcia Os netos doidos pra esnobar e ela. Podia me convidar. Não sou a noiva dele? Não tem importância o ano novo está perto. Stop.
Miolo de libélulas ao molho verde, ahn? Restaurante fabuloso aquele. Molho de luz de vaga-lume acendendo e apagando. Tium! Tium! Ahn?. . .
Viro maratona romana. Respeito, quero respeito. É o que madre Alix não compreende. Uma santa. Faço tudo o que a senhora mandar minha santa. Avó e santa. Bastante leite está certo bastante leite e aquele remédio e bato no peito nunca mais nunca mais. Amanhã a gente vê isso. Se a senhora me ama.
— Os santos são transparentes que nem água. Tinha uma porção de agüinhas coloridas lá nos tubinhos de vidro. Lá no laboratório de química. Eu limpava e vinha o judeu velhinho que gostava de mim e me dava o avental para vestir e deixava eu lidar com as agüinhas. Me explicava as coisas das cores azul vermelho verde. As agüinhas mudavam de cor. O cheiro. Tenho aqui o cheiro mas esse era um cheiro que eu gostava porque não tinha nada a ver com gente. Os vidrinhos mudando de cor que nem nós. Olha, amor, bebo e viro arco-íris azul, amarelo, ai! não me pega senão derramo. Eu sabia a música, como era?
— Me ensinou a dançar. A Madame Lamas. A mamãe queria que a gente dançasse porque mais isso e mais aquilo. Madame Lamas, isso mesmo, minha irmãzinha e eu aprendemos tudo. Divertido, ahn? O dia inteiro tinha festinhas, uma porrada de meninas e festinhas. Dançava feito louco, a Madame Lamas me ensinava, a Madame Lamas. Boas maneiras, ih que garotão, você precisava ver.
— Te amo, amor. Posso urrar de gozo mas não. Não tem importância, deixa.
— Eu vi numa vitrina de cristal. . . sobre um soberbo pedestal. . . Como é mesmo esse troço? Paixão por esse troço, fico histérico, olha aí, vai, canta, numa vitrina de cristal! Uma boneca encantadora. . .
Não compreende porque é santa. Na realidade fico limpa com ele aqui. Limpa de todas aquelas coisas limpa limpa. Está vendo que feliz que eu estou? Nem quando fazia aquela análise lá com o turco como era o nome dele? Não tem importância. Mentia tudo. Bem feito. Boa noite que a gente fala a verdade. Fala nada. Histórias sujas de dentes podres não quero não quero.
— Você é lindo, amor. O homem mais bonito que já vi.
— Eu sou belo — disse ele apoiando-se na cômoda. Vacilou. — Essa música, está ouvindo? Um anjo tocando, não posso ouvir que começo a chorar feito uma besta, meu olho já está aguado. . .
— Você é igual ao David de Michelangelo.
— Onde você viu o David de Michelangelo? Ahn? Onde — perguntou ele rindo. Apanhou a garrafa no chão. — Onde onde?
— Minha amiga, seu besta. Tem um pôster dele deste tamanho a Loreninha. Ela conhece a Europa inteira, não é só você, viu? Besta. fila é riquíssima. Você foi rico. Não é mais, chega. Não interessa. Acho que é Milão. O irmão dela, o diplomata. Acho que é lá.
Ele sacudiu o uísque com gelo. Bebeu e enxugou a barbicha na mão:
— A gente vai viajar, ahn? Ih, Coelha, a gente vai ganhar dinheiro de dar com o pau, está bem assim? Mamãe tinha paixão por viagem, quanto navio. Até no hotel a gente lia aqueles livros, sabe aqueles livros com mapa? Ahn? Uma porrada de mapas. Minha irmãzinha lá naquele colégio e então todo dia a gente viajava, aquela coisa de visita. — Sentou-se na cama. Sorriu: — Eu colecionava postais.
— A Lorena coleciona sinos. Nhem-nhem nhem-nhem. Sininhos.
— Mas meu piu-piu é maior do que o dele.
— De quem? Maior do que o piu-piu de quem?
— Do David! Não é da estátua que você? Ahn?
Ano que vem meu amor. Você já foi rico viu tudo. E eu. Aí é que está. Fico virgem pomba. Caso com o escamoso destranco a matrícula e faço meu curso. Brilhante. Nas férias viajo pra comprar coisas ele já disse que adora viajar aquele. Ah que coincidência porque eu também. Operação fácil Loreninha me empresa. Vai comigo. Generosa a Lena. Então. Sempre me tira das trancadas. E se eu estiver. Não, não Seria azar demais ih falei a palavra a gente, não pode falar essa merda de palavra só no avesso que pode, a Lena disse que no avesso da sorte. Começando pelo fim como fica isso. Espera, calma, tem o r tem o a. E a outra? Aquela outra. Ah não interessa, chega. Grávida nada. Estou é lúcida roque-roque. Cabeça podre de lúcida.
— Bebo e não acontece nada. Nada. Essa música de pé frio.
Ele estendeu a mão para a pilha de disco que pendeu perigosamente, alguns resvalando mansos para o chão.
— Um quarteto de cordas. Verdadeiros anjos, ahn? Quer este. Coelha? Vou botar este, fabuloso, Uma Certa Simpatia Pelo Diabo, ahn?
Berreiro desgraçado. Ora música de agressão. Estou cheia de agressão que pra meu gosto já fui demais. Agora quero agrados presentes. Um dia compro um caminhão só de presentes tudo bobagem esbordoar o dinheiro só com bobagem quero ficar boba. Uma louca aquela lá com as reivindicações. E vem ainda com. Deve me achar uma puta. E daí. Me forro de dinheiro faço meus cursos compro um laboratório que nem aquele. As agüinhas escorrendo e eu verde amarela azul ah vou me tingindo num mar. Um mar amor. Vou boiando e as línguas verdes dos peixes me lambendo os pés. Fico rindo porque as línguas verdes vão me lambendo as pernas não! grito me cobrindo porque a língua maior lambe meu ventre e me penetra tão quente ah amor. Te amo. Podre de feliz que nem.
— Podemos morar num troço assim besta como a Irlanda. Por que a Irlanda? A Irlanda, também não sei, ficou a Irlanda. Ahn? Vai entrar dinheiro.
Ela abriu os olhos e foi se voltando para o jovem. Ele fumava e sorria vagamente.
— Que horas são? Que horas são, Max?
— A gente não veio pra se aporrinhar. Jogar tudo, fabuloso. Uma ilha.
Ela tirou-lhe o cigarro da boca e ficou fumando. O mais curto ficaria chiquérrimo com a calça de veludo. Podia pagar em cinco vezes. Dez. Bastardo. Bicha. Não perdoava porque era bonita e tinha seios, "aplaca esse peito, aplaca esse peito!" — ele berrou na prova e toda gente se torceu de rir. Ódio, era ódio porque queria ter e não tinha. "Não interessa. O escamoso me dá um navio de casacos. Três fábricas. Vai querer. E daí? Me atocho de óleo Johnson e ele vai achar que não tem na cama. Posso também desfilar pro Marcil e ele me da o terninho preto ou. O Brando vai endoidar mas digo então me de o casaco."
— Depressa, Coelha! Me da sua boca.
Dou a boca dou tudo Mas, tensa roque-roque. E se estiver. Lena me paga a plástica mas não tem um saco de ouro tem? Preciso de oriehnid oriehnid oriehnid. A Madre disse que paga. Tirar dinheiro de uma santa e dar pro turco ora análise de grupo. Besouragens. No ano que vem recomeço. E posso pagar uma individual sim senhor. Pensando que queria me deitar. Turco pretensioso. "Sou casado e feliz no casamento. Minha mulher é uma gueixa." Gueixa gueixa. Vai ver é corneado as vinte e quatro horas. Bem feito. Também não ia adiantar porque a gente perde o respeito como aconteceu com aquele besta. Mais louco do que eu aquele lá. Podia me ajudar? Analista marca merda. Até filho. Vai ver estou de novo. É justo isso da gente não sentir prazer nenhum e ainda por cima. Que dia é hoje? Vinte e seis? Vinte e sete vinte e oito vinte e nove. . . Este mês tem trinta e um?
— Max, este mês tem trinta e um?
— Vem, Coelha. Quero sua boca.
Abro os braços. Ele desaba no meu peito. Te amo sim. E então. Ficar rica. Ficar rica. Você já foi a nhem-nhem já foi. Quero experimentar não posso? Lena disse que empresta é boazinha a Lena. Generosa. Se ofereceu para ir comigo e segurar minha mão. Quer virgem o escamoso. Já andou com tudo quanto é vagabunda mas na hora. Bastardo. Está certo. Se você faz mesmo questão eu sou a própria. E se pedir o oriehnid pra ele? Por que não. Noiva não tem intimidade pra pedir dinheiro ao noivo? Digo que é pra uma operação urgente e ele vai perguntar que operação é essa não tem no mundo um cara que faça mais perguntas. Vai perguntar e digo que vou operar as amídalas minhas amídalas estão podres meu apêndice está podre ah que depressão. E esse aí que não resolve.
— Estou com frio, Max, me cubra. Me cubra, amor — disse ela. Debateu-se fracamente sob o corpo do jovem. — Um frio.
Ele apalpou por entre as cobertas até encontrar a manta de lã Puxou-a, cobrindo-se até a cabeça. As pontas da franja chegavam aos ombros de Ana Clara. Fechou a abertura da barraca vacilando em corcoveios que se aceleraram até uma arremetida mais aguda Imobilizou-se no alto e baixou em convulsões até se desmantelar em pregas rasas. Veio de dentro um estertor fragmentado, quase um choro.
— Coelha, Coelha. Eu te amo. Ela afastou as franjas da coberta e voltou a face para a parede. Ficou enrolando no dedo um anel de cabelo. — Tão bom, amor.
— Vamos casar, Coelha? Vamos casar? Quero casar imediatamente, ahn? Vamos? Gostoso casar, vamos, Coelha? — Vamos. Vamos. Ele beijou repetidas vezes a boca de Ana Clara, ajeitou-lhe meigamente o cabelo em desordem e rolou sobre seu corpo como se rolasse sobre uma duna de areia. Estendeu-se de bruços, a cara afundada no travesseiro. Deixou pender o braço para fora. A mão tocou no tapete, pesquisando com a cautela de uma aranha, os dos dedos cegos esticados num movimento de antenas. Contornou o cinzeiro onde um toco queimava, retraiu-se e numa queda inspirada, caiu certeiro sobre o copo. Sacudiu-se esfregando a cara na fronha. Bebeu. O uísque escorreu-lhe pelo pescoço.
— Ih, Coelha, me molhei todo, me enxuga depressa que me molhei!
— Molhada estou eu. Que horas são?
— Só relógio. Parece a Mademoiselle Germaine atrás da gente com o reloginho de ouro, hora disto, hora daquilo, Maximiliano, tu es en retard! Tu es en retard!
— Você se deitou com ela?
— Era nossa governante, Coelha.
— E daí.
— Ela era pavorosa, só osso e sarda com aquele cabelo em pé sempre esvoaçando, olha, tudo assim — fez ele abrindo as mãos em leque no alto da cabeça. — O andarzinho igual ao relógio, tique-taque, tique-taque. O cabelo era assim, olha!
Ana Clara tinha o olhar fixo no teto. Alisava o ventre.
— Já vi, já vi. A governante de Lorena era inglesa. Nhem-nhem nhem-nhem. Disse que chegou a escrever melhor em inglês porque a governante que morava na fazenda. Parece um inseto. Acabou, não acabou? Aí é que está. Não acabou? Não tem mais fazenda nem governante nem nada. Acabou. Do resto do oriehnid o moço da mãezinha se incumbe. Bem feito.
— Dinheiro de dar com o pau. Descobri uma coisa, é fácil ou ter muito dinheiro ou não ter nada, ahn? Não é fabuloso? Huuuupi!
— Quando bota aqueles óculos fica um inseto de óculos. E nem precisa deles, enjoamento. Nnhem-nhem nhem-nhem. Você se lembra dela? Responde, Max, você se lembra? Aquela bem magrinha. As duas têm inveja de mim porque sou bonita, elegante. Capa de revista. Então. A nhem-nhem compra milhares de vestidos, a mãe manda malas de roupas. E daí. Não veste nenhum, anda só com aquelas calças e blusinhas de nnhem-nhem. Fala assim fininho, nhem-nhem-nhem. O irmão é diplomata. Manda milhares de coisas. Adianta? Pomba, se eu tivesse a metade daquele guarda-roupa. Chiquérrimo.
— É a comunista?
— Você está trocando tudo, comunista é a gorda bossa retirante. Essa é a magrinha, aquela meio cabeçuda. Sobre o inseto.
— Você está triste, Coelha? Fica contente, amor, fica contente. Eu queria tanto que as pessoas todas fossem mais contentes, é tão bom ficar contente. A gente vê na rua todo mundo tão triste, por que as pessoas estão tristes? Ahn? Queria tanto sair por aí alegrando as pessoas, olha, não fique triste, segura minha mão e vem comigo que te mostro o jardim da alegria com Deus lá dentro, vem. . .
— Acho que estou grávida, está me ouvindo? Grávida.
— Ahn?
Ela encostou a boca no ouvido dele:
— Grávida grávida grávida.
Ele arqueou as sobrancelhas inocentes. Metade do uísque que tinha no copo escorreu-lhe pelo peito. Pousou o copo no chão e inclinou-se sobre ela. Procurou-lhe as mãos debaixo do lençol, Estavam fortemente fechadas. Abriu-as devagar e beijou a palma de uma mão. Beijou a outra.
— Vamos ter esse filho, Coelha. Vamos deixar ele nascer. vamos ficar bem alegres e ele nasce alegre. . .
— Alegríssimo. Podiam ser gêmeos.
— Isso mesmo, gêmeos! A gente cria eles naquele carrinho duplo, ahn? Os dois passeando no carrinho duplo, a gente chama Mademoiselle e ela vem correndo, tique-taque tique-taque et alors mon petit choux? Se for menina vai se chamar Mecânica Celeste, não é lindo? Meu professor de Mecânica Celeste era. . . Onde foi que aprendi isso? Aprendi uma porrada de coisas mas agora esqueci, tique-taque tique-taque. . . Et alors?
Ana Clara sentou-se na cama, enlaçou as pernas e encostou o queixo nos joelhos. Os olhos verdes se apertaram em meio do aro sombrio. Voltou-se bruscamente para o jovem que tentava acender o cigarro. Sacudiu-o. Os palitos da caixa espalharam-se no peito dele.
— Você tinha que ficar assim duro? Tinha? Agora preciso casar com outro, seu besta. Quero oriehnid, sabe o que é oriehnid? A Lorena disse que falar ao contrário dá sorte. Agora tenho que. E ainda lúcida. Estou lúcida feito uma cachorra, acho que você me deu aspirina. Por que não me dá essa medalhinha aí do seu pescoço? Nosso filho vai querer essa medalhinha, você dá?
— Mamãe não deixava tirar, só na hora de dormir, tinha aí uma história de um nenê que morreu enforcado na correntinha. A Ducha ganhou uma igual.
— Sua irmã que endoidou? Essa?
Ele esfregou a cara no travesseiro. Gemeu.
— Não fale assim da minha irmãzinha, não quero. . .
— Mas ela não está internada, pomba? Então. Você mesmo disse.
— Minha Ducha, minha Duchinha. Tão queridinha, tão florzinha.
— Mas ela não está desmemoriada, Max? Você disse, Max, você disse. Isso é falar mal? O pai da Lorena também perdeu a memória, morreu no sanatório sem lembrar de mais nada, a última vez que ela foi ele perguntou, quem é essa mocinha. Isso é falar mal?

Ele sacudiu a cabeça e virou-se de bruços, a cara afundada no travesseiro, os ombros sacudidos por um soluço seco. Tapou os ouvidos:
— Não quero, não quero! — soluçou e riu em seguida. Voltou a face para o teto e riu por entre as lágrimas que começaram a correr: — Um dia a gente foi no zoológico, ui! que bicho. . . aquele bicho que tem aquele chifre aqui, ahn?
— Ela é loura que nem você? É loura? responda, Max, eu quero saber como ela é, responda. A sua irmãzinha.
Mansamente ele foi estendendo o braço na direção da vitrola. A mão foi se abrindo em ritmo de câmara lenta, o dedo estendido para tocar em alguma coisa mas sem muito empenho, à espera de que essa coisa viesse ao seu encontro.
— O tapete.
— Que tapete? Estou falando da sua irmã, sua irmã! Então? Ê assim loura?
— Só dormia com a luz acesa, tinha medo de sonhar feio. Reza, Duchinha, reza que essa noite você vai sonhar bonito, não quer sonhar bonito? Reza comigo, vamos, me voici, Seignew, tout couvert de confusion et pénétré de douleur. . . douleur. . . ahn ahn ahn ahn ahn ahn. . . d'avoir offensé un Dieu si bon, si aimable et si digne d'être aimé. . .
— Foi a Mademoiselle que ensinou essa reza? Responda! Responda senão jogo essa água na sua cabeça — ameaçou ela agarrando o balde de gelo. — Vamos, acorda! Responda!. . .
Ele tentou se proteger com as mãos, fazendo espirrar a água que lhe inundou a cara. Debateu-se rindo. Duas pedrinhas de gelo deslizaram do balde para o seu peito.
— Campeão, olha aí, campeão — gritou num movimento desordenado de braçadas. — Cronometra, Shimoto! Japonês safado, cronometra direito! Você está roubando na contagem, já dei tudo, vigia aí mamãe! Estou quase desmaiando, estou na estafa safado! Vigia, mamãe, estou chegando. . .
Ela enxugou-lhe o peito, a cara. Deixou cair o cigarro molhado dentro do copo e acendeu outro.
— Você ganhou, Max?
Ele fechou os olhos. Riu e cantarolou estendendo a mão:
— Eu vi numa vitrina de cristal. . . Sobre um soberbo. — Queria ser um puto dum cantor. Enfim eu vi nessa boneca uma perfeita Vênus! Um ídolo. Se você nadar como está nadando no prazo de um ano pode. Impressionante era meu colega.
A fumaça movediça se enovelava compacta em redor do abajur, encasulando a luz que incidia sobre a cama apaziguada. Ele estendeu a mão repetindo o convite para um vago alguém se aproximar. A música do saxofone se integrara ao quarto como os dois corpos azuis de fumaça.
— O tapete da mamãe. O último que ela fez, era verde com umas coisas assim, tudo assim. . . Eu deitava nele. Musgo.
— Era bonita? Sua mãe. Conta, Max, ela era bonita?
Ele fez um gesto evasivo e começou a chorar baixinho. Assoou-se no lençol. Riu.
— Bobi vinha correndo lá lá de longe e tibum! na piscina. Caía em cima de mim latindo feito louco, queria me salvar, todos os dias queria me salvar e salvar a Duchinha, não tem ninguém se afogando, seu tonto! Shimoto, prenda o Bobi que não posso treinar, cachorro mais louco. . .
Arrastando-se penosamente ela debruçou-se sobre o corpo dele e apanhou a garrafa no chão. Sacudiu o copo até a ponta de cigarro se descolar do fundo. No tapete, uma pedra de gelo derretia solitária como uma ilha em meio da poça d'água. Colheu a pedra, deixou-a cair no copo e voltou ao seu lugar, recuando de rastros como avançara.
— Com você foi tudo alegre. Rico. Mas quando, pomba. Quero só o presente entrando no futuro-mais-que-perfeito, existe futuro-mais-que- perfeito? Se pudesse lavar por dentro minha cabeça. Com escova. Esfregar esfregar até sair sangue.
— Derrubaram a casa. Derrubaram tudo. Ducha disse que não sobrou nada, só a árvore, construíram um puto de edifício no lugar. Mas também a árvore eles iam — murmurou e recomeçou a chorar convulsivamente, abraçado ao travesseiro. — A jabuticabeira. Nunca fez mal pra ninguém, só dava jabuticaba, por quê? Era nossa amiguinha, só dava jabuticaba. Fugiu do sanatório e foi correndo pra casa, já tudo derrubado, aquela tijolada no chão, as portas. As portas estavam encostadas num muro, reconheci a porta do meu quarto. As portas ali, ainda de pé com as fechaduras. Os trincos — soluçou estendendo a mão como se fosse abrir o mais próximo. — Ela se agarrou no tronco e ficou gritando, gritando, eu também queria gritar junto quando vi ela gritando abraçada na nossa árvore que ia ser derrubada, não gritei porque senão também me internavam, internam tudo, a gente não pode. Não grita, Ducha, não grita Duchinha e eu queria gritar porque era uma coisa horrível ver tudo assim no meio dos tijolos. E minha porta. Não grita, eu disse, te dou todas, olha esta grande, pega, é sua! Pega, Ducha, este galho está preto, pega!
Ele me estende as mãos vazias-cheias, as jabuticabas rolando em cima de nós, "olha que monte, esconde, esconde!" — gritou e nos escondemos debaixo do lençol. Beijo sua boca brilhante de sumo que escorre doce.
— Max, me dá sua infância! Ele me dá sua língua.
Escorrego e fujo não é isso. Queria. A cabeça roque-roque. Aquela massagem na nuca acalma tanto a Loreninha sabe.
— Faz, Max, começa aqui, aquela massagem. Mais forte, amor. Queria saber as horas. Digo que me atrasei. Vai perguntar perguntinhas. Anão pretensioso. Aquele anão pretensioso. Bastardo. Um cara aí. Conta, Max.
— O chinezinho sentado no pufe fazia que sim com a cabeça, que sim, que sim. Eu tinha que subir no banco pra poder alcançar ele, a Isabel gosta de mim, chinezinho? E botava o dedo na cabeça que fazia sim sim sim. . . E sempre rindo sim sim sim. Vou passar de ano, chinezinho? Sim sim sim ih, que safado, não minta senão te quebro, responde direito! Sim sim sim, ria com aquela cabecinha de gorro preto. Mamães vai sarar? Vai? Sim sim.
— Mais forte, amor. Aí perto desse ossinho. Não fica triste que eu te dou uma casa com porta, jabuticabeira, te dou, deixa. Vou ter dinheiro e reparto tudo, milhares de jabuticabeiras, ninguém mais vai derrubar, viu? Aí, mais forte aí. . . Digo que fui atropelada, pomba. Só o choque.
— Esse sax, Coelha. Está ouvindo? Uon uon uon uon! — Fabuloso.
— Dane se esse saxofone. E as jóias da família? Um saco de jóias mas com quem ficou tudo isso. Doidinha mas esperta. E as jóias. Os dentes perfeitos beleza de dentes. Tradição de bom leite. Frutas. Loreninha bebia leite de cabra. "Eu bebia leite como um bezerrinho." Ficou inseto-anão mas os dentes. Acredito. Não deve ter bebido outra coisa. Este também mamou na cabra.
— Conta, Max. Conversa comigo, conversa.
O pãozinho já está pelado. Digo que fui com Loreninha por isso me atrasei. Lá naquele lugar. Não tem importância agora dorme. Em janeiro meu boneco. Agora dorme. Seria capaz.


três


Calar assim é fácil mas se um dia eu for provada? Que isso não aconteça porque não resisto, um pouco que me apertem o dedinho e já vou falando. Sou da família dos delicados. Dos sensitivos. Prima da lagartixa estatelada na vidraça: através da carne podia ver entalada na garganta a sombra da asa da mariposa que ela acabara de engolir. Lião sabe que não pode contar comigo, é lógico, mas se me convidasse eu iria correndo na ponta dos cascos. Bank of Boston. Acho demais roubar um banco com esse nome. Vestia o terninho da marinha americana com divisa e tudo, Lião não pode nem ver essas divisas mas um detalhe desses não daria ao cenário um toque todo especial? Notícia até no Time, o banco não é de Boston? Queria dizer ao menos, isto é um assalto! O tiroteio, o chato é o tiroteio. Morte. E morte em violência. Rômulo com o furo no peito borbulhando sangue, um furo tão pequeno que se mãezinha tapasse com um dedo, hein, mãezinha" Foi sem querer, como Remo podia adivinhar que Diabo escondera a bala no cano da espingarda. Uma espingarda quase maior do que ele. Até hoje não sei como conseguiu correr com ela, não sei. Não chora, meu irmãozinho, não chora, ninguém é culpado, ninguém. Papai tirou as balas todas, não tirou? Mas tem uma que o Diabo. Remo querido, passou tudo. Passou. Mas às vezes, está vendo? preciso lembrar. Você montado em burro bravo, pinoteando desgrenhado. O olho intenso. Você caçando mosca para jogar no suco de laranja de Rômulo. Escondendo a mariposa na minha cama. Diplomata, Remo? A voz bem impostada. Os gestos. A expressão sutil, a palavra é mesmo esta, não tem outra para a expressão oficial de Remo: sutil. Em festas de reis e rainhas, do lado direito. Ou esquerdo? Os protocolos. Mas como uma pessoa pode mudar tanto? Rômulo e eu éramos os delicados, lembra? As pessoas tomavam tanto cuidado. Como aquela plantinha, Dorme-Maria, Dorme-Maria, a gente ordenava e antes mesmo de tocar nas folhinhas elas se fechavam como olhos. Dorme-Maria. Nasci num tempo de tamanha violência. Orfeu chegou a comover as feras com sua lira e eu não consegui comover nem o Astronauta. Enfim, um gato é um gato mas como gostaria de mandar minha palavra de equilíbrio, de amor ao mundo mas sem entrar nele, é lógico. Ficar de fora, mantenha distância, diz aquele ônibus bufando tanto pelo traseiro que não fico atrás nem um minuto. Detesto guiar, entrar nas engrenagens. Nas besouragens, diz a Aninha. Enredos. Bom é ficar olhando a sala iluminada de um apartamento lá adiante, as pessoas tão inofensivas na rotina. Comem e não vejo o que comem. Falam e não ouço o que dizem, harmonia total sem barulho e sem braveza. Um pouco que alguém se aproxime e já sente odores. Vozes. Um pouco mais e já nem é espectador, vira testemunha. Se abre o bico para dizer boa noite passa de testemunha para participante. E não adianta fazer aquela cara de nuvem se diluindo ao largo porque nessa altura já puxaram a nuvem para dentro e a janela-guilhotina fechou rápida. Eram laços frouxos? Viraram tentáculos. Ah, que alegria quando fico aqui sozinha. Sozinha. Como chupar escondida um cacho de uvas. E a máquina do mundo, repelida, se foi miudamente recompondo — ah, preciso decorar isso, C.D.A. Minha poesia. Minha música. Às vezes, os amigos (podiam ser menos vezes, ai meu Pai). A presença-ausência de M.N. Dos meus mortos. Rômulo, meu irmão. Paizinho. A lembrança de veludo de Astronauta.
Uvas, deve ter ainda um cacho na geladeira, eu não disse? Rosadas. Fico lavando minhas uvas, mãezinha mandou uma caixa enorme. Distribuí tudo. "Abandonei minha filhinha num pensionato de freiras pobres, num quarto de chofer em cima da garagem e fui viver com um homem que me apunhala pelas costas" — disse à tia Luci num dos seus dias de punição que começam na segunda e vão até domingo. Número um, imaginar Mieux manejando punhais, coitadinho. Deixa-me rir. Usa no máximo aqueles palitinhos plásticos de espetar azeitona. Número dois, isto não é mais o quarto do chofer. O nome da Neusa ficou sepultado sob o azulejo cor-de-rosa, o encardidume das paredes do quarto com a obscenidade escrita a lápis vermelho ficou para sempre debaixo do papel amarelo-dourado — virou concha. Lá fora as coisas podem estar pretas mas aqui tudo é rosa e ouro. "É preciso ter um peito de ferro pra agüentar esta cidade" — diz a Lião que cruza esta cidade com sua alpargata azul. Mas não entro na transa e nem quero. Faculdade, cinema, um pouco de clube (clube fechado) uma ou outra lanchonete, compras nas minhas lojas especialíssimas. O oriehnid vem num envelope. Dia de comprar livros e discos, dia de Deus me visitar, oi, Lorena. Às vezes, o medo não da cidade (tão remota para mim como seu povo) mas um medo que nasce debaixo da minha cama. Imagine se lesse jornais como a Lião, ela lê milhares de jornais por dia, recorta artigos. Mas seu cabelo já de natureza eriçável também sobe como o pêlo do Astronauta quando via fantasma, houve um tempo de fantasma neste quarteirão. Os olhos crescem, as unhas diminuem na roeção, "não sei explicar" — ela começa. E passa duas horas explicando que é preciso tratar o corpo como a um cavalo que se recusa a pular o obstáculo: a chicote. O medo mora nas pupilas. A pupila de Astronauta tão negra invadindo o verde, tinta transbordante até as pálpebras. As pupilas de Ana Clara também dilatadas mas por outros motivos, coitadinha, a droga excita a pupila com a mesma força do medo. Duas rodas pretas. Um brilho. A mentira vem brilhante, mente, ah, tanta mentira seguida. Fecha as mãos e começa a mentir com tamanho fervor, esmerou-se nesse mentir gratuito, sem o menor objetivo. As freiras também têm medo? Madre Alix é o equilíbrio. Mas aquela hora em que fecha a porta. A luz. Pensionato Nossa Senhora do Medo. E você? pergunto a Jimi Hendrix gritando e já rouco de tanto gritar. Tiro o disco. Lião fica um tigre com essa música, diz que é desfibrante. Mas quem devo ouvir? Wagner?
— Não tenho Wagner, querida. Tenho leite. Serve leite? — murmurou Lorena indo até a pequena geladeira embutida na parede. Olhou apática a jarra branca sob a luz fria. Mordeu uma maçã. A espuma morna do leite no estábulo. Cheiro morno de bosta e feno. As maçãzinhas da horta eram ácidas mas tinham tanto sumo. Remo subiu no galho mais alto e rasgou o jeans no joelho, se sujava e se rasgava com a mesma fúria com que colhia os frutos. Ou brincava de xerife e bandido, era sempre o bandido carregando a espingarda grande demais. Tão grande.
— Estudar? — convidou abrindo na mesa a pilha de apostilas e livros que trouxe da estante. Colocou em cima os óculos, a caneta e a régua de plástico transparente. Apertou os olhos e através do plástico leu as linhas enreguadas. Isso já sabia. E sabia o resto. Sabia tudo. Se acabasse a greve e os exames começassem no dia seguinte mesmo, seria a glória. A música absorve o caos e o ordena — disse e ficou atenta. Mozart. Musicália. Examinou meio distraidamente o livro que Lia devolvera com várias páginas marcadas de vermelho, tinha o hábito (péssimo) de assinalar o que a interessava não só nos próprios livros mas também nos alheios. Deteve-se no trecho indicado por uma cruz mais veemente: A Pátria prende o homem com um vínculo sagrado. É preciso amá-la como se ama a religião, obedecer-lhe como se obedece a Deus. É preciso darmo-nos inteiramente a ela, tudo lhe entregar, votar-lhe tudo. É preciso amá-la gloriosa ou obscura, próspera ou desgraçada.
Obedecer a Pátria como se obedece a Deus? estranhou Lorena. Por que Lia grifara isso? Não acreditava em Deus, acreditava? E a Pátria para ela não era o povo? Abriu as torneiras da banheira e sentou-se na borda, a mão brincando com a água. Riu baixinho. Lembrava-se de Lia chegando com as duas malonas estourando de coisas. E O Capital debaixo do braço, metido num papel de pão que mais mostrava do que escondia. "A mãe é morena da Bahia casada com holandês", pensou assim que a viu. Era baiana com alemão, Herr Paul, ex-nazista que virou Seu Pô, um tranqüilo comerciante apaixonado por música e por Dona Dionísia, para os íntimos, Diú com aquele u comprido que não acabava mais, Diúuuuuuu... Deu Lião. Loucura, imagine, um nazista de águia no peito, entende, vir parar em Salvador e lá então, não sei explicar mas se apaixona pela moça Diú e a soma é Lia de Melo Schultz que faz seu necessaire e vem terminar o curso no Pensionato Nossa Senhora de Fátima. Um pé baiano, o outro berlinense. Alpargata Conga. "Quando meu pai que é distraído à beça viu de perto o que era realmente o nazismo, arrancou a farda e veio trotando por aí afora até Salvador." Difícil, dificílimo entender uma fuga dessas, não houvesse o cinema. Através do cinema Lorena já não vira tantos atores atravessarem o Mar Vermelho aberto como braços, ah, loucura total desse alemão vir lá do inferno velho sem a farda. E provando ainda um total desprezo a qualquer preconceito ao entrar de cabeça erguida na honradamente nativa e beata família Melo, em disponibilidade a caçula Dionísia, sua criada. Eh! Lião. Como herança do pai tinha o vigor germânico, andejo capaz de fome, inverno e tortura com travessia em rio coalhado de jacaré. Mas as proporções gloriosas herdou da mãe, proporções e cabeleira de sol negro desferindo raios por todos os lados, que fivela, que pente consegue prendê-la? O açúcar da voz quando está nostálgica também é herança baiana. Compota de jaca. Mas o senhor Karl firme debaixo do braço, escondido e exposto, camuflado e exibido, que ninguém saiba que esta é minha Bíblia! Teria ido até o fim? O pé alemão solidamente racionalista mas e o pé brasileiro? "Já li — disse Lorena apontando o livro. — Não parece mas sou muito inteligente, se quiser, troco em miúdo para você" Ela então riu, dentes de alemão fanático mas risada com som tropical. Tentou enfeixar a cabeleira irradiante no elástico. Que estourou, todos eles estouram, não há no mundo elástico que resista a tamanha explosão.
"Padrão afro. Tem mulher hino e mulher balada", pensou Lorena tirando o pijama. Sentou-se na borda da banheira e percorreu com as pontas dos dedos a superfície da água. "Eu sou uma balada medieval." E Ana Clara? E Lia? Que gênero de música eram elas? A única forma de ajudá-las seria oferecer-lhes coisas que não tinham. Apresentar-lhes coisas que não conheciam. O espanto de Lia quando chegou de sandálias franciscanas, a sacola de juta dependurada no ombro, só mais tarde comprou a de couro na feira. "Genial, entende. Genial", repetiu examinando os objetos de toalete no banheiro. Abriu o frasco de sais. Cheirou. B em meio do enlevo, bateu no piso a cinza do cigarro. Disfarçadamente, enquanto esticava o piso felpudo, Lorena apanhou o rolinho de cinza como se apanhasse uma borboleta. "Quer tomar um banho? Essa banheira é tão repousante", sugeriu quando ao se inclinar viu de mais perto seu pés nas sandálias. "Posso?" — ela perguntou atirando a ponta de cigarro no trono. Apertei a descarga e preparei-lhe um banho caprichadíssimo. Ofereci-lhe água-de-colônia para uma frição no corpo, calçava sandálias mas fazia frio. O talco. O pente limpíssimo. Chá com biscoitos. Como apoteose, poesia, leio bem poesia. Quando levantei a cabeça, ela cochilava na poltrona. Mais tarde descobri que não gosta nem de poesia nem de música. Ainda assim, liguei o toca-discos e dei-lhe os patrícios, Bethânia, Caetano. E se não dei televisão é porque acho aquilo o fim. Embora esteja pensando numa mas só para ver os filmes antigos. E os longa-metragem de vampiros e monstros. Na saída, fez sua primeira ironia. Nem respondi. Ainda ponho uma placa na minha concha: Perdão pela ordem, pela limpeza, perdão pelo requinte e pelo supérfluo mas aqui reside uma cidadã civilizada da mais civilizada cidade do Brasil. Vão me perdoar? Ana Clara dá uma resposta ambígua e pede oriehnid emprestado. Lião não responde mas pede o carro. Pode levar, querida. Perdão ainda se empresto um Corcel e não um jipe, cada qual dá o que tem, entende. Mergulho na banheira toda dourada de sais dourados. O susto de Lião quando mergulhou e a água começou a transbordar de todos os lados, eh! Lião. Eu tinha calculado um banho com a minha medida d'água. Ela pedia desculpas (pelo estrago) enquanto eu salvava o piso na caudal. Quando as coisas se acomodaram, ficou sorrindo para a espuma: "Um banho assim diário desmonta qualquer coluna vertebral. Vim preparada pra uma vida dura, entende." No povo propriamente, começou a falar mais tarde. Também amo esse povo, Lião, não precisa me olhar assim. Amor cerebral, reconheço, que outro gênero de amor pode ser? Se não me misturo na tal massa (morro de medo dela) pelo menos não fico esnobando como faz Aninha. O que é natural, ela deve ter sido paupérrima. Se já estivesse guiando o famoso Jaguar pensa que emprestaria ao seu grupo sequer a bicicleta? Imagine. Vai passar por nós naquele andar de transatlântico, os ossos dos quadris furando as águas. E a cara oca de capa de figurino, "por acaso já nos vimos antes?" Turbante de cetim branco com uma esmeralda combinando com o verde dos olhos tão mais belos do que a esmeralda, tem olhos lindos, ela inteira é linda. Ai meu Pai. Eu podia ser menos insignificante, não podia? Pernas de palito. Desbotadinha, olha aí, me torro no sol e o sol não cola em mim. Magnólia Desmaiada. O pior são estes peitinhos pobres, oh! Oh. Inveja isto? Não, simples constatação, é lógico. Quero vê-la curada, casada com o tal milionário embora saiba que quando ficar divina-maravilhosa não vai me perdoar. Amparei-a nos pilequinhos, segurei sua mão nos abortos, emprestei-lhe milhares de coisas, a metade nem voltou. E o monte de oriehnid que vou emprestar (dar) para o cerzido na zona sul? Difícil me perdoar por isso. "Por acaso nos vimos antes?" — vai perguntar batendo a cinza do cigarro na minha cabeça, é altíssima. Não pessoalmente, Alteza. Sou uma simples universitária em recesso. Tirante a Faculdade, vou a pouquíssimos lugares e todos sem importância. Lembro que certo dia chegou ao Pensionato Nossa Senhora de Fátima uma vaga estudante e vago modelo cheia de malas e dívidas mas não era Vossa Alteza, é lógico. Tinha a cuca tão embrulhada que fiquei em pânico, se entra na minha intimidade vai criar problemas. Forçou a entrada. Deus sabe que evitei mas agora é tarde no planeta. "Tarde no planeta!" — dizia o paizinho trancando a porta que dava para a varanda. Abre meus armários, empresta minhas coisas, usa minha esponja da zona norte na zona sul e só não leva meus livros porque na realidade gosta mesmo de romances supersonho. E das histórias da Luluzinha. Nega, imagine, sempre que pode passeia com um Herman Hesse ou um Kafka debaixo do braço, ambos da minha estante, diga-se de passagem. Mas só para constar. De resto, instalou-se no meu banheiro e em mim. Obriguei-me a verdadeiras práticas de caridade cristã para aceitá-la mas agora sinto falta dela quando some. Ana, a Deprimente. Deprimida e deprimente. Os amantes. As angústias. Ensinei-lhe a respirar profundamente. Depois andar. Respirando e andando quilômetros vem a vontade de trabalhar: salvação pelo trabalho. Jacaré aprendeu? Análises, amores e sapato de brilhante podem mudar alguém? Acho que todo mundo segue igual até o fim. Mãezinha fazia goiabada, cuidava do jardim, bordava toalhinhas e era glingue-glongue. Agora faz plástica, massagem, análise e principalmente faz amor com outro homem. Mudou a circunstância. E ela? Igual. Não fica à vontade com Mieux como ficava com paizinho, é lógico. Representa. Mas continua insatisfeita e catastrófica. Com mais medo da velhice porque já está na velhice, coitadinha. Glingue-glongue. Quero ser uma velhinha diferente, gênero cara lavada e blusinha bem branca, a cometa acústica no ouvido, virgem acaba surda, aquela história da Lião, fecham-se os orifícios. Todos? Vejo Lião uma mãe gordíssima e felicíssima, sorrindo meio irônica para as passadas guerrilhas, juvenilidades, meu senhor, juvenilidades! Ana Clara, pintadíssima e afetadíssima, mentindo a idade e o resto, as mãos sempre fechadas, é do gênero de mentiroso que fecha as mãos. Ficando de fogo no particular. Oh. O que aprendi com ela: não bebo e posso escrever uma tese sobre alcoolismo e drogas. Nunca tive nenhum homem e sei com pormenores a arte e desarte de amar.
— Ni ange ni bête — murmurou Lorena inclinando o corpo e afundando na banheira. Esfregou os cabelos até fechá-los num espesso capacete de espuma. Olhou-se no espelho. Com as pontas dos dedos foi alargando a espuma branca até a altura dos olhos. Assim de gorro e máscara M.N. operava. As luvas amarelas quebrando a brancura, "ai que sensual!" Se pudesse ser amada na própria sala de cirurgia. Entraria na padiola, como Ana Clara. No fundo, a espera, o Anjo Sedutor na sua roupa imaculada, ainda imaculada. E mascarado. "Lena, me dá sua mão", pediu Ana Clara. Deu-lhe a mão, constrangida: sabia que ela transpirava demais na mão e tinha horror de suor. Um suor frio como a sala, frio como a luz do holofote. Na estreita faixa entre o gorro e a máscara os olhos do médico eram frios. A voz branca de Ana Clara parecia vir filtrada através dos algodões: "Um, dois, três, quatro, cinco... seis... ssss..." A luta metálica dos ferros se entrechocando. O peso do sangue na gaze. O hálito de éter se desfazendo no ar. Not to be.
— Ai meu Pai — gemeu Lorena enrolando-se na toalha. Saltou no piso e ficou esfregando nele as solas dos pés. Viu-se irreal no espelho embaçado pelo vapor d'água. Não era amada? Não, certamente não. Mas continuaria amando amando amando até — morrer, não. Até viver de amor. Foi ao toca-discos e aumentou o volume. O som se fortaleceu áspero, intratável. Torceu mais o botão e a música se expandiu empurrando os móveis, as paredes. Recuou aturdida num acesso de riso, oh, vontade de sair pelada pela rua afora, agarrar as pessoas e sair dançando com elas, lutar boxe, fazer amor, comer, ai! que fome.
— Que fome — gritou. E apertou o peito do patinho de feltro, sentado na prateleira da estante. — Coém! Coém! — fez juntamente com o pato. Tomou um pequeno gole de leite e suspirou. Gostaria de gostar de outras coisas, bifes sangrentos, sopas com peixes e polvos nadando por entre tranças de cebola em temperatura de vulcão, plu, plu, plu. Pousou o copo, vestiu um biquíni branco, uma camisa grande demais, dobrou as mangas e depois de se perfumar com água-de-lavanda e polvilhar talco nos pés, reuniu num prato o que lhe apeteceu: uma maçã, uma cenoura crua escrupulosamente lavada, alguns biscoitos de água e sal e um triângulo de queijo. Sentou-se no degrau de pedra banhado de sol, abriu no colo o guardanapo e colocou o prato ao lado. Olhou o jardim através do gradil de ferro da escada e começou a roer a cenoura. Será que o sexo ia lhe dar tanto prazer como o sol? "Fico tomando sol porque não posso tomar o homem que amo", pensou mastigando mais energicamente. E Ana Clara? As coisas que tomava seriam para substituir o casaco de onça? O Jaguar? E se fosse simplesmente porque não conheceu o sol, a infância, Deus. "Tudo que tive e ainda tenho, tão triste ir buscar lá fora o que devia estar aqui dentro." Uma formiguinha ruiva passou a um centímetro do pé de Lorena. Carregava um pedaço de folha recortada com certa simetria nas bordas ondulantes, vela de veleiro equilibrando-se a custo na travessia. Inclinou-se para ver melhor. Agora a formiga tinha parado para conversar com outra formiga que vinha em sentido contrário. Deixou de lado o pedacinho de folha, pôs as mãos na cabeça, gesticulou barroca, procurou afobada a folha, não achou mais, desistiu e meio estonteada voltou pelo mesmo caminho de onde viera. Que bicho correspondia à Aninha? Raposa? Fazia cálculos, mentia, queria ser sempre a mais esperta mas na realidade era inconsciente como a cigarra. Por que teve que engravidar nas vésperas do tal casamento, por quê? Se ainda fosse do noivo. E eu é que tenho de arrumar oriehnid. E ir junto e dar a mão na hora. Já disse mais de uma vez que a intimidade é inimiga da amizade, essa intimidade que exorbita no cotidiano tão cotidiano. Ela ouviu, concordou e em seguida pediu meu maio emprestado. Amar meu próximo como a mim mesma, no caso, amar Ana Turva. "Já não estou turva, estou preta", disse ela num dos seus raros momentos de bom humor. São as ovelhas pretas as mais amadas, respondi. Madre Alix tem paixão por você. Ela então me olhou em silêncio. E seu olhar que em geral é oblíquo, ficou reto. Não fez nenhuma ironia, ao contrário, foi com a maior gravidade que apertou por cima da roupa o Agnus Dei, ele devia estar no sutiã mas como ela não usa sutiã, prendeu-o com um alfinete de gancho no biquíni. "A Madre me deu, disse. É um pedaço das vestes de uma freira que ficou santa." Perguntei-lhe que freira era essa. "Sei Ia", murmurou enquanto rolava o cílio postiço, operação que exige atenção integral porque sua mão treme demais. Ia a uma boate e foi me pedir um pouco de perfume. Banhou-se nele e de tal forma que tive que abril a janela apesar da noite fria "A Gata entrou no meu quarto e espanou minha mesa com o rabo, quebrou meu perfume, meu espelho e o vidrinho de colírio, posso levar o seu?" Tudo mentira.
No dia seguinte fui saber se queria ir ao cinema. Não estava mas estava o vidro de perfume, o espelho e o vidro de colírio vazio. Um monte de roupa suja embolada debaixo da cama. As jóias, verdadeiras e falsas, espalhadas por toda parte. Um longo de cetim verde num cabide dependurado na porta do armário. O caos dos sapatos escapando por entre a fresta do gavetão. A peruca negra e o casaco de couro em cima da cadeira. A caixa de maquilagem esvaziada na cama, devia estar procurando alguma coisa que não encontrou. Nas paredes, retratos seus e de very important person. Fiquei comovida quando vi que pregara na cabeceira da cama a gravura de Chagall que eu lhe dera na véspera, um anjo verde abençoando o pecador roxo, ajoelhado no azul. O rosário de Madre Alix também estava ali exposto mas a presença do Anjo Sedutor pairava no quarto. Vulgaridade e beleza se misturavam no pôster que tirou de biquíni colante e meias pretas, pose mais agressiva do que sensual. Chamei Sebastiana e lhe dei a trouxa de roupa para lavar. Aproveita e varra um pouco este chão, eu disse mas a mulher não despregava o olhar do pôster. A beleza de Ana iluminou-lhe a expressão. A cara encardida clareou no impacto. "É artista?" — quis saber. Mais ou menos, respondi e fiquei pensando que se tivesse metade dessa beleza, M.N. já teria subido umas cem vezes esta escada. Na minha concha como a pérola na ostra — não é poético? "Precisamos pensar num outro esquema", ele respondeu quando o convidei para tomar um chá comigo. Por que outro esquema? Mas meus amigos não estão sempre subindo? A gente estuda, ouve música, discute, qual é o problema? Ele sorriu o sorriso M.N. "É diferente." Só por essa distinção fiquei mais consolada.
— Lorena! Carta do estrangeiro para você! A letra é do seu irmão.
Com dois dedos, Lorena abriu a úmida cortina de cabelo que lhe caía até os ombros. Espiou a freira no jardim, empenhada em arrancar do canteiro de margaridas o matinho rasteiro que brotava com a força da primavera. Encostou a testa no gradil de ferro da escada, sentara-se no primeiro degrau. Engoliu o biscoito antes de responder:
— Estou esperando um telefonema, minha Irmã. Ninguém me telefonou?
Irmã Bula examinou desconfiada a pequena raiz que acabara de arrancar. Deixou-a cair, limpou as mãos no avental e levantou a face franzida de sol. Os olhos lacrimejaram abundantes. Tirou o lenço do bolso, enxugou os olhos e aproveitou a oportunidade para se assoar. Ficou olhando pensativo o ranho esverdinhado no lenço. Dobrou-o, inclinou-se para o canteiro e arrancou um tufo maior que veio com um bloco de terra.
— Está liquidando o canteirinho — sussurrou Lorena enquanto dobrava o guardanapo com o mesmo cuidado com que a freira dobrara o lenço. No guardanapo branco, as iniciais do pensionato estavam bordadas com linha vermelha: P.N.S.F. Ponto de cruz. A letra P era a mais caprichada. Já o N meio torto se aproximara demais do S que para compensar o defeito, abandonara o F ilhado na auréola avermelhada da linha que desbotou.
— Um mato duro de tirar — resmungou a freira vergando o corpo para trás. — Sua Santidade o Papa disse que o vício aumentou no mundo como esse matinho, a gente arranca, arranca e daí a pouco nasce tudo outra vez.
— A senhora faz jardinagem como borda — digo passando o dedo no F tão mais pálido do que as outras letras, a se esvair sanguinolento em meio da nódoa rosada. Como um ferido de morte. Ah, Rômulo, Rômulo. O sangue escorrendo do furo que mãezinha procurava tapar com a palma da mão, a camisa vermelha empalidecendo, recuando diante do sangue tão mais forte. "Que foi isso, meu filho!" — ela perguntou e o som da sua voz era branco. Respondi por ele e minha voz também saiu de uma paisagem de neve sem sol. Fiquei me ouvindo repartida em duas: o Remo deu um tiro nele mas foi sem querer, aquela brincadeira de xerife, estavam perto do paiol e Rômulo corria para o rio, acho que ia mergulhar quando Remo fez pontaria e gritou para! nessa hora ouvi o tiro. Rômulo parou segurando o peito e veio vindo, foi sem querer, estavam só brincando, foi sem querer. Ela não me ouviu. "Que foi isso, meu filho", repetiu baixinho, sentada no chão com a cabeça dele no colo. Fazia um movimento de embalo para a frente o para trás, cingindo-o com delicadeza mas a mão que tapava o furo do peito tinha uma crispação enérgica. E se eu fosse buscar uma rolha? Uma rolha. A cara de Rômulo era cera transparente. O sorriso transparente, úmido. Os dentes ficaram pálidos. Sorria como se pedisse desculpas por estar morrendo.
Encaro o sol até a cegueira, não, não quero, agora não. Estava tão contente pensando só em letras e de repente elas foram se compondo, tão perigosas quando se juntam. Mas na raiz são descomprometidas. Umas crianças, A, B, H, M, O. . . Tão raro o X. Em declínio, o Z, rei desmemoriado, o irmão gêmeo S com a astúcia de um usurpador. Ponho o dedo em cima do F desventrado que Irmã Bula bordou, as letras também levam facadas no ventre, tiros no peito, socos, agulhadas, coices — também as letras são atiradas ao mar, aos abismos, às latas de lixo, aos esgotos, falsificadas e decompostas, torturadas e encarceradas. Algumas morrem mas não importa, voltam sob nova forma, como os mortos.
— Como os mortos — digo em voz alta e meu coração se alegra de novo. — Aleluia! — grito à Bulinha. Mas ela já se foi com as mãos sujas, precisa lavá-las depressa. Eram boas as plantas que andou arrancando? Eram más? Correu o risco do julgamento e agora tem medo. Adora fazer jardinagem e bordar. Madre Alix tinha que ser a maravilha que é para permitir que ela cuide do jardim e marque com essas iniciais vermelhas toda a roupa do pensionato. Enrolo no dedo o fiapo de linha que está se soltando de uma das letras, qual? Pensionato Nossa Senhora de Fátima Falta o de mas está subentendido. Mordo o último biscoito e respiro estimulada. Aí está onde eu queria chegar: milhares de coisas estão subentendidas. Nas entrelinhas. O lado omisso. Quero a verdade, M.N., meu amado, escuta, entenda isso, quero a verdade. E você sugere reticências. Omissões.
— A verdade de peito aberto — digo de cara para o sol. Estou a fim de ter um derrame, sai fumaça da minha cabeça, mas preciso ficar minhocando, as minhocações debaixo do sol são sempre mais lógicas, ah, M.N., você ainda não sabe o horror que tenho da mentira. Escrevi seis folhas sobre o delito da omissão, tive dez em Penal e você agora. "Minha mulher não deve saber, é claro." Por que claro? Sorriso evasivo. Vaguidão. Porque é uma megera, devia responder. Todas as esposas são megeras que antigamente eram fadas: falavam e saíam da boca pérolas e rosas que no decorrer da decorrência foram ficando umas rosas ambíguas, miasmas de mau hálito e maus bofes, como é que M.N. pode fazer amor com uma mulher assim. Obesa, vesga, dentadura postiça, ai meu Pai, seria a glória se ela usasse dentadura. E irônica, mais do que irônica, sarcástica. A voz rascante. Como será voz rascante. Ligações suspeitas com corujas, gralhas, grrrr!... Tia Luci fala assim. Mãezinha disse que ela foi bonita, milhares de apaixonados e fogos de artifícios, enfim, agora não é mais e continua como se fosse, coitadinha. Alguém teria que avisar mas quem? Já fez plástica até no pé, usa vestidos da jeunesse dorée lá do tempo dela e faz aquelas caras. Até para o Fabrício insistiu no charminho, estávamos no cinema e ela começou a mostrar pela abertura da bata oriental (adora essas batas) um pedaço do joelho e nesse pedaço tinha varizes. Ficamos tão deprimidos e ela continuava, tinha operado os seios e precisava mostrar como estavam bacanas, ah! quinze anos. E os malvados dos médicos botando lenha na fogueira, que tal agora a orelha? Mas a voz que não fez plástica é aquela esponja de fel, a voz tem a idade verdadeira e não esconde um botão. E se a mulher de M.N. for como tia Luci? Polidamente infeliz: "Se você pensa que vou lhe dar o desquite, está muito enganado, meu caro." Era do gênero de dizer meu caro assim com o maxilar duro e nessa faixa também entra a mãezinha, ih, o avesso desse meu caro que ela fica repetindo no auge da discussão com Mieux. Boas maneiras? Sim, boas maneiras, família rica, estudou em colégios fechados. O que não significa que M.N. lenha se casado por interesse ele era pobre, me deu a entender que era pobre mas infelizmente se casou mesmo por amor. Com o tempo foi descobrindo os pecados maiores da amada, vícios próprios da burguesia, como diz Lião: soberba e avareza. A gula também entra, Lião já provou nas suas pesquisas que burguesa de país subdesenvolvido é gulosíssimas aos trinta anos estão todas com uma papada e um popô do tamanho do Jaraguá. Então meu amado foi se fechando com seu cachimbo e seu Proust, solidão de bicho-de-caramujo, pode bater que não abro. Mas abriu algumas vezes, não abriu? Cinco filhos. Por que tanto filho, M.N.? É o que me deixa meio invocada, cinco filhos. "Um caso difícil" — disse Dona Guiomar logo na primeira volta quando apareceu aquele Rei-de-Copas. Apontou a Dama-de-Espadas com seu dedo preferido e avisou que ele estava muito enrolado na mulher: "olha aqui a mulher." Olhei e devo ter caído de quatro porque ela teve tanta pena que quis me descomprimir. Previu milhares de homens maravilhosos que vão me amar até o fim dos tempos, todos chegando de avião com uma pasta preta bossa James Bond. Homens maravilhosos, imagine. Só pensava no meu rei proibido, He has a god in him, though I do know which god, oh, poeta, onde estiver proteja este meu pobre amor. Sei que devia pedir proteção a Ogum e Iemanjá mas perdoa, Lião, só posso curtir com espíritos e duendes de outros bosques, tão linda a palavra bosque. Temos bosques? Bosque aqui é mato. He has a god in him. Mas é proibido, já entendi, é o verboten que às vezes se crava em mim como um estilete. Em baiano a gente dava um jeito mas em alemão não tem esperança, verboten, verboten, oh língua definitiva. Se a mulher morresse de leucemia. "Tenho filhos da sua idade, Lorena. Ainda assim aceita este viúvo para marido?" Teria que me ajoelhar aos pés de Lião, seja minha madrinha! "Quem mais quer se casar, Lorena? Quem? Só os padres e as prostitutas. E um ou outro homossexual, entende." Quis dizer: eu, eu! Adoraria me casar com M.N., não existe uma idéia mais jóia, queria me casar com ele, sou frágil, insegura. Preciso de um homem em tempo integral. Com toda a papelada em ordem, acredito demais em papel, herdei isso da mamãezinha. Agora ela esnoba a papelada antiga mas é tarde, os arquivos não estão nas gavetas, estão na cabeça. O quanto ela quis o casamento com Mieux, como vibrou com a idéia. Chegou a desenhar o vestido, veio me mostrar o desenho: "não é melhor me casar, regularizar nossa situação?" Concordei com o coração apertadinho assim, lógico. Lógico. E lembrava a conversa com tia Luci que começou contando a origem do apelido Mieux: em tudo quanto era reunião ele contava a anedota do tipo que dormia com a própria mulher porque não tinha ninguém melhor na hora, faute de mieux on couche avec sa femme. E sempre se torcendo de rir como se tivesse dito a coisa mais divertida do mundo. Estendeu o faute de mieux a outras circunstâncias, ia a um restaurante, pedia vinho francês. Não tem francês? Então um chileno mesmo, faute de mieux. Acabou o chileno? Então traga um nacional, faute de mieux. . . "Ficou sendo Mieux", ela rematou repugnada. E daí, tia? Que importância tem se é um simplório? Se convém à mamãezinha, não tem problema. Sei, é muito mais moço. E daí? Assunto deles. Veste-se bem, adora festas, faz o gênero dela. Não se pode exigir que ainda por cima seja um pensador. Então a tia me puxou para mais perto e fez a cara de mistério que mãezinha faz quando não há nenhum: "Aí é que está. De inocente ele não tem nada, é espertíssimo. Tenho provas de que andou investigando em bancos, teve a ousadia de ir até nosso advogado, tudo com ar de quem queria proteger a Mana. Ficou sabendo das casas, dos terrenos, ficou sabendo por quanto foi vendida a fazenda e onde ela empregou o dinheiro, ficou sabendo de tudo. Puro golpe do baú. Se sua mãe não tomar cuidado, vai acabar no asilo São Vicente de Paula." Então fiquei um pouco sem voz quando mãezinha veio mostrar toda radiosa o modelo do vestido, um longo rosa-pérola com aplicações de renda no peito e nas mangas. Eu num modelo igual, iríamos feito gêmeas, ela viu o retrato de casamento aí de uma artista e achou a glória mãe e filha de laçarotes nos cabelos e mãos dadas, vamos brincar na floresta enquanto Seu Lobo não vem. E Mieux firme no altar, escondendo o rabo no rabo do fraque. Desistiu da idéia só porque se lembrou que na hora de preparar os papéis apareceria a verdadeira diferença de idade entre ambos. Mieux fazendo pressão e ela inventando milhares de pretextos para não casar mais, protelou, fez a cínica mas comigo se abriu: "Tenho nojo dessa papelada amarela que a gente tem que desenterrar no cartório, mania de brasileiro viver Talando cm documento, em nenhum lugar do mundo existe isso. Não nasci!" Nunca mais voltamos ao assunto mas um dia morri de pena quando encontrei todo dobradinho dentro de um romance de Charles Morgan o desenho dos vestidos que usaríamos na cerimônia. Esse livro ela me emprestou, queria demais que eu conhecesse seu autor amado. "Cheguei a decorar trechos inteiros de Morgan na minha primeira juventude", ela disse. Teve primeira, segunda e até quarta juventude. Que fúria quando num dia de mau humor Mieux lhe disse aos urros que a juventude é uma só. Coitadinha. Como ninguém toca nesse livro, ficou sendo o guardião das cartas que escrevo para M.N. E que acabo não mandando, ai meu Pai. Escrevi que toda minha vida convergia para ele e que era só dele que iria se irradiar de hoje em diante. Quero te dizer também que nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos conseqüências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo dobra-se sempre às nossas decisões. Não nos esqueçamos das cicatrizes feitas pela morte. Nossa plenitude, eis o que importa. Elaboremos em nós as forças que nos farão plenos e verdadeiros.
— Cuidado com o sol, Lorena! — diz Irmã Priscila.
É a voz de Irmã Priscila? Abro os olhos. Irmã Priscila subindo alguns degraus da escada. Avanço de joelhos para alcançar a carta que ela me estende. A cara de porcelana se abre num sorriso rosadinho.
— Do meu irmão — digo.
Ela protege com as mãos os olhos que se derretem na luz.
— O sol está forte demais, filha. Lavou a cabeça?
— E já secou, olha aí.
— Dias inteiros tão azuis e essa moça aí escondida no quarto. Madre Alix perguntou hoje se você está bem, ela até estranhou.
— Estou ótima, minha Irmã. A Faculdade está em greve, não então nada que fazer lá. Se meu amado telefonar, vou jantar com ele. Ninguém telefonou?
Seus dentinhos são redondos e brancos, um pouco separados. Sorriso de dentes-de-leite.
— Antes de sair com o namorado, passe lá, tem caramelos de mel.
E tem esperança. Mando-lhe um beijo. As pessoas são boas, sim, o que ela disse não é lindo? Ponto pacífico que ele vai telefonar e que vamos sair. Pensamento positivo. Faço minha respiração solar pela narina direita e volto para o meu degrau. Apalpo a carta que não é carta, é cartão. Adio o instante de ler como adiava na fazenda a hora de comer as primeiras mangas. Querido Remo. A embaixada é em Túnis mas sua casa fica em Cartago, ainda existe Cartago, Remo? Existe, sim. Um bairro lindo com casas lindas em meio das ruínas romanas. "No jardim por onde andou Salambô há jasmineiros iguais aos da fazenda", ele escreveu, às vezes fica poético. Há oliveiras plantadas nos quintais, as azeitonas são colhidas nas árvores. E as tâmaras vêm em cachos. "Como os mendigos — atalhou Lião quando li a carta para ela. — Lá os mendigos também andam em cachos, como no Nordeste." Nem respondi. Adianta responder? Não se pode dizer mais nada de coisas belas e amáveis, que Lião já agride com o Nordeste. Remo só convive com diplomatas e banqueiros amigos de Bourguiba, ele lá sabe de mendigos.
— Telefone? — pergunto me levantando. Agarro o corrimão de ferro e me debruço na escada. — Telefone?
As largas janelas do casarão, abertas para o jardim, estavam vazias. Nas alamedas que contornavam os canteiros, os pedregulhos brilhavam como pedras de sal. Lorena passeou o olhar perplexo pelas janelas. Nunca a casa lhe pareceu tão oca como naquele instante. "Mas não foi o telefone?" A Gata veio vindo tranqüilamente até o cesto de jardinagem de Irmã Bula, experimentou com a pata o avental embolado e deitou se nele. Enrodilhou-se formando um círculo perfeito. "Já se engatou a vontade e agora descansa" — pensou Lorena enfiando os dedos por entre o emaranhado úmido quente dos cabelos o vento trazia ao acaso alguns estilhaços de vozes Mas na retaguarda, inteira, densa, a voz de Jimi Hendrix se repetindo na vitrola, "esta molhado de suor e desespero mas não para, tem que dizer depressa! Escutem todos antes que eu vá embora, depressa'"
— Já sei — disse ela apanhando no chão o prato e o copo. Cobriu-os com o guardanapo. Na escuridão latejante do quarto abriu mais os olhos deslumbrados: assim cega ouvia melhor a voz calada &e repetindo como no disco, "por quê, M.N.? Por quê?"
Se ao menos Fabrizio telefonasse. Cinema das quatro às seis. Hamburger com chope, ele adorava chope. Tu quoque, Fabrici? A cara barbuda. O cabelo espetado, um jeito de andar assim de homem das cavernas, "oi, Lorena".
Era noite e chovia potes. Chegou todo molhado, rindo e se sacudindo inteiro como um cachorrão sem saber direito onde meter as patas, os botinões pesados de lama. As apostilas encharcadas. Ela ameaçou carregá-lo para não sujar o tapete e acabou sendo carregada e rodopiada pelo quarto, "mas você é gente, Lorena? Não pesa nada, olha aí!" Quando ela sentiu no rosto a aspereza da barba dele, deixou de rir e se fez mais frágil, aconchegando-se entre seus braços musculosos como se aconchegava nos braços do pai. A certeza de que ele tomara banho havia pouco enterneceu-a: não era sabonete de feno? Sentiu de novo aquele mesmo aturdimento bachiano, abriu a boca debatendo-se fracamente, "me larga, me larga!" pediu puxando-lhe os cabelos e ao mesmo tempo pensando que iam acabar amantes naquela noite mesmo. Amantes. Foi a palavra amantes que a assustou até o pânico? Desvencilhou-se. "Vamos tomar um chá? Sei fazer um chá delicioso." Ele a puxou pela mão. Perdera o ar de cachorrão alegre, estava agora sombrio, o olhar baixo. A voz baixa: "Senta aqui, Lorena, senta aqui." Ela correu para encher a chaleirinha d'água, o chá não ia demorai nada, nem cinco minutos. Demorou quase uma hora. Primeiro, foi o fogareiro elétrico que não acendia, chamei-o para me ajudai estuda eletrônica além de Direito. Quando a transa dos fios começou a funcionar, caiu um raio não sei onde e a luz do quarteirão inteiro pifou. Milhares de freirinhas vieram trazer pacotes de velas, gritos na vizinhança, tombos de Irmã Priscila quando foi recolhei a Gata que miava feito doida na treva do jardim, um guarda-chuva — era da Bulinha? — que escapou aberto e saiu voando na ventania. Quando voltou a luz, houve em torno uma certa paz, a paz da contagem, da verificação. No telhado, a chuvinha modesta. Apaziguadora. Achei que o chá se fazia mesmo necessário para armai uma certa atmosfera de confiança, condicionei o amor ao chá. Mas não tem um saci que entra na chaleira e fica soprando a água? Despejei o chá antes da fervura, não que estivesse me afobando, imagine, mas já disse que o chá não fica bom em água fervida. Quando afinal nos olhamos de frente sem chá e sem palavras, adivinha quem chegou. Nunca ela me pareceu tão grande como naquela noite com seu impermeável velhíssimo e cabeleira de tempestade. Trazia debaixo do braço os jornais e uma pasta de estatísticas, estava na fase das estatísticas. Sentou-se no seu lugar preferido que é o tapete, pediu um uísque e tirou as alpargatas pesadas de água. Dei-lhe uma toalha para enxugar os pés depois de oferecer-lhe um banho. Recusou o banho. Adoro me enfiar num chuveiro bem quente depois da chuva, ah, a sensação de bem-estar com o talco e colônia e roupa seca, fico feliz até às lágrimas. Mas Lião não toma banho nem antes nem depois. Estava vibrando com a entrevista que fez com duas prostitutas. Falou um pouco sobre o tema no seu tom discursivo e depois de ligeira abordagem sobre a decadência da burguesia incluindo a decomposição da nossa geração e a falsa virtude dos velhos, rasgou um pedaço de jornal para forrar as alpargatas. Quando começou a recolher os pertences que espalhara pelo tapete, me deu tamanha alegria que lhe ofereci a garrafa de uísque ainda pela metade, leva, querida, tenho mais. Aceitou radiante porque ia ter um encontro com o grupo e naquela chuva, no mínimo uns dois deviam ter se resfriado. Estava em pleno amor com Miguel, ele ainda solto, coitadinho. "Depois tenho uma entrevista no particular" — ela disse fazendo uma cara muito especial. Assim que desceu a escada nos seus três saltos, fui à vitrola, Bach, tinha que ser Bach. Fabrizio fumava, sério, o braço debaixo da cabeça, estirado no chão, aqui só as freirinhas usam as poltronas. Então ouvi passos. "Me mato se for Ana Clara!" E tive o que os antigos chamam de sorriso pálido quando ela entrou de terninho preto, muito digna, ficou mais de duas semanas assim de cara lavada, conversando horas com Madre Alix, meditando e tomando leite. Pediu um copo, recusou o cigarro que Fabrizio lhe ofereceu e sentou-se na poltroninha, tinha me esquecido, Aninha também prefere as poltronas. Queria livros emprestados, estava a fim de destrancar a matrícula no curso de Psicologia, diz que está no segundo ano mas desconfio que não fez nem meio semestre do primeiro. Estamos em exame, eu disse apontando a pilha de apostilas que Fabrizio deixou secando perto do fogareiro. Temos que ler aquilo tudo, já pensou? Ela pegou o copo de leite e foi para a cadeira ao lado da estante. Acendeu o abajur, tirou os óculos da bolsa, todas as vezes que pára de beber volta a usar óculos: "Não vou perturbar vocês, fico aqui vendo uns livros." E sem a menor cerimônia foi desembrulhado o que eu tinha comprado naquela manhã, Deus Existe, Eu O Encontrei, Fabrizio me olhou. Desliguei a vitrola. Quando viramos a última folha, eram quatro e meia da madrugada. Ana Clara se cobrira com meu xale e dormia profundamente, toda enrolada na cadeira. Tinha passado a chuva. "Volto amanhã" — ele disse quando montou na sua moto sem o menor entusiasmo. Fechei o portão. Amanhã conheci M.N.
Aperto a barriga do Pato Donald, presente de Fabrizio. Coém! Coém! Beijo-lhe o bico. Meu pobre cachorrão estabanado, penso abraçada ao pato, fica fiel e me guarda como aquele cachorro do anúncio (policial?) guarda o cofre. Antes de Astronauta eu preferia cachorro mas descobri agora, se cachorro me comove o gato me fascina. Não, minha poeta, não é a morte que é limpa mas cruel, é o gato. Eu voltava do cinema com Aninha (sóbria) quando vi aquele gatinho mijado abandonado na esquina. Fiz mamadeira de um vidrinho de remédio que Irmã Bula trouxe, dormiu no meu pulôver de cashmere, fez pipi e etcétera no meu bidê até aprendei a fazer no jardim, entrou na cama comigo mas pensa que ficou um gato sentimental? deixa-me rir. Passava o dia na almofada, ou dormindo ou me olhando sem muito interesse. Nem agrados nem concessões: um egípcio. Entrou na minha concha mas não entrei na dele. Um dia, sem uma palavra, sem um gesto saiu por aquela porta e não voltou mais. Ainda vai aparecer, sei que vai aparecer todo sujo, rasgado. Cuido das suas feridas, das suas doenças e quando ficar de novo um gato lustroso, gordo, vai fugir outra vez e ser livre. Quem é que segura um gato? Não a mulher que já está velha, ou quase velha, o filho do meio não regula comigo? Deve ter a idade da mãezinha que já fez duas plásticas e está caminhando para a terceira. Outras estruturas, outras esferas. "Sou a mãe dos seus filhos!" — ela deve lembrar as trezentas e sessenta e cinco horas do dia. Chantagem. Meu amado, meu amado, como é que você permite tamanha chantagem.
— Estou fadada à solidão — digo e desato a rir, ouço isso de tia Luci todas as vezes que ela sai de um casamento, um pouco antes de entrar noutro. Ponho um disco da Bethânia, ah, como ela lembra as amenidades de Lião quando Lião bebe e fica amena. Antes de M.N. eu achava que não podia viver sem música mas agora sei que não posso viver sem ele. Morreria com música, as horas, os dias, os meses e o disco aí girando para todo o sempre, lá lá lá lá lá lá. . . Um dia descobririam um esqueleto mais franzino do que os esqueletos em geral, metido numa bata tão tênue que a brisa num sopro desfaz. E o toca-discos soterrado sob a poeira, a música já sem disco e sem agulha girando na barriguinha de um camundongo, li li li li. . . O telefone? Ai meu Pai, o telefone.




