sábado, 4 de abril de 2009

CAPITÃES DE AREIA (JORGE AMADO)

Jorge Amado
Capitães da areia
Editora: Record
Matilde:
Jogávamos jogos de prenda.
Andávamos de carro de boi.
Morávamos em casa mal-assombrada.
Conversávamos com moças e mágicos.
Achavas a Bahia imensa e misteriosa.
A poesia deste livro vem de ti.
Para Aydano do Couto Ferras, José Olympio, José
Américo de Almeida, João Nascimento Filho e
para Anísio Teixeira, amigo das crianças.
Cartas à redação
CRIANÇAS LADRONAS
AS AVENTURAS SINISTRAS DOS “CAPITÃES DA AREIA” – A CIDADE
INFESTADA POR CRIANÇAS QUE VIVEM DO FURTO – URGE UMA
PROVIDÊNCIA DO JUIZ DE MENORES E DO CHEFE DE POLÍCIA – ONTEM
HOUVE MAIS UM ASSALTO
Já por várias vezes o nosso jornal, que é sem dúvida o órgão das mais legítimas
aspirações da população baiana, tem trazido noticias sobre a atividade criminosa dos
“Capitães da Areia”, nome pelo qual é conhecido o grupo de meninos assaltantes e
ladrões que infestam a nossa urbe. Essas crianças que tão cedo se dedicaram à
tenebrosa carreira do crime não têm moradia certa ou pelo menos a sua moradia
ainda não foi localizada. Como também ainda não foi localizado o local onde
escondem o produto dos seus assaltos, que se tornam diários, fazendo jus a uma
imediata providência do Juiz de Menores e do doutor Chefe de Polícia.
Esse bando que vive da rapina se compõe, pelo que se sabe, de um número superior
a 100 crianças das mais diversas idades, indo desde os 8 aos 16 anos. Crianças que,
naturalmente devido ao desprezo dado à sua educação por pais pouco servidos de
sentimentos cristãos, se entregaram no verdor dos anos a uma vida criminosa. São
chamados de “Capitães da Areia” porque o cais é o seu quartel-general. E têm por
comandante um mascote dos seus 14 anos, que é o mais terrível de todos, não só
ladrão, como já autor de um crime de ferimentos graves, praticado na tarde de
ontem. Infelizmente a Identidade deste chefe é desconhecida.
O que se faz necessário é uma urgente providência da policia e do juizado de
menores no sentido da extinção desse bando e para que recolham esses precoces
criminosos, que já não deixam a cidade dormir em paz o seu sono tão merecido, aos
Institutos de reforma de crianças ou às prisões. Passemos agora a relatar o assalto de
ontem, do qual foi vítima um honrado comerciante da nossa praça, que teve sua
residência furtada em mais de um conto de réis e um seu empregado ferido pelo
desalmado chefe dessa malta de jovens bandidos.
NA RESIDÊNCIA DO COMENDADOR JOSE FERREIRA
No Corredor da Vitória, coração do mais chique bairro da cidade, se eleva a bela
vivenda do Comendador José Ferreira, dos mais abastados e acreditados negociantes
desta praça, com loja de fazendas na rua Portugal. É um gosto ver o palacete do
comendador, cercado de jardins, na sua arquitetura colonial. Pois ontem esse
remanso de paz e trabalho honesto passou uma hora de indescritível agitação e susto
com a invasão que sofreu por parte dos “Capitães da Areia”.
Os relógios badalavam as três horas da tarde e a cidade abafava de calor quando o
jardineiro notou que algumas crianças vestidas de molambos rondavam o jardim da
residência do comendador. O jardineiro tratou de afastar da frente da casa aqueles
incômodos visitantes. E, como eles continuassem o seu caminho, descendo a rua,
Ramiro, o jardineiro, volveu ao seu trabalho nos jardins do fiando do palacete.
Minutos depois, porém, era o
ASSALTO
Não tinham passado ainda cinco minutos quando o jardineiro Ramiro ouviu gritos
assustados vindos do interior da residência. Eram gritos de pessoas terrivelmente
assustadas. Armando-se de uma foice o jardineiro penetrou na casa e mal teve tempo
de ver vários moleques que, como um bando de demônios na expressão curiosa de
Ramiro, fugiam saltando as janelas, carregados com objetos de valor da sala de
jantar. A empregada que havia gritado estava cuidando da senhora do comendador,
que tivera um ligeiro desmaio em virtude do susto que passara. O Jardineiro dirigiuse
às pressas para o jardim, onde teve lugar a
LUTA
Aconteceu que no jardim a linda criança que é Raul Ferreira, de 11 anos, neto do
comendador, que se achava de visita aos avós, conversava com o chefe dos
“Capitães da Areia”, que é reconhecível devido a um talho que tem no rosto. Na sua
inocência, Raul ria para o malvado, que sem dúvida pensava em furtá-lo. O
jardineiro se atirou então em cima do ladrão. Não esperava, porém, pela reação do
moleque, que se revelou um mestre nestas brigas. E o resultado é que, quando
pensava ter seguro o chefe da malta, o jardineiro recebeu uma punhalada no ombro e
logo em seguida outra no braço, sendo obrigado a largar o criminoso, que fugiu.
A polícia tomou conhecimento do fato, mas até o momento que escrevemos a
presente nota nenhum rastro dos “Capitães da Areia” foi encontrado. O Comendador
José Ferreira, ouvido pela nossa reportagem, avalia o seu prejuízo em mais de um
conto de réis, pois só o pequeno relógio de sua esposa estava avaliado em 900$ e foi
furtado.
URGE UMA PROVIDÊNCIA
Os moradores do aristocrático bairro estão alarmados e receosos de que os assaltos
se sucedam, pois este não é o primeiro levado a efeito pelos “Capitães da Areia”.
Urge uma providência que traga para semelhantes malandros um justo castigo e o
sossego para as nossas mais distintas famílias. Esperamos que o ilustre chefe de
polícia e o não menos ilustre doutor Juiz de Menores saberão tomar as devidas
providências contra esses criminosos tão Jovens e já tão ousados.
A OPINIÃO DA INOCÊNCIA
A nossa reportagem ouviu também o pequeno Raul, que, como dissemos, tem onze
anos e já é dos ginasianos mais aplicados do Colégio Antônio Vieira. Raul mostrava
uma grande coragem, e nos disse acerca da sua conversa com o terrível chefe dos
“Capitães da Areia”.
– Ele disse que eu era um tolo e não sabia o que era brincar. Eu respondi que tinha
uma bicicleta e muito brinquedo. Ele riu e disse que tinha a rua e o cais. Fiquei
gostando dele, parece um desses meninos de cinema que fogem de casa para passar
aventuras.
Ficamos então a pensar neste outro delicado problema para a infância que é o
cinema, que tanta idéia errada infunde às crianças acerca da vida. Outro problema
que está merecendo a atenção do doutor Juiz de Maiores. A ele volveremos.
Reportagem publicada no Jornal da Tarde, na página de “Fatos
Policiais”, com um clichê da casa do comendador e um deste no
momento em que era condecorado.
CARTA DO SECRETÁRIO DO CHEFE DE POLÍCIA À REDAÇÃO DO
JORNAL DA TARDE
“Sr. diretor do Jornal da Tarde
Cordiais saudações.
Tendo chegado ao conhecimento do doutor chefe de polícia a reportagem publicada
ontem na segunda edição desse jornal sobre as atividades dos “Capitães da Areia”,
bando de crianças delinqüentes, e o assalto levado a efeito por este mesmo bando na
residência do comendador José Ferreira, o doutor chefe de polícia se apressa a
comunicar à direção deste jornal que a solução do problema compete antes ao juiz
de maiores que à policia. A polícia neste caso deve agir em obediência a um pedido
do doutor Juiz de Menores. Mas que, no entanto, vai tomar sérias providências para
que semelhantes atentados não se repitam e para que os autores do de anteontem
sejam presos para sofrerem o castigo merecido.
Pelo exposto fica claramente provado que a polícia não merece nenhuma crítica pela
sua atitude em face desse problema. Não tem agido com maior eficiência porque não
foi solicitada pelo juiz de menores.
Cordiais saudações.
Secretário do Chefe de Policia.”
Publicada em primeira página do Jornal da Tarde, com clichê do chefe
de polícia e um vasto comentário elogioso.
CARTA DO DOUTOR JUIZ DE MENORES À REDAÇÃO DO JORNAL DA
TARDE
“Exmo. Sr. diretor do Jornal da Tarde.
Cidade do Salvador
Neste Estado.
Meu caro patrício.
Cordiais saudações.
Folheando, num dos raros momentos de lazer que me deixam as múltiplas e variadas
preocupações do meu espinhoso cargo, o vosso brilhante vespertino, tomei
conhecimento de uma epístola do infatigável doutor chefe de polícia do Estado, na
qual dizia dos motivos por que a polícia não pudera até a data presente intensificar a
meritória campanha contra os menores delinqüentes que infestam a nossa urbe.
Justifica-se o doutor chefe de polícia declarando que não possuía ordens do juizado
de menores no sentido de agir contra a delinqüência infantil. Sem querer
absolutamente culpar a brilhante e infatigável chefia de polícia, sou obrigado, a bem
da verdade essa mesma verdade que tenho colocado como o farol que ilumina a
estrada da minha vida com a sua luz puríssima, a declarar que a desculpa não
procede. Não procede, senhor diretor, porque ao juizado de menores não compete
perseguir e prender os menores delinqüentes e, sim, designar o local onde devem
cumprir pena, nomear curador para acompanhar qualquer processo contra eles
instaurado, etc. Não cabe ao juizado de menores capturar os pequenos delinqüentes.
Cabe velar pelo seu destino posterior. E o senhor doutor chefe de polícia sempre há
de me encontrar onde o dever me chama, porque jamais, em 50 anos de vida
impoluta, deixei de cumpri-lo.
Ainda nestes últimos meses que decorreram mandei para o Reformatório de
Menores vários menores delinqüentes ou abandonados. Não tenho culpa, porém, de
que fujam, que não se impressionem com o exemplo de trabalho que encontram
naquele estabelecimento de educação e que, por meio da fuga, abandonem um
ambiente onde se respiram paz e trabalho e onde são tratados com o maior carinho.
Fogem e se tornam ainda mais perversos, como se o exemplo que houvessem
recebido fosse mau e daninho. Por quê? Isso é um problema que aos psicólogos cabe
resolver e não a mim, simples curioso da filosofia.
O que quero deixar claro e cristalino, senhor diretor, é que o doutor chefe de polícia
pode contar com a melhor ajuda deste juizado de menores para intensificar a
campanha contra os menores delinqüentes.
De V.Exa., admirador e patrício grato,
Juiz de Menores.”
Publicada no Jornal da Tarde com o clichê do juiz de menores em
uma coluna e um pequeno comentário elogioso.
CARTA DE UMA MÃE, COSTUREIRA, À REDAÇÃO DO “JORNAL DA
TARDE”
Sr. Redator:
Desculpe os erros e a letra pois não sou costumeira nestas coisas de escrever e se
hoje venho a vossa presença é para botar os pontos nos ii. Vi no jornal uma notícia
sobre os furtos dos “Capitães da Areia” e logo depois veio a polícia e disse que ia
perseguir eles e então o doutor dos menores veio com uma conversa dizendo que era
uma pena que eles não se emendavam no reformatório para onde ele mandava os
pobres. É pra falar no tal do reformatório que eu escrevo estas mal traçadas linhas.
Eu queria que seu jornal mandasse uma pessoa ver o tal do reformatório para ver
como são tratados os filhos dos pobres que têm a desgraça de cair nas mãos daqueles
guardas sem alma. Meu filho Alonso teve lá seis meses e se eu não arranjasse tirar
ele daquele inferno em vida, não sei se o desgraçado viveria mais seis meses. O
menos que acontece pros filhos da gente é apanhar duas e três vezes por dia. O
diretor de lá vive caindo de bêbedo e gosta de ver o chicote cantar nas costas dos
filhos dos pobres. Eu vi isso muitas vezes porque eles não ligam pra gente e diziam
que era para dar exemplo. Foi por isso que tirei meu filho de lá. Se o jornal do
senhor mandar uma pessoa lá, secreta, há de ver que comida eles comem, o trabalho
de escravo que têm, que nem um homem forte agüenta, e as surras que tomam. Mas
é preciso que vá secreto senão se eles souberem vira um céu aberto.Vá de repente e
há de ver quem tem razão. E por essas e outras que existem os “Capitães da Areia”.
Eu prefiro ver meu filho no meio deles que no tal reformatório. Se o senhor quiser
ver uma coisa de cortar o coração vá lá.Também se quiser pode conversar com o
Padre José Pedro, que foi capelão de lá e viu tudo isso. Ele também pode contar e
com melhores palavras que eu não tenho.
Maria Ricardina, costureira.
Publicada na quinta pagina do jornal da Tarde, entre anúncios, sem
clichês e sem comentários
CARTA DO PADRE JOSE PEDRO À REDAÇÃO DO “JORNAL DA TARDE”
Sr. Redator do Jornal da Tarde.
Saudações em Cristo.
Tendo lido, no vosso conceituado jornal, a carta de Maria Ricardina que apelava
para mim como pessoa que podia esclarecer o que é a vida das crianças recolhidas
ao reformatório de menores, sou obrigado a sair da obscuridade em que vivo para vir
vos dizer que infelizmente Maria Ricardina tem razão. As crianças no aludido
reformatório são tratadas como feras, essa é a verdade. Esqueceram a lição do suave
Mestre, senhor Redator, e em vez de conquistarem as crianças com bons tratos,
fazem-nas mais revoltadas ainda com espancamentos seguidos e castigos físicos
verdadeiramente desumanos. Eu tenho ido lá levar às crianças o consolo da religião
e as encontro pouco dispostas a aceitá-lo devido naturalmente ao ódio que estão
acumulando naqueles jovens corações tão dignos de piedade. O que tenho visto,
senhor Redator, daria um volume.
Muito grato pela atenção.
Servo em Cristo,
Padre José Pedro
Carta publicada na terceira página do Jornal da Tarde, sob o título
“Será Verdade?” e sem comentários.
CARTA DO DIRETOR DO REFORMATÓRIO À REDAÇÃO DO “JORNAL DA
TARDE”
Exmo. Sr. diretor do Jornal da Tarde.
Saudações.
Tenho acompanhado com grande interesse a campanha que o brilhante órgão da
imprensa baiana, que com tão rútila inteligência dirigis, tem feito contra os crimes
apavorantes dos “Capitães da areia”, bando de delinqüentes que amedronta a cidade
e impede que ela viva sossegadamente.
Foi assim que li duas cartas de acusações contra o estabelecimento que dirijo e que a
modéstia e somente a modéstia, senhor diretor me impede que chame de modelar.
Quanto à carta de uma mulherzinha do povo, não me preocupei com ela, não
merecia a minha resposta. Sem dúvida é uma das multas que aqui vêm e querem
impedir que o Reformatório cumpra a sua santa missão de educar os seus filhos.
Elas os criam na rua, na pândega, e como eles aqui são submetidos a uma vida
exemplar, elas são as primeiras a reclamar, quando deviam beijar as mãos daqueles
que estão fazendo dos seus filhos homens de bem. Primeiro vêm pedir lugar para os
filhos. Depois sentem falta deles, do produto dos furtos que eles levam para casa, e
então saem a reclamar contra o Reformatório. Mas, como já disse, senhor diretor,
esta carta não me preocupou. Não é uma mulherzinha do povo quem há de
compreender a obra que estou realizando à frente deste estabelecimento.
O que me abismou, senhor diretor, foi a carta do Padre José Pedro. Este sacerdote,
esquecendo as funções do seu cargo, veio lançar contra o estabelecimento que dirijo
graves acusações. Esse padre que eu chamarei padre do demônio, se me permitis
uma pequena ironia, senhor diretor abusou das suas funções para penetrar no nosso
estabelecimento de educação em horas proibidas pelo regulamento e contra ele eu
tenho de formular uma séria queixa: ele tem incentivado os menores que o Estado
colocou a meu cargo à revolta, à desobediência. Desde que ele penetrou os umbrais
desta casa que os casos de rebeldia e contravenções aos regulamentos aumentaram.
O tal padre é apenas um instigador do mau caráter geral dos menores sob a minha
guarda. E por isso vou fechar-lhe as portas desta casa de educação.
Porém, senhor diretor, fazendo minhas as palavras da costureira que escreveu a este
jornal, sou eu quem vem vos pedir que envieis um redator ao Reformatório. Disso
faço questão. Assim podereis, e o público também, ter ciência exata e fé verdadeira
sobre a maneira como são tratados os menores que se regeneram no Reformatório
Baiano de Menores Delinqüentes e Abandonados. Espero o vosso redator na
segunda-feira. E se não digo que ele venha no dia que quiser é que estas visitas
devem ser feitas nos dias permitidos pelo regulamento e é meu costume nunca me
afastar do regulamento. Este é o motivo único por que convido o vosso redator para
segunda-feira. Pelo que vos fico imensamente grato, como pela publicação desta.
Assim ficará confundido o falso vigário de Cristo.
Criado agradecido e admirador atento,
Diretor do Reformatório Baiano de Menores Delinqüentes e Abandonados
Publicada na 3º página do Jornal da Tarde com um clichê do
reformatório e uma notícia adiantando que na próxima segunda-feira
irá um redator do Jornal da Tarde ao reformatório.
UM ESTABELECIMENTO MODELAR ONDE REINAM A PAZ E O TRATADO
– UM DIRETOR QUE É UM AMIGO – ÓTIMA COMIDA – CRIANÇAS
LADRONAS EM CAMINHO DA REGENERAÇÃO – ACUSAÇÕES
IMPROCEDENTES – SÓ UM INCORRIGÍVEL RECLAMA – O
“REFORMATÓRIO BAIANO” É UMA GRANDE FAMÍLIA – ONDE DEVIAM
ESTAR OS “CAPITÃES DA AREIA”.
Títulos da reportagem publicada na segunda edição de terça-feira do
jornal da Tarde, ocupando toda a primeira página, sobre o
Reformatório Baiano, com diversos clichês do prédio e um do diretor.
Sob a lua num velho trapiche abandonado
O trapiche
Sob a lua, num velho trapiche abandonado, as crianças dormem.
Antigamente aqui era o mar. Nas grandes e negras pedras dos alicerces do trapiche
as ondas ora se rebentavam fragorosas, ora vinham se bater mansamente. A água
passava por baixo da ponte sob a qual muitas crianças repousam agora, iluminadas
por uma réstia amarela de lua. Desta ponte saíram inúmeros veleiros carregados,
alguns eram enormes e pintados de estranhas cores, para a aventura das travessias
marítimas. Aqui vinham encher os porões e atracavam nesta ponte de tábuas, hoje
comidas. Antigamente diante do trapiche se estendia o mistério do mar-oceano, as
noites diante dele eram de um verde escuro, quase negras, daquela cor misteriosa
que é a cor do mar à noite.
Hoje a noite é alva em frente ao trapiche. É que na sua frente se estende agora o
areal do cais do porto. Por baixo da ponte não há mais rumor de ondas. A areia
invadiu tudo, fez o mar recuar de muitos metros. Aos poucos, lentamente, a areia foi
conquistando a frente do trapiche. Não mais atracaram na sua ponte os veleiros que
iam partir carregados. Não mais trabalharam ali os negros musculosos que vieram da
escravatura. Não mais cantou na velha ponte uma canção um marinheiro
nostálgico.A areia se estendeu muito alva em frente ao trapiche. É nunca mais
encheram de fardos, de sacos, de caixões, o imenso casarão. Ficou abandonado em
meio ao areal, mancha negra na brancura do cais.
Durante anos foi povoado exclusivamente pelos ratos que ai atravessavam em
corridas brincalhonas, que rolam a madeira das portas monumentais, que o
habitavam como senhores exclusivos. Em certa época um cachorro vagabundo o
procurou como refúgio contra o vento e contra a chuva. Na primeira noite não
dormiu, ocupado em despedaçar ratos que passavam na sua frente. Dormiu depois de
algumas noites, ladrando à lua pela madrugada, pois grande parte do teto já ruíra e
os raios da lua penetravam livremente, iluminando o assoalho de tábuas grossas.
Mas aquele era um cachorro sem pouso certo e cedo partiu em busca de outra
pousada, o escuro de uma porta, o vão de urna ponte, o corpo quente de uma cadela.
E os ratos voltaram a dominas até que os Capitães da Areia lançaram as suas vistas
para o casarão abandonado.
Neste tempo a porta caíra para um lado e um do grupo, certo dia em que passeava na
extensão dos seus domínios porque toda a zona do areal do cais, como aliás toda a
cidade da Bahia, pertence aos Capitães da Areia, entrou no trapiche.
Seria bem melhor dormida que a pura areia, que as pontes dos demais trapiches onde
por vezes a água subia tanto que ameaçava levá-los. E desde esta noite uma grande
parte dos Capitães da Areia dormia no velho trapiche abandonado, em companhia
dos ratos, sob a lua amarela. Na frente, a vastidão da areia, uma brancura sem
fim.Ao longe, o mar que arrebentava no cais. Pela porta viam as luzes dos navios
que entravam e saiam. Pelo teto viam o céu de estrelas, alua que os iluminava.
Logo depois transferiram para o trapiche o depósito dos objetos que o trabalho do
dia lhes proporcionava. Estranhas coisas entraram então para o trapiche. Não mais
estranhas, porém, que aquela meninos, moleques de todas as cores e de idades as
mais variadas, desde os 9 aos 16 anos, que à noite se estendiam pelo assoalho e por
debaixo da ponte e dormiam, indiferentes ao vento que circundava o casarão
uivando, indiferentes à chuva que muitas vezes os lavava, mas com os olhos
puxados para as luzes dos navios, com os ouvidos presos às canções que vinham das
embarcações...
É aqui também que mora o chefe dos Capitães da Areia: Pedro Bala. Desde cedo foi
chamado assim, desde seus cinco anos. Hoje tem 15 anos. Há dez que vagabundeia
nas ruas da Bahia. Nunca soube de sua mãe, seu pai morrera de um balaço. Ele ficou
sozinho e empregou anos em conhecer a cidade. Hoje sabe de todas as suas ruas e de
todos os seus becos. Não há venda, quitanda, botequim que ele não conheça.
Quando se incorporou aos Capitães da Areia o cais recém-construído atraiu para as
suas areias todas as crianças abandonadas da cidade o chefe era Raimundo, o
Caboclo, mulato avermelhado e forte.
Não durou muito na chefia o caboclo Raimundo. Pedro Bala era muito mais ativo,
sabia planejar os trabalhos, sabia tratar com os outros, trazia nos olhos e na voz a
autoridade de chefe. Um dia brigaram. A desgraça de Raimundo foi puxar uma
navalha e cortar o rosto de Pedro, um talho que ficou para o resto da vida. Os outros
se meteram e como Pedro estava desarmado deram razão a ele e ficaram esperando a
revanche, que não tardou. Uma noite, quando Raimundo quis surrar Barandão,
Pedro tomou as dores do negrinho e rolaram na luta mais sensacional a que as areias
do cais jamais assistiram. Raimundo era mais alto e mais velho. Porém Pedro Bala,
o cabelo loiro voando, a cicatriz vermelha no rosto, era de uma agilidade espantosa e
desde esse dia Raimundo deixou não só a chefia dos Capitães da Areia, como o
próprio areal. Engajou tempos depois num navio.
Todos reconheceram os direitos de Pedro Bala à chefia, e foi desta época que a
cidade começou a ouvir falar nos Capitães da Areia, crianças abandonadas que
viviam do furto. Nunca ninguém soube o número exato de meninos que assim
viviam. Eram bem uns cem e destes mais de quarenta dormiam nas ruínas do velho
trapiche.
Vestidos de farrapos, sujos, semi-esfomeados, agressivos, soltando palavrões e
fumando pontas de cigarro, eram, em verdade, os donos da cidade, os que a
conheciam totalmente, os que totalmente a amavam, os seus poetas.
Noite dos Capitães da Areia
A grande noite de Paz da Bahia veio do Cais, envolveu os saveiros, o forte, o
quebra-mar, se estendeu sobre as ladeiras e as torres das igrejas. Os sinos já não
tocam as ave-marias que as seis horas há muito que passaram. E o céu está cheio de
estrelas, se bem a lua não tenha surgido nesta noite clara. O trapiche se destaca na
brancura do areal, que conserva as marcas dos passos dos Capitães da Areia, que já
se recolheram. Ao longe, a fraca luz da lanterna da Porta do Mar, botequim de
marítimos, parece agonizar. Passa um vento frio que levanta a areia e torna difíceis
os passos do negro João Grande, que se recolhe. Vai curvado pelo vento como a vela
de um barco. E alto, o mais alto do bando, e o mais forte também, negro de
carapinha baixa e músculos retesados, embora tenha apenas treze anos, dos quais
quatro passados na mais absoluta liberdade, correndo as ruas da Bahia com os
Capitães da Areia. Desde aquela tarde em que seu pai, carroceiro gigantesco, foi
pegado por um caminhão quando tentava desviar o cavalo para um lado da rua, João
Grande não voltou pequena casa do morro. Na sua frente estava a cidade misteriosa,
e ele partiu para conquistá-la. A cidade da Bahia, negra e religiosa, é quase tão
misteriosa como o verde mar. Por isso João Grande não voltou mais. Engajou com 9
anos nos Capitães da Areia, quando o Caboclo ainda era o chefe e o grupo pouco
conhecido, pois o Caboclo não gostava de se arriscar. Cedo João Grande se fez um
dos chefes e nunca deixou de ser convidado para as reuniões que os maiorais faziam
planejar os furtos. Não que fosse um bom organizador de assalta uma inteligência
viva. Ao contrário, doía-lhe a cabeça se tinha que pensar. Ficava com os olhos
ardendo, como ficava também quando via alguém fazendo maldade com os
menores. Então seus músculos se retesavam e estava disposto a qualquer briga. Mas
a sua enorme força muscular o fizera temido. O Sem-Pernas dizia dele:
– Este negro é burro mas é uma prensa...
E os menores, aqueles pequeninos que chegavam para o grupo cheios de receio
tinham nele o mais decidido protetor. Pedro, o chefe, também gostava de ouvi-lo. E
João Grande bem sabia que não era por causa da sua força que tinha a amizade do
Bala. Pedro achava que o negro era bom e não se cansava de dizer:
– Tu é bom, Grande. Tu é melhor que a gente. Gosto de você – e batia pancadinhas
na perna do negro, que ficava encabulado.
João Grande vem vindo para o trapiche. O vento quer impedir passos e ele se curva
todo, resistindo contra o vento que levanta a areia. Ele foi à Porta do Mar beber um
trago de cachaça com o Querido-de-Deus, que chegou hoje dos mares do Sul, de
uma pescaria. O Querido-de-Deus é o mais célebre capoeirista da cidade. Quem não
o respeita na Bahia? No jogo de capoeira de Angola ninguém pode se medir com o
Querido-de-Deus, nem mesmo Zé Moleque, que deixou fama no Rio de Janeiro. O
Querido-de-Deus contou as novidades e avisou que no dia seguinte apareceria no
trapiche para continuar as lições de capoeira que Pedro Bala, João Grande e o Gato
tomam. João Grande fuma um cigarro e anda para o trapiche. As marcas dos seus
grandes pés ficam na areia, mas o vento logo as destrói. O negro pensa que nessa
noite de tanto vento são perigosos os caminhos do mar.
João Grande passa por debaixo da ponte – os pés afundam na areia – evitando tocar
no corpo dos companheiros que já dormem. Penetra no trapiche. Espia um momento
indeciso até que nota a luz da vela do Professor. Lá está ele, no mais longínquo
canto do casarão, lendo à luz de uma vela. João Grande pensa que aquela luz ainda é
menor e mais vacilante que a da lanterna da Porta do Mar e que o Professor está
comendo os olhos de tanto ler aqueles livros de letra miúda. João Grande anda para
onde está o Professor, se bem durma sempre na porta do trapiche, como um cão de
fila, o punhal próximo da mão, para evitar alguma surpresa.
Anda entre os grupos que conversam, entre as crianças que dormem, e chega para
perto do Professor. Acocora-se junto a ele e fica espiando a leitura atenta do outro.
João José, o Professor, desde o dia em que furtara um livro de histórias numa estante
de uma casa da Barra, se tomara perito nestes furtos. Nunca, porém, vendia os
livros, que ia empilhando num canto do trapiche, sob tijolos, para que os ratos não
os roessem. Lia-os todos numa ânsia que era quase febre. Gostava de saber coisas e
era ele quem muitas noites, contava aos outras histórias de aventureiros, de borne do
mar, de personagens heróicos e lendários, histórias que faziam aqueles olhos vivos
se espicharem para o mar ou para as misteriosas ladeiras da cidade, numa ânsia de
aventuras e de heroísmo. João José era o único que lia correntemente entre eles e, no
entanto, só estive na escola ano e meio. Mas o treino diário da leitura despertara
completamente sua imaginação e talvez fosse ele o único que tivesse uma certa
consciência do heróico das suas vidas. Aquele saber, aquela vocação para contar
histórias, fizera-o respeitado entre os Capitães Areia, se bem fosse franzino, magro e
triste, o cabelo moreno caindo sobre os olhos apertados de míope. Apelidaram-no de
Professor porque num livro furtado ele aprendera a fazer mágicas com lenços
níqueis e também porque, contando aquelas histórias que lia e muitas que inventava,
fazia a grande e misteriosa mágica de os transportar para mundos diversos, fazia
com que os olhos vivos dos Capitães da Areia brilhassem como só brilham as
estrelas da noite da Bahia. Pedro Bala nada resolvia sem o consultar e várias vezes
foi a imaginação Professor que criou os melhores planos de roubo. Ninguém sabia,
entanto, que um dia, anos passados, seria ele quem haveria de contar em quadros
que assombrariam o país a história daquelas vidas e muitas outras histórias de
homens lutadores e sofredores. Talvez só o sou se Don’Aninha, a mãe do terreiro da
Cruz de Opô Afonjá, porque Don’Aninha sabe de tudo que Yá lhe diz através de um
búzio noites de temporal.
João Grande ficou muito tempo atento à leitura. Para o negro aquelas letras nada
diziam. O seu olhar ia do livro para a luz oscilante da vela, e desta para o cabelo
despenteado do Professor. Terminou por se cansar e perguntou com sua voz cheia e
quente:
– Bonita, Professor?
Professor desviou os olhos do livro, bateu a mão descarnada no ombro do negro, seu
mais ardente admirador:
– Uma história porreta, seu Grande. – Seus olhos brilhavam.
– De marinheiro?
– É de um negro assim como tu. Um negro macho de verdade.
– Tu conta?
– Quando findar de ler eu conto. Tu vai ver só que negro...
E volveu os olhos para as páginas do livro. João Grande acendeu um cigarro barato,
ofereceu outro em silêncio ao Professor e ficou fumando de cócoras, como que
guardando a leitura do outro. Pelo trapiche ia um rumor de risadas, de conversas, de
gritos. João Grande distinguia bem a voz do Sem-Pernas, estrídula e fanhosa.O Sem-
Pernas falava alto, ria muito. Era o espião do grupo, aquele que sabia se meter na
casa de uma família uma semana, passando por um bom menino perdido dos pais na
imensidão agressiva da cidade. Coxo, o defeito físico valera-lhe o apelido. Mas
valia-lhe também a simpatia de quanta mãe de família o via, humilde e tristonho, na
sua porta pedindo um pouco de comida e pousada por uma noite. Agora, meio do
trapiche, O Sem-Pernas metia a ridículo o Gato, que perde todo um dia para furtar
um anelão cor de vinho, sem nenhum valo, real, pedra falsa, de falsa beleza também.
Fazia já uma semana que o Gato avisara a meio mundo:
– Vi um anelão, seu mano, que nem de bispo. Um anelão bom pro meu dedo. Batuta
mesmo. Tu vai ver quando eu trouxer...
– Em que vitrine?
– No dedo de um pato. Um gordo que todo dia toma o bonde de Brotas na Baixa do
Sapateiro.
E o Gato não descansou enquanto não conseguiu, no aperto um bonde das seis horas
da tarde, tirar o anel do dedo do homem, escapulindo na confusão, porque o dono
logo percebeu. Exibia o anel no dedo médio, com vaidade. O Sem-Pernas ria:
– Arriscar cadeia por uma porcaria! Um troço feio...
– Que tem tu com isso? Eu acho bom, tá acabado.
– Tu é burro mesmo. Isso no prego não dá nada.
– Mas dá simpatia no meu dedo. Tou arranjando uma comida
Falavam naturalmente em mulher apesar do mais velho ter apenas 16 anos. Cedo
conheciam os mistérios do sexo.
Pedro Bala, que ia entrando, desapartou o começo de briga. João Grande deixou o
Professor lendo e veio para junto do chefe. O Sem-Pernas ria sozinho, resmungando
acerca do anel. Pedro o chamou e foi com ele e com João Grande para o canto onde
estava Professor...
– Vem cá, Professor.
Ficaram os quatro sentados. O Sem-Pernas acendeu uma ponta de charuto caro,
ficou saboreando. João Grande espiava o pedaço de mar que se via através da porta,
além do areal. Pedro falou:
– Gonzales do 14 falou hoje comigo...
– Quer mais corrente de ouro? Da outra vez... – atalhou O Sem-Pernas.
– Não. Tá querendo chapéu. Mas só topa de feltro. Palhinha não vale, diz que não
tem saída. E também...
– Que é que tem mais? – novamente interrompeu O Sem-Pernas.
– Tem que muito usado não presta.
– Tá querendo muita coisa. Se ainda pagasse que valesse a pena.
– Tu sabe, Sem-Pernas, que ele é um bicho caiado. Pode não pagar bem, mas é uma
cova. Dali não sai nada, nem a gancho.
– Também paga uma miséria. E é interesse dele não dizer nada. Se ele abrir a boca
no mundo não há costas largas que livre ele do xilindró...
– Tá bom, Sem-Pernas, você não quer topar o negócio, vá embora, mas deixe a
gente combinar as coisas direito.
– Não tou dizendo que não topo. Tou só falando que trabalhar pra um gringo ladrão
não é negócio. Mas se tu quer...
– Ele diz que desta vez vai pagar melhor. Uma coisa que pague a pena. Mas só
chapéu de feltro bom e novo. Tu, Sem-Pernas, podia ir com uns fazer esse
negócio.Amanhã de noite Gonzales manda um empregado do 14 aqui pra trazer os
miúdos e levar as carapuças.
– Bom lugar e nos cinemas – disse o Professor voltando-se para O Sem-Pernas.
– Bom é na Vitória... – e o Sem-Pernas fez um gesto de desprezo. – É só entrar nos
corredores e aquilo é chapéu garantido... Tudo gente de nota.
– Também tem guarda em penca...
– Tu liga pra guarda? Se ainda fosse “tira”... Guarda é pra correr “picula”. Tu vai
comigo, Professor?
– Vou. Mesmo que tou precisando de um chapéu.
Pedro Bala falou:
– Arranja os que quiser, Sem-Pernas. Este negócio fica por tua conta. Menos o
Grande e o Gato, que eu tenho um negócio com eles pra amanhã – virou-se para
João Grande. – Um negócio do Querido-de-Deus.
– Ele já teve me avisando. E diz-que de noite vem pra capoeira. Pedro voltou-se para
o Sem-Pernas, que já se retirava para ir combinar com Pirulito a formação do grupo
que ia em cata de chapéus no dia seguinte:
– Olha, Sem-Pernas, tu trata de avisar que se algum for bispado trate de dar o suíte
para outro lado. Não venha pra cá.
Pediu um cigarro, João Grande deu. O Sem-Pernas, já afastado, chamava Pirulito.
Pedro foi em busca do Gato, tinha um assunto a conversar com ele. Depois voltou,
se estendeu perto do lugar onde estava Professor. Este retornou ao seu livro, sobre o
qual se debruçou até que a vela queimou-se toda e a escuridão do trapiche o
envolveu. João Grande caminhou vagarosamente para a porta, onde se deitou ao
comprido, o punhal no cinto. Pirulito era magro e muito alto, uma cara seca, meio
amarelada, os olhos encovados e fundos, a boca rasgada e pouco risonha. O Sem-
Pernas primeiro fez pilhéria perguntando se ele já estava rezado, depois entrou no
assunto da pilhagem de chapéus, acertaram que a levariam um certo número de
meninos que escolheram cuidadosamente, marcaram as zonas onde operariam e se
separaram. Pirulito então foi para o seu canto costumeiro. Dormia invariavelmente
ali, onde as paredes do trapiche faziam um ângulo. Tinha disposto carinhosamente
as suas coisas: um cobertor velho, um travesseiro que trouxera certa vez de um hotel
onde penetrara levando as malas de um viajante, um par de calças que vestia aos
domingos junto com uma blusa de cor indefinida, porém mais ou menos limpa. E
pregados na parede, com pregos pequenos, dois quadros de santos: um Santo
Antônio carregando um Menino Deus Pirulito se chamava Antônio e tinha ouvido
dizer que Santo Antônio era brasileiro e uma Nossa Senhora das Sete Dores que
tinha o peito cravado de setas: sob o seu quadro uma flor murcha. Pirulito recolheu a
flor, aspirou-a, viu que não tinha mais perfume. Então a amarrou junto ao bentinho
que trazia no peito e do bolso do velho paletó que vestia retirou um cravo vermelho
que colhera num jardim, mesmo sob as vistas do guarda, naquela hora indecisa do
crepúsculo. E colocou o cravo por baixo do quadro, enquanto fitava a santa com um
olhar comovido. Logo ajoelhou-se. Os outros, a princípio, faziam muita pilhéria
quando o viam de joelhos, rezando. Porém já haviam se acostumado e ninguém mais
reparava. Começou a rezar e seu ar de asceta se pronunciou ainda mais, seu rosto de
criança ficou mais pálido e mais grave, suas mãos longas e magras se levantaram
ante o quadro. Todo seu rosto tinha uma espécie de auréola e a sua voz tonalidades e
vibrações que os companheiros não conheciam. Era como se estivesse fora do
mundo, não no velho e arruinado trapiche, mas numa outra terra, junto com Nossa
Senhora das Sete Dores. No entanto, sua reza era simples e não fora sequer
aprendida em catecismos. Pedia que a Senhora o ajudasse a um dia poder entrar para
aquele colégio que estava no Sodré, e de onde saíam os homens transformados em
sacerdotes.
O Sem-Pernas, que vinha combinar um detalhe da questão dos chapéus e que, desde
que o vira rezando, trazia uma pilhéria preparada, uma pilhéria que só como pensar
nela ele ria e que iria desconcertar completamente Pirulito, quando chegou perto e
viu Pirulito rezando, de mãos levantadas, olhos fixos ninguém sabia onde, o rosto
aberto em êxtase estava como que vestido de felicidade, parou, o riso burlão
murchou nos seus lábios e ficou a espiá-lo meio a medo, possuído de um sentimento
que era um pouco de inveja e um pouco de desespero.
O Sem-Pernas ficou parado, olhando. Pirulito não se mona. Apenas seus lábios
tinham um lento movimento. O Sem-Pernas costumava burlar dele, como de todos
os demais do grupo, mesmo de Professor, de quem gostava, mesmo de Pedro Bala, a
quem respeitava. Logo que um novato entrava para os Capitães da Areia formava
uma idéia ruim de Sem-Pernas. Porque ele logo botava um apelido, ria de um gesto,
de uma frase do novato. Ridicularizava tudo, era dos que mais brigavam. Tinha
mesmo fama de malvado.Uma vez fez tremendas crueldades com um gato que
entrara no trapiche. E um dia cortara de navalha um garçom de restaurante para
furtar apenas um frango assado. Um dia em que teve um abscesso na perna o rasgou
friamente a canivete e na vista de todos o espremeu rindo. Muitos do grupo não
gostavam dele, mas aqueles que passavam por cima de tudo e se faziam seus amigos
diziam que ele era um sujeito bom. No mais fundo do seu coração ele tinha pena da
desgraça de todos. E rindo, e ridicularizando, era que fugia da sua desgraça. Era
como um remédio. Ficou parado olhando Pirulito, que rezava concentrado. No rosto
do que rezava ia uma exaltação, qualquer coisa que ao primeiro momento o Sem-
Pernas pensou que fosse alegria ou felicidade. Mas fitou o rosto do outro e achou
que era uma expressão que ele não sabia definir.E pensou, contraindo o seu rosto
pequeno, que talvez por isso ele nunca tivesse pensado em rezar, em se voltar para o
céu de que tanto falava o padre José Pedro quando vinha vê-los. O que ele queria era
felicidade, era alegria, era fugir de toda aquela miséria, de toda aquela desgraça que
os cercava e os estrangulava. Havia, é verdade, a grande liberdade das ruas. Mas
havia também o abandono de qualquer carinho, a falta de todas as palavras boas.
Pirulito buscava isso no céu, nos quadros de santo, nas flores murchas que trazia
para Nossa Senhora das Sete Dores, como um namorado romântico dos bairros
chiques da cidade traz para aquela a quem ama com intenção de casamento. Mas o
Sem-Pernas não compreendia que aquilo pudesse bastar. Ele queria uma coisa
imediata, uma coisa que pusesse seu rosto sorridente e alegre, que o livrasse da
necessidade de rir de todos e de rir de tudo. Que o livrasse também daquela angústia,
daquela vontade de chorar que o tomava nas noites de inverno.Não queria o que
tinha Pirulito, o rosto cheio de uma exaltação. Queria alegria, uma mão que, o
acarinhasse, alguém que com muito amor o fizesse esquecer o defeito físico e os
muitos anos talvez tivessem sido apenas meses ou semanas, mas para ele seriam
sempre longos anos que vivera sozinho nas ruas da cidade, hostilizado pelos homens
que passavam, empurrado pelos guardas, surrado pelos moleques maiores. Nunca
tivera família. Vivera na casa de um padeiro a quem chamava meu padrinho e que o
surrava. Fugiu logo que pôde compreender que a fuga o libertaria. Sofreu fome, um
dia levaram-no preso. Ele quer um carinho, u’a mão que passe sobre os seus olhos e
faça com que ele possa se esquecer daquela noite na cadeia, quando os soldados
bêbados o fizeram correr com sua perna coxa em volta de uma saleta. Em cada canto
estava um com uma borracha comprida. As marcas que ficaram nas suas costas
desapareceram. Mas de dentro dele nunca desapareceu a dor daquela hora. Corria na
saleta como um animal perseguido por outros mais fortes. A perna coxa se recusava
a ajudá-lo. E a borracha zunia nas suas costas quando o cansaço o fazia parar. A
princípio chorou muito, depois, não sabe como, as lágrimas secaram. Certa hora não
resistiu mais, abateu-se no chão. Sangrava. Ainda hoje ouve como os soldados riam
e como nu aquele homem de colete cinzento que fumava um charuto. Depois
encontrou os Capitães da Areia foi o Professor quem o trouxe, haviam feito
camaradagem num banco de jardim e ficou com eles. Não tardou a se destacar
porque sabia como nenhum afetar uma grande dor e assim conseguir enganar
senhoras, cujas casas eram depois visitadas pelo grupo já ciente de todos os lugares
onde havia objetos de valor e de todos os hábitos da casa. E o Sem-Pernas tinha
verdadeira satisfação ao pensar em quanto o xingariam aquelas senhoras que o
haviam tomado por um pobre órfão. Assim se vingava, porque seu coração estava
cheio de ódio. Confusamente desejava ter uma bomba como daquelas de certa
história que o Professor contara que arrasasse toda a cidade, que levasse todos pelos
ares. Assim ficaria alegre. Talvez ficasse também se viesse alguém, possivelmente
uma mulher de cabelos grisalhos e mãos suaves, que o apertasse contra o peito, que
acarinhasse seu rosto e o fizesse dormir um sono bom, um sono que não estivesse
cheio dos sonhos da noite na cadeia. Assim ficaria alegre, o ódio não estaria mais no
seu coração. E não teria mais desprezo, inveja, ódio de Pirulito que, de mãos
levantadas e olhos fixos, foge do seu mundo de sofrimentos para um mundo que
conheceu nas conversas do padre José Pedro.