quatro


— Tinha um relógio grande assim na torre e eu queria me agarrar nos ponteiros, segurar as horas, por que é que o tempo não parava um pouco? Queria ficar lá dependurado, segurando o tempo. Então mamãe me deu a mão e me levou na praça, era tudo tão verde, foi em Londres? Os músicos tocavam e a gente sentava nas cadeiras escuta, Max, é Mozart. Presta atenção, querido, Mozart. . .
Descubro um biscoito debaixo do travesseiro. Mastigo devagar porque é um biscoito adocicado e não queria que ele acabasse logo gosto tanto de açúcar posso comer açúcar à vontade meu corpo é elegantérrimo não engordo. Posso comer açúcar aos montes e não acontece nada. Lião não pode. Ainda vai ficar obesa aquela lá mais uns quilos e já pode vestir roupas de Mãe-de-Santo Lorena não conta é inseto. Existe inseto com problema de engordar? Um inseto.
— Dane-se esse Mozart, gosto de Chopin. Chopin e Renoir, quero artista doce. A boca no lugar da boca, tudo certo, tudo feliz que de malditos já estou cheia. Foi o que eu disse a Loreninha. Adora ouvir esses piolhentos mas só usa geléia inglesa no pão. Uma esnobe. Deixa-me rir, diz e verga pra trás e faz ha ha ha. Ele largou os ponteiros do relógio e deitou-se de novo.
— A gente não veio ao mundo pra se aporrinhar, aí é que está a coisa.
Procuro mais biscoito e só encontro farelo. Tiro o cigarro da sua mão e a fumaça é açucarada. Seu beijo é açúcar-cande.
— Max, você gosta de Renoir? Renoir, o pintor. Você gosta? Ele recebeu o cigarro de volta e estendeu o braço para o teto.
— Bosch. Hieronymus Bosch.
— Ah, só monstro, só atormentação. Pintura de louco, pomba. Tenho ódio de louco.
Sentando-se na cama, ele começou a movimentar os braços num giro de hélices. Gemeu quando os punhos fechados se chocaram no ar.
— Quebrei a mão. Ui que dor. . .
— Bastardos. Quero coisas lindas. Quero tudo que lembre dinheiro, bastante fartura. Adoro os Estados Unidos, por que não. Aquela subversiva tem raiva porque é uma dura, nunca vai ter nada, melhor que fique com os piolhentos mas eu. O melhor hotel. Quantas estrelas tem o melhor hotel do mundo?
— Inventou a nave espacial, está lá nos quadros, tem uma porrada de naves quando ninguém ainda pensava. Uma droga essa daí que está na lua. Tudo voando, vuuuuuu!. . .
— Gosta de viajar o escamoso. Pois vai viajar, olha aqui a companhia. Os melhores hotéis. Ano que vem recomeço meu inglês, quero aulas de conversação com aquele cara, como era o nome dele. Aquele besta. Pronúncia de Oxford.
— Diabinho de asa, veja só que sacana. . . Tem um que agarrou a mulherzinha pelo pé, isso! Ferro na boneca!
— Podia dormir três dias seguidos murmurou Ana Clara esgueirando-se por entre as pernas do homem. Foi subindo rastejante até atingir-lhe o peito. — Onde está seu copo? Estou lúcida, Max. Foi a aspirina que você me deu? Estou lúcida, nada mais faz efeito. Sei lá.
— Ih, aquele bem pretinho! Está com um penico, olha, olha depressa! Que revoada, ahn? Sai, sai pra lá! — gritou ele escondendo-se atrás dela. Cingiu-a como um escudo. Riu. — Querendo enfiar o penico na cabeça...
— Num penico vivi eu. Só atormentação, só monstro. Cansei. Era que mais? Agora quero dourados, anjos, coisas ricas. Pintura bem quadrada, isto é o que eu quero que abstracionismo já tive. Na realidade a miséria é abstrata. No auge ela é abstrata. Sabe aquele abstrato no estômago? Quero uma casa quadrada. Flores quadradas, quero rosas, tenho ódio de flor excêntrica, aquelas que. A cara no lugar. Ora, Van Gogh. A paixão de Lorena é Van Gogh e aquele outro louco. Nhem-nhem nhem-nhem. Pinta flores de carne sabe o que é carne? Sangram. Carne lixada, o sangue poreja, confessa, confessa ele dizia afundando o pincel. Lião contou que o piolhento foi lixado assim. Se me convidassem para entrar nesse grupo quando era menina você sabe que eu entrava? Enfiava mesmo porque pensava demais em justiça e coisas, era uma menina muito especial, viu, Lorena? Mas agora quero um grupo diferente.
— Tira ele daqui, Coelha! Me abraça.
Ela cobriu-lhe o rosto com o travesseiro. Ficou enrolando no dedo um anel de cabelo.
— Bem feito. Ora, acabar com a burguesia. Mas se é agora que eu. Esperem um pouco, também quero, não posso? Ano que vem, vida nova, meu santo. Tranco a matrícula e depois. Quero ser a primeira, está me ouvindo? Com dinheiro a gente aprende rápido, com dinheiro fica fácil. Sou inteligente, não sou? Psicóloga. O escamoso me compra a clínica caixa alta, tenho nojo de problema de mendigo. Escolho a clientela. Um saco de ouro. Então.
Max torcia-se de rir. Enrolava-se agora nos lençóis.
— Tem um querendo bicar o meu piu-piu, olha o bico dele — gritou se descobrindo. Fechou os olhos subitamente apaziguando. Escondeu o sexo com as mãos. Sorriu. — Mon chou. . .
O ano que vem ele vai ver quem é o petit chou. Vida nova meu lindo. Adeus Ana Clara Conceição filha de Judite Conceição, mas e esse seu sobrenome? Vaca. Fez cara de espanto a vaca. Mulher é mesmo inimiga. Algum professor me esnobou por causa disso? Quem é que se importa com nome. Ela se importou. Vaca. Ciúme porque sou bonita. Você tem uma incrível resistência para línguas Ana! Se eu tivesse um saco de ouro ela teria notado essa resistência? Vaca. A nhem-nhem também fez aquela carinha que conheço quando repetiu meu nome Ana Clara Conceição? Conceição sim senhora. E daí? Quem mais nesta cidade se importa com nome. Cidade formidável acabou tudo isso agora é só saber se a gente tem ou não um saco de ouro em casa. Se tem pode ter o sobrenome de merda e as pessoas enchem a boca e dependuram no seu peito uma medalha. Acabou isso de nome acabou tudo. Tempos novos minha boneca. Gosta de brincar me chamando pelo nome inteiro Ana Clara Conceição você está me ouvindo? Estou Lorena Vaz Leme. Descendente de bandeirantes. Original pomba. Estupravam as índias e metiam um tição aceso no rabo dos negros pra saber se não tinham escondido um ourinho lá no fundo. Mas eram tão bacanas. Os chapelões enormes e os nomes mais enormes ainda. Quem é que está ligando hoje pra essa conversa de bandeirante. Rasgo a certidão com o pai não sabido e ignorado e quero só ver. Certidão nova pago uma certidão nova com pai conhecido e sabido. Batizo meu pai pra me casar não posso? Nome de imperador. Então. Quando o escamoso ler a certidão certinha vai babar de gozo. Caio César Augusto. Caio César Augusto Conceição. Professor. Ou físico? Bacana ter um pai físico. Cientista. Melhor ainda professor universitário. Não tem uma porrada de universidades espalhadas por tudo quanto é canto? Por que meu pai não pode. Uma débil. Fazia amorzinho até em terreno baldio isso ela sabia fazer mas agarrar um daqueles vagabundos pelo cabelo e levar ao registro vamos você é o pai dela dê aí seu nome que você é o pai. Porque morreu vou ficar sentimental?
— Só alegria — disse ele abrindo os braços. — Se a gente afundar vão se abrindo assim tão alegres. A vida fica perfumada e doce. Uma paz tão fabulosa. A alegria!
Fico olhando Max dormir todo feliz segurando o pinto. E tem coisa melhor pra segurar? Muito lindo o meu amor. E daí. Ano que vem você vai ver. Não fico sentimental só porque ela. É isso que a senhora não compreende. Não quero botar a culpa em ninguém não vou ficar o resto da vida acusando mas... Sei lá. Os tipos nojentos que levava pra cama. Uma sorte não levar negro devia ler alguma coisa contra negro. Vi de tudo menos negro. Uma sorte não gostar de negro pomba. O Jorge tinha aquele cabelo duro usava touca de meia. Mas era branco lá à moda dele. Como os outros. "Seu tipo é de italiana. Você descende de italianos?" perguntou Lorena. O escamoso também perguntou igual. De italiano não. De francês. Podre de chique descender de francês. Meu pai era francês. Jean Pierre Lariboisière. Lariboisière? Sei lá na hora decido meto o nome que entender não estou pagando? O Conceição e da mãe. Assim que se separaram tomei o partido dela. Boa filha. Então. Mas como é que. Sei lá. Chega de pergunta não está vendo meu cabelo ruivo? Minha pele? Tudo autêntico. Branquíssima. Bastante suspeita é a Lião. E mesmo a Loreninha com seus bandeirantes. Sacudo Max:
— Você também é branco, amor. Não temos nada com esses subdesenvolvidos, somos brancos, está ouvindo?
— Uma manhã tão contente. A manhã de sol. Dá a mão pro sol! Dou a mão que ele segura e depois larga. Na mão do Jóge tinha uma letra tatuada era um R? Um anel de pedra vermelha no dedinho. Ela falava Jóge. A unha do dedinho mais comprida do que as outras por que era mais comprida? A touca de meia pra alisar o cabelo caindo até o ombro. Sabia dançar figurado, ganhou até um troféu num programa de calouro. Um Degrau Para A Glória. Bicha. Na certa deu o rabo pro animador.
— Max, estou lúcida, acho que tomei aspirina. Foi aspirina?
Procuro no chão um cigarro. Bebo na garrafa e fico tragando até chegar à estratosfera mas por que essa barragem de pedra? Preciso me desligar Madre Alix. Queria tanto esquecer e não esqueço. Fica às vezes na minha frente com aquele olho pingando de amor e dizendo pra gorda que o Jóge dança qualquer musica na perfeição e que no programa ganhou um troféu deste tamanho Madre Alix me ajuda. Me ajuda me ajuda me ajuda, Eu não quero mais lembrar e lembro. Sei que a infância acabou tudo acabou e que ela era uma. No ano que vem vai começar tudo novo e tudo bom e eu posso viver como se não tivesse atrás esse começo. Mas ouço às vezes tão perto a bofetada que ele dava nela e que fazia funcionar o anel de pedra do dedinho. O quarto gelado da construção que não acabava nunca e ainda bem que não acabava porque o dia que acabasse. O Aldo. Era o Aldo. "Tão bom o Audo" ela dizia mas acho que pensava ainda no Jóge. "Quero voltar pro Recife assim que acabar essa maldita construção e me livro de você com sua maldita filha." O cimento cinzento os ratos cinzentos sujos de cal as baratas cascudas, sujas de cal e nas unhas nos cabelos na boca cal cal. Entrava no pão nos olhos nos ouvidos e a gente precisava soprar o pão e a roupa. Por que você está sempre sacudindo as coisas a Lorena me perguntou. Tão fina a poeira de cal tão branca e fina. Loreninha diria sutil. Uma noite olhei pro Aldo com sua camisa nojenta e o boné de jornal. Cal na cara nas gretas nas pestanas. Ele era inteiro uma estátua no meio do quarto. Minha mãe já tinha apanhado feito um cachorro e agora estava deitada e encolhida gemendo gemendo ai meu Jesus ai meu Jesus meu Jesusinho. Mas o Jesusinho queria era distância da gente. Então catei a primeira barata que passou pelo fogão e joguei dentro da panela de sopa. Aí parei de chorar chorava de ódio e o choro de ódio é estimulante as minhas melhores idéias nasceram do ódio. Fiquei olhando a barata atravessar num nado de peito toda a piscina de sopa e transpor a ilha enrugada que era a folha de couve e chegar na outra margem juntando as mãos e pedindo pra sair da panela fervente. Chegou a subir até a borda com as asas compridas pingando pingando e me olhou sentimental como minha mãe me olhava ai meu Jesus meu Jesusinho. Com a colher empurrei a baratona pro fundo não Madre Alix não quero mentir aporá. Agora não. Não tive pena nem nada quando ela veio me dizer que tinha que tirar mais um filho porque o Sérgio não queria nem saber nesse tempo era o Sérgio. "Não quero nem saber" ele disse dando-lhe um bom pontapé. Uivou de desgosto o dia inteiro e nessa noite mesmo tomou formicida. Morreu mais encolhidinha do que uma formiga, numa pensei que ela fosse assim pequena. Escureceu e encolheu como uma formiga e o formigueiro acabou. Rua dos Guaianases fundos Não tinha cal mas tinha violão e futebol. O gaúcho também cantava. Chutou na perfeição. Ou foi aquele outro? Não interessa. "Ele matou seu irmãozinho" — ela choramingou apertando a barrigona. Quando voltei de noitinha a primeira coisa que vi foi a lata aberta no chão. Fiquei olhando, Não chorei nem nada mas por que havia? Não senti nada. Tinha a cara no travesseiro manchado de preto e o corpo encolhido e retorcido como a formiga no rótulo da lata. Apaguei a luz e saí pensando que se fosse trabalhar na manhã seguinte podia trazer lá da floricultura as flores de cabo quebrado. Mas não vou voltar a trabalhar nessa floricultura porque tenho ódio dessa floricultura. Não quero mais nada que odeio. Nunca mais ninguém vai me ver. Agora estou sozinha. Noite estrelada com gente do cortiço se despencando pelas janelas pelos muros. "Sua mãe está lá? A novela já começou. Ela não vem?" perguntou a Mina que engravidava dia-sim dia-não. Ia vibrar com a pílula. Minha mãe também ia mas às vezes falha.
— Max, estou grávida. Que é que eu faço que é que eu faço.

Os diabinhos ainda voam por aqui e brincam comigo e eu dou beliscões em Max que nem sente nem sente. É festa? Esqueça esqueça. Levanto a cabeça e entro na estratosfera podre de azul grito azul e deslizo azul até o chão rastro veludo-e-ventre a gente devia andar só assim liquefeita e azul colada ao chão escorrendo os braços de rio sem nenhum perigo de cair nem nada. Tanta coisa no chão olha aí. A brasa trinca os dentes e se apaga na água mas o gafanhoto adulto vem vindo e me olha com seus óculos redondos e me estende as mãos juntas e fica na minha frente com seus sapatos pretos de amarrar e meias brancas. Fico rindo dos seus sapatos mas ele está sério e suplica juntando as mãos verdes "você me prometeu Ana Clara!" Beijo seus sapatos. O ano que vem Madre Alix. O ano que vem. Já está tudo programado isto é só a despedida estou lúcida não estou? A gente tem que conhecer as coisas todas chegar ao fundo do poço e depois dar aquela arrancada de avião uiiiiiiiiiii! Meu noivo tem um aviãozinho só dele. Dou uma casa pra senhora uma casa na praia, tenho paixão pelo mar olha ai o mar. Tinha a minha amiga vesga lembra? Adriana. Está vendo como estou lúcida? Adriana. Ela não sabia onde eu morava não sabia nada e pensou que eu também podia ser do grupo a gente se conheceu por acaso na fila do cinema e depois tomamos sorvetes juntas e intuí logo que ela era rica a Loreninha diz muito isso eu intuí. Também eu pomba. Fiquei sutil como a rataria em noite de lua sabiam que a lua clareava tudo e tomavam seus cuidados. Inventava quilos e comecei a ficar tão esperta a intuição me dirigindo por aí não! depressa fecha a boca agora dê risada. Agora chorei. Fecha a boca Aninha! Fechei muito a boca porque a ponte estava cai-não-cai. Então a velha quis saber por que eu andava assim quietinha. A casa era enorme bem defronte do mar ninguém mais podia tomar banho naquela praia só a gente. Então a velha quis saber. Meu pai morreu num desastre de aviação e minha mãe está com câncer. Ela então se benzeu meu Deus que horror. Que horror ficou repetindo e sacudindo a cabeça e me consolando porque já comecei a chorar "ah minha pobre menina minha pobre menina." Vai acontecer que nem nas besouragens da mulher importante que adota a órfã pobre e bonita. E vem um sobrinho orgulhoso e cruel porque me visto mal mas logo fica vidrado de amor e se atira em mim que nem. E o Doutor Algodãozinho? Digo que aconteceu num tombo que levei. Tombo não um negro me agarrou no campo quando fui num piquenique e rasgou meu vestido e perdi os sentidos Doutor Hachibe sabe disso aquele meu analista. A casa no alto de um penhasco e a mãe me detestando no começo porque queria que o filho se casasse com uma prima rica e vesga que nem a Adriana. A verdade Madre Alix minha querida minha santa. A verdade na miséria fica um lixo. A nhem-nhem é igual com essa mania. Se um daqueles discípulos desse um saco de ouro pra Pilatos ele lá ia lavar as mãos? Lavava nada. Arrumava um cavalo e Jesus fugia pelos fundos e ainda por cima com uma escolta da cavalaria montada garantindo até a fronteira. "Mas isso tudo é mesmo verdade?" estranhou a mulher enquanto ia tecendo um tapete fazia um tapete e era exigentíssima tanto no trabalho como no questionário. Antes de falar eu precisava pensar mas ela trabalhava tão depressa com a agulha que comecei a me enredar nos fios. Aconteceu quando meu pai guiava um Opala e ela parou a agulha. "Opala? Mas não foi num avião?" Recomecei a chorar pra ganhar tempo. Primeiro foi com o Opala e depois. "Mas seu pai tinha um avião?" ela se espantou. Ele era o aviador. O avião era de um velho que lidava com petróleo. "Petróleo?" Petróleo sim senhora. "Como se chamava esse homem. Esse patrão do seu pai." Ah lá sei. Sei que era um homem importantíssimo tinha avião tinha iate. Ah. "Ah — fez ela recomeçando o maldito tapete. — E depois?" Depois o avião se espatifou nas pedras tinha caído uma horrível tempestade e meu pai perdeu o controle foi isso. Então minha mãe piorou lá do câncer dela e perdemos tudo e fomos morar com meu tio que é um grande médico. "Médico? Qual é o nome dele?" Fui ficando com raiva então era só ir fazendo a vontade dela? Um grande médico sim senhora importante à beca tio Clóvis. Já ia perguntar o sobrenome dele quando entrou a vesguinha. Tinha uma concha na mão. Clóvis Conchal respondi sem pestanejar. Clóvis Conchal repeti e antes que ela me cutucasse com mais perguntas como cutucava o pano dei um grito sacudindo a mão uma vespa! Saí correndo ai que dor que dor. Não se voltou a falar no meu pai não sabido e ignorado nem na minha mãe que tive a idéia de sentar na sala de espera da morte nada melhor do que a morte pra apagar as pegadas como a onda apaga toda a escrita da areia. As noites cintilantes. Noites cintilantes. As pessoas cintilantes bebendo e rindo com o mar lá na frente não sei porque disso tudo me ficou uma lembrança assim de pedrarias e gelatinas azuis vermelhas verdes nas noites de copos na varanda. O colorido dos vestidos alguns tão brancos como ovos batidos por quê? por que essas pessoas, me faziam pensar em coisas de comer? Gelatinas e cremes parecidos entre si como fatias saindo da mesma massa. Da mesma forma. Minha boca se enchia d'água como diante diurna mesa posso? A fome antiga tão antiga posso? Não. Ainda não. Nenhum priminho pra me amar? Nenhum casado pra me seduzir? Deixa-me rir diz a nhem-nhem. O jogo era entre eles e jogo alto. Sobrou a velha solitária que eu olhava com olho comprido quem sabe está querendo minha companhia no seu castelo? Eu iria à festa com meus trapos mas quando o príncipe me visse entre as debilóides das princesas. Na minha história nem faltava a amiga vesga e rica já se esquivando porque a comparação era inevitável. "Quando meu amor completar quinze anos vai ser operada da vista na Inglaterra não é amor?" E o amor envesgando ainda mais de pura alegria o bocão rindo rindo. Eu vibrava. É evidente que depois Adriana vai ficar uma boneca mas por dentro dava cambalhotas de gozo. Porque nem operada por Deus aquela cara ia ter concerto. Nenhuma será minha amiga Madre Alix nenhuma. A senhora me ama mas a senhora é santa não conta. Na realidade. Como podem me perdoar? Nem a Loreninha que me dá presentes e dinheiro e me pinta quando minha mão treme demais nem a Lorena que lava meus pentes. Oriehnid. Aquele arzinho superior que conheço bem. Como se eu fosse uma agregada. Me esfregando a família na cara o tal tronco de bandeirante de chapelão e bota. Os senhores da terra que abriram cidades. E o rabo da negrada? Não é que não goste dela. Gosto. Mas me enerva com aquele jeitinho todo especial de dar conselhos sem aconselhar uns conselhos enroladinhos toda ela é enroladinha. Nhem-nhem. Uma coleção de vestidos bacanérrimos uma coleção de perfumes bacanérrimos e Com aquela roupeta de menininha cheirando a sabonete. "Não gosto de muito perfume só uma gotinha às vezes." Muito apurado o insetinho com sua minigotinha de Miss Dior. Na realidade quer dizer que uso perfume demais que sou vulgar porque despejo perfume em mim. Despejo mesmo pomba. E então. A outra da esquerda faz aquele sorriso da esquerda e também arreganha o nariz "Sinto seu Perfume até no meu quarto." Trabalhando pela pátria. Ora dane-se. Quem e que esta pedindo quem? Fica me olhando com o olhão Parado. "Que é isso no seu braço? Uma picada?" Picada sim e daí. Paro com tudo quando bem entender. Vou ser capa de revista. Me casar com um milionário. Fique aí embananada porque o ano que vem. Como sou boa posso ainda ajudar você e seus piolhentos ajudo todos. Dou uma casa pra suas reuniões. Dou uma casa pra Loreninha que vai ficar sem nada com aquela mãezinha esbanjando a fortuna não tem importância não interessa. Resolvo tudo. Então fico verdadeira. "Só peço a Deus pra ser sempre verdadeira" — ela disse não sei quantas vezes naturalmente com intenção de. Verdadeira. Com dinheiro também fico pomba. rico a própria boca da fonte jorrando a verdade. É fácil dizer a verdade na riqueza. Bacana os gloriosos contando nas entrevistas que na infância reviraram a lata com os ratos muito bacaninha tanta autenticidade. Coragem não? Bonito. Mas é preciso ter quatro carros na garagem e caviar na geladeira e uma vila na puta-que-pariu pra confissão ficar interessante. É preciso cuspir dólar pra ter graça a história do mascarado-cu-rasgado é preciso Madre Alix minha santa santa. Por enquanto ainda não. Quando me estruturar conto tudo esconder onde. Sabe o que é se estruturar? Se forrar de oriehnid. Antes me costuro e faço um enxoval que o escamoso gosta de me exibir prós meia-cervejinhas dele. Escolho um bom analista que agora sou eu que não quero mais aquele louco. Bastardo. Ganancioso. Perguntei se tinha se casado por amor e me respondeu que era um amor que durava até hoje. Casar por amor ora. Se com este daqui que amo às raias não sinto nada imagine só como vai ser com aquele escamoso. Me atocho de óleo e fico ganindo. Está lá descascando o pãozinho dele por que se atrasou? Fui assaltada pronto. O tipo me levou pro mato e se não fosse o Agnus Dei da Madre Alix. Estou sem dinheiro todo aquele que você me deu. Ah Madre Alix diga que não vai acontecer nada me abençoa e bota a mão aqui na minha cabeça que está fazendo roque-roque passa sua mão e eu esqueço como quando vinha aquela onda e a espuma.
— Aterrissar! Aterrissar! — gritou Max abrindo os braços e desabando de bruços no travesseiro. — Eu vi numa vitrina de cristal sobre um soberbo pedestal, ih, Coelha, essa música, eu queria cantar tudo, é uma boneca que ele ama, uma boneca na vitrina, uma puta de uma boneca mais linda que Vênus, no bazar das Húmus no reino das fascinações! — cantou e se afogou no riso.
A estrada vermelha. Estou contente porque a estrada é vermelha, Passou um anão agora mesmo aqui no canto do meu olho mas precisamente. A estrada é vermelha de sol. Vou indo no sol e vou contente porque faz calor e o vento. Lá longe vejo o cantor vem vindo com sua guitarra elétrica antes de ver sua cara vejo a guitarra brilhando no sol é como se tivesse um outro sol dependurado no ombro. Um negro mas desse eu gosto. Gosto de todos os negros gosto de todo mundo todo mundo é bom pra mim e estou contente de sol e de música ele vem cantando pela estrada e as coisas todas vem cantando junto uma alegria vermelha tão quente boa viagem! grito e ele me cumprimenta rindo gosto desse daí com sua guitarra elétrica que brilha tanto que preciso fechar os olhos é um sol! Boa viagem ele diz no meio da luz vermelha da estrada e agora ficou longe sua cara sua guitarra. A guitarra.
— Onde estou? Que horas são?
Esfrego os olhos que ardem. Sento no tapete. E isto? O pé de Max pende fora da cama. Beijo seu pé. Meu joelho está molhado. Uísque? Uísque é evidente. Como pode ser baba? Teria que ser um crocodilo. Abro os braços de alegria ah aquela estrada. Falar. É preciso falar tudo é ir falando o tempo todo deixar correr a confissão como vai correndo o mijo. Quero mijar vou de rastros até o banheiro agora sou vegetal se alastrando. Trono alto tenho que fazer na banheira levantar a perna como o Lulu. Vou ter daqueles cachorros bacanérrimos com pintinhas pretas e olho azul como é o nome? Aquele. Mas quero também um vagabundo com a cara do Lulu. A única coisa decente que tive a única que me amou vem Lulu eu chamava. Vem Lulu. E ele vinha rindo e dando esguichadas de pura alegria. Passear Lulu! Passear. Quando vi a praia pensei logo nele o Lulu vai contente correndo aqui na praia. O mar. No mar esqueci minha mãe inesquecível o rançoso da brilhantina do Jorge com a meia enfiada até a orelha nesse tempo era o Jorge? Tempo do Doutor Algodãozinho a ponte já vacilava na minha boca mas vinha a espuma e me cobria e eu podia rir sem passado sem visgo uma onda atrás da outra e os algodõezinhos afundando na espuma. No mar fiquei sozinha porque enfiei tudo num saco e fechei a boca com corda como a Mila fez com os gatinhos e joguei lá onde passam os barcos minha mãe o quarto os homens as baratas as roupas. O Lulu não. O Lulu eu enterrei num caixão de ouro branco ninguém vai jogar meu cachorrinho no lixo volta Lulu. Volta. Te dou um osso de ouro volta me lambe a cara a mão ai que dor. Que frio quero o tapete. Vem Aninha vem aqui no tapete eu chamo e obedeço. Não chora que te dou. Não chora vem. A garrafa boiando na onda tem uma mensagem dentro se eu rastejar mais um pouco. Estendo o braço e bebo a mensagem que diz. Fico boiando e o sol brilha indo e vindo no mar de pedra verde em cada onda tantas pedras. A pedraria verde uma imensa pedraria toda verde arranco um pedaço de mar e me enrolo nele. Pomba quero saber agora quem tem um vestido igual. Quem? Estou acesa com um holofote aberto no ventre. Deslizo e o ventreporto me leva às furnas onde me penetro e me escondo. Cuidado! A voz me avisa e abaixo a cabeça e vou remando agachada porque o teto é baixíssimo. Ouço o plaque-plaque da água batendo solta nas paredes. O escuro das gretas. Borbulhos dos bichos de sombra colados às folhagens o maior deles me espiando por entre a mata de pêlos vivos grossos. Barbatanas. Levanto o remo e bato com força mas as ventosas se enrolam em minhas mãos e me puxam para o fundo mais fundo me larga! Arrebento os fios nos dentes e fico batendo até a dor ficar insuportável. Acordo. Estou molhada de suor. Fico olhando meu ventre latejante. Limpo a cara no tapete. Tinha que engravidar? Tinha. Debilóide. Engravidando igualzinho. Mas o ano que vem me arranco feito um jato a diferença é essa ela virou formiga e eu. Me desgrudo desta pele e nasce outra sem tatuagem sem nada. Empurro a garrafa e fico rindo toda dourada por dentro. Depois do mar e do leite e sei lá. Não interessa. Digo que me atrasei porque aquele negro da estrada que era tão meu amigo de repente voltou e me agarrou rasgando meu vestido olha aí meu vestido rasgado. Que é que o Doutor Algodãozinho tinha de negro. A unha? A unha. Lião fica fumegando com a negrada. Tem paixão pela negrada. Corintiana. Disse que era abominável falar assim e só não deixava de me cumprimentar porque era minha amiga mas se eu continuasse era capaz de. Compreendo minha boneca compreendo mas quero só ver se você se casaria com um negro e ela ficou histérica é evidente que sim e só não casava porque não queria nem saber de casamento mas se um dia se apaixonasse por algum pensa então.
Penso sim. Penso. Então não sei. Você e toda essa corja tem ódio de negro. Que nem eu. Todo mundo tem ódio. Mas não tem coragem de dizer e faz aquele olho bonzinho. O ano que vem. Destranco a matrícula e faço meu curso fácil sou inteligente à beça. Uma casa podre de chique na praia convido convido todos podem morar lá não sou mesquinha dou pra vocês também. Quero jóias. Tudo brilhando.
— Jóias! — grito e sacudo Max que me olha mas continua dormindo. — Max, vou me casar com um escamoso mas não te abandono nunca. Está ouvindo, Max? Posso casar com mil escamosos e não te abandono nunca nunca.
— Dorme — ele diz e sua baba escorre fio-de-mel na barbicha.
Beijo sua mão seu peito. Beijo a medalhinha de ouro que está toda enredada na corrente que santo será esse? Beijo a medalha beijo seu pescoço. Mas não te abandono. Pra onde eu for te levo comigo e te protejo. Protejo. Compro uma casa linda fique com ela pomba. A gente faz uma desintoxicação com leite a gente se cuida fique tranqüilo. Quando o escamoso começar a encher o saco me desquito. Metade das fábricas e livre livre. Desabo no tapete e gemo de dor bati com as costas onde?
— Foi aspirina que você me deu, Max. Acho que foi aspirina, estou podre de lúcida, olha aí.
Ele agora está com soluços. Deve estar com os pés frios cubro seus pés tem pés de estátua com as unhas cortadas retas como nos pés das estátuas. Se fosse jogado assim nu no meio de todos os bastardos da minha mãe se destacava na hora como se tivesse vindo. Pode enfiar aquela meia na cabeça e usar a brilhantina e não fica rançoso nunca. Mas esconder a minha marca. A marca escatológica a Lião fala demais em escatologia tinha uma peça fomos ver e ela vibrou. Diz que é a visão do fim do mundo escatológico sei lá. Mundo deles que o meu e outro. Me viro pra fazer sumir a marca mas pensa que. Só no teatro no teatro fica muito bacana o cara ensinar à trapeira a fala nobre aquele cara de roupa xadrez como era o nome dele. Tudo mentira. Enquanto a gente não tiver aquele saco de ouro a pronúncia não funciona porque vem a Lorena e descobre. Dane-se. Um inseto.
— O ano que vem, Max. O ano que vem stop, está ouvindo? Você só vai tomar leite. Chega. Acredita em mim, Max, nunca mais, está ouvindo? Max, diga que acredita em mim pelo amor de Deus!
— Ai, Coelha, está doendo. . .
Diga nunca mais, vamos, diga nunca mais!
— Nunca mais. Nunca — ele repete e se sacode todo em meio a um soluço mais forte.
Colo minha boca na sua e assopro até passar o soluço. Ele se debate e se aquieta sorrindo para mim ou para alguém que está atrás de mim acho que agora está vendo a mãe faz essa cara quando vê a mãe. Começo a chorar mas não estou triste estou é estimulada como aquela barata que fez a travessia em cima da .opa estourando no vulcão e chegou inteira do outro lado não chegou? Também chego do outro lado e ainda volto pra te buscar. Vamos ter dinheiro meu amor e você larga esse trabalho perigoso e sujo tenho tanto medo que te apanhem Max. Se te apanham. A Lião disse que estão apertando demais o cerco estou com muito medo.
— Acorda, Max, estou com medo! Não quero mais que se arriscando, pros menininhos não! Me ajude Madre Alix eu não quero mais assim, não quero, ouviu Max? Vamos começar tudo de novo, fazer esportes, hora de esportes, vamos, começa — ordeno agarrando seus tornozelos: — Mexa essas pernas, vamos nadar um pouco, olha aí o japonês cronometrando. Faça motorzinho, depressa, um-dois, um-dois, mais força nisso! Um-dois!
Beijo seus pés e neles enxugo as lágrimas que não param de cair. Comecei chorando baixinho e agora estou aqui aos berros tenho ódio de chorar porque me estraga a cara que tem que ficar em ordem apostei tudo nela está me ouvindo. Mas agora tenho que berrar tem vento mas grito mais alto do que ele ô!. . . Ôooooo!. . . Rolo nas nuvens e caio num fio dental que me apara na gangorra tem uma moça de porcelana branca na outra ponta eu subo e ela desce. Vestida de primavera em que jardim ela estava? Tira flores do cesto que está no colo e as flores têm aquele arame que vara i comia não essas flores não. Essas não eu digo e ela começa a cantar fui andando pela ponte a ponte estremeceu. Seguro a minha com a ponta da língua água tem veneno maninha quem bebeu morreu. Mas eu não bebo eu não que já sei eu não! grito e ela saiu dançando pra se encontrar com as irmãs que descem o gramado de mãos dadas. São tão brancas e leves com os vestidos de porcelana uma dizendo eu sou o verão. A outra encapuzada dizendo. A musiquinha é feita dos sinos de Lorena e fala na alegria de cada estação ah quero essas estátuas no jardim da minha casa "somos as quatro estações as quatro irmãs!" Agora a encapuzada chegou bem pertinho de mim e arrancou o capuz. Sorriu. Não tem os quatro dentes. Escondo a cara no lençol mas ouço o riso da formigona desdentada com sua boca de fenda. Se eu pudesse. Não tem importância. Nenhuma importância diz o anão que passa. Pisca pra mim. Puxo sua barba e rolamos na maior alegria ô como te amo. Arranco o cigarro da sua mão e subo com a fumaça pelo cone do abajur. Felicidade é isso é se preparar calculando tudo ponto por ponto. Depois jogar no lixo as muletas todas. Boa essa palavra. Estruturar.
— Jogar tênis, meu lindo. Sempre quis aprender, lembra?
— Estou com fome — gemeu ele. Tinha os olhos fechados. — Que fome.
Ela encolheu as pernas e apoiou o queixo nos joelhos. Bateu a cinza no lençol. "Quero montar também. Saltar obstáculo acho demais aquela roupa vermelha caça a raposa ainda tem raposa?" Um espetáculo o controle sobre o cavalo controle de nervos. Estendeu a mão que tremia. Se desintoxicar numa clínica bacana a Lião fala desintochicar. Riu. Levaria as duas para a casa da praia até que gostava bastante daquelas duas bestas. Gostava sim. Estendeu a mão que segurava o cigarro. Um bom tratamento e não teria problema. Na realidade menos resiste a um Porsche na garagem? A um Renoir na sala? Heim? Haveria ainda algum. Renoir à venda?
— Max, tem Renoir à venda?
Punha um anuncio. Pergunta de anuncio. Riu. Metade gozação, metade pra esnobar "Chocar esses bastardos. Milionária sul-americana compra um Renoir de preferência com as demoiselles sei-lá-o-quê de cabelos da cor do meu colhendo flores no campo. Banhistas de calcanhar cor-de-rosa existe pé com calcanhar assim? Lorena disse que ele pintava a classe média francesa mas se classe média eram aqueles veludos e flores queria eu estar nessa classe."
— A gente não veio pra se aporrinhar, ahn? — disse ele estendendo a mão. Traçou com o dedo um círculo no ar. — Veja a cor no avesso. Onde vai esta louca...
Ana Clara distendeu as pernas. Deslizou pelo corpo nu as mãos abertas. Fechou-as na altura do ventre e golpeou-o com fúria. O olhar intenso se fixou no púbis. Deixou tombar sobre ele a mão fechada num último murro enfraquecido. Mais despesa. Mais chateação. "Engravidar de um duro desses. E agora dorme como um anjo. Pois agora não dorme."
— Max, acorda que eu quero conversar. Quero conversar!
— Cuidado, Duchinha, o verde é venenoso. Vai no vento tão louca...
Quando menino ia com a irmã colher cogumelos mas onde? Onde é que podia haver tanto cogumelo assim. Guarda-chuva de sapo. Tão úmida a construção que começaram a brotar por entre as pilhas de tijolos cobertos de limo. O mato rasteiro. E os cogumelos brancos lembra? Era bom despedaçá-los entre os dedos cravar as unhas naquelas copas penugentas que se deixavam esfrangalhar sem resistência. E pisar nas formigas ruivas mas nas baratas não. Faziam craque-craque debaixo do pé enquanto a massa silenciosa saía como de uma bisnaga que se aperta até o fim. Eram peitudas e nadavam bem naquele bravo nado de peito vupt. Vupt. Mas tremiam de medo quando eram caçadas. Também os cogumelos tremiam com suas calvas brancas. Arrogante só a formigona de nariz arrebitado e fenda na boca rasgada de uma orelha à outra. Ria ria com o bocão desdentado a bastarda. Pensar que podia voltar de novo tão traiçoeira. Às vezes era apenas uma bolinha de gude. E de repente no vidro preto ia se desenhando uma cara que crescia com a rapidez do inferno e sob as ventas arrebitadas prestas.
— Acho que estou precisando, pomba. Mas tenho que para todo mundo já está com o saco cheio, só aporrinhações, quem quer saber. Quem. Só Madre Alix que é santa. Estou ouvindo, filha, pode falar o que quiser se isso lhe faz bem.
Mansamente Ana Clara foi enrolando e desenrolando no dedo uma ponta de cabelo. "Faz bem sim. Faz bem. A única desinteressada a única. Até o Kléber. Louco pra agarrar a gente o sacana. Que respeito posso."
— Que respeito? — perguntou ela golpeando o colchão. — Bestas. Todos uns safados e bestas. Melhor fluido de isqueiro que qualquer fluido é melhor do quê. Caríssimos.
Mas precisava. Quase endoidava às vezes de vontade de ficar falando das aporrinhações. Dos sonhos. E pagar com um cheque pela falação. Puro masoquismo. "Porque fico falando tudo o que mais me feriu me ralando de novo com o que fiz e não fiz. E pagando ouro em pó pela autoflagelação."
Os sonhos. Alguns voltavam como aquele das flores. Flores enormes se abrindo e se fechando de todas as cores, as pétalas-portas, entre! entre! Mergulhara até o fundo do caule se apertando como um túnel, lá onde corria um rio licoroso. Bebeu o rio até chegar à cerejinha espetada num palito. Mordeu-a e ela se contraiu dolorida, sangrando licor vermelho. Tirou o fio de arame, era num fio de arame que o coração estava espetado. "Comi meu coração", descobriu deslumbrada, pronto, não ia doer nunca mais. Mas veio um copo transbordante de cerejinhas vermelhas, milhares delas se multiplicando, espetadas nas farpas. "Meu Sagrado Coração de Jesus. Meu Coração de Jesus", não era a mãe rezando? Rezava e pedia a morte. "Me tire, meu Coração de Jesus, me tire. Ou tire ele." Tirou ela. Que o Jorge ficou no melhor da saúde. Era o Jorge ou o Bingo? Podia também ser o Aldo. Ou o velho do lábio leporino, na época não sabia o que era lábio leporino. Vendia bilhetes, cobra. Borboleta. A gravura colorida estava numa moldura sem vidro. Que vidro podia enquadrar aquele coração vermelho-escuro, entalado nos espinhos gotejantes. "Tirou ela. Os outros todos ficaram. Ou morreram também? Sei lá, não interessa." O velho de lábio leporino tinha um nome tatuado no peito.
— Quero comer. Coelha.
— Está bem, então dorme.
A agulha subiu tremelicando e pairou sobre o disco. Veio da mesa uma vaga onda de ruídos filtrando-se pastosa através das persianas fechadas. Quando a agulha tombou de novo no prato, Ana Clara relaxou a posição tensa: odiava aquela música mas ainda assim era melhor do que ficar se ouvindo. Voltou o olhar desinteressado para o abajur. O cone de luz forcejava por entre a massa espessa da fumaça. Em redor, a penumbra atenuada pela cortina cinza-claro tomando toda uma parede, acetinada tela metálica defendendo estática a intimidade do quarto. Ele tateou por entre o lençol.
— Você está aí, Coelha? Sacudíamos tudo e a poeira voltava e cobria tudo e a gente sacudia a roupa o cabelo a vassoura a comida. Pronta entrega em setembro próximo. Dez apartamentos por andar falar com o guarda no subsolo. Cal e cimento e o cheiro frio. Também ela com seus sonhos também a cabecinha de alfinete sacudindo o pano de prato e dizendo que estava no sonho tão contentinha passeando e de repente caí num barril de cimento e fui afundando no cimento mole me entrando pela boca pelos ouvidos. E de repente filha não era mais cimento era pior ainda era uma fossa. Uma fossa. Acordo e tenho que me lavar feito louca sentindo o cheiro ainda no nariz. Adamastor. Esse era o Adamastor. As mãos ressequidas batendo os pregos. Carregando as tábuas mexendo o cimento. Apertava um tijolo em cima do outro e espremido pelo vão escapava.
— Tenho que ir. Ele está lá com o pãozinho todo roído, me esperando.
— Quem?
— Aquele lá. Já descascou um pãozinho inteiro, ele gosta de ficar descascando o pãozinho. Corintiano também. Ele e a Lião. O que é corintiano? perguntou a Lorena, ela nem sabe o que é futebol, você já pensou em falar com a deusa Diana sobre futebol? Então. Também detesto, só negro. Mas sei essa coisa de corintiano. Branco e preto que nem a Lião. Está me esperando lá na mesa. Esse meu noivo.
— Você tem um noivo, Coelha?
— Tenho. Meu noivo é um saco mas tem oriehnid.
— Ele é bonito que nem eu?
— É um anão. O corpo é coberto de escamas, as escamas começam aqui na barriga e vão subindo, subindo e quando chegam aqui debaixo do braço, está vendo? — prosseguiu ela avançando as mãos. — Aqui, está vendo bem? Aqui tem escama à beca. . .
Ele se sacudiu num acesso de riso. Enlaçaram-se rindo.
— Tinha a história da morte que montou nas costas do velho e não desmontou mais, o velho pescador ficou sendo o cavalo dela — lembrou Max acariciando-lhe de leve o bico do seio.
— E daí.
— Acabou. A cozinheira lá de casa sabia tanta história. Vamos, Coelha, vem comigo e te mostro um diamante da cor dos seus cabelos, te mostro os jardins, os templos! Te mostro o sol e minha casa pintada de branco, te mostro o Afeganistão, te mostro. Lá os preços são irrisórios. Te compro coqueiros, camelos. Quer um camelo. Coelha? Te dou um camelo, você passeia montada num camelo. . . Ahn?
— Você disse que montou um dia num cisne, lembra? Lembra, Max? Você disse que montou num, cisne, que cisne foi esse? Hein? Responde, que cisne foi esse. Responde senão leva um murro.
— Montei num porco.
Ela desceu o punho fechado e golpeou-o no queixo. Uma gota de sangue escorreu lhe do lábio e se infiltrou na barbicha. Quando ele passou a mão no queixo e viu o sangue, voltou se de bruços, os ombros sacudidos por soluços.
— Você quebrou meu dente! Quebrou meu dente!
— Quebrei nada, mentira.
— Quebrou! Quebrou!
Ela agora se equilibrava de joelhos na cama, puxando-o pelos cabelos para ver-lhe o rosto que ele escondia nas mãos.
— Max, pára com isso, abra a boca, vamos! Abre essa boca!
Apoiado nos cotovelos, ele sacudia a cabeça, a boca fortemente fechada, os olhos fechados. Negou-se num grunhido, "hum-hum". . . Mas não resistiu às cócegas. Ela inclinou-se sobre ele.
— Seu cretino. Você me assustou, seu cretino. Outra vez que me assustar assim, quebro de verdade, ouviu isso? — Com a ponta do lençol, limpou-lhe o lábio ferido. — Está doendo, amor? Juro que se tivesse quebrado algum dente seu nem sei. Pode me bater vamos, acerta aqui, bem aqui!
— Indicou-lhe o ventre. Ele uniu os polegares e abrindo as mãos como asas, baixou-as sobre Ana Clara.
— A lua. Pouso suave na lua.
— Estou grávida.
— Grávida? Um filho, Coelha? Ah, eu quero esse filho! Me dá, pelo amor de Deus, me dá! Eu quero esse filho, ahn? Ele disse que quer nascer, ouvi agora a falinha dele, está tão contente, quero nascer, ele disse. Vamos ficar riquíssimos, compro uma ilha, é facílimo comprar uma ilha no Brasil. Tem terra de dar com pau. . .
— Por que você não se enturma com esses mafiosos? Podia me dar um iate. Um helicóptero. Eu saía nas minhas besouragens. . .
— Vamos fazer um cruzeiro pelo mundo, Coelha. Convidados fabulosos!
— A Jackie vai aceitar o convite? — pergunto e ele fica me olhando, inocente. — A Jacqueline Onassis, seu bobo! Ela vem? A Onassis, pomba.
Ele franziu as sobrancelhas. Suspirou:
— Fomos amantes. É muito peluda, tem pêlo até no peito — segredou agarrando minha mão e me puxando para a confidencia maior: — Descobri uma coisa impressionante, ela tem seis dedos em cada pé.
Quero rir mas lembro. Que é que eu digo? Nesta altura já depelou dez pãezinhos e agora pica em mil pedacinhos o palito com que pautou os dentes. O olho virou uma pedrinha de gelo. Tenho que contar uma história bem contada. Sou a Gata Borralheira meu príncipe. Chegou minha tia rica com minhas primas peitudas e me proibiram de sair de puro capricho a mais velha e mais nojenta fazendo beicinho "mama mama a prima é mais bonita do que eu! Uá uá!". . . Cobriram minha cabeça com tanta porcaria que quando chegou o cara da cometa aquele dos avisos só viu no borralho um monte de cinza. "Além das vossas bigodudas filhinhas não existe no vosso palácio nenhuma outra donzela que possa ser a dona deste sapatinho?" A tia então puxou as filhas para o meio do palco: "Nenhuma meu senhor. Na realidade só temos na cozinha uma trapenta bastarda que jamais poderia calçar tal mimo. Vamos meus tesouros cortem as pontas dos vossos dedinhos e o sapatinho vai servir como uma luva."
— Que horas são? As horas, tenho de saber as horas!
— Meu coração está tão cheio de alegria, tão cheio!
— Vou de cara lavada em dez minutos fico pronta. E então. Ele acha lindo cara lavada. Bossa natureza. "Beleza despojada" — diz a Lorena. Tudo pra ela tem que ser despojado mania com despojamento está certo certíssimo vou despojada. Entro e ele olha o relógio. Mas seu relógio não está adiantado amor? Nem me responde só fica batendo no mostrador a ponta da unha tem unhas nojentas com aquela pele invadindo tudo. Sardas nos dedos. Um lixo. "Meu relógio não adianta nunca." Alma de relojoeiro devia ter nascido na Suíça. Aproveita e dá corda roque-roque. "Onde esteve?" Acontece que comi no Pensionato uns pastéis de camarão e fui parar no Pronto-Socorro uma intoxicação-monstro quase morri. Vai querer saber em que Pronto-Socorro estive. Quem me atendeu. Os remédios que tomei. Detalhes. Detalhinhos. Vamos. Todos.
— Um desbunde — resmungou ela deslizando para fora da cama. Acendeu a luz do banheiro mas recuou diante do espelho. Bateu as pálpebras, aturdida. Desviou da própria imagem o olhar enfurecido. Afundou as mãos na cabeleira.


cinco


Atenderam. Ninguém na janela para me chamar? Ninguém. "Perdão, foi engano", disse a voz opaca, toda voz de engano fica opaca. Imagine se Lião escrevesse nesse tom assim opaco. Tão nítida. Nítida demais, os entendidos querem opacidade na linguagem, uma certa névoa confundindo sutilmente a silhueta das palavras. Biombos nas entrelinhas guarnecendo (amo essa palavra, guarnecendo) o mistério das letras. E as letras sem mistério em pleno coito com o Demônio. Há orgasmo? O Demônio vai e vem por linhas tortas, trançando os cabelos das amadas em nós inextricáveis. E quem vem trançar o meu cabelo? Ai meu Pai. Disse que rasgou tudo. Melhor assim, coitadinha. Ninguém mais vai ler que em dezembro a cidade inteira cheira a pêssego. Outra vez o telefone? Algum terrorista perguntando por ela. Algum noivo perguntando por Ana Turva, impressionante como Aninha faz noivos. Antes desses já teve uns três. Noivos e dívidas, abre conta em tudo quanto é butique, montes de vestidos. Quilos de quinquilharias. Uma aflição de se cobrir de coisas que ficam bem nas vitrinas. Nas revistas. E não precisa disso, uma cara maravilhosa. Podia se vestir como as gregas, apenas uma leve túnica. Mais nada.
— Nada — murmurou Lorena tirando da prateleira um longo colar de âmbar. Enfiou-o no pescoço: chegava-lhe até quase os joelhos. Deu corda na caixinha de música e ficou olhando a gravura da tampa: Beatriz e Dante na ponte. Ele se afastou um pouco para deixá-la passar, o olhar incendiado, a mão direita apertando o coração. "Sou Beatriz beata e bella, arrastando a cauda do meu vestido de púrpura." Na ponte, não mais Dante mas M.N. trespassado de amor e rugas, "Lorena!" Acertou no canto do espelho o pequeno flagrante que Irmã Clotilde tirara diante do portão: ela no meio de Ana Clara e Lia, as três rindo um riso ardido de sol. "Não envesga, Ana Clara! E não faça careta, Lorena, você está fazendo careta!'" A pirâmide. A poeta H.H. descreveu-a:
— Dentro do prisma, a base, o vértice de suas três pirâmides contínuas — recitou. E baixou o olhar para a própria imagem refletida.
Se emagrecesse mais um quilo ficaria com a idade da Beatrizinha, uns nove anos e meio. E M.N. com a mulher de ancas e peitos de encher as mãos. "Megera. Bruxa" — sussurrou ela fechando os olhos. Sacudiu a cabeça. "Cabecelha poluída" — pensou e correu até a gaveta onde guardava o incenso, nada como um pouco de Jaipur Rose para purificar o ambiente. "Sou tonta e fresca." Mas e se M.N. a levasse mais a sério?. . . Incrível, mas quando nos levam a sério ficamos seriíssimos. Aspirou até o fundo a fumaça com seu perfume de rosas. "Um perfume antiquíssimo. Velórios. A morte poderia ser apenas isto, incenso e música. Jazz, é o jazz que combina com a morte em desespero. Morte em pecado." Foi até o toca-discos e aumentou o volume que lhe coiceou os ouvidos com a força de um cavalo selvagem. "Não sei explicar" — diria Lião se entrasse agora. E durante vinte minutos ficaria explicando porque esta música tira o caráter. "Mas o que ela queria que eu ouvisse''? A internacional? Devia estar cantando aos gritos em algum aparelho, groupons-nous et demaaaain!. . ." Demain.
Amanhã o serviço meteorológico já anunciaria trinta e oito graus a sombra com trovoadas no fim da tarde. Agrupar é conspirar e transpirar. Tinha repugnância pelo suor. Podia ser oca às vezes mais era com política que ia encher esse oco? Não acreditava mesmo mu comunismo, não acreditava em nada disso e como não sabia fingir, o que em geral fazem as pessoas. Detestava o jogo do faz-de-conta. "Se mal tenho tempo e energia para cuidar de mim, imagine. Um jardim mínimo, três ou quatro plantinhas. Cercado de murro por todos os lados. E as tarefas suplementares? Como tirar o pó dos livros que a Dona Sebastiana não tirou. Aumentou muito, secundo a Bulinha. O pó dos vivos e o pó dos mortos. Muda a cor do pano, amarelo para os vivos e roxo para os mortos, vi o motorista do carro fúnebre limpando com um pano roxo o caixão que devia ter vindo de longe. A família, esperando e ele passando e repassando a flanela roxíssima na poeirinha da tampa. O Demônio-Dos-Olhos-De-Lua deve se vestir de preto mas a Morte se veste de roxo. Com uma rosa de lamê dourado na peruca, ah, M.N., quando olhei através do vidro da porta e vi você passar inteiro de branco. Luvas e máscara, ai, quase desmaiei. Exorbita aquele pedaço em que vai se aproximando da mesa camuflado e silencioso. O campo de batalha histérico de luzes, os aparelhos. Os ferros. Milhares de preparativos, tudo pronto? E a Morte com sua rosa dourada, sorrindo de braços cruzados."
— Sua traidora — sussurrou Lorena examinando o furinho na lombada do livro. Abriu-o e soprou o furo que prosseguia ondulante por entre as páginas, "Onde agora? Onde?" — perguntou-se e apertou os olhos, não, não era em Rômulo que estava pensando, era no caruncho. Tão sutis os carunchos. Labirintos, galerias.
Voltou-se para o calendário que pendia da parede, flâmula com os meses estampados na seda. Este era o Ano Solar. "Nunca o sol esteve tão perto" — pensou escancarando a janela. Bom tempo para fazer amor mas não revolução que calor muito forte em subdesenvolvido, amolece. Desfibra. "Lião entendia bem disso, quanto mais calor no Terceiro Mundo mais terceiro ele fica."
— Nada? — gritou Lorena gesticulando em código para Irmã Priscila que apareceu na janela do casarão.
A freira abriu os braços e respondeu também perfilada como um marinheiro sinalizando no convés. "Nada." E arrematou a mensagem levando as mãos ao peito para exprimir seu sentimento. Com um gesto pálido, Lorena agradeceu e ficou mordiscando a conta maior do fio de âmbar. "Se até agora não telefonou não telefona mais." Era ir pensando na rotina do dia: banho. Ginástica. O certo seria fazer a ginástica antes mas devia estar com a pressão baixa, precisava da água quente para o estímulo inicial. Embora passageiro. "Ai meu Pai." Almoço com a mãe, como estaria ela? Péssima, naturalmente. Não esquecer de pedir a chave do carro, dia-sim dia-não Lia vinha pedir aquela chave, por sorte a mãe era vagotônica, não lembrava que já tinha emprestado na véspera. "Queira Deus que Lião não seja metralhada dentro dele." Faculdade. Fabrizio devia estar por lá atiçando a greve. Laçá-lo para um cinema, festival Greta Garbo, ih, paixão por essa mulher. O sofrimento e o gozo por saber exatamente como é a mulher eterna, ela que era efêmera. "Lorena, a Breve", pensou e franziu a testa. Mas a poetinha neurótica devia estar desencadeada, "ah, querido, ame uma p mas não ame uma neurótica que a p pode virar santa mas a neurótica." Montar naquela moto e se agarrar à sua cintura, sentindo o cheiro de couro da jaqueta, bicho-homem trepidando na ventania, "vamos, Fabrizio? Minha mesada está inteira, comeremos como príncipes, bolinho de bacalhau e fado". Choraria potes porque estaria o tempo todo pensando cm M.N. que por sua vez estaria pensando no filho mais velho com minhocações agudas, ele tem cinco filhos.
Foi enrolando o colar em torno tia cabeça, dando voltas até formar com o fio um diadema de contas na altura das sobrancelhas. Se uma das freirinhas fosse à drogaria, pediria que lhe comprasse um creme emoliente para as mãos e Modess, Lião acabara com o estoque. As duas acabavam com todos os estoques de tintas e vernizes e não repunham em seguida: sabonete, fio dental, algodão e etcétera. "Então, na hora que preciso não tenho. E nenhuma das duas tem." Com acetona, a mesma coisa, Ana levara o vidro cheio e o vidro voltou com duas gotas no fundo. Também éter? Que loucura. Precisava fazer alguma coisa. Mas o quê? Ser compreensiva não era ser conivente? Um tratamento rigoroso talvez ajudasse. Mas jacaré quer ser tratado? "Só pensa no cerzido e no industrial. Vaginoplastia."
— Meu melhor ângulo — murmurou voltando-se de perfil. O colar já lhe desabava sobre os olhos. Prendeu-o nas orelhas. A estrutura social. Segundo Lia, a única responsável era a estrutura social. Fez uma verdadeira conferência sobre essa estrutura. "Entendo, querida, entendo. Estou de pleno acordo. Mas e Ana Clara?" Fora do contexto das estruturas, a piedade perplexa de Madre Alix. "E esse noivo? Também não vai tomar providências?" — espantou-se Lorena. Lá estava Ana devidamente classificada no reino da palavra e no reino de Deus. Mas isso era suficiente? "O controle é meu, paro quando quiser", respondeu-lhe. Imagine. Há muito que já não tinha mais as rédeas nas mãos. Abriu as próprias. Mas quem é que tem? A própria Lia que falava sempre de cima de um caixote tinha ainda essas rédeas? "Perdeu o namorado, perdeu o ano por faltas, buleversou tudo. Nem banho mais toma. E com este calor" — pensou Lorena lembrando-se em seguida de comprar um desodorante, achava deprimente recorrer a desodorante, o que resolvia era água e sabão. "Mas se ela não tem tempo, entende." Deitou-se de costas no tapete. Entendo, Lia de Melo Schultz. Entendo, Ana Clara Conceição, entendo tudo porque estou transbordando de amor, Jesus, salve minhas amigas. Salve minha mãezinha tão glingue-glongue. Meu irmãozinho com seus carros, suas mulheres e sua culpa, senta-se à direita de Deus-Padre mas pensa que esquece? Salva meu irmãozinho e salva M.N. no seu casamento buleversado, se for para a alegria dele, salva também esse casamento, ai meu Pai. Que o Fabrizio não se enrole nu poetinha, que não trombe sua moto, salva todo mundo, pacíficos e delirantes, executados e executores. Salva meu gato.
— Dominus vobiscum. Et cum spiritu tuo. Ite, Missa est — digo abrindo as mãos com as palmas voltadas para num Duas salvas vazias aparando a graça. Que um dia há-de vir Jesus eu te amo. Ia esquecendo, salve também os meninos Lião, estão presos ou vão ser, salve os meninos tão fortes e tão frágeis, somos todos muito frágeis. Vou até os lenços de papel e neles enxugo os olhos.

— Lorena!
A jovem voltou engatinhando até a cama. Estendeu os braços ao longo do corpo e foi levantando as pernas unidas e retas, os pés em ponta. Conduziu as pernas para trás, os quadris apoiados nas mãos. Assim que tocou os pés na cabeça com a cabeleira em leque aberta no colchão, tirou as mãos dos quadris e pôs-se a apalpar as nádegas.
— Podiam ser maiores. Incrível como homem gosta de mulher de bunda grande.
— Lorena, você está aí?
"Trouxeste a chave?" Não, não trouxe, Irmã Bula tem nos bolsos bulas e lenços, não chaves. Agora deve ter encostado na porta o ouvido que ouve melhor, quer saber com quem estou falando, algum homem? Curiosidade e medo. Coragem, minha irmãzinha, coragem! Os olhos de coelho velho lacrimejando no lenço-lençol. Dou uma cambalhota e caio em cima da almofada que abraço com toda força de que não sou capaz. Ria então resolveu bater. As pancadinhas parecem fazer parte de um código, vi no cinema antigo um gangster lustroso bater assim na porta do chefe, as pontas das unhas provavelmente esmaltadas arranhando sutilíssimas.
— Entre! — gritei.
Ela entrou toda encolhidinha, sempre entra com esse ar de quem pede desculpas por ocupar um lugar no espaço. Avisa que não vai demorar mas se instala e fica cinco horas. Cheirou as rosas da caneca, fez um gesto de enlevo, ai, que delícia. Parou diante da gravura de Chagall.
— Sabe que estou começando a gostar desse seu quadro? É esquisito — disse escondendo as mãozinhas nas mangas do hábito. — Um cavalo de véu e grinalda, ora veja. . .
É a centésima vez que faz esse mesmo comentário e naturalmente vai acrescentar que o azul é bonito.
— É um casamento, Irmã.
— Eu sei, mas essa sereia. . . Não é uma sereia?
— Um casamento tem que ter de tudo.
— O azul é bonito.
Levanto as pernas para o teto até tocar na lanterna.
— Olha, Irmã Bula, posição de vela. Bate o vento e a chama vai vergando para trás, mais ainda. . . está vendo? No chão faço melhor.
— O sangue vai todo para a cabeça, filha. Pode dar um derrame.
— É ótimo para a circulação.
— Deve ser bom para hemorróida — murmurou nostálgica. Suspirou. — A velhice é uma doença, filha. Dói tudo, algumas partes mais do que as outras. Deus sabe o que faz, louvado seja Deus.
— Louvado seja.
— Do meu quarto vi que você acordou tão cedinho. Pensei que precisasse de alguma coisa.
— Preciso de solidão.
— Hum?
— E de umas carnes aqui, não existe um popô menor, existe? Com roupa esporte ainda passa mas num longo, já pensou?
Ela não ouviu. Tem olhos membranosos. Os olhos dos peixes daquela natureza-morta da nossa sala na fazenda. Caçarolas, peixes e coelhos, tudo morto. Uma trança de cebola pendia da mesa e só a trança dourada tinha um certo brilho. "A trança de Julieta", dizia o paizinho.
— Tanta insônia, filha. Não gosto da noite, só do dia Acho tão bom o sol. Queria morar num lugar onde só tivesse sol. Um lugar sem noite, sem dor.
Com a ponta do pé faço balançar a lanterna Se pudesse entrar o pé lá dentro até chegar à lâmpada.
— Seria a glória.
— Queria morar num lugar onde não houvesse a morte, onde ninguém aborrecesse — disse e teve um sorriso, radiante como se acabasse de descobrir esse lugar
Agora está examinando as unhas secas, invadida até quase as pontas por uma película tão seca que se abre nos cantos em espigas sequíssimas. Enxugou no lenço os olhos lacrimejantes. Quer ser eterna. Irmã Eterninha.
— Mas um lugar assim já é a morte.
— A sorte? deixa-me rir, ha, ha. Acho que foi essa sonsinha que escreveu a tal carta anônima com milhares de delações: Lião, uma comunista fabricante de bombas. Ana Turva, uma viciada em rápido processo de prostituição. Eu, uma amoral indolente, parasita da mãe devassa, velha corruptora de jovens: "O que se pode esperar de uma menina com uma mãe semelhante?" Tem mais mágoa da mãezinha do que de mim: "Mulher sem escrúpulos, que internou o marido desmemoriado e foi torrar o dinheiro com o amante que podia ser seu neto." O que não é verdade, Mieux não é tão jovem assim, ai se mãezinha soubesse. E aquela, outra carta que denuncia Irmã Clotilde como namorada de Irmã Priscila, barra pesadíssima. Ana foi falar com Madre Alix e viu a carta em cima da mesa. Se é que não mentiu, a carta exigia medidas drásticas para se pôr um paradeiro em tamanha abominação. E Madre Alix? Tranqüila. Imagine se vai entrar num moinho desses.
— No seu caderno não tem receita para insônia? — pergunto em meu ouvido.
— Dezenas de receitas, filha. Mas me atacam o fígado.
Continue então com suas cartas maravilhosas, minha querida. Uma Para o gerente do supermercado, outra para as divertidas senhoras do sobradinho azul, outra para o homem do pão, do leite — milhares de cartas anônimas nas insônias inspiradíssimas, o olho vertendo água, o calo aumentando no dedo contraído de remorso e medo. Mas escrevendo, escrevendo sem parar, a letra mascarada, o estilo mascarado, sai Satanás! E Satanás sentado no rabão enrodilhado, lambendo os selos. Tem o Diabo principal, rei de todos. Os outros são diabinhos menores, colaboradores nas tarefas secundárias, alfinetes, palitos de pecados. São esses que transam dentro e fora de mim, "e preciso acreditar na atualidade do Diabo!" — disse o Papa. Mas Sua Santidade, eu não acredito em outra coisa. Antigamente eles moravam nos desertos: rolavam debaixo do sol, se esfregavam na areia escaldante, montavam nos camelos mas agora a morada ideal é nosso corpo mesmo. Nunca tanto capeta curtiu lauto corpo que é quente como o deserto. Com a vantagem de ser macio. O local preferido é o ventre, quer dizer, toda a zona sul com as ramificações nas partes. Apertei as minhas. Quando M.N. entrar eles vão sair aos pulos. O exorcismo pelo amor.
— Aquilo que pensamos se reflete em três espelhos do absurdo — leio no poeta que abri ao acaso, consulto poesia como o paizinho consultava O Velho Testamento, sempre ao acaso: — Três espelhos do absurdo. Esse é o meu. E os dois outros? Se M.N. não me amar urgente, viro um livro!
— Você fala tão baixo, Lorena. Que foi?
Ai meu Jesus, por que ela não faz aquelas ligações maravilhosas. Tem um fiozinho cinzento que sai de um botão no ouvido e vai para a rua como antena plastificada, facilita tanto. Mãezinha contou o crime com pormenores, devia ter um álbum com recortes policiais como essa daí tem o álbum de bulas: o pederasta velho enforcado pelo menino no fio do aparelhinho de surdez, ouvindo a morte vir vindo pelo fio da pilha, rouquejando tão rouca, que e que você está fazendo, amor?! E o amor apertando mais nó.
— Enfim, estão velhos demais.
Ela põe a mão na pequena saliência a que se reduziu a orelha sob a touca.
— Crime! — digo. — Tem havido crime à beca.
— Um despropósito, filha. É a bomba, só pode ser a bomba. No meu tempo não usava nem a parcela mínima dessa violência. Até as bulas, você precisa ler as coisas pavorosas que as bulas dizem agora. Uma diferença! Antes, animavam, eram delicadas, uma delícia ler aquelas bulas. Mas hoje. Tão cheias de ameaças, tão duras.
Irmão Mata O Outro Numa Brincadeira. Irmão Mata O Outro — podia ser assim a manchete do jornaleco de escândalo. Em destaque, o depoimento da irmã caçula, só as iniciais por se tratar de menor. Disse L. V. L. que eles estavam brincando Rômulo corria perseguido pelo irmão Remo que de repente resolveu apanhar a espingarda que se encontrava no escritório, onde o fazendeiro costuma deixá-la em geral descarregada. De posse da arma, gritou para o irmão: fuja Rômulo, que vou te matar! E deu um único tiro certeiro e mortal no peito da vítima. Embora houvesse grande número de empregados trabalhando na sede da fazenda, nenhum presenciou ao acidente; apenas a irmã caçula viu o menino cair sangrando e tomada então de grande susto, correu para chamar a mãe que se achava nos fundos do imponente casarão em estilo colonial. O fazendeiro viajara para a capital naquela manhã, retornando ao anoitecer, quando em meia de grande desespero, tomou conhecimento da tragédia que se abateu sobre seu lar.
Houve retrato? Não, não houve. Mas todo jornal tem seu desenhista e esse caprichou na composição da cena em traços veementes: a mãe está sentada no chão com Rômulo no colo, uma das mãos sustentando-lhe o tronco, a outra escondendo a ferida. Está desgrenhada e em prantos mas no seu sofrimento há qualquer coisa da inexorável calma de quem chegou ao último degrau e sabe que daí por diante nada de pior poderá lhe acontecer. O desenhista é elogiado, não foi ocasional a relação do seu desenho com a Virgem amparando o Filho Morto. Giovanni Bellini. Museu de Milão.
— Em Milão há uma pracinha dos surdos-mudos, lá eles se encontram todas as tardes. Os gestos criam um som farfalhante como folhagem, eu fechava os olhos e ouvia ssssssss. . .
— O mais conhecido foi o crime de Dona Brunilda, uma fazendeira encontrada sem cabeça — disse Irmã Bula segurando a própria. — Foi pavoroso. Durante meses e meses procuraram a cabeça da pobre senhora — prosseguiu a freira voltando o olhar inquieto para as prateleiras da estante.
— Acharam?
— Que esperança. Nem o assassino nem a cabeça. Falou-se muito que foi o marido, parece que ela gostava do preceptor das filhas, um moço muito bonito que tocava piano e usava flor na lapela.
Um cravo. Serenata de Schubert, Fumigações e perfumes. Sons de violino e ninguém tocando violino. Roçar de asas: O Anjo Sedutor na sombra da cortina.
— Alguém escreveu uma carta anônima ao marido — digo. Por que penso em meu pai? Em Rômulo? Perco a vontade de brincar. Se ao menos M.N. me dissesse eu te amo. Ou o Fabrizio.
— A senhora se lembra do Fabrizio?
— Fabrizio? Aquele da motocicleta?
Corro até a janela, o telefone? As janelas vazias. O jardim vazio. Ela me interroga com seus olhos membranosos. Virgem também nos olhos, não, não quero ficar assim, eu não! Ah, M.N., meu amado. Meu amado.
Aperto no pescoço o colar de âmbar. Boto a língua para fora.
— Se ele não me procurar me enforco. Serei a primeira suicida canonizada.
Ela ri sua risadinha de gnomo, uh, uh, uh, ih, ih, ih.
— Ah, menina! Casamento cura isso, por que não casa com esse Fabrizio?
— Não posso. Ele tem uma perna mecânica.
— Tem o quê?
Vou buscar um cálice de licor.
— Uma perna mecânica!
Ela se sacudiu inteira na tosse e no riso. Descobriu-se a gengiva, plástico rosado com os enormes dentes cor de areia em fila indiana, mas por que os dentistas fazem dentaduras assim grandes. Prodigalidades pelos dentes perdidos? O Filho Pródigo voltou maltrapilha e sem dentes, os anos tombam mas os dentes caem como os grãos de feijão que Joãozinho e Maria semearam no mato, os coitadinhos queriam marcar o caminho de volta. E vieram os passarinhos, e comeram os grãos, adeus lareira acesa, adeus infância. Por que, meu amado, por que tanto filho! E se enfiar agora nesse cursilho, o que você pretende com isso, salvar o casamento? Mas querido, será que não percebe? Seu casamento apodreceu, salvar o que? Naturalmente foi ela que teve essa idéia, a bruxa. Um homem lindo desses, imagine se uma bruxa vai desistir assim fácil. Cinco filhos. Deve ser gordíssima. Celulite nas coxas. Os peitos caídos. Enfim, uma vaca.
— Minha Irmã, estou ficando preta, preta. Reza por mim.
— É de damasco? Gosto mais deste do que aquele de hortelã. Um néctar.
Abro as narinas e aperto meu plexo solar. O cheiro de Irmã Bula é mais forte do que os licores e charutos: flor seca somada a uma vaga pincelada de desinfetante com qualquer coisa de mar se insinuando por entre escamas pálidas, ah, se respirar agora, eu morro. Suspendo a vida no ar e me escondo debaixo da almofada: a morte está aqui com outra roupa e me olha com seu olho de salmoura. Sou capaz de me matar mas não quero morrer.
— Brincando de esconde-esconde? Menina, menina!. . .
Bebeu o último gole, é louca Por um licor. Retribuo seu sorriso licoroso. Irmãzinha, minha Irmãzinha, promete que não vai me mandar uma carta denunciando o japonês da pastelaria que fez recheio de pastel com meu gatinho. Ai meu Pai.
— Mais um cálice, querida?
Ria apóia as mãos na almofada da poltrona, pronta para se levantar. Já não sinto o cheiro de maresia-flor, desapareceu a morte e em seu lugar está apenas unia velhinha surda e virgem que perdeu o céu por causa das cartas. Amar o próximo como a mim mesma. Estendo-lhe a mão. Mas de repente ficou desconfiada, quer ir embora, bastou querer amá-la para se levantar em pânico, tem medo de mim como tive dela.
— Preciso ajudar Irmã Priscila a ralar o coco, inventou de fazer cocada mas machucou o dedo, preciso ir — repetiu.
— Prove antes esse biscoito, esse a senhora ainda não conhece — eu digo. Quando volto com a lata ela está olhando muito interessada para os próprios pés. Como tem pernas curtas, não consegue tocar o chão e fica com os pés balançando no ar, como as crianças sentadas na sala de visitas.
— Tenho que ir, filha.
Mas não vai. Irmã Priscila já está ralando o outro dedo, ah, tão longe a fala do ato. Se eu não falasse tanto em fazer amor, se Ana Clara não falasse tanto em enriquecer, se Lião não falasse noite e dia em revolução.
— É cedo, Irmã Bula. Essa revista chegou ontem — digo oferecendo os biscoitos e a revista.
Ela passou os dedinhos na moça da capa.
— Mas por que essas moças precisam tirar retrato sempre de perna assim aberta? Por que as pernas têm que estar abertas desse jeito?
— Afirmação, querida. Sexo em ângulo aberto. Tanto tempo a mulher andou com ele fechado que agora precisa polemizar, coitadinha.
— Fala mais alto!
— A Lião escreveu uns dez tratados explicando isso, libertação pelo sexo, minha querida. A porta mais fácil, é muito comprido — grito enquanto mudo o disco.
Bach? Encosto o disco na face. M.N., meu amado, queria tanto ser amada ouvindo este prelúdio. Não peço nada em seguida, vou me embora para sempre mas antes você precisa me amar, tem que ser você, está me ouvindo? Não ouviu. Apanho a pétala que caiu da rosa e levo-a até a boca. Faço-a estalar num beijo e colando-a ao lábio, enfio a ponta da língua pelo furo, brincávamos assim com as flores da fazenda. Quer ver como ela ouve?
— Irmã, minha irmãzinha, acho que estou doente, penso tanto em sexo.
— Pensa mesmo?
— O dia inteiro.
Se o Diabo quisesse ser simpático, carregava agora a Bulinha na brisa e na brisa de volta me traria M.N. Ficaríamos trancados no meu banheiro que é tão jóia. Se Lião ou Ana Turva chegasse eu diria, não posso, querida, estou num banho de imersão que vai durar duas horas. E abro a torneira.
— A Ana Clara disse que ia sair na capa de uma porção de revistas. Ainda não vi nada. Você viu, filha?

Levo para a cama minha caixa com petrechos de unha, tenho esta caixa sempre ao alcance. Assim que intuo as conversas inquietas e incertas, vou pegando minha lixa e tesourinha para não perder tempo. Com isso, minhas unhas andam tratadíssimas. Até as unhas dos pés cheguei a fazer outra noite enquanto Lião curtia Simone de Beauvoir. De Simone de Beauvoir para o sexo, foi um passo, porque o primeiro sexo, porque o terceiro sexo, porque o segundo. Como fatalmente acontece, partimos para o próprio. Então o sangue de Herr Karl pairou sobre todas as coisas. Apertou meu braço com tanta força que até gemi: "Não vai me dizer que continua virgem, putz!" Suspirei. Vou, querida, vou. Ela então arrancou nos dentes a última centelha de unha que lhe restava no dedo preferido. A culpa era de M.N., claro. "Burguês incompetente!" resmungou recortando uma notícia de jornal, guarda pastas e pastas transbordantes de recortes sobre política. Só restava uma saída sutil: não é todos os dias que se encontra um Guevara, eu disse e seu olhar amenizou. A águia nazista virou pomba, coqueiro, coqueiro de Itapoã, coqueiro! Dona Diú sorriu na rede: "Quando tudo me parece perdido, quando nem Miguel consegue me levantar, penso em Che e me vem a certeza de que vou resistir. Penso às vezes, Lena, penso que ele tinha que morrer para que eu nascesse de novo." Concordei. Mas ficaria uma vara se lhe desse a fonte do renascimento, Evangelho de São Marcos? "Não vos maravilheis se vos disser: é-vos necessário nascer de novo." Calei o bico e fui depressa buscar uísque para as saudações revolucionárias. Senti-me tão leve que poderia voar, enfim, M.N. já estava de lado. E também esse drama da minha virgindade. Confesso que de vez em quando preciso falar nisso, provoco o assunto, alimento as reações, me exponho a todas as conseqüências numa necessidade tão aguda de ficar centro-de-mesa. Mas de repente me vem um pudor (não sei se será exatamente pudor) e não suporto a menor referência, problema meu, friso e levanto a cerca de arame, proibida a entrada de pessoas estranhas. Uísque para ela e guaraná para mim, tenho paixão por guaraná. Quando Lião viu as duas garrafas juntas, fez aquela cara de pensadora: "Marca President, Lena? Olha o vexame do nosso guaranazinho." Adiantei rápida que foi um presente da mãezinha quando na realidade foi presente de M.N., essas mentirinhas que facilitam a convivência o Papa João XXIII não condenou um santo de Papa. Sabendo que não bebo, M.N. me ofereceu a garrafa, "suas amigas não gostam?" Não existe delicadeza maior. "A única coisa que esses calhordas sabem fazer" — disse ela servindo-se de uma boa dose. O cinema deles também tem classe, arrisquei mas nem me ouviu porque já enveredava para sua preleção principal que é provar a decadência da burguesia através do uso de drogas. "Não sei explicar mas é um erro pensar que a droga é uma atitude antiburguesa, entende. A última vez que estive em Salvador quase endoidei de aflição, tem legiões" — acrescentou e seus olhos se encheram de lágrimas. Os meus também, ah, era triste demais demais demais. O baiano tão próximo do índio em seu estado de inocência. Falei-lhe justamente sobre isso mas devo ter sido gaúche porque ficou me olhando meio sentida e sacudindo a cabeça: "Esse seu tom, Lorena. O tom — repetiu. Encolheu os ombros: — Não sei explicar mas. . ." E durante horas explicou que a forma mais rápida de matar o índio brasileiro é tentar civilizá-lo. Até certo ponto acompanhei seu discurso mas depois foi me dando assim um cansaço. Pois é, o índio. Tenho paixão pelo índio. Mas logo fico pensando em Gonçalves Dias com seus índios divinos-maravilhosos, que é que eu posso fazer. Ela agora falava nos vícios. Aproveitei para encaixar o verso, oh Tupã! que mal te fiz, que assim me colha do teu furor a seta envenenada? Mas Lião não se emociona com poesia. Inesperadamente, desatou a falar sobre a queda do dólar e dessa vez teve razão em dizer que não sabia explicar porque não explicou nada mesmo. Se era sobre esse tipo de problemas que escrevia no jornalzinho lá da esquerda, os leitores estavam bem arrumados. Mas seu trabalho na redação era coligir material. Ainda bem. Perguntei-lhe o que estava fazendo nas horas vagas, agora que Miguel estava preso. "Não tem horas vagas, entende. Distribuo panfletos, oriento um grupo de estudos e traduzo livros. Isso quando não aparece uma missão mais importante", insinuou amarrando os cordões das alpargatas. Sentei-me também no chão e fiquei fascinada pelas suas alpargatas. A sujeira tinha se incorporado de tal forma à lona que nem a mais engenhosa operação química conseguiria separá-las. Mas os cordões estavam limpos, misteriosamente limpos. Não era mesmo estranho aqueles cordões assim brancos? Pensando nos cordões perguntei-lhe se seu amigo ainda estava incomunicável. "Qual deles, Lena. Tantos estão incomunicáveis. Uma crise infernal. Precisamos de dinheiro, de gente, de tudo. Fico feito doida com os montes de coisas urgentíssimas que devem ser providenciadas. Mas fazer o que sem oriehnid. O quê. Ainda assim pensa que perco a fé? Pensa? O programa da revolução está inteiro estruturado, resta ligar o pequeno motor que somos nós com o motor principal." Levantou-se com cara de comício e andando de um lado para outro, discursou sobre a dificuldade do operariado em se organizar, a maior parte habituada à servidão, à miséria, herança transmitida por gerações de conformismo. "O medo, Lena. Medo de assumir, um cagaço de fazer chorar. Temos um bom grupo pra o que der e vier, o problema é com os mais velhos, os intelectuais. Salva-se uma meia dúzia. Assinam os manifestozinhos, fazem suas reuniões secretas, o sorriso secreto da Gioconda, o copinho na mão. E daí?" Olhei para o copo que ela segurava com a energia de um atleta segurando o bastão na corrida de revezamento. Quando Ana Clara pega no copo, levanta o dedinho mínimo, finuras de motorista de caminhão em festa de casamento mas Lião agarra tudo com dedos e unhas, quer dizer, com as zonas onde deviam estar as unhas. Melhor mesmo roer todas, imagine se podia pensar sequer em cortá-las. Voltei aos cordões: mas por que só eles estão limpos? Ela parou de falar e ficou me olhando com ar de quem se perdeu no mato e deu uma enorme volta e de repente descobriu que estava de novo no mesmo lugar. Sentou-se no tapete e apanhou um cigarro. Rodou-o entre os dedos. "Meus amigos estão todos presos, eu mesma posso ser presa saindo daqui — começou com brandura. — Manuela está intentada como louca e Jaguaribe está morto. Então você se preocupa com o cordão da minha alpargata."

— Dou importância ao que não tem importância — começo e paro.
Não é Lião que está aqui mas a Bulinha lendo com o maior interesse — mas o que esta lendo com tanto interesse? Colocou seus óculos de lentes telescópicas e levantou a revista a um centímetro do nariz. Não notou sequer que a puxei até ler o título, Erotismo é Amor? Ai meu Pai.
— Que exagero — murmurou ela sem tirar os olhos da pagina.
Por que às vezes firo Lião quando minha vontade é vê-la contente. Ficou tão triste ali no chão que fui buscar depressa a lata de biscoitos e a escova. Ajoelhei-me e comecei a escovar-lhe os cabelos. Você parece a Angela Davis, eu disse e ela sorriu mas senti que seu pensamento continuava lá longe, lá onde Manuela enlouquecera. Onde Jaguaribe fora baleado. Que Manuela era essa? E Jaguaribe? Você nunca me falou nesse, eu disse e ela passou a mão na alpargata, acariciando a biqueira de borracha cheia de rabiscos. Uma florzinha preta feita com capricho se destacava no emaranhado do desenho. "Era dele", disse e agarrou com ambas as mãos os bicos das alpargatas. Despejei mais uísque em seu copo: Coragem, Lião, não fique comprimida, tenho meus santos que me atendem, você não acredita mas deixa comigo. "Se tiver que rezar, reze por Che, entende. É só dele que preciso" — disse. E passou o dedo precisamente na florzinha preta desenhada na borracha. Lembrei que Rômulo também estava morto e comecei a chorar tão sentida que se viu obrigada a esquecer seus mortos para me consolar. Disse que não há morte definitiva, nem sequer para ela, uma materialista. Que morte e vida se integram e se completam tão perfeitas como um círculo e por isso meu irmão continuava vivo: a vida precisa da morte para viver, "não sei explicar, entende?" Explicou. Inesperadamente ficou de novo alegre, cantarolou com o disco do Vinícius e perguntou no melhor humor por M.N. "E o velho?" Fiquei alegre também: choro quando choram perto do mim mus se começam a voar, saio voando junto. Fui fazer um chá quente porque depois de beber feito esponja, Lião adora um chá com biscoitos. Tomamos um bule inteiro e se ela não tivesse ido fazer pipi e se eu não tivesse inventado de entrar num, banho, na certa teríamos ficado curtindo até as cinco da manha.
— Tanta bobagem — resmungou Irmã Bula fechando a revista.
Soprei a cutícula do meu polegar onde a ponta da tesourinha fizera nascer uma meia lua de sangue. Escolhi um blue.
— A senhora leu tudo?
— Não sei porque gastar papel com tanta bobagem — acrescentou guardando os óculos. Enxugou os olhos no lenço-lençol que daria para enxugar as mucosidades de um batalhão. — Essa gente vive como se o sexo fosse a coisa mais importante do mundo.
— E não é? Ou uma das mais. Só numa noite Ana Turva chegou a dúzias de orgasmos, o que naturalmente é mentira. Mas e as outras. As conversas que ouço, se fala tanto nisso. Algumas um pouco sobre a loucura, seria melhor conversar com o médico, é lógico. Não deve ser normal. Um exagero.
— Filha, será que você podia pôr um pouco de Chopin? Um daqueles Noturnos, pode ser? Esses seus cantores cansam um pouquinho, não? No começo eu pensava que vocês estavam brigando, tamanha gritaria. Agora acostumei. Fico me perguntando, essas letras fazem sentido?
E quanto. As palavras triviais mas é no trivial que está o trágico. Como pode não estar: a grama do jardim é mesmo grama, a sopa da sopeira não esconde nenhum símbolo e o beija-flor é a negação do mistério. Mas se a gente estiver em estado de graça pode intuir todo um leque de direções que se abre tão rico quanto o baralho de Dona Guiomar: o Valete-de-Espadas é casamento se vem perto do Sete-de-Ouro que é má notícia quando se junta ao Cinco-de-Paus que por sua vez é viagem se dá o braço ao Rei-de-Copas. Que vira sentença de morte sem apelação se dá o braço à Dama-de-Paus — oh! as circunstâncias. Lião fica uma vara se falo em cartomantes, sou vidrada em cartomante. Disse que não tem destino, não tem nada porque somos livres, completamente livres "Não sei explicar mas se um dia eu for presa, é essa prisão que vai inovar minha liberdade." Não entendia, fazia muito calor, quase quarenta graus à sombra, a cuca obumbrada e ela a fim de me expor a doutrina sartriana. Ficou falando sozinha sobre o nojo que tem da literatura do século dezenove com todos aqueles personagens fadados ao bem e ao mal como trens correndo fatalmente nos trilhos onde foram colocados, "não tem trilhos!" Pois sim. Deixa-me rir. That Old Black Magic, ele cantou na hora em que foi condenado à câmara de gás, condenação antiga, no dia em que nasceu já estava aquela marca, se escapamos da fogueira não escapamos dos signos. Ousei falar em signos e ela me acusou de cristã desbundada: "Como é que um cristão pode acreditar nisso?"
— Sou Peixe.
A freira olhou o teto.
— Li que os jovens precisam da violência para canalizar os complexos. Você viu? Outro dia um menino de catorze anos tacou gasolina e fogo na cadeira de rodas da avó que virou um torresmo. Diz que é preciso. Então é esperar que esses jovens se cansem de tanta violência, fazer o quê? Quando se cansarem, estarão velhos como nós.
"Espertinha", sussurrou Lorena esfregando as solas dos pés nos tapete enquanto procurava o disco de Chopin. Riu. "Mais uma dose e vai me expor o conflito das gerações." Trouxe a garrafa e de novo encheu o cálice que a freira lhe ofereceu em meio de um fraco protesto, "vou ficar tonta!" O protesto transformou-se num ah! de beatitude assim que começaram os primeiros acordes do Noturno.
— A senhora prefere ler ou escrever? Escrever diários, por exemplo? Cartas. . .
A freira bebeu delicadamente. Cruzou os pés e balançou-os no ar.
— Nem uma coisa nem outra, filha. Minha vista piorou disse voando para Lorena o olhar de desbotada inocência E aquele seu irmão. Está na Itália ainda?
— África do Norte. África do Norte!
— Já ouvi, Lorena. Esse é o Rômulo?
— Rômulo morreu, esse é o Remo.
"Se voltar, lembra", pensou Lorena abrindo as mãos com a palmas voltadas para cima num gesto de oferenda "Fez análise, fez cursos, fez amor com mulheres lindas, fez filhos lindos, fez viagens mais mulheres, mais carros, mais filhos. Se voltar lembra. Basta olhar para a mãezinha que é transparente, a dor é transparente. A face gravada no véu de Verônica."
— Attendite et videte! — exclamou estendendo os braços em frente e exibindo as mãos abertas como um livro. Inclinou-se até o ouvido da freira: — A senhora me acha louca?
— Acha o quê?
Lorena sorriu. Entrelaçou as mãos e ficou olhando as unhas. Como era possível isso. Até os dedos de Remo, pesados demais para o piano, foram se afinando tão leves como seriam agora os dedos de Rômulo se Rômulo vivesse. Sim, melhor que continuasse lá no seu exílio, mandando presentes, cartões, retratos. Casas imensas nos gramados verdes de perder de vista. As crianças nas suas malhas coloridas correndo sempre atrás de algum cachorro. O carro brilhante estacionado por perto. Ana Clara falava tanto em Jaguar, coitadinha. Tão superado o Jaguar. Ela devia se atualizar no salão do automóvel onde Remo comprava sempre o último modelo, tinha paixão por máquinas. "Se voltar, lembra." O encontro com ele devia ser lá fora, lá longe como foi em Veneza. Os museus, as lojas. Ruínas e vinho. "Mãezinha ainda acaba comprando uma gôndola", ele disse enquanto ajudava a tirar os pacotes do porta-mala. E beijou a única compra de Lorena, uma antiga bolsinha de miçangas que ela descobrira entre as velharias de um bazar. Os dias e as noites estourando de compromissos, sim, era preciso outros países. Outras gentes. Aqui, na primeira hora disponível ele começava a falar depressa e alto. A mãe começava a rir estridente, ambos tentando cobrir o murmurejar que vem subindo lá do fundo pardacento. O rio. No verão, a água chegava a ficar tão quente que parecia impossível que no inverno ela esfriasse daquele jeito. Assim mesmo os dois entravam roxos e bafejantes. Remo ousava a travessia: "Está com friuu? Lava o rabo no riuuu! Enxuga na capa do tiuuu!" Debaixo d'água os cabelos pretos de Remo continuavam pretos mas os louros cabelos de Rômulo ficavam cinzentos. Cinza, cinza.
— Seu irmão era bonito? — perguntou Lorena.
A freira enxugou no lenço os olhos vertentes. Tomou o último gole.
— Bonito não. Mas era uma flor de menino. Foi fazer um piquenique com os colegas do colégio, já contei. Se afogou no mar. Quando tiraram o corpo eu estava perto, Jesus, que coisa pavorosa todos aqueles camarões amontoados, se mexendo no buraco dos olhos.
Lorena fechou os seus e pensou em Rômulo, os dentes pálidos, como era possível? Isso dos dentes empalidecerem. E aumentando na camisa vermelha o vermelho mais poderoso do sangue. A mão da mãe tapando o furo que borbulhava como uma garrafa de vinho empapando a toalha.
— Achei que uma rolha podia resolver.
— Anos e anos eu não queria nem enxergar a cara daquele bicho. Depois fui esquecendo, a gente esquece. Ainda outra noite comi com tanto gosto a torta de camarão que Irmã Clotilde fez. Palavra que nem lembrei.
Com gesto refletido, lento, Lorena arrolhou a garrafa de licor. Não era mesmo de estranhar? Um furinho insignificante e todo aquele sangue. A mãe também não entendia, "que foi isso?" — ficou repetindo. É preciso tapar depressa, um dedo que ela pusesse em cima, melhor ainda a mão, assim, mãezinha, assim! Mãe cura tudo, mãe sabe tudo, tapa com força!. . . E continua saindo. Debaixo da sua mão, olha aí, a camisa vermelha descorando, tão mais forte esse outro vermelho, meu Deus, tão forte. Desviei depressa o olhar porque ela escondeu a ferida com o mesmo pudor com que escondia os seios quando estava se vestindo e a gente entrava no quarto: "Não olhe que estou nua!" Dei lhe tempo de vestir a voz. E a ferida. Estava mais calma do que na tarde em que ele cortou o dedo abrindo a melancia. "Mas o que foi isso, Lorena?" perguntou com voz rouca. Apenas rouca. — Os dois estavam brincando, acho que o Remo era o bandido, no sei que trouxe a espingarda e apontou, não foi por mal, mãezinha não foi mesmo. Imitei-a falando baixo e quase num cochicho me ofereci para chamar o médico. Ou o Lauro. Queria que chamasse a Jandira? Ela fez que não com a cabeça, não, não era preciso. Fiquei ali pregada, a boca abrindo e fechando ressequida, sem nenhum som. A boca do Rômulo também se abriu e se fechou silenciosa como a de um peixe atirado na areia que a água não alcança mais. Foi ficando suave. Se pudesse, pediria desculpas por estar morrendo.
— Sonhando, filha?
Fecho Rômulo e a garrafa de licor na custódia de vidro do bar. Cerro a cortina. E M.N. que não telefona. E esse Noturno tocando com esse sol, ah, queria agora mesmo montar na moto e correr sem corpo, sem pensamento, me busca, Fabrizio! Morrer deflagrada. M.N. verá chegar um estilhaço ensangüentado, "Lorena!" Deflagrada e deflorada.
— Estou me carbonizando de paixão, minha Irmã. Marcus Nemesius! — grito. Abraço-a e colo a boca no seu ouvido: — O pai era latínista, todos os filhos têm nomes declináveis, a irmã é Rosa, Rosae, como bosta, bostae.
Ela não entendeu mas riu. Acompanho-a até a porta. Seus ossos estalam. Um dia vou ficar assim velha? Me mato antes. Baixo a cabeça. Ela me abençoa e se prepara para descer a escada. Desligo a vitrola. Som de vozes. The isle is full of noises. Alguns miados se enrolando nas noises. Como será miado em inglês? Abro o dicionário.


seis



Na saleta de teto baixo, frouxamente iluminada, havia duas pequenas mesas velhíssimas, uma antiga máquina de escrever e algumas cadeiras de palha. Duas tinham o assento furado. No chão, uma pilha de pastas e jornais com uma trouxa de roupa em cima. Amarrados por uma cordinha, dois travesseiros e um cobertor. O chão enegrecido, queimado por pontas de cigarro, fora varrido conforme indicava o cesto transbordando de lixo, com a vassoura plantada no meio. Espetado no cabo da vassoura-mastro, um rolo de papel higiênico.
Lia tirou a sacola do ombro e dependurou-a na cadeira mais próxima. Olhou a mesa recoberta de poeira, o calendário enrolado apontando detrás da máquina, o copo com um resto de café no fundo- Desenrolou o calendário: ocupando mais da metade da folha, a gravura colorida de uma loura de biquíni, a boca polpuda se entreabrindo para emborcar a garrafa de Coca-Cola. Deixou-o cair e ele se enrolou como se tivesse molas. Voltou-se para o teto pardacento, pontilhado de moscas estateladas, a maior parte morta em meio de fiapos de antigas teias. Sorriu. "Lorena se divertiria muito aqui", pensou. No centro do globo de vidro leitoso, a mancha espessa de um amontoado de insetos que lá entraram e lá morreram aprisionados.
"Muito fraca", pensou Lia desviando o olhar para o dedo indicador que examinou com severidade. Voltou-se para o jovem que acabava de entrar:
— Precisamos de uma lâmpada mais forte. Onde você estava? Ele enxugou as mãos nos fundilhos do jeans. Sacudiu a cabeça.
— A privada é uma coisa, Rosa, você precisa ver. Fica lá no fundo do corredor. A gente tem que pensar na rainha e fechar os olhos.
— Providencio um penico, tenho uma amiga que tem um penico de porcelana com dourados e anjos. Se ela tirar a samambaia de dentro, peço o penico pra você, entende.
Ele puxou a cadeira. Cavalgou-a.
— Fiz a mudança sozinho, todo mundo dando ordens mas só eu camelei. Isto estava um lixo, já despejei três cestos e ainda sobrou este. Até rato, olha só o túnel do maroto — cochichou apontando para um buraco no ângulo do assoalho. — E é inteligente, viu. Me fez correr feito uma besta e depois se recolheu aos seus aposentos.
— Vai ver, é um tira disfarçado em rato.
— Quando saí ontem do cinema me pediram os documentos. Que medo, Rosa. Você não tem medo?
Lia passou a ponta da língua na unha roída. Demorou para responder.
— Perfeito. Amanha trago uma lâmpada mais forte. E uma folhinha sem anuncio de Coca-Cola. De onde veio esta maravilha?
— Não tenho idéia, porra.
Aproximando-se da janela, a jovem tentou abrir as venezianas mas o fecho estava emperrado. Espiou por um vão maior entre as tábuas carcomidas.
— Putz, o pátio interno. Você sabe o que tem aí defronte?
— Uma alfaiataria, falei com o velho quando cheguei. Legal, Rosa. Está vendo aqui embaixo a rede de arame? Em caso de emergência, dá perfeitamente pra pular e ir andando até a janela do velhinho.
— Que é dedo-duro da Oban. A gente enfia a cabeça na janela e ele agarra a gente pelo pescoço, assim — fez ela puxando Pedro pela gola do pulôver.
Atracaram-se aos safanões numa luta breve e feroz. Separaram-se rindo. Ele examinou a mordida no pulso e ela prendeu na nuca a cabeleira que ele puxara.
— Você tem força, porra! Acho que ia levar uma surra se continuasse — resmungou ele examinando o braço.
— Mas viu, Pedro. Conheço uma freirinha que você olha e diz, bom, não tem uma avozinha igual. Precisa ler as cartas anônimas que escreve pra todo mundo. Só espero que não ache o endereço do Dops, está quase cega.
— Carta anônima? Que genial! Você recebeu alguma? Ela tamborilou no vidro rachado da janela.
— Vamos tapar com jornal. Tem cola?
— Nem uma gota. Nem durex, nem papel, não temos nada.
— Amanhã trago alguma coisa. O Bugre deixou dinheiro?
— Diz que amanhã. Todo mundo só fala em amanhã — ele gemeu cocando a cabeça. — Não tenho nem pra cigarro.
Depois de oferecer-lhe o maço, Lia ficou olhando o globo de vidro com sua tímida aura de luz.
— Uma armadilha. Os bichinhos entram e não podem mais sair. E mesmo que consigam, tem as teias aí fora, a morte e pior ainda. Morte sem luta, sem nada. No papo da aranha.
— Podiam sair como entraram, não podiam?
— Se pudessem não estavam aí mortos.
— Mas os politizados escaparam.
Com o lenço de cambraia verde ela limpava agora o teclado da máquina. Passou a limpar a mesa, esfregando enérgicas as manchas mais resistentes. Guardou na sacola o lenço enegrecido e procurou um cinzeiro. Sorriu e bateu a cinza no chão.
— Tenho uma amiga tão fanática com ordem que já estou pegando a mania. Onde vou ela vem atrás com um cinzeirinho na mão — acrescentou tirando um recorte de jornal de dentro do livro que trouxera. — Você lê francês?
— Leio um pouco de inglês.
Ela percorreu o recorte. Encarou Pedro.
— E uma entrevista de André Malraux sobre Guevara. Sabe quem é Malraux?
— Um escritor, não? Parece que morreu faz pouco tempo.
— Quem morreu foi André Maurois, não interessa. Esse é Malraux, um cara muito importante, entende. O romance dele foi das coisas mais fabulosas que já li, A Condição Humana. Está traduzido.

Tomávamos uma média. Misto quente. A alegria que senti quando ele propôs, "vamos tomar uma média? A gente está gelando." Meus joelhos contra os seus, nossos sanduíches tão juntos que eu podia morder o que ele soprava. Da sua boca também saía fumaça. Não sei explicar, eu disse, mas se você for preso, vou e me entrego também. Ele nem respondeu. Tirou o livro do saco de lona e abriu-o em cima da mesa. "Mas esse Malraux é muito bom, o chato é que você marcou com essas cruzes o livro inteiro, por que fez isso? Você riscou tudo, olha só." Mas Miguel, o livro não é meu? perguntei e ele espalhou geléia na torrada. "Não fale como nazista, meu bem. Você tem que pensar nos outros que vão ler, não pode impor seu gosto aos outros. Atrapalhou minha leitura", resmungou me beijando com a boca suja de geléia. Geléia de laranja. Fico olhando o cigarro que tombou da caixa de fósforo onde o deixei. Rolou apagado pela mesa.