Um rumor de conversas se aproxima. Vem um grupo de quatro entrando no silêncio
que já reina na noite do trapiche. O Sem-Pernas se estremece, ri nas costas de
Pirulito, que continua a rezar. Encolhe os ombros, decide deixar para a manhã do dia
seguinte o acerto dos detalhes do furto dos chapéus. E como tem medo de dormir,
vai ao encontro do grupo que chega, pede um cigarro, diz dichotes sobre a aventura
de mulheres que os quatro contam:
– Uns franguinhos como vocês, quem é que vai acreditar que seja capaz de derrubar
uma mulher? Isso devia ser algum xibungo vestido de menina.
Os outros se irritam:
– Tu também se faz de besta. Se quer é só vim com a gente amanhã. Assim tu pode
conhecer a zinha, que é um peixão.
O Sem-Pernas ri, sardônico:
– Não gosto de xibungo.
E sai andando pelo trapiche.
O Gato ainda não está dormindo. Sempre sai depois das onze horas. É o elegante do
grupo. Quando chegou, alvo e rosado, Boa-Vida tentou conquistá-lo. Mas já naquele
tempo o Gato era de uma agilidade incrível e não vinha, como Boa-Vida pensava, da
casa de uma família. Vinha do meio dos Índios Maloqueiros, crianças que m vivem
sob as pontes de Aracaju. Fizera a viagem na rabada de um trem. Conhecia bem a
vida de um grupo de crianças abandonadas. E já tinha da mais de 13 anos. Assim
conheceu logo os motivos por que Boa-Vida, mulato troncudo e feio, o tratou com
tanta consideração, lhe ofereceu cigarros e lhe deu parte do seu jantar e correu com
ele acidade. Depois bateram juntos um par de sapatos novos que estava exposto na
porta de uma casa na Baixa dos Sapateiros. Boa-Vida tinha dito:
– Deixa estar, que eu sei onde se pode vender.
O Gato espiou seus sapatos puídos.
– Eu tava querendo eles pra mim. Já tou precisando...
– Tu com um sapato ainda tão bom... – se admirou Boa-Vida, que raras vezes levava
sapatos e que, naquele momento, estava descalço.
– Eu pago a tua parte. Quanto tu pensa?
Boa-Vida olhou para ele. O Gato levava gravata, um paletó remendado e, coisa
espantosa!, levava meias.
– Tu é da elegância, hein? – sorriu.
– Não nasci para essa vida. Nasci para o grande mundo – disse o Gato, repetindo
uma frase que ouvira certa vez de um caixeiro-viajante num cabaré de Aracaju.
Boa-Vida achava-o decididamente lindo. O Gato tinha um ar petulante, e embora
não fosse uma beleza efeminada, agradava a Boa-Vida, que, além de tudo, não tinha
muita sorte com mulheres, pois aparentava muito menos que 13 anos, baixo e
acachapado. O Gato era alto e sobre os seus lábios de 14 anos começava a surgir
uma penugem de bigode que ele cultivava. Boa-Vida naquele momento o amou com
certeza, porque disse:
– Tu pode ficar com eles... Eu te dou minha parte.
– Tá certo. Fico te devendo.
Boa-Vida quis aproveitar os agradecimentos do outro para iniciar sua conquista. E
baixou a mão pelas coxas do Gato, que se esquivou só com o jogo do corpo. O Gato
riu consigo mesmo e não disse nada. Boa-Vida achou que não devia insistir, senão
era capaz de espantar o menino. Ele não sabia nada do Gato e nem imaginava que
este conhecia seu jogo. Andaram juntos parte da noite, vendo a iluminação da cidade
o Gato estava assombrado, e por volta das onze foram para o trapiche. Boa-Vida
mostrou o Gato a Pedro e levou-o depois para o lugar onde dormia:
– Tenho aqui um lençol. Dá pra nós dois.
O Gato deitou. Boa-Vida se estendeu ao lado. Quando pensou que o outro estava
dormindo o abraçou com uma mão e com a outra começou a puxar-lhe as calças
devagarinho. Num minuto o Gato estava de pé:
– Tu te enganou, mulato. Eu sou é homem.
Mas Boa-Vida já não via nada, só via seu desejo, a vontade que tinha do corpo alvo
do Gato, de enrolar o rosto nos cabelos morenos do Gato, de apalpar as carnes duras
das coxas do Gato. E se atirou em cima dele com intenção de derrubá-lo e forçá-lo.
Mas o Gato desviou o corpo, passou-lhe a perna, Boa-Vida se estendeu de nariz. Já
tinha se formado um grupo em torno. O Gato disse:
– Ele pensava que eu era maricas. Tu te faz de besta.
Arrancou com o lençol de Boa-Vida para outro canto e dormiu e dormiu. Levaram
algum tempo inimigos, mas depois voltaram às boas e agora, quando o Gato se
cansa de uma pequena, entrega ao Boa-Vida.Uma noite o Gato andava pelas ruas
das mulheres, o cabelo muito lustroso de brilhantina barata, uma gravata enrolada no
pescoço, assoviando como se fosse um daqueles malandros da cidade. As mulheres
o olhavam e riam:
– Olha aquele frangote... O que quererá por aqui?
O Gato respondia aos sorrisos e seguia. Esperava que uma o chamasse e fizesse o
amor com ele. Mas não queria por dinheiro, não só porque os níqueis que possuía
não passavam de mil e quinhentos, ou como porque os Capitães da Areia não
gostavam de pagar mulher.
Tinham as negrinhas de dezesseis anos para derrubar no areal.
As mulheres olhavam para a sua figura de garoto. Sem dúvida achavam-no belo na
sua meninice viciada e gostariam de fazer o amor com ele. Mas não o chamavam
porque aquela era a hora em que agi esperavam os homens que pagavam, e elas
tinham que pensar na casa e no almoço do dia seguinte. Se contentavam assim com
rir e fazer pilhérias. Sabiam que dali sairia um daqueles vigaristas que enchem a
vida de uma mulher, que lhe tomam dinheiro, dão pancadas, mas também dão muito
amor. Muitas delas gostariam de ser a primeira mulher deste malandro tão jovem.
Mas eram dez horas, hora dos homens que pagavam. E o Gato andava de um lado
para ou inutilmente. Foi quando viu Dalva, que vinha pela rua embuçada num
capote de peles apesar da noite deverão. Ela passou por ele quase da o ver. Era uma
mulher de uns trinta e cinco anos, corpo forte, rosto cheio de sensualidade. O Gato a
desejou imediatamente. Foi a dela. Viu quando entrou em casa sem se voltar. Ficou
na esq esperando.Minutos depois ela apareceu na janela. O Gato subiu desceu a rua,
mas ela nem o olhava. Depois passou um velho, atendeu ao chamado dela, entrou. O
Gato ainda esperou, porém, mesmo depois do velho ter saído muito apressado,
procurando não ser visto, ela não voltou à janela.
Noites e noites o Gato volveu à mesma esquina só para vê-la. Agora tudo o que
conseguia em dinheiro era para comprar trajes usados e se pôr elegante. Tinha o
dom da elegância malandra, que está mais no jeito de andar, de colocar o chapéu e
dar um laço despreocupado na gravata que na roupa propriamente. O Gato desejava
Dalva do mesmo modo como desejava comida ao ter fome, como desejava dormir
ao ter sono. Já não atendia ao chamado das outras mulheres quando, passada a meianoite,
elas já tinham feito para as despesas do dia seguinte e então queriam o amor
juvenil do pequeno malandro. Uma vez foi com uma só para saber da vida de Dalva.
Foi assim que se inteirou de que ela tinha um amante, um tocador de flauta num
café, que tomava o dinheiro que ela fazia e ainda tomava porres colossais na sua
casa, atrapalhando a vida de todas as rameiras do prédio.
O Gato voltava todas as noites. Dalva nunca lhe deu sequer um olhar. Por isso ele
ainda a amava mais. Ficava numa espera dolorosa até meia hora depois de meianoite,
quando o flautista chegava e, depois de a beijar na janela, entrava pela porta
mal iluminada. Então o Gato ia para o trapiche, a cabeça cheia de pensamentos: se
um dia o flautista não viesse... Se o flautista morresse... Era fraco, talvez não
agüentasse nem o peso dos quatorze anos do Gato. E apertava a navalha que levava
na blusa.
E uma noite o flautista não veio. Nesta noite Dalva andara pelas ruas como uma
doida, voltara tarde para casa, não recebera nenhum homem e agora estava ali,
postada na janela, apesar de já ter dado as doze horas há muito tempo. Aos poucos a
rua foi ficando deserta. Não restaram senão o Gato na esquina e Dalva, que ainda
esperava na janela. O Gato sabia que aquela era a sua noite e estava alegre. Dalva
desesperava. Então o Gato começou a passear de um lado para o outro da rua até que
a mulher o notou e fez um sinal. Ele veio logo, sorrindo.
– Tu não é um frangote que fica na esquina toda noite?
– Quem fica na esquina sou eu. Agora essa coisa de frangote...
Ela sorriu tristemente:
– Tu quer me fazer um favor? Te dou uma coisa – mas logo pensou e fez um gesto.
– Não. Tu com certeza tá esperando tua comida e não vai perder tempo.
– Posso, sim. A que estou esperando não vem agora.
– Então eu quero, filhinho, que tu vá na rua Rui Barbosa. O número é 35. Procura
seu Gastão. E no primeiro andar. Diz a ele que estou esperando.
O Gato saiu humilhado. Primeiro pensou em não ir e em nunca mais voltar a ver
Dalva. Mas depois se decidiu a ir para ver de perto o flautista que tinha coragem de
abandonar uma mulher tão bonita. Chegou no prédio um sobrado negro de muitos
andares, subiu as escadas, no primeiro andar perguntou a um garoto que dormia no
corredor qual era o quarto do Sr. Gastão. O garoto mostrou o último quarto, o Gato
bateu na porta. O flautista veio abrir, estava de cuecas e na cama o Gato viu uma
mulher magra. Estavam os dois bêbados.
O Gato falou:
– Venho da parte de Dalva.
– Diga àquela bruaca que não me amole. Tou chateado dela até aqui... – e punha a
mão aberta na garganta.
De dentro do quarto a mulher falou:
– Quem é esse cocadinha?
– Não te mete – disse o flautista, mas logo acrescentou:
– É um recado da bruaca da Dalva. Tá se pelando que eu volte.
A mulher riu um riso canalha de bêbada:
– Mas tu agora só quer tua Bebezinha, não é? Vem me dar um beijinho, anjo sem
asas.
O flautista riu também:
– Tá vendo, pedaço de gente? Diz isso a Dalva.
– Tou vendo um couro espichado ali, sim senhor. Que urubu você arranjou, hein,
camarada?
O flautista o olhou muito sério:
– Não fale de minha noiva – e logo:
– Quer tomar um trago? É caninha da boa.
O Gato entrou. A mulher na cama se cobriu. O flautista riu:
– É um filhote somente. Não faz medo.
– Mesmo esse couro – disse o Cato – não me tenta. Nem pra me tocar bronha.
Bebeu a cachaça. O flautista já voltara para a cama e beijava a mulher. Nem viram
que o Gato saía e que levava a bolsa da prostituta, que estava esquecida na cadeira,
sobre vestidos. Na rua o Gato contou sessenta e oito mil-réis. Jogou a bolsa no pé da
escada, meteu o dinheiro no bolso. E foi para rua de Dalva, assoviando.
Dalva o esperava na janela. O Gato olhou para ela fixamente:
– Vou emborcar... – e foi entrando sem esperar resposta.
Dalva, mesmo no corredor, perguntou:
– O que foi que ele disse?
– No quarto te digo. Me mostre onde é.
Entraram no quarto. A primeira coisa que o Gato viu foi um retrato de Gastão
tocando flauta, vestido de smoking. Sentou na cama olhando o retrato.
Dalva espiava espantada e mal pôde novamente interrogar:
– O que foi que ele disse?
O Gato respondeu:
– Senta aqui – e indicou a cama.
– Esse frangote... – murmurou ela.
– Olha, bichinha, ele tá grudado com outra, sabe? Também eu disse as boas aos dois.
E depois pelei a bruaca – meteu a mão no bolso, tirou o dinheiro. – Vamos rachar
isso.
– Tá com outra, não é? Mas meu Senhor do Bonfim há de fazer com que os dois
fique entrevado. Senhor do Bonfim é meu santo.
Foi até onde estava o quadro do santo. Fez a promessa e voltou.
– Guarda teu dinheiro. Tu ganhou direito.
O Gato repetiu:
– Senta aqui.
Desta vez ela sentou, ele a pegou e a derrubou na cama. Depois que ela gemeu com
o amor e com os tabefes que ele lhe deu, murmurou:
– O frangote parece um homem...
Ele se levantou, endireitou as calças, foi até onde estava o retrato do flautista Gastão
e o rasgou.
– Vou tirar um retrato pra tu botar ai.
A mulher riu e disse:
– Vem, bichinho bom. Que malandro não vai sair dai! Vou te ensinar tanta coisa,
meu cachorrinho.
Fechou a porta do quarto. O Gato tirou a roupa.
Por isso o Gato sai toda meia-noite e não dorme no trapiche. Só volta pela manhã
para ir com os outros para as aventuras do dia.
O Sem-Pernas se aproximou e pilheriou:
– Agora tu vai mostrar o anel, não é?
– Tu não tem nada com isso – o Gato fumava um cigarro. – Tu quer vir pra ver se
topa alguma mulher que te queira assim coxo?
– Não vou em casa de couros. Sei onde tem coisas que valha a pena.
Mas o Gato não estava disposto a conversar e o Sem-Pernas continuou a sua
peregrinação através do trapiche.
O Sem-Pernas encostou-se junto a uma parede e deixou que o tempo passasse. Viu o
Gato sair por volta das onze e meia. Sorriu porque ele havia lavado a cara, posto
brilhantina no cabelo e ia marchando com aquele passo gingado que caracteriza os
malandros e os marítimos. Depois o Sem-Pernas ficou muito tempo olhando as
crianças que dormiam. Ali estavam mais ou menos cinqüenta crianças, sem pai, sem
mãe, sem mestre. Tinham de si apenas a liberdade de correr as ruas. Levavam vida
nem sempre fácil, arranjando o que comer e o que vestir, ora carregando uma mala,
ora furtando carteiras e chapéus, ora ameaçando homens, por vezes pedindo esmola.
E o grupo era de mais de cem crianças, pois muitas outras não dormiam no trapiche.
Se espalhavam nas portas dos arranha-céus, nas pontes, nos barcos virados na areia
do Porto da Lenha. Nenhuma delas reclamava. Por vezes morria um de moléstia que
ninguém sabia tratar, Quando calhava vir o padre José Pedro, ou a mãe-de-santo
Don’Aninha ou também o Querido-de-Deus, o doente tinha algum remédio. Nunca,
porém, era como um menino que tem sua casa. O Sem-Pernas ficava pensando.
E achava que a alegria daquela liberdade era pouca para a desgraça daquela vida.
Voltou-se porque ouviu movimento. Alguém se levantava no meio do casarão. O
Sem-Pernas reconheceu o negrinho Barandão, que se dirigia de manso para o areal
de fora do trapiche. O Sem-Pernas pensou que ele ia esconder qualquer coisa que
furtara e não quem mostrar aos companheiros. E aquilo era um crime conta as Leis
dobando. O Sem-Pernas seguiu Barandão, atravessando ente os que dormiam. O
negrinho já tinha transposto a porta do trapiche e dava a volta no prédio para o lado
esquerdo. Em cima era o céu de estrelas.
Barandão agora caminhava apressadamente. O Sem-Pernas notou que ele se dirigia
para o outro extremo do trapiche, onde a areia era mais fina ainda. Foi então pelo
outro lado e chegou a tempo de ver Barandão que se encontrava com um vulto. Logo
o reconheceu: era Almiro, um do grupo, de doze anos, gordo e preguiçoso.
Deitaram-se juntos, o negro acariciando Admiro. O Sem-Pernas chegou a ouvir
palavras. Um dizia: meu filhinho, meu filhinho. O Sem-Pernas recuou e a sua
angústia cresceu. Todos procuravam um carinho, qualquer coisa fora daquela vida: o
Professor naqueles livros que lia a noite toda, o Gato na cama de uma mulher da
vida que lhe dava dinheiro, Pirulito na oração que o transfigurava, Barandão e
Almiro no amor na areia do cais. O Sem-Pernas sentia que uma angústia o tomava e
que era impassível dormir. Se dormisse viriam os maus sonhos da cadeia. Queria
que aparecesse alguém a quem ele pudesse torturar com dichotes. Queria uma briga.
Pensou em ir acender um fósforo na perna de um que dormisse. Mas quando olhou
da porta do trapiche, sentiu somente pena e uma doida vontade de fugir. E saiu
correndo pelo areal, correndo sem fito, fugindo da sua angústia.
Pedro Bala acordou com um ruído perto de si. Dormia de bruços e olhou por baixo
dos braços. Viu que um menino se levantava e se aproximava cautelosamente do
canto de Pirulito. Pedro Bala, no meio do sana em que estava, pensou, a princípio,
que se tratasse de um caso de pederastia. E ficou atento para expulsar o passivo do
grupo, pois uma das leis do grupo era que não admitiriam pederastas passivos. Mas
acordou completamente e logo recordou que era impossível, pois Pirulito não era
destas coisas. Devia se tratar de furto. Realmente o garoto já abria o baú de Pirulito.
Pedro Bala se atirou em cima dele.
A luta foi rápida. Pirulito acordou, mas os demais dormiam.
– Tu tá roubando um companheiro?
O outro ficou calado, coçando o queixo ferido. Pedro Bala continuou:
– Amanhã tu vai embora... Não quero mais tu com a gente. Vai ficar com a gente de
Ezequiel, que vive roubando uns dos outros.
– Eu só queria era ver...
– Que era que tu vinha ver com as mãos?
– Juro que era só para ver aquela medalha que ele tem.
– Desembucha esta história direito senão leva porrada.
Pirulito se meteu:
– Deixa ele, Pedro.
Era bem capaz de querer ver mesmo a medalha. É uma medalha que o padre José
Pedro me deu.
– E isso mesmo – disse o menino –, eu só queria ver. Juro – mas tremia de medo.
Sabia que a vida de um expulso dos Capitães da Areia ficava difícil.
Ou entrava para o grupo de Ezequiel, que vivi todo dia na cadeia, ou acabava no
reformatório.
Pirulito intercedeu de novo e Pedro Bala voltou para perto do Professor. Então o
menino disse com a voz ainda temendo:
– Vou contar pra você saber. Foi uma menina que eu vi hoje. Tava na Cidade de
Palha. Eu tinha entrado na casa com idéia ti abafar um paletó, quando ela veio e
ficou perguntando o que eu queria. Aí topamos a conversar. Eu disse que amanhã ia
levar um presente pra ela. Porque foi boa, boa assim comigo, sabe? – e agora gritava
parecia que tinha raiva.
Pirulito tomou a medalha que o padre lhe dera, ficou mirando. De repente estendeu
para o menino:
– Tome. Dê a ela. Mas não conte a Pedro Bala.
Volta Seca entrou no trapiche quando a madrugada já ia alta. O cabelo de mulato
sertanejo estava revolto. Calçava alpercatas como quando viera da caatinga. O seu
rosto sombrio se projetou dentro do casarão. Passou por cima do corpo do negro
João Grande. Cuspiu adiante, passou o pé em cima. Apertado no braço trazia um
jornal.Olhou todo o salão procurando alguém. Segurou o jornal com as mãos
grandes e calosas logo que distinguiu onde estava Professor. E sem se importar da
hora tardias e dirigiu para lá e começou a chamá-lo:
– Professor... Professor...
– O que é? – Professor estava semi-adormecido.
– Eu quero uma coisa.
Professor sentou-se. O rosto sombrio de Volta Seca estava meio invisível na
escuridão.
– É tu, Volta Seca? Que é que tu quer?
– Quero que tu leia pra eu ouvir essa notícia de Lampião que o Diário traz. Tem um
retrato.
– Deixa pra amanhã que eu leio.
– Lê hoje, que eu amanhã te ensino a imitar direitinho um canário.
O Professor buscou uma vela, acendeu, começou a ler a notícia do jornal. Lampião
tinha entrado numa vila da Bahia, matara oito soldados, deflorara moças, saqueara
os cofres da Prefeitura. O rosto sombrio de Volta Seca se iluminou. Sua boca
apertada se abriu num sorriso. E ainda feliz deixou o Professor, que apagava a vela,
e foi para o seu canto. Levava o jornal para cortar o retrato do grupo de Lampião.
Dentro dele ia uma alegria de primavera.
Ponto das Pitangueiras
Esperavam que o guarda andasse. Este demorou olhando o céu, mirando a rua
deserta. O bonde desapareceu na curva. Era o último dos bondes da linha de Brotas
naquela noite. O guarda acendeu um cigarro. Com o vento que fazia, gastou três
fósforos. Depois suspendeu a gola da capa, pois havia um frio úmido que o vento
trazia das chácaras onde balouçavam mangueiras e sapotizeiros. Os três meninos
esperavam que o guarda andasse para poder atravessar de um lado para o outro da
rua e entrar na travessa sem calçamento. O Querido-de-Deus não tinha podido vir.
Toda a tarde tinha passado na Porta do Mar esperando o homem que não veio. Se ele
tivesse vindo seria mais fácil, pois com o Querido-de-Deus ele não ia discutir,
mesmo porque devia muita coisa ao capoeirista. Mas não tinha vindo, a informação
fora errada, e o Querido-de-Deus já tinha uma viagem acertada para essa noite. Ia a
Itaparica. Durante a tarde, num terreninho que havia no findo da Porta do Mar,
fizeram treinos do jogo capoeira. O Gato prometia ser, com algum tempo, um
lutador capaz de se pegar com o próprio Querido-de-Deus. Pedro Bala também tinha
muito jeito. Dos três o menos ágil era o negro João Grande muito bom numa luta
onde pudesse empregar sua enorme força física Assim mesmo aprendia o bastante
para se livrar de um mais forte ele. Quando se cansaram passaram para a sala.
Pediram quatro pi e o Gato sacou um baralho do bolso das calças. Um velho bar
sebento, de canas muito grossas.O Querido-de-Deus afirmava o homem viria, o
camarada que lhe dera a informação era um sujeito seguro. Era negócio para render
muito e o Querido-de-Deus preferia chamar os Capitães da Areia, seus amigos, a um
dos malandros do cais. Sabia que os Capitães da Areia valiam mais que muitos
homens e tinham a boca calada. A Portado Mar estava quase deserto àquela hora.
Somente dois marinheiros de um baiano bebiam cerveja ao fundo, conversando, O
Gato pôs o baralho em cima da mesa e propôs:
– Quem topa uma ronda?
O Querido-de-Deus pegou no baralho:
– Tá mais que marcado, seu Gato. Um baralhinho bem velho...
– Se tu tem outro eu não me importa.
– Não. Vamos com esse mesmo.
Começaram o jogo. O Gato descobria duas cartas na mesa, os outros apostavam
numa, a banca ficava com a outra. A princípio Pedro Bala e o Querido-de-Deus
ganharam.
João Grande não estava jogando conhecia demais o baralho do Gato, só fazia espiar,
rindo com seus dentes alvos, quando o Querido-de-Deus dizia que estava com sorte
neste dia porque era o dia de Xangô, seu santo. Sabia que a sorte seria só no
princípio e que quando o Gato começasse a ganhar não pararia mais. Certo momento
o Gato começou a ganhar. Quando ganhou a primeira vez, disse com uma voz meio
triste:
– Também já era tempo. Tava com um peso da mãe!
João Grande abriu mais seu sorriso, O Gato ganhou de novo.
Pedro Bala se levantou, recolheu os níqueis que havia ganho. O Gato olhou
desconfiado: Tu não vai botar nada agora?
– Agora não que vou mijar... – e foi para os fundos do bar.
O Querido-de-Deus ficou perdendo. João Grande ria e o capoeirista se afundava.
Pedro Bala tinha voltado, mas não jogava. Ria com João Grande, O Querido-de-
Deus passou tudo quanto tinha ganho. João Grande disse entre dentes:
– Vai entrar no capital...
– Ainda tou perdendo – falou o Gato.
Reparou que Pedro tinha voltado:
– Tu não arrisca mais nada? Não vai na dama?
– Tou cansado de jogar... – e Pedro Bala piscou para o Gato como que dizendo que
ele se contentasse com o Querido-de-Deus.
O Querido-de-Deus passou cinco mil-réis do capital. Só ganhara duas vezes durante
as últimas jogadas e estava meio desconfiado. O Gato abriu o baralho na
mesa.Puxou um rei e um sete.
– Quem vai? – perguntou.
Ninguém foi. Nem mesmo o Querido-de-Deus, que olhava o ar baralho muito
desconfiado. O Gato perguntou:
– Tá pensando que tem treita? Pode espiar. Eu faço jogo limpo...
João Grande soltou uma daquelas suas gargalhadas escandalosas. Pedro Bala e o
Querido-de-Deus riram também. O Gato olhou para João Grande com raiva:
– Esse negro é burra como uma porta. Tu não tá vendo...Mas não completou a frase,
porque os dois marinheiros baiano, que já miravam o jogo há bastante tempo, se
aproximaram. Um deles, o mais baixo, que estava bêbado, falou para o Querido-de-
Deus:
– Pode-se entrar nesta brincadeira?
– A banca é deste moço.
Os marinheiros olharam desconfiados para o menino. Mas baixo cutucou o outro
com o cotovelo e murmurou qualquer coisa ao ouvido. O Gato riu para dentro
porque sabia que ele estava dizendo que seria fácil arrancar o dinheiro daquela
criança. Se abancaram os dois e o Querido-de-Deus achou estranho que Pedro Bala
se abancasse também. João Grande, no entanto, não só não achou estranho se
abancou também. Ele sabia que era preciso tapear os marinheiros e então era
necessário que a gente do grupo perdesse também. Os marinheiros, do mesmo modo
que tinha acontecido com o Querido-de-Deus, começaram ganhando. Mas durou
pouca a aragem da sorte e em breve só o Gato ganhava dos quatro. Pedro Bala
soltava aclamações:
– Esse Gato quando tem sorte é um caso sério...
– Também, quando dá de perder, perde a noite toda – replicou João Grande e esta
sua réplica deu grande confiança aos marinheiros sobre a honestidade do jogo e a
possibilidade da sorte virar. E continuaram a jogar e a perder. O baixo só dizia:
– A sorte tem de virar...
O outro, que tinha um bigodinho, jogava calado e cada vez apostava mais alto.
Também Pedro Bala subia o valor das suas apostas. Certa hora o de bigodinho virou
pro Gato:
– A banca topa cinco mil?
O Gato coçou o cabelo cheio de brilhantina barata, aparentando uma indecisão que
os companheiros sabiam que não possuía.
Vá lá. Topo. Só pra dar meio de você livrar teu prejuízo.
O de bigodinho apostou cinco mil. O baixo foi com três mil-réis. Foram ambos num
ás contra um valete da banca. Pedro Bala e João Grande foram no ás também. O
Gato começou a virar as cartas. A primeira era um nove. O baixo batia com os
dedos, o outro puxava o bigodinho. Veio em seguida um dois e o baixo disse:
– Agora é o ás. Dois, depois um... – e batia com os dedos.
Mas veio um sete e depois um dez e então veio um valete. O Gato arrastou a mesa,
enquanto Pedro Bala fazia uma cara de grande aborrecimento e dizia:
– Amanhã, quando o peso te pegar, tu vai ver que te arraso.
O baixo confessou que estava limpo. O de bigodinho meteu as mãos nos bolsos:
– Tou só com os níqueis pra pagar a cerveja. O garoto é um braço.
Se levantaram, cumprimentaram o grupo, pagaram a cerveja que tinham bebido na
outra mesa. O Gato os convidou a voltarem no outro dia. O baixo respondeu que o
navio deles saía aquela noite para Caravelas. Só quando voltasse. E se foram, de
braço dado, comentando a pouca sorte.
O Gato contou o lucro. Sem juntar o dinheiro que Pedro Bala e João Grande haviam
perdido, existia um lucro de trinta e oito mil-réis. O Gato devolveu o dinheiro de
Pedro Bala, depois o de João Grande, ficou um minuto pensando. Meteu a mão no
bolso, tirou os cinco mil réis que o Querido-de-Deus havia perdido anteriormente:
– Toma, batuta. Tinha trapaça, eu não quero embolsar teu cobre...
O Querido-de-Deus beijou a nota com satisfação, bateu a mão nas costas do Gato:
– Tu vai longe, menino. Tu pode enricar com essas treitas.
Mas já o sol se punha e o homem não vinha. Eles pediram outra pinga. Com o cair
da tarde o vento que vinha do mar aumentou. O Querido-de-Deus começava a ficar
impaciente. Fumava cigarro sobre cigarro. Pedro Bala espiava para a porta. O Gato
dividiu os trinta e oito mil-réis pelos três. João Grande perguntou:
– Como teria ido o Sem-Pernas com o abafa de chapéus?
Ninguém respondeu. Esperavam o homem e agora tinham a impressão que ele não
viria. A informação tinha sido errada. Não ouviam sequer a canção que vinha do
mar.A Porta do Mar estava deserta e seu Felipe quase dormia no balcão. Não
tardaria, no entanto, a estar cheia, e então todo acerto seria impossível com o
homem. Ele não haveria de querer conversar ali com o salão cheio. Poderiam
conhecê-lo, e ele não queria isto. Tampouco o queriam os Capitães da Areia. Em
verdade, o Gato não sabia de que se tratava. E pouco má sabiam Pedro Bala e João
Grande. Sabiam quanto sabia o Querido-de-Deus, a quem o negócio tinha sido
proposto e que o tinha aceito para Pedro Bala e os Capitães da Areia. No entanto, ele
mesmo tinha apenas vagas informações e iam saber de tudo pelo homem que
marcara uma entrevista à tarde na Porta do Mar. Mas até as seis horas não chegou.
Em lugar dele chegou o tal que tinha falado ao Querido-de-Deus. Chegou na hora
em que o grupo ia sair. Explicou que homem não tinha podido vir. Mas que esperava
o Querido-de-Deus à noite, na rua em que morava. Viria por volta de uma da
madrugada O Querido-de-Deus declarou que não podia ir, mas que entregava o
assunto aos Capitães da Areia. O intermediário mirou os meninos, desconfiado. O
Querido-de-Deus perguntou:
– Nunca ouviu falar nos Capitães da Areia?
– Já, sim. Mas...
– De qualquer jeito quem ia tratar do negócio era eles. Daí...
O intermediário pareceu se conformar. Combinaram pan um da manha e se
separaram. O Querido-de-Deus foi para seu barco, os Capitães da Areia para o
trapiche, o intermediário desapareceu no cais.
O Sem-Pernas não havia ainda voltado. Não havia ninguém no trapiche. Deviam
estar todos espalhados pelas ruas da cidade, cavando o jantar. Os três saíram
novamente e foram comer num restaurante barato que havia no mercado. Na saída
do trapiche, o Gato, que estava muito alegre com o resultado do jogo, quis passar
uma rasteira em Pedro Bala. Mas este livrou o corpo e derrubou o Gato:
– Tou treinado nisso, bestão.
Entraram no restaurante fazendo barulho. Um velho, que era o garçom, se
aproximou com desconfiança. Sabia que os Capitães da Areia não gostavam de
pagar e que aquele de talho na cara era o mais temível de todos. Apesar de haver
bastante gente no restaurante, o velho disse:
– Acabou tudo. Não tem mais bóia.
Pedro Bala replicou:
– Deixa de conversa fiada, meu tio. Nós quer comer.
João Grande bateu a mão na mesa:
– Senão a gente vira esse frege-mosca de cabeça pra baixo.
O velho ficava indeciso. Então o Gato bateu o dinheiro em cima da mesa:
– Hoje nós vai fazer gasto.
Foi um argumento suficiente. O garçom começou a trazer os pratos: um prato de
sarapatel e depois uma feijoada. Quem pagou foi o Gato. Depois Pedro Bala propôs
que fossem andando até Brotas, pois já que iam a pé tinham muito que caminhar.
– Não vale a pena tomar a taioba – disse Pedro Bala. – É melhor que ninguém saiba
que a gente foi pra lá.
O Gato então disse que chegaria depois e os encontraria lá. Tinha uma coisa que
fazer antes. Ia avisar a Dalva para que não o esperasse essa noite.
E agora estavam ali, no Ponto das Pitangueiras, esperando que o guarda se alistasse.
Escondidos no vão de um portal, não falavam. Ouviam o vôo dos morcegos que
atacavam os sapotis maduros nos pés. Finalmente, o guarda andou, eles ficaram
espiando até que a sua figura desapareceu na curva que a rua fazia. Então
atravessaram e entraram na alameda das chácaras e novamente se esconderam num
portal. O homem não tardou muito. Saltou de um automóvel na esquina, pagou a
corrida e veio subindo a alameda. Tudo o que se ouvia eram os seus passos e o
rumor das folhas que o vento balançava nas árvores. Quando o homem vinha
próximo, Pedro Bala saiu do portal.Os outros vieram logo depois e como que o
guardavam, pareciam dois guarda-costas. O homem se aproximou mais do muro
junto ao qual vinha andando. Pedro caminhava para ele. Quando estava defronte,
parou:
– Pode me dar o fogo, senhor? – levava na mão um cigarro apagado.
O homem não disse nada. Sacou a caixa de fósforos, estendeu ao menino. Pedro
riscou um e, enquanto acendia o cigarro, olhou para o homem. Depois, ao entregara
caixa de fósforos, perguntou:
– É o senhor que se chama Joel?
– Porquê? – quis saber o homem. – Foi o Querido-de-Deus que nos mandou.
João Grande e o Gato se aproximavam. O homem mirou os três com espanto:
– Porém são uns meninos! Isso não é negócio para – Diga o que é, a gente sabe fazer
o trabalho direito – retrucou Pedro Bala, quando os outros dois tinham se
aproximado.
– Mas se um negócio que talvez nem homens... – e o homem pôs a mão na boca,
como quem teme ter dito mais do que convinha.
– Nós sabe guardar um segredo tão bem como um cofre. E Capitães da Areia sempre
faz os serviços bem feito...
– Os Capitães da Areia? Esse grupo de que falam os jornais? meninos abandonados?
São vocês?
– É a gente, sim. E dos que manda.
O homem parecia refletir. Enfim se decidiu:
– Eu preferia entregar esse negócio a homens. Mas como tem que ser esta noite
mesmo... O jeito...
– Vai ver como a gente sabe trabalhar. Não fique assustado.
– Venham comigo. Mas deixem que eu vá na frente. Vocês irão uns passos atrás de
mim.
Os meninos obedeceram. Num portão o homem parou, abriu, ficou esperando. Veio
de dentro um grande cão que lhe lambia as mãos. O homem fez os três entrarem,
atravessaram uma rua de árvores, o homem abriu a porta da casa. Entraram para uma
saleta, o homem pôs a capa e o chapéu numa cadeira e sentou-se. Os três estavam de
pé. O homem fez sinal para que sentassem e primeiro eles miraram desconfiados as
largas e cômodas poltronas. Isso Pedro Bala e João Grande, porque o Gato já estava
se sentando muito a gosto, numa atitude displicente. A outro sinal do homem, Pedro
e o Grande se sentaram, sendo que João Grande ficou sentado apenas na ponta da
cadeira, como se temesse sujá-la. O homem tinha um ar de riso. De repente
levantou-se e falou, mirando a Pedro, em quem reconhecera o chefe:
– O que vocês vão fazer é difícil e ao mesmo tempo é fácil. Agora o que tem é que é
uma coisa que necessita que ninguém saiba.
– Não passa daqui – disse Pedro Bala.
O homem puxou o relógio do bolso: São uma e um quarto. Ele só volta às duas e
meia... – olhava os Capitães da Areia ainda com indecisão.
– Então não é muito tempo – falou Pedro. – Se quer que a gente vá, é bom
desembuchar logo...
O homem se decidiu:
– Duas ruas adiante desta. É a penúltima chácara à direita. Tem que evitar um
cachorro que já deve estar solto. E bravo.
João Grande interrompeu:
– O senhor tem ai um pedaço de carne?
– Pra quê?
– Pro cachorro. Um pedaço chega.
Verei já. – Olhava os meninos. Parecia perguntar a si mesmo se devia confiar neles.
– Vocês entram pelos fundos. Junto da cozinha, na parte de fora da casa, tem um
quarto por cima da garagem. É o do empregado, que agora deve estar dentro de casa
esperando o patrão. É no quarto dele que vocês vão entrar. Devem procurar um
embrulho igual a este, igualzinho... Foi ao bolso da capa, trouxe um pequeno pacote
amarrado com uma fita cor-de-rosa. – É igualzinho. Não sei se ainda estará no
quarto.Também pode ser que o empregado o tenha no bolso. Se assim for, nada mais
se pode fazer – e um desespero repentino pareceu tomá-lo. – Se eu tivesse podido ir
esta tarde... Então, com certeza, ainda estaria no quarto.Mas agora quem sabe? – e
cobriu o rosto com as mãos.
– Mesmo que esteja com o empregado se pode trazer... – disse Pedro.
– Não. É essencial que ninguém saiba que houve furto deste embrulho. O que vocês
vão fazer é trocar os embrulhos, se o outro estiver no quarto.
– E se estiver com o empregado?
– Então... – e a fisionomia do homem novamente se alterou. João Grande pensou
ouvir um nome que soava como Elisa. Mas talvez fosse ilusão de João Grande, que
por vezes ouvia e via coisas que ninguém percebia. O negro era muito mentiroso.
– Então a gente troca os embrulhos do mesmo jeito. Pode ficar descansado. O senhor
não conhece os Capitães da Areia.
Apesar do seu desespero, o homem sorriu da bravata de Pedro Bala:
– Então podem ir. Depois, tem que ser antes de duas horas, voltem aqui. Mas só
quando a rua estiver deserta. Eu os esperarei. Acertaremos nossas contas então.Mas
quero dizer outra coisa lealmente. Se vocês forem percebidos e presos, não me
envolvam no caso Nada farei por vocês, porque meu nome não pode aparecer nisso
tudo. Tratem de dar fim a este embrulho e não me chamem para nada. É ganhar ou
perder...
– Neste caso – replicou Pedro Bala – é preciso marcar o preço. Quanto o senhor
paga à gente?
– Dou 100$. Trinta para cada e mais 10$ para você – apontou para Pedro.
O Gato se mexeu na cadeira. Pedro fez sinal para que ele se calasse.
– O senhor dá cinqüenta a cada e parece que ainda vai fazer negócio. São 150 bicos
pros três. Senão, não tem embrulho.
O homem não vacilou muito. Olhava o relógio, onde os ponteiros corriam:
– Está bem.
Aí o Gato falou:
– Não é que a gente desconfie do senhor. Mas a coisa pode sair pelo avesso e o
senhor mesmo disse que não se importaria com o que acontecesse à gente.
– E daí?
– É justo que o senhor nos passe logo algum.
João Grande apoiava o Gato com um gesto de cabeça. Pedro Bala repetiu as últimas
palavras do outro:
– É justo, – repetiu também o homem. Tirou uma carteira do ou uma nota de cem
mil-réis. Entregou a Pedro:
– Agora toca a andar. Se faz tarde.
Saíram. Pedro Bala disse:
– Pode ficar descansado. Daqui a uma hora a gente volta com o embrulho.
Em frente da casa a rua estava completamente deserta, numa janela da casa havia luz
e eles viam a sombra de uma mulher que andava de um lado para outro o Grande
bateu na testa:
– Me esqueci da carne pro cachorro.
Pedro Bala estava olhando a janela com luz, se voltou: Não tem nada. Isso me
cheira a coisa de amigamento. O sujeito aquele derrubava a zinha daqui e agora o
empregado tem as cartas que os dois se escrevia e quer dar o alarme. Esse pacote tá
com perfume. É que o outro há de ter.
Fez sinal para os dois esperarem do outro lado da rua, chegou para perto do portão
da casa. Logo que se encostou, um grande cão se aproximou latindo. Pedro Bala
amarrou um cordel no ferrolho do portão, enquanto o cão andava de um lado para
outro, latindo baixo. Depois chamou os outros dois:
– Tu – apontou pro Gato – fica aqui na rua pra dar o alarma se vem alguém. Tu,
Grande, entra comigo.
Treparam na gradezinha do muro. Pedro Bala puxou com o cordão o ferrolho e o
portão abriu. O Gato tinha ido para a esquina O cão ao ver o portão aberto se
precipitou para a rua, ficou remexendo uma lata de lixo. Pedro Bala e João Grande
pularam o muro, cerraram o portão para que o cachorro não pudesse entrar, se
adiantaram entre as árvores. Na janela iluminada da casa o vulto de mulher
continuava a andar. João Grande disse baixinho:
– Tenho pena dela.
– Quem manda deitar com outros... Perto da casa o negro ficou para transmitir o
aviso do Gato se viesse alguém. Tinham assovios especiais para estes casos. Pedro
Bala rodeou a casa, chegou à cozinha.A porta estava aberta, como também a do
quarto sobre a garagem. Porém, antes de subir a escada que dava para o quarto,
Pedro espiou pela porta da cozinha. Na copa havia luz e um homem jogava
paciência. “Deve ser o tal empregado”, pensou Pedro e rápido se afastou para a
escada da garagem. Subiu de quatro, entrou no quarto do homem.Não havia luz.
Pedro fechou a porta, acendeu um fósforo. Havia apenas uma cama, um baú e um
cabide na parede. O fósforo se apagou, mas Pedro já estava em cima da cama, que
co toda com as mãos. Depois viu embaixo do colchão. Tampouco nada. Desceu
então da cama, se aproximou, sem fazer ruído, do baú. Suspendeu a tampa, acendeu
um fósforo que prendeu nos dentes. Remexeu a roupa com cuidado, não havia nada.
Cuspiu o fósforo depois se lembrou que o homem podia não fumar e então o
recolheu ao bolso e foi até o cabide. Nada nos bolsos da roupa ali dependurada
Pedro Bala acendeu outro fósforo, mirou todo o quarto:
– Com certeza está com o homem. Agora é que vão ser elas.
Abriu a porta do quarto, desceu as escadas. Chegou na porta da cozinha, o homem
ainda estava sentado. Então Pedro Bala reparou que ele estava sentado em cima do
embrulho. Aparecia uma ponta sob a perna do homem. Pedro pensou que tudo
estava perdido. Como iria ele tirar o embrulho de baixo da perna do homem? Saiu da
porta da cozinha, foi andando para onde estava o Grande. Só se ele e o Grande
atacassem o homem. Mas aí haveria gritaria, todo mundo saberia do roubo. E o
senhor que os tinha empregado não queria saber disso. De repente teve uma idéia.
Chegou perto de onde tinha deixado o Grande, assoviou baixinho. João Grande
apareceu logo. Pedro falou em voz muito baixa:
– Olha, Grande, o tal empregado tá sentado em riba do embrulho. Tu vai chegar na
porta da rua, apertar a campainha e sumir depois. É pro homem se levantar e eu
abafar o embrulho. Mas dá o suíte logo pro homem não te ver, pensar que foi sonho.
Deixa passar o tempo de eu chegar na cozinha.
Voltou rápido para a porta da cozinha. Dai a um minuto a campainha soou. O
empregado levantou-se às pressas, abotoou o paletó e se dirigiu para a frente da casa
pelo corredor, onde acendeu uma luz. Pedro Bala penetrou na copa, trocou os
pacotes e abriu para os lados da chácara. Saltou o muro, assoviou para o Gato e João
Grande. O Gato veio logo. Mas João Grande não apareceu. Andaram de um lado
para outro e o negro não chegava. Pedro começava a ficar impaciente pensando que
o empregado podia ter surpreendido João Grande e agora estar atracado com ele.
Mas quando ele passara por aqueles lados não havia escutado nenhum ruído... Disse:
– Se ele demorar, a gente entra.
Assoviaram novamente, não tiveram resposta. Pedro Bala resolveu:
– Vamos entrar de novo...
Mas ouviram o assovio de João Grande, que não tardou a estar ao lado deles. Pedro
perguntou:
– Onde tu te meteu?
O Gato tinha pegado o cachorro pela coleira e o punha para dentro do portão.
Tiraram o cordel do ferrolho e desapareceram pelo outro lado da rua. Aí o Grande
aplicou:
– Na hora que meti o dedão na campainha entonce a dama lá em cima ficou muito
assustada. Pegou, abriu a janela, parecia que ia se atirar mesmo.Espiava que fazia
medo. Tava mesmo chorando. Entonces eu tava com pena e trepei pela bica pra
dizer a ela que não chorasse mais, que não tinha mais de quê. Que agente tinha
abafado os papéis. E como tive que aplicar tudo a ela, tive que demorar...