— Chateada Rosa?
— Vamos trabalhar
Na desordem da gaveta, tinha de tudo, menos papel. Cuidando ter achado um lápis. Pedro tirou do fundo uma escova de dentes de cabo vermelho. Fez pontaria e atirou a escova no cesto de lixo mas ela bateu na vassoura e desviou para a janela.
— Nunca entendi esses efeitos do bilhar — disse e me encarou: Queria fazer uma pergunta, Rosa. Posso? É uma coisa que eu queria saber.
— Fala.
— Você já teve experiência com mulher?
— Já.
— Que genial! E então?
— Não sei o que você quer saber — digo e fico rindo por dentro porque sei muito bem o que ele quer saber. — Nada de extraordinário, Pedro. Tão simples. Foi na minha cidade, eu ainda estava no ginásio. A gente estudava junto e como nos achávamos feias, inventamos namorados. Quando lembro! Como era bom se sentir amada mesmo por meninos que não existiam. Trocávamos bilhetes de amor, ela ficou sendo Ofélia e eu era Richard de olhos verdes e um certo escárnio no olhar, ô! como ela sofria com esse escárnio. Mas era preciso um pouco de sofrimento. Não sei bem quando o nome de Richard foi desaparecendo e ficou o meu. Acho que foi numa noite, botei um disco sentimental e tirei-a pra dançar, me dá o prazer? Saímos rindo e enquanto a gente rodopiava qualquer coisa foi mudando, ficamos sérias, tão sérias. Éramos demais envergonhadas, entende. Nos abraçávamos e nos beijávamos com tanto medo. Chorávamos de medo.
— Você era feliz, Rosa?
Passo a mão no seu queixo forte.
— Foi um amor profundo e triste, a gente sabia que se desconfiassem íamos sofrer mais. Então era preciso esconder nosso segredo como um roubo, um crime. Tanto susto. Começamos a falar igual. Rir igual. Tão íntimas como se tivesse me apaixonado por mim mesma. Não sei explicar, mas a primeira vez que me deitei com um homem tive então a sensação do amor do estranho. Do outro. Aquela boca, aquele corpo, não, eu já não era uma só, éramos dois: um homem e eu.
— Você achou isso bom?
— Se a gente tem vontade, tudo é bom. E eu tinha vontade de saber como era pra poder escolher. Escolhi. Mas quando lembro, ô, por que as pessoas interferem tanto? Ninguém sabe de nada e fica falando. Fazendo julgamento, tem juiz demais. Uma noite ela me telefonou em prantos, a família estava a fim de fazer um escândalo, eu tinha que sumir, quer dizer, aparecer na pele de um namorado. Reinventar urgente um namorado, o namorado do início daquele nosso jogo. Teria que lhe mandar cartas, presentinhos assinados por um homem que não seria mais Richard, que nome então? Até o moço da padaria eu usei no telefone, precisava da voz do Ricardo, ficou sendo Ricardo. Mentimos tanto em função dos outros que nos contaminamos com as mentiras. Não éramos amantes mas cúmplices. Ficamos cerimoniosas. Desconfiadas. O jogo perdeu a graça, ficou amargo. Do namorado de mentira ela passou pra um de verdade. Do meu lado, deixei-me cortejar por um primo, falou-se em noivado.
— E sua família, Rosa?
— Meu pai percebeu tudo e ficou calado. Minha mãe teve suas adivinhações e ficou em pânico, queria me casar urgente com o primo. O vizinho também servia, um viúvo que tocava violoncelo. Fez tudo pra me agarrar pelo pé mas catei meu necessaire e vim.
— Que é isso? Necessaire?
Abro na mesa o recorte de jornal. Olho o relógio.
— Uma amiga fala muito em fazer o necessaire, frescuras. Fazer a maleta, a frasqueira. Vamos trabalhar um pouco?
— Estou às ordens, Rosa de Luxemburgo.
Tiro da sacola dois tabletes de chocolate, um pra ele e outro. E outro pra ele também, decido. Atiro-lhe o segundo tablete, tenho que emagrecer uns cinco quilos, não tenho? Arranco-lhe da mão a minha parte e agora não posso responder porque estou de boca cheia, Miguel preso, falta de dinheiro, de pai, de mãe, meus amigos caindo Iodos e ainda vou me privar de açúcar?
Ficamos mastigando, concentrados.
— Quem falou nela? Na Rosa Luxemburgo — pergunto.
— O Jango.
— Uma mulher fabulosa. Foi assassinada pela polícia alemã logo depois da Grande Guerra.
Há uma ponta de malícia no olhar de Pedro.
— Ouvi dizer que seu pai era nazista. Verdade?
Dou um tapa na mesa com uma irritação que estou longe de sentir.
— Curtiu um pouco. Mas Pedro, não estamos brincando, eu queria que você entendesse bem isto. Aqui eu sou Rosa e você é Pedro. Fim.
— Só mais uma pergunta, só mais uma e prometo!
— Você pergunta demais, entende.
— Essa Rosa de Luxemburgo era bonita?
— Não tinha esse de Feíssima. Mas vamos lá, Malraux foi um antigo revolucionário, estava na China quando as coisas começaram. Participou da Guerra Civil Espanhola, da Resistência Francesa e etcétera etcétera. Quando ficou velho, começou a se apoltronar e acabou ministro do De Gaulle. Mas foi muito bacana antes. Veja que lúcido isto que ele diz sobre Guevara, considera Che o maior homem do nosso tempo mas com uma técnica errada e a prova disso é que morreu numa armadilha mais cretina do que esse globo aí em cima. Enganou-se quando pensou que estava dominando aquelas aldeias em redor, não sei explicar mas na verdade estavam todas controladas pelos norte-americanos.
— Devagar, deixa eu escrever isso.
Achou um lápis roxo e molha a ponta do lápis na língua, a. letra fica nítida mas os lábios vão se manchando de roxo. Guardo o recorte. Assim gostaria de guardá-lo também, no fundo da sacola, bem protegido. Ô! acho que estou ficando uma velha sentimental.
— Veja, Pedro, ainda na opinião de Malraux a revolução na América Latina terá um caráter trotskista, não será uma revolução das massas.
— Também penso assim, porra.
Acendo nosso último cigarro. Ele traga. Sua mão treme um pouco.
— Pode incluir o testemunho de um sacerdote peruano, Wenceslau Calderón de la Cruz, não é um belo nome?
— Wenceslau o que?
— Calderón de la Cruz. Considera homens como Guevara e Luther King verdadeiramente santos.
— Não gosto de Luther King — ele resmunga.
— Deixa então só o Che mas repense sobre Luther King. Antigamente a santidade era vista como o máximo da penitência, caridade, aquilo que você sabe. Mudou tudo. Hoje um cristão não pode alcançar a salvação da alma sem servir objetivamente à sociedade. Não sei explicar, mas todo aquele que luta com plena consciência para ajudar alguém em meio da ignorância e da miséria, todo aquele que através dos seus instrumentos de trabalho, do seu ofício der a mão ao vizinho, é santo. Os caminhos podem ser tortos, não interessa. É santo.
— Nessa altura posso falar dos nossos padres, hein, Rosa? Você precisava ver o Frei Cristóvão. Estava ontem caindo de gripe e ainda assim foi debaixo de chuva falar com as pequenas lá da Casa Vermelha, quase tivemos que dar uma porrada na dona. A idade delas varia entre treze e dezesseis anos, é só nessa faixa que são arrebanhadas. Saiu de lá e foi conversar com a loirinha que faz ponto na porta do cemitério, pega uma por uma, um trabalho tão lento, tem que gastar tanto cuspe. E o que ouve em troca!
— Romantismo. Mas enfim, um romantismo mais lógico que o pedido desse monte de padres enchendo o Vaticano. Casar! Padre tem que casar com a igreja! Ou então não fica padre, vai fazer outra coisa. Padre-mais-ou-menos é como político-mais-ou-menos, um lixo. Padre não deve casar nem com a mãe, que respeito a gente pode ter? Não freqüento igreja nem nada mas se um dia quiser voltar, quero encontrar um padre de mente limpa pra me dar a comunhão.
Ele riu.
— Então o sexo suja?
— Não sei explicar, Pedro, mas no caso atrapalha bastante. Fragmenta. E o padre tem que estar inteiro porque fragmentados já estamos nós. Padre a fim de trepar não tem vocação, é um equívoco e essa história de equívocos é abominável.
— Focalizo também a esquerda mais-ou-menos. Um cagaço que Deus me livre.
Sinto fome e frio. Apanho no chão um pedaço de barbante e com ele amarro o cabelo.
— Fico às vezes uma vara com esse grupo. E agora com essa do embaixador, putz. É o medo.
Ele levantou-se, foi até a janela e ficou espiando a noite pelo buraco carcomido da veneziana. Escondeu as mãos nos bolsos e me encarou:
— Acho que tenho mais medo da gente lá de casa do que da polícia. Meu irmão mais velho faz parte daquela onda de tradição e família, você precisa ver como ficou histérico. Morro de medo dele.
— E seu pai?
— Separado da minha mãe. Ih, Rosa, como sofri com essa separação. Eu chorava de noite mordendo o travesseiro, chorava feito uma besta, queria que eles morressem os dois mas não queria que ficassem separados. Não é esquisito? Por que sofri tanto assim? Não dizia pra ninguém, eles não souberam, nem ninguém, estou dizendo agora pra você. Fiquei todo quebrado por dentro. Feito o vidro da minha janela que levou uma pedrada, olhava o vidro e me via igualzinho. Nunca disse nada, estou dizendo agora e já estou chorando de novo. Por que tenho que chorar de novo, porra. Coisa mais imbecil.
Fico passando o lenço na mancha da minha malha. Sei que não vai sair e continuo esfregando como se tirar essa mancha fosse a coisa mais importante do mundo. Lorena ficaria radiante se me visse.
— Ela se casou outra vez? Sua mãe.
— Vejo um tipo rondando e até que é simpático. Não tenho mais nada com isso. Leio muita ficção científica e como faço o desligado eles me consideram sobre o debilóide e me deixam em paz.
Montou de novo na cadeira, apoiou os braços no espaldar e encostou o queixo no braço. A boca e os dedos manchados de tinta como os dedos das crianças que começam a escrever. Tenho vontade de aconchegar sua cabeça no meu colo, dorme, Pedro.
— Família é mesmo um pé no saco. A minha mora longe. Relações perfeitas.
Perto também a gente não vivia na perfeição? Mas é melhor ele se consolar comigo. Molhou a ponta do lápis na língua e começou a desenhar no canto da folha. Fez um passarinho voando. Fez uma casa. Reforçou o rolo de fumaça saindo da chaminé.
— Assim que começar a trabalhar, peço transferência para o curso noturno e vou morar com dois colegas. Você tem preconceito com bicha?
— Meu preconceito é contra o mau-caráter.
— Acho que um deles é bicha. Tem ódio de menina, diz que elas são a porta do Diabo.
Descalço as meias e faço com elas uma bola. Quero rir mas ele está seríssimo. Deixo as meias na gaveta, o que me perturbaram essas meias com seus elásticos frouxos. Como é possível um simples par de meias perturbar tanto? Um dia guardei aqui no fundo um par de soquetes de lã preta. E se ainda?. . . Fecho-as na mão. Empoeiradas mas quentes. Olho Pedro e me vem não sei de onde tanta esperança.
— Se não interessa, diga antes de se mudar, deixe tudo explicado, certo? Nada de enrolamentos, isso é importante. Você é virgem?
— Virgem propriamente não. É uma embrulhada.
Já sei, virgem. Podia fazer com Lorena uma boa parelha. Tomo seu lápis e desenho um sol radioso ao lado da fumaça.
— Não ficou mais quente? Reaprender a sorrir, Pedro. Reaprender a aguçar os punhais. E nitidez, nada de fumaças. Não faça o piedoso nem o sentimental porque aí você pode ferir muito mais. Afirmação.
— Mas são eles os sentimentais! Você precisava ver quando meu amigo desbundou, o cara só faltava morrer quando veio me dizer como estava infeliz, como a família era cruel e se eu também ia fazer como os outros, só porque ele não passava de um maldito. Não se ajoelhou porque não deixei.
— Mas por que maldito? Não suporto nem o pânico a declaração de princípios, nem acoelhamento nem provocação. Minha tia-avó ficou tão avariada com o peso do sexo que se escondeu num convento, virou freira. Uma outra tia que gostava da polêmica fez tantas que acabou puta. O mesmo medo, o mesmo medo. Se a gente não tivesse mais medo.
"Nem dia nem noite, sentenciou a Lorena. Eles estão no crepúsculo e o crepúsculo será sempre incerto. Inseguro."
— Literatura, bah. As mulheres já estão encontrando sua medida. Eles virão em seguida, acho que no futuro só vai haver andróginos — digo e fico rindo.
A Loreninha acrescentaria: coitadinhos. Mas quando fala em tom poético, não usa diminutivos.
— Você ama alguém, Rosa?
— Amo. E agora tire esse pulôver que hoje preciso dele. Vista o meu.
— Alguma missão? Com o Bugre?
Tomo sua mão entre as minhas. Suja e áspera.
— Não ouvi a pergunta.
Ele voltou a cavalgar a cadeira, teria corado? Corou.
— Ih, sou mesmo uma besta. Ai, Rosa, pelo amor de Deus, fica minha namorada. Te dou meu coelhinho, minha bicicleta, meu ovinho de pomba, tenho um ovinho de pomba — murmurou e riu baixinho. — Fica.
Agarro-o pelo cabelo.
— Já tenho namorado. Fim. Agora preciso ir.
— Espera, quais as características de um país do Terceiro Mundo. O nosso, por exemplo. Estou pensando em escrever um artigo. Mas onde publicar?
E onde eu poderia publicar? perguntei. Miguel ficou me olhando com esse mesmo olhar com que estou olhando Pedro. Acertou nas mãos o maçarote da minha novela e deu uma resposta ambígua, ele que não é ambíguo. Continuasse escrevendo sem pensar em publicar. Um dia, quem sabe? se achasse que o texto ainda era válido. Percebia-se que fora escrito com amor. Com honestidade.
Aperto a mão de Pedro como se apertasse a minha. Os bons sentimentos, o amor — nada disso é suficiente, hein, Pedro?
— Não se preocupe em publicar, vai escrevendo. Você não quer ser jornalista? Então é praticar, depois a gente vê. Presta atenção, falar em subdesenvolvimento não é só falar nas crianças, depois dou o número exato das que morrem por dia. Tem o analfabetismo. A multiplicação das favelas. Os retirantes, dê um passeio pelas rodoviárias, escute o que essa gente fala. Vendedores ambulantes com pentes, lápis, giletes. O lixo estourando nas ruas, como se chamam essas bocas que se abrem entupidas nas calçadas? A sujeira dos cafés, restaurantes, privadas, a sujeira apoteótica dessas privadas a começar pelas da Faculdade, ô, Pedro. Dê uma ligeira volta por aí e o artigo se fez sozinho no acessório e no principal, como diz minha amiga em latim, ela gosta de latim. Amanhã a gente conversa sobre as causas. Agora tenho que ir.
Ele me acompanha até a porta. Remexo o fundo da sacola.
— Fica com este oriehnid, dinheiro de trás pra diante dá sorte, guarde: oriehnid. Depois acertamos nossas contas.
— Mas é muito, Rosa.
Beijo-o no rosto. Entro na escuridão do corredor enquanto ele pergunta pelo meu romance. Não quero que me veja quando respondo que rasguei tudo, rasguei.
Pensei que tivesse vocação e me enganei como esses padres que estão aí se casando.
— Mas como você sabe que se enganou?
A gente sabe, Pedro. A gente sabe.
Ele me abraça com tanta força que chego a me espantar, não imaginava que fosse capaz, de tanta força assim. Sua boca tremente procura a minha. Vou ao encontro dela, nem sabe beijar, putz. Eu ensino, por etapas, espera, por que tanta afobação. Não me machuque, não somos inimigos, procuro lhe dizer com a língua que aplaca a sua e ensina o beijo demorado. Profundo. No começo e só desajeitamento, não tem importância, depois tudo se arruma, tenho ainda uns quinze minutos, murmuro ao seu ouvido. Recuamos abraçados até a sala. Ele estende a mão e apaga a luz, quer que seja no escuro. De acordo, no escuro e de porta fechada, decido empurrando a porta com o pé. Seus dentes machucam meu lábio, é dentuço, ô, não lute assim às tontas, eu mostro o caminho. É sofrimento, sim, mas também é gozo, não se preocupe comigo, entende. Vamos, sem medo, estou do seu lado, não contra você.
— Não fique assim, Pedro. Descansa, relaxa. Temos tempo.
Ele me beija e soluça de aflição e raiva, o sexo confundido. Tenho que tomar a iniciativa, vai fracassar de emoção e ficar desesperado. Vamos, Pedro. Não é nenhuma porta do Diabo, sussurro ao seu ouvido e rimos juntos. Também não é de Deus, é só uma porta, entre. Explodiu em esperma e choro agudo.
— Perdão, Rosa, perdão!
— Se me falar mais em perdão te mato agora, já,
— Foi tudo uma droga. . .
— Droga coisa nenhuma. Não foi bom?
Tiro o lenço da sacola e enxugo seu rosto. Sinto-o sorrir e fico sorrindo junto. "Você vai orientar o Pedro", Bugre ordenou. Olha aí, orientação completa. Uma boa ação ou simples vontade de amar? ô, lá sei, lá sei. Sei que amo Miguel mais ainda depois da traição. Se é que isto pode se chamar de traição. Puxo o cabelo de Pedro que está saindo da depressão com uma rapidez que me assusta. Ri sozinho, no auge. Beija a palma da minha mão e depois a leva até sua cara esbraseada.
— Te amo, Rosa, te amo.
— Perfeito. Mas vai agora procurar sua menina.
— Espera, Rosa!
Cato meus pertences. Ele me agarra mas tenho mais força. Deixo-o estendido no chão, completamente terno e bobo. Quer saber se vamos nos ver no dia seguinte, se meu namorado é mesmo Miguel, faz perguntas, perguntas.
— Boa noite, Pedro. Trabalha bem nesse artigo, certo?
A escada de caracol é escura. Alguém tosse meio sufocado. Levanto até as orelhas a gola do pulôver. Pedro vai sentir frio com minha malha mas pode tomar uma média e amanha vai olhar a namorada de frente, ô, Miguel, como preciso de você. Como esse menino precisou de mim. Quem sabe um dia ainda vou escrever bem. Se isso acontecer. Tenho pensado num diário, diário deve ser mais simples, uma coisa assim despojada, a Lorena me aconselha a escrever despojado, me acha barroca. Sou barroca por dentro e por fora, aceito. Planejamentos e estrelas. Genialidades sem gênio, é isso, Miguel? Um diário honesto. Enxuto, contando meu trabalho sem glória, sem nada. Até ser presa e morrer obscura, apenas com o nome que escolhi: Rosa. Preciso urgente de ar que estou me comovendo. Abro a porta do edifício e uma rajada de chuva e vento me bate na cara, a chuva vem em rajadas. Rajada não é uma palavra boa mas de trás pra diante: adajar? Rosa levou uma adajar no peito fica menos grave. Corro até a esquina, chegamos juntos, Bugre e eu. O carro é da cor da noite.
— Então, Bugre?
— Foi tudo adiado, tem coisas mais importantes acontecendo. E uma boa notícia para você. Seu relógio está funcionando? Perdi o meu, pode me emprestar esse? Deixa aí no porta-luvas.
Ela tirou o relógio-pulseira.
— Boa notícia pra mim? Fala, Bugre.
— Um momento, não estou enxergando direito, tem um lenço?
Emperrado, o limpador do pára-brisa não conseguia fazer escoar o chuvisco cerrado: ia até a metade do leque demarcado no vidro o voltava tremelicando, antena de um inseto moribundo, sem forcas para cumprir sua tarefa. A antena da direita apenas vibrava mas não saia sequer do lugar.
— Quer que empurre?
Agora está melhor, me acenda um cigarro, está no porta-luvas Ah, esse gorro tira daí, você ia usar hoje. É seu.
Ela abriu nas mãos o gorro de malha preta sanfonada.
— Meu? Gorro mais lindo, Bugre! Ando doida com meu cabelo, putz!
Ele recebeu o cigarro. Olhou-a através do espelho.
— Ficou com cara de marinheiro, Rosa. Vai ser útil na viagem.
— Que viagem?
Ele arrefeceu a marcha e voltou-se para vê-la:
— Miguel está na lista dos que vão ser trocados.
— Na lista? — Ela foi levantando a cabeça. — Miguel está na lista?
— Seu namorado vai embarcar. Argélia. Um dos primeiros da lista, queria estar no lugar dele. A notícia sai amanhã, pode ir arrumando o passaporte.
"Argélia?" Ficou olhando o vidro do pára-brisa por onde escorria o chuvisco até o dique da haste em convulsões mais espaçadas. "Argélia, Argélia", ficou repetindo. Apertou demoradamente o lenço contra os olhos. Fungou e limpou o nariz no dorso da mão.
— O Miguel? Na Argélia? Vamos ficar juntos? Demais, Bugre, demais. Não sei explicar mas estou tão atordoada! Vamos ficar juntos, é isso? Tenho que arrumar o dinheiro. . . perdão, oriehnid! É cara a passagem? Enfim, não tem importância, falo com minha gente, a gens lorenensis também vai ajudar, é evidente. Argélia?
Sufocou o choro e o riso.
— E cuida logo do passaporte que a operação vai ser rápida. Agora vou deixar você em casa, tenho um compromisso, amanhã a gente se fala. Contente, marinheira?
Ela abriu a boca e respirou com cuidado, com medo de receber uma dose maior de ar. Com a ponta do dedo, ao invés de Argélia, escreveu Algéria, pensando em Alger. No vidro esbranquiçado pelo hálito de ambos se transferisse o e para junto do l, Algéria ficaria sendo alegria. Limpou depressa o vidro com o lenço.
— Ô, Bugre. Me turbilhonou completamente. Estava com pensamentos horríveis, sei lá. Mas como foi isso, como foi?
— É longo, Rosa. Fique por enquanto com a boa noticia, Depois a gente conversa. Vocês vão levar uma vida dura.
— Eu sei. Eu sei.
— Muito trabalho. Mas vão ter bons contactos, Nenhum problema com sua família?
— Depois de três dias de choro minha mãe vai ficar ocupada demais em arrumar dinheiro, vai querer me forrar, o pavor que eu passe fome no estrangeiro. Meu pai é um alemão sentimental mas contido, ele entende. Sou capaz de mandar de lá uma foto com vestido de noiva pra efeito familiar, obrigo Miguel a posar de noivo, ô! o sucesso da foto no porta-retrato de prata da sala de visita.
Faria pose de estrela de cinema, qual era o nome daquela que a mãe gostava tanto? Rita Hayworth. Ela dizia Raivorti. O pai era distraído, não guardava nomes mas de um não esquecia. Claude Rains. "Um velho antipático, resmungava a mãe. Artista tem que ser moderno, bonito."
— Depois você conversa com Mineiro. Sobre o passaporte. É esta sua rua? Não consigo ver a placa.
— A próxima, vai em frente. E o Corcel?
— Amanhã estará na sua porta. Com os cumprimentos revolucionários.
— Bugre, Bugre, esse gorro e essa notícia, entende. Mas onde você vai? É neste portão — avisou inclinando-se para beijá-lo.
Pensou ainda em perguntar se Miguel falara sobre ela mas apanhou a sacola, o livro e perguntou apenas se podia ficar com o maço do cigarro.
— Leve também o fósforo. E olha seu lenço, isto não é seu lenço?

Entrou protegendo a cabeça com a sacola, a chuva aumentara.
— Que tempo — resmungou se sacudindo no vestíbulo do casarão.
— Lia? É você. Lia? — perguntou Madre Alix abrindo a porta do seu gabinete — Entre um instante, filha. Sente-se. Aqui ao meu lado. Quer tomar um café? Foi leito há pouco, vê se está bom de açúcar.
Lia deixou a sacola e o livro no chão. Sorriu desamparada. Queria ficar só, pensando e repensando.
— Insônia. Madre Alix?
— Não, muito trabalho. Mas que beleza de gorro.
— Não é mesmo? Presente de um amigo.
— Prendendo assim o cabelo você fica com cara de marujo e marujo alemão, você tem os olhos de seu pai.
— Foi o que falou meu amigo, cara de marinheiro — digo tomando o café. Quente demais. Doce demais. — A senhora recebeu carta da minha mãe?
— Uma longa carta. Gosto muito da sua mãe.
Fico olhando o relógio em formato de oito, dependurado na parede caiada de branco. O som também é antigo.
— Na minha casa tem um relógio igual.
— Você tem saudade, Lia?
— Não sei explicar, mas lá é como este café adocicado e quente. Minha mãe chegava a me abafar com tanto amor, preferia às vezes que me amasse menos. O velho disfarçando com carrancas, tios e tias estourando por todos os lados com os batalhões dos primos. Aconchegos, festinhas. Lembro de todos, amo todos mas não tenho vontade de voltar. Isso é saudade? Foi um período que se encerrou. Aqui começou outro e agora vai começar um terceiro período e então fico com esses dois períodos pra lembrar. Será saudade?
— Acho que sim. Quando noviça, eu pensava muito na minha gente. Sabia que não ia voltar mas continuava pensando com tanta força. Como quando se tira um vestido velho do baú, um vestido que não é para usar, só para olhar. Só para ver como ele era. Depois a gente dobra de novo e guarda mas não se cogita em jogar fora ou dar. Acho que saudade é isso.
Quebrei a cinza do cigarro no pires com rosinhas pintadas, Irmã Priscila pinta na porcelana. Tanta coisa que precisava de revisar, ô, essa notícia. Argélia. Mas que loucura, Argélia? Argélia, putz. E ouvindo aqui o caso do vestido. Fico olhando os olhos de aço de Madre Alix. Não é o caso do vestido? Um poema que Loreninha já recitou pra mim. Terei que dizer adeus à concha cor-de-rosa. Mas pra onde quer que vá e passe o tempo que passar sei que não vou esquecer seus incensos. Suas recitações. Suas músicas. Mil anos e posso vê-la branquinha e magrinha na sua malha preta, deitada de costas, pedalando no ar.
Tomo mais uma xícara — digo pegando a garrafa térmica. Ela puxa sobre a orelha a touca branca. A cabeça não é pequena para o corpo? Procuro imaginá-la jovem e já vestindo o hábito, uma vida cinzenta sobre os panos e sobre a touca que lhe cinge a cabeça a como um capacete. Mas por que vida cinzenta? Ela não pôs nesse trabalho de mais de meio século o maior amor? Então não tem nada de cinzenta. Soldado de Cristo, como era mesmo o hino? Levantai-vos Soldados de Cristo! Meio século curtindo um pensamento só.
— E os estudos, filha? Você trancou a matrícula?
— Bem, as coisas tomaram outro rumo, entende. Vou viajar, Madre Alix. Exterior. Por enquanto só posso adiantar isso, dentro em breve levanto a âncora, veja, já estou com o gorro — digo e não sei por que me emociono. — Não esqueço a paciência que a senhora teve comigo, sei que sou agressiva. Complicada. Deve ter tido às vezes vontade de me botar na rua. E me abria a porta.
Ela guardou os óculos no estojo de couro. Pôs uma mão sobre a outra e ambas em cima da mesa. Fiquei fixada na sua aliança de prata.
— Vocês me parecem tão sem mistério, tão descobertas, chego a pensar que sei tudo a respeito de cada uma e de repente me assusto quando descubro que me enganei, que sei pouquíssima coisa. Quase nada — exclamou e abriu as mãos no espanto. — O que sei, afinal? Que é da esquerda militante e que perdeu o ano por faltas? Que tem um namorado preso, que está trabalhando numa novela e que está pensando numa viagem que não tenho idéia para onde seja? Que sei eu sobre Lorena? Que gosta de latim, que ouve música o dia inteiro e que está esperando o telefonema de um namorado que não telefona? Ana Clara, aí está, Ana Clara. Como me procura e faz confissões, eu podia ficar com a impressão de que sei tudo a respeito dela. Mas sei mesmo? Como vou separar a realidade da invenção?
Quando ela se cala, fico ouvindo o som do relógio. As cadeiras de jacarandá com as toalhinhas de crochê na altura da cabeça, estavam, puídas as toalhinhas. Mas se foram feitas por avó Diú.
— Modéstia, Madre Alix. Na realidade a senhora sabe mais fundo do que aparenta.
— Vocês são jovens, Lia. Eu não contava com uma aproximação maior. Mas assim afastada como estou de que forma posso ser útil? E eu queria ser útil — repetiu. O pano da touca foi se franzindo, modelando as rugas que se aprofundaram na testa. — Ana Clara é a única que se deu sem reservas. Pois diante dela me sinto tão inútil quanto diante de vocês, reduzida como estou a um gravador, gravo o que me diz, aceito a carga mas quando procuro influir, mudar o que deve ser mudado ela me escapa como uma enguia. Peço, exijo. Um dia está arrependida até o fundo da alma, promete, faz planos. Chego a acreditar numa recuperação, você sabe, tenho uma confiança ilimitada no milagre.
Está esperando que eu conteste mas não vou entrar nesse moinho. Hoje não, ô, como eu queria curtir minha alegria sozinha na minha cama, no escuro.
— A senhora tem feito tanto. Madre Alix. Então não sei? Ficou a confessora dela. A enfermeira.
— E agora delatora, já conversei com meu primo que é diretor de um sanatório. Ela não pode ser internada à força, tem que estar de acordo e já me disse que concorda mas depois muda de idéia, se acha curada, mais promessas, projetos mirabolantes. Gostaria de conversar com esse noivo.
Vou até a janela e olho a noite brilhando de chuva. Vontade de recomeçar a escrever, mas quem decide? Se tenho ou não vocação. Lorena e Miguel não se entusiasmaram muito. Não se entusiasmaram nada. Mas não podem se enganar? Não devia ter rasgado, precipitação, histeria. Mas isso não tem problema, reescrevo se quiser. Lorena é sofisticada, Miguel é um cerebral, despreza ficção.
— Você conhece, filha?
— Quem?
— Esse noivo. Parece que é muito rico mas não gosta dele, gosta do outro! do Max. Fala muito nesse Max, viciado também. Um caos completo.
Assim de costas com seu avental cinzento e touca ela parece uma camponesa dessas bem antigas, modelo limpo demais até para um pintor acadêmico. Faço pontaria e acerto o cigarro no canteiro. Foi Lorena que espiou lá na janela?
— Se interna e se desintoxica. Perfeito. Depois de uma semana, de um mês tem alta, não pode ficar internada a vida inteira. Então recomeça tudo igual, a senhora sabe disso melhor do que eu. Não vejo saída.
— Queria fazer análise, prometi pagar o tratamento, ficou de ver o médico mas quando pergunto que médico escolheu ou quando vai começar, vem com respostas vagas, adia, é incapaz de uma decisão. Ontem chegaram as roupas que andou comprando. Devolvi tudo, nem a Pensão ela pode pagar e nem espero que pague. Mais dívidas com o cobrador insolente exigindo um sinal. Meus céus.
Este assoalho tão claro com suas tábuas largas, quase brancas. Na minha casa eu gostava de me deitar no chão enquanto os grande iam conversando pela noite adentro. Bom dormir com aquele som das conversas.
— Fico às vezes com vontade de sacudir Aninha, bater nela, tanta raiva me dá, ô! sei que está doente, é lógico, mas essa doença me deixa uma fúria. Então a senhora acha que um analista vai resolver no ponto que está? Já leve dezenas de analistas, Madre Alix. Dezenas. Andou com uns, os outros não pagou. Recuperáveis são os casos recuperáveis. Fim. Os loucos menos loucos, esses que nem a gente. Uma neurose que não chama muita atenção porque faz parte. enquanto o neurótico puder trabalhar e amar nessa loucura razoável, qual é o problema. Mas quando Ultrapassa aquela linha fininha como um fio de cabelo, do cabelo da Lorena de tão fino. Quando pisa um pouco para fora e mergulha nas águas amarelas. Kaput.
Os olhos de aço estão prestes a se derreter, ela gosta bastante dessa tonta. E é lúcida o suficiente pra não ter muita esperança.
— Desde ontem não aparece. Telefonou dizendo que está na chácara do noivo.
— Noivo. A senhora me desculpe, Madre Alix, mas Ana é o produto desta nossa bela sociedade, tem milhares de Anas por aí, algumas agüentando a curtição. Outras se despedaçando. As intenções de socorro e etcétera são as melhores do mundo, não é o inferno que está exorbitando de boas intenções, é esta cidade. Vejo a senhora sair com outras senhoras bondosas dando sopinha aos mendigos. Bons conselhos, cobertores. Eles bebem a sopinha, ouvem os conselhos e vão correndo trocar o cobertorzinbo pelo litro de cachaça porque o dia amanheceu mais quente, pra que cobertor? Tudo continua como na véspera com uma noite de demência a mais fornecida pelo donativo. Um padre nosso amigo foi ensinar catecismo à menininha de nove anos que o pai vendeu pro bordel e quase morreu de tanto apanhar do agregado da proprietária. Aprendeu a lição, ô se aprendeu. Caridade individual é romantismo, cheguei a essa conclusão não faz muito tempo. Agora ele funciona com a gente mas dentro de outra perspectiva. Nos esquecemos, nos descuidamos, diz Bela Akmadulina. E tudo caminha ao contrário.
Vou até à garrafa térmica e me sirvo de mais café mas queria um sanduíche. Presunto e queijo. Uma abelha se debate contra a vidraça e de repente seu zunido ficou mais importante do que nossa fala. Mas de onde veio essa abelha numa noite dessas? Gostaria de escrever como ela faz mel. E quase me dobro num riso desatinado, era bem doidona a cigarra da fábula com suas cantorias mas a formiga de vassoura na mão não ficava atrás.
— Tinha tanta coisa que lhe dizer, filha. E já nem sei por onde começar. Essa sua política, por exemplo. Me pergunto se você está em segurança.
— Segurança? Mas quem é que está em segurança? Aparentemente a senhora pode parecer muito segura aí na sua redoma mas é bastante inteligente pra perceber do que essa redoma está lhe protegendo. Alguns padres romperam o vidro como aquele de que falei. Por acaso estão em segurança? Não. Nem estão pensando em segurança quando se deitam no colchão sem travesseiro ou quando rezam suas missas num caixote feito altar.
Ela sorriu. Um sorriso triste que me arrependi de provocar.
— Mas não estou na redoma, Lia. É nesse ponto que você se engana como se enganou também quando disse que eu queria lhe apontar a porta. Deus sabe que meu desejo maior é protegê-las e guardá-las para sempre, como se isso fosse possível. Se não interfiro, se não me aproximo é porque não quero que pensem em vigilância, fiscalização. Vocês bateriam as asas mais depressa ainda.
Pronto, magoou-se. Essa minha mania de discurso, baiano com subversão pode dar noutra coisa?
— Não sei explicar, Madre Alix, mas o que queria dizer é que embora resguardada a senhora luta a seu modo, respeito sua luta. Respeito até a luta dos que querem nos destruir, respeito sim senhora, eles estão na deles. Como estamos na nossa, enfraquecidos, traídos, divididos, não calcula como estamos divididos. Mas vamos agüentando. Um que fique tem que correr como um cão danado pra passar o facho ao seguinte que recebe e sai correndo até o próximo que nem estava na corrida, entende. De mão em mão. É demorado mas não estamos mais com tanta pressa.
— Facho, Lia? Você fala em facho mas o que vejo é um levar ao outro violência, morte. Um rastro de sangue é o que vocês vão deixando por onde passam. Temos um Condutor Supremo e do Seu esquema transcendente a violência foi riscada. A espiritualidade. . .
Olha aí, vitória da espiritualidade. Arranco uma lasca da unha que vem com um fiapo de pele. O sangue brota. Chupo o dedo. Uma bala dum-dum no peito doeria menos.
— O Bezerro de Ouro está instalado na praça e a senhora me fala em espiritualidade. Os adoradores não são espirituais porque são adoradores, entende. O povo não é espiritual porque o povo quer fazer parte da adoração e não pode nem chegar perto, está desesperado, aquele brilho, aquele exemplo de conforto, gozo. Esses desastres, esses crimes, tudo isso é desespero, o povo está sem esperança e nem sabe. Então fica subindo nos postes, dando tiro à-toa, bebendo querosene e gasolina de aflição. Medo. Eu estava mesmo desorientada. Agora sei o que quero fazer.
— Violência também?
Não consigo mais ficar sentada, me levanto. Assumo o risco.
— Não, Madre Alix. Confesso que estou mudando, a violência não funciona, o que funciona é a união de todos nós para criar um diálogo. Mas já que a senhora falou em violência vou lhe mostrar uma — digo e procuro o depoimento que levei pra mostrar a Pedro e esqueci. — Quero que ouça o trecho do depoimento de um botânico perante a justiça, ele ousou distribuir panfletos numa fábrica. Foi preso e levado à caserna policial, ouça aqui o que ele diz, não vou ler tudo: Ali interrogaram-me durante vinte e cinco horas enquanto gritavam, traidor da pátria, traidor! Nada me foi dado para comer ou beber durante esse tempo. Carregaram-me em seguida para a chamada capela: a câmara de torturas. Iniciou-se ali um cerimonial freqüentemente repetido e que durava de três a seis horas cada sessão. Primeiro me perguntaram se eu pertencia a algum grupo político. Neguei. Enrolaram então alguns fios em redor dos meus dedos, iniciando-se a tortura elétrica: deram me choques inicialmente fracos que foram se tornando cada vez mais fortes. Depois, obrigaram-me a tirar a roupa, fiquei nu e desprotegido. Primeiro me bateram com as mãos e em seguida com cassetetes, principalmente nas mãos. Molharam-me todo, para que os choques elétricos tivessem mais efeito. Pensei que fosse então morrer. Mas resistia e resisti também às surras que me abriram mu talho fundo em meu cotovelo. Na ferida o sargento Simões e o cabo Passos enfiaram um fio. Obrigaram-me a então a aplicar os choques em mim mesmo e em meus amigos. Para que eu não gritasse enfiaram um sapato dentro da minha boca. Outras vezes, panos fedidos. Após algumas horas, a cerimônia atingiu seu ápice. Penduraram-me no pau-de-arara: amarraram minhas mãos diante dos joelhos, atrás dos quais enfiaram uma vara, cujas pontas eram colocadas em mesas. Fiquei pairando no ar. Enfiaram-me então um fio no reto e fixaram outros fios na boca, nas orelhas e mãos. Nos dias seguintes o processo se repetiu com maior duração e violência. Os tapas que me davam eram tão fortes que julguei que tivessem me rompido os tímpanos: mal ouvia. Meus punhos estavam ralados devido às algemas, minhas mãos e partes genitais completamente enegrecidas devido às queimaduras elétricas. E etcétera, etcétera.
Dobro a folha. Madre Alix me encara. Os olhos cinzentos têm uma expressão afável.
— Conheço isso, filha. Esse moço chama-se Bernardo. Tenho estado muito com a mãe dele, fomos juntas falar com o Cardeal.
Agora é que eu não sei mesmo o que pensar. Muito especial, diria a Lorena. Nunca ninguém me deu tanto essa idéia de união de gelo e fogo como ela me dá. Tinha empalidecido mas está de novo corada, as veiazinhas se cruzando na superfície da face numa rede fina como se fosse feita de cabelos rompidos aqui e ali, as pontas meio perdidas se buscando adiante e se dando as mãos até formar um só todo transcendente e indefinível como o ser único desse seu universo. Um universo que é o da sua infância. A própria infância da humanidade.
— Boa noite, Madre Alix. Gostei muito de conversar com a senhora.
— Toma cuidado, Lia. Não quero que você sofra, toma cuidado, eu peço.
— Sou forte à beca.
— Não, Lia. Vocês são frágeis, filha. Você, Lorena. Quase tão frágeis quanto Ana Clara. Haja o que houver, não deixe de me dar notícias. Conte comigo.
— Vou lhe mandar meu diário, Madre Alix. Ao invés de cartas, um diário de viagem!
Ela me acompanha até a porta.
— Posso lhe dar uma epígrafe? É do Gênesis, aceita? — pergunta e sorri: Sai da tua terra e da tua parentela e da casa de teu pai e vem para a terra que eu te mostrarei. É o que você está fazendo — acrescentou. Hesitou um pouco: — É o que eu fiz.


sete



Irmã Clotilde entrou triunfante com o ramo de margaridas e a sacola de frutas.
— Trouxe laranja, melão e maçã. E também banana, olha que beleza de cacho.
Interrompi meu exercício de bicicleta mas continuei deitada n<> chão. Soprei-lhe um beijo nas pontas dos dedos.
— A senhora é uma santa.
— Quem me dera.
Ela deixou pender os braços desamparados dentro das mangas do hábito, inclinou a cabeça e ficou pensativa, olhando para dentro de si mesma. E o que vê não deve ser animador.
— A senhora queria mesmo?
Abriu o sorriso amarelo-esverdinhado, a dentadura tem um vago tom vegetal. Cheirou as margaridas e a cara continuou parada, inspirada.
— Na adolescência eu quis ser Santa Teresinha. Fiz tudo o que ela fez, cheguei até a pintar um quadrinho óleo, acredita? Não consegui ter a febre, minha saúde foi sempre excelente. Depois quis ser Santa Teresa D'Ávila.
Mais difícil realmente. Fico olhando o teto.
— Las Moradas.
— Você leu? — ela perguntou juntando as mãos. Animou-se: — Eu sabia quase de cor, menina. No es pequeña lástima y confusión, que por nuestra culpa no entendamos a nosotros mismos, ni sepamos quién somos.
O avental cinza-chumbo chega até seus tornozelos bem torneados. Tem a cintura fina. Pelada, deve melhorar muito.
— Muitas religiosas estão tirando essas roupas, a senhora não está pensando nisso? Suas pernas são bonitas, Irmã.
— Terribles son las ardiles y mañas del Demonio para que las almas no se conozcan ni entiendan sus caminos.
Espeto dois dedos na testa e faço uma careta que se perde porque agora ela está olhando de novo para si mesma. Afundou ainda mais. Confusión y lástima. Abriu a boca e respirou já na tona.
— Mas eu dizia que quis imitar as duas Teresas. Não tive nem a candura da primeira nem a inteligência da segunda. Aprendi a lição, tolice copiar modelos. O estado de graça de uma alma está mais num estado de inconsciência do que em outra coisa. Gosto muito de pintor primitivo enquanto ele ainda não sabe que é primitivo — acrescentou ela examinando a bolselha que Aninha esqueceu na mesa. O fecho se abriu e pelo vão escapou um fino pincel delineador. — Essa sua amiga, por exemplo. E se estiver mais próxima de Deus do que nós que vivemos para isso?
Ai meu Pai. Se ela continuar me mato.
— Não é o telefone, Irmã? Estou esperando um chamado. Ficou escutando. Apertou contra o peito a bandeja que tinha ido buscar e fixou em mim o olhar de amêndoa nem amarga nem doce. As mangas do seu hábito terminam em ponta, como asas: um passarinhão nem da terra nem do céu. Crises de consciência, coitadinha. Sabe que é menos grave fazer amor com mulher mas ainda assim deve se queimar na curtição.
— É no vizinho. Tem um telefone que toca demais aí na vizinhança e ninguém atende.
Fecho o livro e nele apoio minha cabeça. Mais guerra do que paz senhor Leon Nikolaievitch Tolstói. Se somarmos as guerras todas do mundo, já imaginou? Ainda vou defender essa tese em Direito Internacional: a anormalidade é a paz.
— Foi assassinado.
— Quem, Lorena?
— Esse vizinho que não atende o telefone. Mãezinha adora historias de crime, outro dia me contou um crime horrível que houve na França. Um padre.
— Padre?
— Já faz tempo. Ele assassinou no bosque a amante grávida, i n ou o feto, batizou o feto tudo direitinho e depois enterrou mãe e filho debaixo de um carvalho e ainda fincou em cima uma cruzinha de graveto, já pensou? Só fico me perguntando que nome ele botou no filho — digo apanhando a laranja que rolou no chão, ela está arrumando as frutas na bandeja.
— Não foi um padre que cometeu o crime, foi um demônio. O demônio se apossou de sua alma.
— Mas não totalmente, Irmã. Ele batizou o feto e depois fez a cruz na sepultura. Acho que foi por causa de crimes assim que antigamente a igreja tolerava a pederastia- Se ele tivesse um amante — digo e já estou arrependida.
É tarde no planeta. O silêncio ficou tão inteiriço que posso ouvir seus gestos compondo a pirâmide de frutas. Estou exausta mas recomeço a pedalar, é preciso fazer alguma coisa. Seria maravilhoso cantar se eu tivesse voz. Ai meu Pai.
— Está bem assim, Lorena?
Ela tenta equilibrar a maçã no alto da pirâmide. Tenho vontade de alisar seus sapatões escalavrados, estacionados em engulo reto. Toda ela tão reta, pobrezinha. Mas quem inventou que é lésbica? E por que eu acreditei? Por que aceito sempre o pior? Estico as pernas à moda oriental e fico sentada no tapete
— E não é o pior, lógico. Essa idéia que me veio — acrescento depressa. — A senhora é de um tempo mais-que-perfeito. Que tempo será o meu?
— Ainda não sabe, filha?
— Não.
— Você é jovem demais, não se encontrou.
— Ih, o bla-bla-bla clássico, o que sou? de onde venho? pra onde vou? Lião fica p da vida quando alguém começa com essas elucubrações. "Trabalhe, entende. Seja útil, participe e quero ver se vai ter folga pra ficar admirando o próprio embigo." Ela diz embigo, eh, Lia de Melo Schultz. Concordo e tudo mas as milhares de horas que gastei olhando o meu. O que sou? Plenitude transbordante se ao menos por telefone ele me diz um alô. Alôlorena.
— A senhora já amou. Irmã? Antes dos votos, é lógico.
Ela cata no chão as folhinhas das margaridas.
— Não se esqueça das suas cenouras que estão na nossa geladeira.
Cenouras. Queria comer beleza e me oferece cenouras.
— Queria tanto ser bonita.
O silêncio. Sempre que falo nisso há um certo silêncio. E continuo falando, ah, preciso da piedade de todos vocês.
— Ora, filha. Seu tipo é assim tão. . .
Especial? Examino as palmas das minhas mãos.
— Quando mãezinha era jovem, teve uma amiga muito purinha que acordou um dia com as chagas de Cristo nas mãos, não é extraordinário? — pergunto.
— Mas não quero resposta, quero ficar só. Gosto muito das pessoas mas essa necessidade voraz que as vezes me vem de me libertar de todos. Enriqueço na solidão: fico inteligente, graciosa e não esta fera ressentida que me olha do fundo do espelho. Ouço duzentos e noventa e nove vezes o mesmo disco, lembro poesias, dou piruetas, sonho, invento, aluo todos os portões e quando vejo a alegria esta instalada em mim.
Não e o primeiro caso. Das chagas — disse Irmã Clotilde endireitando o corpo e empunhando as flores tesas como um feixe de lanças. Precipitou se para o banheiro: — Posso?
Pede licença para entrar como se corresse o risco de encontrar um homem lá dentro. Digo-lhe que entre, não precisa pedir licença. Tombo de costas. Este fruto tem fogo dentro dele; — ah que horrível-maravilhoso é viver. Fico ouvindo o jorro da torneira penetrando na caneca de cobre. Um ato de amor. Vai transbordar?
— Isso de não comer carne, menina. Você está pálida.
— Sou vegetariana, querida.
Aspiro com fervor o ar recém-nascido da manhã. Abro as mãos estendidas para o teto e meu plexo solar também se abre e vai girando como um girassol. Que sabe a flor da raiz? — pergunto em voz alta. Os poetas pressentem mas não estão certos.
— Consolatrix afflictorum — grito por dentro.
A raiz está fechada na custódia de ouro coberta com um pano dourado. A chave é a verdade, só peço verdade e dou verdade em troca. É um preço alto? Pelo visto, altíssimo. Quem é que se interessa? Todos me olham tão simpáticos, me fazem um agradinho na cabeça e vão correndo comprar ingresso no Trem Fantasma com seus túneis de papelão pintado e viajantes de matéria plástica. O trem corre por paisagens de flores e cascatas artificiais, só farsa nos efeitos do jogo de espelhos.

— Ana Clara então tem cor de coalhada — disse Irmã Clotilde reaparecendo na porta. Enxugou as mãos. — Até a Lia que parecia uma romã também está perdendo as cores. Não sei o que está acontecendo com vocês.
"Sabe muito bem", pensou Lorena apanhando na estante o tratado de legislação social. Agitou-o fazendo farfalhar as longas tiras de papel que marcavam as páginas. Leu as anotações na extremidade de uma das fitas. Debruçou-se na janela e ficou olhando o jardim. O Direito nasceu espontâneo como aquelas florinhas brotando no meio do mato. "Mas vieram os homens cavilosos complicaram tudo com suas cavilosidades" — pensou arrancando outra fita de dentro do livro. Leu-a com atenção e picou-a em pedacinhos miúdos como confete. Soprou-a na palma da mão. Tesão era caviloso? Imagine. Os que vieram depois é que fizeram aquelas caras espertas e inventaram a, sed lex." E, que no fundo não é tão dura assim. Com Madre Alix aprendera essa palavra, cavi-loso. "Esse seu gato é tão caviloso", ela disse apontando Astronauta que nesse momento exato começou a fazer a toalete das partes. Foi ao dicionário: capcioso, manhoso, sofista. A expressão era de origem nordestina, tudo se ajustando: Madre Alix era cearense. A voz de barítono de Irmã Clotilde dominou o ruído embesourado de um helicóptero em vôo baixo:
— Parece banheiro de cinema. Nunca encontrei uma menina assim caprichosa como você.
— A desordem me deprime, Irmã. Ah, se eu pudesse me arrumar por dentro, tudo calminho nas gavetas. Minhocação demais.
Ela apanhou alguma coisa que deixou cair no chão. Abriu o armário de roupas. Lorena acompanhava-lhe os movimentos pelos pequenos ruídos que os objetos emitiam quando eram violados. "Ficou curiosa. Quer ver se minha roupa também é de cinema", pensou examinando uma folha de caderno dobrada dentro do livro. O rascunho de uma carta para M.N. Uma carta em verso que não mandara como tantas esboçadas e imaginadas: O meu coração é que veio sangrando, veleiro vermelho na crista da espuma — leu e sorriu para a pequena zebra de flor na boca que desenhara no canto da folha.
— Minha poesia é pouca porém ruim.
— Que foi?
"Ai meu Pai. Também esta deve estar ficando surda." Lia já tinha dito, não tinha? Os orifícios menores acabam se fechando solidários com o principal, "Res accessoria sequitur rem principolen" — murmurou voltando-se para a freira. A fisionomia se acendeu.
— E se eu ficar repetindo sou divina maravilhosa e ele me ama perdidamente, sou divina-maravilhosa e ele me ama perdidamente sou divina-maravilhosa. E ele.
— Assim, filha. Pensamento positivo.
Lorena aluiu o livro ao acaso, leu um trecho sobre acidentes no trabalho e em seguida fechou os olhos: podia repetir palavra por palavra o que acabara de ler. Sorriu, excitada. E as coisas que via de olhos fechados? Não existiriam realmente? Por que o delírio não haveria de corresponder a uma realidade? Ficou olhando as margaridas na caneca de cobre que a freira deixou em cima da mesa. Agora estavam de cabeça baixa, os cabos compridos sem forças de sustentar as corolas que pendiam com suas grinaldas de pétalas brancas. "Como noivas tímidas", pensou comovida. Levou a caneca até a prateleira da estante onde estava o retrato do pai. "Me ajuda, paizinho. Ele gosta de mim, eu sei. Mas o suficiente? Mulher, filhos, é gente à beça. Tenho horror do faz-de-conta e ele vai querer assim, ah, meu paizinho querido, posso dizer que vou resistir, que vou renunciar. Mas se ele me chama vou correndo, pisando na ponta dos cascos, chego duas horas antes, meu amor!"
— Na casa dos meus avós tinha uma igualzinha — disse Irmã Clotilde lustrando com a ponta do avental a barra dourada da cama.
Dou-lhe o pano de pó e ela exulta, adora trabalhar. Já avisei que a empregada da mãezinha vem vindo por aí com seus sapatos de ferro e eficiência daquelas fadinhas arrumadeiras. Jacaré ouviu? Precisa estar fazendo alguma coisa com as mãos, mãos grandes e ossudas, as unhas quadradas cortadas rente. Está em meu redor há milhares de horas. E se estiver apaixonada por mim? Já pensou? Mulher de padre vira mula-sem-cabeça. E mulher de freira? As unhas cortadas rente. Conhece-te pelas unhas. Precisam apará-las com cuidado, instrumentos importantíssimos, ô vexame! Por que só coisas assim varam minha mente pervertida. Quem me vê tão suave. Uma criança.
— Apenas um terço de nós é visível, a senhora sabia? o resto não se vê. O avesso.
— Só um terço visível?
Viro a página. Ainda os acidentes, bla-bla-bla-bla-bla. Lá sei. O resumo deve estar aqui adiante, quer ver? Pronto, bla-bla-bla. Encaro-a. Ela parou em suspenso, segurando a flanela esticada entre as mãos, pronta para recomeçar os movimentos de engraxate nas barras que brilham como ouro.
— Só um terço, querida. Vejo seu manto, seu rosto, suas mãos segurando esse pano. É pouco, não? E o resto? Onde está o resto que não posso ver?
Deve ter ficado satisfeita com sua alta porcentagem de mistério.
— O resto é tudo, menina. Mas esse pertence a Deus.
Seus sapatões de amarrar acabaram por tomar sua fisionomia: sapatos de quem sabe o que faz. E faz bem. Pisa para fora, os pés abertos no compasso de uma marreca sólida em direção à água, plaque-plaque. Virgem? "De um certo modo, sim", disse a Lião meio reticente, ainda não fez suas pesquisas a esse respeito. A corrida para o quarto de Irmã Priscila tem que ser descalça. Os cochichos. Os suspiros, freira deve suspirar dobrado no amor. Frases curtas. Respiração curta, no feitio dos livrinhos bandalhos do século dezoito onde uma abadessa de nome francês conta às noviças suas memórias secretíssimas.
— Quando eu ficar velha vou escrever minhas memórias — digo. — O chato é que o pensamento delirante, tão lindamente desgrenhado acaba penteadíssimo. Triunfo das normas de conduta.
Ela agora está no banheiro lavando as mãos, depois de cada coisa que faz, lava as mãos.
— No meu tempo todas as mocinhas tinham seu diário. Mas vocês agora podem dizer tudo aos namorados, ao analista. Até aos pais. Por que o diário?
Também deve gostar de lavar os pés. De noite, antes da corrida da madrugada, plaque-plaque, os dedos em leque livres dos sapatões, escolhendo as tabuas que rangem menos no chão rangente pela própria natureza. Ai meu Pai. Não admira que Irmã Bula viva com o olho pingando, as coisas que vê ou adivinha pelo buraco da fechadura. O desfile: a Lião com suas alpargatas que carregam a poeira do mundo. E que pacotes são esses, panfletos? Bombas? Em seguida, Ana Turva com seu sapato dourado e bêbado, pisando na longa écharpe a la Isadora Duncan. Não demora muito, e essa daí aparece com sua camisola de algodão e rendinha, os pés grandes demais para qualquer sutileza por entre as tábuas gementes, ah, a inspiração dos antigos conventos com as passagens subterrâneas. Fechando o séquito, a Gata de patinhas enluvadas, a barrigona roçando o chão, onde um ninho para despejar a gataria. A ordem de entrada em cena sujeita a variações, inalterado o produto. Bulinha enxuga o olho no lenço-lençol e se debruça tremente na janela, quer me ver casta e tranqüila, esperança de salvação, "você está bem, menina?" E a menina possuída pelos demônios, escancarada na noite e pedindo socorro em código de navio, dum-dum, dum-dum!. . . Horror, horror. A solução é escrever urgente mais uma carta anônima que Madre Alix lê o rasga, pairando magnífica sobre todas as coisas, ostende nobis, Domine, misericordiam tuam.
— Agora preciso ir. Mais alguma coisa, filha?
Queria pedir-lhe perdão.
— Leva algumas frutas, minha Irmã. Daqui a pouco vai chegar uma cesta da casa da mãezinha, imagine se vou comer tudo. Me jogue aí uma banana, sim?
Ela examinou o cacho. Franziu a testa.
— Só estarão no ponto daqui a dois dias. Toda fruta tem seu dia certo — acrescentou e ao invés de olhar o cacho, olhou a própria mão. — Não deve ser comida nem na véspera nem no dia seguinte.
Há uma ligeira nuvem na sua cara póstuma. Nem antes nem depois, coitadinha. Desvio depressa sua atenção para mim.
— Meu namorante me acha verde demais.
— Verde? — Estendeu-me o figo que segurava pelo cabo. Que idade ele tem? Não é aquele menino, o Fabrizio?
— É outro. Marcus Nemesius. O pai era latinista, todos os filhos têm nomes declináveis, não é bacana? Rosa, rosae. Servus, servi.
Como bosta, bostae. Mordo o figo quase obsceno. Ainda a nuvem. Escondeu as mãos nos bolsos. Ficou desocupada, ficou triste.
— Somos amantes. Estou esperando um filho dele.
— Menina fantasiosa! — exclamou rindo.
Ao menos consegui fazê-la rir. Corro e encho com frutas seus bolsos.
— A senhora conhece algum remédio para o mal do amor? Estou doente de amor.
— Maravilha Curativa do Doutor Humphreys. Cura tudo, a gente põe compressas no peito, no lado do coração. Adeus! Encontrou-se com Lião no meio da escada.