O Gato perguntou muito curioso:
– Era boa, era?
– Era boa, sim. Passou a mão na minha cabeça, depois me disse que muito obrigado,
que Deus ia me ajudar.
– Deixa de ser burro, negro. Eu tava perguntando se era boa mas pra cama. Se tu viu
o coxame...
O negro não respondeu. Um automóvel entrava pela rua. Pedro Bala bateu no ombro
do negro e João Grande sabia que o chefe estava aprovando o que ele fizera. Então
seu rosto se abriu de satisfação e murmurou:
– Eu só queria ver acara do galego quando o patrão abrir o pacote não encontrar o
que esperavam.
E, já em outra rua, os três soltaram a larga, livre e ruidosa. gargalhada dos Capitães
da Areia, que era como um hino do povo da Bahia.
As luzes do carrossel
O Grande Japonês não era senão um pequeno carrossel nacional, que vinha de uma
triste peregrinação pelas paradas cidades do interior naqueles meses de inverno,
quando as chuvas são longas e o Natal está muito distante ainda. De tão desbotada
que estava a tinta, tinta que antigamente fora azul e vermelha e agora o azul era um
branco sujo e o vermelho um quase cor-de-rosa, e de tantos pedaços que faltavam
em certos cavalos e em certos bancos, Nhozinho França resolveu não armá-lo numa
das praças centrais da cidade e sim em Itapagipe. Ali as famílias não são tão ricas,
há muitas ruas só de operários e as crianças pobres saberiam gostar do velho
carrossel desbotado. O pano tinha muitos buracos também, além de um rasgão
enorme que fazia o carrossel depender da chuva. Já fora belo, fora mesmo o orgulho
da meninada de Maceió noutros tempos. Ficava então ao lado de uma roda-gigante e
de uma sombrinha, sempre na mesma praça, e nos domingos e feriados as crianças
ricas, vestidas de marinheiro ou de pequeno lorde inglês, as meninas de holandesa
ou de finos vestidos de seda, vinham se aboletar nos cavalos preferidos, indo os
menores nos bancos com as aias. Os pais iam para a roda-gigante, outros preferiam a
sombrinha onde podiam empurrar as mulheres, tocando muitas vezes nas coxas e
nas nádegas.O parque de Nhozinho França era naquele tempo a alegria da cidade. E,
mais que tudo, o carrossel dava dinheiro, rodando incansavelmente com as suas
luzes de todas as cores. Nhozinho achava a vida boa, as mulheres belas, os homens
amáveis para com ele, mas achava que a bebida era boa também, fazia os homens
mais amáveis e as mulheres mais belas. E bebeu assim primeiro a sombrinha, depois
a roda-gigante. Depois, como não queria se separar do carrossel, ao qual tinha um
pegadio especial, o desarmou uma noite com o auxílio de amigos e começou a
peregrinar nas cidades de Alagoas e Sergipe. Enquanto isto, os credores o xingavam
de quanto nome feio conheciam.Andou muito Nhozinho França com o seu carrossel.
Depois de percorrer todas as cidadezinhas dos dois estados, de se embriagar em
todos os seus bares, penetrou no estado da Bahia e até para o bando de Lampião e lê
deu uma função. Estava numa pobre vila do sertão e não lhe faltava o dinheiro
apenas para o transporte do seu carrossel. Faltava para o miserável hotel onde se
hospedara e que era o único da vila, e também o trago de pinga, para a cerveja, que
não era gelada ali, assim mesmo ele gostava. O carrossel armado no capim da praça
da Matriz estava parado fazia uma semana. Nhozinho França esperava a noite de
sábado e a tarde de domingo para ver se fazia algum cobre para arribar para um
lugar melhor. Mas na sexta-feira Lampião entrou na vila com vinte e dois homens e
então o carrossel teve muito que trabalhar. Como as crianças, os grandes
cangaceiros, homens que tinham vinte e trinta mortes, acharam belo o carrossel,
acharam que mirar suas luzes rodando, ouvir a música velhíssima da sua pianola e
montar naqueles estropiados cavalos de pau era a maior felicidade. E o carrossel de
Nhozinho França salvou a pequena vila de ser saqueada, as moças de serem
defloradas, os homens de serem mortos. Só mesmo os dois soldados da polícia
baiana que lustravam as botas na frente do posto policial foram fuzilados pelos
cangaceiros, assim mesmo antes que eles vissem o carrossel armado na praça da
Matriz. Porque talvez ai aos soldados da polícia baiana Lampião perdoasse nessa
noite de suprema felicidade para o bando de cangaceiros. Então eles foram como
crianças, gozaram daquela felicidade que nunca haviam gozado na sua meninice de
filhos de camponeses: montar e rodar num cavalo de madeira de um carrossel, onde
havia música de uma pianola e onde as luzes eram de todas as cores: azuis, verdes,
amarelas, roxas vermelhas como o sangue que sai do corpo dos assassinados.
Isso mesmo contou Nhozinho a Volta Seca que ficou excitadíssimo e ao Sem-Pernas
naquela tarde em que os encontrou na Porta do Mar e os convidou para que o
ajudassem no serviço de carrossel durante os dias que estivesse armado na Bahia,
em Itapagipe. Não podia marcar ordenado, mas talvez desse para tirar cada um uns
cinco mil-réis por noite. E quando Volta Seca mostrou suas habilidades em imitar
animais os mais vários, Nhozinho França se entusiasmou por completo, mandou
baixar mais uma garrafa de cerveja declarou que Volta Seca ficaria na porta
chamando o público, enquanto o Sem-Pernas o ajudaria com as máquinas e tomaria
conta pianola. Ele mesmo venderia as entradas enquanto o carrossel estivesse
parado. Quando estivesse rodando, Volta Seca o faria. E de quando em vez, disse
piscando o olho, um sai pra tomar uma pinga enquanto o outro faz o serviço de dois.
Volta Seca e o Sem-Pernas nunca haviam acolhido uma com tanto entusiasmo. Eles
muitas vezes já tinham visto um carrossel mas quase sempre ouviam de longe,
cercado de mistério, cavalgadas seus rápidos ginetes por meninos ricos e
choraminguentos. O Se Pernas já tinha mesmo certo dia em que penetrou num
Parque de Diversões armado no Passeio Público chegado a comprar entrada para
um, mas o guarda o expulsou do recinto porque ele estava vestido de farrapos.
Depois o bilheteiro não quis lhe devolver o bilhete da entrada, o que fez com que o
Sem-Pernas metesse as mãos na gaveta da bilheteria, que estava aberta, abafasse o
troco, e tivesse que desaparecer do Passeio Público de uma maneira muito rápida,
enquanto em todo o Parque se ouviam os gritos de: Ladrão!, ladrão! Houve uma
tremenda confusão, enquanto o Sem-Pernas descia muito calmamente a Gamboa de
Cima, levando nos bolsos pelo menos cinco vezes o que tinha pago pela entrada.
Mas o Sem-Pernas preferiria, sem dúvida, ter rodado no carrossel, montado naquele
fantástico cavalo de cabeça de dragão, que era sem dúvida a coisa mais estranha e
tentadora na maravilha que era o carrossel para os seus olhos. Criou ainda mais ódio
aos guardas e maior amor aos carrosséis distantes. E agora, de repente, vinha um
homem que pagava cerveja e fazia o milagre de o chamar para viver uns dias junto a
um verdadeiro carrossel, movendo com ele, montando nos seus cavalos, vendo de
perto rodarem as luzes de todas as cores. E para o Sem-Pernas, Nhozinho França não
era o bêbado que estava em sua frente na pobre mesa da Porta do Mar. Para seus
olhos era um ser extraordinário, algo como Deus, para quem rezava Pirulito, algo
como Xangô, que era o santo de João Grande e do Querido-de-Deus. Porque nem o
padre José Pedro e nem mesmo a mãe-de-santo Don’Aninha seriam capazes de
realizar aquele milagre. Nas noites da Bahia, numa praça de Itapagipe, as luzes do
carrossel girariam loucamente movimentadas pelo Sem-Pernas.Era como num
sonho, sonho muito diverso dos que o Sem-Pernas costumava ter nas suas noites
angustiosas. E pela primeira vez seus olhos sentiram-se úmidos de lágrimas que não
eram causadas pela dor ou pela raiva. E seus olhos úmidos miravam Nhozinho
França como a um ídolo. Por ele até a garganta de um homem o Sem-Pernas abriria
com a navalha que traz entre a calça e o velho colete preto que lhe serve de paletó.
– É uma beleza – disse Pedro Bala olhando o velho carrossel armado. E João Grande
abria os olhos para ver melhor. Penduradas estavam as lâmpadas azuis, verdes,
amarelas, roxas, vermelhas.
É velho e desbotado o carrossel de Nhozinho França. Mas tem a sua beleza. Talvez
esteja nas lâmpadas, ou na música da pianola velhas valsas de perdido tempo, ou
talvez nos ginetes de pau. Entre eles tem um pato que é para sentar dentro os mais
pequenos.. Tem a sua beleza, sim, porque a opinião unânime dos Capitães da Areia é
que ele é maravilhoso. Que importa que seja velho, roto e de cores apagadas se
agrada às crianças?
Foi uma surpresa quase incrível quando naquela noite o Sem-Pernas chegou ao
trapiche dizendo que ele e Volta Seca iam trabalhar uns dias num carrossel. Muitos
não acreditaram, pensaram que fosse mais uma pilhéria do Sem-Pernas. Então iam
perguntar a Volta Seca que, como sempre, estava metido no seu canto sem falar,
examinando um revólver que furtara numa casa de armas. Volta Seca fazia que sim
com a cabeça e por vezes dizia:– Lampião já rodou nele, Lampião é meu padrim... O
Sem-Pernas convidou a todos para irem ver o carrossel na outra noite, quando o
acabariam de armar. E saiu para encontrar Nhozinho – França. Naquele momento
todos os pequenos corações que pulsavam no trapiche invejaram a suprema
felicidade do Sem-Pernas, piano mesmo Pirulito, que tinha quadros de santos na sua
parede, Volta mesmo João Grande, que nessa noite iria com o Querido-de-Deus ao
candomblé de Procópio, no Matatu, até mesmo o Professor, que lia livros, e quem
sabe se também Pedro Bala, que nunca tivera inveja de nenhum porque era o chefe
de todos? Todos o invejaram, sim. Como invejaram Volta Seca, que no seu canto, o
cabelo mestiço e despenteado, os olhos apertados e a boca rasgada naquele rictus
raiva, apontava o revólver ora para um dos meninos, ora para um todos que passava,
ora para as estrelas, que eram muitas no céu.
Na outra noite foram todos com o Sem-Pernas e Volta Seca e tinham passado o dia
fora, ajudando Nhozinho a armar o carrossel ver o carrossel armado. E estavam
parados diante dele, extasiados beleza, as bocas abertas de admiração. O Sem-Pernas
mostrava tu Volta Seca levava um por um para mostrar o cavalo que tinha s
cavalgado por seu padrinho Virgulino Ferreira Lampião. Eram quase cem crianças
olhando o velho carrossel de Nhozinho França, estas horas estava encornado num
pifão tremendo na Porta do Mar.
O Sem-Pernas mostrou a máquina um pequeno motor que falhava muito com um
orgulho de proprietário. Volta Seca não se desprendia do cavalo onde rodara
Lampião.O Sem-Pernas estava muito cuidadoso do carrossel e não deixava que eles
o tocassem, que bulissem em nada.
Foi quando o Professor perguntou:
– Tu já sabe mover com as máquinas?
– Amanhã é que vou saber... – disse o Sem-Pernas com um certo desgosto. –
Amanhã seu Nhozinho vai me ensinar.
– Então amanhã, quando acabar a função, tu pode botar ele pra rodar só com a gente.
Tu bota as coisas pra andar, a gente se aboleta.
Pedro Bala apoiou a idéia com entusiasmo. Os outros esperavam a resposta do Sem-
Pernas ansiosos. O Sem-Pernas disse que sim, e então muitos bateram palmas,
outros gritaram. Foi quando Volta Seca deixou o cavalo onde montara Lampião e
veio para eles:
– Quer ver uma coisa bonita?
Todos queriam. O sertanejo trepou no carrossel, deu corda na pianola e começou a
música de uma valsa antiga. O rosto sombrio de Volta Seca se abria num
sorriso.Espiava a pianola, espiava os meninos envoltos em alegria. Escutavam
religiosamente aquela música que saía do bojo do carrossel na magia da noite da
cidade da Bahia só para ai ouvidos aventureiros e pobres dos Capitães da Areia.
Todos estavam silenciosos. Um operário que vinha pela rua, vendo a aglomeração
de meninos na praça, veio para o lado deles. E ficou também parado, escutando a
velha música. Então a luz da lua se estendeu sobre todos, as estrelas brilharam ainda
mais no céu, o mar ficou de todo manso talvez que Yemanjá tivesse vindo também
ouvir a música e a cidade era como que um grande carrossel onde giravam em
invisíveis cavalos os Capitães da Areia. Neste momento de música eles sentiram-se
donos da cidade. E amaram-se uns aos outros, se sentiram irmãos porque eram todos
eles sem carinho e sem conforto e agora tinham o carinho e conforto da música.
Volta Seca não pensava com certeza em Lampião neste momento. Pedro Bala não
pensava em ser um dia o chefe de todos os malandros da cidade. O Sem-Pernas em
se jogar no mar, onde os sonhos são todos belos. Porque a música saía do bojo do
velho carrossel só para eles e para o operário que parara. E era uma unidade valsa
velha e triste, já esquecida por todos os homens da cidade.
Desemboca gente de todas asmas. E noite de sábado, amanhã os homens não irão
para o trabalho. Podem demorar na rua essa noite. Muitos preferiram ir para os
bares, a Porta do Mar está cheia, mas co que tinham filhos vieram com eles para a
praça, que é mal iluminada. Em compensação aí estão as luzes do carrossel que
rodam. As crianças olham para elas e batem palmas. Em frente à bilheteria Volta
Seca imita vozes de animais e chama o público. Leva uma cartucheira como se
estivesse no sertão. Nhozinho França achou que isto chamaria a atenção do povo e
Volta Seca parece mesmo um cangaceiro com o chapéu de couro e a cartucheira
atravessada. E imita animais até que se reúnam homens, mulheres e crianças na sua
frente. Então oferece entradas, que as crianças compram. Vai uma alegria por toda a
praça. As luzes do carrossel alegram a todos. No centro, agachado, o Sem-Pernas
ajuda Nhozinho França a botar o motor para trabalhar. E carrossel gira, carregado de
meninos, a pianola toca suas velhas valsas, Volta Seca vende entradas.
Na praça, casais de namorados passeiam. Mães de família compram picolés e
sorvetes, um poeta sentado perto do mar faz um poema sobre as luzes do carrossel e
a alegria das crianças. O carrossel ilumina toda a praça e todos os corações. A cada
momento desemboca das ruas e dos becos. Volta Seca imita os animais, vestido de
cangaceiro. Quando o carrossel pára de girar, os meninos o invadem, exibindo o
bilhete de ingresso, e é difícil conte-los. Quando um encontra mais lugar, fica
comum rosto magoado de desilusão e impaciente a sua vez. E quando o carrossel
pára, os que vão nele querem saltar, é preciso que o Sem-Pernas venha e diga:
– Pula fora! Pula fora! Ou então compra outra entrada.
Só assim deixam os velhos cavalos, que nunca se cansam da corrida. Outros
cavalgam os ginetes e a corrida recomeça, as girando, todas as cores fazendo uma
cor única e estranha, a pi tocando sua antiga música. Também vão casais de
namorados bancos e enquanto gira o carrossel murmuram palavras de amor. Há
mesmo quem troque um beijo na corrida, quando o motor falha e as luzes se
apagam. Então Nhozinho França e o Sem-Pernas se debruçam sobre o motor e
examinam o defeito até a corrida recomeçar, abafando os protestos dos meninos. O
Sem-Pernas já aprendeu todos os mistérios do motor.
Certa hora Nhozinho França manda que o Sem-Pernas vá substituir Volta Seca na
venda de bilhetes. E manda que Volta Seca vá andar no carrossel. E o menino toma
o cavalo que serviu a Lampião. E enquanto dura a corrida, vai pulando como se
cavalgasse um verdadeiro cavalo. E faz movimentos com o dedo, como se atirasse
nos que vão na sua frente, e na sua imaginação os vê cair banhados em sangue, sob
os tiros da sua repetição. E o cavalo corre e cada vez com mais, e ele mata a todos,
porque são todos soldados ou fazendeiros ricos. Depois possui nos bancos a todas as
mulheres, saqueia vilas, cidades, tens de ferro, montado no seu cavalo, armado com
seu rifle.
Depois vai o Sem-Pernas. Vai calado, uma estranha comoção o possui. Vai como
um crente para uma missa, um amante para o seio da mulher amada, um suicida para
a morte. Vai pálido e coxeia. Monta um cavalo azul que tem estrelas pintadas no
lombo de madeira. Os lábios estão apertados, seus ouvidos não ouvem a música da
pianola só vê as luzes que giram com ele e prende em si a certeza de que está num
carrossel, girando num cavalo como todos aqueles meninos que têm pai e mãe, e
uma casa e quem os beije e quem os ame. Pensa que é um deles e fecha os olhos
para guardar melhor esta certeza. Já Se vê os soldados que o surraram, o homem de
colete queria. Volta Seca os matou na sua corrida. O Sem-Pernas vai teso no seu
cavalo. É como se corresse sobre o mar para as estrelas, na mais maravilhosa viagem
do mundo.Uma viagem como o Professor nunca leu nem inventou. Seu coração bate
tanto, tanto, que ele o aperta com a mão.
Nesta noite os Capitães da Areia não vieram. Não só a função carrossel na praça
terminou muito tarde às duas horas da manhã os homens ainda rodavam, como
muitos deles, inclusive Pedro Bala Boa-Vida, Barandão e o Professor, estavam
ocupados em viria assuntos. Marcaram para o dia seguinte, das três para as quatro da
manhã. Pedro Bala perguntou ao Sem-Pernas se ele já sabia manobrar bem com o
motor: Não paga a pena dar um prejuízo ao teu patrão – explicou.
– Já sei aquilo tudo de cor e decorado. É o tipo da coisa canja.
O Professor, que jogava damas com João Grande, perguntou:
– Não era bom agente de tarde dá um pulo na praça? Quem sabe se não vale a pena?
– Eu vou – falou Pedro Bala. – Mas acho que não pode ir muitos. A turma pode
desconfiar de ver tanto junto.
O Gato disse que de tarde não ia. Tinha o que fazer, já que à noite ia estar ocupado
no carrossel. O Sem-Pernas mangou:
– Tu não pode passar um dia sem bater coxas com essa bruaca, não é? Tu vai acabar
tatu...
O Gato não respondeu. João Grande também não iria à tarde. Tinha que ir encontrar
como Querido-de-Deus para irem comer uma feijoada na casa de Don’Aninha, a
mãe-de-santo.Finalmente ficou resolvido que fosse um grupo pequeno operar à tarde
na praça. Os outros iriam para onde bem quisessem. Só à noite se reuniriam para
irem todos correr no carrossel.
– É preciso levar gasolina, gente, pro motor.
O Professor tinha vencido João Grande já em três partidas fez uma coleta para
comprarem dois litros de gasolina:
– Eu levo.
Mas na tarde do domingo chegou o padre José Pedro, que era uma das raríssimas
pessoas que sabiam onde ficava a pousada mais permanente dos Capitães da Areia.
O padre José Pedro se fizera amigo deles há bastante tempo. A amizade veio por
intermédio do Boa-Vida. Este, um dia, penetrara, após uma missa, na sacristia de
uma igreja onde oficiava padre José Pedro. Penetrara mais por curiosidade que por
outra qualquer coisa. Boa-Vida não era dos que mais faziam pela vida. Gostava de
deixara vida correr, sem se preocupar muito. Era mais um parasita do grupo. Um
dia, quando lhe dava ganas, entrava numa casa de onde trazia um objeto de valor ou
batia o relógio de um homem. Quase nunca o punha ele mesmo na mão dos
intermediários. Trazia e entregava a Pedro Bala, assim como uma contribuição que
dava ao grupo. Tinha muitos amigos entre os estivadores do cais, em várias casas
pobres da Cidade de Palha, em muitos pontos da Bahia Comia em casa de um, em
casa de outro.Em geral não aborrecia a nenhum. Se contentava com as mulheres que
sobravam do Gato e mais que nenhum conhecia a cidade, suas ruas, seus lugares
curiosos, uma festa onde podiam ir beber e dançar. Quando já tinha algum tempo
que havia contribuído com algum objeto de valor para a economia do grupo, fazia
um esforço, arranjava algo que rendesse dinheiro e entregava a Pedro Bala. Mas
realmente não gostava de nenhuma espécie de trabalho, fosse honesto ou desonesto.
Gostava era de deitar na areia do cais, horas e horas espiando os navios, de ficar de
cócoras tardes inteiras nos portões dos armazéns do porto ouvindo histórias de
valentias. Vestia-sede farrapos, pois só providenciava arranjar uma roupa quando
seu traje caía aos pedaços. Gostava de andar ao léu nas ruas da cidade, entrando nos
jardins para fumar um cigarro sentado num banco, entrando nas igrejas para espiar a
beleza do ouro velho, flanando pelas ruas calçadas de grandes pedras negras.
Naquela manhã, quando viu o povo saindo da missa, entrou a igreja
displicentemente e foi furando até a sacristia. Espiava tudo, os altares, os santos, riu
de um São Benedito muito preto. Na sacristia não tinha ninguém e ele viu um objeto
de ouro que devia dar muito dinheiro. Espiou mais uma vez, não viu ninguém. Foi
passando a mão mas alguém tocou no seu ombro. O padre José Pedro acabara de
entrar:
– Por que faz isso, meu filho? – perguntou com um sorris enquanto tirava da mão do
Boa-Vida o relicário de ouro.
– Tava só dando uma espiada, reverendo. É batuta – responde Boa-Vida com certo
receio. – E batuta mesmo. Mas não vá pensando que ia levar. Ia deixar aí
direitinho.Sou de boa família.
O padre José Pedro espiou as roupas do Boa-Vida e riu. Boa-Vida olhou também
para seus trapos:
– É que meu pai morreu, sabe? Mas até num colégio estive... Tou falando a verdade.
Pra que é que eu ia roubar essa coisa? apontava o relicário. – Demais numa igreja.
Não sou pagão.
O padre José Pedro sorriu de novo. Sabia perfeitamente que Boa-Vida estava
mentindo. Há muito que ele aguardava uma oportunidade para travar relações comas
crianças abandonadas da cidade. Pensava que aquela era a missão que lhe estava
reservada. Já fizera umas tantas visitas ao reformatório de menores, mas ali lhe
punham todas as dificuldades porque ele não esposava as idéias do diretor de que é
necessário surrar uma criança para a emendar de um erro. E mesmo o diretor tinha
idéias únicas sobre os erros. Há bastante tempo que o padre José Pedro ouvia falar
nos Capitães da Areia e sonhava entrar em contato com eles, poder trazer todos
aqueles corações a Deus. Tinha uma vontade enorme de trabalhar com aquelas
crianças, de ajudá-las a serem boas. Por isso tratou o melhor que pôde a Boa-Vida.
Quem sabe se por intermédio dele não chegaria, aos Capitães da Areia? E assim foi.
O padre José Pedro não era considerado uma grande inteligência entre o clero. Era
mesmo um dos mais humildes entre aquela legião de padre s da Bahia. Em verdade
fora cinco anos operário numa fábrica de tecidos, antes de entrar para o seminário. O
diretor da fábrica, num dia em que o bispo a visitara, resolveu dar mostra de
generosidade e disse que já que o senhor bispo se queixava da falta de vocação
sacerdotal, ele estava disposto a custear os estudos de um seminarista ou de alguém
que quisesse estudar para padre. José Pedro, que estava no seu tear, ouvindo, se
aproximou e disse que ele queria ser padre. Tanto o patrão como o bispo tiveram
uma surpresa. José Pedro já não era moço e não tinha estudo algum. Mas o patrão,
diante do bispo, não quis voltar atrás. E José Pedro foi para o seminário. Os demais
seminaristas riam dele. Nunca conseguiu ser um bom aluno. Bem comportado, isso
era. Também dos mais devotos, daqueles que mais se acercavam da igreja. Não
estava de acordo com muitas das coisas que aconteciam no seminário e por isso os
meninos o perseguiam. Não conseguia penetrar os mistérios da filosofia, da teologia
e do latim. Mas era piedoso e tinha desejos de catequizar crianças ou índios. Sofreu
muito, principalmente depois que, passados dois anos, o dono da fábrica deixou de
pagar seus gastos e ele teve que trabalhar de bedel no seminário para poder
continuar. Mas conseguiu se ordenar e ficou adido a uma igreja da capital,
esperando uma paróquia. Porém seu grande desejo era catequizar as crianças
abandonadas da cidade, os meninos que, sem pai e sem mãe, viviam do roubo, em
meio a todos os vícios.O padre José Pedro queria levar aqueles corações todos a
Deus. Assim começou a freqüentar o reformatório de menores, onde a princípio o
diretora recebia com muita cortesia. Mas quando ele declarou contra os castigos
corporais, contra deixar as crianças co fome dias seguidos, então as coisas mudaram.
Um dia teve escrever uma carta sobre o assunto para a redação de um jornal. Então
sua entrada foi proibida no reformatório e até uma queixa contra foi dirigida ao
arcebispado. Por isso não teve uma freguesia Porém seu maior desejo era conhecer
os Capitães da Areia, problema dos menores abandonados e delinqüentes, que quase
preocupava a ninguém em toda a cidade, era a maior preocupação padre José Pedro.
Ele queria se aproximar daquelas crianças não para trazê-las para Deus, como para
ver se havia algum meio melhorar sua situação. Pouca influência tinha o padre José
Pedro. Não tinha mesmo influência nenhuma, nem tampouco sabia como agir para
ganhar a confiança daqueles pequenos ladrões. Mas s que a vida deles era falta de
todo o conforto, de todo carinho, uma vida de fome e de abandono. E se o padre José
Pedro não cama, comida e roupa para levar até eles, tinha pelo menos pala de
carinho e, sem dúvida, muito amor no seu coração. Numa se enganou, a princípio, o
padre José Pedro: em lhes oferecer, trocado abandono da liberdade que gozavam,
soltos na rua, possibilidade de vida mais confortável. O padre José Pedro sabia que
não podia acenar com o reformatório àquelas crianças. Ele conhecia demais as leis
do reformatório, as escritas e as que cumpriam. E sabia que não havia possibilidade
de nele uma criança tomar boa e trabalhadora.Mas o padre José Pedro confiava em
amigas que possuía, beatas velhas e religiosas. Elas podiam se encarregar de vários
dos Capitães da Areia, de educá-los e alimentá-los.Mas isso seria o abandono de
tudo de grande que tinha a vida a aventura da liberdade nas ruas da mais misteriosa e
bela das cidades do mundo, nas ruas da Bahia de Todos os Santos. E logo que,
intermédio de Boa-Vida, o padre José Pedro fez relações com Capitães da Areia, viu
que se lhes fizesse essa proposta perderia a confiança que já depositavam nele e que
se mudariam do trapiche ele nunca mais os veria. Além do mais não tinha absoluta
co naquelas solteironas velhuscas que viviam metidas na igreja e aproveitavam os
intervalos das missas para comentarem a vida Lembrava-se que, a princípio, elas
tinham ficado magoadas com ele porque, ao acabar de celebrar pela primeira vez
naquela igreja, um grupo de beatas se acercou dele com o evidente propósito de o
ajudar a mudar os trajes do oficio da missa. E ressoaram em torno a ele exclamações
comovidas:
– Reverendozinho... Anjo Gabriel...
Uma velhusca magra juntava as mãos em adoração:
– Meu Jesuscristozinho...
Pareciam adorá-lo e o padre José Pedro se revoltou. Em verdade ele sabia que a
grande maioria dos padre s não se revoltava e ganhava tons presentes de galinhas,
perus, lenços bordados e por vezes até antigos relógios de ouro que passavam
através de gerações na mesma família. Mas o padre José Pedro tinha outra idéia da
sua missão, pensava que os outros estavam errados e foi com um furor sagrado que
disse:
– As senhoras não têm o que fazer? Não têm casa de que cuidar? Eu não sou
Jesuscristozinho, nem Anjo Gabriel... Vão para suas casas trabalhar, preparar o
almoço, coser.
As beatas o olhavam assombradas. Era como se ele fosse o próprio Anticristo. O
padre completou:
– Em suas casas trabalhando servem melhor a Deus que aqui cheirando as fraldas
dos padre s... Vão, vão...
E enquanto elas saíam atemorizadas, ele repetia mais com magoa que com raiva:
– Jesuscristozinho... O nome de Deus em vão.
As beatas foram diretas ao padre Clóvis, que era gordo, calvo e muito bemhumorado,
confessor preferido de todas elas. Narraram-lhe entre exclamações de
assombro o que acabara de se passar. O padre Clóvis mirou as beatas com um olhar
terno e as consolou:
– Logo passará... Isto é começo. Depois ele verá que vocês são mis santas, umas
verdadeiras filhas do Senhor. Isso passará. Não fiquem tristes. Vão rezar um padrenosso
e não se esqueçam que há benção hoje.
Ficou rindo quando elas partiram. E murmurava de si para si:
– Esses padre s recém-ordenados estragam a vida da gente...
Depois as beatas foram aos poucos se aproximando novamente do padre José Pedro.
A verdade é que nunca chegaram a ter com uma perfeita intimidade. O seu ar sério,
a sua bondade que se reservava para quando se fazia necessária, e seu horror às
intriguinhas sacristia faziam com que elas o respeitassem mais que o amassem.
Algumas, no entanto, aquelas que em geral eram ou viúvas ou esposas de maus
maridos, se fizeram mais ou menos suas amigas. Outra cais o afastava das beatas:
ele era a negação do pregador. Nunca havia conseguido descrever o inferno com a
força de convicção do padre Clóvis, por exemplo. Sua retórica era pobre e falha. No
entanto, ele acreditava, ele era um crente. E dificilmente se poderia dizer que padre
Clóvis acreditasse pelo menos no inferno.
A princípio o padre José Pedro pensara em levar os Capitães da Areia às beatas.
Pensava que assim salvaria não só as crianças de vida miserável, como salvaria
também as beatas de uma inutilidade perniciosa. Poderia conseguir que elas se
dedicassem aos meninos com a mesma fervorosa devoção com que se dedicavam às
igrejas, aos gordos padre s. O padre José Pedro adivinhava mais do que sabia se elas
passavam os dias em inúteis conversas nas igrejas, ou aba lenços para o padre
Clóvis, era porque não haviam tido, na malograda existência de virgens, um filho,
um esposo, a quem dedicar seu tempo e seu carinho. Agora ele levaria filhos para
elas.Muito tempo o padre José Pedro acariciou este projeto. Chegou mesmo levar
para casa de uma um menino do reformatório. Isso muito de conhecer os Capitães da
Areia, quando apenas ouvia falar nela experiência deu maus resultados: o menino
arribou da casa da solteirona levando uns objetos de prata, preferindo a liberdade da
rua mesmo vestido de farrapos e sem muita certeza de almoço, aos trajes e ao
almoço garantido com a obrigação de rezar o terço em alta, assistir várias missas e
bênçãos todos os dias. Depois o padre José Pedro compreendeu que a experiência
tinha fracassado mais por culpa da solteirona que do menino. Porque evidentemente
– pensa padre José Pedro – é impossível converter uma criança abandona e ladrona
em um sacristão. Mas é muito possível convertê-la em um homem trabalhador... E
esperava quando conhecesse os Capitães da Areia entrar num acordo com alguns
deles e com as beatas para tá uma nova experiência, agora bem dirigida. Mas logo
depois que
Boa-Vida o apresentou ao grupo, que aos poucos ganhou a confiança da maioria, viu
que era totalmente inútil pensar nesse projeto. Viu que era absurdo, porque a
liberdade era o sentimento mais arraigado nos corações dos Capitães da Areia e que
tinha que tentar outros meios.
Nas primeiras vezes os meninos o olhavam com desconfiança. Ouviam muitas vezes
na rua dizer que padre dava peso, que negócio de padre era para mulher. Mas o
padre José Pedro tinha sido operário e sabia como tratar os meninos. Tratava-os
como a homens, como a amigos. E assim conquistou a confiança deles, se fez amigo
de todos, mesmo daqueles que, como Pedro Bala e o Professor, não gostavam de
rezar. Dificuldade grande só teve mesmo com o Sem-Pernas. Enquanto que o
Professor, Pedro Bala, o Gato eram indiferentes às palavras do padre o Professor, no
entanto, gostava dele, pois lhe trazia livros, Pirulito, Volta Seca e João Grande,
principalmente o primeiro, muito atentos ao que ele dizia, o Sem-Pernas lhe fazia
uma oposição que a princípio tinha sido muito tenaz. Porém o padre José Pedro
terminara por conquistara confiança de todos. E pelo menos em Pirulito descobrira
uma vocação sacerdotal.
Mas naquela tarde não foi com muita satisfação que o viram chegar. Pirulito se
aproximou e beijou a mão do padre. Volta Seca também. Os demais o
cumprimentaram.O padre José Pedro explicou:
– Hoje venho fazer um convite a todos vocês.
Os ouvidos se fizeram atentos. O Sem-Pernas resmungou:
– Vai chamar a gente pra bênção. Só quero ver quem topa...
Mas se calou porque Pedro Bala o olhava com raiva. O padre sorriu com bondade.
Sentou-se num caixão, João Grande viu que a batina dele era suja e velha. Tinha
remendos feitos com linha preta e era grande para a magreza do padre. Cutucou
Pedro Bala, que espiou também. Então o Bala disse:
– Minha gente, o padre José Pedro, que é amigo de nós, tem uma bisa pra gente.
Viva o padre José Pedro!
João Grande sabia que tudo era por causa da batina rasgada e grande para a magreza
do padre. Os outros responderam viva, o padre sorriu acenando com a mão, João
Grande não tirava os olhos da batina. Pensou que Pedro Bala era mesmo um chefe,
sabia de tudo, sabia fazer tudo. Por Pedro Bala, João Grande se deixaria cortar a
facão como aquele negro de Ilhéus por Barbosa, o grande senhor do cangaço. O
padre José Pedro meteu a mão no bolso da batina, tirou o breviário negro. Abriu e de
dentro sacou algumas notas de dez mil-réis:
– Isso é pra gente andar no carrossel hoje... Convido vocês todos para andarem hoje
no carrossel da praça de Itapagipe.
Esperava que os rostos se animassem mais. Que uma extraordinária alegria reinasse
em toda sala. Porque assim ficaria ainda mais convicto de que estava servindo a
Deus quando daqueles quinhentos mil-réis que dona Guilhermina Silva dera para
comprar velas pano altar da Virgem tirara cinqüenta mil-réis para levar os Capitães
da Areia ao carrossel. E como os rostos não ficaram subitamente alegres, ele ficou
desconcertado, as notas na mão, olhando a multidão de meninos. Pedro Bala coçou o
cabelo que lhe caía sobre as orelhas, quis falar, não acertou. Olhou então para o
Professor, e foi este quem aplicou:
– Padre, o senhor é um homem bom. – Teve vontade de dir que o padre era bom
como João Grande, mas pensou que talvez o padre se ofendesse se ele o comparasse
ao negro. – Mas o que temi que o Sem-Pernas e Volta Seca tão os dois trabalhando
no carrossel. E a gente tá convidado – aí fez uma pequena pausa – pelo proprietário,
que é amigo deles, pra andar à noite de graça. Agente não esquece do convite do
senhor... – O Professor falava pausado escolhendo as palavras, pensando que aquele
era um momento delicado, adivinhando muita coisa, e Pedro Bala o apoiava com a
cabeça.
– Fica pra outra vez. Mas o senhor não vai zangar com a gente porque a gente não
aceita? Não vai, não é? – e espiava o padre, cujo rosto agora estava novamente
alegre.
– Não. Fica pra outra vez. – Olhou para os meninos sorrindo – Foi até melhor assim.
Porque o dinheiro que eu tinha... – e se calou de repente ante o fato que ia contar. E
pensou que talvez tive, sido uma lição de Deus, um aviso, e que tivesse feito uma
com malfeita. Seu olhar foi tão estranho, que os meninos se aproximam um passo.
Olhavam para o padre sem compreender. Pedro Bala franzia testa como quando
tinha um problema a resolver, o Professor tentou falar. Mas, João Grande
compreendeu tudo, apesar de ser o mais burro de todos:
– Era da igreja, padre?-e bateu na boca com raiva de si mesmo.
Os outros entenderam. Pirulito pensou que tivesse sido um grande pecado, mas
sentiu que a bondade do padre era maior que o pecado. Então o Sem-Pernas veio
coxeando ainda mais que o seu natural, como se viesse lutando consigo mesmo,
chegou peno do padre e quase gritou a princípio, se bem logo baixasse muito a voz:
– A gente pode botar no lugar onde estava... É coisa canja pra gente. Não fique
triste... – e sorria.
E o sorriso do Sem-Pernas e a amizade que o padre lia nos olhos de todos haveria
lágrimas nos olhos do Grande lhe restituíram a calma, a serenidade, a confiança no
seu ato e no seu Deus. Disse com sua voz natural:
– Uma velha viúva deu quinhentos mil-réis para vela. Eu tirei cinqüenta para vocês
andarem no carrossel. Deus julgará se fiz bem. Agora compro mesmo de vela.
Pedro Bala sentia que tinha uma dívida a saldar com o padre. Queria que o padre
soubesse que todos eles compreendiam. E como não achasse nada mais à mão, se
dispôs a perder o trabalho que poderiam fizer naquela tarde e convidou o padre:
– A gente vai pro carrossel ver Volta Seca e Sem-Pernas agora de tarde. Quer ir com
a gente, padre?
Padre José Pedro disse que sim, porque sabia que aquilo era mais um passo na sua
intimidade com os Capitães da Areia. E foi um grupo pm o padre para a praça.
Vários não foram, o Gato inclusive, que foi ver Dalva. Mas os que iam pareciam um
bando de bons meninos que tinham do catecismo. Se estivessem bem vestidos e
limpos, pareceria um colégio de tão em ordem que eles iam.
Na praça rodaram tudo com o padre. Mostravam com orgulho Volta Seca imitando
animais, vestido de cangaceiro, o Sem-Pernas fazendo sozinho o carrossel girar,
porque Nhozinho França fora tomar uma cerveja num bar. Uma pena que à tarde as
luzes do carrossel não estivessem acesas. Não era tão belo como à noite, as luzes
girando de todas as cores. Mas eles tinham orgulho de Volta Seca imitando animais,
do Sem-Pernas movimentando o carrossel, fazendo as crianças subirem, as crianças
baixarem. O Professor, com um pedaço de lápis e uma tampa de caixa, desenhou
Volta Seca vestido de cangaceiro. Tinha um jeito especial para desenhar e por vem
ganhava dinheiro fazendo desenho, nas calçadas, de homens que passavam, de
senhoritas que iam com os noivos. Estes paravam um minuto, riam do desenho ainda
indeciso, as noivas diziam:
– Está muito parecido...
Ele recolhia os níqueis e então ficava a retocar o desenho feito a giz, a ampliá-lo, a
colocar homens decais e mulheres da vida, até um guarda o expulsava da
calçada.Por vezes já tinha um grupo espiando e havia quem dissesse:
– Este menino promete. É pena que o governo não olhe e vocações... – e lembravam
casos de meninos da rua que, ajudados famílias, foram grandes poetas, cantores e
pintores.
O Professor acabou o desenho no qual pôs o carrossel e Nhozinho França caindo de
bêbado e deu ao padre. Estavam todos num cerrado espiando o desenho, que o padre
elogiava, quando ouviram:
– Mas é o padre José Pedro...
E o lorgnon da velha magra se assestou contra o grupo como arma de guerra. O
padre José Pedro ficou meio sem jeito, os me olhavam com curiosidade os ossos do
pescoço e do peito da velha onde um barret custosíssimo brilhava à luz do sol.
Houve um m to em que todos ficaram calados, até que o padre José Pedro ânimo e
disse:
– Boa tarde, dona Margarida.
Mas a viúva Margarida Santos assestou novamente o lorgnon de ouro.
– O senhor não se envergonha de estar nesse meio, padre? Um sacerdote do Senhor?
Um homem de responsabilidade no meio desta gentalha...
– São crianças, senhora.
A velha olhou superiora e fez um gesto de desprezo com a boca. O padre continuou:
– Cristo disse: Deixai vir a mim as criancinhas...
– Criancinhas... Criancinhas... – cuspiu a velha.
– Ai de quem faça mala uma criança, falou o Senhor – e o padre José Pedro elevou a
voz acima do desprezo da velha.
– Isso não são crianças, são ladrões. Velhacos, ladrões. Isso não do são crianças. São
capazes até de ser dos Capitães da Areia... Ladrões – repetiu com nojo.
Os meninos a fitavam com curiosidade. Só o Sem-Pernas, que tinha vindo do
carrossel pois Nhozinho França já voltara, a olhava com raiva. Pedro Bala se
adiantou um passo, quis explicar:
– O padre só quer aju...
Mas a velha deu um repelão e se afastou.
– Não se aproxime de mim, não se aproxime de mim, imundície.
Se não fosse pelo padre eu chamava o guarda.
Pedro Bala aí riu escandalosamente, pensando que se não fosse pelo padre a velha
já não teria o barret nem tampouco o lorgnon. A velha se afastou com um ar de
grande superioridade, não sem dizer es para o padre José Pedro:
– Assim o senhor não vai longe, padre. Tenha mais cuidado com suas relações.
Pedro Bala ria cada vez mais, e o padre também riu, se bem sentisse triste pela
velha, pela incompreensão da velha. Mas o carrossel girava com as crianças bem
vestidas e aos poucos os olhos dos Capitães da Areia se voltaram para ele e estavam
cheios de desejo de ar nos cavalos, de girar com as luzes. Eram crianças, sim–
pensou padre.
No começo da noite caiu uma carga d’água. Também as nuvens logo depois
desapareceram do céu e as estrelas brilharam, ou também a lua cheia. Pela
madrugada os Capitães da Areia vieram. O Sem-Pernas botou o motor para
trabalhar. E eles esqueceram não eram iguais às demais crianças, esqueceram que
não tinham, nem pai, nem mãe, que viviam de furto como homens, que temidos na
cidade como ladrões. Esqueceram as palavras da velha de lorgnon. Esqueceram tudo
e foram iguais a todas as crianças, cavalgando os ginetes do carrossel, girando com
as luzes. As estrelas brilhavam, brilhava a lua cheia. Mas, mais que tudo, brilhavam
noite da Bahia as luzes azuis, verdes, amarelas, roxas, vermelhas, do Grande
Carrossel Japonês.
Docas
Pedro Bala bateu a moeda de quatrocentos réis na parede da Alfândega, ela caiu
adiante da de Boa-Vida. Depois Pirulito bate dele, a moeda ficou entre a de Boa-
Vida e a de Pedro Bala. Boa-Vida estava acocorado, espiando. Tirou o cigarro da
boca:
– Eu gosto é assim mesmo. De começar ruim...
E continuaram o jogo, mas Boa-Vida e Pirulito perderam moedas de quatrocentão,
que Pedro Bala embolsou:
– Eu sou é bamba mesmo.
Diante deles estavam os saveiros ancorados. Do Mercado mulheres e homens. Eles
esperavam nesta tarde o saveiro do Querido-de-Deus. O capoeirista estava numa
pescaria, que sua profissão e pescador. Continuaram o jogo do cruzado até que
Pedro Bala limpou os outros dois. A cicatriz do seu rosto brilhava. Gostava de vai
assim num jogo limpo, principalmente quando os parceiros eram da força do Pirulito
que fora muito tempo o campeão do grupo e de Boa-Vida. Quando terminaram,
Boa-Vida puxou o bolso para fora:
– Tu vai me emprestar nem que seja um cruzado. Tou a nem-nem.
Depois mirou o mar, os saveiros ancorados:
– Querido-de-Deus vai chegar de tardinha. Vamos pias a Pirulito disse que ficava
esperando o Querido-de-Deus, mas Pedro Bala foi com Boa-Vida para as docas.
Atravessaram as ruas do cais, afundaram os pés na areia.Um navio desatracava do
armazém 5, haviam movimento de gente que entrava e saía. Pedro Bala perguntou
ao Boa-Vida:
– Tu não tem vontade de ser marítimo?
– Tá vendo... Gosto daqui. Não quero arribar, não.
– Pois eu tenho vontade. É bonito trepar num mastro. E um temporal, bem? Tu te
lembra daquela história que o Professor leu pra gente? Aquela que tinha um
temporal.Batuta...
– Era porreta, sim.
Pedro Bala ficou se lembrando da história. Boa-Vida achava besteira sair da Bahia,
onde, quando crescesse, seria tão fácil viver uma boa existência de malandro,
navalha na calça, violão debaixo do braço, uma morena para derrubar no areal. Era a
existência que desejava ter quando se fizesse completamente homem.
Chegaram ao portão do armazém sete. João de Adão, um estivador negro e
fortíssimo, antigo grevista, temido e amado em toda a estiva, estava sentado num
caixão.Fumava cachimbo e os músculos saltavam sob sua camisa. Quando viu os
meninos foi saudando:
– Olha o amigo Boa-Vida. E o Capitão Pedro.
Só chamava Pedro de Capitão Pedro e gostava de conversar com eles. Ofereceu um
pedaço de caixão a Pedro Bala, Boa-Vida se acocorou na sua frente. Num canto,
uma negra velha vendia laranjas cocadas, vestida com uma saia de chitão e uma
anágua que deixava ver os seios ainda duros apesar da sua idade. Boa-Vida ficou
espiando os peitos da negra, enquanto descascava uma laranja que apanhara no
bueiro.
– Tu ainda tem uma peitam a bem boa, hein, tia?
A negra sorriu:
– Esses meninos de hoje não respeita os mais velho, compadre João de Adão. Onde
já se viu um capetinha destes falar em peito pra a velha encongrujada como eu?
Deixa de conversa, tia. Tu ainda topa a coisa...
A negra riu com vontade:
– Já fechei a cancela, Boa-Vida. Passei da idade. Pergunta este... – aponta João de
Adão. – Vi quando ele, quase menino as como tu, fez a primeira greve aqui nas
doca. Naquele tempo ninguém sabia que diabo era greve. Tu te lembra, compadre?
João de Adão balançou a cabeça que sim, fechou os o recordando os longínquos
tempos da primeira greve que chefiara docas. Era um dos doqueiros mais velhos,
embora ninguém lhe d a idade que tinha.
Pedro Bala falou:
– Negro quando pinta, três vezes trinta.
A negra mostrou a carapinha toda pintada de branco. Tinha tirado o lenço que
enrolava na cabeça e Boa-Vida chalaceou:
– Por isso tu anda com esse lenço. O negra cheia de proso João de Adão perguntou:
– Tu te lembra de Raimundo, comadre Luisa?
– O Loiro, que morreu na greve? Como não me lembro? Era que toda tarde vinha
dar dois dedo de prosa comigo, gostava de pilhéria...
– Mataram ele bem aqui, naquele dia que a cavalaria ato a gente. – Olhou para Pedro
Bala. – Tu nunca ouviu falar Capitão?
– Não.
– Tu tinha uns quatro anos. Depois disso tu andou um ano casa de um pra casa de
outro até que tu fugiu. Depois a gente só saber de tu quando tu já era chefe dos
Capitães da Areia. Mas a gente sabia que tu havia de te arranjar. Quantos anos tu
tem agora?
Pedro ficou fazendo cálculos e o próprio João de Adão interrompeu.
– Tu tá com uns quinze anos. Não é, comadre?
A negra fez que sim. João de Adão continuou:
– No dia que tu quiser tu tem um lugar aqui nas docas. A gente tem um lugar
guardado pra tu.
– Por quê? – perguntou Boa-Vida, já que Pedro apenas olhava espantado.
– Porque o pai dele era Raimundo e morreu foi aqui mesmo lutando pela gente, pelo
direito da gente. Era um homem e tanto. Valia dez destes que a gente encontra por
ai.
– Meu pai?-fez Pedro Bala, que daquelas histórias só conhecia vagas rumores.
– Teu pai, era. A gente chamava ele de Loiro. Quando foi da greve fazia discurso
pra gente, nem parecia um estivador. Foi pegado por uma bala. Mas tem um lugar
pra tu nas docas.
Pedro Bala riscava o asfalto com um graveto. Olhou João de Adão:
– Por que tu nunca me contou isso?
– Tu era pequeno para entender. Agora tu tá ficando um homem – e riu com
satisfação.
Pedro Bala riu também. Estava contente de saber a história de seu pai, porque ele
tinha sido um homem valente. Mas perguntou lentamente:
– E minha mãe tu conheceu?
João de Adão pensou um momento:
– Não sei, não. Quando conheci o Loiro, ele não tinha mulher.
Mas tu vivia com ele.
– Eu conheci – era a negra que estava falando. – Um pedaço mulher. Corria uma
história que teu pai tinha fintado ela de casa, ela era de uma família rica lá de cima –
e apontava a cidade alta. Morreu quando tu nem tinha seis meses. Nesse tempo
Raimundo trabalhava na fábrica de ciganos de Itapagipe. Depois foi que veio pras
docas.
João de Adão repetiu:
– Quando tu quiser...
Pedro Bala fez um aceno com a cabeça. Depois perguntou:
– Foi uma coisa batuta a greve, não foi?
E ficaram ouvindo João de Adão narrar a greve. Quando ele acabou, Pedro Bala
disse:
– Eu gostava de fazer uma greve. Deve ser porreta.
Vinha entrando um navio. João de Adão se levantou:
– Agora a gente vai carregar aquele holandês.
O navio apitava nas manobras de atracação. De todos os cantos surgiam estivadores
que se iam dirigindo para o grande armazém Pedro Bala os olhou com carinho. Seu
pai fora um deles, morrera defesa deles. Ali iam passando homens brancos, mulatos,
negros muitos negros. Iam encher os porões de um navio de sacos de cacau, fardos
de fumo, açúcar, todos os produtos do estado que iam para pátrias longínquas, onde
outros homens como aqueles, talvez altos loiros, descarregariam o navio, deixariam
vazios os seus porões, pai fora um deles. Só agora o sabia. E por eles fizera
discursos trepado em um caixão, brigara, recebem uma bala no dia em que a
cavalaria enfrentou os grevistas. Talvez ali mesmo, onde ele se sentava, ti caldo o
sangue de seu pai. Pedro Bala mirou o chão agora asfaltado. Por baixo daquele
asfalto devia estar o sangue que correra do corpo seu pai. Por isso, no dia em que
quisesse, teria um lugar nas d entre aqueles homens, o lugar que fora de seu pai. E
teria também carregar fardos... Vida dura aquela, com fardos de sessenta quilos
costas. Mas também poderia fazer uma greve assim como seu pai João de Adão,
brigar com policias, morrer pelo direito deles, vingaria seu pai, ajudaria aqueles
homens a lutar pelo seu vagamente Pedro Bala sabia o que era isso. Imaginava-se n
greve, lutando.E sorriam os seus olhos como sorriam os seus Boa-Vida, que chupava
a terceira laranja, interrompeu seu sonho:
– Tá pensando na morte da bezerra, seu mano?
A preta velha olhou Pedro Bala com carinho:
– É a cara do pai, Só que tem o cabelo ondeado da mãe. Se fosse esse talho na cara,
não tinha que tirar nem pôr pan Raimundo. Um homem bonito...
Boa-Vida riu entre dentes. Perguntou quanto devia, pagou duzentos réis. Depois
olhou mais uma vez os peitos da ri perguntou:
– Tu não tem uma fia, minha tia?
– Pra que tu quer saber, desgraçado?
Boa-Vida riu:
– Eu podia me amigar com ela...
A negra atirou o chinelo, Boa-Vida desviou o corpo:
– Se eu tivesse uma filha, não era pra teu bico, malandro.
Depois se lembrou:
– Tu não vai hoje ao Gantois? Vai ser uma batida daquelas. Um fandango de
primeira. É festa de Omolu.
– Muita bóia? E aluá?
– Se tem... – mirou Pedro Bala. – Por que tu não vai, branco?
Omolu não é só santo de negro. É santo dos pobres todos.
Boa-Vida estendeu a mão numa saudação quando ela falou em Omolu, o deus da
bexiga. A tarde caía. Um homem comprou cocada. As luzes se acenderam de
repente. A negra se levantou, boa-vida ajudou a que ela botasse o tabuleiro na
cabeça. Ao longe, Pirulito apontava com o Querido-de-Deus. Pedro Bala olhou mais
uma vez os homens que nas docas carregavam fardos para o navio holandês. Nas
largas costas negras e mestiças brilhavam gotas de suor. Os pescoços musculosos
iam curvados sob os fardos.E os guindastes rodavam ruidosamente. Um dia iria
fazer uma greve como seu pai... Lutar gelo direito... Um dia um homem assim como
João de Adão poderia contar a outros meninos na porta das docas a sua história,
como contavam a de seu pai. Seus olhos tinham um intenso brilho na noite recémchegada.
Ajudaram o Querido-de-Deus a desembarcar a pescaria, que fora boa. Yemanjá o
tinha ajudado. Um homem que tinha banca de peixe no mercado comprou toda a
pescaria.Depois foram comer num restaurante próximo. Pirulito foi ver o padre José
Pedro, que estava lhe ensinando a ler e a escrever. Passou pelo trapiche antes, para
apanhar uma caixa de penas que tinha levantado numa papelaria pela manhã. Pedro
Bala, Boa-Vida e o Querido-de-Deus andaram para o candomblé do Gantois o
Querido era ogã, onde Omolu apareceu com suas vestimentas vermelhas e avisou a
seus filhinhos pobres, no cântico mais lindo que pode haver, que em breve a miséria
acabaria, que ele levaria a bexiga para a casa dos ricos e que os pobres seriam
alimentados e felizes. Os atabaques tocavam na noite de Omolu. E ele anunciava
que o dia de vingança dos pobres chegaria. As negras dançavam, os homens estavam
alegres. O dia da vingança chegaria.
Pedro Bala veio sozinho pelas ruas da cidade, pois o Boa-Vida fora com o Queridode-
Deus dançar num bleforé. Desceu as ladeiras que o conduziam à cidade baixa. Ia
devagar, como se carregasse um peso dentro de si, ia como que curvado por dentro.
Pensava na conversa da tarde com João de Adão, conversa que o alegrara porque
ficara sabendo que seu pai fora um homem valente do cais, um homem que chegara
a deixar uma história. Mas João de Adão falara também dos direitos dos doqueiros.
Pedro Bala nunca tinha ouvido falar naquilo e, no entanto, fora por estes direitos que
seu pai morrera. E depois, na macumba do Gantois, Omolu, paramentado de
vermelho, dissera que odiada vingança dos pobres não tardaria a chegar.E isso
oprimia o coração de Pedro Bala, como aqueles fardos de sessenta quilos oprimem o
cangote dos estivadores.
Quando acabou a descida da ladeira se dirigiu para o areal, vontade de ir para o
trapiche ver se dormia. Um cachorro latiu à sua passagem, pensando que ele ia lhe
disputar o osso que estava roendo. No fim da rua Pedro Bala viu um vulto. Parecia
uma mulher andava apressada. Sacudiu seu corpo de menino como se sacode animal
jovem ao ver a fêmea, e com passo rápido se aproximou mulher que agora entrava
no areal. A areia chiava sob os pés e a mulher notou que era seguida. Pedro Bala
podia vê-la bem quando ela passava sob os postes: era uma negrinha bem jovem,
talvez tivesse apenas anos como ele. Mas os seios saltavam pontiagudos e as
nádegas rolavam no vestido, porque os negros mesmo quando estão andando
naturalmente é como se dançassem. E o desejo cresceu deu Pedro Bala, era um
desejo que nascia da vontade de afogar a angústia que o oprimia. Pensando nas
nádegas rebolantes da negrinha pensava na morte de seu pai defendendo o direito
dos grevistas, Omolu pedindo vingança na noite de macumba. Pensava em derrubar
a negrinha sobre a areia macia, em acariciar seus seios duros talvez seios de virgem,
sempre seios de menina, em possuir seu corpo quente de negra.
Apressou seus passos, porque a negrinha se desviara da rua que cortava o areal e se
internara por este, se afastando dos postes de iluminação. Mas quando ela notou que
Pedro Bala estava cada vez mais próximo, se lançou para a frente quase correndo.
Pedro compreendeu que ele ia para uma daquelas ruas perdidas entre o morro e o
mar, e que se atravessava o areal era para caminho mais curto e com mais facilidade
poder fugir dele. Ia um silêncio por todo o cais, só chiar da areia sob os passos deles
fazia estremecer de medo o coração da negrinha e de impaciência o coração de
Pedro Bala. Mas estava cada vez mais próximo. Andava muito mais rápido que a
negra e a alcançaria com mais dez passos. E ela tinha ainda muito que andar no areal
antes de atingir os trapiches e as ruas que ficam além dos trapiches. Pedro sorria, um
sorriso de dentes apertados, era igual a um animal feroz caçando no deserto um
outro animal para seu almoço.
Quando já ia levando a mão para tocarem seu ombro e fazer com que ela voltasse o
rosto, a negrinha começou a correr. Pedro Bala se lançou em sua perseguição e logo
a alcançou. Mas ia a tal velocidade esbarrou nela e ambos rolaram na areia. Pedro se
levantou de um rindo, chegou para o lado dela, que procurava se pôr em pé:
– Não precisa, lindeza. Assim mesmo tá bom.
O rosto da negrinha era de terror. Mas quando viu que seu seguidor era um menino
de quinze para dezesseis anos se animou is um pouco e perguntou com raiva:
– Que é que tu quer?
– Deixa de orgulho, morena. Vamos bater um papozinho...
E a agarrou pelo braço e novamente a derrubou na areia. O medo voltou a possuí-la,
um terror doido. Vinha da casa da avó e ia para sua onde mãe e irmãs a
esperavam.Para que tinha vindo de noite, para que se arriscara na areia do cais? Não
sabia que a Meia das docas é a cama de amor de todos os malandros, de todos os
ladrões, de todos marítimos, de todos os Capitães da Areia, de todos os que não
podem pagar mulher e têm sede de um corpo na cidade santa da Bahia? Ela não
sabia disto, mal fizera quinze anos, havia muito pouco tempo que era mulher. Pedro
Bala também só tinha quinze anos, mas há muito tempo conhecia não só o areal e os
seus segredos, como os segredos do amor das mulheres.Porque se os homens
conhecem esses segredos muito antes que as mulheres, os Capitães da Areia os
conheciam muito antes que qualquer homem. Pedro Bala a queria porque há muito
sentia os desejos de homem e conhecia as carícias do amor. Ela não o queria porque
fazia pouco que se tornara mulher e pretendia reservar seu corpo para um mulato
que a soubesse apaixonar.
Não o queria entregar assim ao primeiro que a encontrasse no areal. E está com os
olhos entupidos de medo.
Pedro Bala passou a mão na carapinha da negra:
– Tu é um pancadão, morena. Nós vai fazer um filho lindo...
Ela lutou por se afastar dele:
– Me deixa. Me deixa, desgraçado!
E olhava em torno de si para ver se enxergava alguém a quem gritar, a quem pedir
socorro, alguém que a ajudasse a conservar a sua virgindade, que tinham lhe
ensinado que era preciosa. Mas à noite no areal do cais da Bahia não se vêem senão
sombras e não se ouvem mais que gemidos de amor, baques de corpos que rolam
confundidos na areia.
Pedro Bala acariciava seus seios e ela, no fundo de seu terror, começava a sentir um
fio de desejo, como um fio de água que corre entre montanhas e vai engrossando aos
poucos até se transformar em caudaloso rio. E isso fez com que crescesse o seu
terror. Se ela não resistisse contra o desejo e deixasse que ele a possuísse, estaria
perdida, iria deixar uma mancha de sangue no areal, da qual ririam os estivadores na
madrugada seguinte. A certeza da sua fraqueza lhe deu novo alento e novas forças.
Baixou a cabeça, mordeu a mão de Pedro que segurava seu seio. Pedro deu um grito,
retirou a mão, ela se levantou e correu. Mas ele a pegou e agora seu desejo estava
misturado com raiva.
– Vamos deixar de chove-não-molha e tentava derrubá-la.
– Deixa eu ir embora, desgraçado. Tu quer fazer minha desgraça, filho da mãe?
Deixa eu ir embora, que não tenho nada com tu.
Pedro não respondia. Conhecia outras que faziam chiquê. Em geral porque tinham
um amante a esperá-las. Nem por um momento pensou que a negrinha fosse
virgem.Mas ela resistia e o xingava, e mordia, batia suas frágeis mãos no peito de
Pedro Bala.
– Mas que é que tu viu, cabocla? Tu pensa que eu vou te deixar antes de tu me dar?
Deixa de orgulho. Teu macho não vai saber, ninguém fica sabendo. E tu vai ver o
que é um homem bom...
E agora fazia por acariciá-la, queria dominar sua raiva, fazer com que ela sentisse
desejo. Suas mãos desciam ao longo do seu corpo, deitou-a com esforço. Ela agora
repetia num refrão:
– Me deixa, desgraçado... Me deixa, desgraçado...
Ele suspendeu as saias pobres de chita, apareceram as duras coxas da negra. Mas
estavam uma sobre a outra e Pedro Bala tentou separá-las. A negrinha reagiu de
novo, mas como o menino a estava acariciando e ela sentiu a chegada impetuosa do
desejo, não o xingou mais, senão que disse num pedido angustioso:
– Me deixa, que eu sou virgem. Tu pode ser bom, não me querer.
Depois tu encontra outra. Eu sou donzela, tu vai me fazer mal.
Ele olhou, ela estava chorando de medo e também porque sua vontade estava
enfraquecendo, seus peitos estavam intumescidos.
– Tu é donzela mesmo?
– Juro por Deus Nosso Senhor, pela Virgem – beijava os dedos postos em cruz.
Pedro Bala vacilava. Os seios da negrinha intumescidos sob seus dedos. As coxas
duras, a carapinha do sexo.
– Tu tá falando a verdade? – e não deixava de acariciá-la.
– Tou, juro. Deixa eu ir embora, minha mãe tá me esperando.
Chorava, e Pedro Bala tinha pena, mas o desejo estava solto dentro dele. Então
propôs ao ouvido da negra e fazia cócegas a língua dele:
– Só boto atrás.
– Não. Não.
– Tu fica virgem igual. Não tem nada.
– Não. Não, que dói.
Mas ele a acarinhava, uma cócega subiu pelo corpo dela. Começou a compreender
que se não o satisfizesse como ele queria, sua virgindade ficaria ali. E quando ele
prometeu novamente sua língua a excitava no ouvido se doer eu tiro... ela consentiu.
– Tu jura que não vai na frente?
– Juro.
Mas depois que tinha se satisfeito pela primeira vez e ela gritara e mordera as mãos,
vendo que ela ainda estava possuída pelo desejo, tentou desvirginá-la.Mas ela sentiu
e saltou como uma louca:
– Tu não te contenta, desgraçado, com o que me fez? Tu quer me desgraçar?
E soluçava alto, e levantava os braços, estava como uma louca, toda sua defesa eram
seus gritos, suas lágrimas, suas imprecações contra o chefe dos Capitães da Areia.
Mas para Pedro a maior defesa da negrinha eram os olhos cheios de pavor, olhos de
animal mais fraco que não tem forças para se defender. E como seu maior desejo
fosse satisfizera, e como aquela angústia do princípio da noite voltava a dominá-lo,
ele falou:
– Se eu te deixar, tu volta amanhã?
– Volto, sim.
– Sô faço o que fiz hoje. Te deixo donzela...
Ela fez que sim com a cabeça. Seus olhos estavam iguais aos de um doido e naquele
momento só sentia dor e pavor, vontade de fugir. Agora que as mãos dele, os lábios
dele, o sexo de Pedro, não tocavam mais nas carnes dela, seu desejo desaparecera e
pensava unicamente em defender sua virgindade. Respirou quando ele disse:
– Então tu pode ir. Mas se tu não voltar amanhã... Quando eu te pegar tu vai ver com
quantos paus se faz uma cangalha...
Ela começou a andar sem nada responder. Mas o menino a acompanhou:
– Vou te levar para um malandro não lhe pegar.
Foram os dois e ela chorava. Ele quis pegar na mão dela, ela não deixou e se afastou
dele. Ele tentou novamente, novamente ela retirou a mão. Então ele disse:
– Que diabo é isso?
E foram de mãos dadas. Ela chorava e aquele choro foi angustiando Pedro Bala, foi
fazendo com que voltasse sua inquietação do começo da noite, a visão de seu pai
morrendo na luta, a visão de Omolu anunciando vingança. Começou a maldizer
intimamente o encontro da cabrocha e apressou o passo para chegar quanto antes ao
começo da rua. Ela soluçava e ele falou com raiva:
– Que foi que tu teve? Tu não teve nada...
Ela apenas o olhou e seus olhos apesar de ainda ir com ele e ainda estar apavorada
estavam cheios de ódio e desprezo. Pedro baixou a cabeça, não sabia o que dizer,
não tinha mais desejo nem raiva, só tristeza no seu coração. Ouviram a música de
um samba que um homem cantava na rua. Ela soluçou mais alto, ele foi chutando a
areia. Agora se sentia mais fraco que ela, a mão da negrinha pesava na sua como se
fosse chumbo. Largou a mão, ela se afastou dele. Pedro não protestou. Queria não a
ter encontrado, não ter também João de Adão nem ter ido ao Gantois. Chegaram na
rua, ele disse:
– Agora tu pode ir, ninguém te faz mal.
Ela olhou novamente com ódio deitou a correr. Mas na esquina mais próxima parou,
virou para ele que ainda olhava e rogou praga com uma voz que o encheu de medo:
– Peste, fome e guerra te acompanha, desgraçado. Deus te castiga, desgraçado. Filho
de uma mãe, desgraçado, desgraçado – sua voz solitária atravessa a rua, abalava
Pedro Bala.
Ela, antes de desaparecer na esquina, cuspiu no chão num supremo desprezo e ainda
repetiu:
– Desgraçado... Desgraçado Primeiro ele ficou parado, depois deitou a correr no
areal ia como se os ventos o açoitassem, como se fugisse das pragas da negrinha. E
tinha vontade de se jogar no mar para se lavar de toda aquela inquietação, a vontade
de se vingar dos homens que tinham matado seu pai, o ódio que sentia contra a
cidade rica que se estendia do outro lado do mar, na Barra, na Vitória, na Graça, o
desespero da sua vida de criança abandonada e perseguida, a pena que sentia pela
pobre negrinha, uma criança também.
“Uma criança também” – ouvia na voz do vento, no samba que cantavam, uma voz
dizia dentro dele.
Aventura de Ogum
Outra noite, uma noite de inverno, na qual os saveiros não se aventuraram no mar,
noite da cólera de Yemanjá e Xangô, quando os relâmpagos eram o único brilho no
céu carregado de nuvens negras e pesadas, Pedro Bala, o Sem-Pernas e João Grande
foram levar a mãe-de-Santo, Don’Aninha, até sua casa distante. Ela viera ao trapiche
pela tarde, precisava de um favor deles, e enquanto explicava, a noite caiu espantosa
e terrível.
– Ogum esta zangado... – explicou a mãe-de-Santo Don’Aninha.
Fora este assunto que trouxera ali. Numa batida num candomblé que se bem não
fosse o seu, porque nenhum polícia se aventurava a dar batida no candomblé de
Aninha, estava sob a sua proteção, a polícia tinha carregado com Ogum, que
repousava no seu altar. Don’Aninha tinha usado da sua força junto a um guarda para
conseguir a volta do santo fora mesmo à casa de um professor da Faculdade de
Medicina, seu amigo, que vinha estudar a religião negra no seu candomblé, pedir
que ele conseguisse a restituição do deus. O professor realmente pensava em
conseguir que a policia lhe entregasse a imagem. Mas para juntar à sua coleção de
ídolos negros e não para reintegrá-la no seu altar no candomblé distante. Por isso,
por estar Ogum numa sala de detidos na polícia, Xangô descarrega os raios nessa
noite.
Por último Don’Aninha veio aonde estavam os Capitães da Areia, seus amigos de há
muito, porque são amigos da grande mãe-de-santo todos os negros e todos os pobres
da Bahia. Para cada um ela tem uma palavra amiga e materna. Cura doenças, junta
amantes, seus feitiços matam homens ruins. Explicou que tinha acontecido a Pedro
Bala. O chefe dos Capitães da Areia ia pouco aos candomblés, como pouco ouvia as
lições do padre José Pedro. Mas era amigo tanto do padre como da Mãe-de-santo, e
entre os Capitães da Areia quando se é amigo se serve ao amigo.
Agora levavam Aninha para sua casa. A noite em torno era tormentosa e colérica. A
chuva os curvava sob o grande guarda-chuva branco da Mãe-de-santo. Os
candomblés batiam em desagravo a Ogum e talvez num deles ou em muitos deles
Omolu anunciasse a vingança do povo pobre. Don’Aninha disse aos meninos com
uma voz amarga:
– Não deixam os pobres viver... Não deixam nem o deus dos pobres em paz. Pobre
não pode dançar, não pode cantar pra seu deus, não pode pedir uma graça a seu deus
sua voz era amarga, uma voz que não parecia da mãe-de-santo Don’Aninha. – Não
se contentam de matar os pobres a fome... Agora tiram os santos dos pobres... –
alçava os punhos.
Pedro Bala sentiu uma onda dentro de si. Os pobres não tinham nada. O padre José
Pedro dizia que os pobres um dia iriam para o reino dos céus, onde Deus seria igual
para todos. Mas a razão jovem de Pedro Bala não achava justiça naquilo. No reino
do céu seriam iguais.
Mas já tinham sido desiguais na terra, a balança pendia sempre para um lado.
As imprecações da mãe-de-santo enchiam a noite mais que o ruído dos agogôs e
atabaques que desagravavam Ogum. Don’Aninha era magra e alta, um tipo
aristocrático de negra, e sabia levar como nenhuma das negras da cidade suas roupas
de baiana. Tinha o rosto alegre, se bem bastasse um olhar seu para inspirar absoluto
respeito. Nisso se parecia com o padre José Pedro. Mas agora estava com um ar
terrível e suas imprecações contra os ricos e a polícia enchiam a noite da Bahia e o
coração de Pedro Bala.
Quando a deixaram, rodeada das suas filhas-de-santo, que beijavam sua mão, Pedro
Bala prometeu:
– Deixa estar, mãe Aninha, que amanhã te trago Ogum.
Ela bateu a mão na cabeça loira dele, sorriu. João Grande e o Sem-Pernas beijaram a
mão da negra. Desceram a ladeira. Os agogôs e atabaques ressoavam desagravando
Ogum.
O Sem-Pernas não acreditava em nada, mas devia favores a Don’Aninha. Perguntou:
– O que é que a gente vai fazer? O troço está na polícia..
João Grande cuspiu, estava com certo receio.
– Não chame Ogum de troço, Sem-Pernas. Ele castiga...
– Tá preso, não pode fazer nada – riu o Sem-Pernas.
João Grande calou a boca, porque sabia que Ogum era grande demais, mesmo na
cadeia podia castigar o Sem-Pernas. Pedro Bala coçou o queixo, pediu um cigarro:
– Deixa eu matutar. A gente tem que dar conta. A gente garantiu a Aninha. Agora
tem que fazer.
Desceram para o trapiche. A chuva entrava pelos buracos do teto, a maior parte dos
meninos se amontoavam nos cantos onde ainda havia telhado. O Professor tentara
acender sua vela, mas o vento parecia brincar com ele, apagava-a de minuto a
minuto. Afinal ele desistiu de ler essa noite e ficou peruando um jogo de sete-e-meio
que o Gato bancava, ajudado por Boa-Vida, num canto. Moedas no chão, mas
nenhum rumor desviava Pirulito das suas orações diante da Virgem e de Santo
Antônio.Nestas noites de chuva eles não podiam dormir. De quando em vez a luz de
um relâmpago iluminava o trapiche e então se viam as caras magras e sujas dos
Capitães da Areia. Muitos deles eram tão crianças que temiam ainda dragões e
monstros lendários: Se chegavam para junto dos mais velhos, que apenas sentiam
frio e sono. Outros, os negros, ouviram no trovão a voz de Xangô. Para todos estas
noites de chuva eram terríveis. Mesmo para o Gato, que tinha uma mulher em cujo
seio escondia a jovem cabeça, as noites de temporal eram noites más. Porque nestas
noites homens que na cidade não têm onde reclinar a sua cabeça amedrontada, que
não têm senão uma cama de solteiro e querem esconder num seio de mulher o seu
temor, pagavam para dormir com Dalva e pagavam bem. Assim o Gato ficava no
trapiche, bancando jogos com seu baralho marcado, ajudado na roubalheira pelo
Boa-Vida. Ficavam todos juntos, inquietos, mas sós todavia, sentindo que lhes
faltava algo, não apenas uma cama quente num quarto coberto, mas também doces
palavras de mãe ou de irmã que fizessem o temor desaparecer. Ficavam todos
amontoados e alguns tiritavam de frio, sob as camisas e calças esmolambadas.
Outros tinham paletós furtados ou apanhado sem lata de lixo, paletós que utilizavam
como sobretudo. O Professor tinha mesmo um sobretudo, de tão grande arrastava no
chão.
Uma vez, e era no verão, um homem parara vestido com um grosso sobretudo para
tomar um refresco numa das cantinas da cidade. Parecia um estrangeiro. Era pelo
meio da tarde e o calor doía nas carnes. Mas o homem parecia não senti-lo, vestido
com seu sobretudo novo. O Professor achou o homem engraçado e com cara de
sujeito de dinheiro e começou a fazer um desenho dele com o sobretudo enorme,
maior que o homem, era o próprio homem o sobretudo, a giz no passeio. E ria de
satisfação, porque provavelmente o homem lhe daria uma prata de dois mil-réis. O
homem voltou-se na sua cadeira e olhou o desenho quase concluído. O Professor ria,
achava o desenho bom, o sobretudo dominando o homem, era mais que o homem.
Mas o homem não gostou da coisa, se deixou possuir por uma grande raiva,
levantou-se da cadeira e deu dois pontapés no Professor. Um atingiu o menino nos
rins e ele rolou pela calçada gemendo. O homem ainda meteu o pé no seu rosto,
dizendo congestionado ao se afastar:
– Toma, corneta, para aprender a não fazer burla de um homem.
E saiu batendo moedas na mão, após meio apagar com o pé o desenho. A garçonete
veio e ajudou o Professor a se levantar. Olhou com piedade o menino, que apalpava
o lugar dos rins doloridos, olhou o desenho, disse:
– Que bruto! Até que o retrato estava parecido... Um estúpido!
Meteu a mão no bolso onde guardava as gorjetas, tirou uma prata de um mil-réis,
quis dar ao Professor. Mas ele recusou com a mão, sabia que ia fazer falta a
ela.Olhou o desenho semi-apagado, seguiu seu caminho ainda com as mãos nos rins.
Ia quase sem pensar, com um nó na garganta. Ele quisera agradar o homem, merecer
uma prata dele. Tivera dois pontapés e palavras brutais. Não compreendia. Por que
eram odiados assim na cidade? Eram pobres crianças sem pai, sem mãe. Por que
aqueles homens bem vestidos tanto os odiavam? Foi com sua dor. Mas aconteceu
que no caminho para o trapiche, no deserto do areal sob o sol, encontrou novamente,
minutos depois, o homem de sobretudo. Parecia que ia para um dos navios atracados
no porto e levava agora o sobretudo no braço porque o sol estava abrasador.
Professor tirou a navalha poucas vezes a usava e se aproximou do homem. O calor
tinha alijado do areal todos os homens e o do sobretudo cortava pela areia para fazer
o caminho mais curto para o cais. O Professor foi silenciosamente por detrás do
homem quando chegou perto tomou a frente com a navalha na mão. A vista do
homem tinha transformado a confusão de seus sentimentos num único sentimento:
vingança. O homem o olhou aterrorizado. 0 Professor crescia em sua frente com a
navalha aberta. Murmurou entre dentes:
– Sai, moleque.
O Professor avançou com a navalha, o homem ficou branco.
– Que é isso? Que é isso?– e mirava todos os lados na esperança de ver alguém. Mas
só ao longe, nas docas, apareciam perfis de homens. Então o do sobretudo largou a
correr quando o Professor saltou em cima dele e lhe cortou a mão com a navalha. O
sobretudo ficou abandonado no chão e o sangue caía da mão do homem na areia. O
Professor tomou pelo outro lado, ficou um instante sem saber que fazer. Não tardaria
a vir um guarda, logo muitos, acompanhando o homem em sua perseguição. Se o
navio do homem saísse logo, tudo estava bem, a perseguição pouco demoraria. Mas
se tardasse a sair, com certeza o homem o perseguiria até dar com ele e pô-lo no
xadrez. Então o Professor lembrou-seda garçonete. Caminhou para a cantina, do
jardim que ficava em frente fez sinal para a garçonete. Ela veio e logo compreendeu
quando o viu com o sobretudo. O Professor avisou:
– Ele tá com um talho na mão.
Ela riu:
– Tu te vingou, hein?
Levou o sobretudo para a cantina, guardou. O Professor sumiu até que o navio saiu
barra afora. Mas de onde estava viu a batida dos guardas pelo areal e pelas ruas
adjacentes. Foi assim que o Professor tinha conseguido aquele sobretudo, que nunca
quis vender. Adquirira um sobretudo e muito ódio. E tempos depois, quando as suas
pinturas murais admiraram todo o país eram motivos de vidas de crianças
abandonadas, de velhos mendigos, de operários e doqueiros que rebentavam cadeias,
notaram que nelas os gordos burgueses apareciam sempre vestidos com enormes
sobretudos que tinham mais personalidade que eles próprios.
Pedro Bala, João Grande e o Sem-Pernas entraram no trapiche. Foram para o grupo
que jogava em torno ao Gato. Quando eles chegaram, o jogo parou um momento, o
Gato ficou espiando os três:
– Quer topar um sete-e-meio?
– Tou com cara de besta? respondeu o Sem-Pernas.
João Grande sentou para espiar, Pedro Bala se afastou com o Professor para um
canto. Queria combinar uma maneira de roubar a imagem de Ogum da polícia.
Discutiram parte da noite e já eram onze horas quando Pedro Bala, antes de sair,
falou para todos os Capitães da Areia:
– Minha gente, eu vou fazer um troço difícil. Se eu não aparecer até de manhã,
vocês fica sabendo que eu tou na polícia e não demoro a tá no reformatório, até
fugir. Ou até vocês me tirar de lá...
E saiu. João Grande o acompanhou até a porta. O Professor veio para junto do Gato
novamente. Os menores olhavam a partida do chefe com certo receio. Tinham uma
grande confiança em Pedro Bala e sem ele muitos não saberiam como se arranjar.
Pirulito veio do seu canto, deixara uma oração pelo meio:
– O que foi?
– Pedro foi fazer um troço difícil. Se não voltar de manhã, é que tá na chave...
– A gente tira ele respondeu Pirulito naturalmente, e nem parecia que minutos antes
estava ante um quadro da Virgem rezando pela salvação da sua pequena alma de
ladrão. E voltou aos seus santos a rezar por Pedro Bala.
O jogo recomeçou. Chuva e raios, trovões e nuvens no céu. O frio intenso no
trapiche. Gotas de água caíam sobre os meninos que jogavam. Mas o jogo agora era
sem atenção, o próprio Gato se esquecia de ganhar, havia como que uma confusão
em todo o trapiche. Durou até que Professor disse:
– Eu vou ver as coisas...
João Grande e o Gato foram com ele. Nesta noite foi Pirulito que se deitou na porta
do trapiche com o punhal sob a cabeça. E perto dele Volta Seca espiava a noite com
sua cara sombria. E pensava em que lugar estaria nesta noite de temporal o grupo de
Lampião na imensidade das caatingas. Talvez que nessa noite de temporal lutassem
com a polícia como ia fazer agora Pedro Bala. E Volta Seca pensou que quando
Pedro Bala fosse grande como um homem seria tão corajoso como Lampião.
Lampião era o dono do sertão, das caatingas sem fim. Pedro Bala seria dono da
cidade, do casario, das ruas, do cais. E Volta Seca, que era do sertão, poderia andar
nas caatingas e nas cidades.
Porque Lampião era seu padrinho e Pedro Bala seu amigo. Imitou o cocorocó de um
galo e isso era sinal de que Volta Seca estava alegre.
Pedro Bala, enquanto subia a ladeira da Montanha, revia mentalmente seu plano.
Fora arquitetado com a ajuda do Professor e era a coisa mais arriscada em que se
metera até hoje. Mas Don’Aninha bem que merecia que um corresse risco por ela.
Quando tinha um doente ela trazia remédios feitos com folhas, tratava dele, muitas
vezes curava. E quando aparecia um Capitão da Areia no seu terreiro ela o tratava
como a um homem, como a um ogã, dava-lhe do melhor para comer, do melhor para
beber. O plano era arriscado, possivelmente não daria certo, Pedro Bala comeria
cadeia uns dias e terminaria remetido para o reformatório, onde a vida era pior que
vida de cão.
Mas havia uma possibilidade de dar certo, e Pedro Bala jogaria tudo nesta
possibilidade. Chegou ao largo do Teatro. A chuva caía e os guardas se abrigavam
sob as capas. Começou a subir a ladeira de São Bento vagarosamente. Tomou por
São Pedro, atravessou o largo da Piedade, subiu o Rosário, agora estava nas Mercês,
diante da Central de Policia, olhando as janelas, o movimento de guardas e secretas
que entravam e safam. De minuto em minuto um bonde passava fazendo ruídos nos
trilhos, iluminando ainda mais a rua já bastante iluminada. O guarda amigo de
Don’Aninha tinha dito que Ogum estava na sala de detidos, jogado sobre um
armário, em meio a diversos outros objetos apreendidos em batidas várias em casas
de ladrões. Naquela sala colocavam os que eram presos durante a noite antes de
serem ouvidos ou pelo delegado ou pelos comissários de turno e que depois ou eram
remetidos para as prisões ou para a rua. Ali, num canto, a princípio dentro de um
armário que logo se encheu, depois junto ou sobre ele, colocavam objetos sem valor
apreendidos nas batidas policiais. O plano de Pedro Bala era passar a noite ou parte
dela na sala de detidos e levar ao sair se conseguisse sair a imagem de Ogum
consigo. Tinha uma grande vantagem: não era conhecido entre a polícia. Mesmo só
raros guardas o conheciam como moleque das ruas, se bem todos os guardas e
mesmo alguns investigadores desejassem ardentemente capturar o chefe dos
Capitães da Areia. Sabiam dele apenas que tinha aquele talho no rosto e Pedro Bala
passou a mão no talho. Mas o pensavam maior do que era em verdade e também
faziam a idéia de que Pedro Bala devia ser mulato e de mais idade. Se chegassem a
descobrir que ele era o chefe dos Capitães da Areia talvez nem para o reformatório o
mandassem. Muito provavelmente iria diretamente para a penitenciária.Porque do
reformatório se consegue fugir, mas da penitenciária não é fáciL Enfim... – e Pedro
Bala andou até o Campo Grande. Mas já não ia com aquele seu passo
despreocupado de moleque das ruas da cidade. Ia agora gingando como um filho de
marítimo, o boné puxado por causa da chuva, a gola do paletó devia ter sido
anteriormente de um homem muito grande levantada.
O guarda estava debaixo de uma árvore por causa da chuva. Pedro veio chegando
assim como quem tem medo. E quando falou ao guarda, sua voz era a de uma
criança que estava temerosa da noite tempestuosa da cidade.
– Seu guarda...
O guarda olhou:
– O que é, moleque?
– Eu não sou daqui. Eu sou de Mar Grande, vim com meu pai hoje.
O guarda não deixou que ele continuasse:
– E o que tem isso?
– Eu não tenho onde dormir. Queria que o senhor deixasse eu dormir na polícia...
– A policia não é hotel, malandro. Desaperta, desaperta... – e fez sinal para que
Pedro se afastasse.
Pedro tentou novamente puxar conversa, mas o guarda o ameaçou com o cassetete:
– Vai dormir num jardim... Vai embora...
Pedro saiu com cara de choro. O guarda ficou espiando o menino. Pedro parou no
ponto de bonde, esperou. Do primeiro carro não desceu ninguém, mas do segundo
saltou um casal. Pedro se atirou em cima da mulher, o homem viu que ele queria
abafar a carteira dela, segurou Pedro por um braço. A coisa fora tão mal feita que se
um dos Capitães da Areia passasse ali sem dúvida não reconheceria o seu chefe. O
guarda, que via acena, já estava junto a eles:
– Então era assim que você não era daqui? Um moleque ladrão.
Se afastou levando Pedro pelo braço. O menino ia com uma cara entre amedrontada
e risonha:
– Só fiz isso pro senhor me pegar mesmo...
– Hein?
– Tudo que eu disse é verdade. Meu pai é marítimo, tem um saveiro em Mar
Grande. Hoje me deixou aqui, não voltou com o temporal. Eu não sei onde dormir,
pedi pra dormir na polícia. O senhor não deixou, eu fiz que ia roubar a mulher só pro
senhor me pegar... Agora tenho onde dormir.
– E por muito tempo foi a única resposta do guarda.
Entraram na Central. O guarda atravessou um corredor, largou Pedro Bala na sala
dos detidos. Havia uns cinco ou seis homens. O guarda disse troçando:
– Agora você pode dormir, filho da mãe. E depois que o comissário chegar vamos
ver quanto tempo você vai dormir aqui...
Pedro ficou calado. Os outros presos nem ligavam para ele, estavam muito
interessados em fazer troça com um pederasta que tinha sido preso e se dizia chamar
Mariazinha.A um canto Pedro Bala viu o armário. A imagem de Ogum estava ao
lado, junto de uma cesta para papéis inúteis. Pedro se adiantou para ali, tirou o
paletó, pôs sobre a imagem. E enquanto os outros conversavam, enrolou Ogum não
era grande, havia outras imagens muito maiores no seu paletó e deitou-se no chão.
Pôs a cabeça sobre o embrulho e fez que dormia.
Os presos daquela noite continuavam a rir com o pederasta, exceto um velho que
tremia num canto, Pedro não sabia se de frio ou de medo. Mas ouvia a voz de um
negro jovem que dizia a Mariazinha:
– Quem tirou teu cabaço?
– Ora, me deixe... respondeu o pederasta rindo.
– Não. Conta. Conta! disseram os outros.
– Ah! Foi Leopoldo... Ah!
O velho continuava a tremer. Um malandro de cara chupada pela tísica percebeu o
velho no canto:
– Tu por que não vai te enrabar com aquele velhote?– perguntou a Mariazinha, que
fez bico.
– Não tá vendo logo que não me passo pra velho. Olhe, não quero mais conversa,
não...
Agora um guarda gozava na porta e o de cara chupada se virou para o velho, que se
encolheu todo:
– Mas tu bem que gostava se ele lhe desse hoje, hein, tio?
– Eu sou um velho... Eu não fiz nada... murmurou o velho, mais que falou. – Não fiz
nada, minha filha está me esperando...
Pedro, que estava de olhos fechados, adivinhou que o velho chorava. Mas continuou
fingindo que estava dormindo. Ogum doía nos ossos da sua cabeça. Os presos
continuavam a pilheriar com o pederasta e o velho, até que chegou outro guarda e
falou para o velho:
– Você, velhote. Vamos...
– Eu não fiz nada... falou mais uma vez o velho. – Minha filha está me esperando...
se dirigia a todos, guardas e presos. E tremia tanto, que todos tiveram pena e até o
malandro de cara chupada baixou a cabeça. Só o pederasta sorria.
O velho não voltou. Depois foi o pederasta. Demorou muito. O de cara chupada
explicava que Mariazinha era de boa família.
Naturalmente estavam telefonando para casa dele, pedindo que o viessem buscar
para não terem que o prender de novo naquela noite. De quando em vez, quando
tomava cocaína demais, dava escândalos na rua e era trazido por um guarda. Quando
Mariazinha voltou, foi só para pegar o chapéu. Então viu Pedro Bala deitado e disse:
– Tão novinho este. Mas é um amorzinho...