— Pode-se entrar? — ela perguntou já dentro do quarto. Foi até o cacho de bananas e arrancou duas.
— Estão verdes, querida — Lorena avisou. Lia encolheu os ombros.
— Era uma receita dela? Ouvi falar em compressas, entende.
Como se tivesse prendido uma borboleta pelas asas, Lorena segurava no alto o cabo do figo. Olhou em redor. Onde deixá-lo? Não no cinzeiro, se misturaria à cinza, destilando umidade. Foi buscar um prato e nele recolheu também as cascas que Lia amontoara na concha da mão. Ajoelhou-se diante da amiga e cuidadosamente dobrou a bainha esfiapada do seu jeans. Amarrou-lhe os cordões das alpargatas. Examinou-lhe o pulôver preto, de gola alta, "esse eu não conhecia". E se interessou pelo gorro.
— Onde você arrumou isto?
Lia despejou no tapete uma parte do conteúdo da sacola.
— Presente de um amigo. O carro da sua mãezinha já está aí na frente, achar a chave é que está meio difícil.
— Foi tudo bem?
— Perfeito — disse Lia.
Empilhava com certo método alguns mimeografados políticos, cigarros soltos, uma escova de dentes e a metade de um sanduíche embrulhado em papel-manteiga. Despejou o resto das miudezas: algumas moedas, um pente preto com fiapos de Fumo acumulado entre gretas, um chaveiro de prata e uma bolinha de pano enegrecido. Lorena reconheceu o lenço verde na bolinha que rolou até quase seus pés. Ficou esperando pela saída do segundo lenço mas do fundo da sacola só saíram farelos de pão de mistura com papel picado. Sentou-se ao lado da amiga e ficou olhando o teto.
— Lia de Melo Schultz, estou triste mas você está contente.
— Muito — disse Lia pondo o chaveiro em cima da mesa. Ajoelhou-se na almofada, arrancou o gorro e a cabeleira explodiu no maior entusiasmo: — Aconteceu uma coisa ótima, entende. O problema vai ser oriehnid mas se meu pai colaborar e se você também.
— Quanto?
— Ainda não sei, digo depois, É uma viagem. Viagem para o exterior, depois digo tudo. Ô Lena, ando fervendo por dentro.
Lorena aproximou-se mais. Sentou-se no tapete, dobrou as pernas e ficou olhando os próprios pés descalços.
— Pega o microfone e me entrevista.
Lia segurou firme a banana e estendeu-a até a boca de Lorena.
— Jura dizer a verdade, só a verdade, nada além da verdade?
— Juro.
— Nome, por favor.
— Lorena Vaz Leme.
— Universitária?
— Universitária. Direito.
— Pertence a algum grupo político?
— Não.
— Por acaso faz parte de algum desses movimentos de libertação da mulher?
— Também não. Só penso na minha condição.
— Trata-se então de uma jovem alienada?
— Por favor, não me julgue, só me entrevista. Não sei mentir, estaria mentindo se dissesse que me preocupo com as mulheres em geral, me preocupo só comigo, estou apaixonada. Ele é casado, velho, milhares de filhos. Completamente apaixonada.
— Uma pergunta indiscreta, posso? Você é virgem?
— Virgem.
Depois de pedir licença, Lia descascou metade da banana que empunhava. Abocanhou um pedaço e respirou com ênfase. Falou de boca cheia:
— Quer dizer que não são amantes. Será ousadia minha perguntar o motivo?
— Ele não quer. Nem me procura mais, faz um montão de dias que nem me telefona.
— Mas trata-se de um impotente? De um homossexual? Se não me falha a memória, ouvi qualquer coisa sobre filhos, não ouvi?
— Ele é um gentleman.
— Ah.
— Mas se me chamasse como a última das moicanas juro que eu iria correndo, correndo, você me chamou? Ia morar com ele num porão, debaixo da ponte, na estrada, no bordel, Lião, Lião — choramingou ela afastando a banana. — Não quero mais brincar, estou tão triste.
Lia contraiu as sobrancelhas grossas. Mastigou concentrada. Chegou a estender a mão para apanhar o lenço embolado entre o cinzeiro e o pente. Limpou as mãos no tapete e fez uma carícia na cabeça da amiga.
— Não sei explicar, mas vai ver, a culpa é sua. Não andou falando em casamento? Se falou, o cara ficou apavorado, essa mania de falar em casamento. Virgindade.
— Piorou muito depois que entrou num cursilho.
— Entrou num cursilho? Se entrou é porque está a fim de salvar o casamento. Você não vai ter nem amante nem marido. Fim.
— Mas quem é que quer casar?
— Você. Quer casar sim senhora, não pensa noutro assunto, certo? Pois então vamos partir pra um que seja livre, putz! E o Fabrizio?
— Sei lá. Sumiu. Me viu com M. N. e então fui franca, você sabe, não gosto de enganai ninguém
Lentamente Lia foi levando o polegar a boca. Começou a roer a unha. E de repente riu.
— O Pedro e demais inexperiente, não serve. Tem então o nosso padre que também deve ser inexperiente mas com a vantagem da idade. Um padre como você sonhou, maravilhoso. Louco pra casar.
Lorena riu silenciosamente, sacudindo os ombros.
— Quer mesmo? Hein Lião?
— Não quer outra coisa — disse Lia apanhando na bandeja uma maçã. Esfregou-a no punho do pulôver antes de morder: — Agora que está provado que casamento não funciona a padraria toda se animou, dezenas de pedidos de licença. Será o golpe de misericórdia que vão dar na igreja. Kaput.
Delicadamente, com as pontas dos dedos Lorena foi juntando num montículo os detritos espalhados na pequena área do tapete onde Lia despejara a sacola. Recolheu o montículo numa folha datilografada mas antes de despejá-lo no cinzeiro, leu: Jamais reencontramos a liberdade a não ser no dia em que foi posta por terra, escreveu Marx em 1844. Infelizmente a continuidade de submissão e reacionarismo manteve-se até nossos dias na história alemã.
— Não tem sentido, Lião. Se você é da esquerda, tem que aceitar essas renovações que fazem parte do quadro. É a Igreja Nova que está nascendo dos escombros da outra, vamos ter padres desreprimidos, contentes. América Latina precisa fazer mais amor do que as outras Américas. Trópicos!
— Não sei explicar, Lorena, mas a igreja abriu demais as pernas. O que salva é esse monte de padres lutando por aí, quase choro de emoção, como lutam, putz. É o que está vivo em toda a engrenagem.
Desembrulhou o sanduíche, deu uma dentada vigorosa e recolheu na sacola os objetos que espalhara.
— Pegar em carabina, pode. Casar, verboten. É isso?
Ela enfiou na boca o pedaço de presunto que lhe caiu no peito e ali ficou preso na malha. Não pode falar, a boca está cheia demais. Dobro de novo a barra das suas calças desbotadíssimas. E essas meias de lã preta empoeiradas, onde arrumou essas meias? Eh, Lia de Melo Schultz. Puro preconceito de Dona Diú somado ao nazismo de Herr Schultz. Padre fazendo amor? Câmara de gás nele. Como se estivéssemos na aurora dos tempos, quando Jeová separou as águas das terras, as trevas da luz, o Bem de um lado e o Mal do outro. E os crepúsculos?
— No crepúsculo fica o amor que transgrediu, querida. A faixa que não é nem dia nem noite mas penumbra, meias tintas. Silêncio. A faixa dos que preferem calar. Entram aí os homossexuais, os incestuosos, os adúlteros, os do amor tenebroso, veja que classificação genial. Da minha cabecelha. Padre que está querendo mulher também se enturma com esses. A ambigüidade. O medo.
Vagarosamente Lia foi amarrotando o papel-manteiga e deixou a bolota ao lado do cinzeiro transbordante. Arrancou o pulôver. Lorena ficou olhando a camiseta de algodão que ela vestira no avesso.
— Como você é quadrada — resmungou Lia. — Quadrada e romântica, o que dá no mesmo.
— Está no avesso — avisou Lorena.
E se arrependeu. Era bem provável que o direito estivesse ainda mais encardido. Esperou de olhos baixos que a amiga a desvestisse.
— Mas veja, Lena, se eles se enrolam em mulher vão ter mais medo, quer dizer, mais problemas. Por que casar? Se não querem uma causa política, tem milhares de outras pedindo aí tempo integral. Acho que nunca se precisou de tanto padre como agora. Gente endoidando, morrendo, quero confessar, quero comungar! — gritou sacudindo pernas e braços em convulsão. — E os marotos arrepiando carreira. Fantástico, entende. Isso é Chopin? Muda isso, quero uma coisa alegre. Estou alegre, Lena. Mas o que você está fazendo?
Inclinada sobre o pescoço da amiga, Lorena procurava desatar o nó do barbante com o pequeno peixe prateado e o sino.
— Calma, querida, calma. Tenho uma corrente de prata que não uso nunca, este fio está feio, espera, vou trocar. Mas os padres, hein?
— Nossos índios se sifilizando, os meninos todos caindo de drogados, favelados e ratos, multiplicação das putas e diminuição dos pães. E justo agora esses moços se preocupam com o nihil abstat pra trepar.
O nó desatou-se afinal. Lorena foi buscar a corrente e fez tilintar o sininho.
Ficou tão jóia, Lião. Espera ainda, não mexa, quero passar um pouco de colônia no seu pescoço, aquele cordão horroroso deixou sua marca já pensou? Uma delícia de perfume, dá um frescor. Sinta.
Com um certo conformismo, Lia entregou-lhe o pescoço e cocou o nariz, "tenho alergia por perfume." Franziu a cara:
— Você não pode calcular como fico entusiasmada com esses padres que estão lutando. Ação, Lena, que contemplação já tivemos demais. Sair por aí, falar até secar o cuspe, andar até o osso furar a pele, levar xingos, porta na cara, pedrada e continuar sem desfalecimento, continuar no meio da incompreensão, da hostilidade, continuar até a morte, mas não foram eles que escolheram? São soldados de Cristo ou o quê. Cristo parava pra descansar na rede? Vejo Cristo como um homem empoeirado e seco, a sandália rota, trotando pelas estradas feito um demente, fome, sede, sarcasmo e lama, até os discípulos duvidando, enchendo. E ele? Não sei explicar, Lena, mas viro vidro moído quando ouço essa conversa de padre se apoltronar. E vê se pára com isso, tenho alergia, estou ficando sem ar com tanto perfume. Tenho que ir.
Olhou a corrente, beijou-a. Beijou Lorena e enfiou o pulôver na sacola. Dependurou a sacola no ombro.
— E o nosso almoço, Lião? Não era hoje? Queria tanto oferecer um almoço maravilhoso, morangos com creme, lembra? Nunca mais a gente almoçou.
— Outro dia. Vem comigo até o portão.
— Espera, leva algum oriehnid, estou riquíssima.
— Mas isso é muito — digo quando ela vem com a maçaroca que enfia na minha sacola.
— Ofereça em meu nome um abajur lá para o grupo.
— Abajur? — repito e fico rindo. Tenho até vergonha de me sentir tão feliz. — Vou é comprar coisas na papelaria, falta tudo no escritório, uma pobreza transamazônica.
Descemos a escada de mãos dadas, Parou no meio e deu um grito. Olhei para seus pés descalços, tinha se machucado?
— Lião! No fim da tarde que tal um cinema? Fita de lobisomem, querida.
— Não, hoje não posso, entende. Tenho trabalho à beça. E tenho também que ver — começo e paro no meio. Irmã Clotilde vem vindo na nossa direção. — Enfim, coiselhas.
— Lorena! Descalça nessas pedras! — ela se espanta. — As solas dos pés não estão doendo?
Apoiando-se mais no meu braço, ela volta para a Irmã a cara martirizada.
— Horrivelmente.
Risinhos. Comentários de ambas sobre a beleza do dia. Lorena confessa que tem vontade de gritar num dia assim. Apanho um pedregulho que aperto na palma da mão com tanta força, ô, ele resiste, posso ficar apertando até o fim dos tempos e ele intacto. Que alegria me dão as coisas que resistem assim. Guardo-o na sacola e agora sou eu que tenho de gritar para o sol, Miguel! Nós te salvaremos, mundo. Nós te salvaremos — repito e meus olhos estão nadando em lágrimas.
— Você sabe se saíram as notas? — pergunta Lorena com voz de palco.
É o sinal. Inclino a cabeça para o segredo que ela vai contar. Irmã Clotilde faz um adeuzinho discreto e se afasta com sua cesta de compras.
— Pode dizer.
— Ana Clara está grávida outra vez.
— Do noivo?
— Antes fosse. Mas com o noivo é tudo platônico, grávida do Max, o outro. Tem que fazer depressa o aborto e depois a plástica na zona sul, já pensou? Anda péssima, a coitadinha. Até heroína, Lião. Vi as marcas.
— Essa madrugada ela se enganou de quarto, entrou no meu. Foi reto me sacudir na cama, quase morri de susto, pensei que fosse a polícia.
Lorena atracou-se em mim. Doem lhe os pés mas precisa se flagelar.
— Temos que fazer alguma coisa, Lião. Uma loucura, uma loucura. Não e possível continuar desse jeito.
Lião olhando a mirrada pitangueira que nunca deu pitangas. Parece morta. Mas lá no cerne ainda está viva. Lorena acompanhou a direção do seu olhar. Colheu uma folhinha, triturou-a entre os dedos. Cheirou-a. E inesperadamente, deu-me as costas e subiu nos meus pés, "me leva!" Agarro-a pela cintura e coladas e lentas vamos indo, xifópagas, pela alameda, ela me guiando por que com sua cabeça na frente da minha não vejo o caminho. Leve como o perfume de sabonete que sinto nos seus cabelos recém-lavados. Agora eles me cobrem a cara como um lenço aberto no vento. Penso em Carla, por que penso em Carla? Aperto-a mais. Ela ri, sente cócegas. A gente se ama, sim, a gente se ama, isto é amor. Não sei explicar mas também amo Pedro. E o Bugre e Ana Turva, amo todos. Sou capaz de todos, Miguel principalmente. Seus pés escorregam em cima dos meus, desequilibra-se. Quase caio por cima dela.
— Vamos, desça.
Não obedece, quer brincar mais. Levanto-a pela cintura e no ar ela se retesa e faz pose de bailarina. Deposito-a diante do portão.
— Quando era criança andava quilômetros assim com Rômulo.
— Esse é o diplomata?
— Rômulo morreu. O diplomata é Remo.
— Sempre confundo.
— Todo mundo confunde. Sabe aquela arca que guardei na garagem? Tem dentro um álbum de retratos antigos, um dia te mostro. Era linda a casa da fazenda, aquele colonial bem purinho. Tinha cento e vinte e tantos anos, já pensou?
Abro o portão. Mas tenho ainda que dizer alguma coisa, o que mesmo? Baixo a cabeça, agora sei.
— Estou completamente amarrada, Lena, não posso ajudar Ana Clara. Se me enrolo com viciado. Nem que fosse minha irmã, não posso, onde tem traficante e viciado tem tira aos montes, estão querendo demais nos misturar. Se facilito. Sei que ela está doente mas essa é uma doença que me dá vontade de esganar o doente. Vão submergindo com aquelas caras pasmadas, vão afundando todos, um por um, você puxa eles pelo braço, pelos cabelos, grita, ameaça, faz tudo e eles afundando como um bloco de cimento atirado num pântano. Nem os bichos, Lena, que os bichos reagem, esperneiam. Eles não. Afundam com aquela cara parada, morto por dentro. Fazer o quê? — pergunto e sacudo o portão, porque é difícil fazer o que a gente quer. — Já estou atrasada, Lena. A viagem, milhares de preparativos.
Lorena se apóia nas barras do portão e geme não sei se de dor ou desânimo.
— Fico morrendo de pena. Me sinto cúmplice porque ajudo, tem uma palavra em Direito Penal, conivente. Mas como me negar? Mãezinha já depositou o cheque do meu carro, entro com o oriehnid para as operações, não tem problema. Mas sei que não é oriehnid que vai resolver. Não agora.
— Vou precisar também, Lena, a viagem está aí estourando, que duro tirar passaporte, ô, tanto papel. Tanta exigência.
— Outra noite ela me disse que viu Deus.
— Não tem viciado que já não viu, acho que Deus está se popularizando, um bom sinal.
O Corcel vermelho fulgura debaixo do sol. Um menino atravessa a rua na sua bicicleta. Em algum jardim um cachorro late desatinado. Há um homem de terno escuro parado debaixo da árvore da esquina. Quando se sentiu observado, tirou um jornal do bolso e começou a ler.
— Que foi, Lião? Por que você está assim?
— Aquele homem — digo.
A mulher que está saindo da garagem, abriu a porta do carro. Ele entrou. Respiro até o centro da terra. Como uma criança. Lorena enfia os dedos por entre a renda de ferro do portão e fica dependurada nas rosáceas amarelas de ferrugem.
— E se for verdade, Lião. Isso que ela disse, que viu Deus.
— Você já viu?
Cansou-se da posição e agora examina as mãos com as marcas vermelhas.
— Mãezinha teve uma amiga que um dia amanheceu no colégio com as chagas de Cristo na palma da mão. Rômulo, meu irmão, ouviu o caso e no dia seguinte foi me sacudir na cama, estou com as chagas, estou com as chagas! E me mostrou as mãos marcadas. Mas o outro, o Remo, era esperto, mercurocromo, já pensou?
Eu fazia umas bolhas de sabão enormes, nem Rômulo nem Remo conseguiam fazer bolhas tão grandes como eu.
Um besourinho de pintas amarelas vai subindo pela manga da sua bata de cambraia. Desde já lembro dela assim descalça com seu besourinho e sua virgindade, perplexa como as bolhas que soprava.
— Essa viagem, putz.
— Bahia?
— Mais longe, já disse, vê se presta atenção, Lena! Exterior. Depois dou os detalhes, agora não quero perguntas.
— A gente faz uma festa de despedida, hein, Lião? O Guga vem com o violão, bateria, tenho bebida à beca, vamos dar uma festa? Você convida todos seus amigos.
— Meus amigos? Verboten, ô, die Zeit entrinnt — digo e abro o portão.
Alemão mais louco. O meu pai. Às vezes bebia e cantava e quando cantava me parecia assim um deus embora o estranhasse porque cantava em língua estranha. Então ficava um estranho com todo seu prestígio de guerra e exílio. O vozeirão de soldado, como era?
— Wie einst Lilli Marleen! Wie einst Lilli Marleen!. . .
Lorena repete o estribilho marcando o compasso no maior entusiasmo, "mais, Lião, canta mais!" Tenta ainda me prender, não quero mesmo almoçar? E que tal uma volta no Corcel? Um sorvete no clube? Saio e bato o portão. Vejo-a como uma prisioneira através das grades do seu jardim. Sinto uma certa tristeza mas logo tenho vontade de rir. Pontos de vista: para ela a prisioneira não sou eu?
— Pergunte à mãezinha se tem algumas roupas que queira dai aceitamos qualquer roupelha, camisa, cueca, pulôver, tudo.
Ela estende o braço por entre a grade e enfia minha camisa para dentro da calça.
— Lógico que tem. Quem sabe resolve dar as roupas de Rômulo? Tinha treze anos mas era tão desenvolvido, sabe meu suéter de listras azuis? Era dele. Guardou tudo, fica tão mórbida sussurrou tirando para fora minha corrente com o peixinho e as coisas de Mieux? Compra navios de tecidos e depois muda de idéia, vocês podem fazer até fardas.
— De revolucionários sem revolução? — pergunto.

Lorena apoiou a cabeça no portão e seguiu a amiga com o olhar. Levantou a bata e coçou vagamente o estômago, os dedos descendo em giro até o umbigo. Interessou-se pela tênue sombra triangular do sexo que transparecia através da calça branca. E sorriu para o passarinho que varou a copa do pinheiro e foi pousar no muro da casa vizinha. Inclinou-se para ele numa reverência de menina: Good morning, mister Brown. Good morning, mister Smith. How is your father? My father is very well, thank you. And your mother? Oh, my mother is a cat. A very little cat. So sorry.
No silêncio do jardim batido de sol ecoou o riso ensolarado de uma mulher. Lorena foi andando penosamente sobre os pedregulhos, as mãos em concha contornando os seios, ai! os peitos das estátuas. Principalmente os peitos daquelas quatro mulheres de bronze, montanhas seminuas sentadas em torno do pedestal com o velhote de capa de vampiro encarapitado lá em cima. Praça das Rosas. E os peitos de rosas desabrochadas, pojados de leite quando for tempo de leite. Leite da fazenda, tão espumoso, tão branco. As noites de luar, leitosas de tão brancas. Mas quando a lua entra atrás da nuvem, os caninos do velhote se aguçam e ele desce para acariciar os bicos intumescidos dos peitos expostos, não devo?. . . Deve, elas respondem caladas, oferecendo o sangue em bronze dos pescoços. Sorriu o sorriso que as estátuas deviam sorrir. E acariciou os bicos recolhidos dos próprios seios quase inexistentes. Suspirou. Queria ser uma vaca. Uma vaca de focinho úmido e tetas rosadas, asseada como as vacas da fazenda. Vacona malhada. "Veja o escudo desta", dizia o pai alisando com amor o traseiro da Branquinha com suas manchas cor de mel. "Escudo", sussurrou Lorena apoiando se na pitangueira. Limpou a areia da sola dos pés. Tão mais nobre escudo do que bunda. "Esta já foi coberta?" perguntava ele e a vaca respondia com um mugido terno, ruminando verde, a baba verde, a bosta verde, verde que te quiero verde! Mugiria tão musgosa quando M.N. encostasse a cara no seu focinho escorrendo verdor: "Minha amada." Amor pastoral de vaca cercada de touros por todos os lados. E virgem, um guizo no pescoço em caso de perigo, blem, blem, blem! Novilha noviça. O primeiro homem de Ana Clara foi um alemão que bufou como um touro quando se atirou em cima dela, era ver um SS caindo sobre o inimigo num assalto a baioneta calada. Mas não contou depois que o primeiro tinha sido aquele professor de filosofia, a barba negra e as mãos de plumas? "Enfim, com Ana Turva é tudo sobre o delírio." Pensou em Lia com seu primeiro amante olhando para o teto e fumando, horrível, horrível. "Não sei explicar", começou ela. E explicou com pormenores que escolheu seu parceiro assim a frio, como se escolhe uma escova de dentes, pronto, vamos nos deitar. "E daí, Lia, o que foi que ele fez?" Lia pregava o zíper num jeans que há muito devia ter sido lavado. "Ora, ficamos na cama olhando o teto e fumando. Falamos sobre tanta coisa, entende." Incrível. "Mas é incrível, Lião. Logo na primeira vez tudo tão gelado", explodiu. Lia examinou-a com uma expressão de cansaço. Arrancou nos dentes o último fiapo disponível de unha. "Gelado por quê? Fiquei com vontade de conhecer um homem e tomei as providências, onde está o gelo? Não é preciso fazer a histérica. Um tipo legal, estudante de medicina, nosso companheiro. Outro dia tomamos um lanche juntos, vai se casar". Fiquei olhando Lia pregar o zíper com seus pontões polêmicos, costurava no mesmo tom com que falava, em estado de exaltação Estranho, não? Arrisquei e ela me encarou irônica: "Simples como tomar um gole d'água. De que jeito você queria que fosse'" Eu lavava meus pentes em água quente com algumas gotas de amoníaco, já ensinei não sei quantas vezes que é assim que se lava pente mas jacaré aprendeu? Ana Clara usa na bolsa de Dior um pente plástico encardidíssimo e Lião tem mania com pente preto, sempre suspeito porque não se vê nele a sujeira. A solução e pegar no quarto de cada uma seus pentes sinistros e lavá-los junto com os meus. Dei um tão jóia para Lião, tinha até incrustações de madre pérola. Avisei que tinha sido de minha tia-avó. Ela agradeceu muito e enfurnou-o na sacola de achados e perdidos e numa mais botei os olhos nele. Vai ver, quebrou pelo meio na hora em que entrou naquela cabeleira, baiano tem o cabelo muito duro. "Mas de que jeito você queria que fosse?", ela repetiu e eu respondi que esperava que fosse como nos romances que escrevia, imagine se alguma das personagens da tal cidade cheirando a pêssego vai ter relações com um homem por puro ato de libertação. E logo na primeira vez. Vejo hoje que perdi uma boa oportunidade de calar o bico. Acabou rasgando o romance, coitadinha. Sabe agora que não está em nenhum artigo do código que mulher inteligente precisa escrever livros. Me acho inteligentíssima. Continuei fazendo poesia?
Subo a escada devagar para sentir nos cascos a quentura da pedra. Uma borboleta pousou no corrimão bem ao meu alcance. Prendi-a pelas asas mas tremeu tanto que soltei-a. Saiu voando buleversada como se tivesse ficado cem anos presa. Nos meus dedos, o pó prateado. Tão breve tudo. Prendi assim a alegria, ainda há pouco foi minha mas se debateu tanto que abri os dedos antes que se ferisse, não se pode forçar. Um pouco mais que se aperte e não fica só o pó, mas a alma. Entro na minha concha. Eh, M.N. Escolhi você porque não vai me perguntar se é a primeira vez. Nem vai fumar olhando para o teto, sabe que sou sexo-bobina, cuidado, cuidadinho. Nem vai dizer que está grato por ter sido o escolhido. Grato. Abominável. Ai meu Pai. Me mato se M.N. falar em gratidão ou olhar para o teto mesmo de relance. Quero fervor, sabe o que é fervor? Ele não tem manifestado muita sede mas não será porque se controla? Controle, é lógico, um gentleman não pode mesmo se afobar. "Meu noivo morre de tesão por mim", disse Ana Clara quando amarrou um dos seus pilequinhos, solta o vocabulário tipo e nas ebulições. Tenho especial má vontade por essa palavra mas aqui ela vai caber: digamos que M.N. me deseja mas não tem tesão por mim — that is the question. Se eu tivesse aqueles peitos. Deve me achar sem saúde, suas mãos mais me protegem do que acariciam. Como se eu fosse de biscuí. "Cuidado com esses objetos de biscuí!" recomendava mãezinha aos homens da mudança. E os homens tão apressados e rudes inesperadamente perdiam toda a pressa e começavam alcochoar com algodão e palha as bailarinas transparentes da vitrina de bibelôs. Sangue aguado de fim de raça. Se tiver uni filho com um homem branco que nem eu, o filho desapareceria na brancura dos lençóis, olha aí meu filho, eu diria e as pessoas procurando, onde, onde? Teria que ser posto num lençol preto.
Estendo as mãos para o sol que bate na janela. Unhas pobres. Dedos pobres. Os de M.N. são enérgicos mesmo quando em repouso, as unhas quadradas escovadíssimas, ginecologista lava as mãos muito mais do que os outros. A sensibilidade nas pontas dos dedos que conhecem tão bem nossas partes. Que lidam na perfeição com nossas raízes. Me perturbo quando penso nisso mas é justamente esse pensamento que me dá a doce sensação de segurança: estou em boas mãos.

oito



Sento na cama e vejo o quarto rodando. Estou parada sou o eixo. O eixo do mundo. "Senta aqui que é o eixo do mundo" — dizia o Jorge mostrando o dedo espetado pra cima. Bastardo. Podre de sífilis agora eu sei que era sífilis. Deve estar morto também. Me acordava aos berros "café quero café!" Minha mãe na cama vomitando na toalha. "Acho que você vai ter um irmãozinho." Debilóide. Ah muito boazinha todo debilóide é só bondade. Me sacudia o sacana e eu tinha que fazer o café de madrugada porque a porcaria do serviço dele ficava na puta-que-pariu já vou já vou seu besta. Nunca pude dormir o quanto quis porque tem sempre alguém me sacudindo acorda acorda. Vontade de dormir cinco dias e acordar no consultório do turco como é o nome dele? Aquele analista. Esqueci pomba. Enfim não interessa. Queria falar do pântano com a cara da minha mãe na água preta. Fujo feito doida nadando com forca não sei nadar mas continuo nadando arrancando do fundo lodo e plantas que se enroscam em mim e me tapam a boca me larga! Sacudo as mãos e me livro das coisas gelatinosas, peixes, folhas. Sei que logo adiante vai aparecer a piscina fica logo ali a piscina eu não disse? Entro de cabeça na água limpa e me lavo inteira rindo com Lorena que está nadando ao lado. Sei nadar digo e ela sacode a cabeça e faz caretas e vai dizendo azul-piscina azul-piscina. Quero rir com as caretas mas tapo a boca. Perdi minha ponte. Minha ponte mãe! Perdi minha ponte a ponte, fico passando a língua e só gengiva escorregadia como lodo. Ela viu ela viu. Começo a me debater porque não consigo mais nadar afundo com as plantas enroladas nos meus pés me larga!
— Doutor Hachibe. O nome dele é Doutor Hachibe — digo enxugando a cara molhada de suor. Enxugo as mãos. — Aquele meu analista.
Max saltou da cama e ficou pulando num só pé, gemendo e rindo.
— Minha perna dormiu, Coelha. Dormiu completamente, dormiu.
Bebo no seu copo. Dane-se. Outro anão de vermelho passou rápido rindo. Ou era o mesmo? Fico rindo também, Não interessa.
Muda esse disco, Max. Uma negrada berrando. Ele levanta nas pontas dos dedos outro disco da pilha. O gesto de Lorena. Também gosta de Bach. A Mademoiselle do reloginho deve ter funcionado nas duas casas, ensinando as mesmas coisas. O coraçãozinho de ouro na corrente que deve ser tirada à noite pra não enforcar a menina. Nem precisam falar e se reconhecem de longe como os cristãos das catacumbas se cruzando nas praças. Podem se misturar com os outros e não se misturam. Ela pode dizer indecências e não fica indecente pode ficar putinha e não fica putinha. Anel de brasão. Este aqui também tem seu anel que nem Deus sabe onde anda. Mas tem. O feudo familiar. Sofri tanto porque não tive o meu e agora. Sei lá acabou tudo a decadência vem de longe vi isso no álbum.
— A nhem-nhem tem um álbum de retratos na arca. Capa de veludo. Fecho de prata. Toda a parentela antiga posando em sépia. Finge que não liga mas não pensa noutra coisa. Não sossegou enquanto não me mostrou todos.
Mas vieram os carunchos atacando tão sutis que atravessaram os tafetás das saias as flanelas inglesas das calças e chegaram às respectivas bundas. Em sépia. Então começaram a roer bem devagarinho os popôs a nhem-nhem fala popô abotoando a boquinha. Está certo. Os sacanas roeram os popôs e chegaram aos ossos o apetite desses carunchos pomba. A vez dos ossos. Se ela encostasse o ouvidinho na arca podia ouvir o roque-roque da carunchada arrotando também em sépia. A cor do tempo.
— Dá uma fogueira — disse ele catando os palitos da caixa de fósforos que se espalharam em seu peito.
— A mãe dela vive com um gigolô. Dessa Lorena, aquela magrinha que fala nhem-nhem-nhem. A viúva esbordoa a fortuna com meninos mas ainda assim.
— Uma americana velha queria que eu vivesse com ela só viajando pelo mundo num iate de ouro mas tinha uma cara de meter medo, o nariz era deste lado, olha, era assim!... A boca vinha pra cá, tudo torto, olha. Coelha, olha!
— Está apaixonada por um médico. Um velho. Casado, cheio de filho, uma droga. Mas quando ele desaparece ela entorta. O irmão é diplomata. Remo, meu irmão, ela diz de dois em dois minutos. Manda presentes divinos, tem gosto o cara. Quando era criança matou o irmão menor.
— Matou quem?
— O irmão. Estava com uma espingarda e apontou, bum. Liquidou o irmão na hora.
— Que história sinistra, Coelha.
— Diz que é virgem.
— O irmão?
Dou-lhe socos no peito. Ele se defende cruzando os braços, rolando de tanto rir.
— Virgem é ela, virgem é ela — fico repetindo e para cada ela dou um soco mais forte. — Toda excitada com aquela vozinha de beija-flor. meu namorante. Meu namorante. Liga de namorado com amante, besteira. Diz que é contemplativa passiva.
— Gosta de mulher?
— Não seja ignorante, amor. Contemplativo é o que contempla, não sabe disso? Tem o ativo e tem o passivo que é tão passivo que os passarinhos fazem ninho no cabelo dele. Recita nua no quarto. Mania com poesia e com latim.
— Vocês não são amigas?
Quero dizer somos mas agora já não posso. Ou posso? Amigo não é pra isso? Dizer as coisas todas. Dureza.
Ana Clara sentou-se na cama, fechou o cigarro na concha das mãos e tragou concentrada. Se não gostava dela? Gostava sim. Gostava muito. Então.
— Uma esnobe, se acha especialíssima. Mas é minha amiga, como não. Quem é que me tira das trancadas? Não é você. Nem aquele besta, é ela. Minha amiga. Me acha linda, a maior admiração por mim. Acha meus olhos especialíssimos. Você acha meus olhos especialíssimos? Max, estou falando, presta atenção!
Ele beijou-a demoradamente.
— Olhos de pantera. Quero essa pantera. . .
— Não posso — disse ela e se enrolou no lençol. Cruzou os braços. Fechou as mãos. — Agora sou múmia.
Ele inclinou-se para o chão. Procurou vagamente. Pegou a garrafa, deixou-a:
— Estou com fome, Coelha, quero comer, vem comer comigo — chamou correndo para a cozinha. Abriu a geladeira. — Que genial. Fabuloso, estou encontrando coisas, olha quanto queijo. Vinho, tem vinho, ih. . . Frio, Coelha, estou com frio, quero me cobrir.
— Que horas são? Preciso ir embora já. Que é que eu digo, que é que eu digo. Não interessa. Uma depressão.
Ele vestiu o pulôver e esticou-o até quase os joelhos. Voltou correndo para a cozinha.
— Vem, Coelha! Um sanduíche fabuloso.
Já descascou um pãozinho e agora está no segundo roque-roque com aquela unha indecente. Unha nojenta. E se eu telefonar? Aqui é a noiva dele. Avise que me atrasei porque sofri um ligeiro acidente e precisei prestar depoimento milhares de depoimentos. Comigo não aconteceu nada mas o padre. Por que padre? Fica mais raro. Não é toda hora que um padre tem a cabeça esmagada baixo da roda. A batina preta. Terno preto com aquela coisa na gola acho bacana aquela coisa branca na gola. Mas gastou todo esse tempo? Não. Não é isso. O caso é que minha amiga Lia foi baleada. A guerrilheira. Guerrilheira é assim facilitou leva um balaço. Estou aqui no Pronto-Socorro tenho que desligar porque milhares de pessoas. Não sei que Pronto-Socorro é não sei. Como vou poder. O endereço? Você quer o endereço? Ele quer o endereço. E já desconfiado de que é mentira o escamoso não sabe de nada não viu nada e já está desconfiado.
— Vem, achei mais coisas — avisou Max e a voz se perdeu em meio do barulho de louça se quebrando. — Ih, caiu tudo.
Enfio a cabeça debaixo do travesseiro. Estou com medo Max Estou com medo. A Lião disse. Não interessa. Inveja dela. Por que não dá conselho aos piolhentos do grupo? Só serve pra abrir o bocão Guevara Guevara. Quem é que está se importando. Ano que vem. Madre Alix será a madrinha me ama às raias esta fazendo montes pra todos vocês mas comigo. Lorena também lua madrinha. Vai com a mãe que é vip. Alta burguesia rural sabe lá o que é isso. Lião pode ir como bem entender uma intelectual de esquerda pode ir de cigana e fica interessante mas Lorena e a mãe. Então. As freirinhas com suas roupetas de festa. O clero inteiro me prestigiando. Tenho de entrar de braço com o padrinho. Que padrinho. O professor Langue pronto. O professor Langue com aquela estampa de lorde pode ir até de terno escuro um lorde decadente mas com classe. Que classe pomba. Meu vestido simplérrimo mas podre de chique. A corja vibrando o escamoso vibrando olha só a noiva que arranjei. Foi capa de revista desfilou em Londres no mês passado. Universitária. Trancou a matricula mas no ano que vem.
— Max, o ano que vem vou destrancar a matrícula. Ouviu Max?
— Todo mundo trancou a matrícula, uma porrada de meninas só me falam nisso, tranquei a matrícula.
Noivo costuma dar presentes importantes. Podia me dar o casaco de onça não podia? Por que me dá dinheiro? Pensa que e só pagar um pensionato de pobre e uns alfinetes? Pensa. Bastardo. Tenho minhas dívidas vou operar as amídalas.
Viro na boca a garrafa e meus poros se abrem e meu peito se abre. Vidão. Não fosse esse negro aí berrando não gosto mesmo de negro. Nem de branco. Não gosto de ninguém. Todos uns bons sacanas que não perdem a chance de mijar na cabeça da gente. Agora quem vai mijar sou eu! grito e fico rindo de feliz. Max eu te amo eu te amo eu te amo. Beijo seu sapato que está em cima do meu biquíni. O sapato. Amo o sapato dele amo tudo mas tenho que ir tenho que ir. Quando me desbloquear a gente vai rolar de gozo quero rolar de gozo. Beijo meu Agnus Dei que prendi no biquíni amo meu Agnus Dei amo Madre Alix minha santa não fique triste que em janeiro minha santa santa. E minhas roupas pombas? Sumiu tudo. Queria ser invisível e sair como o cara dos quadrinhos, como era o nome dele. Ele sai e entra e ninguém vê.
— Tenho que ir Max.
Caiu a gaveta. Não interessa ele não faz perguntas. Não é como escamoso que desconfia até da Nona. Fiquei doente não posso?
Doença feminina sou muito feminina e então. Então vem cá Aninha que meu irmão é ginecologista ele te examina vamos lá imediatamente vamos meu bem abra as perninhas um pouco mais sim? Agora relaxa bem boazinha. Pronto não foi rápido? Pode botar a calcinha que você é a mais linda noivinha prenha que meu irmãozinho podia arrumar. A Lorena está doente. É a Lorena que teve que fazer um aborto. "Aborto? Mas que raça de amiga vagabundas são essas" Vagabunda é a irmãzinha. Lorena é rica antiga. Quando sua Nona comia banana podre no porão do navio a vela. E mesmo Lião. Guerrilheira e tudo mas o pai também foi um nazista importantíssimo. Mãe usineira. Minhas amigas. E então. Então vá se vestir sua cadelona. Que é que está esperando ai pelada
— Estou fazendo umas comidas fabulosas!
Ana Clara apoiou-se na banheira. Olhou-se no espelho Arregaça com o lábio e ficou olhando os dentes. Examinou a língua. Sentou-se na banheira para urinar. Apoiou a cabeça nas mãos e ficou enrolando no dedo um anel de cabelo.
— Você acha que pareço ter mais de vinte anos? Me acho uma velha.
— Tem aí um cara — disse ele voltando ao quarto. Passou as pontas dos dedos no peito do pulôver manchado de vinho. — Meu amigo. O maior cozinheiro do mundo, a gente pode aí. . .
Deitou-se encolhido e silencioso como se receasse acordar alguém que dormia ao lado.
"E se de repente tive a eólica? Não seria uma solução? — pensou ela esfregando a toalha molhada no vão das pernas, no ventre. Digo que fiquei com a cólica pronto. Tomei analgésico forte demais e dormi e perdi a hora." Esfregou a toalha na cara. Não é próprio de noiva falar nisso mas se até. Examinou no espelho a face brilhante. E Lião ainda com suas teorias de superioridade da mulher. "Mas onde? Papo furado. Uma cólica e já avacalha tudo. Se não é cólica é o filho dependurado no peito. Pronto. Mas que guerrilha pode sair disso? Mulher tem que ser assim mesmo. Se embonecar. Vestir coisas lindas. A única vantagem que vejo é essa da gente fazer amor sem se sujar. A única. Preciso dizer isso pra Lião repetir nas reuniõezinhas dela" — lembrou e riu enquanto despejava água-de-toalete nos seios, nas coxas. Pulou num só pé, gemendo e rindo: "Como arde pomba!" Apanhou o copo de prata que estava no armário de laca vermelha, ao lado do talco. Riscou caridosamente com a ponta da unha vermelha o nome gravado em meio do desenho compondo um buquê de espigas e flores: Maximiliano. Encheu o copo d'água, pingou dentro um pouco da lavanda e gargarejou. Cuspiu na pia, agarrando-se na cortina para não cair. Tirou a bolsa dependurada no trinco da porta e fez rolar o copo para dentro dela. Escovou os cabelos com energia renovada, eriçando-os para o alto até formarem uma coroa de anéis. Umedeceu na língua a ponta do lápis e acentuou a linha cor de ferrugem das sobrancelhas. Pingou colírio nos olhos. A mão tremia. Segurou o pulso enquanto passava nas pestanas o bastão de rímel. O bastão resvalou borrando a pálpebra. Recomeçou o duro movimento de guindaste, a mão esquerda sustentando a outra, o braço colado ao corpo, a boca entreaberta. Cerrou os olhos. "Estou bêbada? Abriu a torneira e molhou o peito. Tirou do armário um envelope de aspirina, trincou-a nos dentes e enfiou a boca debaixo da água. Sentou-se no chão para calçar as meias e a malha de seda preta. Foi enfiando no pescoço as correntes de prata espalhadas pelo tapete.
Da sua boca — começou Max forcejando por abrir as pálpebras. As pupilas dilatadas rodaram e desapareceram no fundo das órbitas.
Ela vestiu o casaco de veludo preto que lhe chegava ate quase os sapatos de verniz com uma antiquada fivela de prata lavrada. Apertou a cabeça entre as mãos. E essa dor. Apanhou a calça que ele deixara ao lado da poltrona. Examinou-lhe os bolsos e num gesto automático tirou o maçarote de dinheiro e sem contar guardou-o no bolso do casaco. O maço de cigarro americano estava debaixo da poltrona. Meteu dois dedos por entre os cigarros e pesquisou o fundo do maço. Trouxe nos dedos em pinça uma fina tira de papel de seda cuidadosamente dobrada. Apalpou o papel e fechou-o na mão. Voltou-se eufórica para a cama. Ele dormia tranqüilo com seu pulôver azul. Cobriu-lhe as pernas. Ajeitei-lhe o travesseiro debaixo da cabeça.
— Dorme, amor. Não demoro, dorme.
Apanhou o cigarro queimando no cinzeiro, fechou no peito a gola do casaco e saiu devagar, pisando em ziguezague mas aprumada, a cabeça erguida. Na rua, acelerava-se o movimento sob a garoa engrossando em chuvisco. Ela apertou os olhos contra o céu tumultuado. "Merda de noite. Merda de cidade" — resmungou esboçando um gesto na direção dos carros que passavam com a velocidade da mão única, os faróis altos, as buzinas atropelando os mais vagarosos. Acenou para um táxi que não parou. Acenou mais vivamente para um segundo, protegendo com a bolsa os olhos ofuscados.
— Cretino! Bastardo! — gritou para o motorista que fugia.

O homem calvo aproximou-se com seu carro prelo também re luzente. Fez um gesto que abrangia o norte e o sul:
— Quer condução? Vou para aqueles lados. . .
Ela somou o carro ao homem num cálculo rápido. Inclinou-se ofegante para a porta que se abriu. Ao entrar, perdeu o equilíbrio e tombou sobre a direção. Puxou com violência a barra do casaco que a porta prendera.
— Desde as oito e meia nessa esquina! O senhor tem horas?
— Desde as oito e meia? — o homem estranhou. Apontou o dedo almofadado para o relógio embutido no painel do carro: — Mas são quase onze horas, menina. Aconteceu alguma coisa?
Ana Clara apertou a cabeça entre as mãos:
— Que dor. O senhor tem aí aspirina? Me dá um cigarro.
Ele diminuiu a marcha do carro e baixou o volume do rádio que comentava uma partida de futebol. Examinou-a através do espelho de onde pendia um ursinho de veludo.
— Você está aflita, aconteceu alguma ciosa? Tem tudo o que pediu aí no porta-luva, pode pegar. Só não tenho água. Nem uísque — acrescentou com um sorriso.
Ela rasgou nos dentes o envelope de aspirina. Sufocou um acesso de tosse.
— Eu estava numa festa quando me avisaram. Tenho medo que seja tarde demais, nem sei se ele ainda está vivo.
— Ele quem?
Penosamente ela engoliu as aspirinas. Recostou a cabeça na almofada do banco. Ficou enrolando no dedo a ponta do cabelo.
— Meu pai. Teve um enfarte no escritório. Pode me deixar na São Luís? Por favor, me deixa na São Luís. Mas vamos mais rápido, sim? Desculpe.
O homem acelerou a marcha do Mercedes. Desligou o rádio.
— Mas quando foi isso?
— Perdi a noção do tempo, tenho impressão de que estou horas nessa esquina. Eu estava numa festa quando, ah, meu pobre pai! meu pobre pai, saía do escritório, é advogado.
— É o primeiro?
— O quê?
— Enfarte. É o primeiro que sofreu?
— Acho que é o segundo. O primeiro foi quando meu irmão foi preso, meu irmão é terrorista. Até hoje não se sabe se está vivo ou não. Sumiu.
O homem mordiscou as pontas do bigode que lhe chegava até o lábio.
— Sou industrial, não sou médico. Mas se puder ajudar, disponha.
Pode sim. Fechando sua fábrica, seu bastardo. Assassino. Joga os detritos todos na cabeça da gente e depois. O ano que vem também vou jogar os meus. Uma casa na praia e outra no campo. A ralé que se desbunde.
— Não tem coração que agüente este ar. O senhor mora no centro?
— Bem, praticamente estou morando na minha chácara, tenho uma chácara deliciosa. Agora com o helicóptero é como ir daqui até a esquina. Você já andou de helicóptero?
"Não faço outra coisa" — pensou ela guardando o maço de cigarro que tirou do porta-luvas. Examinou rapidamente o isqueiro cromado.
— É do quê? Sua indústria.
— Frigoríficos — murmurou ele e brecou abrupto diante do sinal vermelho. — Está vendo? É o cúmulo, passou da luz verde para a vermelha. E a amarela? Bateu a cabecinha?
Ela procurou no regaço o cigarro aceso que lhe caíra da mão. "Cretino. Porcóide. Devia era aprender a guiar." '
— Não foi nada. O senhor guia maravilhosamente.
— A gente tem que desconfiar dos semáforos, dos vizinhos. . .
— Nem diga. Tenho um Corcel mas evito a curtição. O homem examinou-a. Agitou-se, inquieto.
— O escritório é na Rua São Luís? O escritório do seu pai.
— Um andar inteiro. Meu pai é um grande advogado. Francisco de Paula Vaz Leme.
— Mas será que ele ainda está lá, menina? Não pode estar lá, fazendo o quê? É natural que tenha sido levado ao hospital.
Ela desceu o vidro da janela e atirou fora a ponta do cigarro. Dobrou o corpo para frente e apertou contra o peito as mãos fechadas. "Quer saber tudo esse merda."
— Meu tio cardiologista tem a clínica no mesmo andar, já da outra vez meu pai ficou na clínica mesmo — disse Ana Clara apoiando a cabeça nos joelhos. Enlaçou as pernas: — Que depressão. O senhor tem um lenço?
Ele tirou o lenço do bolsinho do paletó.
— Não está usado. Mas que é isso? Não chore, tenha calma, não chore! Seu pai está bem cuidado, não está? Como é o nome do seu tio? Esse médico?
— Loreno. Loreno Vaz Leme. Me chamo Lorena por causa dele que é meu padrinho.
O homem acariciou de leve a cabeça de Ana Clara.
— Conheço vários médicos dessa rua. Esse não conheço. Vaz Leme? Não conheço.
— Na realidade ele passou a maior parte do tempo nos Estados Unidos.
Digo que fui com Loreninha a uma conferência está decidido. O cara falou duas horas sem parar e ainda assim porque derrubou a jarra d'água. "Conferência onde?" Na Faculdade querido. Um jurista parente da Lorena todos os juristas são parentes dela. Ficamos na primeira fila não se podia sair que em conferência e em trepada não se pode sair no meio que não fica fino. E eu sou fina. Você não quer se casar com uma moça fina? Então.
— Você andou bebendo, menina. Está me ouvindo, Lorena? Lorena!
Levanto a cabeça. Dormi. Não disse? Sempre alguém me cutucando. Agora é o homem da mãozinha olha só a mãozinha dele. Vai perguntar mais? Vai. Dá carona mas cobra. Parece o escamoso.
Não interessa. Agora sou Lorena.
— Você andou bebendo, não andou? E bastante.
— Misturei bebida lá na festa. Não estou acostumada mas já estou lúcida, passou tudo
— Quer tomar um café? Paramos aí num café, você fica nova. E não me chame de senhor, não sou tão velho assim, sou? Vamos a um café?
— Não, não, por favor, estão me esperando, fico aflita. Desculpe mas.
— Que é que você faz, Lorena? É uma menina encantadora, subia?
— Faço o último ano de Psicologia. Na USP. Outra vez a mãozinha agora no meu joelho. Nem com meu pai morrendo esse porcóide me respeita.
— Sorry! — ele gritou. — Esses insensatos! Assustou-se? Sorry. Quase entramos numa jamanta e me diz sorry. Quem se assustou foi ele. Vai guiar agora com as duas mãozinhas? Vai. Ou digo que tive um desastre. Fui testemunha três carros trombados eu estava no terceiro. Os motoristas presos nas ferragens. Ah preciso. Depressa depressa. — Podemos ir mais depressa?
— Mas você está ruinzinha, Lorena. Como é que?. . .
— Estou ótima, doutor, foi só um susto, pensei que tinha esquecido.
— Me chame de Valdomiro.
— Na realidade nunca estive tão bem, não fosse isso do meu pai. Olha, me deixa ali na esquina, depressa, ali facilita. O senhor é um santo.
— E se ele não estiver mais lá? Posso esperar, Lorena, não se afobe, é naquele prédio? Mas a porta está fechada, não está?
— Não, não é ali, é mais adiante. Pára aqui, quero andar. O ar da noite é bom pra mim.
— Mas está chovendo, menina! Toma, fica com o meu cartão, estou no escritório nesse telefone, vai me telefonar?
— Sem falta, amanhã mesmo. Amanhã.
Ele beija minha mão. Abro a porta e caio de joelhos na calcada. E ele ainda falando acho que vem vindo atrás. Saio correndo. Queria ter patins. Sempre quis ter patins. Sair patinando pela estrada patinando sozinha. Passou a chuva mas estou gelada. Podia ter pedido um empréstimo. Ele dava? E o cartão? Lá sei, jogue fora. Valdomiro. Mercedes-Benz. Dava nada.
— Um conhaque — peço ao moço do balcão
Ele fica me olhando. Mas por que ele me olha assim? Levanto a cabeça e vou tirando o dinheiro, será que está pensando.
— Nacional?
— Estrangeiro. O melhor que tiver.
Enfio a mão no bolso e estraçalho o papel de seda. Bebo devagar. Os olhos e a boca se enchem d'água. Como a gente é escondida. E como é livre. Por que aquela tonta fala tanto em liberdade pomba. A gente é livre olha aí ninguém sabe o que tenho no bolso. Ninguém sabe o que estou engolindo. Milhares de pessoas em redor e ninguém. Só eu. Agora mesmo neste minuto uma porrada de gente está matando outra porrada e quem é que está sabendo. Neste prédio aqui em cima. Milhares. Genial isso. Fazer as coisas na cara dos outros e os outros.

— Boa noite.
Tem um velho na minha frente dizendo boa noite. Mas o que quer esse velho. Parece um mendigo com esse impermeável as pessoas estão ficando confiadas. Quer minha companhia o vagabundo. Está desacompanhado. Eu também. A noite dos desacompanhados. Esvazio o cálice. Estou serena como uma rainha é glorioso se sentir rainha. Se sentir outra. Chega de Ana Clara. Sou Lorena.
— Vou encontrar meu marido.
Ele quer dizer qualquer coisa e não diz. Saiu esfregando no ladrilho sujo as solas dos sapatos sujos. E se for meu pai. Se de repente é meu pai. Corro atrás dele. Toco no seu ombro. Fico me procurando na sua cara.
— O senhor sabe que horas são?
Ele mostra o pulso de pelos grisalhos o homem que podia ser meu pai não tem relógio. Preciso me segurar porque senão caio em prantos. Que felicidade. Estou tão feliz. Talvez seja. Talvez não. Não interessa ele não sabe que é dois, o que fica no bar e o que sai de braço comigo. Perdoei tudo. Eu tinha certeza que a gente ainda ia se encontrar. Os homens na porta se multiplicam num jogo de espelhos. Passo soberana entre as alas passo entre todos levando meu segredo como um navio. Sou um navio passando lá longe todo iluminado me vejo passando lá longe e é um espetáculo me ver passando no mar. Levanto a gola do casaco e fico um navio embuçado. A voz a voz me chamando. Me viro e ele está ali de braço dado comigo. Meu pai e eu na noite do mar. Ele não sabe de nada. Sou menina e ele nem sabe.
— Você é bela. Bela!
— Obrigada — digo e fico sorrindo. Jamais saberá porque agradeço.
Ele me enlaça. Sinto seu desejo que pesa seu desejo é uma âncora mas a noite é leve pode haver uma noite mais leve? O pai com a filha. Se encontraram na noite. Subo leve como a noite e tudo é silêncio onde estou. Os astros passam passam e me iluminam posso pegar aquela estrela pelo rabo. Táxi?
— Táxi? — grito e os faróis me cegam.
— Não é preciso táxi, minha bela. O apartamento é aqui pertinho, um cantinho delicioso, vem. Se apóia em mim que eu ajudo. Que foi que esta minha bela andou bebendo? Levadinha! Não vai me dizer? Não vai?
— Chuva.
Riu. Dentes. Tem bons dentes. Não tem relógio mas tem dentes. Relógio não interessa mas os dentes. Bonito pomba. Tinha que ser um homem bonito eu sabia. Meu pai está comigo. Estou protegida. Protegida.
— Meu uísque é de primeira, a gente pode beber e ouvir um pouco de música. Gosta de tango? Tenho uma coleção de Gardel, sou apaixonado por Gardel. Mas meu Deus, você é mesmo bela, parece uma deusa — disse ele me apertando mais. — Me visto assim displicente porque não ligo pra nada, sou boêmio. Mas se adivinhasse que ia ter uma deusa dessas, punha até casaca!
Fiquei transparente. Transparente. Posso me ver porque estou transparente meus tecidos cor-de-rosa minhas veias entrelaçadas, os órgãos organizados nos seus compartimentos estou inteira em ontem lá por dentro como o homem de plástico da vitrina tinha um homem no avesso de pé na vitrina. Só ordem e luz. Tanta luz que preciso fechar o casaco para que ninguém veja isto o Coração de Jesus está no meu peito. O susto me atordoa tanto que tropeço e grito. É Ele.
— É Ele.
O homem também se assusta e me agarra. Rolamos juntos.
— Que foi, que é que deu em você? Que foi que você viu? A gente podia quebrar a perna, beleza. Se machucou?
Se eu contar a senhora acredita? Madre Alix escuta. Ele está aqui dependurado no meu peito com a coroa de espinhos não rezo nem nada e Ele me escolheu está vendo? Justo em mim Ele veio ficar quero gritar isso porque é uma puta de glória Ele ter me escolhido mas só pra senhora só pra senhora eu conto tenho que ir séria e digna com meu Coração Resplandecente. Se ele me escolheu é porque mereço e Ele viu tanta humilhação tanto sofrimento lembra o que sofri com todos aqueles sacanas que. Eu era criança e os sacanas nem podia me defender nem nada eu era criança.
— Nem podia, pomba.
— Chorando, minha Bela? Está doendo alguma coisa? Conta aqui pro hermano — murmurou ele e cantarolou apanhando a bolsa que ela deixou cair: — Si precisas una ayuda, si te hace falta un consejo. . .
— Meu nome é Lorena. Lorena Vaz Leme.
— Pra mim é Bela, só vou te chamar de Bela. Ganhava fácil num concurso de beleza, quando vejo aí esses bagulhos. Você tem uma cara excepcional, não estou vendo aí debaixo do casaco mas adivinho, sou especialista no assunto. Mas não chora assim, não quer andar mais? preguiçosinha! Estamos chegando, moro aqui pertinho, um boêmio tem que morar na zona da boêmia! — exclamou e riu. Você vai gostar do meu cantinho à moda antiga, tem ale uma vitrola de manivela, sabe como é? Que pergunta besta, você nasceu ontem. Bela, Bela. Assim, quero você rindo, gosto de gente alegre. E sou um triste. Adoro tango, vamos ouvir uns tangos
— Mas eu não estou sozinha.
— Pois não mesmo, que novidade é essa. Cuidado, Bela, segura em mim, torceu o pezinho? Faço depois uma massagem, já fui massagista. Massagista, cronista esportivo, radialista, corretor, ai como vendi papel. Fui tanta coisa, menos rico. Quando moço tive até uma escola de modelagem física, até hoje faço minha ginástica, bota a mão aqui, está vendo? Quarenta e seis anos e nem sinal de barriga. Toureiro!
Me atrasei porque. Meu pai e Jesus eu sei eu sei é difícil ninguém entende. Tão simples. Amassa o pãozinho e o rato é um rato que ele tem na mão. Sustento seu olhar de raiva e medo. Não tenho medo nunca mais. Sou luz e ele é só escamas. Escuridão e escamas. Não interessa.
— A mínima. Então.
— Olha aí minhas velharias, só me cerco de velharias.
A cama larga, coberta com uma colcha rendada ocupava quase todo o quarto aconchegante com suas almofadas de seda e paredes cobertas de retratos familiares misturados a flagrantes de homens seminus, em poses atléticas- Os retratos familiares eram antigos, amarelados e convencionais com seus grupos de homens e mulheres de preto, cercados de crianças de cachos e botinhas. Na mesa de cabeceira, o abajur com franja de miçangas coloridas e a pequena vitrola com uma toalhinha de crochê em cima.
— Minha família — disse ela abrindo os braços. — Minha família.
Ele tirou-lhe o casaco, dobrou-o na cadeira de almofada acetinada e ajoelhou-se diante dela que vacilava. Correu de leve as pontas dos dedos pelas meias pretas.
— Que físico. Seu físico, Bela. Estas pernas. Não quero que tire nem as meias nem os sapatos, tenho paixão por meias pretas, assim bem compridas, estas vão até lá em cima? Vão sim — murmurou beijando-lhe respeitoso as fivelas dos sapatos. — Bela, Bela.
— Os retratos — disse Ana Clara apontando pródiga para as paredes. — O menino com o gato. Meu irmão, pomba, meu irmão.
— Sim, Bela, somos todos irmãos, deixa o mundo lá fora e aqui no nosso cantinho. . . Mas descansa, vem, deita aqui. Bota a cabecinha aqui na almofada, pura paina. Não é macia? Está confortável assim? Bela. Vamos tomar um uisquinho pra esquentar, que tal um uisquinho? Escocês, minha Bela. Meu amigo me abastece, ele é da alfândega, tenho amigos em toda parte! Mas deixa te olhar. . . Bela!
— Meu gato sumiu.
— Deixa, te arranjo outros, vamos beba. Pode segurar o copo? Vou botar um tango pra formar o ambiente mas aquele tango, hum? Também cantei aí numas bocas mas minha voz começou a ratear, fumo demais. Um veneno o fumo.
— Tenho que ir — gemeu ela se agitando. Ameaçou levantar-se: — Que horas são?
— Que é isso, que bobagem é essa? A noite é uma criança, Bela, vamos, bebe. Cuidado, não vai derramar na blusinha... ah, já derramou. Não faz mal, seca logo. Bela!
— O ano que vem. O ano que vem. Janeiro. Eu já disse que.
Ele ajustava a manivela na vitrola. Deu corda. Os violões romperam fanhosos e veementes. Em cada volta do disco a agulha saltava o obstáculo do arranhão profundo e se descontrolava na queda. Para retomar em seguida a trilha. Ele aproximou-se.
— Quero que fique bem quietinha, assim mesmo como está, inteira vestida — murmurou com voz pesada. — Quero que fique bem quietinha enquanto vou ler uma coisa, está confortável? Me dá o copinho, depois dou mais, agora fique assim mesmo. Não é belo esse tango? Bien sabes que no hay envidia en mi pecho! que soy un hombre derecho... Espera um instante, já volto.
Mansamente ela ficou rolando a cabeça na almofada. Cruzou no peito as mãos fechadas.
— Tenho que ir. Meu pai. Não interessa porque meu pai.
Com gestos contidos ele foi tirando a roupa. Dobrou-a, metódico, empilhando peça por peça na cadeira. Ficou nu. Inspirou e expirou seguidamente, dilatando o peito, contraindo o estômago. Avançou gravemente até a gaveta da mesa maior coberta com um velho xale espanhol. Tirou de dentro uma revista já rota, com o retrato de uma antiga artista de cinema na capa colada com pedaços de esparadrapo. Deitou-se ao lado de Ana Clara mas sem tocar nela. Tremia inteiro. Tirou os óculos debaixo de uma almofada de cetim vermelho, com aplicações de filé cor-de-chá. Colocou os óculos. A voz enrouquecida tropeçava nas palavras:
— Quando na tarde lúgubre de Waterloo, Napoleão, desesperado, ordenou a todas as baterias do seu exército em começo de derrota que despejassem seus balaços, em compacta saraivada, romperam-se em dilúvio, sobre o campo de batalha, as comportas do firmamento. Então, ouvindo troar a artilharia enterrada na lama e ouvindo trovejar o espaço por entre cordas d'água, o homem fenomenal cuja glória cesárea, bruxuleava no crepúsculo definitivo dos Cem Dias, teria exclamado, com os olhos orgulhosos postos no céu: Estamos de Acordo!
Fez uma pausa. Respirava com esforço, as narinas dilatadas, silvando por entre os dentes brancos de saliva. Virou de bruços e ajeitou a revista aberta na almofada. Os músculos encordoados se retesaram rijos. O pé esquerdo distendeu-se e contraiu-se em câimbras. Mordeu a almofada, levantou a cabeça, os lábios repuxados num esgar. Prosseguiu lendo num sopro:
— Outros famosos conquistadores ao soltarem do peito heróico o suspiro último, ouviram talvez desencadear-se em fúria os elementos da natureza cósmica, na solene solidariedade trovejante, coriscante e pluviosa. Os grandes capitães não sucumbem sem o trovão, sem a chuva, sem o vento, sem o raio, para que a sua glória temerosa ainda mais acresça o esplendor terrorista da cólera solidária dos espaços. Ninguém contestará que Rudolph Valentino foi o maior conquistador do nosso tempo alucinante. . .
Gemendo, ele rastejou até quase tocar a boca espumosa na face de Ana Clara que dormia. Aspirou-lhe o perfume, os dentes apertados numa contração aguda de maxilares. Colocou no seu ventre a revista ainda aberta e fincou os cotovelos no colchão. Ajustou os óculos embaçados e respirou doloridamente. Baixou para o texto o olhar esgazeado:
— Sem dúvida ele não enviuvou a Andrômaca nem aceitou o duelo com Aquiles nem conquistou as Galias, não destruiu Cartago nem tornou Constantinopla, não pelejou nas Cruzadas nem esteve em Trafalgar, não transpôs a Berezina nem trespassou com a lança o López do Paraguai. Fez mais, porém, infinitamente mais. . . — rouquejou arrancando os óculos. Arrepanhou a colcha com as mãos crispadas, o corpo banhado em suor se sacudindo em contorções. A voz saiu num silvo espesso: — Conquistou o coração de todas as mulheres que o viram na tela. e mal o viram. . — mal o viram experimentaram esse delíquio de platonismo amoroso, que é, segundo os fisiologistas. . . a forma sutil da paixão mais temível. . . que não encontra finito que não encontra finito no infinito da insaciedade!
Afundou de braços abertos na almofada. Imobilizou-se. Na vitrola já sem corda o som esmorecia pastoso.
nove



Ana Clara fazendo amor. Lião fazendo comício. Mãezinha fazendo análise. As freirinhas fazendo doce, sinto daqui o cheiro quente de doce de abóbora. Faço filosofia. Ser ou estar. Não, não é ser ou não ser, essa já existe, não confundir com a minha que acabei de inventar agora. Originalíssima. Se eu sou, não estou porque para que eu seja é preciso que eu não esteja- Mas não esteja onde? Muito boa a pergunta; não esteja onde. Fora de mim, é lógico. Para que eu seja assim inteira (essencial e essência) é preciso que não esteja em outro lugar senão em mim. Não me desintegro na natureza porque ela me toma e me devolve na íntegra: não há competição mas identificação dos elementos. Apenas isso. Na cidade me desintegro porque na cidade eu não sou, eu estou: estou competindo e como dentro das regras do jogo (milhares de regras) preciso competir bem, tenho conseqüentemente de estar bem para competir o melhor possível. Para competir o melhor possível acabo sacrificando o ser (próprio ou alheio, o que vem a dar no mesmo).
Ora, se sacrifico o ser para apenas estar, acabo me desintegrando (essencial e essência) até a pulverização total. Vaidade das vaidades. Apenas vaidade. A conclusão é bíblica mas responde a todas as perguntas deste mundo desintegrado e confuso. Os loucos reinando sobre os vivos e mortos. Dominarão os poucos que conseguirem segurar as rédeas da loucura, quais? Pulmões e mentes poluídas Importante papel está reservado aos psiquiatras. Aos profetas, acre dito ainda mais nos profetas. Acho que eu seria mais útil se estudasse Medicina, de que vão adiantar no futuro as leis se agora já são o que se sabe. Uma psiquiatra maravilhosa. O chato é que quando leio um livro sobre doenças mentais, descubro em mim os sintomas de quase todas, uma psiquiatra por dentro demais da loucura. Salva pelo amor. Ai meu Pai. Por que M.N. não me telefona ao menos para dizer. . . Não sou bonita, ponto pacífico. Mas meu QI não é muito acima do normal? E tenho algum charme. Meio velado, é certo, mas se procurares encontrarás o ouro escondido na terra. L'or cachê.
Fecho meu tratado já tratadíssimo, queria entrar em provas, ah. esta greve. Houve um tempo (longe, não?) em que estudávamos juntas, Lião e eu. Ana Clara não estava assim tão ambulatória delirante, coitadinha. Estudava com a gente um ou outro problema, borboleteava sobre seus planos e depois ia experimentar meus vestidos mas não perturbava muito. Tempo das pesquisas, Lião ainda não estava curtindo a revolução, estudava normalmente. Estatísticas. Formulários. Chegou a fazer um trabalho para pesquisar o que leva o motorista a dependurar berloques no espelhinho do carro. Dois grupos nítidos: os que dependuram coiselhas e os que não dependuram nada. Estes, revelando evidente superioridade intelectual sobre os outros, na conclusão lionina. Para mim, uniu simples questão de bom gosto, ouviu M.N.? Platão dependuraria o sapatinho do filho no espelho do seu Porsche se guiasse um Porsche? Naturalmente foi a mulher ou a filha que dependurou aquele chapeuzinho. E chapeuzinho mexicano, ay, ay, ay, ay! Mieux não dependurou um bebezinho erótico no corcel da mãezinha? Se Lião tivesse visto o sombrero no carro de M.N., apontaria o dedão para baixo, kaput! E Lião sabe. Lião sabe tudo, até quantas prostitutas sentem prazer e quantas não sentem, pesquisou isso também. Um mês inteiro transou pela zona com sua sacola e sua pasta, fazia perguntas tão originais. Quando começou a trabalhar na recuperado dos adolescentes maconhados, entrou para o tal grupo. Um pouco mais e já estaria de avental branco no seu consultório de psicologia infantil, todas começam muito humildes e daí a pouco estão com consultas marcadas até novembro. Os adultos já entraram nesse moinho até a medula. Agora é a vez das crianças. Uma psicóloga a menos, o que é la-men-tável. A tese seria: Da importância do retrós preto na vida pré-natal.
Consolatrix Afflictorum. Entro no meu banheiro. Se fechasse os olhos me veria entrando no bosque de eucaliptos, Sebastiana usou o vaporizador à vontade. Mas o perfume verdadeiro é diferente. Sento na borda da banheira e junto o indicador ao polegar formando um anel para que o jorro d'água passe no meio. Com o polegar e o indicador, dois dedos importantíssimos, M.N. desabotoará o soutien que não uso por absoluta desnecessidade mas que nessa hora é necessário. Ana Clara contou que o alemão estraçalhou sua blusa, o tal alemão maravilhoso, o primeiro homem, primeiro amor, primeiro tudo mas a respiração de M.N. mal vai se alterar: será como se ele tivesse subido uma escada um tanto longa, dessas de caracol, digamos. Interrompo-o porque quero beber, estou com uma sede danada. O que não é nenhuma novidade, desde criança sou assim: antes de sair de casa, a Babá, a mãezinha, todo mundo perguntava se eu não queria fazer pipi e etcétera. Não, não queria. Tomávamos o carro, a fazenda ficava a uns quinze minutos da cidade e já no carro eu começava a me mexer. Descíamos na porta da igreja. Na hora exata em que a procissão ia saindo, a fila de anjos lá na frente, eu voltava correndo porque estava com sede ou apertada, o que era mais complicado devido às asas amarradas no peito, por dentro da camisola de cetim. Até hoje não sei porque baixar minha calça acabava por deslocar as asas. "Um pouco de uísque na água?" — ele pergunta. Por enquanto tirou o paletó e afrouxou ligeiramente a gravata, ainda bem. Apesar do calor (mas não calor excessivo) minha pressão deve estar no subsolo, a bebida é indispensável. Peço com ênfase uma boa dose, não costumo beber mas numa hora dessas só a bebida descontrai. Viro o copo de uma só vez, glu-glu-glu. O atordoamento que começa na nuca acaba na boca, em meio do beijo mais lento, mais sugado. Em câmara lenta — tudo assim sem muito empenho — ele começa a tirar a roupa com um jeito de quem quer apenas ficar mais livre de movimentos, "está um pouco quente, não está?" Apesar de toda lentidão é chegada a hora da cueca, ai meu Pai. O horror que tenho de cueca, a começar pelo nome. Por mais bacaninhas que elas sejam, fico no maior constrangimento quando vejo no cinema um artista de cueca. Não sei mesmo porque ele tem que passar a fita inteira com essa cueca branca, queixei-me à Lião, a máquina dava um giro, disfarçava um pouco, e já vinha reta focalizar os elevados e a cueca. Também quero ver a cara dele! reclamei. Enquanto comíamos um sanduíche, Lião deu as explicações dela: "Não sei explicar, mas parece que todos os diretores de cinema são agora bichas e bicha tem mais obsessão por pau do que mulher, entende?" Falei-lhe do meu complexo com cueca mas nesse ponto ela já ramificava a conversa para a política e quando chegamos ao pensionato, o culpado de tudo era o imperialismo norte-americano. A república sonhada seria uma praia, nós dois de maiô, tão mais poético uma praia. Bom, mas agora não adianta, estamos num apartamento onde ele tem que tirar a cueca com uma habilidade tão hábil que quando eu der acordo de mim, já está nu.
Mergulho na banheira. Delícia, delícia. Abro a torneira de água fria. Calma, Lorena Vaz Leme, calma. Melhor começar pelo elevador, você acabou de entrar no elevador. Sozinha? Lógico, sozinha. Mas por que ele não entra comigo? "Não se esqueça de que sou casado, minha querida. Não podemos nos arriscar." Abro o fiasco e despejo sais na água. Perfume de eucalipto, ainda o falso bosque. Espuma. Mas não e deprimente esse medo que ele tem de ser pilhado? Sugere a mascara e tenho horror de máscara. Queria apenas ser verdadeira, Honesta. "O mundo do burguês é o mundo das aparências", Lião repetiu não sei quantas vezes. Eu e M.N. pertencemos a burguesia, logo, estamos condenados a esse mundo. Mas estamos mesmo? Queria ser mas vou estar na engrenagem do faz-de-conta. "Gosto tanto quando me chama de M.N." — ele disse. Sopro a espuma que chega até meu queixo. Gosta ou acha prudente? Só iniciais. Quando na ante-hora do dilúvio ele perguntou ao secretário se por acaso precisava de condução (fora a secretária da Faculdade tratar da transferência do filho) e o secretário disse estava de carro e quando então ele se voltou mim e repetiu a pergunta — quando rapidamente saímos da quase penumbra dos corredores para a noite escura, guardei apenas a imagem de um homem moreno, de cachimbo. Mais nada. No senti seu cheiro de homem bem cuidado, com um leve toque de lavanda. E fumo sempre amei esse cheiro de fumo. Durante percurso reparei que tinha mãos fortes, tranqüilas. A aliança discreta aspirei-lhe o hálito de homem de meia idade e meia felicidade que é pior do que infelicidade inteira, diz tia Luci que já casou um monte de vezes. Fiquei à vontade ali com ele. Seu estilo de guiar também me impressionou, nunca me senti tão segura. A tempestade aconteceu no meio da história que lhe contava sobre nossa fazenda. Quando desci no portão, desceu Junto e antes que pudesse impedir, tirou a capa e me cobriu. Corremos pelo jardim azul de relâmpagos acendendo o caminho, seu braço direito contornando meu ombro enquanto com o outro braço sustentava a capa aberta sobre nossas cabeças — pálio das procissões guardando o sacramento.
Pallium. Incrível como num instante assim de desordem um por- menor tão miúdo se destaca com essa forca, trovões, raios e meus dedos se fixando nas suas iniciais. Peguei-o pela cintura para conduzi-lo senti o bordado das iniciais na camisa. Que letras são essas? gritei quando me despreguei dele para subir a escada.
"M.N.!" — respondeu e sua voz ficou mais forte do que a tempestade. M.N.! Parei na escada e olhei: continuava no mesmo lugar se protegendo com a capa. Volte, M.N.! — gritei. Confessou no dia seguinte com seu meio sorriso que ficara na dúvida afinal a ordem era Para voltar ao carro ou voltar para me ver?
A espuma dos sais começou a se cristalizar na superfície da banheira. Me abraço e me vejo correndo desatinada como a mulher dos Cânticos, desfalecendo de amor e procurando o amado das pernas de coluna, ele joga golfe, deve ter pernas rijas. Na hora certa (ele intuirá essa hora) vejo-o estender as mãos sábias. Aguçamentos, requintes nas pontas dos dedos limados até a carne como os de um arrombador de cofre se esmerando no tacto, tacto com e para impedir a precipitação, certas palavras devem ter seu degrau, medida contra afobados, cuidado com o degrau! Ele toma cuidado, ah, se toma. E tanto que já está com ambas as mãos nos meus seios e nem percebi como foi que chegaram tão perto. Um primeiro toque, o torcer leve dos botões para a direita, para a esquerda. Uma pausa. Mais um movimento que é quase só imobilidade e me abro de par em par, sem segredo.
"O tesouro de uma moça é a virgindade", ouvi mãezinha dizer mais de uma vez às mocinhas que trabalhavam na casa da fazenda. Como nunca mais fez essa advertência, calculo que o tesouro só era válido para aquele tempo. E para aquele gênero de mocinhas, filhas de colonos ou órfãs. Mas se chego e digo: tenho um amante. Vai escancarar os olhos e empalidecer num susto que pode durar algumas horas, sempre demora um pouco para se acomodar às novas situações. "Um amante?" Procuro depressa um argumento decisivo: Você não há de querer que eu fique virgem para o resto da vida, certo? Certíssimo, isso não desejaria em nenhuma hipótese, já fez milhares de alusões irônicas sobre as que morrem virgens e viram estrelas. Não vai querer que eu fique lésbica, se não ando com homem tenho que andar com mulher, não tenho? Ela sacode a cabeça apavorada, não, não! Embora catastrófica, nesse momento não está pensando no pior que possa me acontecer mas sim numa hipótese normal, saudável: por que um amante e não um noivo? Me concentro para fazer desfilar todos os argumentos da Lião contra o casamento. Argumentos fraquíssimos, acho o casamento a melhor coisa do mundo, eu me casaria com M.N. em vinte mil igrejas e registros. Ai meu Pai. Enfim, faço a preleção com aquela sinceridade tão sincera que nos empolga quando as uvas estão verdes. Ela desanda a fumar um cigarro depois do outro, sinal de insegurança. Para mostrar como está atualizada faz seu canto à juventude sem espartilhos, libérrima mas não deixa do expor algumas das suas perplexidades. "Por exemplo, não entendo esse abismo entre minha geração e a de vocês. Foram séculos que se passaram ou alguns anos? O escândalo quando minha prima teve um filho quatro meses depois do casamento, parecia que o mundo vinha abaixo. E que idade você pensa que ela tem hoje? Quarenta e tantos anos! Imagine se agora alguém vai sequer comentar se por acaso uma de suas amigas" — acrescem a e deixa a frase pela metade, acabou de se lembrar que já falou nisso tudo, não tem parceira de jogo que não vibrou com essas distâncias entre o próprio tempo e o tempo das filhas. Netas. Ou sobrinhas, no caso de não haver descendência direta. Fica calada. pensando. A expressão começa a pender sobre o dramático quando me visualiza na cama com um homem, caras de gozo, gemidos sem intenções matrimoniais. O que tem qualquer coisa de devasso, não tem? Aperta os olhos. A esponja de fel começa a pingar no sorriso lento. Uma menina ainda (me vê com uns doze anos) e com um amante, um fauno velho babando nela sua baba imunda. A decepção vai se transformando em cólera, anda de um lado para o outro de braços cruzados porque já não consegue nem ficar sentada nem ficar me olhando, tem que andar. Mea culpa Mea culpa. "Sou uma insensata, uma leviana. Deixar minha filhinha no meio de uma gente que nem sei direito quem é e ir viver com um homem que se ri de mim, que me trai o quanto pode. Se não tomasse chá amargo, ele já teria me matado com doses de arsênico no açúcar. Uma mãe não pode se separar assim da filha quase adolescente, você até que tem tido muito juízo, uma onda nessas circunstâncias. . ." A autopunição se ameniza quando anuncia que o romance com Mieux está mesmo liquidado. Quer apóia vivei uma vida retirada, sem mundanismos, "inteira voltada paia minha filhinha. Deus me livre e guarde de um novo casamento!" — dirá sem se lembrar que disse isso mesmo e com igual ênfase logo depois da internação de paizinho. Divide um pouco a responsabilidade com minhas amigas: "Acho esquisitíssimas essas duas moças que moram lá. A gordinha, com cara de lésbica. A outra, tão vulgar. Por acaso serão boas companhias para uma mocinha? Aperta a mão da mocinha em sinal de reconhecimento por ter sido verdadeira e não vir com mentiras (quanto a isso pode ficar tranqüila) e sob o pretexto de me consolar (por ele ser casado) se consola nostálgica. "Mas se você está contente eu também estou" — diz e faz aquele sorriso tristíssimo para mostrar o contentamento. Todas as vezes em que o presente a desgosta (o que vem acontecendo com maior freqüência) refugia-se no passado. As lembranças colhidas sem ordem no tempo são sempre as mesmas. "Lembra, filhinha?" Brinco no chafariz da fazenda e tenho uma flanela vermelha amarrada no pescoço porque estou com dor de garganta, paizinho tirou o retrato quando perdi o equilíbrio e caí sentada na água. Alguém grita (Ifigênia?) de dentro da casa: "Essa menina vai ter pneumonia!" Agora passeio na garupa de Remo, tão nítida minha cara que aparece até a falha do canino arrancado na véspera. O dente balança na extremidade de um fio num movimento de pêndulo, "cadê o dentinho que estava aqui? O gato comeu! Cadê o gato?..." O primeiro banho na bacia de prata forrada de correntes e pulseiras de ouro, através da água vejo o ouro destinado a me transmitir seu brilho. Disse-lhe que me lembrava desse banho e ela riu, "impossível, filha, você tinha só oito dias!" Mas lembro. Vejo a água e o emaranhado do ouro brilhando no fundo, reconheceria essas jóias se não tivessem sido fundidas, a que resistiu mais tempo foi a corrente que dava voltas e voltas e voltas e que numa volta Mieux levou. Meu primeiro dia de escola, quando atirei longe a lancheira e me agarrei aos pés da cama. Ela usava um vestido de linho branco e prendera no decote um raminho de jasmins. "Eu gostava tanto daquele vestido", repete e vejo que vai reconstituindo o vestido e o resto. Continua me olhando, agudo o processo punitivo: "Não devia nunca ter vendido a fazenda, devia ter ficado lá. Arranjava um enfermeiro, ele não teria piorado como piorou se vivesse no meio das coisas que amava tanto, suas plantinhas, seus bichos. Morrer sozinho num sanatório gelado, sem ninguém para lhe segurar a mão. Rômulo morto. Reino tão longe que é como se tivesse morrido também. Minha filhinha amante de um homem casado. E eu na companhia de um cínico que me trai e explora, oh, que castigo. Que castigo."
Afundo mais na banheira. Estou com os olhos inundados, fiquei comovida, por que fui complicar assim o quadro? Me comovi à beça e não estava no programa me comover. Melhor não contar que ele é casado, se não for casado, ela pode ter esperança e tirar a esperança de mãezinha é a última coisa que eu faria no mundo. Digo apenas que não tenho nenhuma vontade de casar. Ela se anima: "Não tem agora mas vai ter, todas vocês dizem isso mas quando vem a vontade de filhos, vem junto a de casamento. É fatal. Tão mais prático, Lorena. Nas viagens, nos hotéis. Na vida mesmo em comum, você tem bens, filha. Quem senão um marido para administrar os nossos bens?" Pensa nos próprios desadministrados (confiar naquele fútil? naquele irresponsável?) e toma minhas mãos entre as suas, esse é seu gesto quando quer me falar de mulher para mulher. "Você já está estruturada, filhinha — diz solene, incorporou a palavra estruturada ao seu vocabulário mas não sabe exatamente o que significa: — A decisão é sua. Faça o que o seu coração quer." O que o meu coração quer. O que o meu coração quer? Ih, mãezinha. Meu coração quer ficar com ele mesmo sem casamento, sem nada. Ela pisca duro por causa dos cílios postiços, minha boneca piscava exatamente assim: "Mas se ele não quer se separar é porque está apaixonado pela mulher e não por você!"
"Fim" — diria a Lião. Lavo os ouvidos nas reentrâncias onde o Anjo Sedutor de novo destilou seu visco de luxúria e inveja. Como se não bastasse a preguiça. Abro a torneira e fico vendo a espuma renascer sob o jorro quente. Todo aquele que por ação ou omissão voluntária, negligência ou imprudência, causar prejuízo a outrem, fica obrigado a reparar seu prejuízo. Não cumprindo a obrigação, responde o devedor por perdas e danos.
"Perdas e danos", repetiu Lorena procurando a própria imagem no espelho. Através do denso vapor d'água só via a mancha escura da cabeça e uma parte rosada dos joelhos emergindo da espuma como vagas plantas esponjosas. "Isto é uma norma, meu amado Norma jurídica. Por negligência sua, perdi a alegria", pensou eu quanto se enrolava na toalha. Esfregou as solas dos pés no piso e fez caretas para o espelho mas sem muita convicção. "Estou triste." Polvilhou talco no corpo, abriu a toalha no espaldar da cadeira e vestiu o chambre vermelho. Sentiu-se repentinamente fascinante, ah, se M.N. a visse agora. Foi buscar correndo um livro na estante e de dentro tirou uma carta. Sentou-se no almofadão. A fita da máquina devia estar tão gasta que as letras quase se diluíam no papel de seda azulado.

— Loreninha.
Ela sorriu para o jovem que abrira silenciosamente a porta e espiava pela abertura.
— Oi, Guga. Entra. Acabei de sair do banho.
— Estou vendo.
— Quer tomar um? Se quiser, disponha.
— Agora não — disse ele se desvencilhando da sacola de lona. Sentou-se no tapete ao lado dela. — Você vai ouvir hoje o conjunto? Lá no galpão.
— Estou sem vontade, Guga. Você vai?
— Ainda não sei. Meu irmão toca o sax, eu iria só por isso. Mas também não sei — murmurou ele cruzando as pernas e agarrando os bicos das sandálias.
Ela ficou olhando o sol amarelo bordado no peito da sua camiseta de algodão.
— Foi você que bordou?
— Foi. Ficou bom?
— Está muito tremido — disse ela inclinando-se para beijá-lo na face. Com as pontas dos dedos, alisou-lhe a barba: — Sei bordar um patinho na perfeição, traga uma camisa e eu bordo.
— Esta é a única.
— A única? Ai meu Pai. Que pobreza, coitadinho do meu Guga.
— Quer me adotar? Estou procurando alguém que me adote. E me ame.
— Espera, vou buscar um uísque — avisou ela correndo até o toca-discos. — Você conhece o último do Chico?
— Acho que não, estou por fora de tudo, Loreninha. Ou melhor, por dentro.
Ela trouxe a garrafa e um copo. Aproximou o cinzeiro da mão dele que segurava o palito ainda aceso. Ficaram silenciosos, sentados lado a lado, ouvindo a música.
— Por dentro, como? Ele sorriu.
— Por dentro. Parei de rodar por aí como um alucinado. Eu estava feito um alucinado, estudando sem vontade, fazendo coisas sem vontade, tudo sem vontade, só pra provar. Não quero provar mais nada. Estou bem comigo mesmo. É o que importa. Ou não é?
— Foi por isso que você sumiu da escola?
— Deixei de estudar, Loreninha. Saí de casa, deixei de estudar. A gente alugou aí um porão, cada um dá um tanto por mês. Estamos vivendo numa comunidade.
— Ih.
— Por que ih.
— Nunca dá certo, querido, vocês acabam brigando, tem sempre um que é mais confuso do que os outros e turbilhona tudo. Nem Jesus agüentava muito a comunidade que fundou, lembra? Até quando hei-de vos suportar! ele explodiu um dia, disse isso ou coisa parecida. E era Jesus, já imaginou?
— Vamos então fundar uma comunidade a dois, posso morar com você?
Ela tomou-lhe a mão. Beijou-a:
— Te amo mas estou apaixonada. Aliás, sem esperança — acrescentou fazendo uma careta. Suspirou. —E o teatro?
— Deixei também. Aquilo era teatro? Tudo tão pobre, sem sentido. Quero viver em profundidade.
Ela desviou o olhar dos pés dele, encardidos e magros dentro das sandálias frouxas.
— Mas o que você chama de viver em profundidade? Essa contestação? Essa marginalização?
Tranqüilamente ele se serviu de mais uma dose. Seus gestos eram suaves. A voz branda. Encarou-a.
— Mas quem é que disse que estou contestando? Não estou contestando nada, Loreninha. Nem isso. Contestar é tomar atitude. Quem é que quer tomar atitude? Quero fazer só as coisas que me dão alegria, minha florzinha. Leio, converso, ouço música, laço música, faço amor. Tudo bem simples. Aprendi a pensar, essa uma descoberta importante. Pensar.
Ela levantou7se e foi buscar uma tesourinha.
— Estou adorando conversar com você mas enquanto a gente conversa deixa cortar sua unha? Por favor, Guga, estou lhe pedindo — implorou assim que o viu recuar de rastros, escondendo a mão dentro da camiseta. — É um instante só!
Deitando a cabeça no regaço dela, ele relaxou o corpo e entregou-lhe a mão. Riu baixinho.
— Está bem, Dalila, se lhe dá tanto prazer. Você parece minha mãe, me vê e já pega a tesourinha. Diz que quero agredir, contestar. Bah. O que quero mesmo é tão diferente.
Assim que cortava a unha, ela passava debaixo da unha cortada a ponta do bastãozinho de pau de laranjeira.
— Acho que você está dentro da doutrina que inventei, vê se não é bacana: ser ou estar. Ou você é ou você está. Preferiu ser, não está na Faculdade nem no palco nem nos grupinhos ativos de política ou arte ou lá sei mais o quê. Está sendo você mesmo, certo? Mas Guga, você pode ser livre. E ao mesmo tempo, cumprir o seu destino, você tem um destino, querido.
— Ah, minha Loreninha, leia menos e viva mais. Você é um livro. Venha morar com a gente e vai esquecer um pouco a teoria.
— Vocês fazem pipi no chão, eu passaria o dia lavando os banheiros, perfumando os tronos.
— Trono? — riu ele puxando-a pela mão. Beijou-a no pescoço mas quando tentou beijar-lhe a boca, ela se desvencilhou rápida.
— Não, Guga. Não quero.
— Não quer por quê?
— Porque estou apaixonada.
— Fabrizio?
— Antes fosse. É um homem casado, velho, etcétera. Estou me carbonizando nesse amor.
— Olha aí a literatura dela. Acabou? — perguntou examinando as unhas. — Quero esmalte rosa natural, eu ia comprar pra minha mãe, rosa natural.
Lorena juntou num pequeno montículo as unhas cortadas.
— Queria ler para você a carta que ele me escreveu, posso? — Apanhou as folhas que deixara no almofadão e voltou de joelhos. Inclinou o tronco para trás e sentou-se sobre os calcanhares: — Não vou ler tudo, só um pedaço, presta atenção: Tenho vivido em dois planos, o cotidiano, o real com as obrigações de cada dia, com os laços que me prendem às pessoas queridas — que amo também e diante das quais sou um, determinado, com identidade certa, com passado, presente e futuro que me enleiam a um caminho pausado, de responsabilidades conscientemente aceitas. Desse mundo, L., você é afastada e quando também se ausenta esta emoção enorme que chego às vezes a negar, sinto que esse é o mundo real, verdadeiro e que não devemos, não podemos, não podemos. . . Que é preciso parar logo e fugir, guardando a lembrança amiga de um encantamento que poderia ter sido. . .
— Chega, Loreninha. Não quero ouvir mais.
— Espera, querido, tem aqui um pedaço importante, espera!
— Chega, eu já disse. Não me interessa esse cara, me interesso por você. Nem entendo o que ele está aí dizendo.
— Só mais este pedacinho, este é importante, por favor: Quando o seu frágil e tão belo mundo, L., inesperadamente irrompe e se instala desse modo em mim — como agora em que esta emoção vai me tomando — então é nisso que sobretudo acredito, nessa alegria que me perturba de ter recebido uma doação tão milagrosa e alta. É nesse tempo que sobretudo acredito, um tempo feito à sua imagem e construído aparentemente com fatos pequenos e miúdos: um telefonema hoje, um encontro rápido amanhã, uma esperança para Deus sabe quando. Fatos tão incertos, tão escasso — e que constituem no entanto toda a nossa história visível. Sinto que mesmo desse pouco eu poderia desistir se você quisesse.
Paro porque minha boca está completamente seca. Corro até garrafa d'água, bebo um gole e volto. Guga está me olhando de boca meio aberta, como se não tivesse entendido uma só palavra.
— Mas por que ele escreve assim?
— Assim como?
— Tudo embrulhado, Loreninha.
— Avisei que ele é muito mais velho, casado, não avisei? É o estilo, querido. Só a última frase, escuta, só a última: Este carinho tão fundo e puro. Secreto e altivo. Que guardo como um bem raro. Que nem você poderia mais atingir ainda que tudo acabasse amanhã. Este carinho que me devolve e recria sua imagem, já agora tão minha para sempre, tão junto e amiga. M.N.
Dobro a carta. Guga me olha intensamente.
— O que quer dizer esse M.N.?
— As iniciais do nome dele, Marcus Nemesius.
— É embrulhado demais, Loreninha. Me dá angústia.
Sopro o excesso do talco acumulado nos meus pés. Mais uma lição: por que ler a carta para ele. É para me desesperar que atiro meu pobre amor aos leões? Lião, pois é, a Lião. Não sei explicar e explicou que era a carta de um velho apaixonado e com medo. Mais medo do que paixão. Mas por que o exponho assim? Incrível. Só Aninha foi maravilhosa, quando poderia imaginar que justo ela. Estava de fogo. Devolveu o xale que lhe emprestei, arrancou os sapatos e se sentou para um uísque. Não lhe mostraria a carta se não confiasse no instinto subterrâneo dos loucos e dos bêbados, paizinho me ensinou isso. E depois, coitadinho. Mas então ela cruzou as belas pernas, contou as mentirinhas, ia ser capa de revista em Roma, o Conde Cicogna a convidara para jantar e etcétera etcétera. Chiando sossegou no seu poder e glória, dei-lhe a carta. Na metade, parou. Os olhos cheios de lágrimas: "Gostaria de ser amada por um homem como esse, pomba." Fiquei na maior alegria, não é mesmo. Aninha? E a Lião dizendo. Ela ajustou o cigarro na piteira, andou uns tempos com uma piteira que depois não vi mais. "Uma materialista como ela não pode entender um amor que e só espírito. Eu me apaixonaria por ele." Quando saiu, dei-lhe o xale, muito lindo e tudo mas em mim as franjas se arrastariam pelo chão, por que tia Luci pensa às vezes que sou altíssima? Uma ana de xale arrastando. Ai meu Pai.
— Ficou triste, Loreninha?
— Não, querido, imagine.
— Se encolheu aí feito uma florzinha.
— Magnólia Desmaiada. Sabe que é meu apelido na Faculdade? — pergunto e escondo a cara no chambre.
— Loreninha, não chora, não chora!
Mas não estou chorando, tento dizer. Não me deu tempo, se levantou e me segurou pelos ombros, está me beijando a testa, os cabelos. Meu chambre se abre. Luto por fechá-lo mas como? Seu braço já dá voltas em torno de mim enquanto sua língua engrossa na minha boca que contra minha vontade por um momento (um século) se entrega. Salto para o lado e ele salta junto, puxo sua barba, seu cabelo, não Guga, não! Mordo a mão que se aplastrou no meu seio. Ele me solta. Ficamos nos medindo, ofegantes. Atribuo minha vermelhidão à cólera mas a bem da verdade não estou muito certa disso. Ele apanha a sacola.
— Guga querido, estou apaixonada por outro — digo amarrando o cinto.
— Você já me disse. Não tem problema.
Está de novo sorrindo. Dou-lhe a garrafa de uísque e ele agora ri me olhando e alisando a barba com as pontas dos dedos (tem mãos lindas). Deu-me um beijo de borboleta:
— é que esse seu namorado tem uma habilidade pra complicar as coisas, parece meu pai. Meu pai fala horas comigo e não sei o que ele quer dizer.
Acaricio o sol bordado no seu peito, por que não quero mais que ele vá embora? Limpo a cinza do seu jeans com três pontos quase brancos de tão descorados, um em cada joelho. O terceiro nos elevados. Desvio o olhar para o sol.
— Sei bordar, venha buscar uma camisa com um pato bordado na manga, na próxima semana já está pronta, vai ficar lindo — digo e vou atrás dele, falo quase no seu ouvido: — Não está tomando porcarias, hein, Guga?
— Não necessariamente.
— Que é que você quer dizer com isso, não necessariamente.
Ele arqueia as sobrancelhas calmas.
— Isso que eu disse, Loreninha. Não necessariamente.
Meu coração se aperta.
— Guga, deixa eu tomar conta de você.
— Que é que você entende por tomar conta. Cortar minhas unhas?
Abraço-o por detrás. No abraço, descubro que tem os ombros larguíssimos.
— Número um, vou trancar sua matrícula, seu tonto. Se de repente você resolve voltar. Hein?
— Ah, quer me ver com o diplominha. Eu não disse que você parece minha mãe?
Antes de desaparecer na curva da alameda, se volta e me manda beijos. Retribuo e sinto os olhos úmidos, não sei se de emoção, não sei se por causa do sol desabrochado em raios como na sua camisa. Enfio os pés nos caracóis de ferro da grade da escada e olho o casarão. Não é o telefone? Da janela, Irmã Bula me dá um adeuzinho abrindo e fechando a mão como fazem as criancinhas. Fico ouvindo o motor de um avião embananado na nuvem, não. Não é o telefone. E mesmo que fosse, só podia ser a mãezinha para contar como Mieux tem sido perverso, prefiro tanto quando ela está glingue-glongue. Mas o glingue-glongue é só na alegria, na depressão a voz fica mais soturna do que um besouro preto caído de costas, vuuuu. E o Fabrizio? Enredado na poetinha sinistra, era assim que me amava? Mas que espécie de amor era aquele? Bastou me voltar um pouco para outro lado. Aperto o corrimão até as pontas dos meus dedos ficarem esbranquiçadas, Guga, Guga, se cuide! Não me esqueceu. Como a gente se divertia, hein, Guga? Uma tarde ele se fez de aleijado e foi indo pela rua todo retorcido, babando e eu do lado, seriíssima, andávamos quilômetros assim. Todo mundo penalizado, olhando. Por aqui, Guga, por aqui eu dizia e ele se virando para o outro lado, trombando nas pessoas. Num outro dia bolou os óculos escuros mas não deu reação, tem cego à beça na cidade. Então eu tinha que pegar no seu braço e ir brigando horrores com ele e em voz alta, que todos vissem que eu estava uma fúria porque queria ir ao cinema e não podia, por que tenho que ser uma guia?! Estou cansada de ser cachorro de cego! — gritei quando duas velhinhas já indignadas se aproximaram mais de nós. A do guarda-chuva quase me bateu: "Menina bruta! Você não tem coração menina?!" A outra mascava, mascava, "mocidade mais selvagem mi. Sua selvagem!" Quando elas se afastaram, ele tirou os óculos e se torceu de rir mas em meio da risada notei qualquer coisa de dolorimento. Na fila do cinema, fez a queixa na maior mágoa. Eu estava cego e você judiou de mim." Ô Guga. Que triste ficou tudo isso, não é esquisito? Depois que conheci M.N., Fabrizio e ele ficaram meninos como se tivessem feito parte da minha infância. Com Remo. Com Rômulo. Paizinho me pegou pela mão para vermos no estábulo o bezerrinho que tinha nascido de madrugada. Estendo minha mão e não vem mais ninguém, eu fico com ela estendida até o fim dos tempos. Ad seculum et secolurum. Ninguém. As mãos de Remo eram banais mas as de Rômulo eram douradas, a penugem dourada do braço se estendia até elas. Ficavam douradas. As de paizinho eram morenas, com uma vaga de pêlo bordejando o dorso, eu me dependurava nelas, paizinho tem mão de macaco! Paizinho é um macaco!

— Sonhando?
Quase desabo da escada de susto. Lião está parada atrás de mim mas como é que ela chegou até aqui nesse silêncio?
— Não faça mais isso, Lião. Você quase me matou, olha como só como estou trememendo!
Ela riu.
— Vim na ponta do pé, entende. Você estava aí tão estatelada, pensando na morte do bezerro...
Agarrei-a.
— Você disse bezerro? Bezerro, Lião? Extraordinário.
— Que tem de extraordinário?
— Mas justamente eu tinha pensado em bezerro, estava me lembrando que meu pai me pegava pela mão para ver o bezerrinho. Tinha sempre um bezerrinho nascendo de madurada. Incrível.
— Então vamos tomar um chá que tenho coisas importantíssimas, você está sozinha?
— O Guga acabou de sair — digo e baixo a voz: — Lião, Lião, ele me beijou na boca, fiquei perturbadíssima.
— E daí?
— Daí acabou, fechei depressa meu chambre e botei ele na rua, mas não é estranho? Todo crescido, o cabelo, a unha, todo assim arrepiado, sabe como é? E eu que sonho com um homem limpíssimo me excitei a ponto dele perceber, me deu assim uma vontade de rolar com ele pelo chão, empoeirado, suarento! Mas pensei em M.N. e quebrou-se o instante mágico.
Lião desabou no tapete. Ria abraçando uma almofada.
— Lorena, Lorena, como você é burra.
Desatei a rir também. Mas não é mesmo?
— Uma loucura, Lião. Loucura total.
Ela começou a tirar as coisas da sacola e fazer suas pilhas em redor. Enchi a chaleirinha d'água.
— É uma pena eu ter que ir embora porque senão ia provar por a mais b que você está apaixonada por um fantasma, entende.
— Que fantasma? — pergunto.
— Esse M.N., putz. Será que ainda não percebeu que ele ficou sendo seu pai?
Tiro as xícaras. Me mato se ela recorrer aos seus analistas maravilhosos para repetir o que está em qualquer almanaque juvenil. E em quadrinhos, ih, a história da secretária jovem identificando o patrão grisalho com o progenitor, na história o pai é progenitor. Pensando bem, foi melhor ela ficar curtindo a subversão porque quando estava naquela onda de explicar auto-identificação e transferência. Bla-bla-bla.
— Qual era mesmo o nome daquele psiquiatra, Lião? Você falava demais nele, o francês.
— Lacan?
Ah. Esse. Era esse Lacan e uma outra doutora americana, eu também sabia o nome. Enfim, não interessa. Agora virou anti-edipiana: somos todos mais ou menos loucos, bobagem trancar alguns, entende. A loucura vem do sistema. Acabar com o sistema para acabar com a doença.
— E com isso, ela continua pinoteando por aí. Telefonou ontem, está numa chácara podre de rica. Tintas e vernizes.
— Avisei que ia conversar sério e você me vem com Aninha.
Estou tirando meu passaporte — digo mas Lorena já se enfurnou no banheiro.

A coleção dos sinos está na prateleira ao alcance da minha mão. Toco o maior. Som de cabrinhas. Tiro minha corrente fora da gola e fico sacudindo o sininho que me deu.
— Já vou, Lia de Melo Schultz! Já vou!
Veio metida na malha preta de bale e traz nas mãos a caneca de margaridas. Vem como se estivesse no palco carregando uma ânfora, quando veste essa malha anda como as bailarinas. Ou anda sempre assim?
— Tenho paixão por margaridinhas — diz pondo a caneca na estante, ao lado do retrato do pai. — Tinha tantas na fazenda. Foram as flores que cobriram o caixão de Rômulo, meu irmão.
— Preciso ir buscar as roupelhas que sua mãezinha prometeu e ainda nem tive tempo, ô como tenho camelado. Levo pra mim as coisas de lã, vou precisar, Lena. Argélia. Inverno africano mas inverno.
— Milhares de vezes já me perguntou se você é lésbica. Dou risada, estou tão contente. Tudo tem graça.
— A situação fica mais preta porque agora não posso exibir Miguel, ô, como as pessoas se impressionam com o sexo do próximo. Deviam se impressionar com outras coisas. Você inclusive.
Ela pega uma margarida pelo caule e vem se ajoelhar na minha frente. Estende a margarida até minha boca:
— Lia de Melo Schultz, poderia me conceder uma entrevista? Por obséquio, fique mais perto do microfone. Queria sua abalizada opinião sobre o homossexualismo feminino e masculino.
— Antes me dá esse chá. A água não está fervendo? Você disse que chá não presta com água fervida, anda, corra!
Perfeito. Agora, o dinheiro. Oriehnid, não é, Lorena?
— Estava quase fervendo — disse ela deixando cair o chá na chaleira.
Fico olhando as marcas de talco que seus pés deixaram no tapete, deve ter saído há pouco do banho. Mas quantos banhos toma por dia?
— Falei ontem com meu pai, ele mesmo atendeu o telefone, minha mãe tinha saído. Ele é fabuloso, entende. Pai, não me faça perguntas, explico tudo depois mas agora quero avisar que vou para o exterior. Ele não disse nada. Perguntei, está ouvindo, pai? e ele respondeu: estou, pode continuar. Vou precisar de dinheiro pra passagem de avião, continuei. E a passagem é cara, você sabe. Pode me dar o dinheiro? Ele ficou um instante calado. Tão calado, entende. A ligação estava próxima como se estivéssemos falando um em cada esquina, eu quase podia ouvir a batida do seu coração. Responda, pai, você pode me dar esse dinheiro? — Procuro na sacola o lenço, onde foi parar essa merda de lenço. Enxugo os olhos na barra da camisa. — Daí ele disse, conte com a gente, filha. Vendo aí uma coisa e dou o dinheiro, não se preocupe. Mas no fim do mês. Você pode esperar até o fim do mês? Mando não só a passagem mas também uma sobra razoável, não sei onde vai. Sei que é caro.
Lorena já vem trazendo a bandeja e pela sua cara percebo que não ouviu uma só palavra. Equilibrou a bandeja no almofadão-
— Estou com o pressentimento que M.N. não vai me procurar nunca mais.
— Daí eu desliguei e beijei minha mão porque queria beijar a mão dele.
— Você acha mesmo, Lião?
— O quê?
— Que M.N. não vai me procurar mais. Você acha isso?
Despejo chá na xícara. Ela espera, o olhão pregado em mim.
Respiro tão fundo que devo ter chegado até o calcanhar.
— Você começa a falar em casamento! Ele está com medo da mulher, entende.
Ela contornou o bule com as mãos, tem sempre as mãos frias, pés frios.
— Mas não estou querendo que ele case comigo, estou querendo que ele me procure!
— É a mesma coisa, Lena. Depois do telefone você vai querer o casamento, você só pensa em casamento. Com a mãezinha oferecendo o coquetel.
Ela empurrou o prato para mais perto porque estou comendo biscoito e os farelos. Mas esta menina só pensa na cinza ou no farelo que pode sujar o tapete? É só isso que preocupa essa cabeça? E também esse M.N. que deve ser uma bela besta, ô! Tenho agora vontade de dar urros porque ela já começou a dobrar a barra da minha calça, todas as vezes que visto esta calça ela vem correndo e começa a dobrar a bendita barra. Daqui a pouco vai buscar o pentinho branco. Começo a rir.
— Acho que você é bastante louca, Lena. Mas presta atenção, já falei um monte de vezes e você não ouviu, meu passaporte está quase pronto, vou viajar por esses dias. Vou-me embora, ouviu isto? Estou de partida.
— Mas Lião, assim tão depressa? Vejo você aí falando mas pensei que fosse uma coisa remota, você disse que já tirou o passaporte?! Exterior?
— O lugar ainda é segredo, segredíssimo. Nem ao meu pai eu disse ainda, mando a carta de lá da Argélia. Lá espero por ele.
— Ele quem?
— O Miguel! O Miguel vai ser solto, vamos nos encontrar na Argélia, desembarco em Casablanca. E não peça mais detalhes, os detalhes dou depois, fique com isto por enquanto, vou pra Argélia.
— Argélia? Mas que coisa maravilhosa, Lião! Porque não me disse antes? Argélia, imagine. Lia de Melo Schultz vai para a Argélia. E diz isso assim, com essa tranqüilidade. . . que maravilha. Vamos ver já no mapa. Remo, meu irmão, conhece bem aquilo lá, ele mora em Cartago, na Tunísia. Ouço você falando num bla-bla-bla de viagem mas jamais pensei. . .
Foi aos pulos buscar o mapa. Abriu-o no tapete. Uma gota da minha xícara caiu na Ásia mas na excitação ela não viu.
— Está aqui, Alger — apontou e afastou o cabelo que despencou molemente como uma fita sobre o mapa. — Vizinha da Tunísia, está vendo? E Marrocos deste lado. Veja o Saara. Areia, areia. Se fosse para esperar M.N., eu iria correndo na ponta dos cascos, atravessava o deserto e batia aqui nesta portinha, toque-toque.
Dobra o mapa-múndi. Encho a boca de biscoitos, ô esses sentimentalismos.
— O problema é o seguinte, só no fim do mês meu pai vai poder me dar o dinheiro. . .
— Oriehnid! Oriehnid!
— O oriehnid, entende. Eu disse que estava perfeito mas estou a fim de ir antes, as coisas se precipitaram. Você poderia me emprestar? No momento em que meu pai, putz. Seria um adiantamento.
— Mas é lógico, Lião. Mãezinha depositou em meu nome uma fortuna, o famoso carro esporte. Não quero carro, pelo menos por enquanto não faço a menor questão, imagine. Não vou emprestar à Ana Clara para os negócios dela? Quanto é a passagem?
— Vou saber agora.
— Leve um cheque só assinado e bote lá a quantia que for mas com margem, Lião, pelo amor de Deus, bastante margem para o seu começo. Me mato se souber que você está passando fome, ai meu Pai, uma loucura essa sua viagem. Estou elétrica.
— E eu então. Não durmo faz dias, deito e fico minhocando.

Abro o livro de cheques enquanto ouço Lião ir triturando os biscoitos. Vou perdê-la. Não vai voltar nunca mais, vou perdê-la. Como perdi o Astronauta. Meus olhos ficam nadando e neles a letra submerge, o Leme por último, tão tremido. Quem vai agora me entrevistar, seu nome? Lorena Vaz Leme. Universitária? Universitária. Virgem? Viro a folha e assino em outro talão. As lágrimas voltam às suas fontes obscuras.

— Quero que você leve uma cruz aí na sua corrente, promete que vai levar? Vamos, promete senão. . .
Agarro-a pelos pulsos. Está quase rasgando o cheque.
— Mas que chantagem é essa, Lorena? Levo, levo até uma dúzia de cruzes se fizer questão, não tem problema.
— Promete que vai deixar aí na corrente.
— Prometo.
Ela me beija. Está radiante. Com seus gestos de gueixa, vai buscar o chá e enche de novo minha xícara.
— Um dia, de repente você vai apertar essa cruz na mão.
— Vou?
— Tenho certeza, Lião. Tenho certeza. Sua cuca está totalmente buleversada com política etcétera, você entrou num moinho, querida. Meu diagnóstico: fé adormecida. Em estado latente.
Guardo o cheque no fundo da sacola onde vão se acumulando os elos da corrente da viagem. Onde fica esse banco? Acho ainda uma unha pra roer. Perto lá do despachante. Certo. Quando abro os olhos, dou com Lorena me observando. Faço-lhe um carinho na cabeça. Ah, sim. Deus.
— Também fui anjo de procissão, papa-hóstia, fui tudo. Acreditava com aquela força da infância, um fervor. Justamente por isso uma reconciliação, entende? Não sei explicar, Lena, mas assim que comecei a ler os jornais, a tomar consciência do que se passava na minha cidade, no mundo, me deu tamanho ódio. Fiquei uma fúria. Sem dúvida ele existe, eu pensava, mas e só maldade. Desse estado passei para o da ironia, fiquei irônica, mas e um bricoleur, sabe o que é um bricoleur? Na minha rua morava, um baiano santeiro que pegava sobras de objetos, fragmentos meio ao acaso, sem plano, juntava as peças com jeito, ele tinha muito jeito e acabava formando suas maquininhas. Comecei a achar que Deus era simplesmente isso, um bricoleur de gentes. Calava uma sobra aqui, outra lá adiante e assim ia formando suas engenhocas. Por disponibilidade, entende. Capricho. Quando uma bricolage começa a funcionar, quando bem ou mal se põe em movimento, ele se desinteressa e já pega outra, milhares de maquininhas humanas sem destinação, se arrebentando por aí feito doidas. Kaput.
Agora Lorena se deitou de costas, abriu os braços e desatou a pedalar. Recolho na bandeja os farelos que deixei cair no tapete. Bastou falar em máquina e já se atrela à sua bicicleta de vento e entra na engrenagem.
— Maquininhas humanas, Lião?
— Maquininhas de pedalar, comer, cagar, foder.
Ela tombou de lado, rindo.
— Que horror, meu ouvido quase explodiu, querida.
— Vou usar então palavras mais sutis, chier, baiser. . . Não fica fino?
— Quero saber se essa idéia é sua.
— Que idéia?
— Essa das maquininhas.
— Eu leio. Filosofia francesa.
Ela fez "hô! hô!", encolheu-se toda, agarrou os pés e rolou sobre os quadris como uma bolinha preta. Podia-se contar suas costelas sob a malha colante. Recomeça a música na vitrola e que faz parte disto como o chão, as paredes. O miado de um gato se aguça próximo como se viesse aqui debaixo do tapete. Sua testa se franze na expectativa, deve estar pensando no Astronauta. Ou em Deus. Levantou a carinha perplexa. Pedalou, rolou e nem transpira.
— E as maquininhas de sonhar? Me explica agora isto, e as maquininhas de sonhar? Eu sou uma maquininha de sonho, já pensou? Mãezinha, meu irmão Remo, minhas tias, um monte de gente, tudo é maquininha. Já meu irmão Rômulo e eu sempre fomos diferentes. Principalmente ele. Era tão especial aquele meu irmãozinho.
Está tudo atrasado, listas de coisas que providenciar ainda hoje e aqui estou em divagações metafísicas, vendo Lorena se exibir na sua malha preta. Mas já não é quase a despedida? Quantas vezes mais vou subir até este quarto? Pego um último biscoito. Sei que vou me lembrar dela como está agora, sem poeira e sem suor, olhando lá dentro do seu vago mundo.
— Depois a gente se vê — digo.
— Mas então você acredita n'Ele. Como um bricoleur, não interessa, mas acredita!
— Outra hora vamos discutir esse assunto, hoje não dá mesmo pé. Acho apenas que você nunca será como eu e eu nunca serei como você, não é simples? E não é complicado?
Lorena acompanhou-a até a porta. Arrumou-lhe a fralda da camisa desabando sobre a calça.
— Você mesmo disse que não tem nunca mais, lembra? Não estamos vivas? E se um dia lá em Cananéia eu for metralhada a las cinco en punto de la tarde? E se você entrar para um convento em Espanha?
Lia desceu a escada rindo. Quando olhou para trás, Lorena fazia caretas.



dez



A Gata dorme entre dois canteiros de margaridas, a barrigona estalando ao sol. Vou ver ainda esses gatinhos? Mimosa gostava de parir na rede, lembra? Os gatinhos pelados e cegos se despencando por entre as franjas e ela recolhendo um por um na boca que virava pluma. Miguel não quer saber de filhos, pelo menos por enquanto. Concordei, é evidente, mas tenho às vezes tanta vontade de me deitar como essa gata plena até à saciedade, tão penetrada e compenetrada da sua gravidez que não tem no corpo lotado espaço sequer pra um fiapo de palha. Daria a ele o nome de Ernesto.
— Bom dia, Gata!
Ela levanta a cabeça pedindo um afago e volta a dormir. Mais dois gatos malhados cruzam o jardim que se transformou no reino dos gatos, eles sabem que aqui não serão assassinados. Contudo, o Astronauta de Lorena fez seu nécessaire. Esquerda Independente com colorações anárquicas. Chuto os pedregulhos. A idéia de que não vou ver mais este jardim me dá uma certa tristeza. Nunca mais? Não tem nunca mais no presente, presente quer dizer imprevisto, tudo eu posso ver agora. Ou daqui a pouco quando for agora de novo. Argélia! tenho vontade de gritar. Bonito nome para uma filha. Argélia chegou? Argélia está chamando? Pena é que na Bahia logo transformam em Gegê, a mania dos apelidos. Se não tivesse a passagem, iria nadando, andando. Rios, montes, vales, montanhas e um oásis. Um mês, um ano. Chego coberta de pó e sangue, meu sapato dei pro homem do jipe que me recolheu na estrada, minha blusa dei pro homem do bar que me deu de beber, teve outro que me quis nua e fiquei nua e depois ele repartiu comigo o seu arroz, falta muito ainda? Falta. Tem um deserto e depois do deserto, um rio. Que santa se deu ao barqueiro em troca da condução? Minha mãe contou essa história da santa que encontrou o barqueiro malvado exigindo que ela se despisse e se desse pra ele. Daí ela tirou o manto, descalçou a sandália e se deu pra poder atravessar o rio. Atravessou o rio e entrou no paraíso. "Se você acredita no homem você acredita em Deus", disse Madre Alix. Não sei explicar mas o que quero dizer é que acreditar no homem não me deixa tão feliz como acreditar nessas histórias absurdas que os homens contam. Quanto mais simples e inocentes forem mais me envolvem com suas façanhas de heróis e santos, vem, mãe, vem me encher de superstições que não entram na minha rotina mas também não esqueço, vem de noite me cocar as costas e depois abrir meu cabelo, a Ivanilda, aquela porcalhona passou piolho pra classe inteira. O avental cor de café-com-leite tinha um sabiá bordado no bolso.
Abro o portão. O Corcel vermelho da mãezinha está estacionado em frente, com o motorista dentro. Ele lê um jornal.
— Esperando Lorena? — pergunto.
— Faz mais de meia hora. Ela pediu o carro mas saiu e não voltou, esqueceu, vive no mundo da lua. Acho que vou embora.
— Vai? Posso ir junto? Tenho que pegar lá umas roupas.
Sento ao lado dele. É um mulato grisalho e com jeito de quem espera não há meia hora mas há meio século. Mundo da lua.
Minha avó falava muito em gente que vive no mundo da lua. Os lunáticos. Lorena não viu só um disco voador mas um esquadrão deles em formação no céu.
— O senhor trabalha há muito tempo na família?
— Chi, até perdi a conta. Carreguei a Loreninha no colo, eu trabalhava antes no trator da fazenda.
Este homem, por exemplo. Se interessaria em entrar pro grupo? Apoltronou-se, é claro. Numa poltrona bem mais modesta do que a dos patrões mas poltrona. Não quer nem saber. E o filho? Por acaso se interessaria?
— O senhor tem filhos?
— Uma menina da idade de vocês. E um mais velho.
— Que é que ele faz?
— Trabalha no escritório da Mercedes-Benz. Vai muito bem, viu? Meu falecido patrão tem um primo que é funcionário lá e encaminhou meu rapaz, é um filho que só me dá alegria. No fim do ano vai ser promovido e então se casa, está noivo.
Fico olhando o bebezinho de plástico dependurado no espelhinho. A carinha ri tão safada que não consigo me desviar dele.
— A filha também dá alegria?
Ele demora na resposta. Vejo sua boca se entortar.
— Essa moda que vocês têm, essa de liberdade. Cismou de andar solta demais e não topo isso. Agora inventou de estudar de novo. Entrou num curso de madureza.
— E isso não é bom?
— Só sei que antes de fechar os olhos quero ver a garota casada, é só o que peço a Deus. Ver ela casada.
— Garantida, o senhor quer dizer. Mas ela pode estudar, ter uma profissão e se casar também, não é mais garantido assim? Se casar errado, fica desempregada. Mais velha, com filhos, entende.
O bebezinho safado se sacudiu de rir com o solavanco do carro. Descubro que não é sua masturbação que me enoja mas sua carinha lustrosa, satisfeita.
— A Loreninha também fala assim, mas vocês são de família rica, podem ter esses luxos. Minha filha é moça pobre e lugar de moça pobre é em casa, com o marido, com os filhos. Estudar só serve pra atrapalhar a cabeça dela quando estiver lavando roupa no tanque.
As poltronas da sala cobertas com plástico. A televisão. A novela de gente rica e a novela de gente pobre, os pobres mais sinceros mas com muitos problemas. Solucionados parcialmente nos últimos capítulos onde a virtude é recompensada. Embora dois dos cínicos fiquem impunes, tinha gente demais. O conformismo só marcado pela ambição de um carro novo e de uma TV maior, a cores, ô, mas não era um esquema parecido que desejei há pouco quando vi a Gata? Minha cara se tinge de vermelho quando me imagino puxando Miguel pra vitrina na liquidação de inverno. Fechando-o, gastando sua força e paciência com as quinquilharias do cotidiano, recusando a palavra de ânimo no seu dia de desencanto, presença negativa, não! Se for pra falhar como tantos falharam que os ventos soprem meu avião com toda força das suas bochechas pro mais agudo pico dos penhascos, todos os passageiros salvos menos uma jovem estudante baiana que se precipitou no abismo. Fim.
— E se ela se casar com uma droga de homem e depois virar aí uma qualquer porque não sabe fazer outra coisa? Já pensou nisso? Me desculpe falar assim duro mas vai ter que prestar contas a Deus se começar com essa história de dizer, case depressa filhinha porque senão seu paizinho não morre contente. Se acreditar nela, aposto como vai querer merecer essa confiança vai ser responsável. Se não for, é porque não tem caráter, casada ou solteira ia dar mesmo em nada.
Fiz o discurso. Saio e bato a porta do carro. Ele está meio aturdido.
— Mas nunca pensei. . .
— Pense — digo enfiando a cabeça na janela. — Ainda uma coisa, se não quiser se moer num desastre, arranque esse bebezinho do espelho. Quem pôs ele aí? Não sei explicar mas isso tem péssimos fluidos, dois conhecidos tinham um mascote igual no cano um se despencou de uma ponte, caiu no rio, o outro se desbundou entre dois caminhões. Eles e os carros foram pulverizados, incêndio, naufrágio, tudo. Só os bebezinhos de plástico foram encontrados rindo. Intactos.
Estou rindo também quando entro no edifício.