Pedro cuspiu de olhos fechados:
– Sai, xibungo, antes que eu te pranche a cara...
Os outros riram, e só então atentaram em Pedro:
– Que é que tu tá fazendo aqui, rato de igreja?
– O que não é da tua conta, macaqueio... – respondeu Pedro Bala ao de cara
chupada.
Até o guarda riu e explicou para os outros a história de Pedro. Mas o negro jovem
foi chamado e eles ficaram silenciosos. Sabiam que o negro tinha esfaqueado um
homem num breforé nesta noite. Quando o preto voltou trazia as mãos inchadas dos
bolos. Explicou:
– Disse que vou ser processado por ferimentos leves. E me dero duas dúzia...
Não conversou mais, procurou um canto, se arriou. Os outros também ficaram
calados. E foram indo um por um para o despacho do comissário. Uns eram postos
em liberdade, outros iam para o calabouço, outros voltavam apanhados. O temporal
cessara e a madrugada chegava. Pedro foi o último a ser chamado. Deixou o paletó
onde enrolara Ogum.
O comissário era um jovem advogado que reluzia um rubi no dedo e um charuto no
queixo. Quando Pedro entrou com o guarda, pedia café em voz alta. Pedro ficou
diante da escrivaninha, parado. O guarda disse:
– Esse é o menino do roubo no Campo Grande.
O comissário fez um sinal com a mão:
– Veja se esse café sai ou não sai...
O guarda retirou-se. O comissário leu a parte do guarda que prendera Pedro Bala,
olhou o menino:
– O que é que você tem a dizer? E não venha me mentir, não.
Pedro contou com uma voz amedrontada uma história comprida.
Que seu pai era saveirista em Mar Grande e naquele dia pela manhã viera com o
saveiro e o trouxera. Mas voltara em seguida para buscar outra carga e o deixara na
cidade passeando, porque o saveiro tornaria à Bahia ainda à tardinha e então ele
poderia voltar com seu pai. Mas com o temporal seu pai não tinha podido voltar e
ele, que não conhecia ninguém, ficou na chuvas em ter onde dormir. Perguntou a um
homem na rua onde poderia dormir, o homem respondera que na polícia. Então ele
pedira ao guarda que o levasse a dormir na policia, o guarda não deixara, ele fizera
então que ia furtar a mulher só para ser levado, para poder dormir sob um teto.
– Tanto que não roubei e nem fugi... – concluiu.
O delegado, que sorvia o café em golinhos, disse de si para si:
– Não é possível que uma criança desta idade inventasse essa história...
Depois, como tinha veleidades literárias, murmurou:
– Eis aí um conto formidável... e sorriu com bom humor.
– Como é o nome de teu pai? – perguntou a Pedro.
– Augusto Santos – respondeu o menino, dando o nome de um saveirista de Mar
Grande.
– Se o que você contou for verdade, eu vou lhe soltar. Mas se você quis me tapear
com essa história, vai ver...
Tocou a campainha chamando o guarda. Pedro estava com os nervos todos em
tensão. O guarda chegou, o comissário perguntou se na polícia havia um livro de
registro de saveiristas de Mar Grande que ancoravam no cais do Mercado.
– Tem, sim senhor.
– Vá ver se tem um tal Augusto Santos e volte para me dizer. E ande depressa, que
minha hora está acabando.
Pedro Bala olhou para o relógio: marcava cinco e meia da manhã. O guarda
demorou uns minutos, o comissário não se ocupou mais de Pedro, que estava de pé
ante sua secretária. Só quando o guarda voltou e disse: Tem, sim senhor... Hoje
mesmo teve no cais, mas voltou logo... – o comissário fez um gesto com a mão e
falou para o guarda:
– Ponha esse moleque em liberdade Pedro pediu para ir buscar seu paletó.
Acomodou debaixo do braço, nem parecia trazer a imagem envolvida nele.
Atravessaram o corredor novamente, o guarda o deixo una porta. Pedro tomou para
o largo dos Aflitos, rodeou o velho quartel, desabou pela Gamboa de Cima. Agora ia
correndo, mas ouviu passos atrás de si. Parecia que o perseguiam. Olhou. Professor,
João Grande e o Gato vinham atrás dele. Esperou que eles chegassem e perguntou
curioso:
– Que é que vocês tava fazendo por estas bandas?
O Professor coçou a cabeça:
– Não vê que a gente saiu agora cedo. E velo vindo por aqui, andando sem que fazer,
foi quando topou com tu, que vinha desabalado..
Pedro abriu o paletó, mostrou a imagem de Ogum. João Grande riu com satisfação:
– Como foi que tu tapeou eles?
Foram descendo a ladeira escorregadia da chuva. E Pedro Bala ia narrando as
aventuras da noite. O Gato perguntou:
– Tu não teve nem um pingo de medo?
Primeiro Pedro Bala pensou em dizer que não, depois confessou:
– Pra falar verdade, tive um cagaço da desgraça...
E riu da cara gozada que João Grande fazia. O céu agora estava azul, sem nuvens, o
sol brilhava e da ladeira eles viam os saveiros que partiam do cais do Mercado.
Deus sorri como um negrinho
O menino era tentação por demais grande.
Nem parecia um meio-dia de inverno. O sol deixava cair sobre ruas uma claridade
macia, que não queimava, mas cujo calor acariciava como a mão de uma mulher. No
jardim próximo as flores desabrochavam em cores. Margaridas e onze-horas, rosas e
cravos, dália e violetas. Parecia haver na rua um perfume bom, muito sutil, mas que
Pirulito sentia entrar nas suas narinas e como que embriagá-lo. Tinha comido na
porta de uma casa de portugueses ricos as sobras de almoço que fora quase um
banquete. A criada, que lhe trouxera o prato cheio, dissera, mirando as ruas, o sol de
inverno, os homens que passavam sem capa:
– Tá fazendo um dia lindo.
Essas palavras foram com Pirulito pela rua. Um dia lindo, e o menino ia
despreocupado, assoviando um samba que lhe ensinara o Querido-de-Deus,
recordando que o padre José Pedro prometera tudo fazer para 1he conseguir um
lugar n o seminário. Padre José Pedro lhe dissera que toda aquela beleza que caía
envolvendo a terra e homens era um presente de Deus e que era preciso agradecer a
Deus. Pirulito mirou o céu azul onde Deus devia estar e agradeceu num sorriso e
pensou que Deus era realmente bom. E pensando em Deus pensou também nos
Capitães da Areia. Eles furtavam, brigavam nas ruas, xingavam nomes, derrubavam
negrinhas no areal, por vezes feriam com navalhas ou punhal homens e polícias.
Mas, no entanto, eram bons, uns eram amigos dos outros. Se faziam tudo aquilo é
que não tinham casa, nem pai, nem mãe, a vida deles era uma vida sem ter comida
certa e dormindo num casarão quase sem teto. Se não fizessem tudo aquilo
morreriam de fome, porque eram raras as casas que davam de comer a um, de vestir
a outro. E nem toda a cidade poderia dar a todos. Pirulito pensou que todos estavam
condenados ao inferno. Pedro Bala não acreditava no inferno, Professor tampouco,
riam dele.
João Grande acreditava era em Xangô, em Omolu, nos deuses dos negros que
vieram da África. O Querido-de-Deus, que era um pescador valente e um capoeirista
sem igual, também acreditava neles, misturava-os com os santos dos brancos que
tinham vindo da Europa. O padre José Pedro dizia que aquilo era superstição, que
era coisa errada, mas que a culpa não era deles. Pirulito se entristeceu na beleza do
dia. Estariam todos condenados ao inferno? O inferno era um lugar de fogo eterno,
era um lugar onde os condenados ardiam uma vida que nunca acabava. E no inferno
havia martírios desconhecidos mesmo na polícia, mesmo no reformatório de
menores. Pirulito vira há poucos dias um frade alemão que descrevia o inferno num
sermão na Igreja da Piedade. Nos bancos, homens e mulheres recebiam as palavras
de fogo do frade como chicotadas no lombo. O frade era vermelho e de seu rosto
pingava o suor. Sua língua era atrapalhada e dela o inferno saía mais terrível ainda,
as labaredas lambendo os corpos que foram lindos na terra e se entregaram ao amor,
as mãos que foram ágeis e se entregaram ao furto, ao manejo do punhal e da
navalha. Deus no sermão do frade era justiceiro e castigador, não era o Deus dos
dias lindos do padre José Pedro. Depois explicaram a Pirulito que Deus era a
suprema bondade, a suprema justiça. E Pirulito envolveu seu amor a Deus numa
capa de temor a Deus e agora vivia entre os dois sentimentos.Sua vida era uma vida
desgraçada de menino abandonado e por isso tinha que ser uma vida de pecado, de
furtos quase diários, de mentiras nas portas das casas ricas.Por isso na beleza do dia
Pirulito mira o céu com os olhos crescidos de medo e pede perdão a Deus tão bom
mas não tão justo também... pelos seus pecados e os dos Capitães da Areia. Mesmo
porque eles não tinham culpa. A culpa era da vida...
O padre José Pedro dizia que a culpa era da vida e tudo fazia para remediar a vida
deles, pois sabia que era a única maneira de fazer com que eles tivessem uma
existência limpa. Porém uma tarde em que estava o padre e estava o João de Adão, o
doqueiro disse que a culpa era da sociedade mal organizada, era dos ricos...Que
enquanto tudo não mudasse, os meninos não poderiam ser homens de bem. E disse
que o padre José Pedro nunca poderia fazer nada por eles porque ricos não
deixariam.O padre José Pedro naquele dia tinha ficado muito triste, e quando
Pirulito o foi consolar, explicando que ele não ligasse ao que João de Adão dizia, o
padre respondeu balançando a cabeça magra.
– Tem vezes que eu chego a pensar que ele tem razão, que isso tudo está errado.
Mas Deus é bom e saberá dar o remédio...
Padre José Pedro achava que Deus perdoaria e queria ajudá-los. E como não
encontrava meios, e sim uma barreira na sua frente todos queriam tratar os Capitães
da Areia ou como a criminosos ou como crianças iguais àquelas que foram criadas
com um lar e uma família ficava como que desesperado, por vezes ficava
atarantado.Mas esperava que Deus o inspirasse um dia e até lá ia acompanhando
meninos, conseguindo por vezes evitar atos de malvadeza das crianças. Fora mesmo
ele um dos que mais concorreram para extermina pederastia no grupo. E isto foi uma
das suas grandes experiências sentido de como agir para tratar com os Capitães da
Areia. Enquanto ele lhes disse que era necessário acabar pecado, uma coisa imoral e
feia, os meninos riram nas suas costa e continuaram a dormir com os mais novos e
bonitos. Mas no dia e que o padre, desta vez ajudado pelo Querido-de-Deus, afirmou
que aquilo era coisa indigna num homem, fazia um homem igual a uma mulher, pior
que uma mulher, Pedro Bala tomou medidas violentas, expulsou os passivos do
grupo. E por mais que o padre fizesse não quis mais ali.
– Se eles voltar, a safadeza volta, padre.
Por assim dizer, Pedro Bala arrancou a pederastia entre os Capitães da Areia como
um médico arranca um apêndice doente do corpo de um homem. O difícil para o
padre José Pedro era conciliar as coisas. Mas ia tenteando e por vezes sorna
satisfeito dos resultados.
A não ser quando João de Adão ria dele e dizia que só a revolução acertaria tudo
aquilo. Lá em cima, na cidade alta, os homens ricos e as mulheres queriam que os
Capitães da Areia fossem para as prisões para o reformatório, que era pior que as
prisões. Lá embaixo, nas docas, João de Adão queria acabar com os ricos, fazer tudo
igual, dar escola aos meninos. O padre queria dar casa, escola, carinho e conforto
aos meninos sem a revolução, sem acabar com os ricos. Mas de todos os lados era
uma barreira. Ficava como perdido e pedia a Deus que o inspirasse. E com certo
pavor via que, quando pensava no problema, dava, sem sequer o sentir, razão ao
doqueiro João de Adão. Então era possuído de temor, porque não fora assim que lhe
haviam ensinado, e rezava horas seguidas para que Deus o iluminasse.
Pirulito fora a grande conquista do padre José Pedro entre os Capitães da Areia.
Tinha fama de ser um dos mais malvados do grupo, contavam dele que uma vez
pusera o punhal na garganta de um menino que não queria lhe emprestar dinheiro e
o fora enfiando devagarinho, sem tremer, até que o sangue começou a correr e o
outro lhe deu tudo que queria. Mas contavam também que outra vez cortou de
navalha a Chico Banha quando o mulato torturava um gato que se aventurara no
trapiche atrás dos ratos. No dia que o padre José Pedro começou a falar de Deus, do
céu, de Cristo, da bondade e da piedade, Pirulito começou a mudar. Deus o chamava
e ele sentia sua voz poderosa no trapiche. Via Deus nos seus sonhos e ouvia o
chamado de Deus de que falava o padre José Pedro. E se voltou de todo para Deus,
ouvia a voz de Deus, rezava ante os quadros que o padre lhe dera. No primeiro dia
começaram a mofar dele no trapiche. Ele espancou um dos menores, os outros se
calaram. No outro dia o padre disse que ele fizera mal, que era preciso sofrer por
Deus, e Pirulito então dera a sua navalha quase nova ao menino a que espancara. E
não espancara mais nenhum, evitava as brigas e se não evitava os furtos era que
aquilo era o meio de vida que eles tinham, não tinham mesmo outro. Pirulito sentia o
chamado de Deus, que era intenso, e queria sofrer por Deus. Ajoelhava horas e horas
no trapiche, dormia no chão nu, rezava mesmo quando o sono o queria derrubar,
fugia das negrinhas que ofereciam o amor na areia quente do cais. Mas então amava
Deus-pura-bondade e sofria para pagar o sofrimento que Deus passara na terra.
Depois veio aquela revelação de Deus justiça para Pirulito ficou Deus-vingança e o
temor de Deus invadiu o seu coração e se misturou ao amor de Deus. Suas orações
foram mais longas, o terror do inferno se misturava à beleza de Deus. Jejuava dias
inteiros e sua face ficou macilenta como a de um anacoreta. Tinha olhos de místico e
pensava ver Deus nas noites de sonho. Por isso conservava seus olhos afastados das
nádegas e seios das negrinhas que andavam como que dançando ante os olhos de
todos nas ruas pobres da cidade. Sua esperança era um dia ser sacerdote do seu
Deus, viver só para a sua contemplação, viver só para Ele.A bondade de Deus fazia
com que ele esperasse conseguí-lo. O temor de Deus vingando-se dos pecados de
Pirulito fazia com que ele desesperasse.
E é esse amor e esse temor que fazem Pirulito indeciso ante a vitrina nesta hora de
meio-dia, cheia de beleza. O sol é brando e claro, as flores desabrocham no jardim,
vem uma calma e uma paz de todos os lados. Mas, mais belo que tudo é a imagem
da Conceição com o Menino, que está na prateleira daquela loja de uma só porta. Na
vitrina, quadros de santos, livros de orações em encadernações luxuosas, terços de
ouro, relicários de prata. Mas dentro, bem na ponta da prateleira que chega até a
porta, a imagem da Virgem da Conceição estende o Menino para Pirulito. Pirulito
pensa que a Virgem está a lhe entregar Deus, Deus criança e nu, pobre como
Pirulito. O escultor fez o Menino magro e a Virgem triste da magreza do seu
Menino, mostrá-lo aos homens gordos e ricos. Por isso a imagem está ali e não se
vende. O Menino nas imagens é sempre gordo, um ar de menino rico, um Deus
Rico. Ali é um Deus Pobre, um menino pobre, mesmo igual a Pirulito, ainda mais
igual àqueles mais novos do grupo exatamente igual a um de colo, de poucos meses
de idade, que fico abandonado na rua no dia que sua mãe morreu de um ataque,
quando levava nos braços, e que João Grande trouxe para o trapiche, onde ficou até
o fim da tarde os meninos vinham e espiavam e riam do Professor e do Grande,
afobados para arranjar leite e água para o bebê quando a mãe-de-santo Don’Aninha
viera e o levara consigo, recostado ao seu seio. Só que aquele era um menino negro
e o Menino branco. No mais a parecença é absoluta. Até uma cara de choro tem o
Menino, magro e pobre, nos braços da Virgem. E esta o oferece Pirulito, aos
carinhos de Pirulito, ao amor de Pirulito. Lá fora o dia é lindo, o sol é brando, as
flores desabrocham. Só o Menino tem for e frio neste dia. Pirulito o levará consigo
para o trapiche dos Capitães da Areia. Rezará para ele, cuidará dele, o alimentará
com seu amor. Não vêem que, ao contrário de todas as imagens, ele não está preso
nos braços da Virgem, está solto nas suas mãos, ela o está oferecendo carinho de
Pirulito? Ele dá um passo. Dentro da loja só uma senhorita espera os fregueses,
pintando os lábios com uma nova marca de batom. É facílimo levar o Menino.
Pirulito estende o pé noutro passo, mas o temor de Deus o assalta, E fica parado,
pensando.
Ele tinha jurado a Deus, no seu temor, que só furtaria para comer ou quando fosse
uma coisa ordenada pelas leis do grupo, um assalto para o qual fosse indicado por
Pedro Bala. Porque ele pensava que trair as leis nunca tinham sido escritas, mas
existiam na consciência de cada um deles dos Capitães da Areia era um pecado
também. E agora ia furtar só para ter o Menino consigo, alimentá-lo com seu
carinho. Era um pecado, não era para comer, para matar o frio, nem para cumprir as
leis do grupo. Deus era justo e o castigaria, lhe daria o fogo do inferno. Suas carnes
arderiam, suas mãos que levassem o Menino queimariam durante uma vida que
nunca acabava. O Menino era do dono da loja. Mas o dono da loja rinha tantos
Meninos, e todos gordos, e rosados, não iria sentir falta de um só, e de um magro e
friorento! Os outros estavam como ventre envolto em panos caros, sempre panos
azuis, mas de rica fazenda. Este estava totalmente nu, tinha frio no ventre, era
magro, nem do escultor tivera carinho.E a Virgem o oferecia a Pirulito, o Menino
estava solto nos braços dela... O dono da loja tinha tantos Meninos, tantos... Que
falta lhe faria este? Talvez nem se importasse, talvez até se risse quando soubesse
que haviam furtado aquele Menino que nunca tinha conseguido vender, que estava
solto nos braços da Virgem, diante do qual as beatas que vinham comprar diziam
horrorizadas:
– Este não... Ele é tão feio, Deus me perdoe... E ainda por cima solto dos braços de
Nossa Senhora. Cai no chão e pronto. Esse não...
E o Menino ia ficando. A Virgem o oferecia ao carinho dos que passavam, mas
ninguém o queria. As beatas não queriam levá-lo para seus oratórios, onde havia
Meninos calçados de sandálias de ouro, com coroa de ouro na cabeça. Só Pirulito
viu que o Menino tinha fome e sede, tinha frio também e quis levá-lo. Mas Pirulito
não tinha dinheiro e tampouco tinha o costume de comprar as coisas. Pirulito podia
levá-lo consigo, podia dar ao Menino que comer, que beber, que vestir, tudo tirado
do seu amor a Deus. Mas se o fizesse, Deus o castigaria, o fogo do inferno comeria,
durante uma vida que nunca acabava, suas mãos que levassem o Menino, sua cabeça
que pensava em levar o Menino. Então Pirulito lembrou-se que só o pensar já era
pecado. Que se pecava só de pensar em cometer o pecado. O frade alemão dissera
que muitas vezes um estava pecando e nem o sabia porque estava pecando com o
pensamento. Pirulito estava pecando, sentiu que estava pecando, teve medo de Deus
e deitou a correr para não continuar a pecar. Mas não correu muito, ficou na esquina,
pôde se afastar para longe da imagem. Olhou outras vitrines, assim não pecava.
Meteu as mãos no bolso prendia as mãos..., desviou pensamento. Mas agora os
homens que volviam ao trabalha após o almoço passavam na sua frente e um
pensamento o assaltou: dentro em pouco os outros empregados da loja voltariam e
então seria impossível levar o Menino. Seria impossível... E Pirulito voltou a frente
da loja de objetos religiosos.
Lá estava o Menino, e a Virgem o oferecia a Pirulito. Um relógio deu a primeira
hora da tarde. Não tardariam a voltar os outros empregados. Quantos seriam?
Mesmo que fosse somente um, a loja era tão pequena que ficaria impossível levar o
Menino. Parece que é a Virgem que está lhe dizendo isso. Que é a Virgem a lhe
dizer que se ele não levar o Menino agora não o poderá levar mais, parece que está
mesmo dizendo isso. E com certeza foi ela, sim, foi ela quem com que a senhorita
entrasse pela cortina que tem no fundo da loja e a deixasse sozinha. Sim, foi a
Virgem, que agora estende o Menino para Pirulito o quanto podem seus braços e o
chama com sua doce voz:
– Leve e cuide dele...Cuide bem... Pirulito avança. Vê o inferno, o castigo de Deus,
suas mãos e cabeça a arder uma vida que nunca acaba. Mas sacode o corpo como
que jogando longe a visão, recebe o Menino que a Virgem lhe entrega, o encosta ao
peito e desaparece na rua.
Não olha o Menino. Mas sente que agora, encostado ao seu peito, o Menino sorri,
não tem mais fome nem sede nem frio. Sorri o Menino como sorria o negrinho de
poucos meses quando se encontrou no trapiche e viu que João Grande lhe dava leite
às colheradas com suas mãos enormes, enquanto o Professor o sustinha encostado ao
calor do seu peito.
Assim sorri o Menino.
Família
Foi Boa-Vida que contou a Pedro Bala que naquela casa da Graça tinha coisa de
ouro de fazer medo. O dono da casa, pelo jeito, parecia colecionador, o Boa-Vida
tinha ouvido um malandro dizer que na casa havia uma sala entupida de objetos de
ouro e prata que no emprego haviam de dar uma fortuna. À tarde Pedro Bala foi
como Boa-Vida ver a casa. Era um prédio moderno e elegante, jardim na frente,
garagem ao fundo, espaçosa residência de gente rica. O Boa-Vida cuspiu por entre
os dentes, desenhando uma flor no passeio com o cuspe, e disse:
– E dizer que nesse mundo só mora dois velhos, hein?
– Toca batuta... – comentou Pedro Bala.
Uma empregada abriu a porta da frente, saiu para o jardim. No hall, que ficou à
vista, eles perceberam quadros pela parede, estatuetas sobre as mesas. Pedro Bala
riu:
– Se o Professor visse isso ficava doidinho... Nunca vi tanto pegadio com livro e
pintura.
– Ele vai fazer uma pintura como eu, deste tamanho... e Boa-Vida mostrava o
tamanho separando as mãos uma da outra.
Pedro Bala olhou mais uma vez a casa, se acercou um pouco do jardim, assoviando.
A empregada colhia flores e os seios alvos apareciam sob o decote, pois ela estava
curvada. Pedro Bala espiou. Eram seios alvos terminando em bicos vermelhos. Boa-
Vida suspirou ao seu lado.
– Que montanha, Bala.
– Cala a boca.
Mas a empregada já os vira e os olhava como a perguntar o que desejavam. Pedro
Bala sacou o boné e pediu:
– Podia dar uma caneca de água à gente, por favor? O sol encalistrando... – e sorria,
limpando com o boné a testa, onde o suor corria. Estava muito vermelho sob o sol,
seus cabelos loiros crescidos desabando sobre as orelhas em ondas maltratadas, e a
empregada mirou com simpatia. Ao lado Boa-Vida fumava uma ponta de charuto,
com um pé em cima da gradezinha do jardim. A criada primeiro falou para Boa-
Vida com desprezo:
– Tira esta pata daí de cima...
Depois sorriu para Pedro Bala:
– Trago a água já...
Voltou com dois copos d’água e eram copos como eles nunca tinham visto de tão
bonitos. Beberam a água, Pedro Bala agradeceu – Muito obrigado... e baixinho
lindeza.
A empregada falou também baixinho:
– Frangote atrevido...
– Que hora tu sai daqui?
– Te repara. Tenho meu homem. Ele me espera às nove horas da noite naquela
esquina...
– Pois hoje tou na outra...
Saíram pela rua, Boa-Vida fumando sua ponta de charuto, abanando o rosto com o
chapéu-coco que usava. Pedro Bala com, comentou:
– Eu sou é mesmo simpático... Aquela tá no papo...
Boa-Vida cuspiu novamente entre os dentes:
– Também com essa cabeleira de mulher, toda cheia de cachos...
Pedro Bala nu, mostrou o punho fechado ao Boa-Vida:
– Deixa de inveja, mulato pachola...
Boa-Vida desviou a conversa: souber onde fica os troço melhor a gente vem, uns
cinco ou seis, tira o ourame...
– E tu perde a comida?
– A criada? Como hoje mesmo... Nove horas tou firme aí...
Voltou-se. Olhou a casa. A criada se debruçava na grade, Pedro Bala deu adeus. Ela
respondeu, Boa-Vida cuspiu:
– Ó peste de sorte, nunca vi...
No outro dia, por volta de onze e meia da manhã, o Sem-Pernas apareceu em frente
à casa. Quando ele tocou a campainha a empregada com certeza ainda pensava na
noite que passara com Pedro Bala no seu quarto no Garcia, porque não ouviu o
tilintar. O menino tocou de novo e na janela de um quarto do primeiro andar
assomou a cabeça grisalha de uma senhora, que mirou com os olhos apertados ao
Sem-Pernas:
– Que é, meu filho?
– Dona, eu sou um pobre órfão...
A senhora fez com a mão sinal que ele esperasse e dentro de poucos minutos estava
no portão sem ouvir sequer as desculpas da empregada por não ter atendido à porta:
– Pode dizer, meu filho olhava os farrapos do Sem-Pernas.
– Dona, eu não tenho pai, faz só poucos dias que minha mãe foi chamada pro céu –
mostrava um laço preto no braço, laço que tinha sido feito com a fita do chapéu
novo do Gato, que se danara. – Não tenho ninguém no mundo, sou aleijado, não
posso trabalhar muito, faz dois dias que não vejo de comer e não tenho onde dormir.
Parecia que ia chorar. A senhora olhava muito impressionada:
– Você é aleijado, meu filho?
O Sem-Pernas mostrou a perna capenga, andou na frente da senhora forçando o
defeito. Ela o fitava com compaixão:
– De que morreu sua mãe?
– Mesmo não sei. Deu uma coisa esquisita na pobre, uma febre de mau agouro, ela
bateu a caçoleta em cinco dias. E me deixou só no mundo... Se eu ainda agüentasse
o repuxo do trabalho, ia me arranja. Mas com esse aleijão só mesmo numa casa de
família... A senhora não tá precisando de um menino pra fazer compra, ajudar no
trabalho da casa? Se tá, dona...
E como o Sem-Pernas pensasse que ela ainda estava indecisa completou com
cinismo, uma voz de choro:
– Se eu quisesse me metia aí com esses meninos ladrão. Com os tal de Capitães da
Areia. Mas eu não sou disso, quero é trabalhar.Só que não agüento um trabalho
pesado. Sou um pobre órfão, tou com fome...
Mas a senhora não estava indecisa. Estava era se lembrando seu filho, que tinha
morrido com a idade daquele e que ao morrer matara toda a sua alegria e a do
marido.Este ainda tinha as suas coleções de obras de arte, mas ela tinha apenas a
recordação daquele filho que a deixara tão cedo. Por isso olha o Sem-Pernas,
esfarrapado, com um grande carinho e ao lhe falar sua voz tem uma doçura diferente
da de sempre. Há como que um pouco de alegria na doçura da sua voz, e isso
espanta a criada:
– Entre, meu filho. Deixe estar que vou arranjar um trabalho para você... – pôs a
mão fina e aristocrática, onde brilhava solitário, na cabeça suja do Sem-Pernas e
falou para a criada:
– Maria José, prepare o quarto de cima da garagem para este menino.
Mostre o banheiro a ele, dê um roupão de Raul, depois dê comida a ele...
– Antes de botar o almoço, dona Ester?
– Antes, sim. Faz dois dias que ele não come, pobrezinho...
O Sem-Pernas nada dizia, apenas secava com as costas da mão lagrimas fingidas.
– Não chore... – falou a senhora, e acariciou o rosto da criança.
– A senhora é tão boa. Deus lhe paga...
Depois perguntou como ele se chamava, e o Sem-Pernas deu o primeiro nome que
lhe passou pela cabeça:
– Augusto... – e como repetia o nome para si mesmo, para não se esquecer que se
chamava Augusto, não viu no primeiro momento a emoção da senhora, que
murmurava:
– Augusto, o mesmo nome...
Disse em voz alta, porque agora o Sem-Pernas olhava seu rosto emocionado:
– Meu filho também se chamava Augusto... Morreu quando tinha assim o seu
tamanho... Mas entre, meu filho, vá se lavar para comer.
Dona Ester o acompanhou comovida. Viu que a empregada mostrava o banheiro ao
Sem-Pernas, dava-lhe um roupão e se dirigia pata o quarto em cima da garagem para
arrumá-lo o chofer tinha se despedido, o quarto estava vazio. Dona Ester se
aproximou, disse ao Sem-Pernas que parara na porta do banheiro:
– Pode jogar essas roupas fora. Maria José depois vai lhe trazer roupa...
O Sem-Pernas agora olhava a senhora que desaparecia, e tinha raiva, mas não sabia
se era dela ou de si mesmo.
Dona Ester sentou-se em frente ao seu penteador, ficou com os olhos parados, quem
a visse pensaria que ela olhava o céu através da janela. Porém, em verdade, ela nada
olhava, nada via. Olhava, sim, para dentro de si, para as suas recordações de muitos
anos, e via um menino da idade do Sem-Pernas, vestido com uma roupa de
marinheiro, correndo no jardim da outra casa, da qual se mudaram depois que ele
morreu. Era um menino cheio de vida e de alegria, gostava de rir e de saltar. Quando
se cansava de correr com o gato, de montar na gangorra do jardim, de jogar a bola
de borracha no quintal para o cão lobo a apanhar, vinha e passava os braços em
torno ao colo de dona Ester, a beijava no rosto e ficava com ela, vendo livros de
figuras, aprendendo a ler e a desenhar as letras. Para tê-lo junto a si o maior tempo
possível dona Ester e o marido resolveram ensinar ao filho as primeiras letras
mesmo em casa. Um dia e os olhos de dona Ester se enchem de lágrimas veio a
febre. Depois o pequeno caixão saiu pela porta e ela o olhava de olhos espantados,
não podia compreender seu filho houvesse morrido.O retrato dele ampliado num
quadro no seu quarto, mas uma cortina o cobre sempre, porque ela não gosta de
rever a face do filho para não renovar sua angústia. Também roupas que ele usou
estão todas trancadas na sua pequena mala jamais buliram nela. Mas agora dona
Ester tira as chaves da sua caixa de jóias.
E, lentamente, muito lentamente, se dirige para onde está a mala. Puxa uma cadeira
na qual senta. Abre com mãos trêmulas a maleta. Mira as calças e blusas, a roupa de
marinheiro, os pequenos pijamas e camisolas com que ele dormia. Aperta a roupa de
marinheiro ao peito como se abraçasse seu filho. As lágrimas rebentam.
Agora um menino pobre e órfão viera bater à sua porta. Depois da morte de seu filho
ela não quisera ter outro, não gostava mesmo de ver e brincar com crianças para não
avivar a dor das suas recordações. Mas um, pobre e órfão, aleijado e triste, que se
dissera chamar Augusto como seu filho, batera em sua porta pedindo pão, pousada e
carinho. Por isso ela tem coragem de abrir a mala onde guarda roupas que seu filho
usou. Por isso tira esta roupa azul de marinheiro, a roupa da qual ele mais gostava.
Porque para dona Ester seu filho voltou hoje na figura desta criança andrajosa e
aleijada, sem pai, sem mãe. Seu filho voltou e suas lágrimas não são apenas de dor.
Voltou seu filho macilento e esfomeado, com uma perna aleijada e vestido de
farrapos. Mas em breve será novamente o Augusto alegre e feliz daqueles anos
passados, e novamente virá e passará os braços em torno ao seu pescoço e lerá as
grandes letras da cartilha.
Dona Ester se levanta. Leva consigo a roupa azul de marinheiro. E é vestido com ela
que o Sem-Pernas come o melhor almoço da sua vida.
Se a roupa de marinheiro tivesse sido feita de propósito para ele não estaria tão bem.
Estava perfeita no Sem-Pernas e quando ele se olhou no espelho da sala quase não
se reconheceu. Estava lavado, a empregada tinha posto brilhantina no seu cabelo e
perfume no seu rosto. A roupa de marinheiro era um a beleza. O Sem-Pernas se
mirava no espelho. Passou a mão na cabeça, depois no peito alisando a roupa, sorriu
pensando no Gato. Daria muito para que o Gato o visse tão elegante.Tinha também
sapatos novos, mas a verdade é que os sapatos o desgostavam um pouco porque
tinham um laço de fita, pareciam um pouco sapatos de mulher. O Sem-Pernas
achava esquisito estar vestido de marinheiro com sapatos de mulher. Andou para o
jardim, pois queria fumar, nunca tinha deixado de tragar o seu cigarro após o
almoço. Por vezes não havia almoço, mas havia sempre uma ponta de cigarro ou de
charuto. Ali era preciso cuidado, não podia fumar abertamente. Se o houvessem
deixado na cozinha de mistura com a criadagem, como o deixavam nas outras casas
onde penetrara para depois roubar, poderia fumar, conversar na língua de poucos
termos dos Capitães da Areia. Mas desta vez o tinham lavado, vestido de novo,
posto brilhantina no seu cabelo e perfume no rosto. Depois tinham lhe dado comida
na sala de jantar. E durante o almoço a senhora conversara com ele como se ele
fosse um menino bem criado. Agora mandara que ele brincasse no jardim, onde o
gato amarelo que se chamava Berloque esquentava ao sol. O Sem-Pernas chega para
um banco, tira do bolso o maço de cigarros baratos. Quando mudara a roupa não se
esquecera dos cigarros. Acende um e começa a saborear as tragadas, pensando na
sua nova vida. Muitas vezes já fizera aquilo: penetrar em casa de uma família como
um menino pobre, órfão e aleijado e neste título passar os dias necessários para fazer
um reconhecimento completo da casa, dos lugares onde guardávamos objetos de
valor, das saídas fáceis para uma fuga. Depois os Capitães da Areia invadiam a casa
numa noite, levavam os objetos valiosos, e no trapiche o Sem-Pernas gozava
invadido por uma grande alegria, alegria da vingança. Porque naquelas casas, se o
acolhiam, se lhe davam comida e dormida, era como cumprindo uma obrigação
fastidiosa. Os donos da casa evitavam se aproximar dele, e o deixavam na sua
sujeira, nunca tinham uma palavra boa para ele. Olhavam-no sempre como a
perguntar quando ele iria. E muitas vezes a senhora que se comovera com a sua
história, contada na porta em voz soluçante, e o acolhera, mostrava evidentes sinais
de arrependimento.
Para o Sem-Pernas elas o acolhiam de remorso. Porque o Sem-Pernas achava que
eles eram todos culpados da situação de todas as crianças pobres. E odiava a todos,
com um ódio profundo. Sua grande e quase única alegria era calcular o desespero
das famílias após o roubo, ao pensar que aquele garoto esfomeado a quem tinham
dado comida quem fizera o reconhecimento da casa e indicara a outras criar
esfomeadas onde estavam os objetos de valor.
Mas desta vez estava sendo diferente. Desta vez não o deixa na cozinha com seus
molambos, não o puseram a dormir no quintal. Deram-lhe roupa, um quarto, comida
na sala de jantar. Era como hóspede, era como um hóspede querido. E fumando o
seu cigarro escondido o Sem-Pernas pergunta a si mesmo por que está se
escondendo para fumar, o Sem-Pernas pensa sem compreender. Não compreende
nada do que se passa. Sua cata está franzida. Lembra os dias da cadeia, a surra que
lhe deram, os sonhos que nunca deixaram de persegui-lo. E, de súbito, tem medo de
que nesta casa sejam bons para ele. Sim, um grande medo de que sejam bons para
ele. Não sabe mesmo porque, mas tem medo. E levanta-se, sai do seu esconderijo e
vai fumar bem por baixo da janela da senhora. Assim verão que é um menino
perdido, que não merece um quarto, roupa nova, comida na sala de jantar. Assim o
mandarão para a cozinha, ele poderá 1evar para diante sua obra de vingança,
conservar o ódio no seu coração. Porque se esse ódio desaparecer, ele morrerá, não
terá nenhum motivo para viver. E diante dos seus olhos passa a visão do homem de
colete que vê os soldados a espancar o Sem-Pernas e ri numa gargalhada brutal. Isso
há de impedir sempre o Sem-Pernas de ver o rosto bondoso de dona Ester, o gesto
protetor das mãos do padre José Pedro, a solidariedade dos músculos grevistas do
estivador João de Adão. Será sozinho e seu ódio alcança a todos, brancos e negros,
homens e mulheres, ricos e pobres. Por isso teme que sejam bons para cons Pela
tarde o dono da casa, Raul, chegou do seu escritório. Era advogado de muito nome,
enriquecera na profissão, era catedrático na Faculdade de Direito, mas antes de tudo
era um colecionador. Tinha uma boa galeria de quadros e tinha moedas antigas,
obras raras de arte. O Sem-Pernas viu quando ele entrou. Neste momento o Sem-
Pernas via as gravuras de um livro para crianças e ria sozinho do elefante tolo a
quem o macaco enganava. Raul não o viu, subiu as escadas. Mas depois a
empregada veio chamar o Sem-Pernas e o levou ao quarto de dona Ester. Raul ali
estava de manga a de camisa, fumando um cigarro e olhou o menino com um sorriso
divertido, já que o Sem-Pernas mostrava uma cara muito atrapalhada na entrada do
quarto:
– Passe...
O Sem-Pernas entrou capengando, não tinha onde botar as mãos. Dona Ester falou
com bondade:
– Sente, meu filho, não tenha medo, não...
O Sem-Pernas sentou-se na ponta de uma cadeira e ficou esperando. O advogado o
estudava, mirando seu rosto, mas era com simpatia, e o Sem-Pernas preparava as
respostas para as inevitáveis perguntas. Contou novamente a história inventada pela
manhã, mas quando começou a chorar abundantes lágrimas o advogado mandou que
ele parasse e se levantou, dirigindo-se à janela. O Sem-Pernas compreendeu que ele
estava comovido, e este resultado da sua arte o fez ficar orgulhoso. Sorriu só para si.
Mas agora o advogado se aproximava de dona Ester e a beijava na testa e depois nos
lábios. O Sem-Pernas baixou os olhos. Raul andou até ele, botou a mão no seu
ombro e falou:
– Deixe estar, que agora você não passa mais fome. Vá... Vá brincar, vá ver os
livros. À noite nós vamos ao cinema. Você gosta de cinema?
– Gosto, sim senhor.
O advogado o despedia com um gesto. O Sem-Pernas saiu, mas ainda viu Raul se
aproximar de dona Ester e dizer:
– És uma santa. Vamos fazer dele um homem...
Era a hora do crepúsculo, as luzes se acendiam e o Sem-Pernas pensou que nesta
hora os Capitães da Areia percorriam a cidade procurando o que comer.
Pena que no cinema não pudesse gritar quando o mocinho surrava o vilão, como
fazia nas vezes que conseguira penetrar no galinheiro do Olímpia ou do cinema de
Itapagipe. Ali, no Guarani, luxuoso e de cômodas cadeiras, tinha que ouvir o filme
em silêncio e num momento que não se conteve e soltou um assovio, Raul o olhou.
É verdade que sorria, mas também é certo que fez um gesto para que Sem-Pernas
não assoviasse mais.
Depois o levaram a tomar sorvete no bar que havia em frente ao cinema. O Sem-
Pernas, enquanto tomava seu gelado, pensava em que ia cometendo uma
irremediável tolice quando o advogado perguntara o que ele queria. Estivera para
pedir uma cerveja bem geladinha. Mas se contivera em tempo e pedira o sorvete.
No automóvel o advogado foi na frente guiando e o Sem-Pernas foi atrás com dona
Ester, que conversava com ele. A conversa era difícil para o Sem-Pernas, que tinha
que controlar sua terminologia que era escassa e repleta de palavrões. Dona Ester
perguntava coisas de sua mãe, o Sem-Pernas respondia como podia, fazendo grande
esforço para reter os detalhes que inventava para posteriormente cair em
contradição. Por fim chegaram na casa da Graça e dona Ester conduziu o Sem-
Pernas para o quarto em cima da garagem:
– Não tem medo de dormir aí sozinho?
– Não, senhora...
– Isso é por poucos dias. Depois lhe porei lá em cima, no quarto que foi de
Augusto...
– Não precisa, dona Ester, aqui tá muito bom.
Ela se acercou dele e o beijou na face:
– Boa noite, meu filho.
Saiu, cerrando a porta. O Sem-Pernas ficou parado, sem um gesto, sem responder
sequer o boa noite, a mão no rosto, no lugar em que dona Ester o beijara. Não
pensava, não via nada. Só a suave carícia do beijo, uma carícia como nunca tivera,
uma carícia de mãe. Só a suave carícia no seu rosto. Era como se o mundo houvesse
parado naquele momento do beijo e tudo houvesse mudado. Só havia no universo
inteiro a sensação suave daquele beijo maternal na face do Sem-Pernas.
Depois foi o horror dos sonhos da cadeia, o homem de colete que ria brutalmente, os
soldados que surravam o Sem-Pernas, que corria com a perna aleijada em voltada
saleta. Mas de repente chegou dona Ester e o homem de colete e os soldados
morreram entre infinitas torturas, porque agora o Sem-Pernas estava vestido com
uma roupa de marinheiro e tinha um chicote na mão como o mocinho do cinema.
Oito dias se passaram. Pedro Bala por várias vezes já andara em frente da casa para
saber notícias do Sem-Pernas, que tardava a voltar ao trapiche. Já havia tempo mais
que suficiente para que o Sem-Pernas soubesse onde se quedavam todos os objetos
facilmente transportáveis da casa e as saídas que podiam auxiliar a fuga. Mas em
vez de ver o Sem-Pernas, Pedro Bala via era a empregada, que pensava que ele
vinha por ela. Certo dia em que conversava com a empregada, Pedro Bala tocou com
muito jeito no assunto do Sem-Pernas:
– A moça daí tem um filho, não tem?
– É um menino que ela tá criando. Muito bonzinho.
Pedro Bala sorriu, porque sabia que o Sem-Pernas, quando queria, se fazia passar
pelo melhor menino do mundo. A empregada continuou:
– É um pouco mais moço que você, mas é mesmo um menino.
Não é assim um perdido como você, que até já dorme com mulher... – e ria para
Pedro Bala.
– Foi tu que tirou meu cabaço...
– Não diga coisa feia. Demais é mesmo mentira.
– Juro.
Ela gostaria que fosse, e se bem desconfiasse muito que não, gostava que ele lhe
dissesse aquilo. Se sentia não só como amante do menino, mas um pouco como mãe
também.
– Vem hoje, que eu te ensino um modo gostoso...
– De noite, na esquina... Mas diz um troço: tu não trepa com esse menino daqui?
– Esse nem sabe que é isso... É um tolinho. Menino mimado.
Tu tá feito bobo. Não vê que eu não me passo...
De outra vez Pedro Bala conseguiu ver o Sem-Pernas. Este estava estirado no jardim
o gato roncava ao seu lado, espiando um livro de figuras, e Pedro Bala ficou
espantadíssimo quando o viu vestido com uma calça de casimira cinza e uma blusa
de seda. Até o cabelo do Sem-Pernas estava penteado, e Pedro Bala quedou um
momento boquiaberto, sem sequer assoviar para o Sem-Pernas. Afinal voltou a si e
assoviou. O Sem-Pernas se pôs logo de pé, viu o Bala do outro lado da rua. Fez um
sinal para que ele o esperasse, saiu pelo portão, após ver que ninguém da casa estava
próximo.
Pedro Bala andava para a esquina, e Sem-Pernas o acompanhou. Quando chegou
perto, ainda mais se espantou Pedro Bala:
– Peste! Tu tá até cheirando, Sem-Pernas.
O Sem-Pernas fez uma cara de aborrecimento, mas Bala continuou:
– Tu tá dez vez mais elegante que o Gato. Puxa! Se tu aparecer assim na toca assim
tratavam o trapiche os outros vai dar em cima de tu. Tu tá mesmo uma tetéia...
– Não chateia... Tou vendo as coisas. Não demora dou o fora, tu pode vim com os
outros.
– Desta vez tu tá demorando...
– É que os troço melhor tão trancado mentiu o Sem-Pernas – Vê se tu te arranja.
Depois lembrou-se:
– O Gringo andou ruim. Quase bate o trinta e sete. Andou por pouco. Se não fosse
Don’Aninha, que deu beberagem a ele que botou ele em pé, tu não via mais ele. Tá
mais magro que um espeto...
E com essa notícia se despediu, dando mais uma vez pressa ao Sem-Pernas.
O Sem-Pernas voltou a se estender no jardim. Mas agora não via as figuras do livro.
Via era o Gringo. O Gringo fora um dos mais perseguidos pelo Sem-Pernas no
grupo. Filho de árabes, falava com uma pronúncia esquisita, e isso dava lugar a
piadas consecutivas do Sem-Pernas. O Gringo não era forte e nunca conseguira ser
importante entre os Capitães da Areia, se bem Pedro Bala e Professor procurassem
dar lugar a isso. Gostavam de ter entre eles um estrangeiro ou quase estrangeiro.
Mas o Gringo se contentava com pequenos furtos, evitava os assaltos arriscados e
ideava um baú cheio de bugigangas para vender nas ruas às criadas das casas ricas.
O Sem Pernas o maltratava sem piedade, burlando dele, do seu falar arrevesado, da
sua falta de coragem. Mas agora, deitado sobre a grama macia do jardim rico,
vestido com boa roupa, penteado e com perfume, um livro de figuras ao lado, o
Sem-Pernas pensava no Gringo quase morrendo, enquanto ele comia bem e vestia
bem. Não só o Gringo estivera quase morrendo. Durante aqueles oito dias os
Capitães da Areia continuaram mal vestidos, mal alimentados, dormindo sob a
chuva no trapiche ou embaixo das pontes. Enquanto isso, o Sem-Pernas dormia em
boa cama, comia boa comida, tinha até uma senhora que o beijava e o chamava de
filho. Se sentiu como um traidor do grupo. Era igual àquele doqueiro do qual fala
João de Adão cuspindo no chão e passando o pé em cima com desprezo. Aquele
doqueiro que na greve grande se passara para o outro lado, para o lado dos ricos,
furara a greve, fora contratar homens de fora para trabalhar nas docas. Nunca mais
um homem do cais apertou sua mão, nunca mais um o tratou como amigo. E se para
alguém o Sem-Pernas abria exceção no seu ódio, que abrangia o mundo todo, era
para as crianças que formavam os Capitães da Areia. Estes eram seus companheiros,
eram iguais a ele, eram as vítimas de todos os demais, pensava o Sem-Pernas. E
agora sentia que os estava abandonando, que estava passando para o outro lado.
Com este pensamento se sobressaltou, sentou-se. Não, ele não os trairia.Antes de
tudo estava a lei do grupo, a lei dos Capitães da Areia. Os que a traíam eram
expulsos e nada de bom os esperava no mundo. E nunca nenhum a havia traído do
modo como o Sem-Pernas a ia trair. Para virar menino mimado, para virar uma
daquelas crianças que eram eterno motivo de galhofa para eles. Não, não os trairia.
Teriam bastado três dias para ele localizar os objetos de valor da casa. Mas a
comida, a roupa, o quarto, e mais que a comida, a roupa e o quarto, o carinho de
dona Ester tinham feito que ele passasse já oito dias. Tinha sido comprado por este
carinho como o estivador fora comprado por dinheiro. Não, não trairia. Mas aí
pensou se não ia trair dona Ester. Ela confiara nele. Ela também na sua casa tinha
uma lei como os Capitães da Areia: só castigava quando havia erro, pagava o bem
com o bem. O Sem-Pernas ia trair essa lei, ia pagar o bem com o mal. Lembrou-se
que das outras vezes, quando dava o fora de uma casa para ela ser assaltada, era uma
grande alegria que o invadia. Desta vez não tinha alegria nenhuma. Seu ódio para
todos não desaparecera, é verdade. Mas abrira uma exceção para a gente daquela
casa, porque dona Ester o chamava de filho e o beijava na face. O Sem-Pernas luta
consigo mesmo. Gostaria de continuar naquela vida. Mas que adiantaria isso para os
Capitães da Areia? E ele era um deles, nunca poderia deixar de ser um deles porque
uma vez os soldados o prenderam e o surraram enquanto um homem de colete ria
brutalmente. E o Sem-Pernas se decidiu. Mas olhou com carinho as janelas do
quarto de dona Ester e ela, que o espiava, notou que ele chorava:
– Está chorando, meu filho? – e desapareceu da janela para vir para junto dele.
Só então o Sem-Pernas viu que estava mesmo chorando, limpou as lágrimas,
mordeu a mão. Dona Ester chegava para junto dele:
– Está chorando, Augusto? Aconteceu alguma coisa?
– Não, senhora. Não estou chorando, não...
– Não minta, meu filho. Bem que eu vejo... O que passou? Está se lembrando da sua
mãe?
E o trouxe para junto de si, sentou-se no banco, encostou a cabeça do Sem-Pernas no
seu seio maternal.
– Não chore por sua mãe. Agora você tem outra mãezinha que lhe quer bem e fará
tudo para substituir a que você perdeu...... e ele faria tudo para substituir o filho que
ela perdera, ouviu o Sem-Pernas dentro de si.
Dona Ester o beijou na face onde as lágrimas corriam:
– Não chore, que sua mãezinha fica triste.
Então os lábios do Sem-Pernas se descerraram e ele soluçou, chorou muito
encostado ao peito de sua mãe. E enquanto a abraçava e se deixava beijar, soluçava
porque a ia abandonar e, mais que isso, a ia roubar. E ela talvez nunca soubesse que
o Sem-Pernas sentia que ia roubar a si próprio também. Como não sabia que o choro
dele, que os soluços dele eram um pedido de perdão.
Os acontecimentos se precipitaram, porque Raul teve que fazer uma viagem ao Rio
de Janeiro, a negócios importantes de advocacia. E o Sem-Pernas achou que não
havia melhor ocasião para o assalto.
Na tarde em que se foi, mirou a casa toda, acariciou o gato Berloque, conversou com
a criada, olhou os livros de gravura. Depois foi ao quarto de dona Ester, disseque ia
até o Campo Grande passear.
Ela então lhe contou que Raul traria uma bicicleta do Rio para ele e então todas as
tardes ele andaria nela pelo Campo Grande, em vez de passear a pé. O Sem-Pernas
baixou os olhos, mas antes de sair veio até dona Ester e a beijou. Era a primeira vez
que a beijava, e ela ficou muito alegre. Ele disse baixinho, arrancando as palavras de
dentro de si:
– A senhora é muito boa. Eu nunca vou esquecer...
Saiu e não voltou. Essa noite dormiu no seu canto no trapiche. Pedro Bala tinha ido
com um grupo para a casa. Os outros tinham rodeado o Sem-Pernas, admirando suas
roupas, seu cabelo assentado, o perfume que evolava do seu corpo. Mas o Sem-
Pernas meteu o braço em um, foi resmungando para seu canto. E ali ficou mordendo
as unhas, sem dormir, angustiado, até que Pedro Bala voltou com os outros, trazendo
os resultados do assalto. Comunicou ao Sem-Pernas que fora a coisa mais canja do
mundo, que ninguém dera fé na casa, que todos tinham continuado dormindo.
Talvez que nem no dia seguinte descobrissem o roubo. E mostrava os objetos de
ouro e de prata:
– Amanhã Gonzales dá uma dinheirama por isso...
O Sem-Pernas fechava os olhos para não ver. Depois que todos foram dormir, ele se
aproximou do Gato:
– Tu quer fazer um negócio comigo?
– Que é?
– Eu dou essa roupa, tu me dá a sua...
O Gato olhou cheio de espanto. A sua roupa era a melhor do grupo, sem dúvida.
Mas era roupa velha, estava muito longe de valer a boa roupa de casimira que o
Sem-Pernas vestia. Tá doido, pensou o Gato enquanto respondia:
– Se topo? Nem se pergunta.
Trocaram a roupa. O Sem-Pernas voltou ao seu canto, procurou dormir.
Na rua vinha doutor Raul com dois guardas. Eram os mesmos soldados que o
haviam espancado na cadeia. O Sem-Pernas corria, mas doutor Raul o apontava e os
soldados o levavam para a mesma sala. A cena era a mesma de sempre: os soldados
que se divertiam a fazê-lo correr com sua perna capengando e o espancavam e o
homem de colete que ria. Só que na sala estava também dona Ester, que o olhava
com os olhos tristes e dizia que ele não era mais seu filho, era um ladrão. E os olhos
de dona Ester o faziam sofrer mais que as pancadas dos soldados, mais que o riso
brutal do homem.
Acordou molhado de suor, fugiu da noite do trapiche, a madrugada o encontrou
vagando no areaL No outro dia, à noite, Pedro Bala viera trazer o dinheiro da sua
parte no furto. Mas o Sem-Pernas o recusou sem dar explicações.
Depois Volta Seca chegou com um jornal que trazia notícias de Lampião. Professor
leu a notícia para Volta Seca e ficou vendo as outras coisas que o jornal trazia.Então
chamou:
– Sem-Pernas! Sem-Pernas!
O Sem-Pernas veio. Outros vieram com ele e formaram um círculo. Professor disse:
– Isso aqui é com tu, Sem-Pernas...
E leu uma notícia no jornal:
Ontem desapareceu da casa número... da rua..., Graça, um filho dos donos da casa,
chamado Augusto. Deve ter se perdido na cidade que pouco conhecia. É coxo de
uma perna, tem treze anos de idade, é muito tímido, veste roupa de casimira cinza. A
polícia o procura para o entregar aos seus pais aflitos, mas até agora não o
encontrou.A família gratificará bem quem der noticias do pequeno Augusto e o
conduz a sua casa.
O Sem-Pernas ficou calado. Mordia o lábio. Professor disse:
– Ainda não descobriram o furto...
Sem-Pernas fez que sim com a cabeça. Quando descobrissem o furto não o
procurariam mais como a um filho desaparecido. Barandão fez uma cara de riso e
gritou:
– Tua família tá te procurando, Sem-Pernas. Tua mamãe tá te procurando pra dar de
mamar a tu...
Mas não disse mais nada, porque o Sem-Pernas já estava em cima dele e levantava o
punhal. E esfaquearia sem dúvida o negrinho se João Grande e Volta Seca não o
tirassem de cima dele. Barandão saiu amedrontado. O Sem-Pernas foi indo para o
seu canto, um olhar de ódio para todos. Pedro B ala foi atrás dele, botou a mão em
seu ombro:
– São capazes de não descobrir nunca o roubo, Sem-Pernas. Nunca saber de você...
Não se importe, não.
– Quando doutor Raul chegar vão saber...
E rebentou em soluços, que deixaram os Capitães da Areia estupefatos. Só Pedro
Bala e o Professor compreendiam, e este abanava as mãos porque não podia fazer
nada. Pedro Bala puxava uma conversa comprida sobre um assunto muito diferente.
Lá fora o vento corria sobre a areia e seu ruído era como uma queixa.
Manhã como um quadro
Pedro Bala, enquanto sobe a ladeira da montanha, vai pensando que não existe nada
melhor no mundo que andar assim, ao azar, nas ruas da Bahia.Algumas destas ruas
são asfaltadas, mas a grande, a imensa maioria é calçada de pedras negras. Moças se
debruçam nas janelas dos casarões antigos e ninguém pode saber se é uma costureira
que romanticamente espera casar com noivo rico ou se é uma prostituta que o mira
de um balcão velhíssimo, enfeitado apenas de flores. Entram mulheres de negros
véus nas igrejas. O sol bate nas pedras ou no asfalto do calçamento, ilumina os
telhados das casas. Na sacada de um sobradão, flores medram em pobres latas. São
de diversas cores e o sol lhes dá seu diário alimento de luz. Os sinos da igreja da
Conceição da Praia chamam as mulheres de véu que passam apressadas.No meio da
ladeira um preto e um mulato estão curvados sobre uns dados que o preto acabou de
jogar. Pedro Bala, ao passar, cumprimenta o negro:
– Como vai, Coruja Branca?
– E tu, Bala? Como vai essa prosopopéia?
Mas o mulato já atirou os dados e o negro se volta todo para o jogo. Pedro Bala
continua seu caminho. O Professor vai com ele. Sua figura magra se atira para frente
como se lhe fosse difícil vencer a ladeira.
Mas sorri da festa do dia. Pedro Bala vira-se para ele e surpreende seu sorriso. A
cidade está alegre, cheia de sol. Os dias da Bahia parecem dias de festa, pensa Pedro
Bala, que se sente invadido também pela alegria.
Assovia com força, bate risonhamente no ombro de Professor. E os dois riem, e logo
a risada se transforma em gargalhada. No entanto, não têm mais que uns poucos
níqueis no bolso, vão vestidos de farrapos, não sabem o que comerão. Mas estão
cheios da beleza do dia e da liberdade de andar pelas ruas da cidade. E vão rindo
sem ter do que, Pedro Bala com o braço passado no ombro de Professor. De onde
estão podem ver o Mercado e o cais dos saveiros e mesmo o velho trapiche onde
dormem. Pedro Bala se recosta no muro da ladeira e diz a Professor:
– Tu devia fazer uma pintura disto... É porreta.
A fisionomia do Professor se fecha:
– Eu sei que nunca há de ser...
– Que?
– Tem vez que me topo pensando... e Professor mira o cais lá embaixo, os saveiros
parecendo brinquedos, os homens miúdos carregando sacos nas costas.
Continua com a voz áspera como se alguém o tivesse batido:
– Eu penso fazer um dia um bocado de pintura daqui...
– Tu tem jeito. Se tu tivesse andado pela escola...
–... mas nunca pode ser um troço alegre, não... Professor parece não ter ouvido a
interrupção de Pedro Bala. Agora está com os olhos longe e parece ainda mais fraco.
– Por quê? – Pedro Bala está espantado.
– Tu não vê que tudo é mesmo uma beleza? Tudo alegre...
Pedro Bala apontou os telhados da cidade baixa:
– Tem mais cores que o arco-íris...
– É mesmo... Mas tu espia os homem, tá tudo triste. Não tou falando dos rico. Tu
sabe. Falo dos outros, dos das docas, do mercado.
Tu sabe... Tudo com cara de fome, eu nem sei dizer. É um troço que sinto...
Pedro Bala não estava mais espantado:
– Por isso João de Adão já fez um bocado de greve nas docas. Ele diz que um dia as
coisas vira, tudo vai ser de vice-versa...
– Também já li um livro... Um livro de João de Adão. Se eu tivesse estado numa
escola como tu diz, tinha sido bom. Eu um dia ia fazer muito quadro bonito. Um dia
bonito, gente alegre andando, rindo, namorando assim como aquela gente de Nazaré,
sabe? Mas cadê escola? Eu quero fazer um desenho alegre, sai o dia bonito, tudo
bonito, mas os homens sai triste, não sei não... Eu queria fazer uma coisa alegre.
– Quem sabe se não é melhor mesmo fazer uma coisa como tu faz? Pode até dá mais
bonito, mais vistoso.
– Que é que tu sabe? Que é que eu sei? A gente nunca andou em escola... Eu tenho
vontade de fazer a cara dos homens, a figura das ruas, mas nunca tive na escola, tem
um bocado de coisa que eu não sei...
Fez uma pausa, olhou Pedro Bala que o escutava, continuou:
– Tu já deu uma espiada na Escola de Belas-Artes? É um beleza rapaz. Um dia andei
de penetra, me meti numa sala. Tava tudo vestido de camisão, nem me viram. E
tavam pintando uma mulher nua... Se um dia eu pudesse...
Pedro Bala ficou pensativo. Olhava Professor como que pensando. Logo falou com
um ar muito sério:
– Tu sabe o preço?
– Que preço?
– De pagar na escola? O professor?
– Que história é essa?
– A gente se reunia, pagava pra tu...
Professor riu:
– Tu nem sabe... Tem tanta complicação... Não pode não, deixa de tolice.
– João de Adão disse que um dia a gente pode ter escola...
Saíram andando. Professor parecia ter perdido a alegria do dia. Como que ela se
afastara para longe dele. Então Pedro Bala deu-lhe um soco de leve:
– Um dia tu ainda bota um bocado de pintura numa sala da rua Chile, mano. Sem
escola sem nada. Nenhum destes bananas da escola faz uma rara como tu... Tu tem é
jeito...
Professor riu. Pedro Bala riu também:
– E tu faz meu retrato, hein. Bota o nome embaixo, não bota?
Capitão Pedro Bala, macho valente.
Tomou uma atitude de lutador, um braço estirado. Professor riu, Bala também riu,
logo o riso se transformou em gargalhada. E só pararam de gargalhar para aderira
um grupo de desocupados que se reunira em torno a um tocador de violão. O homem
tocava e cantava uma moda da cidade da Bahia:
“Quando ela disse adeus...
meu peito em cruz transformou...”
Eles aderiram. Pouco depois cantavam junto ao homem. E com eles cantavam todos
e eram saveiristas, malandros, doqueiros, até uma prostituta cantava. O homem do
violão estava todo entregue a sua música, não via mesmo ninguém.
Se o homem não se levantasse para ir embora, ainda tocando seu violão e cantando,
eles teriam se esquecido de continuar a caminhada para a cidade alta.Mas o homem
foi embora levando a alegria da sua música. O grupo se dispersou, um vendedor de
jornais passou apregoando os diários da manhã. Professor e Pedro Bala continuaram
a subir a ladeira. Do largo do Teatro subiram para a rua Chile. Professor tirou o giz
do bolso, sentou-se no passeio. Pedro Bala ficou a seu lado. Quando viram vir o
casal, Professor começou a desenhar. Fez um desenho o mais rápido que pôde. O
casal estava muito perto já, Professor agora fazia as caras. A moça sorria, sem
dúvida seriam noivos. Mas iam tão entretidos na sua conversa que nem notaram o
desenho. Foi preciso que Pedro Bala se adiantasse até eles:
– Não pise na cara da moça, senhor...
O homem olhou para Pedro Bala e já ia dizer um desaforo quando a moça viu o
desenho do Professor e chamou sua atenção:
– Que bom... e batia as mãos como uma menina a quem tivessem dado uma boneca
de presente.
O rapaz espiou e sorriu. Voltou-se para Pedro Bala:
– Foi você quem desenhou, garoto?
– Foi aqui o meu companheiro, o pintor Professor...
Professor dava os últimos retoques no bigode elegantíssimo do homem. Depois
passou a aperfeiçoar a figura da moça. Ela então ficou no jeito de quem estava
posando.Riam os dois, ela se dependurava no braço do amado. O homem puxou a
carteira de níqueis, atirou uma prata de dois mil-réis, que Pedro Bala apanhou no ar.
Seguiram. O desenho ficou no meio do passeio.Umas senhoritas que vinham das
compras o viram de longe e uma disse:
– Vamos depressa, que aquilo parece que é um anúncio do novo filme de
Barrymore... Dizem que é um amor... E ele é tão forte...
Pedro Bala e Professor ouviram e abriram na gargalhada. E abraçados seguiram
juntos na liberdade das ruas.
Quase junto do palácio do governo pararam novamente. Professor ficou de giz na
mão esperando que saísse do ponto do bonde um pato. Pedro Bala assoviava ao seu
lado. Breve teriam o dinheiro para um bom almoço e ainda para levar um presente
para Clara, a amante do Querido-de-Deus, que fazia anos naquele dia.
Uma velhota deu dez tostões por seu desenho. A velhota era feia e Professor tinha
conservado sua feiúra no desenho. Pedro Bala notou:
– Se tu tivesse feito ela mais bonita e mocinha, ela te dava mais.
Professor riu. Assim passaram a manhã, Professor fazendo a cara dos que vinham
pela rua, Pedro Bala recolhendo as pratas ou os níqueis que jogavam. Quase meiodia
veio um homem que fumava numa piteira que parecia cara. Pedro Bala correu
para avisar ao Professor:
– Faz deste que parece que é um pato cheio da nota...
Professor começou a desenhar a figura magra do homem. A piteira longa, os cabelos
encaracolados que apareciam sob o chapéu. O homem trazia também um livro na
mão e Professor teve um desejo irresistível de fazer o desenho do homem lendo o
livro. O homem ia passando, Pedro Bala chamou sua atenção:
– Olhe seu retrato, senhor.
O homem tirou a longa piteira da boca, perguntou a Bala:
– O que, meu filho?
Pedro Bala apontou o desenho em que o Professor trabalhava. O homem aparecia
sentado se bem não houvesse cadeira nem nada estava sentado no ar, fumando sua
piteira e lendo seu livro. O cabelo encaracolado voava sob o chapéu. O homem
examinou o desenho atentamente, foi espiá-lo em diversos ângulos, nada dizia.
Quando o Professor deu o trabalho por concluído, ele perguntou:
– Onde você aprendeu desenho, meu caro?
– Em lugar nenhum...
– Em lugar nenhum? Como?
– É, sim senhor...
– E como desenha?
– Me dá vontade, pego, desenho.
O homem estava um pouco incrédulo, mas sem dúvida recordou outros exemplos no
fundo da sua memória:
– Quer dizer que você nunca estudou desenho?
– Nunca, não senhor.
– Posso garantir falou Pedro Bala. – Nós mora junto, eu sei.
– Então é uma verdadeira vocação... – murmurou o homem.
Voltou ao examinar o desenho. Tirou uma longa fumaçada da sua piteira. Os dois
meninos olhavam para a piteira encantados. O homem perguntou ao Professor:
– Por que você me retratou sentado e lendo o livro?
Professor coçou a cabeça como se fosse uma coisa difícil de responder. Pedro Bala
quis falar, mas nada disse, estava atarantado. Por fim Professor explicou:
– Pensei que sentava melhor pro senhor... – coçou de novo a cabeça. – Não sei
mesmo...
– É uma verdadeira vocação... – murmurou o homem em voz mais baixa, assim com
o jeito de quem havia feito uma descoberta.
Pedro Bala esperava o níquel, mesmo porque o guarda já os olhava desconfiado da
esquina. Professor espiava a piteira do homem longa, desenhada a fogo, uma
maravilha.Mas o homem continuou:
– Onde você mora?
Pedro Bala não deu tempo a que Professor respondesse. Foi ele quem falou:
– A gente mora na Cidade de Palha...
O homem meteu a mão no bolso e tirou um cartão:
– Você sabe ler?
– A gente sabe, sim senhor respondeu Professor.
– Aí está meu endereço. Eu quero que você me procure. Talvez possa fazer alguma
coisa por você.
Professor tomou o cartão. O guarda se encaminhava para ele Pedro Bala se
despediu:
– Até logo, doutor.
O homem ia puxando a carteira de níqueis, mas viu o olhar do Professor na sua
piteira. Jogou o cigarro fora, entregou a piteira ao menino.
– Isso é pelo meu retrato. Vá a minha casa...
Mas os dois desabaram pela rua Chile, porque o guarda já estava quase junto a eles.
O homem olhava meio sem compreender quando ouviu a voz do guarda:
– Lhe roubaram alguma coisa, senhor?
– Não. Por quê?
– Porque como aqueles malandrins estavam aqui junto ao senhor...
– Eram duas crianças... Por sinal que uma com maravilhosa inclinação para a
pintura.
– São ladrões – retrucou o guarda. – São dos Capitães da Areia.
– Capitães da Areia? – fez o homem se recordando. – Já li algo... Não são crianças
abandonadas?
– Ladronas, isso são... Tenha cuidado, senhor, quando eles se aproximarem do
senhor. Veja se não lhe falta nada...
O homem fez que não com a cabeça e olhou a rua. Mas não havia nem rastro dos
dois meninos. O homem agradeceu ao guarda, afirmando mais uma vez que não
tinha sido furtado, e desceu a rua, murmurando:
– Assim que se perdem os grandes artistas. Que pintor não seria!
O guarda o espiava. Depois comentou para os botões da farda:
– Bem dizem que estes poetas são doidos...
Professor exibia a piteira. Estava agora nos fundos de um arranha-céu, onde existia
um restaurante chique. Pedro Bala sabia como conseguir do cozinheiro os restos do
menu. Esperavam o almoço na rua deserta. Depois que comeram, Pedro Bala
ofereceu cigarros e o Professor se dispôs a fumar na piteira que o homem lhe dera.
Procurou limpá-la:
– O bicho era magro como um espeto. É capaz de ser tutu...
Como não achou coisa melhor com que limpar, fez do cartão do homem um palito e
o enfiou na piteira. Quando terminou, jogou o cartão na rua. Pedro Bala perguntou:
– Por que tu não guarda?
– Pra que quero? e o Professor riu, Pedro Bala riu também e por um momento as
suas gargalhadas encheram a rua. Riam assim sem motivo, pelo prazer de rir.
Mas Pedro Bala se fez sério:
– O homem parece que era bem capaz de ajudar a tu ser um pintor... – apanhou o
cartão e leu o nome do homem. – Tu devia guardar. Quem sabe?
Professor baixou a cabeça:
– Deixa de ser besta, Bala. Tu bem sabe que do meio da gente só pode sair ladrão...
Quem é que quer saber da gente? Quem? Só ladrão, só ladrão... – e sua voz se
elevava, agora gritava com ódio.
Pedro Bala fez que sim com a cabeça, sua mão soltou o cartão, que caiu na sarjeta.
Agora não riam mais e estavam tristes na alegria da manhã cheia de sol, da manhã
igual a um quadro de um pintor das Belas-Artes.
Operários passavam para o trabalho, após o almoço pobre, e era tudo que eles viam,
que eles conseguiam ver na manhã.
Alastrim
Omolu mandou a bexiga negra para a cidade. Mas lá em cima os homens ricos se
vacinaram, e Omolu era um deus das florestas da África, não sabia destas coisas de
vacina. E a varíola desceu para a cidade dos pobres e botou gente doente, botou
negro cheio de chaga em cima da cama. Então vinham os homens da Saúde Pública,
metiam os doentes num saco, leva para o lazareto distante. As mulheres ficavam
chorando, porque sabiam que eles nunca mais voltariam.
Omolu tinha mandado a bexiga negra para a cidade alta, para a cidade dos ricos.
Omolu não sabia da vacina, Omolu era um deus das florestas da África, que podia
saber de vacinas e coisas científicas? Mas como a bexiga já estava solta e era a
terrível bexiga negra, Omolu teve que deixar que ela descesse para a cidade dos
pobres. Já que a soltara, tinha que deixar que ela realizasse sua obra. Mas como
Omolu tinha pena dos seus filhinhos pobres, tirou a força da bexiga negra, virou em
alastrim, que é uma bexiga branca e tola, quase um sarampo. Apesar disto, os
homens da Saúde Pública vinham e levavam os doentes para o lazareto. Ali as
famílias não podiam ir visitá-los, eles não tinham ninguém, só a visita do médico.
Morriam sem ninguém saber e quando um conseguia voltar era mirado como um
cadáver que houvesse ressuscitado. Os jornais falavam da epidemia de varíola e da
necessidade da vacina. Os candomblés batiam noite e dia, em honra a Omolu, para
aplacar a fúria de Omolu. O pai-de-santo Paim, do Alto do Abacaxi, preferido de
Omolu, bordou uma toalha branca de seda, com lantejoulas, para oferecer a Omolu e
aplacar sua raiva. Mas Omolu não quis, Omolu lutava contra a vacina.
Nas casas pobres as mulheres choravam. De medo do alastrim, de medo do lazareto.
Almiro foi o primeiro dos Capitães da Areia que caiu com alastrim. Uma noite,
quando o negrinho Barandão o procurou no seu canto para fazer o amor aquele amor
que Pedro Bala proibira no trapiche, Almiro lhe disse:
– Tou com uma coceira danada.
Mostrou os braços já cheios de bolhas a Barandão:
– Parece que também tou queimando de febre.
Barandão era um negrinho corajoso, todo o grupo sabia disto. Mas da bexiga, da
moléstia de Omolu, Barandão tinha um medo doido, um medo que muitas raças
africanas tinham acumulado dentro dele. E sem se preocupar que descobrissem suas
relações sexuais com Almiro saiu gritando entre os grupos:
– Almiro tá com bexiga... Gentes, Almiro tá com bexiga.
Os meninos foram se levantando aos poucos e se afastando receosos do lugar onde
estava Almiro. Este começou a soluçar. Pedro Bala não tinha chegado ainda.
Professor, o Gato e João Grande também andavam por fora. Daí ter sido o Sem-
Pernas quem domino a situação. O Sem-Pernas nestes últimos tempos andava cada
vez mais arredio, quase não falava com ninguém. Fazia espantosas burlas de todo
mundo, por tudo puxava uma briga, só respeitava mesmo Pedro Bala. Pirulito rezava
por ele mais que por nenhum, e por vezes pensava que Satanás tinha se metido no
corpo do Sem-Pernas. O padre José Pedro era paciente com ele, mas também do
padre o Sem-Pernas se afastara. Não queria saber de ninguém, conversa em que ele
se metia era conversa que terminava em briga.
Quando o Sem-Pernas passou entre os grupos, todos se afastaram. Quase o temiam
tanto quanto à bexiga. O Sem-Pernas tinha arranjado por aqueles dias um cachorro
ao qual se dedicava inteiramente. A princípio, quando o cão aparecera no trapiche,
esfomeado, Sem-Pernas o maltratou quanto pôde. Mas terminou por acarinhá-lo e
tomar para si. Agora como que vivia inteiramente para o cachorro. E por isso voltou
só para levar o cão, que o acompanhara, para longe de Almiro. Depois andou
novamente para onde estavam os menino. Estes cercavam Almiro de longe.
Apontavam as bolhas que apareciam no peito do menino. Antes de tudo, Sem-Pernas
falou com sua voz fanhosa para Barandão:
– Agora tu vai ter bexiga na piroca, negro burro.
Barandão o olhou assustado. Depois, Sem-Pernas falou para todos, apontando
Almiro com o dedo:
– Ninguém aqui vai ficar bexiguento só por causa deste freso.
Todos o olhavam, esperando o que ele diria. Almiro soluçava, as mãos no rosto,
encolhido na parede. Sem-Pernas falava:
– Ele vai sair daqui agorinha mesmo. Vai se meter em qualquer canto da rua até que
os mata-cachorro da saúde pegue ele e leve pro lazareto.
– Não. Não rugiu Almiro.
– Vai, sim fez Sem-Pernas. – A gente não vai chamar os mata-cachorro aqui pra
toda policia saber onde a gente se acoita. Tu vai por bem ou por mal e leva teus
trapos. Vai pro inferno, que a gente não vai ficar com bexiga por você. Por amor de
você, xibungo...
Almiro fazia que não, que não, e seus soluços enchiam o trapiche. 0 negrinho
Barandão tremia, Pirulito clamava que era castigo de Deus por causa dos pecados
deles, os outros não sabiam que fazer. Sem-Pernas se preparava para forçar sua
idéia. Pirulito se abraçou com um quadro de Nossa Senhora e disse:
– Vamos rezar todo mundo, que isto é um castigo de Deus pros pecados da gente. A
gente peca muito, Deus tá castigando. Vamos pedir perdão... e sua voz era como um
clamor, soava anunciando vinganças.
Alguns juntaram as mãos e Pirulito chegou a iniciar um padre-nosso. Mas Sem-
Pernas o afastou com uma das mãos:
– Sai, sacrista...
Pirulito ficou rezando em voz baixa ainda atracado com o santo. Parecia um quadro
estranho. Ao fundo, Almiro soluçava e dizia que não. Pirulito rezava, os outros
estavam indecisos, não sabiam o que fazer. Barandão tremia de medo, pensando que
estava contagiado. Sem-Pernas voltou a falar:
– Gente, se ele não quiser sair, a gente bota ele pra fora debaixo de porrada. Senão,
tudo vai morrer de bexiga, tudo... Vocês não vê, desgraçados? A gente bota ele pra
fora até uma rua onde levem ele pro lazareto.
– Não. Não fazia Almiro. – Pelo amor de Deus.
– Isso é castigo... – fez Pirulito.
– Cala a boca, filho de padre o Sem-Pernas continuava. – Vamos levar ele, gente, já
que ele não quer ir por bem.
Como via que os outros ainda estavam irresolutos, marchou para o lado de Almiro e
estendeu o pé para lhe dar uma pancada:
– Assim tu vai embora, bexiguento.
Almiro se encolheu mais:
– Não. Tu não pode fazer isso. Eu sou um do grupo. Espera Bala chegar.
– É castigo... É castigo... – a voz de Pirulito ainda irritou mais o Sem-Pernas, que
descarregou um pontapé em Almiro.
– Dá o fora, bexiguento. Dá o fora, fresco.
Mas neste instante uma mão o pegou e o sacudiu longe. Volta Seca se plantou entre
Almiro e o Sem-Pernas. O mulato levava um revólver na mão e os seus olhos
fuzilavam:
– Juro que tem bala e que como um que toque em Almiro – olhou para todos com
sua cara sombria.
– Que é que tu tem que fazer aqui, cangaceiro? – Sem-Pernas queria recuperar o
domínio da situação.
– Ele não é um soldado de policia pra gente tratar ele assim. É um do grupo, ele
falou direito. Vamos esperar Pedro Bala chegar. Ele resolve. E se alguém tocar nele
eu queimo igual que fosse um macaco da polícia – e segurava o revólver.Os outros
se afastaram aos poucos. Sem-Pernas cuspiu:
– Tudo é uns covarde... – e seguiu para onde o cachorro o esperava. Se deitou ao seu
lado e os que ficaram mais perto dele a ouviam murmurar: covardes, covardes.
Volta Seca ficou diante de Almiro com o revólver na mão. Almiro soluçava, e mais
alto gritava quando olhava as bolhas que se estendiam pelo seu corpo. Pirulito
rezava, pedia a Deus que voltasse a ser suprema bondade, não fosse suprema justiça.
Depois Pirulito se lembrou de chamar o padre José Pedro. Escapuliu pela porta do
trapiche, se dirigiu à casa do padre. Mas pelo caminho ainda ia rezando, os olhos
dilatados cheios do temor de Deus.
Pedro Bala chegou acompanhado do Professor e de João Grande. Voltavam de um
negócio que tinham resolvido bem e comentavam o sucesso entre gargalhadas. O
Gato tinha ido com eles, mas não voltara. Ficara em casa de Dalva. Os três entraram
no trapiche e a primeira coisa que enxergaram foi Volta Seca com o revólver na
mão.
– Que é isso? – perguntou Pedro Bala.
Sem-Pernas se levantou do seu canto, o cachorro o acompanhou:
– Este besta metido a cangaceiro não quer deixar que a gente faça o que resolveu e
apontava Almiro. – Aquele fresco tá com a bexiga...
João Grande se encolheu. Pedro Bala olhou Almiro, o Professor andou para onde
esta Volta Seca. O mulato não largava o revólver. Pedro perguntou então:
– Como foi, Volta Seca?
– Este tá com a maldita... – mostrou o menino que soluçava. – E aquele macaco
mesmo que um soldado quis botar ele no meio da rua pra assistência levar ele
lazareto. Eu não tava me metendo. Mas ele não quis ir. Aí eles todos juntos – cuspiu
– quis dar nele pra obrigar ele ir. Foi quando ele falou que era do grupo, que eles
esperasse que tu chegasse. Eu achei que ele falou direito, fiquei do lado dele... Ele
não é um soldado de polícia pra tratar ele assim...
– Tu fez direito, Volta Seca – Pedro Bala bateu no ombro do mulato. Depois olhou
Almiro:
– Tu tá mesmo com ela?
O menino inclinou a cabeça e rebentou em soluços. Sem-Pernas gritou:
– Só tem mesmo que fazer o que eu disse. Não pode chamar a assistência aqui que
todo mundo fica sabendo onde a gente se acoita. Só tem mesmo que deixar ele numa
rua onde passe gente. Vamos fazer, tu queira ou não...
Pedro Bala gritou:
– Quem é o chefe daqui, é tu ou eu? Tu quer que eu te rebente?
Sem-Pernas saiu murmurando. O cachorro veio lamber seus pés, mas ele deu-lhe um
pontapé. Logo depois se arrependeu, porém, e começou a acarinhar o cão, enquanto
espiava os outros.
Pedro Bala andou até Almiro. João Grande queria vencer o medo e ir para junto de
Almiro também. Mas o medo da bexiga era uma coisa enorme nele, era quase maior
que sua bondade. Só Professor estava junto de Pedro Bala. Este disse a Almiro:
Almiro mostrou os braços cheios de bolhas. Professor disse:
– Deixa eu ver...
Almiro mostrou os braços cheios de bolhas. Professor disse:
– É alastrim. Bexiga negra fica logo preta...
Pedro Bala ficou pensando. Ia um silêncio pelo trapiche. João Grande conseguiu
vencer o medo e se aproximou. Mas ia com passo arrastados. Parecia violentar sua
própria vontade para chegar até junto de Almiro. Foi quando entrou Pirulito
acompanhado do padre José Pedro. O padre deu boas noites e perguntou quem era o
doente Pirulito apontou Almiro, o padre se dirigiu para ele, chegou perto, pegou no
braço, examinou. Depois disse a Pedro Bala:
– É preciso levar para a assistência...
– Pro lazareto?
– Sim.
– Não, não vai, não fez Pedro Bala.
O Sem-Pernas se levantou outra vez, veio para junto deles:
– Tou dizendo isso há muito tempo. Tem que ir pro lazareto – Não vai repetiu Pedro
Bala.
– Por que, meu filho? perguntou o padre José Pedro.
– Tu sabe, padre, que ninguém volta do lazareto. Ninguém volta. E ele é um da
gente. um do grupo. A gente não pode fazer isso...
– Mas é a lei, filho.
– Morrer?
O padre mirou Pedro Bala com os olhos abertos. Aquele meninos viviam a lhe dar
surpresas, sempre mais adiantados em inteligência do que ele pensava. E, no fundo,
o padre sabia que eles tinham razão.
– Não vai, não, padre... – afirmou Pedro Bala.
– Então que é que você vai fazer, meu filho?
– Tratar dele aqui...
– Mas como?
– Chamo Don’Aninha...
– Mas ela não sabe tratar de ninguém.
Pedro Bala ficou confuso. Passado um momento, disse:
– É melhor que morra aqui que no lazareto.
Sem-Pernas se meteu de novo:
– Vai pegar bexiga em todo mundo... – se dirigia aos outros.
– Vai pegar em todo mundo. A gente não pode deixar.
– Cala a boca, desgraçado, senão eu te arrombo disse Pedro.
Mas o padre interveio:
– Ele tem razão, Bala.
– Não vai pro lazareto, padre. O senhor é bom, bem sabe que ele não pode ir. Lá é
uma miséria, tudo morre.
O padre bem sabia que era verdade, calou. Foi quando João Grande falou:
– Mas ele não tem casa?
– Quem?
– Almiro. Tem sim.
– Não quero ir para lá... – soluçou Almiro. – Eu tinha fugido.
Pedro Bala se aproximou dele e falou com voz muito mansa:
– Deixa estar, Almiro. Primeiro eu vou lá, falo com tua mãe. Depois a gente leva
você. Tu lá fica bem, não tem que ir pro lazareto. E o padre arranja um médico pra
cuidar de tu, não arranja, padre?
– Levo, sim prometeu o padre José Pedro.
Havia uma lei que obrigava os cidadãos a denunciarem à Saúde Pública os casos de
varíola que conhecessem, para o imediato recolhimento dos variolosos aos lazaretos.
O padre José Pedro conhecia a lei, mas, mais uma vez, ficou com os Capitães da
Areia contra a lei. Pedro Bala foi à casa de Almiro, a mãe do menino ficou feito
louca, era uma lavadeira amigada com um pequeno lavrador além da Cidade de
Palha. Foram buscar Almiro e o padre o visitou e depois levou um médico. Mas
acontece que o médico estava cavando um lugar na Saúde Pública e denunciou o
caso de varíola. Almiro foi mesmo levado para o lazareto e o padre ficou em maus
lençóis, pois o médico que se dizia livre-pensador, mas em verdade era espírita
denunciou o padre também como encobridor do caso. As autoridades não agiram
contra o padre, mas se queixaram ao arcebispado. E o padre José Pedro foi chamado
à presença do Cônego Secretário do Arcebispado.Ficou amedrontado.
Pesadas cortinas, cadeiras de alto espaldar, um retrato de Santo Inácio numa parede.
Na outra, um crucifixo. Uma grande mesa, custosos tapetes. O padre José Pedro
entrou na sala com o coração batendo muito. Não tinha absoluta certeza do motivo
por que recebera aquela comunicação do Cônego Secretário do Arcebispado para
comparecer ao Palácio Episcopal. No primeiro momento lembrou-se da paróquia
que esperava inutilmente havia dois anos. Seria sua paróquia? Sorriu com alegria.
Então, sim, iria ser um verdadeiro sacerdote, iria ter almas entregues a si, à sua guia.
Serviria a Deus. Mas certa tristeza o invadiu: e suas crianças, as crianças
abandonadas das ruas da Bahia, principalmente os Capitães da Areia, como
ficariam? Ele era um dos seus poucos amigos. Nunca um outro padre se voltara para
aqueles meninos. Se contentavam em ir celebrar de quando em vez uma missa no
reformatório, o que os tornava mais antipáticos ao meninos porque atrasava o magro
café. O padre José Pedro, enquanto esperava sua paróquia, se dedicara aos meninos
abandonados.Não podia dizer que os resultados tivessem sido grandes. Mas era
preciso compreender que ele estava fazendo uma experiência, que muita vezes tinha
que voltar atrás.Fazia pouco tempo que o padre captar de todo a confiança dos
meninos. Estes já o tratavam como amigo, mesmo quando não o levavam a sério
como sacerdote. O padre tiver de passar por cima de muita coisa para conseguir a
confiança de Capitães da Areia. Mas José Pedro pensava que só Pirulito e a sua
vocação pagavam a pena. O padre tivera que fazer muita coisa contra o que lhe
haviam ensinado. Pactuara mesmo com coisa que a Igreja condenaria. Mas era o
único jeito... Aí o padre lembrou-seque bem podia ser por causa daquilo que o
haviam chamado. Devia ter sido por aquilo. Muitas beatas já murmuravam por causa
das suas relações com as crianças que viviam do furto. E havia aquele caso de
Almiro. Devia ser por aquilo. O primeiro sentimento do padre José Pedro quando
descobriu o motivo da comunicação foi um grande temor. Ia ser castigado com
certeza, perderia toda esperança de uma paróquia. E o padre José Pedro necessitava
de uma paróquia. Sustentava uma mãe velha, uma irmã na Escola Normal. Logo
depois pensou que muito possivelmente tudo o que fizera fora errado, seus
superiores não aprovariam. E, no Seminário, lhe tinham ensinado a obedecer. Mas
pensou nos meninos. Na sua memória passaram as figuras de Pirulito, Pedro Bala,
Professor, Sem-Pernas, Boa-Vida, o Gato. Era preciso salvar aqueles pequeninos...
As crianças eram a maior ambição de Cristo. Devia se fazer tudo para salvar aquelas
crianças. Não era culpa deles se estavam perdidos...
O Cônego entrou. Nos seus pensamentos o padre nem vira que muitos minutos de
espera tinham se passado. Não viu tampouco quando o Cônego entrou com um
passo manso.Era alto e muito magro, anguloso, com a batina muito limpa, os raros
cabelos que lhe restavam muito bem penteados. Os lábios tinham uma linha dura.
Um rosário descia-lhe em torno ao pescoço. Se bem sua figura desse uma impressão
de pureza, essa impressão não fazia seus traços mais doces. Não havia nenhuma
simpatia humana na sua figura, nos seus traços duros. Como que a pureza era uma
couraça que o afastava do mundo. Diziam que era inteligentíssimo, grande orador
sacro, célebre pela rigidez dos seus costumes. Ali estava parado diante do padre José
Pedro, olhando com olhos observadores a figura baixa do padre, a sua batina suja e
remendada em dois lugares, o seu ar de medo, a falta de inteligência que de mistura
com a bondade se refletia na cara do padre. Estudou o padre uns poucos minutos. O
bastante para penetrar a fundo na alma sem complicações de José Pedro. Tossiu. O
padre o viu, levantou-se, beijou humildemente sua mão:
– Cônego...