— Sim? — disse o copeiro entreabrindo a porta.
Lia ajeitou a pilha de livros debaixo do braço.
— Sou a amiga da Lorena. Vim buscar uma mala de roupas.
— Ela não vem?
— Não tenho idéia, entende. A mãe está me esperando. Com um gesto evasivo, ele apontou uma cadeira no vestíbulo penumbroso. O olhar voltou a boiar indiferente na superfície meio estagnada dos olhos. Fechou a porta. Examinou Lia mais demoradamente. Hesitou:
— Não sei se ela vai poder receber hoje.
— Mas telefonei ontem cedo, disse que eu viesse.
— Seu nome?
— Lia. Lia de Melo Schultz. Schultz. Meu pai é alemão, sei falar alemão.
Ele deu-lhe as costas e saiu num andar silencioso sobre o mármore forrado de tapetes.
"Por que os escravos do rei acabam mais cacas do que o próprio?" — pensou Lia enfiando a fralda da camisa dentro da calça. Tateou à procura do cinto. Com quem estaria? Apaziguou a cabeleira com as mãos. Examinou o polegar inflamado e com a ponta da língua umedeceu a unha roída. Na parede, os altos espelhos refletindo-a em todos os ângulos. "Como tomar um porre de si mesma." Inclinou-se rápida até ficar abaixo do nível das molduras. Sentou-se no tapete. Como Narciso podia ser livre, escravizado como estava à própria imagem? Sorriu. Lorena também gostava de espelhos, igualzinha à mãe. Como era a filosofia lorenense? O estar era a estagnação do ser. "Se eu quiser ser não posso estar sequer no espelho", acrescentou interessada no tapete castanho-claro e azul. Os olhos acostumados à penumbra viam melhor o desenho enrodilhado mas nítido: o tigre perseguia a gazela até montá-la nos dois lances seguintes, cravando garras e dentes em seu flanco de onde escorria um filete de sangue aguadamente azul. Outras gazelas perseguidas e abocanhadas se multiplicavam na lã e seda da miniatura oriental. Por mais que corressem — como corriam! — estavam todas condenadas. Alisou a cabeça espavorida da que saltava na moita. Procurou no intrincado dos arabescos de folhas um caminho diferente que ela pudesse fazer para escapar do tigre iminente: teria que sair fora do tapete. A volúpia com que os homens criam e descriam a fatalidade em tudo quanto tocam. E depois atribuem a responsabilidade aos deuses. "Você é livre" soprou no ouvido em pânico da gazela. Agora era livre. Ainda era livre. Cobriu com o livro o tigre caçador e deitou-se de costas. O lustre de pingentes de cristal rosado era outra fatalidade no teto. Também o relógio de parede dentro do longo esquife dourado e preto. O pêndulo tinha a forma de uma lira mas os ponteiros eram setas agressivas. "Só valem os números que apontamos" — avisavam empoladas, espetando o alvo. O som enérgico do coração mecânico batendo dentro do esquife. Que coisa mágica o tempo. Tempo da Argélia. De repente ficou o tempo da Argélia. Como ia ser? Imprevisão. Aventura. Certo só o desejo de luta. De sobrevivência. Certo, o diário. "Quero que todos saibam que ninguém no mundo amou mais seu povo e sua pátria" — escreveria na introdução. Palavras já sem sumo de tão chupadas pelos políticos nas campanhas. Pois se serviria delas para exprimir o sentimento novo. Vivo. Conversar muito com Miguel sobre isto: se a Nova Esquerda não se unisse aos outros grupos acabariam todos tão multiplicados e enfraquecidos que quando se tentasse uma linguagem comum, ninguém mais se entenderia. "A igreja já está vivendo sua Torre de Babel — lembrou ela batendo a cinza do cigarro nos olhos do tigre. — Vamos seguir o mesmo caminho? Peço um tijolo e me atiram uma trave. Fracionados, repartidos. Como organizar as massas assim perplexos?"
Soprou o rolinho de cinza que foi se desfazendo no tapete até desaparecer. Esmagou a brasa do cigarro na sola da alpargata azul Estavam como aquelas gazelas com destinação marcada, pulava uma, duas e a terceira era fisgada no pescoço, mais duas e o sangue correndo azulado. "Não!" — exclamou virando-se de braços. O diário Seria num estilo simples como o das notas e lembretes do caderno. Abriu-o ao acaso. Teve dificuldade de ler a própria letra grande, desarticulada: Hoje, dia 12, Lorena disse que era dia de banho. Entrei no chuveiro dela que quase me pelou porque a torneira de água fria estava com defeito. Em seguida me ofereceu almoço, quer dizer, cenouras cruas, um ovo cozido e um copo de leite. Se não me atirasse às bananas (devo ter comido meia dúzia) não poderia ter feito as milhares de coisas que fiz. Na saída encontrei com Ana Deprimente que ia chegando deprimidíssima, tinha tido uma conversa com Madre Alix que deve estar perdendo a paciência. Falou baixo com Lorena, queria dinheiro emprestado. Depois pediu emprestado um suéter. E me disse que estava com angústia, o que não é novidade, ou está empolgada ou a fossa. Por que aquele seu olhar meio estrábico me dá vertigens? Depois de pegar o passaporte — Argélia, Argélia! — fui escritório e lá encontrei Pedro e Elisabete de plantão. Estão se amando, quer dizer, Pedro está apaixonadíssimo mas ela me parece muito cerebral. E as pessoas assim cerebrais se apaixonam , um modo diferente dos passionais como Pedro e eu. Ela está liderando um movimento feminista e redigia um artigo sobre o trabalho da mulher no nosso mercado. Por que me comovo quando penso que Pedro vai sofrer? Tem que sofrer, merda. Beber querosene e gasolina porque é assim que se firma uma estrutura, penso. Mas no coração fico sentimental, só me falta dizer como Lorena: coitadinho. De lá fim ao apartamento do Bugre. Já estavam ouvindo música o Dil, a Ivone e o Eliezer. Chico Buarque e Caetano. Chegou o Bugre e nosotros começamos o trabalho. Quatro horas cerradas de estudo extremamente frutífero. Do economicismo ao idealismo filosófico, do idealismo filosófico à crise da física no início do século, dela a Hegel, tudo isso passando pelos turtuosos caminhos da insensatez, da ignorância e do amor pelo Brasil.
"Miguel é um cerebral" — pensou Lia fechando o caderno. Mas isso não era bom? Fazia média com ela que era dos acessos, na hora vulcânica ao menos uma cabeça precisava ficar raciocinando. Ou não? Burra sou eu, se me pegam com estas notas. Que é que eu tenho que andar com isto?
— Ela acabou de sair do banho, já vai atender — avisou a empregada de avental cor-de-rosa entrando no vestíbulo. Aparou no cinzeiro o cigarro de Lia já apagado. — Entra aqui na sala. Loreninha não vem?
"Mas é só isso que todo mundo pergunta" — pensou Lia seguindo a empregada. Empilhou os livros no tapete da sala mais espaçosa e mais clara.
— Não vi Lorena hoje. Volto outra hora, não tem problema.
— Mas ela quer ver você, espera só um pouquinho. É que hoje esta casa está tinindo. A pobre chora sem parar, o olho já está inchado assim...
— Mas o que aconteceu?
— Morreu o Doutor Francis!
— Quem é o Doutor Francis?
— Pois é o médico que trata dos nervos dela, o enterro foi ontem, ela nem sabia de nada. Toma um refresco? Ou prefere um uísque?
— Um pouco de uísque. Puro. Mas escuta, só vim buscar uma mala de roupas, você não pode resolver?
— Espera, garota. Você entra um pouco, ela se distrai.
Sem muito entusiasmo, Lia recebeu o copo. No primeiro estágio, o copeiro de cara estagnada e o vestíbulo penumbroso. Agora, a sala mais importante com a empregadinha descontraída a oferecer bebidas. Sentia-se uma visitante em ascensão. Aproximou-se do retrato a óleo dominando todo um lado da parede. A mãezinha remoçada e revivida com o sangue de alguma jugular recente. Lorena adora fitas de vampiro, pois ali estava a mãe num esgazeante vestido-camisola, a cara branquíssima, os olhos sepulcros. Até os cabelos eram densos como dois coágulos negros apertando a testa alta. Condessa Drácula.
— Você gosta? — a empregada quis saber sorrindo e escondendo nas mãos nos bolsos do avental cor-de-rosa — Custou uma fortuna esse retrato.
— É inquietante.
— E faz dois dias que ele não aparece. Ainda hoje três mulheres telefonaram perguntando, o doutor está? — imitou a empregada aflautando a voz. — Também, pode ser o filho dela.
— Mas ele é doutor? — provoco.
A moça riu escondendo a boca no avental. A cara tem qualquer coisa do bebezinho de plástico:
— Doutor em gostosura, menina.
Encho a boca de amêndoas. No banquete das inconveniências essa serva fiel se sentará na cabeceira. Experimento na ponta do dedo o canino azul do dragão de porcelana chinesa, eriçado na mesa de mármore. Na mesa menor, a arvorezinha de prata com quatro miniaturas de esmalte pendendo dos galhos como frutos ovalados: o retratinho de um homem moreno e pálido, com a expressão de Lorena quando em fase mística. No galho paralelo, a mãe de chapelão de palha, empunhando a tesoura de jardinagem, um buquê de jasmins no peito. Logo abaixo, num galho menor, o retratinho de Lorena menininha, rindo sua risadinha, hi-hi-hi. No ramo vizinho, carrancudo, o rapazinho de topete, Rômulo ou Remo? Só os quatro na árvore. E o outro menino?
— Vamos, ela está chamando — avisou a empregada. Formalizou-se ao segundo toque de uma remota campainha. — Por aí não, garota, essa porta vai dar no escritório. Você não esteve aqui antes?
— Está tudo mudado, lá sei.
Corredores e salas até o túnel ir se apertando mais secreto, mais escuro. O vestíbulo dava para um quarto trevoso. Quarto? Pela primeira vez entrava numa verdadeira alcova onde não vi janelas mas cortinas e planejamentos de um dossel lânguido, sustentado por quatro colunetas. Aproximei-me. Os panos desciam em pregas frouxas, compondo uma espécie de casulo vaporoso envolvendo a cama com espaldar de palhinha dourada. Mornidão de perfumes. Meio sumida entre os lençóis e bordados, ela descansava sobre os travesseiros altos, dois tampões de algodão nos olhos. A luz do abajur de cabeceira estava acesa. O sol explodia lá fora mas ali era noite.
A voz meio úmida, algodoada:
— Senta, filha. E a Loreninha?
— Vem vindo por aí.
— Hoje preciso muito dela. Hoje preciso de todos vocês, sabe o que aconteceu, não sabe? Era meu amigo, meu irmão. Metade de mim mesma morreu com ele. Oh Deus.
— Posso voltar depois, mãezinha. Não tem problema.
Com a pontas dos dedos ela tirou os algodões dos olhos. Deixou-os na salva de prata, ao lado do frasco de água-de-rosas. Abriu as pálpebras com esforço.
— Gosto tanto que me chame assim de mãezinha. É que estou perdendo tudo, as pessoas todas morrendo, sumindo. E você chega e diz mãezinha. Sempre gostei de você, Lia. Eu dizia à Loreninha, fico tranqüila quando lembro que você tem uma amiga assim por perto.
Fico rindo por dentro. Tranqüila? Fungo e espirro porque não posso enxugar o nariz no lenço que não trouxe, ô, esse perfume me dá alergia.
— Peguei um resfriado monstro.
— Que dor pensar que ele está morto, que aquele riso, aquele olhar tão forte e ao mesmo tempo tão doce. . . Então? ele me perguntava li eu respondia no mesmo tom: então, Doutor Francis? Oh Deus, meu amigo querido, acima de tudo meu amigo. Estou de novo sozinha. Completamente sozinha.
Está chorando e eu procuro e não encontro nada o que dizer enquanto ela chora silenciosamente. Estava de terninho branco quando nos vimos, um terno de flanela que Lorena chamaria de impecável. Era domingo, fora levar metade de um peru assado com nozes e que Ana e eu devoramos, Lorena beliscou uma asinha Saía de uma plástica, eufórica. Mas é esta aquela fagueira senhora? Derreteu-se como sorvete de chocolate e creme, mais creme do que chocolate. Recuo na banqueta: agora ela procura ver a empregada que eslava atrás de mim e não esta mais.
— A senhora quer alguma coisa?
— A Bila sumiu. Aperte ali aquela campainha, quatro empregados e nenhum para atender quando chamo. Ficam os quatro conversando lá dentro, pode apertar mais, não ouvem. Oh Deus. Ele me parecia tão firme, tão certo, está me ouvindo? Tudo podia ruir, desabar. Ele não. Como se fosse imortal. Tão fino e ao mesmo tempo autoritário, poderoso. Áspero e ao mesmo tempo gentil. Só uma vez vi um homem igual e assim mesmo num romance, um romance de Cronin. O personagem era como ele, mas existe gente igual? O Doutor Francis. Nem vi ele morto, ninguém me avisou. Tinha jogado de tarde uma partida de tênis, jogava tênis maravilhosamente, chegou a disputar campeonatos. Posso imaginá-lo com a raquete na mão, os movimentos tão enérgicos, elásticos, ele inteiro tinha tamanha energia e elasticidade. Oh Deus oh Deus. Meu querido amigo, e então? ele me perguntava. E então, Doutor Francis.
As lágrimas correm, correm na cara esticada, sem o menor vinco. Mas as mãos são tortuosas como raízes expostas de uma planta arrancada da terra, ô! vontade de estar em qualquer outra parte, menos aqui. Pensar em Miguel, Miguel rima com Argel, rima pobre mas tão rica, estou indo! Mar Mediterrâneo. República Argeliana Democrática e Popular. O mar, que cor tem esse mar?
— A senhora vai arranjar outro analista, não tem problema Com dinheiro a senhora pode se tratar com o maior analista do mundo.
— Sete anos. Sete anos. Voltei à estaca zero, tudo o que disse e fiz, tudo se perdeu como num naufrágio. Com a morte dele, voltei à estaca zero como se — oh Deus, como posso me conformar? Como posso me conformar?
Mais desconformado deve estar ele a esta hora, penso e aproveito para enxugar o nariz na fralda, ela fechou os olhos. Não vai dar mais tempo, o escritório fica pra amanhã. Telefono pro Bugre, explico e se ele puder deixar o recado com Mineiro. Dom esse telefonema resolve. Um dia embananado. Loreninha podia lei vindo segurar uma ponta, não podia?
— Me dei inteira a ele numa bandeja, passado, presente. Ficou com tudo. Com a morte, me devolve tudo outra vez. Aquelas pedras, fui tirando as pedras uma a uma, tanta pedra amontoada em cima de mim, aqui no meu peito, fui tirando devagarinho, ele me animava, vamos, dizia, vamos, moça! Respira! Às vezes me chamava assim, moça. Que é isso, moça? Moça — repetiu tapando a boca que transbordou de lágrimas. — Agora as pedras caíram aqui de novo mais pesadas do que antes, voltaram aumentadas. Como posso procurar um estranho que não sabe de coisa nenhuma, repetir tudo outra vez. . . Sete anos. Pelo meu andar já sabia como eu estava, às vezes eu decidia, hoje vou blefar, quero me fazer de curada, estou ótima, Doutor Francis, hoje estou ótima. Ele só nu olhava, aquele olhar penetrante, que ia até lá no fundo. Então eu caía em prantos porque era exatamente isso o que queria fazer, chorar. Voltei à estaca zero.
Queria só saber com quem está meu Grau Zero da Escritura que nem li. Maiakovski e Lorca dou ao Bugre. Malraux, a Beauvoir e Satre dou ao Pedro, ele vai vibrar. Eliezer fica com os nacionais todos, curtir o indianismo até a última pena, é preciso, é preciso.
A historia da filosofia e os dicionários ficam com Loreninha. A psicologia, com Ana Clara, quem sabe ainda desencuca e faz esse curso. Ana Turva. Até Madre Alix, que era o próprio fiel da balança, já está meio neurotizada, neurose é contagiante. Como foco cm palha seca, queima tudo.
— Deus sabe que se não fosse ele eu já teria me atirado daquela janela.
Olhei na direção que apontou: só agora conseguia visualizar uma janela por detrás dos panejamentos. Lorena também faz o estilo concha mas gosta de ar.
— Como uma cristã pode falar assim? A senhora não é cristã?
As lágrimas recomeçaram mais espaçadas, descendo dos cantos dos olhos e se infiltrando nos cabelos.
—Foi meu pai, meu irmão, meu amante. Amante espiritual, está me compreendendo, não?
Perfeitamente.
— Tudo o que tive e perdi. Fiquei pensando, o terrível da vida é que as coisas acabam. Todas as coisas acabam. Na minha fazenda tinha um moedor de cana, as crianças adoravam garapa. Roberto, meu marido, gostava ele mesmo de escolher a cana, estavam verdinha, tão viçosa, entrava viva e saía do outro lado aquele bagaço seco, esfarelado. Nem uma gota de suco, só bagaço. A vida faz assim com a gente, minha querida. Igualzinho. E as pessoas ainda ajudam a nos triturar. Me pergunto como é que ela pôde ser tão cruel.
— Quem? Quem foi cruel?
— Aquele olho de víbora. Víbora!
— Quem, mãezinha?
Tirou um lenço de debaixo do travesseiro e ficou com ele pendendo das pontas dos dedos. Um lenço transparente e mole como os panos do dossel.
— Você é baiana, não, Lia? Acho que por isso é tão fina, os baianos são sobretudo finos. Também estuda Direito, querida?
— Ciências Sociais.
— Ah, é verdade. Ciências Sociais. Fico satisfeita de pensar que é amiga de Loreninha. Minha filhinha querida. Tão pura, tão honesta e sensível. Tão fina. Não é por ser minha filha mas sei que é difícil encontrar uma menina assim. Quando fiz essa loucura de me casar outra vez, quando me apaixonei por esse homem que me tem feito chorar lágrimas de sangue, perguntei a ela, qual é sua opinião, filhinha. Então ela tomou minhas mãos entre as suas e com aquela doçura que você conhece respondeu, o que mãezinha fizer, está bem feito. Não sabe nem a metade do que tem me acontecido, não quero que se machuque, que sofra. Esse namorado dela, o atual, você conhece?
— Ligeiramente.
— Fiquei com a impressão de que ele é casado, uma referência qualquer que Loreninha fez, não sei bem. . . Li na minha adolescência um livro encantador, ninguém mais lê esse livro mas a geração da minha mãe se deliciou com ele, As Meninas Exemplares, da Condessa de Ségur, você já ouviu falar? Quando vejo Loreninha com seu jeito de menina antiga penso nesse livro — suspirou e cobriu os olhos com o lenço. — Dessa outra amiga de vocês não gosto muito, já que estamos na hora da verdade, deixa que eu diga, essa ruiva, estava outro dia numa boate com uma roda esquisitíssima. Bonita, sem dúvida, mas tão vulgar. Como é que chama mesmo?
— Ana Clara.
— Isso, Ana Clara.
— É uma boa moça — digo e sacudo minha perna que dormiu. Me levanto, me sento. Mas por que a enfermeira foi cruel? — A senhora estava falando sobre a enfermeira, lembra?
Ela arrepanhou o lençol. A alça de renda da camisola resvalou e o seio se descobriu. Uma orquídea preta e murcha, ô, será que ainda é dia lá fora?
— A enfermeira dele, a Estela. Uma verdadeira víbora. Cheguei tão animada no meu vestido azul-turquesa, ele adora essa cor, cheguei antes da hora e pensando que essa seria uma sessão mais leve, sem queixa, sem choro. Com vontade de fazê-lo rir um pouco comigo, de dizer coisas divertidas. Você já fez análise? Antes de entrar a gente pensa sempre nas coisas acumuladas que vai dizer e depois não diz aquelas, diz outras, muda tudo. Mas dessa vez vai ser como planejei, chega de lamúrias! Tem a saleta onde a gente se arruma antes e depois da sessão, principalmente depois. Quantos lenços de papel não tirei daquela caixa para enxugar estes olhos, quantos. Sempre levo lenço na bolsa mas às vezes esqueço. Perco.
Fico esperando que me conte essa história da enfermeira mas pelo visto vai ser como profetizava Dona Lã, comadre da minha mãe e cartomante aposentada: futuro longo e alegria distante. Na mesa de toalete está o retrato dele, de costeletas e cachimbo. A pose é de galã soltando sua meia baforada de fumaça. Que absurdo uma mulher assim velha se desbundar por um tipo desses. O que adiantou essa análise? Sete anos. E ainda por cima se apaixona pelo médico que desencarnou e não resolveu o problema, está inteiro aí.
— Queria morrer. Se pudesse morrer sem deixar o menor vestígio, odeio a idéia de velório, das pessoas nos pegarem assim despreparadas. Só os caixões dos jovens deviam ficar abertos.
— Dos jovens e dos vampiros — digo querendo aliviar a atmosfera.
Não consegui. O teto baixo não oferece a menor visibilidade "Por motivos de ordem técnica" — começa a comissária de bordo com aquela voz sorridente na hora em que o avião perde metade da asa esquerda. Então a gente aperta o cinto, medo, medo. Sou bicho da terra e vou ter que subir naquilo. Vou de fogo, se o troço explode não quero nem saber. Ora, apertar o cinto.
— Tenho horror das pessoas que entram sem bater, que vêm por detrás para fazer surpresa, horror de estar desprevenida e é isso que a morte faz, não dá tempo. Considero uma traição!
Tem qualquer coisa de sinistro essa cara sem vinco, mas não parece uma daquelas cabeças reduzidas, espetada num pau? Uma múmia, entende. E a enfermeira? Não tinha uma enfermeira? Agora preciso saber o que aconteceu com essa enfermeira, também a Lorena tem o costume de deixar o assunto pela metade.
— Por que a enfermeira foi cruel?
— Sempre teve ódio de mim, sempre. Uma mulher horrenda, não sabe se vestir, se pentear, uma víbora que resolve ficar velha, que culpa tenho se aparento menos idade. Se gosto de me enfeitar. Se mordia de ciúme de mim, amava Doutor Francis, agora tenho certeza, amava Doutor Francis apaixonadamente, acho que ficou radiante com a morte dele, nem meu nem de ninguém mais! Não é uma vitória?
Por entre as almofadas do canapé vislumbro uma caixa dourada bombons? Estou quase babando quando estendo a mão:
— Posso?
— Cheguei de azul-turquesa, tão leve, quase feliz. Me olhei no espelho e achei que estava com a idade exata da minha cara, fiz uma plástica mas sei que o importante é ter por dentro a idade que está fora, ensaiei o que ia dizer. Doutor Francis, hoje amanheci tão bom! Como se durante a noite tivesse vindo uma fada, uma dessas fadas das histórias antigas, fadinha boa com sua varinha de condão, não sofra mais, querida, disse tocando com a varinha na minha cabeça, não sofra mais, não sofra mais, ficou repetindo e nessa hora acordei e me senti diferente. Estou diferente. Doutor Francis, diferente! Nenhum ressentimento por Mieux, que fique com suas traições, suas mesquinharias, não era melhor nos despedirmos simplesmente, como duas pessoas educadas cuja convivência se tornou insuportável? Apenas isso. Nenhum rancor, nenhuma mágoa, não é melhor assim? É mais moço, que procure alguém da sua idade, o que já fez antes de vivermos juntos. Pois que prossiga e me deixe só, estou me preparando para a solidão. Olha nos meus olhos, Doutor Francis, juro que não estou blefando, acordei respirando até o fundo, o peito aberto e a cabeça erguida, a cabeça que a fada tocou com sua varinha, lembra? Não sofra mais, querida, não sofra mais. . . Não quero prometer nada, Doutor Francis, mas acho que hoje se inicia uma nova fase, estou ótima. Ou quase. Ou quase, repeti para mim mesma enquanto passava a escova no cabelo e rindo para o espelho, fazendo a cara que ia fazer quando entrasse: então, Doutor Francis? Ouvi o passo dela vindo por detrás, dá sempre um jeito de contornar e ficar atrás da gente, o passo de borracha, aquele sapato de enfermeira. Me assustei quando ouvi sua fala bem no meu ombro, mas o que a senhora veio fazer aqui? Fiquei olhando. Mas como? Será que ela enlouqueceu? Como me pergunta uma coisa dessas, o que eu vim fazer? Mas a senhora esqueceu? Pois hoje não tenho sessão? Fiquei meio em pânico, sou distraída, quer ver que me enganei de dia? Hoje não é terça-feira? Foi aí que me olhou demorado e sorriu, juro que sorriu quando botou a mão no meu ombro! mas o Doutor Francis morreu, a senhora ainda não sabe? Ele morreu. Foi enterrado ontem mesmo, diz que teve uma parada cardíaca, mas como a senhora não foi avisada? O enterro foi de tardinha. Peguei minha bolsa e fui saindo, nem esperei pelo elevador, fui descendo a escada com aquela voz me acompanhando, o enterro foi de tardinha. De tardinha, oh Deus. Me pergunto como é possível tanta crueldade.
Desembrulho o terceiro bombom que também é de licor, além da invenção do durex que considero uma das mais importantes invenções do século, tem esta do bombom com uma cereja dentro.
— Não sei explicar, mãezinha, mas não vejo onde está a agressão. Ele não morreu? Se morreu, ela precisava dizer. Não foi hábil, é evidente, mas não vejo porque cruel.
— Excelente ocasião para me esfregar na cara as amantes, escolheu a ocasião a dedo, ainda hoje minha copeira atendeu dois telefonemas, a mais ousada disse o nome, Karin. Quer deixar recado perguntou e a prostitutazinha riu, ah, ah, ah, só pessoalmente. Queria que ele me aparecesse agora para lhe pedir que laça Suas malas, faça imediatamente suas malas e saia da minha casa! Suma do meu horizonte, seu cafajeste. No começo, presentinhos, flores, como me iludiu com suas gentilezas, não podia haver um homem mais fino. Quis abrir uma loja de decoração, dei a loja. Inventou depois aquela agência de publicidade, mais dinheiro, gastei o que podia e o que não podia. Cínico. Cafajeste.
Este ao invés da cereja tem uma uva atolada no creme rosado. E não sei mesmo por que me vem a frase de um político genial, governar é prender. Muito fino, como diria aí a mãezinha. Faço uma bolota com os papéis dourados. Respiro corajosamente. Vamos lá:
— Mas seus problemas são reais? Se é uma dor de dente, o que é que o analista pode fazer? Quero estudar estruturalismo eu não entendo porque sou uma estúpida, em que o médico vai me ajudar?
Quase digo, se seu problema é a velhice e se a velhice é incurável, entende. Não entendeu. Ficou me olhando lá do fundo dos seus travesseiros mas não vai entender nunca que está velha e nenhum analista do mundo vai fazê-la rejuvenescer. O papel desse Doutor Francis era ajudá-la a aceitar a velhice? Ou manter acesa a tal chama, deixando-se amar inclusive como o personagem do romance, espiritualidades. Sei lá, já estou ficando exausta. Outro caminho:
— A senhora não tem fé em Deus? Se tem fé, mais importante do que Doutor Francis, acima de tudo, está Deus. Não sei explicar mas de que adianta ter Deus se numa hora difícil a senhora não se sustenta nele?
Ela sorriu.
— Gostaria de entrar para um convento. Acho que seria feliz num convento, ficaria lá quietinha, olhando o mundo lá longe, envelhecendo em paz, sem testemunhas, tenho pavor das testemunhas, descobri que o que mais me apavora tanto na vida como na morte são as testemunhas. Sempre estou encontrando alguém que se lembra de mim nesta ou naquela data, as testemunhas são tão atentas, uma memória. Por que as pessoas têm tanta memória? Eu estava num jantar tão alegrinha e veio alguém que me olhou, olhou e começou com aquela conversa que me arrepia inteira, acho que você não está mais se lembrando de mim.. . Oh Deus, quando ouço esse começo já fico gelada, começa assim, aposto que você não está se lembrando! Faço aquela cara vaga, disfarço mas não adianta, a testemunha é um bico voraz me arrancando os fiapos de carne, tuque-tuque, não vai deixar a presa, uma voracidade, não foi em?... A data. Antes de mais nada vem a bendita data completa. Até a hora. Esse queria que eu me lembrasse dele no meu baile de debutante que coincidiu com meu aniversário, lembra? Digo depressa que lembro, ih, como não? Lembro de tudo, já sei. Mas ele estava insaciável, foi reproduzindo a festa como se tivesse sido ontem, dançamos de cara junta Siorm Weather, na época essa música era obrigatória como era obrigatório a gente dançar de cara junta, lembra? Mieux ria de pura felicidade, estava longe mas quando pressentiu o assunto veio correndo. Tinha um enorme bolo na mesa, um bolo todo branco, está lembrada? Nem sei mais desse bolo mas ele sabe, um bolo com pombinhas de açúcar-cande voando sobre um laço de cetim com as pontas caindo até o chão, para cada convidado você ofereceu uma pombinha, eram quinze, você fazia quinze anos, lembra? Juro que eu podia ouvir o barulho das cabeças em redor fazendo os cálculos rápidos, se nessa data ela fez quinze anos, hoje então?... Oh Deus, oh Deus. Tive que beber quase meia garrafa de uísque para poder ficar na festa até o fim, falando e rindo, rindo para aquele monstro imbecil que ainda veio com cara de Maria-que-quebrou-o-pote me perguntar se por acaso não tinha cometido uma indiscrição, você não ficou zangada, ficou? Absolutamente, te adoro, vamos dançar face to face como naquela noite, eu disse e minha vontade era enfiar a cara dele na lareira que estava acesa, ficasse face to face com o fogo, oh Deus, que horror, que horror.
Me levanto. Quero fazer pipi, andar, beber água, comer sal — ô! a sessão comigo foi dupla. Começo a perceber porque eles cobram tanto. Kotig.
— O banheiro? Vou entrar um instante.

A sala de banho lilás resplandece como se a noite do quarto tivesse se estendido acesa até ali. Tenho que deixar a porta aberta porque ela continua falando enquanto luto com o zíper que me belisca a pele. Do vaso (perdão, Lorena) do trono fico vendo os objetos cintilantes na mesa de mármore e que lembram os da concha rosada: sais coloridos em frascos de cristal, arminhos, potes de creme, argolas douradas onde estão as toalhas com um grande M bordado em roxo, o L da Lena é cor-de-rosa. A voz continua mais pesada e rápida:
— Me obrigava a sair quase todas as noites, festas, festas, você não quer ir? Então vou sozinho. Eu não queria ir mas ia, mais vestidos, mais cabeleireiros, desde cedo me enfiava no cabeleireiro, andava com o couro cabeludo ardendo de tanta tintura, tanto penteado, descansei um pouco quando comprei cinco perucas, era mudar a peruca, pintar a cara e sair correndo atrás dele, boates, jantares, coquetéis, vernissages, cismou de investir em quadros, nunca teve a menor cultura mas se achava o máximo, esteve a ponto de abrir uma galeria. Nos intervalos, as verdadeiras multidões de amigos dele, conhecia hoje um casal e amanhã o casal já estava instalado aqui em casa, drinquinhos, programinhas. Meu olho fechando, minha cara caindo, mas precisamos receber tanto assim, Mieux? Precisamos, minha profissão não é decorador? Depois a profissão de publicitário também exigia contactos, contactos e naturalmente a profissão que viria em seguida, de marchand, oh Deus. Oh Deus. Mas o que tem você? ele perguntava. Está cansada? Não, absolutamente, estou ótima eu respondia querendo me deitar em cima da mesa de exausta, comecei a tomar estimulantes para agüentar de olho aberto as noitadas, foi ótimo, foi ótimo. Ele dava aquele risinho, como conheço aquele risinho, foi bem divertido, não foi? Você não gostou? Tudo de propósito. Pura crueldade mental, minha querida, Sabe o que é crueldade mental?
Destapo o frasco com arminhos de pó. Destapo o frasco de perfume todo espelhado, coleciona perfumes como a filha coleciona caixinhas, sinos. Crueldade mental? Era criança quando ouvi a avó contar do marido que insistia pra mulher que usava dentadura dupla comer goiabada de cascão dizendo que podia comer, era molinha. Hoje escrevo comprido lá pra casa, quanto mais conheço os pais dos outros mais amo aqueles dois, meu alemão com minha baiana, ô, mãe, uma carta como você gosta, bem ajuizada e pedindo a bênção. Andam se moendo com minha militância, não quero mais isso, direi que serão andanças ulíssicas, ele leu Ulisses e acha que as ciganagens dos jovens têm qualquer coisa de heroísmo na falta de cálculo, no desprendimento, ô, pai, te amo mas nada de amor mórbido, um amor do peito pra cima. Nazista como poderia ter sido comunista, passional puro, capaz de vibrar por uma farda, um hino. Um alemão bastante louco. Quando descobriu que não era aquilo que imaginara, correu tanto que veio parar em Salvador, sarava meu irmão!
Ela ainda fala sobre crueldade mental com uma história onde entra uma taturana.
— Preciso ir, entende. E a mala?
— Espera, querida, toma antes um chá, aperta outra vez a campainha, mas o que eles fazem lá no fundo? Quatro empregados — suspirou pegando o espelho que estava encoberto pelo lençol Olhou-se apertando os lábios como se fosse beijar a própria imagem: — E a Loreninha? Tínhamos combinado ir na Dona Guiomar mas parece que está presa, não sei porque a polícia persegue essa pobre gente. Nunca falhou, previu a ida de Remo, meu filho, para a África do Norte, previu a morte do Doutor Francis, a senhora vai perder uma pessoa muito querida, me avisou. Previu a tentação de Mieux, previu tudo. Se a Lucrécia ainda vivesse podia me benzer, era uma espírita, acho que foi escrava.
— Quer dizer que a mala eu levo hoje?
— Sem dúvida, querida, a Bila arrumou tudo, tem muita roupa de inverno, Mieux não presta mas a roupa dele é muito fina. Você não sabe guiar? Leva o carro e deixa lá com Loreninha, quem sabe ela resolve vir. Minha filhinha querida. Foi uma criança tão educada, tão gentil. Colecionava pedrinhas, folhas. Estava sempre salvando algum bichinho que caía no rio. Ela ainda é virgem?
— Ainda.
— Fico tão feliz por saber que continua pura — murmurou com uma expressão de beatitude. Mas logo a testa se franziu. A voz ficou embuçada: — Você não acha que ela se interessa pouco por sexo? Tenho às vezes tanto medo, está me compreendendo? Aumentou tanto ultimamente, você sabe, essas moças. . .
Mastigo mais um bombom.
— Não quero ser rude, mãezinha, mas acho completamente absurdo se preocupar com isso. A senhora falou em crueldade mental Olha aí a crueldade máxima, a mãe ficar se preocupando se o filho ou filha é ou não homossexual. Entendo que se aflija com droga e etcétera mas com o sexo do próximo? Cuide do próprio e já faz muito, me desculpe, mas fico uma vara com qualquer intromissão na zona sul do outro, Lorena chama de zona sul A norte já é tão atingida, tão bombardeada, mas por que as pessoas não se libertam e deixam as outras livres? Um preconceito tão odiento quanto o racial ou religioso. A gente tem que amar o próximo como ele é e não como gostaríamos que ele fosse.
Digo e penso imediatamente em Ana Clara. Tenho que amá-la. Difícil sim, fico impaciente, irritada. Mas sou eu a cristã?
— Mulher sem homem acaba tão complexada, tão infeliz. Com homem também, tenho ganas de dizer-lhe e dar-lhe o capulho na mão.
— Complexada porque todo mundo fica enchendo a sacola. Não é o caso da Lorena, não estou mais pensando nela, estou pensando só nisto, já é tão difícil crescer, ser amado por aquele que a gente ama. E tem que vir alguém determinar o sexo do amor.
— Mas e você, Lia? Ama alguém? Se não quiser, não responda. Estou rindo quando respondo, estava demorando:
— Não tem problema comigo, entende. Tenho um amante, ele precisa de mim e eu dele, agora está viajando mas logo a gente se, encontra.
Ficou me olhando lá de longe, sacudindo de leve o lenço como se espantasse moscas. Passou água-de-toalete na testa, no pescoço. — Acho que morreria de desgosto se meu filho Remo ou Loreninha... Quero um enterro bem despojado, bem simples. Ela sabe até o vestido que quero vestir. A maquilagem que vai fazer, combinamos até os pormenores. O caixão só ficará aberto se eu, tiver muito bem caso contrário ninguém terá o prazer de me ver morta. Antes eu ficava em pânico com a idéia de morrer e ele ia bisbilhotar minha papelada, aquela papelada amarela que odeio, na certidão de óbito vem a idade, vem tudo. Só de imaginar a cara radiante que ele ia fazer quando descobrisse minha idade, rondou sempre querendo saber, não deixei. Nunca deixei. Na morte eu ficaria indefesa, está me compreendendo? Agora posso morrer sem medo, minha filhinha querida cuidará de tudo, aquele perverso não vai mais me humilhar.
Entrou a empregada numa lufada de ar. Respirei como um, condenado na câmara de gás.
— Faz horas que estou chamando. Está bem, já sei, já sei, traga depressa um chá — avisou sacudindo o lenço na direção da moça. Voltou-se para mim: — O novo flerte da Loreninha por acaso não é casado?
— Não tenho a menor idéia.
— É estranho, vocês são tão amigas — murmurou e cobriu os olhos com as mãos. — Tão estranho tudo, não é mesmo? Por que será que diante do Doutor Francis eu não tinha vergonha da velhice? Não tinha nenhuma vergonha, queria parecer bonita, sim, elegante mas não tinha essa vergonha, esse pudor que tenho diante dos outros. Com certas pessoas tenho vontade de me esconder como se tivesse cometido um crime, escondo a velhice como um criminoso esconde a vítima, tamanho pânico que descubram, que espalhem. Não é estranho? Certas pessoas me fazem ter mais vergonha ainda, como se estivesse nua numa vitrina, Já com você fico completamente à vontade, com você, com Loreninha Minha filhinha querida. Perdi tanta coisa mas ganhei minha filha, agora posso voltar e morar com ela.
— Mas ela vai morar com a senhora? Voltar pra debaixo da sua casa? Já sei, a senhora é mãe perfeita, a minha também mas por isso mesmo tem que cortar o cordão umbilical, entende. Senão ele enrola no pescoço da gente, acaba estrangulando. Castrando. Me desculpe mas acho essa a idéia mais errada do mundo. Se o filho está estruturado tem que voar fora do ninho o mais depressa possível pra não acabar aquela coisa que a gente conhece, ô, acho que estou gastando cuspe.
Desço as mangas da blusa. Vai vampirizar a filha que já tem o sangue mais fraco do que o das gazelinhas do tapete.
— Este apartamento é enorme, querida. Ficará numa ala só dela. Por que não vem também morar aqui? Eu teria a maior alegria.
Nem respondo. Ai meu Pai, como diz ela na aflição. Olho com maior simpatia o retrato do galã com seu cachimbo e meia baforada.
— Aquela arvorezinha de retratos, o menino é Rômulo ou Remo?
— Remo. Rômulo não podia estar ali.
— Não?
— Morreu nenenzinho, querida.
— Nenenzinho?
— Não tinha nem um mês, não chegou nem a isso. O médico disse que ele não tinha viabilidade. Um sopro no coração.
Levantei-me com uma vontade maluca de puxar aqueles panos, arrancar tudo e fazer entrar a luz do dia. Mas ainda era dia?
— Um momento: o Remo deu um tiro nele enquanto brincavam, não foi isso? Um tiro no peito, teria uns doze anos, não foi isso que aconteceu? Milhares de vezes Lorena contou essa história com detalhes, ele era alourado. Vestia uma camisa vermelha, vocês moravam na fazenda.
Ela está sorrindo dolorida, olhando o teto.
— Minha pobre filhinha. Nem conheceu o irmão, é a caçula-Era menininha ainda quando começou a inventar isso, primeiro só aos empregados que vinham me perguntar, eu nem negava, disfarçava, que mal tinha? Continuou falando, na escola, nas festas, o caso começou a ficar mais sério, oh Deus, o mal-estar que eu sentia quando queriam saber se. . . Não queria que pensassem que ela estivesse mentindo, foi sempre uma criança tão verdadeira. Os médicos nos acalmaram, que não tinha essa gravidade, ia passar com o tempo, imaginação infantil rica demais, quem sabe na adolescência? Não passou. Roberto foi sempre tão confiante, tão seguro, me tranqüilizava, não é nada. Falei com Doutor Francis, teve uma entrevista com Loreninha, achou-a inteligente, sensível. Está me compreendendo, querida? Não deu também maior importância.
Sinto um certo enjôo, será do chocolate? Aperto o estômago e fico olhando o tapete, este é liso. Cor-de-mel. Mas o que é isso. Então toda aquela história que me contava, tanta dor, ô, Lorena. Ô Lorena. Que coisa mais sem sentido, por quê? Por que, fico repetindo e me aproximo do casulo onde ela dorme acordada, as pálpebras mal escondendo o olho aceso. E se estiver mentindo? E se a versão verdadeira for a de Lorena? Pois não disse? Nem os médicos nem o marido, ninguém deu maior importância ao caso. Por que não deram? Porque a doente era ela, a doente era a mãe escamoteando a tragédia por defesa, muito mais fácil imaginar que o filho morreu bebê, devolvê-lo ao limbo, não tinha viabilidade. O rapazinho de camisa vermelha e peito varado por um tiro disparado pelo irmão é subtraído da morte e reduzido a um nenenzinho com um sopro no coração. Hein? Procuro uma unha, mas não vão mais crescer? Mordisco uma espiga que se descola aguda como um espinho. Ao mesmo tempo, Lorena com tamanha fixação pela verdade, armando enredos até em torno de um botão. "E as maquininhas de sonho?" — perguntou. E a carinha ficou secreta como esta alcova. O pulôver de listras era dele, não era? Mas tem que ter existido, eu sabia tanto a seu respeito como se tivesse sido meu irmão. E agora. Preciso ver urgente seu álbum de retratos, lá deve estar a gens lorenensis do começo ao fim. Seja como for, que triste. "Quem sabe a mãezinha vai lhe dar as roupas que foram dele?"
— Estaca zero, minha querida. Fiz plástica mas chorando como tenho chorado devo ter estragado tudo. Minha irmã Luci descobriu um creme escandinavo feito com óleo de tartaruga, deve ser ótimo, as tartarugas se conservam séculos — murmurou erguendo-se sobre os cotovelos. — Oh Deus, o terrível é isso, é que as coisas acabam. Todas as coisas acabam.



onze



Com um gesto suave, Ana Clara afastou os anéis de cabelo empastados na testa. Fechou no alto do pescoço a gola do casaco e com a bolsa fortemente apertada contra o peito, começou a subir a escada. Tropeçou no degrau e caiu de joelhos. Gritou quando foi se apoiar: o chão fervilhava de baratas. A maior delas se levantou nas patas traseiras, o peito engomado na túnica de esgrima, o florete na mão, en garde! Inclinou-se rindo porque a barata também ria atrás da tela de arame da máscara, era uma brincadeira? Olhou mais de perto e escondeu o peito mas era tarde: o florete a varou de lado a lado. Quis respirar e o sangue jorrou do coração coroado de espinhos, espirrando em sua boca com tamanha violência que se engasgou nele. Dobrou-se na tosse:
— Não quero mais — gemeu.
— Calma, querida. Se apóia aqui em mim — pediu Lorena agarrando-lhe o braço.
O cavalo. Lá atrás ficou a barata mergulhando em parafuso na folha de couve. Apanhou o florete caído no chão, fechou com ele a gola e montou no cavalo branco. Riu no galope pela campina estrelada, tanta estrela que podia ver os cristais brilhando nas prateleiras. Fez um afago no pescoço do cavalo. Ele sorriu. Lorena? Era Lorena. Relaxou o corpo.
— Aqui está tão bom.
— Eu não disse que você ia gostar? Vou abrir mais a água quente — avisou Lorena. — Levanta a cabeça, vamos.
Ela obedeceu. Riu frouxamente, encolhendo-se no fundo da banheira.
— Se você soubesse, pomba.
Com um braço, Lorena sustentava-lhe o tronco enquanto com a outra mão foi lhe esfregando nos seios a esponja ensaboada.
— Onde se sujou tanto assim, Aninha? Incrível. Você estava um tatu de suja, querida. Tinha lama até no seu ouvido, já pensou?
Ana Clara falava com dificuldade, a voz espessa, o maxilar travado. Abriu os olhos. Recomeçou a rir.
— Um banho? Você está me dando banho?
— Vamos, agora lave a zona sul. Aqui — ordenou Lorena conduzindo-lhe a mão. — Vamos, esfregue aí com força. Não, não largue a esponja! Ai meu Pai.
— Tenho que ir. Que horas são?
— Sossega, Aninha! Não me espirra água, fica quieta, ainda é cedo, querida. Vamos, esfrega.
— Me dá um uísque.
— Eu dou mas então esfrega aí a esponja. Assim. . .
— Lúcida. Roque-roque, estou completamente lúcida, fico puta da vida porque a cabeça. Roque-roque.
— Perfume de eucalipto, está sentindo? Sinta que delícia de perfume, é eucalipto.
— Eucalipto.
Agora Lorena lhe ensaboava os cabelos.
— Fecha os olhos e não abra enquanto eu não mandar.
— Quero minha bolsa.
— Eu dou mas então fecha os olhos, vamos, obedece. Por onde você andou é uma coisa que eu gostaria de saber. Onde você esteve, onde?
— Uma festa.
— Que festa? Espera, deixa tirar o sabão. . . Levanta, vamos, segura em mim — disse Lorena enlaçando-a pela cintura. — Cuidado, Aninha!
Enrolou-a na toalha e conduziu-a ao quarto. Ana Clara estremeceu. Apontou a janela.
— Quem é que está ali espiando?
— Ali? É a cortina, querida. Sossega, não tem ninguém, estamos só nós duas. As freirinhas todas já foram dormir, sossega.
— Madre Alix! Madre Alix!
— Ela já vem, então deita, não foi uma delícia de banho? Esfregou-lhe a toalha nos cabelos. E ficou olhando as nódoas roxas que tinha nos seios. No braço. Trouxe a lata de talco.
— Aninha, Aninha. Onde será que você andou.
— Ele foi preso — murmurou Ana Clara abrindo os olhos. Fechou as mãos e cruzou-as no peito. — Foi preso.
— Quem? Quem foi preso?
Caiu num pranto seco, sem lágrimas. A fala ficou mais difícil.
— Roque-roque. Está bem, digo que. — Levantou-se. E tombou novamente de costas na cama. — Veio Deus e ficou no meu peito, bem aqui, bem aqui. Saiu voando, o passarinho era Deus. Ele veio e então.
Visto nela meu chambre vermelho. Passo a escova nos seus cabelos acesos como brasa, curtinhos assim vão secar logo, mais que loucura. Loucura. Imagine se Madre Alix. Cato no chão sua roupa imunda como se tivesse rolado num pântano. E as manchas roxas. E o cheiro medonho de vômito misturado com perfume amanhecido ai meu Pai, meu Pai, meu Pai. Chácara, imagine. Levo a trouxa de roupa até a cesta, ainda bem que amanhã é dia da Sebastiana. O casaco mando ao tintureiro. Ponho seu sapato um ao lado do outro, não é curioso? Os sapatos não estão quase sujos. Como se tivesse andado de cabeça para baixo. Coitadinha.
— Ana, quem foi preso? Você disse que não sei quem foi preso.
Ela rolou a cabeça no travesseiro, agarrou os cabelos. Puxou-os. As palavras saíram pedregosas:
— O Max sumiu sumiu! Loreninha, me ajuda, o Max.
— Ana, fala mais baixo, quer que as freirinhas acordem? Quer que Madre Alix venha aqui e veja você desse jeito? É isso que você quer?
— O Max sumiu. Não está lá, fiquei esperando.
— Viajou, ora. Ele não viaja?
— Viaja.
— Então viajou, sua boba.
— Fiquei esperando.
— Ficou é pinoteando por aí. Onde você andou, hein? Agora ela ria, a face corada, os olhos brilhantes, ligeiramente estrábicos.
— Se você soubesse, pomba.
— Soubesse o quê. Não sei mas adivinho. Vão acabar essas curtições, ouviu isso? Você vai ter juízo.
— Não quero juízo.
— Vai querer na marra, agora você vai na marra, querida. Madre Alix já cansou, todo mundo já cansou.
— A formigona ria aquela bastarda. Depois a barata veio e começou o campeonato. Max chegou na frente o japonês. Aquele. Como é que se chama o japonês? Aquele. O japonês!
— Não sei, queridinha. Só sei que eu estava lendo sobre as estrelas quando Dona Ana Deprimida e Deprimente se despencou nos meus braços.
— Andei com Deus, Ele estava aqui. Não interessa mais as coisas que depois eu disse não não e ele veio e tinha uma luz assim tudo assim na minha cabeça e ele me deixou voar tão alto com a mão dele segurando a minha. Chiquérrimo. Chega Max! Max é você?!
— Sou Lorena, querida. Seus pés estão duas pedras de gelo, deixa eu fazer uma massagem. Sossega, Ana! Agora seu nome é Ana Bacante. Bacante e Bacana. Sabe o que é uma bacante? Aquelas ninfetas dos cortejos de Baco, vou te coroar com folhas de parreira. Podre de chique, hein?
— Me dá um uísque. Quero um uísque. Lorena massageou-lhe os pés. Cobriu-os com a manta.
— Lorena. Lorena Vaz Leme. Nhem-nhem-nhem.
Ana, sossega senão chamo Madre Alix! Pára de rir, não tem graça nenhuma.
— Quero um uísque, Leninha. Só um, me dá. Prometo prometo.
— Despejo no chá, vou fazer um chá bem quente — disse Lorena cobrindo-a com a manta que ela atirava no chão. — Se um dia eu precisar trabalhar vou ser femme de chambre. Acho que é a única coisa que faço na perfeição, na outra vida devo ter trabalhado num castelo com uma cortesã parecida com Ana Clara Conceição.
— Quero minha bolsa. Minha bolsa.
Dou-lhe a bolsa e vou encher a chaleirinha. Mas por que tudo tem que acontecer ao mesmo tempo. Fim da greve, os exames começando amanhã, mãezinha louquinha, Doutor Francis morrendo justo agora que Mieux resolve se mandar, mas não é mesmo uma dose de iguanodon? Como será que se traduz iguanodon? Lião nos seus urros de impaciência, discursos e outros sentimentos. Eu aqui com Ana Clara. Devia estar estudando, não devia? Devia. O abismo entre o ser e o estar. Estou com Aninha e estar com Aninha e estar com os ventos, arrecifes e tempestades — ah, M.N. por que não me dá um emprego de enfermeira no seu hospital? Recebeu o bilhete? E não vai responder?
— Está no teto.
— O que está no teto? — pergunto.
Sinto meu olhar tão triste que me comovo com ele, estou me comovendo comido mesma e isso não é saudável.
— As horas! Preciso saber depressa — ela diz voltada ainda para o mesmo ponto perto da lanterna. — Não interessa. O ano que vem sem falta. O ano que vem.
Deve estar prometendo a Deus o mesmo bla-bla-bla que promete a Madre Alix. Nenhum dos dois acredita e contudo, por ser a mais preta do rebanho... Miserere Nobis — digo e abro a mãos sobre a chaleira que retribui meu gesto bafejando quente. Ana Clara soltou um gemido e diz qualquer coisa de tão enrolado, que foi, Aninha? Obrigo-a a deitar-se de novo, alguma dor? Que deve ter passado porque agora está rindo às gargalhadas. A cabeleira de caracóis vai ganhando brilho à medida que seca, os olhos estrábicos de gozo escureceram na malícia. Abriu a gola do chambre e seu pescoço engrossa na risada, tenso, encordoado. As nódoas no peito. A mancha no braço, calcando como um dedo a veia principal. Res accessoria — digo vagamente. Estou fascinada, olhando. A língua se enrola, obscena. Uma figura dionisíaca e possessa, se revolvendo no chambre vermelho. Cubro-a com a manta até o pescoço e seguro-a. Ela se acalma. O olhar entortado vai esmorecendo.
— Que frio, Lena. Que frio. Aconchego seu corpo nas almofadas.
— Você vai tomar um chá bem quente.
— Digo que.
Fechou os olhos. Fechou as mãos. Virou anjo dormindo. Apanho no chão a toalha de banho vermelha e dobro sua camisa suja de sangue, não vi o sangue mas senti a umidade na minha mão e dobrei-a depressa porque achei que mãezinha não gostaria que vissem a camisa manchada já que o sangue do peito estava sendo lavado na banheira. Fechou-se com Rômulo e não deixou que ninguém ajudasse: "eu lavo meu filho." Rômulo, Rômulo. Sinto às vezes que você continuou em mim, seus gestos nos meus. A fala. Depois fico sozinha e então você me avisa que é preciso ficar só, que vou ser feliz assim, ah, Rômulo. Como você cresceu!
— Me dá sua mão — ela pede.
Dou-lhe a mão que ela aperta e depois larga. Com o que estará sonhando? Deixo sua mão debaixo da manta e corro até a água fervente. Apago o fogareiro. O perfume do chá me tranqüiliza como o incenso, preciso queimar um pouco. Afastar os espíritos, Aninha veio carregada deles como se tivesse descido aos infernos, você esta bem, Aninha? perguntei no maior susto quando ela quase se despencou da escada. Sorriu estrábica: "O cavalo." Fecho as mãos em torno da xícara e bebo o chá. Tinha a expressão do Anjo Sedutor quando a despi, um fulgor nos olhos que fugiam e voltavam: "Você, Lena? Que é que você vai fazer comigo?"
Abro a janela. Como no casarão ninguém ouviu ela gritar? Chegou gritando. E nenhuma freirinha, nem a Bula. Uma sorte essas novelas de TV soltas pela vizinhança, têm sempre entreveros, ranger de dentes, choros. Os gatos engatados urrando em correria no meio das flores. Se fôssemos uma sociedade calminha Ana chamaria a atenção dos presentes mas nesta sociedade erótica os presentes também estão ocupados demais com erotismo. Poucos, pouquíssimos estão rezando. Ou pensando. Eu lendo sobre as estrelas, imagine. Nascem e morrem como nós, a visão do cosmos é a mesma do mundo, você sabe disso, M.N.? Olho a Via Láctea. As estrelas maiores são as estrelas jovens, da minha geração. As outras velhinhas vão diminuindo, diminuindo assim como a Bulinha. Até que se diluem, somem, não é lindo? "Queria tanto envelhecer sossegada, parar com as escamoteações, disse mãezinha com tamanha sinceridade. Estou exausta, filhinha. Quero as rugas todas, os cabelos brancos, as sardas, os netos, estou com nojo do sexo!" O nojo dura pouco. O corpo começa a ficar tristinho e então reage com uma energia. Que energia. Basta um convite mais especial que nem precisa ser de homem, uma amiga do gênero estimulante e já levanta a cabeça e sai correndo na ponta dos cascos. "Agora vamos morar juntas, filhinha. Como nos bons tempos", lembrou. Mas quando estávamos nesses bons tempos ela se queixava tanto, aqueles bons tempos eram bons? Abandonar minha concha. Meu delicado mundo que amo tanto. Se ao menos fosse para ir com M.N., Por que ele não me convida nessas suas viagens? Esses altos congressos internacionais que vive curtindo, eu caberia no seu necessaire. você, Fabrizio. Uma poetinha neurótica, me pergunte o que é curtir um neurótico e eu respondo. Se ao menos o Guga aparecesse para buscar a camisa que ainda não comprei. Bordo um patinho mas não é no pato que estou pensando, é na sua barba, na sua boca. Cheiro de fumo, suor e poeira. E a língua de cetim e punhal que eu tive que expulsar, mas por que expulsar?! Ai meu Pai, nunca imaginei que aqueles pés caprinos, mal escondidos nas sandálias e aquele jeans puído bem nos elevados, ilha branca, desviei o olhar e o olhar acumulado naquele desbotamento que tive tanta vontade de. M.N., M.N., só você não vai mesmo ter coragem?
Por que sou virgem, é isso? Faz tanta diferença assim? Poderíamos morar no campo, adoro o campo. Uma casa de tijolos nus. Um gramado. Livros, música. Quero ler para você todos os poetas que amo, minha voz não é bonita mas aprendi ao menos a fazê-la grave, este natural esganiçado posso corrigir quando me esforço. Vão dizer, alienação, fuga. Diremos, integração, retorno. A nós mesmos. Ao sol. A Deus. Meu bilhete é decisivo, responda, escrevi um bilhete decisivo. Os bilhetes decisivos. Tudo somado, isto: eu te amo. Não uma simples amizade entre um homem e uma mulher, mas uma espécie de unificação, absoluta unidade harmônica neste mundo caótico. O sentido profundo. Profundo — repito e olho para Ana Clara. Dormindo. Lião vive pregando que a sociedade expulsa o que não pode assimilar. Ana foi expulsa pela espada flamejante, disse que tinha um florete no peito mas não era um florete, era uma espada. O que dá no mesmo. Coexistência pacífica, ensinam os ensinantes. E na prática.