– Sente-se, padre. Temos que conversar.
Olhava com os olhos sem expressão o padre. Sentou-se, cruzou as mãos com grande
cuidado, afastou sua reluzente batina da batina suja do padre José Pedro. Sua voz
contrastava com sua pessoa.
Podia-se dizer que era uma voz doce, quase feminina, se não fosse um acento de
decisão que a cada passo surgia nela. O padre José Pedro baixou a cabeça e esperou
que o Cônego falasse. Este começou:
– Este arcebispado tem graves queixas contra o senhor, padre.
Padre José Pedro quis figurar uma cara de quem não entendia. Mas a malícia era
superior à sua inteligência e naquele momento ele pensava nos Capitães da Areia.O
Cônego sorriu ligeiramente.
– Creio que o senhor já sabe do que se trata...
O padre olhou com uns olhos abertos, mas logo baixou cabeça:
– Só se é as crianças...
– O pecador não pode esconder seu pecado, ele está visível na sua consciência... – e
a voz do Cônego tinha perdido aquela nota de doçura.
O padre José Pedro ouviu com pavor. Era o que ele temia. Os seus superiores,
aqueles que tinham inteligência para compreender os desejos de Deus, não estavam
de acordo com os métodos que ele empregara junto aos Capitães da Areia. Vinha um
temor de dentro dele, não propriamente um temor do Cônego, do arcebispo mas um
temor de ter ofendido a Deus. E até suas mãos tremiam ligeiramente.
A voz do Cônego retomou sua doçura. Era como uma voz de mulher, doce e suave,
mas que negava a um homem suas carícias:
– Têm-nos chegado bastantes queixas, padre José Pedro. O arcebispado tem fechado
os olhos na esperança de que o senhor conhecesse seu erro e se emendasse...
Olhou o padre com olhos duros. José Pedro baixou a cabeça.
– Não faz muito tempo a viúva Santos queixou-se. O senhor ajudou uma corja de
moleques, numa praça, a vaiá-la. Melhor, incitou os moleques a que a
vaiassem...Que tem a dizer, padre?
– Não é verdade, Cônego.
– O senhor quer dizer que a viúva mentiu?
Fuzilou o padre com os olhos. Mas desta vez José Pedro não baixou a cabeça,
apenas repetiu:
– O que ela disse não é verdade...
– O senhor sabe que a viúva Santos é uma das melhores protetoras da religião na
Bahia? Não sabe dos donativos...
– Eu posso lhe narrar o fato...
– Não me interrompa... No Seminário não lhe ensinaram a ser humilde e respeitoso
com seus superiores? Se bem o senhor não tivesse sido um aluno dos mais
brilhantes...
O padre José Pedro sabia daquilo. Não era preciso que lhe repetissem que fora um
dos piores alunos do Seminário em matéria de estudos. Por isso mesmo tinha tanto
medo de ter errado, de ter ofendido a Deus. O Cônego devia ter razão, era muito
mais inteligente, estava muito mais próximo de Deus, que é a suprema inteligência.
O Cônego fez um gesto com a mão, como quem relegava para longe aquele
incidente da viúva, e a sua voz se fez doce novamente:
– Porém agora há coisa muito mais grave. Por sua causa, padre, este arcebispado foi
procurado pelas autoridades. O senhor sabe o que fez? Sabe?
O padre não tentou negar:
– Foi o caso do menino com alastrim?
– Um menino com varíola, sim senhor. E o senhor escondeu o caso das autoridades
sanitárias...
O padre José Pedro tinha confiança na bondade de Deus. Muitas vezes pensara que
Deus aprovava o que ele estava fazendo. Agora pensava isto também. Aquele
pensamento tinha enchido seu coração de repente. Levantou o busto, fixou a vista no
Cônego:
– O senhor sabe o que é o leprosário?
O Cônego não respondeu.
– Pois é raro o homem que volta de lá. Quanto mais uma criança... Mandar uma
criança para lá é cometer um assassinato...
– Isso não é conosco – respondeu o Cônego com voz inexpressiva mas cheia de
decisão. – Isto é com a Saúde Pública. Mas o nosso papel é respeitar as leis.
– Mesmo quando atentam contra a lei da bondade de Deus?
– Que sabe o senhor da bondade de Deus? Que grande inteligência tem para saber
dos desígnios de Deus? O demônio da vaidade o dominou?
O padre José Pedro tentou explicar:
– Eu sei que sou um padre ignorante e indigno de servir ao Senhor. Mas estas
crianças nunca tinham tido ninguém que olhasse por elas. Eu tive a intenção...
– A boa intenção não desculpa os maus atos... – cortou o Cônego com voz muito
doce ao enunciar a sentença.
O padre José Pedro se sentiu novamente em dúvida. Mas elevou o pensamento a
Deus, voltou parte da sua confiança:
– Teriam sido maus? Eram uns meninos que nunca tinham ouvido falar seriamente
de Deus. Misturam Deus com os santos dos negros, não têm nenhuma idéia de
religião.Eu quis ver se salvava aquelas almas...
– Já lhe disse que suas intenções foram boas, mas suas ações não corresponderam às
intenções...
– É que o senhor não conhece estes meninos... – o Cônego lhe deitou um olhar duro.
– São meninos iguais a homens. Vivem como homens, conhecem a vida toda, –
tudo...E preciso tratar com jeito, fazer concessões.
– Por isso o senhor faz o que eles querem...
– Às vezes tenho que fazer para conseguir um bom resultado...
– Compactua com os roubos, com os crimes destes perversos...
– Que culpa eles têm? – o padre se lembrava de João de Adão. – Quem cuida deles?
Quem os ensina? Quem os ajuda? Que carinho eles têm? – estava exaltado e o
Cônego se afastou mais dele, enquanto o fitava com os olhinhos duros. – Roubam
para comer porque todos estes ricos que têm para botar fora, para dar para as igrejas,
não se lembram que existem crianças com fome... Que culpa...
– Cale-se – a voz do Cônego era cheia de autoridade. – Que, o visse falar diria que é
um comunista que está falando. E não é difícil. No meio dessa gentalha o senhor
deve ter aprendido as teorias deles...
O senhor é um comunista, um inimigo da Igreja...
O padre o olhou horrorizado. O Cônego levantou-se, estendeu a mão para o padre:
– Que Deus seja suficientemente bom para perdoar seus atos e suas palavras. O
senhor tem ofendido a Deus e à Igreja. Tem desonrado as vestes sacerdotais que
leva.Violou as leis da Igreja e do Estado. Tem agido como um comunista. Por isso
nos vemos obrigados a não lhe dar tão cedo a paróquia que o senhor pediu. Vá agora
sua voz voltava a ser doce, mas de uma doçura cheia de resolução, uma doçura que
não admitia réplicas, penitencie-se dos seus pecados, dedique-se aos fiéis da igreja
em que trabalha e esqueça essas idéias comunistas, senão, teremos que tomar
medidas mais sérias. O senhor pensa que Deus aprova o que está fazendo? Lembreseque
a sua inteligência é muito pequena, o senhor não pode penetrar nos desígnios
de Deus...
Virou as costas ao padre e foi saindo. O padre José Pedro deu dois passos até ele,
falou com voz estrangulada:
– Se tem um até que quer ser padre...
O Cônego voltou-se:
– A entrevista está terminada, padre José Pedro. Pode se retirar e que Deus o ajude a
pensar melhor...
Mas o padre ainda ficou parado uns minutos, querendo dizer alguma coisa. Mas não
dizia nada, estava como que apatetado, olhando a porta por onde o Cônego tinha
saído. Naquele momento não podia pensar em nada. Estava cômico com a mão
ainda estendida, o corpo meio caído para um lado, a batina suja e remendada, os
olhos abertos, apavorados, os lábios tremendo como que querendo falar. As pesadas
cortinas impediam que a luz entrasse na sala. O padre ainda se demorou na
obscuridade.
Um comunista... Uma orquestra vagabunda, porém afinada, tocava uma velha valsa
na rua:
“Fiquei sem alegria, senhor meu Deus...”
O padre José Pedro ia encostado à parede. O Cônego dissera que ele não podia
compreender os desígnios de Deus. Não tinha inteligência, estava falando igual a um
comunista. Era aquela palavra que mais perseguia o padre. De todos os púlpitos
todos os padres tinham falado contra aquela palavra. E agora ele... O Cônego era
muito inteligente, estava próximo de Deus pela inteligência, era-lhe fácil ouvir a voz
de Deus. Ele estava errado, perdera aqueles dois anos de tanto trabalho.Pensara levar
tantas crianças a Deus... Crianças extraviadas... Será que elas tinham culpa? Deixai
vir a mim as criancinhas... Cristo... Era uma figura radiosa e moça. Os sacerdotes
também disseram que ele era um revolucionário. Ele queria as crianças... Ai de
quem faça mal a uma criança... A viúva Santos era uma protetora da Igreja... Será
que ela também ouvia a voz de Deus? Dois anos perdidos...Fazia concessões, sim,
fazia. Senão, como tratar com os Capitães da Areia? Não eram crianças iguais às
outras... Sabiam tudo, até os segredos do sexo. Eram como homens, se bem fossem
crianças... Não era possível tratá-los como aos meninos que vão ao colégio dos
jesuítas fazer a primeira comunhão. Aqueles têm mãe, pai, irmãs, padre s
confessores e roupas e comida, têm tudo... Mas não seria ele quem podia dar lições
ao Cônego... O Cônego sabia de tudo, era muito inteligente. Podia ouvira voz de
Deus... Estava próximo de Deus... Não foi dos alunos mais brilhantes... Tinha sido
dos piores... Deus não ia falar a um padre ignorante... Ouvia João de Adão. Um
comunista como João de Adão... Mas os comunistas são maus, querem acabar tudo...
João de Adão era um homem bom... Um comunista... E Cristo? Não, não podia
pensar que Cristo fosse um comunista... O Cônego devia entender melhor que um
pobre padre de batina suja... O Cônego era inteligente e Deus é a suprema
inteligência... Pirulito queria ser padre. Queria ser padre, sim, a sua vocação era
verdadeira. Mas pecava todos os dias, roubava, assaltava. Não era culpa deles... Está
falando como um comunista... Por que este vai num automóvel, fuma um charuto?
Falando como um comunista... O Cônego disse, será que Deus o perdoa?
O padre José Pedro vai encostado à parede. As últimas notas da orquestra distante
chegam aos seus ouvidos. Os olhos do padre estão esbugalhados.
Sim, padre José Pedro, Deus às vezes fala aos mais ignorantes... Aos mais
ignorantes... Ele era ignorante... Mas, Deus, ouvi... São uns pobres meninos... Que
sabem eles do bem e do mal? Se ninguém nunca lhes ensinou nada? Nunca u’a mão
de mãe nas suas cabeças. Uma palavra boa de um pai. Senhor, eles não sabem o que
fazem...Por isso estive com eles, fiz como eles queriam muitas vezes...
O padre aperta as mãos, as eleva para o céu.
Será que um comunista age assim? Dar um pouco de conforto àquelas pequenas
almas. Salvá-las, melhorar seus destinos... Antes dali só saíam ladrões, batedores de
carteira, vigaristas, os melhores eram os malandros... A profissão mais digna...
Queria que agora saíssem homens para o trabalho, honestos, dignos... Tinha que ir
aos poucos... Do reformatório saíam piores... Não é com castigo brutal, Deus, ouvi...
Lá o castigo é brutal... Só com paciência, com bondade... Cristo também pensava
assim... Por que como um comunista?... Deus pode falar a um ignorante...
Abandonar as crianças? A paróquia está perdida... Mãe velha que soluçará... E a
carreira da irmã na Escola Normal? Também ela quer ensinar a crianças... Mas serão
outras crianças, crianças com livros, com pai, com mãe... Não serão iguais a estas
abandonadas na rua, dormindo sob a lua, nas pontes, nos trapiches... Não pode
abandoná-las. Com quem estará Deus? Com o Cônego ou com o pobre padre? A
viúva... Não, Deus está com o padre... Está com o padre... Sou muito ignorante para
ouvir a voz de Deus... Se esconde na porta de uma igreja. Mas por vezes Deus fala
aos ignorantes... Sai da porta da igreja, continua a caminhada encostado na parede.
Continuará, sim. Se estiver errado, Deus o perdoará... As boas intenções não
desculpam os maus atos. Mas Deus é a suprema bondade... Continuará... Os
Capitães da Areia talvez não dêem só ladrões... E não seria uma grande alegria para
Cristo?... Sim, Cristo sorri. É uma figura radiosa. Sorri o padre José Pedro.
Obrigado, meu Deus, obrigado.
O padre ajoelha na rua, levanta as mãos para o céu. Mas olha a gente que sorri. Se
põe de pé espantado, salta num bonde cheio de vergonha.
Um homem comenta:
– Olha um padre bêbado. Que descarado...
Todos riem no ponto de bondes.
Boa-Vida meteu a unha negra, rasgou a bolha. Depois espiou o braço: estava cheio.
Por isso sentia tanto calor, um amolecimento no corpo. Era a febre da bexiga.A
cidade pobre estava assolada de bexiga.
Os médicos diziam que a epidemia já estava declinando, mas ainda assim eram
muitos os casos, todos os dias ia gente para o lazareto. Gente que não voltava,
pensou Boa-Vida. Até Almiro, por cuja causa se armara tão grande barulho no
trapiche, fora para o lazareto. E não voltara... Era um menino bonito. Havia quem
dissesse que ele e Barandão... Mas não era ruim, não aborrecia ninguém. Sem-Perna
armara um escândalo. Depois que soubera que ele morrera ficara ainda mais
retraído, parecia o culpado da morte de Almiro. Não conversava com ninguém. Só
com o cachorro que arranjara.
– Acaba doido... – pensou Boa-Vida.
Acendeu um cigarro. Andou para o trapiche. Só o Professor estava. Àquelas horas
da tarde era difícil que estivesse alguém no trapiche. Professor viu quando ele
entrou:
– Passa um cigarro, Boa-Vida.
Boa-Vida jogou um. Chegou no seu canto, fez uma trouxa com seus trapos.
Professor ficou espiando aquele movimento:
– Tu vai embora?
Boa-Vida andou até ele com a trouxa debaixo do braço:
– Tu não diz a ninguém... Só a Bala...
– Pra onde tu vai?
O mulato riu:
– Pro lazareto...
Professor olhou os braços cheios de bolhas, o peito.
– Tu não vai, Boa-Vida...
– Por que, mano?
– Tu sabe... É buraco na certa...
– Tu pensa que eu vou ficar aqui pra pegar nos outros?
– A gente trata de tu...
– Morria tudo. Almiro tinha casa, tá certo. Eu não tenho ninguém.
Professor calou-se. Queria dizer muita coisa. O mulato estava na sua frente, a trouxa
debaixo do braço cheio de bolha de bexiga. Boa Vida falou:
– Tu diz a Pedro Bala. Os outros não precisa.
Professor só soube dizer:
– Tu vai mesmo?
Boa-Vida fez que sim, saíram do trapiche. Boa-Vida olhou a cidade, fez um gesto
com a mão. Era como um adeus. Boa-Vida era malandro e ninguém ama sua cidade
como os malandros. Olhou o Professor:
– Quando tu fizer meu retrato... Tu ainda vai fazer?
– Vou, Boa-Vida... Vontade de dizer palavras carinhosas como a um irmão. – Não
me faz cheio de bexiga, não...
Seu vulto desapareceu no areal. Professor ficou com as palavras presas, um nó na
garganta. Mas também achava bonito Boa-Vida andar assim para a morte para não
contaminar os outros. Os homens assim são os que têm uma estrela no lugar do
coração. E quando morrem o coração fica no céu, diz o Querido-de-Deus. Boa-Vida
era um menino, não era um homem. Mas já tinha uma estrela no lugar do coração. Já
desapareceu o seu vulto. E então a certeza de que não mais verá seu amigo encheu o
coração do Professor. A certeza de que o outro ia para a morte.
Nas macumbas em honra de Omolu, o povo negro, castigado com a bexiga, cantava:
“Cabono, aziela engoma!
Quero vê couro zoa!
Omolu vai pro sertão Bexiga vai espalha.”
Omolu espalhara a bexiga na cidade. Era uma vingança contra a cidade dos ricos.
Mas os ricos tinham a vacina, que sabia Omolu de vacinas? Era um pobre deus das
florestas d’África. Um deus dos negros pobres. Que podia saber de vacinas? Então a
bexiga desceu e assolou o povo de Omolu. Tudo que Omolu pôde fazer foi
transformar a bexiga de negra em alastrim, bexiga branca e tola. Assim mesmo
morrera negro, morrera pobre. Mas Omolu dizia que não fora o alastrim que matara.
Fora o lazareto. Omolu só queria com o alastrim marcar seus filhinhos negros. O
lazareto é que os matava. Mas as macumbas pediam que ele levasse a bexiga da
cidade, levasse para os ricos latifundiários do sertão. Eles tinham dinheiro, léguas e
léguas de terra, mas não sabiam tampouco da vacina. O Omolu diz que vai pro
sertão. E os negros, os ogãs, as filhas e pais-de-santo cantam:
“Ele é mesmo nosso pai
e é quem pode nos ajudar...”
Omolu promete ir. Mas para que seus filhos negros não esqueçam avisa no seu
cântico de despedida:
“Ora, adeus, ó meus filhinhos,
Qu’eu vou e torno a vortá...”
E numa noite que os atabaques batiam nas macumbas, numa noite de mistério da
Bahia, Omolu pulou na máquina da Leste Brasileira e foi para o sertão de Juazeiro.A
bexiga foi com ele.
Boa-Vida voltou magro, a roupa dançando no seu corpo. A cara agora estava toda
picada. Os outros o olharam ainda com receio quando naquela noite ele entrou no
trapiche. Mas Professor andou logo para ele:
– Ficou bom, mulato?
Boa-Vida sorriu. Vinham apertar a mão dele, Pedro Bala lhe deu um abraço:
– Mulato bom. Mulato batuta.
Até Sem-Pernas veio, João Grande ficou junto de Boa-Vida. 0 mulato olhou os
amigos. Pediu um cigarro. Sua mão estava descarnada, o rosto ossudo. Ficou calado,
olhando com amor o velho trapiche, os meninos, o cachorro que estava deitado no
colo do Sem-Pernas.
Então João Grande perguntou:
– Como era o lazareto?
Boa-Vida se voltou rápido. Seu rosto tomou uma expressão amarga de desgosto.
Demorou um pouco a responder. Depois as palavras saíram com dificuldade:
– Ninguém sabe dizer, não. É uma coisa por demais... Uma nojeira. A gente quando
entra é igual um que entra no caixão... Olhou os outros, que estavam suspensos das
suas palavras. Sua voz era amarga – Igual que entrasse pro caixão pra ir pro
cemitério... Igual...
Não achou mais que dizer. Sem-Pernas perguntou entre dentes:
– Que mais?
– Nada. Nada. Não sei, não... Por Deus, não pergunte... – baixou a cabeça, que
balançava para todos os lados. Sua voz saiu muito baixa, como que ainda
amedrontada:– É mesmo que ir pro cemitério. Tudo já está morto.
Olhou como se pedisse que não lhe perguntassem mais nada. João Grande disse para
os outros:
– A gente não devia perguntar nada...
Boa-Vida apoiou com um gesto da mão. Disse baixinho:
– Nada... É ruim demais...
Professor olhou o peito de Boa-Vida. Estava todo picado da varíola. Mas no lugar do
coração Professor viu uma estrela.
Uma estrela no lugar do coração.
Destino
Ocuparam a mesa do canto. O gato puxou o barulho. Mas nem Pedro Bala, nem João
Grande, nem Professor, tampouco Boa-Vida se interessaram. Esperavam o Queridode-
Deus na Porta do Mar. As mesas estavam cheias. Muito tempo a Porta do Mar
andara sem fregueses. A varíola não deixava. Agora que ela tinha ido embora, os
homens comentavam as mortes. Alguém falou no lazareto. É uma desgraça ser
pobre, disse um marítimo.
Numa mesa pediram cachaça. Houve um movimento de copo no balcão. Um velho
então disse:
– Ninguém pode mudar o destino. É coisa feita lá em cima – apontava o céu.
Mas João de Adão falou de outra mesa:
– Um dia a gente muda o destino dos pobres...
Pedro Bala levantou a cabeça, Professor ouviu sorridente. Mas João Grande e Boa-
Vida pareciam apoiar as palavras do velho, que repetiu:
– Ninguém pode mudar, não. Está escrito lá em cima.
– Um dia a gente muda... – disse Pedro Bala, e todos olharam para o menino.
– Que é que tu sabe, frangote? – perguntou o velho.
– É filho do Loiro, fala a voz do pai respondeu João Adão olhando com respeito. –
O pai morreu pra mudar o destino da gente.
Olhou para todos. O velho calou e também olhava com respeito.
A confiança foi de novo chegando para todos. Lá fora um violão começou a tocar.
Noite da grande paz, da grande paz
dos teus olhos
Filha de Bexiguento
A música já recomeçara no morro. Os malandros voltavam a tocar violão, a cantar
modinhas, a inventar sambas que depois vendiam aos sambistas célebres da
cidade.Na venda de Deoclécio novamente ficava um grupo todas as tardes. Durante
algum tempo tudo cessara no morro para dar lugar ao choro e lamentações das
mulheres e crianças.Os homens passavam de cabeça baixa para as suas casas ou para
o trabalho. E os caixões negros de adultos, os caixões brancos de virgens, os
pequenos caixões de crianças desciam as ásperas ladeiras do morro para o cemitério
distante. Isso quando não eram sacos que desciam com os variolosos ainda vivos que
eram levados para o lazareto.A família chorava como choraria a um morto, pela
certeza de que eles não voltariam jamais. Nem a música de um violão. Nem a voz
cheia de um negro cortava então a tristeza do morro. Só a reza das sentinelas, o
choro convulsivo das mulheres.
Assim estava o morro quando Estêvão foi levado para o lazareto. Não voltou, certa
tarde Margarida soube que ele morrera por lá. Nesta tarde ela já estava com
febre.Mas o alastrim parecia ser dos mais mansos no corpo da lavadeira e ela
escondeu de todos a notícia, conseguiu não ser metida num saco. Aos poucos foi
melhorando. Os dois filhos andavam pela casa, fazendo o que ela mandava. Zé
Fuinha era um bocado inútil, ainda não sabia fazer nada, com seus seis anos.
Mas Dora tinha treze para quatorze anos, os seios já haviam começado a surgir sob o
vestido, parecia uma mulherzinha, muito séria, a buscar os remédios para a mãe, a
tratar dela. Margarida melhorou quando já os violões recomeçavam a tocar no
morro, porque a epidemia de varíola tinha se acabado. A música voltou a dominar as
noites do morro e Margarida, se bem ainda não estivesse completamente boa, foi ã
casa de algumas de suas freguesas em busca de roupa. Voltou com a trouxa nas
costas, se atirou para a fonte. Trabalhou o dia todo, sob o sol e a chuva que caiu pela
tarde. No outro dia não voltou ao trabalho porque recaiu do alastrime a recaída é
sempre terrível. Dois dias depois descia do morro o último caixão feito pela varíola.
Dora não soluçava. Corriam as lágrimas pelo seu rosto, mas enquanto o caixão
descia ela pensava era em Zé Fuinha, que pedia o que comer. O irmãozinho chorava
de dor e de fome. Era muito menino para compreender que tinha ficado sem
ninguém na imensidão da cidade.
Os vizinhos deram jantar aos órfãos nesta tarde. No outro dia pela manhã o árabe
que era dono dos barracões do morro mandou derramar álcool no de Margarida para
desinfetar. E logo o alugou, pois era um barracão bem situado, bem no alto da
ladeira. E enquanto os vizinhos discutiam o problema dos órfãos, Dora tomou o
irmão pela mão e desceu para a cidade. Não se despediu de ninguém, era como uma
fuga. Zé Fuinha ia sem saber para onde, arrastado pela irmã. Dora marchava
tranqüila. Na cidade havia de encontrar quem lhes desse de comer, quem pelo menos
tomasse conta de seu irmão. Ela arranjaria um emprego de copeira numa casa. Ainda
era uma menina, mas havia muitas casas que preferiam mesmo uma menina porque
o ordenado era menor. Sua mãe certa vez falara em a empregar de copeira na casa de
uma freguesa. Dora sabia onde era e se dirigiu para lá. O morro, a música dos
violões, o samba que um negro cantava ficaram para trás. Os pés descalços de Dora
se queimam no asfalto ardente. Zé Fuinha vai alegre, vendo a cidade para ele
desconhecida, os bondes que passam repleto, as marinetes que buzinam, a multidão
que corta as ruas. Dora fora com Margarida certa vez à casa desta freguesa. É na
Barra, elas tinham ido num bonde bagageiro, levando a trouxa de roupa lavada. A
dona da casa fizera festa a Dora, perguntara se ela queria vir trabalhar ali. Margarida
ficara de trazê-la quando ela estivesse mais crescida. Era para lá que Dora pensava
ir. E perguntando a ume a outro tomou o caminho da Barra. A caminhada era
grande, o sol no asfalto queimava seus pés sem sapato. Zé Fuinha começou a pedir
de comer e a se queixar do cansaço. Dora o acalentou com promessas e seguiram.
Mas no Campo Grande Zé Fuinha não pôde mais. A caminhada era demasiada para
ele, para os seus seis anos. Então Dora entrou numa padaria, trocou os únicos
quinhentos réis que possuía, comprou dois pães dormidos, deixou Zé Fuinha sentado
num banco com os pães:
– Tu come e me espera, tá ouvindo? Eu vou ali, volto já. Mas não vá sair daqui,
senão você se perde...
Zé Fuinha prometeu com uma cara muito séria, dando dentadas nos pães duros. Ela
o beijou e seguiu.
O guarda que a informou olhou para os seus seios que nasciam. 0 cabelo loiro dela,
maltratado, voava com o vento. Sentia queimaduras nas solas dos pés e um cansaço
no corpo todo. Mas seguiu. O número era 611. Quando chegou ao 53 parou um
pouco para descansar e pensar o que diria à dona da casa. Depois retomou a
caminhada. Agora a fome ajudava a magoar seu corpo, a fome terrível das crianças
de 13 anos, uma fome que exige comida imediatamente. Dora tinha vontade de
chorar, de se deixar cair na rua, sob o sol, e não fazer movimentos. Uma saudade dos
pais mortos a invadiu. Mas reagiu contra tudo e continuou.
O 611 era uma casa grande, quase um palacete, com árvores na frente. Numa
mangueira, um balanço onde uma menina da idade de Dora se divertia. Um rapazote
dos seus 17 anos a balançava e riam os dois. Eram os filhos do dono da casa. Dora
ficou a olhá-los com inveja uns minutos. Depois tocou a campainha. O rapaz olhou,
mas continuou a balançar a irmã. Dora tocou novamente, a empregada veio. Ela
explicou que queria falar com dona Laura, a patroa. A empregada a olhou com
desconfiança. Mas o rapazola deixou de balançar a irmã e andou até o portão.
Espiava os seios mal nascidos de Dora, os pedaços de coxas que apareciam sob o
vestido. Perguntou:
– O que é que você quer?
– Eu queria falar com dona Laura. Sou filha de Margarida, que foi lavadeira dela...
Não vê que ela morreu...O rapaz não despregava os olhos dos seios de Dora. Era
bonita a menina, de olhos grandes, cabelo muito loiro, neta de italiano com mulata.
Margarida dizia que ela puxara ao avô, que também tinha cabelos muito loiros e um
bigodão bem tratado. Dora baixou os olhos porque o rapaz não tirava os dele dos
seus peitos.Ele também se desconcertou, falou para a empregada:
– Vá chamar mamãe...
– Sim, senhor.
O rapaz puxou um cigarro, acendeu. Jogou a fumaça para cima estendendo o beiço,
deu mais uma espiada para os peitos de Dora:
– Você está procurando emprego?
– Tou, sim senhor.
O vento levantou um pouco o vestido dela. Ele teve pensamento canalhas ao ver o
pedaço de coxa. Já se sonhava na cama, Dora trazendo o café pela manhã, a safadeza
que se seguiria.
– Vou ver se mamãe arranja um lugar pra você...
Ela agradeceu. Mas estava um pouco assustada, se bem lhe escapasse muito da
malícia dos olhares dele. Dona Laura chegou, os cabelos grisalhos, a filha atrás dela,
espiando Dora com olhos compridos. Era sardenta, mas tinha certa graça.
Dora contou que a mãe tinha morrido:
– A senhora tinha me prometido um emprego...
– De que foi que Margarida morreu?
– De bexiga, sim senhora.
Dora não sabia que dizendo aquilo tinha perdido a possibilidade do emprego.
– De varíola?
A mocinha se afastou receosa. Até o rapaz se desviou um pouco, pensou nos seios
pequenos de Dora marcados de varíola. Cuspiu com nojo. Dona Laura tomou um
tom triste:
– É que já tomei outra empregada. Agora não tenho necessidade...
Dora pensou em Zé Fuinha:
– A senhora não tem precisão de um menino pequeno pra faz compra, recados, estas
coisas? É meu irmão...
– Não, minha filha, não tenho. – Não sabe de ninguém?
– Não. Se soubesse recomendaria você...
Queria acabar a conversa. Voltou-se para o filho:
– Você tem dois mil-réis aí, Emanuel?
– Pra que, mamãe?
– Me dê.
O rapaz deu, ela pôs em cima da grade. Tinha medo de tocar em Dora, queria que
fosse dali, antes de contagiar a casa.
– Leve isso para você. Que Deus lhe ajude...
Dora voltou a descer a rua. O rapaz ainda espiou as nádegas que apareciam redondas
sob o vestido apertado. Mas a voz de dona Laura o interrompeu. Ela falava para a
empregada:
– Dos Reis, passe um pano com álcool no portão, onde esta menina pegou. Não é
bom brincar com varíola...
O rapaz voltou a balançar a irmã sob as mangueiras. Mas de vez em quando
suspirava para si mesmo: tinha uns peitos muito bons...
Zé Fuinha não estava no banco. Dora levou um susto. Era capaz que o irmão tivesse
saído andando pela cidade e se perdesse. E como ela o iria encontrar, ela que tão
pouco conhecia a cidade? Demais um grande cansaço a invadia, um desânimo,
saudade da mãe morta, vontade de chorar. Os pés doíam e ela tinha fome. Pensou
em comprar pão agora possuía dois mil e quatrocentos, mas em vez disto saiu em
busca do irmão. Foi encontrá-lo embaixo das árvores do jardim comendo ameixas
verdes. Dora deu-lhe uma pancada na mão:
– Tu não sabe que isso faz dor de barriga?
– Tou com fome...
Ela comprou pão, comeram. A tarde toda foi uma caminhada de um lado para outro
à procura de emprego. Em todas as casas diziam que não, o medo da varíola era
maior que qualquer bondade. No começo da noite Zé Fuinha não se agüentava mais
de cansado. Dora estava triste e pensava em voltar ao morro. Ia ser uma carga para
os vizinhos pobres. Não queria voltar. Do morro sua mãe tinha saído num caixão,
seu pai metido num saco. Mais uma vez deixou Zé Fuinha sozinho num jardim para
ir comprar o que comer numa padaria, antes que fechasse. Gastou os últimos
níqueis. As luzes se acenderam e ela achou a princípio muito bonito. Mas logo
depois sentiu que a cidade era sua inimiga, que apenas queimara os seus pés e a
cansara. Aquelas casas bonitas não a quiseram. Voltou curvada, afastando com as
costas das mãos as lágrimas. E novamente não encontrou Zé Fuinha. Depois de
andar em volta do jardim foi dar com o irmão, que espiava um jogo de gude entre
dois garotos: um negro forte e um magrelo branco. Dora sentou num banco, chamou
o irmão.
Os garotos que jogavam se levantaram também. Ela desembrulhou os pães, deu um
a Zé Fuinha. Os garotos a olhavam. O preto estava com fome, ela bem viu. Ofereceu
do pão a eles. Ficaram os quatro comendo o pão dormido era mais barato em
silêncio. Quando terminaram, o preto bateu as mãos uma na outra, falou:
– Teu irmão disse que a mãe de você morreu de bexiga...
– Papai também...
– Lá também morreu um...
– Teu pai?
– Não. Foi Almiro, um do grupo.
O branco magrelo, que tinha estado calado, perguntou:
– Você arranjou onde trabalhar?
– Ninguém quer filha de bexiguento...
Agora chorava. Zé Fuinha brincava no chão com as bolas que os outros tinham
deixado perto das árvores. O preto coçava a cabeça. 0 magrelo olhou para ele,
depois para Dora:
– Tu tem onde dormir?
– Não.
O magrelo falou para o negro:
– A gente leva ela pro trapiche...
– Uma menina... O que é que Bala vai dizer?
– Tá chorando disse o magrelo em voz muito baixa.
O negro olhou. Evidentemente estava atarantado. O branco coçou o pescoço,
espantando uma mosca. Botou a mão no ombro de Dora muito devagarinho, como
se tivesse medo de a tocar:
– Vem com a gente. A gente dorme num trapiche...
O preto fez esforço para sorrir: – Não é um palacete, mas é melhor que a rua...
Andaram. João Grande e Professor iam na frente. Ambos tinham vontade de
conversar com Dora, mas nenhum sabia o que dizer, não tinham se visto ainda num
apuro assim.A luz das lâmpadas batia nos cabelos loiros dela. O preto disse:
– É uma lindeza.
– Batuta fez Professor.
Mas não olhavam nem os seios, nem as coxas. Olhavam o cabelo loiro batido pela
luz das lâmpadas elétricas.
No areal Zé Fuinha não pôde mais ir andando. O negro João Grande pegou a criança
apesar de ser também criança... e a botou nas costas. Professor ia junto de Dora, mas
estavam calados na noite.
Entraram no trapiche meio desconfiados. João Grande arriou Zé Fuinha no chão,
ficou parado, esperando que o Professor e Dora entrassem. Foram todos para o canto
do Professor, que acendeu a vela. Os outros espiavam para o canto com surpresa. O
cachorro do Sem-Pernas latiu.
– Gente nova... – murmurou o Gato, que ia sair.
Gato andou até onde eles estavam:
– Quem é, Professor?
– A mãe e o pai morreu de bexiga. Tavam na rua, sem ter onde dormir. Gato olhou
para Dora ensaiando seu melhor sorriso. Fez uma espécie de saudação tinha visto
num cinema um galã fazendo com o corpo, ensaiou uma frase que tinha ouvido certa
vez:
– Boas-vindas, madame...
Não se lembrou do resto, ficou meio encabulado, foi embora ver Dalva. Mas os
demais já se aproximavam. Sem-Pernas e Boa-Vida vinham na frente. Dora olhava
assustada.Zé Fuinha dormia de cansaço. João Grande se pôs na frente de Dora. A luz
da vela iluminava o cabelo loiro da menina, de quando em vez pousava nos seios. se
levantou, encostou-se na parede. Agora a lua aparecia pelos buracos do teto.
Boa-Vida estava diante deles. Sem-Pernas vinha coxeando, e os outros logo atrás, os
olhos estirados para Dora. Boa-Vida falou:
– Quem é essa lasca?
Professor se adiantou:
– Tava com fome. Ela e o irmão. A bexiga matou o pai e a mãe.
Boa-Vida riu um riso largo. Empinou o corpo:
– É um peixão...
Sem-Pernas riu seu riso burlão, apontou os outros:
– Tá tudo como urubu em cima da carniça...
Dora se chegou para junto de Zé Fuinha, que acordara e tremia de medo. Uma voz
disse entre os meninos:
– Professor, tu tá pensando que a comida é só pra tu e pra João Grande? Deixa pra
nós também...
Outro gritou:
– Já tou com o ferro em brasa...
Muitos riram. Um se adiantou, mostrou o sexo a João Grande – Vê como a bichinha
está, Grande. Doidinha...
João Grande e se pôs na frente de Dora. Não dizia nada, mas puxou o punhal. O
Sem-Pernas gritou:
– Tu assim não arranja nada. Ela tem que ser pra todos.
Professor replicou:
– Não tão vendo que é uma menina...
– Já tem peito! – gritou uma voz.
Volta Seca saiu de entre o grupo. Trazia os olhos muito excitado um riso no rosto
sombrio:
– Lampião também não respeita cara. Dá ela pra gente Grande...
Sabiam que Professor era fraco, não agüentava pancada. Estava doidamente
excitados, mas ainda temiam João Grande, que segurava o punhal. Volta Seca se via
como no meio do grupo de Lampião, pronto para deflorar junto com todos uma filha
de fazendeiro. A vela iluminava os cabelos loiros de Dora. Ia um pavor pelo rosto
dela.
João Grande não dizia nada, mas segurava o punhal na mão. Professor abriu a
navalha, ficou junto dele. Então Volta Seca também puxou do punhal, começou a
avançar.Os outros vinham por detrás dele, o cachorro latia. Boa-Vida falou mais
uma vez:
– Desaparta, Grande. É melhor...
Professor pensava que se o Gato estivesse ali, estaria do lado deles, porque o Gato
já, tinha mulher. Mas o Gato já tinha saído.
Dora via o grupo avançar. O medo foi vencendo o desânimo e o cansaço em que
estava. Zé Fuinha chorava. Dora não tirava os olhos de Volta Seca. A cara sombria
do mulato estava aberta em desejo, um riso nervoso a sacudia. Viu também os sinais
da varíola no rosto de Boa-Vida quando este passou em frente da vela, e então se
lembrou da mãe morta. Um soluço a sacudiu e deteve um momento os meninos.
Professor disse:
– Não vê que ela tá chorando.
Eles pararam um momento. Mas Volta Seca falou:
– E nós com isso? A babaca é a mesma...
Continuaram avançando. Iam vagarosamente, os olhos fixos ora em Dora, ora no
punhal que João Grande tinha na mão. De repente se apressaram, chegaram muito
mais perto. João Grande falou pela primeira vez:
– Furo o primeiro...
Boa-Vida riu, Volta Seca manejou o punhal. Zé Fuinha chorava, Dora o olhou com
os olhos apavorados. Se abraçou nele, viu João Grande derrubar Boa-Vida. A voz de
Pedro Bala, que entrava, fez com que parassem:
– Que diabo é isso?
Professor levantou-se. Volta Seca o soltou, já o havia cortado no braço. Boa-Vida
ficou deitado como estava, um talho no rosto. João Grande continuou em guarda na
frente de Dora. Pedro Bala se adiantou:
– Que é isso?
Boa-Vida falou do chão mesmo:
Estes frescos arranjaram uma comida e quer que seja para ele só. A gente também
tem direito...
– Também. Eu pelo menos quero trepar hoje... – esganiçou Sem-Pernas.
Pedro Bala olhou para Dora. V’m os peitos, o cabelo loiro.
– Tão com o direito... – falou. – Arreda, João Grande.
O negro olhou Pedro Bala espantado. O grupo avançava novamente, agora chefiado
por Pedro Bala. João Grande estendeu os braços, gritou:
– Bala, eu como o primeiro que chegar aqui.
Pedro Bala adiantou mais um passo:
– Sai, Grande.
– Tu não tá vendo que é uma menina? Tu não tá vendo?
Pedro Bala parou, o grupo parou atrás dele. Agora Pedro Bala olhava Dora com
outros olhos. Via o terror no rosto dela, as lágrimas que caíam dos olhos. Ouviu o
choro de Zé Fuinha. João Grande falava:
– Eu sempre tive contigo, Bala. Sou teu amigo, mas ela é uma menina, fui eu e
Professor que trouxe ela. Eu sou teu amigo, mas se tu vier eu te mato. É uma
menina, ninguém faz mal a ela...
– A gente te derruba e depois... – disse Volta Seca.
– Cala a boca gritou Pedro Bala.
João Grande continuou:
– O pai dela, a mãe dela morreu de bexiga. A gente encontrou ela, não tinha onde
dormir, a gente trouxe ela. Não é uma puta, é uma menina, não vê que é uma
menina?Ninguém toca nela, Bala.
Pedro Bala disse baixinho:
– É uma menina...
Pulou para o lado de João Grande e de Professor.
– Tu é um negro bom. Tu tá com o direito... – voltou-se para os outros. – Quem
quiser vir, venha...
– Tu não pode fazer isso, Bala... – e Boa-Vida passava a mão no talho. – Tu agora
quer comer ela só com o Grande e Professor...
– Juro que não quem comer ela, nem eles quer. É uma menina. Mas ninguém toca
nela. Quem quiser que venha...
Os menores e mais medrosos foram se afastando. Boa-Vida se levantou, foi para seu
canto, limpando o sangue. Volta Seca falou para Pedro Bala devagar:
– Eu não vou não é de medo. É que tu disse que é uma menina.
Pedro Bala se aproximou de Dora:
– Tem medo, não. Ninguém toca em você.
Ela saiu do seu canto, arrancou um pedaço da fralda, começou a ver a ferida do
Professor. Depois marchou para onde estava Boa-Vida que se encolheu todo,
molhou a ferida do malandro, botou um pano em cima. Todo o temor, todo o
cansaço tinham desaparecido. Porque confiava em Pedro Bala. Depois perguntou a
Volta-Seca:
– Também tá ferido?
– Não... – fez o mulato sem compreender. E fugiu para seu canto. Parecia ter medo
de Dora.
Sem-Pernas espiava. O cachorro saiu do colo dele, veio lamber os pés de Dora. Ela o
acarinhou, perguntou ao Sem-Pernas:
– É teu?
– É, sim. Mas pode ficar com ele.
Ela sorriu. Pedro Bala andou ao léu no trapiche. Depois disse para todos:
– Amanhã ela vai embora. Não quero menina aqui.
– Não – disse Dora. – Eu fico, ajudo vocês. Eu sei cozinhar, coser, lavar roupa.
– Por mim pode ficar falou Volta Seca.
Dora olhou Pedro Bala:
– Tu disse que ninguém me fazia mal?...
Pedro Bala olhou os cabelos loiros. A lua entrava pelo trapiche.
Dora, Mãe
O gato veio gingando o corpo naquele seu caminhar característico. Andara
procurando enfiar a linha na agulha uma imensidade de tempo. Dora fizera Zé
Fuinha dormir, agora se preparava para ouvir Professor ler aquela história tão bonita
que estava no livro de capa azul. O Gato veio gingando o corpo, se aproximou
devagar:
– Dora...
– Que é, Gato?
– Tu quer fazer uma coisa?
Mirava a agulha e a linha que tinha na mão. Parecia estar diante de um problema
grave. Não sabia como se arranjar. Professor parou a leitura, Gato mudou de
conversa:
– Tu ainda fica cego de tanto lê, Professor... Se ainda fosse luz elétrica... – olhou
Dora sem se resolver.
– Que é, Gato?
– Esse diabo desta linha... Nunca vi coisa mais difícil. Meter isso no rabo desta
agulha...
– Dê cá...
Enfiou a linha, deu um nó numa das pontas. Gato disse para Professor:
– Só mulher é que sabe fazer esse troço...
Estendeu a mão para receber a agulha, mas Dora não entregou.
Perguntou o que é que Gato tinha que coser. Gato mostrou o paletó roto no bolso.
Era aquela roupa de casimira que fora do Sem-Pernas quando ele andara feito
menino rico numa casa da Graça:
– É uma roupa porreta! – fez o Gato.
– Boa mesmo apoiou Dora. – Tira o casaco.
Professor e Gato ficaram vendo ela coser. Em verdade não era uma maravilha de
costura, mas eles nunca tinham tido ninguém que remendasse suas roupas. E
somente Gato e Pirulito tinham costume de remendar eles mesmos as suas. Gato
porque era metido a elegante e tinha uma amante, Pirulito porque gostava de andar
limpo. Os outros deixavam que os farrapos que arranjavam se esfarrapassem ainda
mais, até se tornarem trapos inúteis. Então mendigavam ou furtavam outra calça e
outro paletó. Dora acabou o serviço:
– Tem mais?
Gato alisou o cabelo cheio de brilhantina:
– As costas da camisa...