— Lia de Melo Schultz! — digo.
Chegou. A janela do seu quarto acabou de se acender, ah, Lião, acho que nunca sua presença foi tão desejada. Se não fosse tão tarde e se Aninha não estivesse nesse estado gritaria com todas as minhas forças, Lia de Melo Schultz! E você responderia: "Presente!" Calço a sandália, troco de camisa e depois de cobrir o pé de Ana Clara que se descobriu, saio como aprendi com Astro nauta, deixando o corpo físico e só levando o corpo sutil. Nau vejo a lua, só um céu chamuscado de estrelas. As maiores estão decotadas, palpitantes. Virgens? Deixa-me rir. Até as margaridinhas estão agitadas com suas grinaldas expostas, se sacudindo no vento Arranho a veneziana. Ela abre e enquanto pulo meu coração se fecha: a última vez que estou pulando esta janela e entrando neste quarto. Quase caio em cima da mala de couro amarelo. Levanto n Pesadíssima.
— Pronta? Já?!
Lião fechou o caderno na mesa, estava escrevendo. O diário? Ai meu Pai.
— Não está reconhecendo a mala da mãezinha? Fiquei horas com ela. Morte do analista que era muito fino, rompimento com o amado que era muito grosso, tanto drama — disse Lião e de repente me encarou.
— Por que está me olhando assim?
— Nada, entende. Foi uma sessão de desbundar até um profissional — resmungou e riu. — Gosto dela. Muito fina, muito fina.
Tiro a pastilha de hortelã da boca para poder falar:
— Se você soubesse, Lião. Imagine que eu estava muito poética, lendo sobre estrelas quando ouvi aquele turbilhão na escada e um grito tão agudo que meu livro foi parar no teto, adivinha quem era. Estava dependurada na escada, berrando, tinham enterrado um florete no peito dela, enfim, podre de drogas. Loucura completa. E tão imunda. Na roupa tinha lama, carvão, umas manchas suspeitíssimas. E aquele cheiro. Dei-lhe um banho de imersão, até na cabeça tinha sujeira.
Não continuo porque Lião está rindo sem parar. Espero. Foi até a sacola, tirou um rolo de barbante e começou a amarrar pequenas pilhas de livros alinhados no chão. Acendeu um cigarro e com a brasa queimava o barbante depois de fazer o nó.
— E daí?
— Agora está dormindo na minha cama. Ah, e nódoas roxas no peito, no braço. Um hálito pavoroso, coitadinha, deve ter vomitado antes.
— Mas não estava numa chácara de very important person?
— Chácara, imagine. Perguntei mas aqueles delírios que você conhece, me confundiu com o namorado, chorou, riu. E amanha as oito tenho exame, acabou a greve, exame de legislação social lá sei tudo mas tinha que dar ao menos mais uma espiada em alguns pontos, jacaré deu? Os problemas vieram hoje em cachos, a gente passa dias num lago e de repente.
Lião amarrou mais uma pilha de livros e começou a andar no seu passo enjaulado.
— Vim com o carro da mãezinha, idéia fabulosa porque adiantei demais minha lista, fiz coisas à beça, providencias, despedidas de amigos — disse e parou na minha frente: — Tudo se precipitou de tal jeito, Miguel já embarcou.
— Embarcou?
— Já deve estar lá. Isso quer dizer que vou antecipar minha viagem, quero entrar na primeira vaga que tiver, tenho tudo pronto, estou tinindo. Faltava só um saco de viagem e mãezinha me dá essa mala, viajo com mala de milionário, ô Lena! Mais uns dois dias e desembarco em Casablanca. Depois, Argel.
— Lião, Lião, você está brincando! E nossa festa de despedida? A gente tinha combinado uma festa.
— Não dá pé. Um dia a gente festeja que vai chegar o tempo de festa, agora é arrumar a mala e tocar pro aeroporto, ô que medo. Não sou nem passarinho nem nada — resmungou levantando a mala. Colocou-a na mesa. — Quando vim de Salvador, a comissária de bordo, uma moça muito fina como diria a mãezinha, avisou pelo microfone que por motivos de ordem técnica ia acontecer não sei quê e por isso a gente devia apagar o cigarro e apertar o cinto, não entendi o que ia acontecer mas depois dos motivos de ordem técnica o avião desbundou até a alma. Tive o maior cagaço do mundo.
Lorena fez uma careta de pânico, riu e sentou-se nos jornais que amontoei no chão. Suspirou ao tirar do bolso uma pastilha de hortelã.
— Então vai mesmo. Ouvia você falar, a viagem, a viagem mus me parecia uma coisa meio vaga, um pouco sobre a piada. Ah, Lião — murmurou. Animou-se: — Quero ir ao aeroporto, é lógico.
— Melhor não, Lorena. Nada de despedidas — digo e olho suas sandálias branquíssimas como se tivessem vindo neste instante da loja. — Vou embarcar na maior discrição, até meu casaco é preto, mãezinha me deu um casaco fabuloso, diz que viajou com ele pela Europa um cache-misère, explicou. Não é genial? Só que no meu caso ele está escondendo de fato uma miséria muito maior do que sonham todas as mães filosofias, ô, Lena. Se não endoidar antes, de lá mando cartas, cartões, diários.
— Acho que você não vai escrever. Nem vai voltar.
— Não, não fale que nem a mãezinha, se você ouvisse, putz. Apesar da dor e tudo quis saber se eu tinha alguém. Falei em homem e essa palavra mágica resolveu, pronto, não ia mais te poluir. Quis saber depois se você era virgem. Infelizmente, eu quase disse. Ficou contente e ao mesmo tempo não ficou, a coisa é mais complicada do que parece, mas por que será que até hoje, sendo você essa maravilha que é, por quê?. . .
Agora Lorena ri tapando a boca e eu fico rindo também o mesmo riso escondido dos inconfidentes no auge da inconfidência.
— Conta. Ela tocou em Ana Clara?
— Ora. Acredita nas más companhias, se duvida muito, até as freirinhas podem exercer suas influências, entende. Virou a página, o homem que você estava rondando por acaso não era casado? Por acaso respondi que não sabia e ela ficou espantadíssima, como é que eu não sei? Mais lágrimas e etcétera e depois do chá e dos presentes me despedi na maior gratidão. Fim.
— Federico Garcia Lorca — murmurou Lorena olhando o pôster em branco e preto pregado com tachas na porta do meu armário. Triturou a pastilha nos dentes. Respirou de boca aberta: — Que cara maravilhosa ele tinha.
— É seu. Vai herdar livros também, estou deixando todos, só levo uns três ou quatro. Vem cá, seu despertador está funcionando? Tenho que acordar de madrugada e o meu emprestei e não voltou — digo me aproximando da estante. — Mas afinal, por que não foi ver a mãezinha? Segurei a corda como pude, fui muito fina mas a filhinha querida fez falta.
Lorena inclinou-se para examinar os montículos de livros que transbordavam das prateleiras para o chão formando uma trilha sinuosa até a cama. Olhou debaixo da cama e puxou uma malha verde e mais dois livrões desgarrados.
— Eu podia dizer que Ana atrapalhou mas não e verdade, tive a noite toda para ir e não fui porque esperava uni telefonema de M.N., deixei no hospital um bilhete decisivo.
— Telefonou?
— Não. Só mãezinha que falou umas cinco horas comido logo depois que você saiu. Quer que me mude ainda esta semana, já pensou?
— Você vai?
Prudentemente, Lorena cheirou a malha que abriu no chão. Enrolou-a com as meias que estavam entre os jornais.
— Tenho que ir, Lião. O analista, Mieux e mais o drama da velhice. Sinistro esse drama, de repente ela ficou com cem anos. Precisa de mim.
— Perfeito, vai mas salte fora assim que puder, entende. Diga que está precisada da sua concha, de umas férias na concha e se mande. Ela não vai casar outra vez?
— Depende, querida. Já sei como vai ser, com minha avó foi igual, a avozinha se embonecava e tudo mas quando acontecia uma chateação muito forte, assumia a velhice até que o desgosto ia passando e ela ia resolvendo ficar em forma de novo e assim um monte de vezes, caía, levantava, caía, levantava. Numa dessas quedas — suspirou Lorena. — Ah, agora me lembro, tinha uma cantiguinha que minha pajem cantava, escuta, escuta!
Aprumou-se, pigarreou e depois de tirar a pastilha da boca, cantou com sua voz fraca. Polida:

— Teresinha de Jesus de uma queda foi ao chão acudiu três cavaleiros, todos três chapéu na mão...

Me abaixo e canto junto com ela no tom mais grave que consigo:

— O primeiro era seu pai, o segundo, seu irmão. O terceiro, foi aquele a quem deu seu coração!

Rimos baixinho, agachadas.
Minhas tias achavam essa cantiga um sacrilégio por causa desse terceiro — digo e me alegro, ô, o gorro que pensei que tivesse perdido. Enterro-o na cabeça: — Mas vem cá, a mãezinha. Queria tanto que ela se banhasse naqueles perfumes e amanhã já saísse correndo. . .
— Na ponta dos cascos!
— Isso. Na ponta.
Lorena voltou a mascar sua pastilha. Começou a amontoar os jornais.
— Já vi mãezinha se estatelar e se levantar umas três vezes, coitadinha. A primeira, quando Rômulo, meu irmão, morreu. A segunda, quando paizinho foi internado, ela sofreu mais no dia da internação do que no dia da morte. A terceira estatelação foi quando precisou vender a fazenda. Levantou-se das três, é lógico. Esta é a quarta, querida.
— Então se levanta — decido e me ajoelho diante dela. Sacudo-a pelos ombros, parece que ficou criança de novo, ô, se volta com a mãe vai ficar mais criança ainda. — Você tem que viver sua vida ao seu modo e não do modo que os outros decidirem, ô, Lena, Lena, não sei explicar, mas aquela história do Tempo devorando os filhos, não é o deus Cronos? Ele mesmo ia parindo e ele mesmo ia devorando tudo. Mas de verdade não é o Tempo que engole a gente, é um tipo de mãe como a sua. Um pouco como a minha também. Presta atenção, salta fora e ela vai se dedicar a outra causa, a caridade, Deus, quem sabe até vai querer adotar uma criança? Minha mãe adotou uma, está radiosa lá com a garotinha que beija e castiga à vontade. Em todo o caso, ontem já tomei minhas providências, posso embarcar tranqüila.
— Providências? Que providências, Lião?
Está na maior excitação, deve estar pensando em M.N. Agarro-a como se agarra um inseto pelas orelhas:
— Esqueça esse cara, esqueça! Só vejo vocês trocarem bilhetinhos, cartas como se um morasse em Vênus e o outro em Marte, ridículo. Isso é medo, ele morre de medo. Agora mesmo estou tremendo só de pensar em subir num avião mas medo de avião é saúde, a gente é bicho da terra, tudo perfeito. Mas medo de amar?
— Ele não suporta a idéia do sofrimento alheio, querida. A mulher, os filhos, montes de filhos. A problemática do remorso.
— Mas que remorso?
Mansamente Lorena tombou para o lado, a cabeça apoiada na roupa que juntou.
— Numa das cartas — começou ela. Implorou paciência quando levantei os braços: — Espera, deixa eu falar, numa das cartas ele contou que quando menino achou um dia um caramujo na praia, um caramujo muito lindo, daqueles de madrepérola, o bojo se fechando em caracol até acabar assim numa coroinha, sabe como é? Com um pedaço de arame arrancou lá do fundo o bicho que veio em pedaços. Daí lavou o caramujo, despejou no buraco álcool, amoníaco, perfume e deixou secando no sol. Dois dias depois começou aquele cheiro medonho, como se o bicho continuasse morto lá dentro. Cutucou de novo, mais água, mais sabão, acetona, gasolina, experimentou tudo. No dia seguinte, o cheiro, no fundo da acetona, da gasolina, do álcool, o cheiro. Acabou jogando o caramujo no mar, sabia que nunca mais ia encontrar outro igual mas jogou-o no mar.
Agora Lorena desenfurnou algumas pontas de cigarro que juntou em redor e levantou os jornais, deve estar procurando algo. Achou uma caixa de fósforos vazia. Continuou seu ritual de limpeza enfiando os tocos dentro da caixa. Fico esperando. E a metáfora do caramujo? Não é uma metáfora?
— E daí, Lena. O caramujo!
— Pois o cheiro do caramujo é como o cheiro da memória. O resto da vida ele sentiria esse cheiro, já pensou? Sofrimento da mulher, dos filhos. Sofrimento também dele, não foi Tolstói que disse? Só há dois sofrimentos no homem, a dor física e a dor do remorso.
— Perfeito. Se é que entendi, o caramujo é você, o que não é nenhum elogio, metáfora muito vagabunda essa. Mas se esse caramujo era assim raro, com coroinha e etcétera, ele podia ter lutado um pouco mais, não podia? Se não fosse o comodista que é. Muito mais fácil jogar o caramujo no mar, nesta altura você já está em pleno Atlântico. Kaput. Então não se fala mais nesse homem, chega. Você vai amar o Guga, conversamos muito, já sabe dos dramas todos e está a fim de te salvar. Divino-maravilhoso.
— Mas onde você encontrou o Guga?
— Passei no teatro, estava curtindo o violãozinho dele, fez uma música fabulosa, ficou entusiasmado com a idéia. Entusiasmado.
— Ficou?
— Lógico. Se mãezinha comprimir muito, se casa até de fraque, faz qualquer negócio. Hábil como você é, depois de seis meses ele está tomando dois banhos por dia.
— Lião, que loucura! — riu Lorena. — Você deu assim esperança?
— Evidente. Às vezes puxa suas fumaças mas com uma menina mais ou menos equilibrada como você não vai tomar mais nem aspirina.
— Mais ou menos, Lião? Você disse mais ou menos equilibrada? — repetiu Lorena rolando sobre os jornais.
Lentamente Lia foi tirando a roupa da mala aberta na mesa. Sorriu. Tinha o mesmo cheiro dos armários de Lorena. "Muito fino, muito especial", pensou desdobrando um pulôver de cash-mere cinza, ô, esse não ia servir direitinho em Miguel? Esfregou nele a cara. Riu. Um pouco mais em contato com a gens lore-nensis e sairia tatuada no nariz, ouvido e garganta. Voltou-se para Lorena que se imobilizara, sonhando entre os jornais. Teria mesmo existido? Esse Rômulo.
Esmoreceu o ruído do jato varando a noite. Os miados dos gatos mais próximos foram se esticando até se juntarem aos uivos de um cachorro. Uma pedrada e o cachorro se afastou ganindo. Ficaram os gatos.
— Durante uns vinte anos vou ser elegante no inverno — disse Lia vestindo o cashmere vermelho. Abraçou-se. — Estou me sentindo um gato, ô mãezinha, meus melhores votos, que se levante e dê outra arremetida!
— Amém. Ah! ia me esquecendo — disse Lorena embolando dois jeans que encontrou debaixo da cadeira. — Irmã Bula veio me dizer toda contentinha que a nova pensionista está para chegar, a estudante de Medicina. A menina é sobre o gênio. Vem do Pará. Já pensou?
— Pará?
— Santarém. Já avisei que pode ficar na minha concha — murmurou e uma leve sombra baixou sobre seus olhos. Sacudiu se: Minha empregada lava isto amanha, você tem que viajar com tudo em ordem.
— Mas esses jeans estão limpos, Lena.
— Não estão, querida. Deixa por minha conta, ela lava divinamente.
— Olha o cache-misère! Não é suntuoso? — perguntou Lia vestindo o casaco que estava no fundo da mala. — E o cheiro, Lorena. Cheiro de riqueza, putz.
— Mais baixo, Lião, elas vão acordar, estamos gritando.
— Que acordem! estou excitada demais, não consigo falar mais baixo — disse e aproximou-se de Lorena. — Estive hoje com Madre Alix. É uma mulher bastante estranha.
— Estranha, como?
— Bastante estranha — repetiu Lia olhando para o jardim Levou a mão à boca e repassou as unhas na ponta da língua Ela me faz pensar no mar de Amaralina, conheço aquele mar melhor do que esta mão, a cor da água em qualquer hora do dia. Os peixes todos, as conchas, as pedras, nenhuma surpresa, entende? Mas uma tarde, enquanto mergulhava, uma planta se enrolou no meu pé, trouxe ela pra praia. Uma planta assim meio azul, eu nunca tinha visto antes essa planta de folhinhas lisas como peixinhos azuis e raiz cor de carne, mas então devia ter outras como essa planta lá embaixo? Comecei a olhar o mar com mais respeito.
— Sobre o que vocês conversaram?
— Biscoitos sortidos. Faz às vezes a ingênua mas está tão por dentro como nós. Ou mais, sei lá, a mulher é fogo. O prato principal foi Ana Clara.
— Ai meu Pai. Tenho que ir imediatamente, até me esqueci. E amanhã a prova logo às oito. Mas que foi, Lião? Porque me olha assim?
Os álbuns de retratos da família estão na arca da garagem, Ana disse que viu o mais antigo, o de capa de veludo. Em cima da arca, cobrindo-a, cadeiras velhas, rolos de tapetes, caixas, molduras. Os polvos guardam o mistério do naufrágio.
— Não dá mais tempo, entende.
— De fazer o quê.
— Pesquisas — digo e fico olhando Lorena saltar a janela com a elasticidade de uma bailarina. Apanhou a trouxa de jeans e equilibrou-a na cabeça. Teve um olhar para a janela do seu quarto.
— O que vamos fazer, Lião! Com ela. Se ao menos esse famoso noivo aparecesse.
— Acho que esse famoso noivo não existe.
Ela fixa em mim o olhar assombrado. Desvio o meu.
— Não?
— Lá sei, confusões. Posso usar cedo o carro da mãezinha? Vou levar minha mala pra casa de um amigo perto do aeroporto. E outras coiselhas.
— Lógico, querida. Mãezinha deve ter tomado quilos de calmantes, só vai acordar tarde.

Vejo-a atravessar o jardim com todo o cuidado, escolhendo onde pisar com a prudência de um gato de luvas. Parou no meio da alameda e ficou escutando. Prosseguiu. Apenas uma silhueta esgarçada na névoa, baixou uma névoa branca como suas sandálias. Debruço na janela. Mais algumas horas. Eu devia avisar Lorena que não ficarei aqui nem o tempo de secar a roupa que está levando. Lembro da ampulheta quebrada, entrei no escritório do pai pra pegar o lápis vermelho e esbarrei no vidro do tempo. Fiquei em pânico, vendo o tempo estacionado no chão: dois punhados de areia e os cacos. Passado e futuro. E eu? Onde ficava eu agora que o era e o será se despedaçara? Só o funil da ampulheta resistira e no funil, o grão de areia em trânsito, sem se comprometer com os extremos. Livre. Sou — digo e tenho vontade de correr até Lorena e avisá-la que nesse andar de minhocações poderemos participar do próximo congresso de filosofia com as corujinhas de prata na gola, ô! respiro e olho em frente. Na janela iluminada Lorena me faz sinais frenéticos, está me chamando com as mãos, com a cabeça. Quando me vê ir ao seu encontro, desaparece. Atropelo dois gatos que fogem em direção ao muro, piso nas margaridas e chego até metade da escada, Estou sem fôlego. Minhas pernas se vergam quando ela se debruça na janela escancarada. Os olhos também estão escancarados. Inclina-se. Nossas caras ficam tão próximas que nem preciso me erguer no degrau para ouvir:
— Ela está morta.
Estendo a mão querendo agarrar sua voz através do nevoeiro.
— O que, Lorena. O que você está dizendo. O sussurro é álgido como o hálito de hortelã:
— Ana Clara está morta.


doze



— Uma síncope? — perguntou Lia. — Foi isso?
Esperou a resposta, imóvel ainda no degrau da escada. "Não é possível, não tem sentido. Nenhum nenhum" — sussurrou para o jardim lá embaixo e que lhe pareceu um jardim já visto num outro tempo, numa circunstância assim igual, com uma voz debruçada na janela lhe avisando baixinho da morte de alguém. A mesma névoa. O mesmo oco no peito. Mas agora a noite cheirava a pastilha de hortelã. Voltou-se para a janela. Vazia.
— Não é possível — disse quando entrou no quarto. Lorena estava montada em Ana Clara, massageando seu coração.
Ainda o cheiro frio de hortelã. Ou cânfora?
— Fiz uma massagem com álcool e nada. Vamos ver agora, ai meu Pai.
Cruzando os braços contra o corpo, Lia procurou segurar o tremor que a sacudiu dos pés à cabeça. Enrijeceu os maxilares para poder falar:
— Você não sabe Lena, vamos chamar um médico. O Pronto-Socorro, chama o Pronto-Socorro, Madre Alix tem o número. Você não sabe fazer isso!
— Sei. Estou fazendo exatamente o que deve ser feito — disse Lorena empenhando-se mais nos movimentos. Encarou Lia sem interromper a massagem. E baixou a voz como se receasse que Ana Clara a ouvisse: — Ela está morta. Estou apenas tentando, não vê? Ai meu Pai meu Pai meu Pai.
Mas não parecia uma piada? "O menor sentido" — pensou Lia deixando-se conduzir pelo olhar aparvalhado. Os sapatos de fivela prateada colocados lado a lado, na porta do banheiro. A bolsa de verniz no chão, junto à cabeceira da cama. A manta de xadrez vermelho e verde cobrindo só os pés de Ana Clara, melhor mesmo que a manta estivesse ali porque não queria ver seus pés. Demorou-se em Lorena que lhe cavalgava a cintura sem fazer o menor peso, os joelhos fincados na cama, a fisionomia endurecida no esforço mais agudo da concentração. Uma xícara com um resto de chá no fundo. Contornou a caixa de talco com a esponja amarela, Lorena ainda não tivera tempo de limpar o talco que caíra na mesa. Mais uma vez a bolsa: estava entreaberta. De novo a xícara e sem resistência o olhar se abateu sobre a face da morta. "Morta? Mas ela não está morta!" — Lia quis gritar. Aproximou-se mais. Ana Clara as espionava pela fresta verde dos olhos. "Brincadeira, não é Aninha?" A meia-lua de vidro estrábico estava prestes a se abrir, o meio sorriso da boca pronto a se declarar, ensaiando dizer qualquer coisa divertida, mas por que não dizia! Como se de repente achasse mais divertido não dizer. Tomou-lhe a mão. Abriu-a. Na palma, um pouco de talco entranhado nas gretas. E a lembrança do calor como o ferro de engomar desligado — há quanto tempo? — guarda na chapa uma certa tepidez.
— Dormia na mesma posição que deixei — disse Lorena aos arrancos, ofegante. — Fiquei contente porque tinha medo que acordasse e inventasse de sair, devia ter um compromisso. Guardei sua roupa suja no cesto e botei a mão na testa dela, um frio esquisito. Então chamei, sacudi, dei um soco no seu peito, um soco às vezes. Nada, nada. Fiz até a prova do espelho, peguei meu espelhinho de bolsa, ah, Lião.
— Mas foi antes de você sair? Você acha que foi antes?
— Como posso saber? Chegou aqui gritando, que estava com um florete enterrado no peito, era o coração que devia estar doendo, não sei, também não sei Lião, pelo amor de Deus, querida, não fale agora comigo.
Lia aproximou-se. Dedilhou o pulso estático numa busca tão intensa que acabou por transferir para o pulso da morta o latejar do próprio dedo inflamado. Disse da morta? Cravou o olhar no corpo seminu sobre o chambre vermelho, como estava magra. Só agora reparava como tinha emagrecido, prestava-lhe tão pouca atenção. As nódoas roxas na altura dos seios. No braço. Mas o que foi que lhe fizeram?! O que foi que ela fez. Espera, não estava respirando? Aquele arfar não vinha lá de dentro?
— Continua, Lena, não pára, acho que ela respirou!
A voz de Lorena era um murmúrio de mãe que fala já cansada à filha brincando de esconder em algum canto escuro:
— Ana, Aninha, você está me ouvindo? Ana, volta. Volta, Ana, obedece, eu sei que você ainda está aí, eu sei que está. Vamos, volta.
Firmava-se nos joelhos, apertando-lhe os flancos entre os pés em ponta voltados para dentro, calcando com força na altura dos rins: cavalgava leve num galope sem tocar a sela, só as mãos subindo e descendo no ritmo que era o da própria respiração.
— Milhares de vezes ela chegou drogada, entende. Mas o que aconteceu hoje? — perguntou Lia. — Milhares de vezes! Mas que foi que ela tomou?
Sob a cortina cega de cabelos a voz de Lorena baixava e subia com o movimento das mãos, reduzida a um sopro em certa altura: "Eia, pois, Advogada nossa! Os vossos misericordiosos olhos a nós volvei!
— A nós volvei! — exclamou atirando a cabeleira para as costas.
"Estavam doidas essas duas? Que brincadeira mais sinistra era essa?" — pensou Lia. Quis falar mas não pôde porque agora acompanhava as variações da massagem, Lorena era criativa, inventava movimentos como esse de lagarta, os pulsos colados ao peito de Ana Clara, só os dedos se distendendo e se contraindo como lagartas cavando a terra, contornando lentamente o coração obstinado.
— Lena, e se a gente chamasse?!' As freiras têm experiência!
— Elas não fariam melhor do que estou fazendo. Fecha a janela.
"Mas por que fechar a janela e não o toca-discos tocando e retocando aquele saxofone?" Arrancou o gorro e a cabeleira subiu, elétrica. Enfiou de novo o gorro puxando-o furiosamente até o pescoço e girou sobre os calcanhares. Abraçou-se com força porque o tremor voltara, ô! o absurdo do saxofone ganindo feito um cão danado. Ao mesmo tempo. Não sabia explicar, mas não era aquela música que criava assim um ambiente de expectativa? Enquanto houvesse saxofone e enquanto Lorena continuasse encarapitada lá em cima, lutando. O silêncio, esse era pior do que tudo. Despejou uísque no copo e bebeu de olhos fechados, se pudesse gritar como se grita na montanha. Ou no mar, mas gritar até ficar sem voz, se exaurir gritando e derrotada gritar ainda enquanto só a voz do outro continua igual. "Merda!" — disse entre os dentes, fechando o copo na mão.
— Eu devia ter feito alguma coisa por ela e o que fiz? Discurso. Essa puta vocação pra discurso.
— Ninguém podia fazer nada, querida. Nada.
E Lorena dominando a situação, tensa mas contida, "ô, Lena, chega mais perto, faça ele funcionar como o relógio, o miserável tinha corda e parava de caprichoso mas se a gente com mão ligeira segurasse o pêndulo e fizesse aquele balanço, uma, duas vezes, continue agora sozinho, vamos!" Golpeou a parede com o punho fechado. Assim de costas, resfolegando sobre o corpo, ela parecia empenhada não em fazê-lo respirar mas gozar num jogo erótico tão desesperado que Lia precisou morder o lábio para não gritar "chega!" Aproximou-se. Uma gota de suor escorreu da testa de Lorena e pingou no peito de Ana Clara, montaria doce e mole num abandono que contrastava com a tensão da cavaleira firme no seu galope alto.
— Nada, Lena? Deixa eu ver.
Com esforço, Lorena endireitou o corpo e levantou as mãos para que Lia pudesse encostar o ouvido no peito exposto. O frio odor de cânfora. Mais no fundo, o talco quase tão íntimo quanto o sono.
— Achei que ela estava reagindo, hein, Ana Clara? Não vai mesmo voltar? — gemeu Lorena torcendo as mãos. — Madre Alix vai ficar tão triste, ai meu Pai, me inspire, pelo amor de Deus, me dê uma inspiração — pediu e saltou para o chão: — Vamos ver com o espelhinho.
"Não adianta, chega!" — pensou Lia tapando a cara com as mãos, ô! a maldita cena do espelhinho refletindo luminoso a boca da boneca, aprendera com o tio, ele fizera assim na avó Diú e depois não veio aquela resposta sem olhar nos olhos, a vovó viajou comprido? Dobrou o corpo sacudido por soluços.
— É tão estúpido!
— Cuidado, Lião, assim você acorda as freirinhas!
— E daí? Não posso chorar alto? Ela está morta, Lena, ela está morta! Por que você está aí cochichando? Por que esse mistério?
— Tenho uma idéia, digo depois, mas por enquanto não grite, pelo amor de Deus, calma.
— Calma? Mas não vamos acordar Madre Alix? Acordar imediatamente todo mundo? Não é isso que vamos fazer?
— Espera, Lião. Por enquanto não vamos acordar ninguém, já disse, tenho uma idéia. Calma, sim?
Esfrego a cara na almofada mas antes que os olhos fiquem outra vez transbordantes vejo Lorena apanhar o missal, largou o espelhinho e abriu o missal preto. Enquanto durou a massagem esteve corada mas agora está de novo pálida, os cabelos detrás das orelhas, os lábios crispados. Ana Clara também já está numa posição formal, o chambre fechado, os braços dobrados na altura dos seios. Simplesmente repousando depois do banho e do talco, Lorena devia estar satisfeita, conseguiu dar-lhe um banho completo antes da morte.
— Quer dizer que a gente vai ficar aqui esperando as freirinhas? A polícia? É isso que você quer? Curtindo aqui a morte com uísque e biscoitos? Temos que acordar Madre Alix, menina! Explicar que não teve nenhum milagre, ela esperava um milagre, não é bacaninha? Um pequeno milagre — digo e abafo a boca na almofada, ô se pudesse grunhir de dor e raiva.
"Um momento, sim", fez Lorena com aquele seu gesto que conheço bem. Rezava no missal empertigada, os lábios se movendo quase silenciosos, os olhos transparentes. Total beatitude. Espero comendo desesperadamente os biscoitos da lata, eu explodiria se não tivesse neste instante alguma coisa pra mastigar. Em meio da leitura imperturbável, pousou a mão na testa de Ana Clara:
— Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, dona ei requiem sem-piternam.
Tenho ganas de lhe atirar a almofada na cabeça, agora está brincando de missa. Viro mais uísque na goela e quase arrebento de tosse. A voz me sai da garganta como uma labareda:
— Lorena, tenha juízo e pára com esse teatro, entende. Você vai chamar Madre Alix e eu vou desaparecer, me dê o tempo de fazer a mala e sair, não posso ficar nem nas imediações quando essa morte explodir e a polícia se instalar nesta mansarda! Conforme os jornais, ela morreu devido a uma dose excessiva de barbitúricos, sabe o que isso significa, não sabe? Preciso ir embora — digo e enxugo os olhos na manga da camisa, não quero chorar e os olhos continuam jorrando feito cascatas. — Você é perfeita, as freiras são santas mas e eu? Deixamos o corpo lá no quarto, não chamamos ninguém, melhor ainda, carregamos o corpo. . .
Não posso continuar. Arranco o gorro e enxugo a cara: Ana Clara já virou corpo. Nomes, apelidos, tudo desapareceu e ficou só o corpo. Eu disse o corpo. Aceitei sua morte. E Lorena tomando providências sem maior aflição, se chorou foram lágrimas escassas que nem percebi, a Loreninha toda composta acendendo seu incenso e pedindo calma.
— Lógico que você precisa sumir, querida. Deixa o resto por minha conta.
— Que resto?
Ela sopra a brasa. O incenso começa a escapar em fios tênues pelos furos da ânfora dourada.
— Estou com uma idéia, já disse. Deixa por minha conta.
— Mas quero ajudar, putz! Melhor que ela fique no próprio quarto, podemos levá-la agora, depois você volta e se fecha aqui, amanhã vai fazer seu exame, não sabe de nada. E eu já viajei ontem, você nem me viu mais, fui pra Bahia, pro Alto do Xingu, não estava nesta cidade quando ela morreu. Fim. Não é isso que vamos fazer?
Chuto a almofada. Não, não é. A idéia é outra. — Vai, Lião, não se preocupe comigo, pode ir.
— Mas quero saber antes o que você está planejando, não vou sair por aí correndo feito rato, quero ajudar! Que idéia maravilhosa é essa?
Abriu o armário e está escolhendo um vestido. Então a idéia maravilhosa é vesti-la? Evidente que não, deve vir mais coisa por aí, o modo como me olhou com aquele ar de sacerdotisa. A voz de vitral. Aperto a mão de Ana Clara. Está mais fria ou é apenas impressão? Faço um afago nos seus cabelos que se desenroscam entre meus dedos. Bem vivo o cheiro de sabonete. Puxo-lhe a orelha e a cabeça resvala obediente para o lado que puxei, ô Aninha, que confusão, menina. E na véspera da minha viagem.
— Mas como foi isso, Lena? Você não disse que ela melhorou depois do banho? Que conversou, riu. Ela não estava melhor?
Lorena estendeu na cadeira um longo preto com bordados prateados que começam na gola alta e descem com a fileira de botõezinhos até a barra.
— Conversou, riu, chorou, aqueles delírios, alguma coisa lúcida no meio, ah, como é que eu podia saber?! Viu Deus, da outra vez também viu. . . Chamou Madre Alix, o namorado, achou que ele estava preso, acalmei-a. Pediu uísque, prometi que dava no chá. Pediu a bolsa, dei a bolsa. Depois pediu minha mão, a última coisa que pediu foi minha mão, queria segurar minha mão.
Inclinou-se para procurar alguma coisa na gaveta, os ombros sacudidos por um choro silencioso, o mesmo choro manso da mãezinha. Uísque, queria uísque. E a bolsa. Vejo a cabeça como se ao invés da bolsa estivesse ali no chão uma cobra. Entreaberta, exatamente, entreaberta. Enquanto Lorena fazia seus chazinhos, enquanto trocava o disco. Estava dentro da bolsa, foi ali que ela enfiou a mão e trouxe do fundo, entende. Minha cabeça estala de dor. Lorena enxuga os olhos com um daqueles seus lencinhos, me deu dois, onde foram parar? Não quer que a veja chorando, precisa ser o bom exemplo, chora escondido, fingindo que ainda procura coisas na gaveta mas já separou a meia-colante cor de fumaça e o biquíni de renda. Aperto-lhe o ombro por detrás:
— Lena, fui rude à beca, me perdoa. Vai me perdoar? Fiquei maluca, a viagem, essa morte. Tudo do melhor e do pior acontecendo junto, estou como se tivesse levado uma porretada.
— Tive a intuição- Disso que aconteceu, digo mais — murmurou ela pondo as mãos sobre o vestido. Está lívida: — Meu irmão Remo me mandou este kaftan de Marrocos, eu juro que pensei, é Aninha que vai vestir isto, não vou usar nunca nem me serve, imagine. Quem vai usar é Aninha. Para sempre, intuí. Tive um estremecimento enquanto fechava a porta do armário, era como se estivesse fechando seu caixão.
Pronto, começaram as iluminações. Desvio o olhar de Lorena.
— Podre de chique, hein, Ana Turva? Marrocos.
— E combina com os sapatos dela, pobrezinha. Pena que não tenho umas argolas de prata.
Ela disse argolas? Argolas. Vai fazer-de-conta que Ana está viva. Melhor ainda se lhe vestirmos um cache-mort do gênero do cache-misère que mãezinha me deu, mais importante do que enfeitar a morte seria escondê-la. Mas os jovens não precisam baixar a tampa.
— Estou sem cigarro — digo e despejo no tapete o conteúdo da bolsa que me espera aberta.
Rapidamente espalho as milhares de miudezas e procuro. E estes envelopes? Aspirinas. Tem de tudo na bolsa de Ana, desde bolotas de algodão usado ate um carretel de linha preta com uma agulha espetada. Tem até um relógio de homem. Até um pequeno copo de prata com um nome desenhado: Maximiliano. É esse o amado. Não é estranho que ele ainda não saiba? Neste instante mesmo deve esperá-la num bar, numa boate. Ou no apartamento onde se encontravam. Olho o relógio: parado na meia-noite. Também pode ser no meio-dia, não tem mais o tempo, não tem mais a morte, ele apenas estranha que ela esteja tão atrasada mas costuma mesmo se atrasar. Abro o zíper da bolsinha de plástico estourando de batons, lápis de várias cores, esponjinhas, pincéis. Salta como um caroço um vidrinho de delineador verde. Nada. Mais nada. A bolsa voltou ao seu estado de inocência: fútil, apenas fútil. A carteira de estudante é ainda da época em que fez os vestibulares. O retrato de cabelos compridos. As sobrancelhas mais densas. A assinatura numa letra de desafio: Ana Clara Conceição. Entre o cartão e o plástico o retratinho dele muito risonho e louro, radiante na sua malha preta. Max, o Max do copo etcétera. Rasgo o retrato em pedacinhos. Aviso Lorena:
— Pegue antes da polícia aquele caderninho de endereços, aquele caderninho preto, lembra? E rasgue os retratos dos cavalheiros que encontrar. Pensei que quisesse ver este careta trancafiado mas não. Sei lá.
— Não vou deixar nenhuma pista, querida. Passei minha meninice lendo romances policiais, lido bem com os alfinetes — disse enquanto abotoa os botõezinhos prateados do vestido. — Que é que você procura, Lião?
— Nada — digo apanhando um cigarro. Fico olhando o pente que mais de uma vez vi Lorena lavar nos seus preparados cheirando a amoníaco. Cubro-o com um lenço quando ela se aproxima: — Tem este relógio e este copo, guarda.
— Dou o copo à Madre Alix, coitadinha. O relógio fica com você, não perdeu o seu? Fica com ele, querida. Vai servir muito na viagem — decidiu ajustando-o no meu braço. — É um relógio fino, ia ficar com a polícia, já pensou? Mas não é mesmo impressionante? Ana Clara não ter nenhum parente, ninguém no mundo, ninguém! Pensava nisso há pouco, não tem uma pessoa sequer a quem avisar, nenhuma amiga, falava aí nuns nomes mas tudo assim meio no ar. Só as freirinhas. Nós. Nem vou avisar Max, o mais prudente é que ele nem apareça, coitadinho. E esse noivo?
— Esse noivo — repito e não tenho forças de encarar Lorena, prefiro ficar olhando Ana Clara no seu traje de noite, mas é uma festa? Cubro o relógio com a mão. De tudo, ainda me ficou um relógio.
— Incrível. Isso dela não ter mais ninguém no mundo.
— Tem outras coisas mais incríveis ainda — digo e me aproximo quando a vejo abrir o saquinho plástico que estava na bolsa: — Mas o que você vai fazer?
Não era preciso perguntar, seus gestos são nítidos. Ordenados. Tirou o creme-base rosado e começou a maquilar Ana Clara. Usa apenas dois dedos na operação, mais precisamente apenas a ponta do indicador e do dedo médio, espalhando em movimentos circulares a pasta que vai espremendo do tubo. Seus movimentos são rápidos. De uma eficiência exemplar.
— Muitas vezes ajudei Aninha quando a mão dela tremia demais. E ultimamente a mão tremia tanto, aparecia aqui completamente turbilhonada, não conseguia nem acertar com o pincel na boca do vidrinho, já pensou? Ai meu Pai. Que loucura.
Diz que loucura tão superficialmente, a palavra não correspondendo à ordem que existe neste quarto. Nesta morte. A importância da aparência, mãezinha frisou. A náusea me sobe numa golfada até a boca. Vou ao banheiro. Se metesse o dedo na garganta. Mas Lorena já avisou, nada de barulho. Música, pode, lá está o disco rodando, rodando, um pouco mais e a agulha vara o plástico mas choros e vômitos, não. Por quê? Lá sei, é ela quem está liderando a noite, tem motivos. Idéias. Foi médico, padre e agora está sendo a mais perfeita funcionária da agência fúnebre inspirada em moldes norte-americanos. Sem cansaço, sem desfalecimento prepara a freguesa como se não tivesse feito outra coisa na vida. O apelido na Faculdade é Magnólia Desmaiada.
— Queria ficar de porre, entende. E não posso ficar de porre.
— Venha, Lião, venha ver. Ah, como ela está ficando bonita. Lavo a boca e vou ver como ela está ficando bonita. Ajoelhada na cabeceira da cama, Lorena está sombreando de verde a pálpebra de Ana Clara. Às vezes se afasta um pouco para ver melhor o efeito. Parece satisfeita, o pincel na mão esquerda e a caixinha na direita, é canhota. Luminosa sob a base rosada, a face me parece agora mais distante. Desinteressada. Será só impressão minha ou a meia-lua dos olhos diminuiu? Está ligeiramente encoberta, como se a névoa da noite tivesse chegado até ali. Não me lembro de tê-la visto tão bem vestida e tão bem maquilada como nesta hora. Na poltrona, as correntes de prata.
— E os colares? — pergunto.
O vestido já tem muito bordado, fica mais fino assim — suspirou ela apanhando a escova. — Já estão secos, pensou?
Os cabelos. Atenção especial para os cabelos. Vou buscar o frasco de perfume, faço questão de trazer o perfume.
— Este, Lena? — pergunto e não me seguro mais. Respiro bem fundo antes de falar: — Você está exagerando, entende. Você sabe que está exagerando, não sabe? Estamos aqui feito duas dementes completas, presta atenção, Lena: vão botar ela numa padiola ou sei lá o que e daqui vai reto pra autópsia, sabe o que é autópsia? O médico vem e retalha tudo e depois costura. Fim. Tudo isso que você está fazendo vai ser desfeito na mesa de mármore, não tem sentido, Lena. Não tem sentido!
— Tem sentido sim. Me solta, querida, estamos atrasadas.
— Mas ela não vai pra festa!
Apanhou no chão os sapatos de fivela e delicadamente calçou-os na morta. Alisou uma ruga que a meia fizera no tornozelo e sorriu através das lágrimas:
— É aí que você se engana. Não, querida, não estou louca, não é nada disso, é aquela minha idéia. Enquanto rezava, lembra? Pedi a Deus que me desse uma inspiração e Ele me inspirou. A chave do carro não está no seu bolso? Eu vi no seu bolso. Excelente. Um momento, deixa eu calçar minha sandália.
Em duas largas passadas, Lia foi até a janela. Escancarou-a e respirou de boca aberta, alisando com as mãos a cabeleira. Procurou o gorro no bolso e vagarosamente enterrou-o até as orelhas. Olhou o casarão. Nenhuma estrela. Nenhum gato. A neblina estava tão densa que chegou a estender a mão como se esperasse encontrar resistência. Fechou a janela. Lorena já tinha calçado as sandálias e agora dobrava o chambre vermelho. Segurou-a pelos ombros:
— Lena, daqui a pouco amanhece, tenho que ir embora antes que amanheça, certo? Mas não quero te deixar sozinha, diga logo qual é essa sua idéia e eu ajudo mas depressa, depressinha que no seu relógio já passa das três!
— Sim, vamos imediatamente — murmurou ela entrando no banheiro, o chambre vermelho apertado contra o peito.
"Deve estar se lembrando do irmão com sua camisa vermelha, ô! que noite! Que noite" — pensou Lia fechando os olhos. Ouviu Lorena abrir e fechar o cesto de roupa suja.
— Imagine que tinha esquecido o Agnus Dei na blusa dela, estava preso no avesso da blusa, coitadinha. Foi Madre Alix que deu, deixa eu prender, vai com ele. Por favor, querida, pegue a bolsa. A caderneta está dentro? A de estudante.
— Está tudo aqui. Ela está tão magra, acho que sozinha eu podia carregar mas faz confusão, melhor você pegar num braço e eu pego no outro. Vamos? — disse e parou. Por que Lorena lhe perguntara se a chave do carro estava no seu bolso. Apalpou-o. — Vamos, Lena. Essa bolsa atrapalha, você leva depois.
— Mas a bolsa tem que estar com ela, querida.
— Na cama?
— Mas ela não vai ficar na cama — disse Lorena. Encarou a amiga: — Ana Clara não vai ficar na cama.
— Não?
— Lógico que não. Ela não vai ser encontrada no quarto, ela não morreu no quarto, morreu noutro lugar.
— Onde?
— Numa pracinha. Mas por que você pensa então que fiz esses preparativos todos? Vai ficar numa pracinha, já passei milhares de vezes por essa pracinha, tem um banco debaixo de uma árvore, é a praça mais linda que existe. É naquele banco que ela vai ficar depois da festa, foi a uma festa e na volta sentou-se lá. Ou foi deixada, não interessa. Vão encontrá-la, chamam a polícia, avisam Madre Alix, aquela coisa toda. Está entendendo por que a bolsa tem que ir com a caderneta dentro? Deus fez com que mãezinha mandasse o carro — murmurou Lorena prendendo a relíquia no avesso da gola do vestido. — Veja que as coisas todas vão se ajustando, o carro, a neblina. Nunca vi uma neblina mais providencial, a noite estava claríssima, lembra?
Lia sentou-se no chão. Fechou a boca perplexa. Fungou sacudindo a cabeça repetidamente, as duas mãos na cara. Riu:
— Lorena, você está brincando, não está? Quer dizer que vamos levar Ana Clara pra rua, ou melhor, deixá-la sentada numa pracinha muito jóia e voltarmos? É essa sua idéia maravilhosa, Lena? É essa? Foi por isso que me perguntou da chave? Do carro da mãezinha? Hein?
— Por favor, Lião, não começa com ironia, pense um pouco, Ana Clara não pode morrer drogada num quarto do Pensionato Nossa Senhora de Fátima. Não pode. Sabe o que isso pode significar para as freirinhas? Para Madre Alix? Ela amava tanto Madre Alix, não havia de querer comprometê-la num escândalo desses, estou fazendo tudo como Aninha gostaria que fosse feito. Deus me inspirou, pedi inspiração e Ele me deu, depois que tive essa idéia cheguei a sentir uma certa paz. Posso mudar, querida. Se a morte não tem remédio, posso ao menos salvar as circunstâncias!
— Você quer dizer as aparências.
— Lião querida, compreendo perfeitamente, é um risco grande para você, não estou pedindo que me ajude, é lógico. Mas eu vou fazer tudo exatamente como calculei, não adianta discutir mais — disse e voltou a olhar para o relógio. — Tenho meia hora para ir e voltar, já pensou? Me ajude só na escada e depois faço tudo sozinha, me dá a chave. Deixo na sua janela quando voltar.
Com passos decididos Lia aproximou-se da morta. Prendeu a alça da bolsa na cintura e coçou com força o nariz, os olhos.
— Estou com uma puta alergia, quando fico nervosa começa essa coceira.
— Tenho um antialérgico, quer?
— Não, agora quero é pegar esta moça. Vamos? Não esquecemos nada?
Lorena correu e desligou o toca-discos.
— A luz fica acesa, que pensem que passei a noite estudando com um colega, elas devem ter ouvido algum movimento. Irmã Bula principalmente.
"Por isso o saxofone gemendo a noite inteira? Ela pensa em tudo" — murmurou Lia esfregando o nariz na manga. Teve um sorriso. Pegou Ana Clara nos braços.
— Deixa — pediu quando Lorena foi ao seu encontro. — Na escada você me ajuda.
Leve, sim. Eu sabia que ela é leve, eu já sabia. Abro a janela para que a luz ilumine mais a escada. Dividimos o peso, agora Lião vai na frente, segurando-a pelas pernas e eu vou atrás, sustentando-lhe o tronco. Seu corpo verga docemente, como uma rede. Sinto seu perfume. Bom ter-lhe dado aquele banho. Bom ter baixado essa névoa.
— Não deixe cair o sapato — digo quando o pé de Ana Clara se enrosca no gradil.
Também tinha pensado nisso, que a escada seria a prova mais difícil, é estreita demais e nem podemos ofegar, Aninha é leve quando transportada numa superfície plana. Nestes degraus todos tão estreitos. Também sabia que Lião é mais desajeitada, tem força mas se afoba, quase cai, se me descuido rolamos as três pela escada abaixo. Está arfando e para compensar respiro o mais silenciosamente possível, ai meu Pai, nos ajude agora nos ajude que está demais difícil. Não, Ana, não escorregue, querida, por que de repente você está resistindo? Facilite, não fique se jogando assim, a pracinha é linda, você vai gostar de ficar lá no banco, a árvore tem passarinhos, já pensou? Depois Madre Alix fala com o Max, quem sabe sua morte vai ajudá-lo. O milagre que não aconteceu com você, já pensou? Me ajude, meu Pai. Me ajude.
— Cuidado, Lião! Mais devagar, querida. Vamos parar um segundo?
Paramos. Sustento a cabeça de Aninha no meu joelho enquanto enfio as mãos por dentro das suas mangas para segurá-la melhor pelos braços. Sinto nos dedos suas axilas, ainda outro dia lhe emprestei o aparelho, está no quarto dela. Uma gilete novinha. E me lembro da tarde (quando foi?) em que estávamos as três no meu quarto, eu passava a lixa na perna, Aninha pinçava as sobrancelhas com minha pinça e Lião recortava qualquer coisa num jornal. Quando levantou o braço (usava um camiseta sem mangas) me levantei e fui correndo buscar a gilete, pelo amor de Deus, Lião, passa a gilete nessa axila! Ela obedeceu e fez sua distinção: "Axila é quando está raspado, entende. Sovaco é quando não se raspou", disse e eu agora me lembrando de uma tolice dessas. Com vontade de rir como naquele dia.
— Vamos, Lena. Já descansou?
— Sim, vamos. Vamos.
Como não reparei antes nesta escada? Mas é compridíssima.
— Não acenderam uma luz? — perguntou Lião. — Aquilo não é uma luz?
— Não tem importância, elas não podem nos ver — sussurro mais no ouvido de Ana Clara do que no de Lião. — Estamos no finzinho, só mais um pouco.
Quase corremos quando chegamos na alameda. Um gato começou a miar desatinado, ótimo, mia mais meu gatinho, cubra com seus miados nossos passos que parecem moer os pedregulhos, outra coisa que eu não tinha reparado, na indiscrição desses pedregulhos.
— O barulho que eles fazem! Não chuta assim, querida.
— Mas quem é que está chutando? Fecha esse bico, Lena! Não fecho, quero falar, falar o tempo todo agora que estamos chegando quase no portão, a primeira etapa já passou, aleluia! Olhamos. A rua está deserta, pelo menos até o limite onde podemos enxergar porque além é só um muro esfumaçado. O Corcel opaco, sem contorno. Sustento o corpo de Ana contra o portão enquanto ela abre a porta, ah, bendita seja mãezinha com sua generosidade, bendita seja a noite e as casas com seus olhos fechados.
— Agora pode ir, querida — eu digo. — Daqui por diante me arrumo sozinha, o pedaço mais complicado já passou.
Ela me ajuda a sentar Ana Clara no banco da frente. Em seguida, entrou. Sentou-se ao lado, enlaçou-a e bateu a porta.
— Eu seguro, você guia — disse sem me encarar. — Mas vamos!
Enxugo os olhos. Acendo os faróis.
— Ah, Lião.
Ela está sorrindo de dentes cerrados.
— Você é demente mas não vou te deixar sozinha nisso. Vai ser muito divertido se nos pegarem transportando um cadáver, ô que divertido! — disse e sacudiu a cabeça, rindo abertamente. — Transportando um cadáver em plena madrugada, eu, de passaporte na mão. Mas não é original?
Começo a rir também quando vejo através do espelho seu gorro preto enterrado até as sobrancelhas. Recostada na almofada, a cabeça de Ana Clara parece descansar tão naturalmente (não vejo o braço de Lião apertando seu peito contra o banco como uma trave) que estamos exatamente como eu tinha planejado, duas amigas conduzindo uma terceira que bebeu e dormiu.
— Não vão nos pegar, querida.
— E um cadáver de morte suspeita — prosseguiu abrindo uma fresta na janela. — Você não estuda Direito? Putz, sabe que estamos ligeiramente ilegais, não sabe? Você pensa em tudo. Pense numa resposta ao policial.
Guio devagar, com a cara quase encostada no vidro, ai meu Pai, a neblina amiga-inimiga se cerrou mais, tenho a impressão que penetro numa nebulosa, os faróis tão pobres, não permita que venha nenhum carro agora, agora não! eu peço e continuo falando, Lião está de bom humor, precisamos estar de bom humor.
— Digo que Ana chegou péssima, resolvemos levá-la a um Pronto-Socorro e nos perdemos na madrugada, quem é que não se perde numa madrugada dessas?
— Você é imaginosa, Lena. Cabecinha privilegiada a sua. Mas tem uma coisa que se chama autópsia, o legista vai dizer que ela está morta há mais tempo do que você afirmou. Ou não?
Quase me esqueço dessa palavra. Autópsia. O final fino como um estilete. O mármore. O rigor da mão profissional cortando tão profissionalmente, ainda o perfume de sabonete, ainda o talco. De qualquer maneira, ela está tão bonita, não está, doutor? Tão bem maquilada, tão limpa. Eu sei que o senhor executa sua tarefa a frio mas desta vez vai recebê-la com mãos diferentes, a beleza ainda emociona.
— Você me acha louca, Lião?
— Bastante. Mas eu também, entende. E esta aqui do nosso lado. Não se preocupe, sei lá. É longe? Essa pracinha, já estamos rodando há horas! Depressa Lena, afunde esse pé no acelerador, estamos feito tartarugas!
Não quero lhe dizer que não posso correr mais do que estou correndo porque não enxergo nada.
— Estamos chegando, calma. Você desce primeiro, aqui do banco empurro o corpo que você vai receber e levantar, fica com ela abraçada, em pé. Depois saímos, eu de um lado, você do outro, está me compreendendo, Lião.
— Perfeitamente. Então vem o guarda da pracinha e nos ajuda, certo?
— Não tem nenhum guarda. Olha, é aqui. Ai meu Pai, chegamos, chegamos, está vendo a árvore? Vamos sair conversando, bem naturais.
Desligo o motor. Apago os faróis. Beijo os pés de Deus, santificado seja o vosso nome!
— Olha primeiro do seu lado. Ninguém?
Ela abre a porta.
— Ninguém. Depressa.
Fico de joelhos no banco e empurro Ana Clara para as mãos estendidas de Lião. A cabeça tomba e me fere o lábio, quase digo, cuidado Aninha! Quando desço, Lião a enlaça como se fossem sair dançando as duas, o braço estendido para a frente procurando agarrar-lhe a mão. Conseguiu, palma contra palma. Flexionou-o e trouxe-o para o ombro num movimento tão doce que por um instante tive a sensação de que Ana Turva, comovida, resolveu colaborar, enlaçando-a. A tarefa de Lião foi a mais dura, avaliei seu esforço quando me coloquei do outro lado e sem dificuldade tomei-lhe o braço pendente e passei-o em volta do meu pescoço. A pracinha redonda como a copa azul-cinza da árvore me pareceu mais íntima, mais secreta assim fechada pela neblina. Quero me lembrar de um verso de Garcia Lorca e não me lembro mas cito ao acaso, precisamos ir falando, falando em voz baixa mas falando como duas delirantes amparando uma terceira, a mais trôpega e a mais bonita, onde foi a festa?
— Intima como uma pequena praça, a idéia é essa mas não lembro, uma poesia de Lorca, você conhece?
— Não me lembro de nada, acho que esqueci tudo e nunca mais vou lembrar, entende, nunca mais vou lembrar de nada, nada — Lião fica repetindo enquanto olha para os lados.
Os bicos dos sapatos de Ana Clara resvalam pela areia tão branca quanto a neblina. Lião procura erguê-la mais alto e não consegue. Adivinho os sulcos que os bicos dos sapatos vão deixando na areia e penso que na volta preciso desfazer esse rastro. Ouço um motor pesado (caminhão) passando próximo. Se afasta.
— Olha o banco. Podíamos descansar ali um pouco, hein, Lião? Quem sabe eu lembro da poesia, fala de uma pracinha como esta. . .
— Deserta, não? Que é aquilo lá adiante?
— Lá? É só um pinheirinho. Deserta. Mas e a poesia, lembra?
— Perfeitamente. Lembro, lembro. Depressa, Lena.
— Você não quer sentar um minuto?
Sentou-se arrastando Aninha que quase lhe desaba do colo. A pedra do banco está gelada. Mas seu rosto está igual ao banco. Depois de sentada contra a árvore ela mesma tombou para o lado que quis e ali ficou equilibrada, a face na pedra, as mãos aconchegadas contra o peito. Faço da bolsa o travesseiro tomando o cuidado de não marcar-lhe o queixo com o fecho. Cubro seu tornozelo com o vestido. Arrumo a fivela do sapato que entortou na caminhada. Limpo a poeira.
— Lena, vamos! Vamos!
Aperto suas mãos geladas, penso em abri-las mas se ela preferiu assim.
— Nós te amamos muito. Deus te guarde. Lião me enlaça e me arrasta.
— É de Lorca, você tem razão, é sobre uma praça. Você disse íntima?
Não posso falar, estou chorando e desfazendo nas solas das sandálias a marca que ela deixou.
Entramos no carro. Ouço o queixo de Lião batendo. Ou é o meu? Contorno a pracinha mas já não vejo nem o banco nem a visitante, só a copa da árvore no nevoeiro.
— E a noite começou com estrelas. Tão grandes — digo. Procuro a flanela. Limpo o pára-brisa. O perfume de Ana Clara ainda está entre nós. Mas Lião deve ter tido o mesmo pensamento: abriu uma fresta na janela.
— O bebezinho, Lorena! O bebezinho erótico, putz.
— Que bebezinho?
— Aquele dependurado aí no espelho. Fiz minha doutrinação e colou, seu chofer sumiu com ele. Perfeito, perfeito. São essas coisas que me dão esperança — murmurou relaxando o corpo. — Acho que faz um mês que não durmo, ô, Lena, Lena, vai dar certo, não vai?
Não sei se ela está falando de Ana Clara ou da viagem. Da viagem, lógico, lógico.
— Vai ser maravilhoso, querida. Tenho a intuição, vai ser maravilhoso.
E sinto uma brutal vontade de alegria. Vontade de rir, falar com as pessoas, dizer tolices, escrever tolices. Ai meu Pai, a prova. É tempo de entrar, me enfiar num chuveiro, tomar um copo de leite quente (vontade de leite) apagar as pistas no quarto de Aninha e ir correndo para a Faculdade. É preciso sair antes que. Antes.
— Mas não é mesmo maravilhoso, Lião? Quando a gente está do lado de Deus — digo e breco o carro.
— Mas Deus está deste lado?
Beijo-a de leve, enxugo as últimas lágrimas (não vou chorar mais) e guardo meu lencinho no bolso.
— Temos milhares de coisas que falar, Lião. Milhares!
— Evidente. Ficaríamos aqui falando até o fim dos tempos, vamos, saia. Depressa, Lena.
Descemos. Estamos tremendo de frio. Ouço o sininho da sua corrente fazer dlim-dlim mas nesta noite ele já tocou outras vezes.
Olho a barra da sua calça. E os cabelos que escapam do gorro, esfiapados na ventania. É a despedida mas não é para dizer que é a despedida.
— Vamos, Lena, entra depressa. Você vai na frente. Mas não fique aí me olhando, está quase amanhecendo.
— A cruz! — lembro. — Ponho na sua janela, no lado de fora, não se esqueça de pegar! Não vai esquecer!
— Certo, perfeito. Não esqueço, agora anda!
Abro o portão. Quando me volto, ela está no mesmo lugar, rindo. Levanta o braço na saudação de mão fechada. Mando-lhe beijos bem diáfanos nas pontas dos dedos. Saio correndo, subo a escada em três lances (encolheu) pego a cruz dentro da caixinha, desço de novo, atravesso o jardim e a deixo na janela, Lião já está lá dentro e sei que me viu mas disfarçou. Quando fecho a porta do meu quarto tenho que parar e ficar respirando. Respirando. Ligo a vitrola e ao acaso, sem trapaça, escolho um disco. Fico sorrindo quando ouço o que escolhi. Vou reto até a cama, faço uma trouxa apertada de roupa, abro o cesto e empurro a trouxa para dentro. A tampa resiste, resmunga, salta duas vezes mas na terceira tentativa se acomoda e fica fechada. A banheira ainda com a água do banho. Um tênue caracol de espuma flutua na superfície já fria. Volto a cara, meto a mão na água e arranco a borracha do ralo. Enquanto espero, olho os sais do vidro, nunca vi pepitas de ouro mas devem ser assim as tais pepitas. Abro o jorro de água quente e quando me inclino de novo para a banheira, o depósito que adivinhei no fundo já foi levado embora. Escolho no armário a roupa de cama, verde? A toalha de banho pode ser branca. Abro o chuveiro e sinto na boca o calor da fumaça. A de fora já está se dissipando e aqui começa outra, ah, não esquecer de avisar à menina de Santarém que se aparecer um gatinho malhado atendendo pelo nome de Astronauta. Gatinho? Mas ele não cresceu? Enfim, um gato malhado. Me avise e será fartamente recompensada. E se uma voz meio velada me chamar no telefone, voz de homem que prefere não deixar o nome. Me vejo de perfil no espelho esfumaçado.

Fim

Este livro foi confeccionado nas oficinas da Gráfica Editora Bisordi Ltda., na Rua Santa Clara, 54 (Brás), São Paulo, para a Livraria José Olympio Editora, na Rua Marquês de Olinda, 12 (Botafogo), Rio, em outubro de 1974, ano do

— SÉTIMO CENTENÁRIO DA MORTE DE
Santo Tomás de Aquino (* 1225 - 1274)

— SEXTO CENTENÁRIO DA MORTE DE
Francesco Petrarca (* 20-7-1304 / 19-7-1374)

—TRICENTENÁRIO DA MORTE DE
John Milton (* 9-12-1608 / 8-11-1674)

— BICENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE
Hipólito José da Costa (* 13-8-1774 / 11-9-1823)

—SESQUICENTENÁRIO DO JURAMENTO DA PRIMEIRA CONSTITUIÇÃO BRASILEIRA
(Constituição Política do Império do Brasil, 25-3-1824)

— E DA MORTE DE
Antônio de Morais Silva (* 1-8-1755 / 11-4-1824) CENTENÁRIO DE

— NASCIMENTO DE
Raul Pederneiras (* 15-8-1874 / 11-5-1953)

— CINQÜENTENÁRIO DA MORTE DE
Vicente de Carvalho (* 5-4-1866 / 22-4-1924) e 43.° da fundação desta Casa.

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O Aluno (por ele mesmo)

O aluno não copia: compara resultados.O aluno não fala: troca opinões.O aluno não dorme: se concentra.O aluno não se distrai: examina as moscas.O aluno não falta na escola: é solicitado em outros lugares.O aluno não diz besteiras: desabafa.O aluno não masca chiclete: fortalece a mandíbula.O aluno não lê revistas na sala: se informa.O aluno não destrói o colégio: decora a escola segundo seu gosto.
(BRINCADEIRINHA!!!!!!!!)