Virou-se. A camisa estava rasgada de cima a baixo. Dora mandou que ele sentasse,
começou a coser no corpo dele mesmo. Quando os dedos dela tocaram pela primeira
vez nas costas de Gato, ele sentiu um arrepio. Como quando Dalva passava as unhas
crescidas e tratadas, arranhando suas costas e dizendo:
– A gatinha arranha o gatinho...
Mas Dalva não cosia suas roupas, talvez nem soubesse enfiar uma linha no fundo de
uma agulha. Gostava era de se bater com ele na cama, arranhar suas costas, mas de
propósito, pra o arrepiar e o excitar, para que o amor se fizesse ainda melhor. E
Dora, não. Não era de propósito. A mão dela unhas maltratadas e sujas, roídas a
dente não queria excitar, nem arrepiar. Passava como a mão de uma mãe que
remendava camisas do filho. A mãe do Gato morrera cedo. Era uma mulher frágil e
bonita.Também tinha as mãos maltratadas, que esposa de operário não tem
manicura. E era dela também aquele gesto de remendar as camisas de Gato, mesmo
nas costas de Gato.A mão de Dora o toca de novo. Agora a sensação é diferente.
Não é mais um arrepio de desejo. É aquela sensação de carinho bom, de segurança
que lhe davam as mãos de sua mãe. Dora está por detrás dele, ele não vê. Imagina
então que é sua mãe que voltou. Gato está pequenino de novo, vestido com um
camisolão de bulgariana e nas brincadeiras pelas ladeiras do morro o rompe todo. E
sua mãe vem, faz com que ele se sente na sua frente e suas mãos ágeis manejam a
agulha, de quando em vez o tocam e lhe dão aquela sensação de felicidade absoluta.
Nenhum desejo. Somente felicidade. Ela voltou, remenda as camisas do Gato. Uma
vontade de deitar no colo de Dora e deixar que ela cante para ele dormir, como
quando era pequenino. Se recorda que ainda uma criança. Mas só na idade, porque
no mais é igual a um homem furtando para viver, dormindo todas as noites com uma
mulher da vida, tomando dinheiro dela. Mas nesta noite é totalmente criança esquece
Dalva, suas mãos que o arranham, lábios que prendem os seus em beijos longos,
sexo que o absorve. Esquece sua vida de pequeno batedor de carteiras, de dono de
um baralho marcado, jogado desonesto. Esquece tudo, é apenas um menino de
quatorze anos com uma mãezinha que remenda suas camisas. Vontade de que ela
cante para ele dormir... Uma daquelas cantigas de ninar que falam em bicho-papão.
Dora morde a linha, se inclina para ele. Os cabelos loiro dela tocam no ombro do
Gato. Mas ele não tem outro desejo senão que ela continue a ser sua mãezinha. Sua
felicidade naquele momento é quase absurda. É como se não houvesse existido toda
a sua vida depois da morte da sua mãe. É como se tivesse se conservado um criança
igual a todas. Porque nesta noite sua mãe voltou. Por isso a inconsciente carícia dos
cabelos loiros de Dora não excita seu desejo.
Mas aumenta sua felicidade. E a voz dela que diz: tá pronto, Gato, soa aos seus
ouvidos direitinho a voz doce e musical de sua mãe que cantava, a cabeça do Gato
recostada no seu colo, cantigas de ninar.
Levanta, olha Dora com olhos agradecidos:
– Você é a mãezinha da gente, agora... – mas fica encabulada do que diz, pensa que
Dora não compreenderá mesmo porque ela esta rindo com seu rosto sério de quase
mulherzinha. Mas Professor compreende, e Gato, na frente de Dora, falando numa
voz feliz, mas sem desejo, chamando-a de mãe, e ela sorrindo com seu ar maternal
de quase mulherzinha, fica gravado na cabeça de Professor como um quadro.
Gato joga o paletó nas costas e sai com seu passo gingado. Sente que há qualquer
coisa de novo no trapiche: eles encontraram mãe, carinho e cuidados de mãe. Dalva
o estranha nesta noite:
– Que foi que Gatinho teve? Que foi?
Mas ele guarda seu segredo. É uma coisa tão grande demais encontrar na terra uma
mãe que já morreu. Dalva não o entenderia.
Quando Professor estava começando a história, João Grande chegou e sentou-se ao
lado deles. A noite era chuvosa. Na história que Professor lia, a noite era chuvosa
também e o navio estava em grande perigo. Os marinheiros apanhavam de chicote, o
capitão era um malvado. O barco a vela parecia soçobrar a cada momento, o chicote
dos oficiais caía sobre as costas nuas dos marinheiros. João Grande tinha uma
expressão de dor no rosto. Volta Seca chegou com um jornal, mas não interrompeu a
história, ficou ouvindo. Agora o marinheiro John apanhava chibatadas porque
escorregara e caíra no meio do temporal. Volta Seca interrompeu:
– Se Lampião tivesse aí, já tinha comido esse capitão no fuzil...
Foi o que fez o marinheiro James, um homenzarrão. Se atirou em cima do capitão, a
revolta estalou no buque. Lá fora chovia. Chovia na história também, era a história
de um temporal e de uma revolta. Um dos oficiais ficou do lado dos marinheiros.
– É do balacobaco... – disse João Grande.
Amavam o heroísmo. Volta Seca espiou Dora. Os olhos dela brilhavam, ela amava o
heroísmo também. Isso agradou ao sertanejo. Depois o marinheiro James sustentou
uma luta feroz. Volta Seca assoviou como um passarinho de tanto contentamento.
Dora riu também, satisfeita. Riram os dois juntos, logo foi uma gargalhada dos
quatro, como era costume dos Capitães da Areia. Gargalharam alguns minutos,
outros se aproximaram, a tempo de ouvir o resto da história.
Olhavam o rosto sério de Dora, rosto de uma quase mulherzinha que os fitava com
carinho de mãe. Sorriam e, quando o marinheiro James jogou o capitão do navio
num barco salva-vidas e o chamou de cobra sem veneno, eles todos gargalharam
junto com Dora, e a olharam com amor. Como crianças olham a mãe muito amada.
Quando a história acabou, eles voltaram para os seus cantos entre comentários:
– Porreta...
– Macho bamba...
– Também era um prensa...
– O capitão fez uma cara, hein?
Volta Seca espichou o jornal para Professor Dora olhou o mulato, ele sorriu meio
confuso.
– É que traz notícias de Lampião... – seu rosto sombrio clareava. – Tu sabe que
Lampião é meu padrim?
– Padrinho?
– Pois é... Foi minha mãe que tomou, porque Lampião é um macho de verdade, não
respeita cara... Minha mãe era uma mulher valente, uma mulher capaz de agüentar
um fuzil. Um dia fez correr dois soldados que se fizeram de besta. Era um
mulherão... Valia um homem.
Dora ouvia encantada. Seu rosto sério fitava com a maior simpatia o rosto sombrio
do mulato. Volta Seca ficou calado, mas num jeito de quem queria dizer alguma
coisa. Por fim falou.
– Tu também é valente... Sabe? Minha mãe era um mulherão destas grandes. Era
mulata, não tinha cabelo loiro, tinha uma carapinha danada... Não era mais menina
também, podia ser tua avó... Mas tu parece com ela...
Olhou Dora, mas baixou a cabeça:
– Parece mentira, mas tu me lembra ela. Parece mentira, mas tu parece com ela...
Professor olhou com seus olhos de míope. Volta Seca quase gritava, seu rosto
sombrio tinha a alegria de uma descoberta. Também ele descobriu sua mãe, pensou
Professor.Dora estava séria, mas sei olhar era carinhoso. Volta Seca riu, ela riu,
virou logo gargalhada. Mas Professor não os acompanhou na gargalhada. Começou
a ler muito rápido o relato do jornal.
Lampião fora pegado de surpresa ao entrar numa vila. O chofer de um caminhão que
o vira na estrada com o grupo tocara para a vila e avisara. Dera tempo de pedirem
reforços de vilas próximas e a coluna volante também veio. Quando Lampião entrou
na vila encontrou foi bala muita pela frente, bala que ele não esperava. O tiroteio foi
grande, Lampião só pôde mesmo abrir para a caatinga, que é sua casa. Um dos
homens do grupo ficou estirado com um balaço no peito. Cortaram
a cabeça dele, que foi enviada para a Bahia em triunfo. Vinha a fotografia no jornal.
A boca aberta, os olhos furados, um homem segurando pela carapinha rala. Tinham
cortado o pescoço a facão.
Dora comentou:
– Coitado dele... Que judiaria!
Volta Seca olhou agradecido. Seus olhos estavam injetados, seu rosto todavia mais
sombrio. Dolorosamente sombrio.
– Filho de uma égua... – disse baixo. – Filho de uma égua de chofer... Se um dia eu
te pegar...
A notícia adiantava que Lampião devia ter outros homens feridos, pois a retirada do
grupo fora por demais rápida. Volta Seca falou em surdina. Era como se falasse para
si mesmo...
– Já tá em tempo d’eu ir...
– Pra onde? – perguntou Dora.
– Pra junto de meu padrim. Ele tá precisando de mim...
Ela o olhou com tristeza:
– Tu vai mesmo, Volta Seca?
– Vou, sim.
– E se a polícia te matar, cortar tua cabeça?
– Juro que eu eles não topa vivo. Vou com um, mas eu eles não topa vivo... Não tem
medo, não...
Afirmava à sua mãe, forte e valente mulata sertaneja, capaz de brigar com soldados,
comadre de Lampião, amásia de cangaceiro, que podia confiar nele, que não o
pegariam vivo, que lutaria até morrer... Dora ouvia com orgulho.
Professor apertou os olhos e viu também, em lugar de Dora, uma sertaneja forte,
defendendo seu pedaço de terra contra os coronéis, com a ajuda amiga dos
cangaceiros.Viu a mãe de Volta Seca. E era o que o mulato via. Os cabelos loiros
eram carapinha rala, os olhos doces eram os olhos achinesados da sertaneja, o rosto
grave era o rosto sombrio da camponesa explorada. E o sorriso era o mesmo sorriso
de orgulho de mãe para filho.
Pirulito a viu chegar com desconfiança. Para ele Dora era o pecado. Havia bastante
tempo que ele desistira das negrinhas do areal e da quentura dos corpos se
embolando no areal. Se despia aos poucos dos seus pecados para aparecer puro aos
olhos de Deus e poder merecer a graça de se vestir com as vestes dos sacerdotes.
Pensava mesmo em arranjar um lugar de vendedor de jornais para fugir do pecado
diário do furto.
Olhava Dora com receio: a mulher era o pecado. Em verdade ela era apenas uma
criança, uma criança abandonada como eles. Não ria como as negrinhas do areal um
riso insolente de convite, um riso de dentes apertados pelo desejo. Seu rosto era
sério, parecia o rosto de uma mulherzinha muito digna. Mas os pequenos seios que
nasciam se empinavam no vestido, o pedaço de coxa que aparecia era branco e
redondo. Pirulito tinha medo. Não tanto da tentação de Dora. Ela não parecia das
que tentavam, era uma criança, era muito cedo para isto. Mas tinha medo da
tentação que vinha dentro dele, que o demônio punha dentro dele. E procurava rezar
em voz baixa enquanto ela se aproximava.
Dora ficou olhando os quadros de santo. Professor parou atrás dela, olhava também.
Havia flores sob a imagem do Menino Deus que Pirulito furtara um dia. Dora
chegou mais perto:
– É uma beleza...
O medo começou a desaparecer do coração do Pirulito. Ela se interessava pelos seus
santos, santos para os quais ninguém ligava no trapiche. Dora perguntou:
– É tudo teu?
Pirulito fez que sim com a cabeça e sorriu. Se adiantou, mostrou tudo que possuía.
Os quadros, o catecismo, o terço, tudo. Ela olhava com satisfação. Sorria também
enquanto Professor a espiava com os olhos míopes. Pirulito contava a história de
Santo Antônio, que tinha estado em dois lugares ao mesmo tempo. Isso para salvar
seu pai da forca, para a qual fora condenado injustamente. Contava do mesmo modo
como Professor lia histórias heróicas de marinheiros corajoso e revoltosos. Dora
escutava com a mesma atenção e a mesma simpatia. Conversavam os dois, Professor
calado, ouvindo. Pirulito contou coisas da sua religião, milagres de santos, a
bondade do padre José Pedro:
– Quando tu conhecer ele, vai gostar...
Ela disse que com certeza. Ele já havia esquecido que ela podia trazer a tentação nos
seios de menina, nas coxas gordas, na cabeleira loira, agora falava como a uma
mulher mais velha que o ouvia com carinho. Como a uma mãe. Só então
compreendeu. Porque naquele momento lhe veio uma vontade de contar a ela que
queria ser sacerdote, que queria seguir aquela vocação, que sentia o chamado de
Deus. Só à sua mãe teria coragem de contar isso. E ela está na sua frente. Ele fala:
– Tu sabe que eu quero ser padre?
– Que bom... – fez ela.
O rosto de Pirulito se iluminou. Olhou para Dora, falou com a voz exaltada:
– Tu pensa que eu mereço? Deus é bom, mas também sabe castigar...
– Por quê? – havia espanto na pergunta de Dora.
– Tu não vê que a vida da gente é cheia de pecado?... Todo dia...
– A culpa não é da gente... – esclareceu Dora. – A gente não tem ninguém.
Mas agora Pirulito tinha a ela. A sua mãe. Riu satisfeito:
– Padre José Pedro também já disse isso. É capaz...
Riu mais, ela sorriu também animando.
–... é capaz de que um dia eu seja padre.
– Tu vai ser, sim.
– Tu quer esse Deus Menino pra tu? – perguntou ele de repente.
Era como um filho que levasse parte da sua guloseima para sua mãe, que lhe dera o
níquel para que comprasse.
E Dora aceitou, como uma mãe aceita parte da guloseima do filho querido para que
este fique satisfeito.
Professor via a mãe de Pirulito, que não sabia como era, como fora. Mas a via ali no
lugar de Dora. Sentiu inveja da felicidade de Pirulito.
Encontraram Pedro Bala estendido na areia. O chefe dos Capitães da Areia não
entrara para o trapiche nesta noite. Ficara espiando a lua, deitado na quentura boa da
areia. A chuva tinha cessado e vento que corna agora era morno. Professor deitou
também, Dora sentou entre os dois. Pedro Bala a espiou pelo canto dos olhos, puxou
o boné mais para a cara. Dora disse voltada para ele:
– Tu ontem foi bom comigo e meu irmão...
– Tu devia ir embora... – respondeu Bala.
Ela não disse nada, mas ficou triste. Professor então falou.
– Não, Bala. É como uma mãe... Como uma mãe, sim. Pra todos...
Repetia:
– É como uma mãe... Como uma mãe...
Pedro Bala olhou os dois. Suspendeu o boné, sentou na areia. Mas Dora o olhava
com carinho. Para ele... Para ele era tudo: esposa, irmã e mãe. Sorriu confuso para
Dora:
– Pensei que fosse ser uma tentação pra todos...
Ela fez que não, ele continuou:
– Depois podiam aproveitar uma hora que a gente não estava...
Riram. Professor repetiu mais uma vez:
– Não. É como uma mãezinha...
– Tu pode ficar-disse Pedro Bala, e Dora sorriu para ele, era o seu herói, uma figura
que ela nunca tinha imaginado, mas que um dia haveria de imaginar. Amava-o como
a um filho sem carinho, um irmão corajoso, um amado tão belo como não havia
outro.
Mas Professor viu os sorrisos dos dois. E disse ainda uma vez com voz sombria:
– É como mãe!

Dora, Irmã e Noiva
Como o vestido dificultava seus movimentos e como ela queria ser totalmente um
dos Capitães da Areia, o trocou por umas calças que deram a Brandão numa casa da
cidade alta. As calças tinham ficado enormes para o negrinho, ele então as ofereceu
a Dora. Também estavam grandes para ela, teve que as cortar nas pernas para que
dessem. Amarrou com cordão, seguindo o exemplo de todos, o vestido servia de
blusa. Se não fosse a cabeleira loira e os seios nascentes, todos a poderiam tomar
como um menino, um dos Capitães da Areia.
No dia em que, vestida como um garoto, ela apareceu na frente de Pedro Bala, o
menino começou a rir. Chegou a se enrolar no chão de tanto rir. Por fim conseguiu
dizer:
– Tu tá gozada...
Ela ficou triste, Pedro Bala parou de rir.
– Não tá direito que vocês me dê de comer todo dia. Agora eu tomo parte no que
vocês fizer.
O assombro dele não teve limites:
– Tu quer dizer...
Ela o olhava calma, esperando que ele concluísse a frase.
–... que vai andar com a gente pela rua, batendo coisas...
– Isso mesmo – sua voz estava cheia de resolução.
– Tu endoidou...
Dizia com voz soturna, porque, para ele, ela também não era mãe. Também para o
Professor ela era a Amada.
– Não sei por quê.
– Tu não tá vendo que tu não pode? Que isso não é coisa pra menina. Isso é coisa
pra homem.
– Como se vocês fosse tudo uns homão. É tudo uns menino.
Pedro Bala procurou o que responder:
– Mas a gente veste calça, não é saia.
– Eu também e mostrava as calças.
De momento ele não encontrou nada que dizer. Olhou para ela e pensativo, já não
tinha vontade de rir. Depois de algum tempo falou:
– Se a polícia pegar a gente não tem nada. Mas se pegar tu?
– É igual.
– Te metem no orfanato. Tu nem sabe o que é...
– Tem nada, não. Eu agora vou com vocês.
Ele encolheu os ombros num gesto de quem não tinha nada com aquilo. Havia
avisado. Mas ela bem sabia que ele estava preocupado.
Por isso ainda disse:
– Tu vai ver como eu vou ser igual a qualquer um...
– Tu já viu uma mulher fazer o que um homem faz? Tu não agüenta um empurrão...
– Posso fazer outras coisa.
Pedro Bala se conformou. No fundo gostava da atitude dela, se bem tivesse medo
dos resultados.
Andava com eles pelas ruas, igual a um dos Capitães da Areia. Já não achava a
cidade inimiga. Agora a amava também, aprendi a andar nos becos, nas ladeiras, a
pongar nos bondes, nos automóveis em disparada. Era ágil como o mais ágil.
Andava sempre com Pedro Bala, João Grande e Professor. João Grande não a
largava, era como uma sombra de Dora, e se babava de satisfação quando ela o
chamava com sua voz amiga de meu irmão. O negro a seguia como um cachorro e
se dedicara totalmente a ela. Vivia num assombro das qualidades de Dora. Quase a
achava tão valente como Pedro Bala. Dizia o Professor num espanto:
– É valente como um homem...
Professor preferia que não fosse assim. Sonhava com um olhar de carinho dos olhos
da Dora. Mas não daquele carinho maternal que ela tinha para os menores e para os
mais tristes, Volta Seca, Pirulito. Tampouco um olhar fraternal, como os que ela
lançava a João Grande, a Sem-Pernas, a Gato, a ele mesmo. Queria um daqueles
olhares plenos de amor que ela lançava a Pedro Bala quando o via na carreira,
fugindo da polícia ou de um homem que dizia na porta de uma loja:
– Ladrão! Ladrão! Me furtaram...
Daqueles olhares ela só tinha para Pedro Bala, e este nem reparava. Professor ouve
os elogios de João Grande mas não sorri. Pedro Bala naquela noite chegou no
trapiche com um olho inchado e o lábio roxo, sangrando. Topara com Ezequiel,
chefe de outro grupo de meninos mendigos e ladrões, grupo muito menor que o dos
Capitães da Areia e muito mais sem ordem. Ezequiel vinha com uns três do grupo,
inclusive um que fora expulso dos Capitães da Areia por ter sido pegado furtando
um companheiro. Pedro Bala tinha ido deixar Dora e Zé Fuinha no pé da ladeira do
Taboão para que eles fossem para o trapiche. João Grande tinha um serviço a fazer e
não pudera ir com Dora. Pedro Bala pensou em ir com ela, em não deixá-la sozinha
no areal. Mas como ainda não caíra a noite, não havia perigo de um negro dar em
cima dela. Demais ele tinha que ir receber uns cobres da mão de Gonzales do 14,
dinheiro que era devido a uma batida que o grupo fizera nuns objetos de ouro de um
árabe rico.
Enquanto andava para o 14, Pedro Bala pensava em Dora. No cabelo loiro que caía
no pescoço, nos olhares dela. Era bonita, era igual a uma noiva. Noiva... Nem podia
pensar nisso. Não queria que os outros do grupo se sentissem com direito de pensar
em safadezas com ela. E se ele dissesse a Dora que ela era como uma noiva para ele,
outro poderia se julgar no direito de também dizer. E então não haveria mais lei nem
direito entre os Capitães da Areia. Pedro Bala se recorda de que é o chefe...
Vai tão distraído que quase esbarra com Ezequiel. Estão os quatro parados diante
dele. Ezequiel é um mulato alto, fuma uma ponta de charuto. Pedro Bala fica parado
também, esperando.
Ezequiel cospe:
– Não vê onde pisa?... Agora anda cego?
– O que é que tu quer?
O menino que fora dos Capitães da Areia pergunta:
– Como vão aqueles frescos?
– Tu ainda se lembra da surra que apanhou lá? Tu ainda deve guardar a marca.
O menino range os dentes, quer avançar. Mas Ezequiel faz um gesto com a mão e
avisa a Pedro Bala:
– Um dia destes vou fazer uma visita a vocês.
– Uma visita? – pergunta Bala desconfiado.
– Diz-que agora vocês tem uma putinha lá pra todo mundo...
– Dobre a língua, filho da mãe.
Com o soco Ezequiel rolou. Mas os outros três já estavam em cima de Pedro Bala.
Ezequiel meteu o pé na cara de Bala. O que for, dos Capitães da Areia gritou:
– Segura ele bem e meteu um soco na boca de Pedro.
Ezequiel deu dois pontapés na cara de Bala:
– Fique sabendo que sou teu patrão.
– Quatro... – começou a xingar Pedro Bala, mas um soco o calou.
O guarda vinha marchando para eles, debandaram. Pedro Bala apanhou o boné, as
lágrimas de raiva desciam junto com sangue. Estendeu a mão fechada para o lado
por onde Ezequiel e os seus haviam desaparecido. O guarda falou:
– Desaperta, corneta. Dá o fora antes que lhe leve pro xilindró.
Pedro Bala cuspiu puro sangue. Desceu a ladeira devagar, nem pensou em ir buscar
o dinheiro de Gonzales. Descia resmungando consigo mesmo: Só são homem quatro
contra um. E pensava vinganças.
Entrou no trapiche, Dora estava sozinha com o irmão, que dormia. Os últimos raios
do sol entravam pelo teto, dando uma estranha claridade ao casarão. Dora o viu
entrar e andou para ele:
– Segurou os cobres?...
Mas enxergou o olho inchado de Pedro, o beiço partido:
– Que foi, meu irmão?
– Ezequiel mais três. Só são homem de quatro pra cima...
– Fez isso em tu?
– Foi quatro. Assim mesmo porque me pegaram desprevenido.
Eu caí na besteira de pensar que Ezequiel vinha só. Era quatro.
Ela o sentou, foi ao canto de Pirulito, trouxe água. Com um pedaço de pano limpou
as feridas dele. Pedro arquitetava plano de vingança. Ela apoiou:
– A gente acaba com eles desta vez.
Pedro riu:
– Tu vai também?
– Se vou...
Agora limpava os lábios dele, estava curvada na sua frente, seu rosto bem próximo
do de Bala, os cabelos loiros misturados com os dele.
– Por que foi a briga?
– Por nada.
– Diga...
– Ele disse umas coisas...
– Foi por causa de mim, não foi?
Ele abanou a cabeça afirmando. Então ela chegou os lábios para junto dos de Pedro
Bala, os beijou e depois fugiu. Ele saiu correndo atrás dela, mas ela se escondia, não
se deixava pegar. Aos poucos foram chegando os outros. Ela de longe sorna para
Pedro Bala. Não havia nenhuma malícia no seu sorriso. Mas seu olhar era diferente
do olhar de irmã que lançava aos outros. Era um doce olhar de noiva, de noiva
ingênua e tímida. Talvez mesmo não soubessem que era amor. Apesar de não ser
noite de lua, havia um romântico romance no casarão colonial. Ela sorria e baixava
os olhos, por vezes piscava com um olhe porque pensava que isto era namorar. E seu
coração batia rápido quando olhava. Não sabia que isso era amor. Por fim a lua veio
estendeu sua luz amarela no trapiche. Pedro Bala se deitou na areia e mesmo de
olhos fechados via Dora. Sentiu quando ela chegou e deitou a seu lado. Disse:
– Tu agora é minha noiva. Um dia a gente se casa.
Continuou de olhos fechados. Ela disse baixinho:
– Tu é meu noivo.
Mesmo não sabendo que era amor, sentiam que era bom.
Quando Sem-Pernas e João Grande chegaram, Pedro Bala se levantou da areia e
reuniu os chefes. Foram para junto da vela do Professor. Dora veio também e sentou
entre João Grande e Boa-Vida.
O malandro acendeu um cigarro, falou para Dora:
– Tou aprendendo tocar uma samba porreta. E tou cavando um violão, irmã.
– Tu tá tocando batuta mesmo, mano.
– É um tal de sucesso nas festa...
Pedro Bala interrompeu a conversa. Olhavam para o lábio dele, o olho inchado. Ele
narrou o caso:
– Quatro contra um...
– Precisa duma lição – falou Sem-Pernas rindo. – Eu não vou com aquele cara.
Formaram um plano de batalha. E pelo meio da noite saíram uns trinta. O grupo de
Ezequiel dormia para as bandas do Porto da Lenha, nuns barcos virados e na
ponte.Dora foi junto a Pedro Bala e levava uma navalha também. Sem-Pernas disse:
– Até parece Rosa Palmeirão.
Nunca houvera mulher tão valente como Rosa Palmeirão. Dera em seis soldados de
uma vez. Todo marítimo sabe o seu ABC no cais da Bahia. Por isso Dora gosta da
comparação e sorri:
– Obrigado, mano.
Irmão... É uma palavra boa e amiga. Se acostumaram a chamá-la de irmã. Ela
também os trata de mano, de irmão. Para os menores é como uma mãezinha, igual a
uma mãezinha. Cuida deles. Para os mais velhos é como uma irmã que diz palavras
boas e brinca inocentemente com eles e com eles passa os perigos da vida
aventurosa que levam. Mas nenhum sabe que para Pedro Bala ela é a noiva. Nem
mesmo o Professor sabe. E dentro do seu coração Professor também a chama de
noiva.
O cachorro que o Sem-Pernas arranjou vai latindo. Volta Seca imita o latir de um
cachorro, todos riem. João Grande assovia um samba. Boa-Vida começa a cantá-lo
em voz alta:
“A mulata me abandonou...”
Vão alegres. Levam navalhas e punhais nas calças. Mas só o sacarão se os outros
puxarem. Porque os meninos abandonado também têm uma lei e uma moral, um
sentido de dignidade humana.
De repente João Grande grita:
– É ali.
Com a algazarra que fazem, Ezequiel sai de sob um barco:
– Quem vem lá?
– Os Capitães da Areia, que não engole desaforo... respondeu Pedro Bala.
E arrancaram para cima dos outros.
A volta foi um triunfo. Apesar do Sem-Pernas ter um talho e Barandão vir quase nos
braços de tanta pancada um grandão do grupo de Ezequiel o surrara até que Volta
Seca o rebentou, voltavam todo alegres, comentando a vitória. Os que tinham ficado
no trapiche deram vivas. Ainda demoraram muito conversando, comentando.
Falavam na coragem de Dora, que brigara igual a um menino. Igual a um homem,
dizia João Grande. Era como uma irmã, exatamente igual a uma irmã...
Igual a uma noiva, exatamente igual a uma noiva, pensava Pedro Bala, estendido na
areia. A lua amarelava o areal, as estrelas se refletiam no mar azul da Bahia.Ela
veio, deitou ao lado dele. E começaram a falar de coisas tolas. Igual a uma noiva.
Não se beijaram, não se abraçaram, o sexo não os chamava naquele momento.Só de
leve o loiro cabelo dela tocava em Pedro Bala.
– Tu tem um cabelo bonito... – disse ele.
Ela riu, olhou o cabelo dele:
– O teu também.
Riram os dois e logo foi uma gargalhada. Era um hábito dos Capitães da Areia. Ela
começou a contar coisas do morro, histórias dos vizinhos, ele relembrava fatos da
vida agitada do grupo:
– Vim pra rua com cinco anos. Menor que teu irmão...
Riam inocentemente, felizes de estarem um ao lado do outro. Depois o sono veio.
Estavam separados, Pedro tomou a mão dela, segurou. Dormiram como dois irmãos.
Reformatório
O Jornal da Tarde trouxe a notícia em grandes títulos.
Uma manchete ia de lado a lado na primeira página:
PRESO O CHEFE DOS “CAPITÃES DA AREIA”
Depois vinham os títulos que estavam em cima de um clichê, onde se viam Pedro
Bala, Dora, João Grande, Sem-Pernas e Gato cercados de guardas e investigadores:
UMA MENINA NO GRUPO – A SUA HISTÓRIA – RECOLHIDA A UM
ORFANATO – O CHEFE DOS “CAPITÃES DA AREIA” É FILHO DE UM
GREVISTA – OS OUTROS CONSEGUEM FUGIR – “O REFORMATÓRIO O
ENDIREITARÁ”, NOS AFIRMA O DIRETOR.
Sob o clichê vinha esta legenda: Após ser batida esta chapa o chefe dos peraltas
armou uma discussão e um barulho que deu lugar a que os demais moleques presos
pudessem fugir. O chefe é o que está marcado contra cruz e ao seu lado vê-se Dora,
a nova gigolete dos moleques baianos.
Vinha a notícia:
Ontem a polícia baiana lavrou um tento. Conseguiu prender o chefe do grupo de
menores delinqüentes conhecidos pelo nome de “Capitães da Areia”. Por mais de
uma vez este jornal tratou do problema dos menores que viviam nas ruas e da cidade
dedicados ao furto.
Por várias vezes também noticiamos os assaltos levados a efeito por este mesmo
grupo. Realmente a cidade vivia sob o temor constante destes meninos, que ninguém
sabia onde moravam, cujo chefe ninguém conhecia. Há alguns meses tivemos
ocasião de publicar cartas do doutor Chefe de Polícia, do doutor Juiz de Menores e
do diretor do Reformatório Baiano sobre este problema. Todos eles prometiam
incentivar a campanha contra os menores delinqüentes e em particular contra os
“Capitães da Areia”.
Esta campanha tão meritória deu os seus primeiros frutos ontem com a prisão do
chefe desta malta e de vários do grupo, inclusive uma menina. Infelizmente, devido
a uma sagaz burla de Pedro Bala, o chefe, os demais conseguiram escapar de entre
as mãos dos guardas. Em todo caso, a polícia já conseguiu muito prendendo o chefe
e a romântica inspiradora dos roubos: Dora, uma figura interessantíssima de menor
delinqüente. Feitos estes comentários, narremos os fatos:
A TENTATIVA DE FURTO
Ontem, às últimas horas da tarde, cinco meninos e uma menina penetraram no
palacete do doutor Alcebíades Menezes, na ladeira de São Bento. Foram porém
pressentidos pelo filho do dono da casa, estudante de medicina, que deixou que eles
penetrassem num quarto, onde os trancou. Chamou então os guardas e
investigadores, a quem os entregou.
A reportagem do “Jornal da Tarde”, informada do fato, partiu para a casa do doutor
Alcebíades. Lá chegando, encontrou os menores que eram levados à chefia de
polícia.Pedimos então para tirar um retrato do grupo· A polícia muito gentilmente
consentiu. Pois no momento em que o fotógrafo acabava de fazer funcionar o
magnésio e batera chapa, Pedro Bala, o temível chefe dos “Capitães da Areia”,
facilitou a
EVASÃO
Pondo em prática uma agilidade incomum Pedro Bala se livrou dos braços do
investigador que o segurava e com um golpe de capoeira o derrubou. No entanto não
fugiu.É claro que os demais guardas e investigadores se precipitaram em cima dele
para impedir a sua fuga. Só então foi possível compreender o plano do chefe dos
“Capitães da Areia” pois este gritou para os companheiros presos.
– Arriba, pessoal.
Um único guarda ficara a tomar conta dos outros, e um deles, muito ágil, o derrubou
também com um golpe de capoeira. E desabaram para a ladeira da Montanha.
NA POLÍCIA
Na chefia de polícia quisemos ouvir Pedro Bala. Mas ele nada nos disse, como
tampouco quis declarar às autoridades o lugar onde dormiam e guardavam seus
furtos os “Capitães da Areia”. Só declarou seu nome, disse que era filho de um
antigo grevista que foi morto num “meeting” na célebre greve das docas de 191...,
que não tinha ninguém no mundo. Quanto a Dora, é filha de uma lavadeira que
morreu de varíola quando da epidemia que alastrou a cidade. Não faz senão quatro
meses que está entre os “Capitães da Areia”, mas já tomou parte em muitos assaltos.
E parece ter uma grande honra nisso.
NOIVOS
Dora declarou à nossa reportagem que era noiva de Pedro Bala e que iam se casar. É
uma menina ainda ingênua, mais digna de piedade que de castigo. Fala no seu
noivado com maior das ingenuidades. Não tem mais de quatorze anos, enquanto
Pedro Bala anda pelos seus dezesseis. Dora foi leva da ao Orfanato Nossa Senhora
da Piedade.Neste santo ambiente não tardará a esquecer Pedro Bala, o romântico
noivo-bandido, e a sua vida criminosa entre os “Capitães da Areia”.
Quanto a Pedro Bala, será recolhido ao Reformatório de Menores logo que a polícia
consiga que ele declare qual o local onde se esconde o grupo. A polícia tem grandes
esperanças de consegui-lo ainda hoje.
OUVINDO O DIRETOR NO REFORMATÓRIO
O diretor do Reformatório Baiano de Menores Abandonados e Delinqüentes é um
velho amigo do “Jornal da Tarde”. Certa vez uma reportagem nossa desfez um
círculo de calúnias jogada contra aquele estabelecimento de educação e seu
diretor.Hoje ele se achava na polícia esperando poder levar consigo o menor Pedro
Bala. A uma pergunta nossa, respondeu.
– Ele se regenerará. Veja o título da casa que dirijo: “Reformatório”. Ele se
reformará.
E a outra pergunta nossa, sorriu:
– Fugir? Não é fácil fugir do Reformatório. Posso lhe garantir que não o fará.
Professor, à noite, leu a notícia para todos. Sem-Pernas disse.
– Ele já tá no reformatório. Eu vi quando saiu da polícia.
– E ela no orfanato... – completou João Grande.
– A gente livra eles – afirmou Professor. Depois virou-se para o Sem-Pernas. – Até
Pedro Bala chegar tu fica como chefe, Sem-Pernas.
João Grande estendeu os braços para os outros, falou:
– Gentes, até Bala voltar Sem-Pernas é o chefe...
Sem-Pernas disse:
– Ele ficou pra livrar a gente. É preciso que a gente livre ele. Não direito?
Todos estavam decididos.
Quando o levaram para aquela sala Pedro Bala calculava o que o esperava. Não veio
nenhum guarda. Vieram dois soldados de polícia, um investigador, o diretor do
reformatório. Fecharam a sala. O investigador disse numa voz risonha:
– Agora os jornalistas já foram, moleque. Tu agora vai dizer que sabe queira ou não
queira.
O diretor do reformatório riu:
– Ora, se diz...
O investigador perguntou:
– Onde é que vocês dormem?
Pedro Bala o olhou com ódio:
– Se tá pensando que eu vou dizer...
– Se vai...
– Pode esperar deitado.
Virou as costas. O investigador fez um sinal para os soldados. Pedro Bala sentiu
duas chicotadas de uma vez. E o pé do investigador na sua cara. Rolou no chão,
xingando.
– Ainda não vai dizer? – perguntou o diretor do reformatório. – Isso é só o começo.
– Não foi tudo o que Pedro Bala disse.
Agora davam-lhe de todos os lados. Chibatadas, socos pontapés. O diretor do
reformatório levantou-se, sentou-lhe o pé Pedro Bala caiu do outro lado da sala.
Nem se levantou. Os soldados vibraram os chicotes. Ele via João Grande, Professor,
Volta Seca, Sem-Pernas, o Gato. Todos dependiam dele. A segurança de todos
dependia da coragem dele. Ele era o chefe, não podia trair. Lembrou-se da cena da
tarde. Conseguira dar fuga aos outros, apesar de estar preso também. O orgulho
encheu seu peito. Não falaria, fugiria do reformatório, libertaria Dora. E se
vingaria... Se vingaria...
Grita de dor. Mas não sai uma palavra dos seus lábios. Vai te fazendo noite para ele.
Agora já não sente dores, já não sente nada. No entanto, os soldados ainda o surram,
o investigador o soqueia. Mas e não sente mais nada.
– Desmaiou – diz o investigador.
– Deixe ele por minha conta – explica o diretor do reformatório. – Eu levo ele pro
reformatório, lá ele abre a boca. Garanto. E eu dou o aviso a vocês.
O investigador assentiu. Com a promessa de no dia seguinte mandar buscar Pedro
Bala, o diretor retirou-se.
Na madrugada, quando Pedro acordou, os presos cantavam. Era uma moda triste.
Falava do sol que havia nas ruas, em quanto é grande e bela a liberdade.
O bedel Ranulfo, que o tinha ido buscar na polícia, o levou à presença do diretor.
Pedro Bala sentia o corpo todo doer das pancadas do dia anterior. Mas ia satisfeito,
porque nada tinha dito, porque não revelara o lugar onde os Capitães da Areia
viviam. Lembram-se da canção que os presos cantavam na madrugada que nascia.
Dizia que a liberdade é o bem maior do mundo. Que nas ruas havia sol e luz e nas
células havia uma eterna escuridão porque ali a liberdade era desconhecida.
Liberdade.João de Adão, que estava nas ruas, sob o sol, falava nela também. Dizia
que não era só por salários que fizera aquelas greves nas docas e faria outras. Era
pela liberdade que os doqueiros tinham pouca. Pela liberdade o pai de Pedro Bala
morrera.n Pela liberdade – pensava Pedro – dos seus amigos, ele apanhara uma surra
na polícia. Agora seu corpo estava mole e dolorido, seus ouvidos cheios da moda
que os presos cantavam. Lá fora, dizia a velha canção, é o sol, a liberdade e a
vida.Pela janela Pedro Bala vt o sol. A estrada passa adiante dó grande portão do
reformatório. Aqui dentro é como se fosse uma eterna escuridão. Lá fora é a
liberdade e a vida. E a vingança, pensa Pedro Bala.
O diretor entra. O bedel Ranulfo o cumprimenta e mostra Bala. O diretor sorri,
esfrega as mãos uma na outra, senta ante uma alta secretária. Olha Pedro Bala uns
minutos:
– Afinal... Faz bastante tempo que espero este pássaro, Ranulfo.
O bedel sorri aprovando as palavras do diretor.
– É o chefe dos tais de Capitães da Areia. Veja... O tipo do criminoso nato. É
verdade que você não leu Lombroso... Mas se lesse, conheceria. Traz todos os
estigmas do crime na face. Com esta idade já tem uma cicatriz. Espie os olhos... Não
pode ser tratado como um qualquer. Vamos lhe dar honras especiais...
Pedro Bala o espia com os olhos injetados. Sente cansaço, uma vontade doida de
dormir. Bedel Ranulfo aventura uma pergunta:
– Levo pra junto dos outros?
– O quê? Não. Para começar, meta-o na cafua. Vamos ver se ele sai um pouco mais
regenerado de lá...
O bedel cumprimenta e vai saindo com Pedro Bala. O diretor ainda recomenda:
– Regime número 3.
– Água e feijão... – murmura Ranulfo. Dá uma espiada em Pedro Bala, balança a
cabeça. – Vai sair bem mais magro.
Lá fora é a liberdade e o sol. A cadeia, os presos na cadeia, a surra ensinaram a
Pedro Bala que a liberdade é o bem maior do mundo.
Agora sabe que não foi apenas para que sua história fosse contada no cais, no
Mercado, na Porta do Mar, que seu pai morrera pela liberdade. A liberdade é como o
sol. É o bem maior do mundo.
Ouviu o bedel Ranulfo fechar o cadeado por fora. Fora atirado dentro da cafua. Era
um pequeno quarto, por baixo da escada, onde não se podia estar em pé, porque não
havia altura, nem tampouco estar deitado ao comprido, porque não havia
comprimento. Ou ficava sentado, ou deitado com as pernas voltadas para o corpo
numa posição mais que incômoda. Assim mesmo Pedro Bala se deitou. Seu corpo
dava uma volta e seu primeiro pensamento era que a cafua só servia para o homemcobra
que vira, certa vez, no circo. Era totalmente cerrado o quarto, a escuridão era
completa. O ar entrava pelas frestas finas e raras dos degraus da escada. Pedro Bala,
deitado como estava, não podia fazer o menor movimento. Por todos os lados as
paredes o impediam. Seus membros doíam, ele tinha uma vontade doida de esticar
as pernas. Seu rosto estava cheio de equimoses das pancadas na polícia, e desta vez
Dora não estava ali para trazer um pano frio e cuidar do seu rosto ferido. A liberdade
era Dora também.Não era só o sol, andar livre nas ruas, rir no cais a grande
gargalhada dos Capitães da Areia. Era também sentir junto a si o cabelo loiro de
Dora, ouvir ela contar coisas do morro, sentir os lábios dela sobre os seus lábios
feridos. Noiva. Também ela estava sem liberdade. Os membros de Pedro Bala doem
e agora dói sua cabeça também. Dora está como ele, sem sol, sem liberdade. Foi
levada para um orfanato. Noiva. Antes que ela aparecesse ele nunca pensara nesta
palavra: noiva. Gostava de derrubar negrinhas no areal. De encostar peito com peito,
cabeça com cabeça, pernas com pernas, sexo com sexo. Mas nunca pensara em
deitar na areia ao lado de uma menina, menina como ele, e conversar de coisas tolas
e correr picula como os outros meninos, sem a derrubar para fazer o amor. Era outra
maneira do amor, pensava numa confusão. Ele nunca tivera uma idéia perfeita do
amor. Que era ele, senão uma criança abandonada nas ruas, que pela força e
agilidade e coragem conseguira chefiar o grupo mais valente de meninos
abandonados, os Capitães da Areia? Que podia saber de amor? Sempre pensara que
o amor fosse o momento gostoso em que uma negrinha ou uma mulata gemia sob
seu corpo no areal do cais. Isto cedo aprendeu, quando não tinha ainda 13 anos. Isto
sabiam todos os Capitães da Areia, mesmo os mais pequenos, aqueles que ainda não
tinham forças para derrubar uma cabrocha. Mas já o sabiam, e pensavam com
alegria no dia em que o fariam. Os membros e a cabeça de Pedro Bala doem. Tem
sede, ainda não bebeu nem comeu neste dia. Com Dora foi diferente. Logo que ela
chegou, tanto ele como todos os que estavam no trapiche pensaram em a derrubar,
em a possuir, em praticar com ela, que era bonita, o único amor de que tinham
notícia. Mas como era apenas uma menina, eles a tinham respeitado. Depois ela foi
como uma mãe para todos. E como uma irmã também, João Grande dizia certo. Mas
para ele desde o primeiro momento fora diferente. Fora também uma companheira
de brinquedos como para os demais, irmã querida. Mas fora também uma alegria
diversa da que dá uma irmã. Noiva. Gostaria, sim. Mesmo quando quer negar a si
próprio não pode. É verdade que nada faz para isso, que se contenta de conversar
com ela, de ouvir a sua voz, pegar timidamente na sua mão. Mas gostaria de possuíla
também, de vê-la gemer de amor. Não, porém, por uma noite. Por todas as noites
de toda uma vida. Como outros têm esposa, esposa que é mãe, irmã e amiga. Ela era
mãe, irmã e amigados Capitães da Areia. Para Pedro Bala é noiva, um dia será
esposa. Não a podem ter num orfanato como uma menina sem ninguém. Ela tem um
noivo, uma legião de irmãos e de filhos de quem cuidar. O cansaço desaparece dos
membros de Pedro Bala. Ele precisa de movimento, de andar, de correr, para poder
conceber um plano para livrar Dora. Ali naquela escuridão é que não pode. Fica
inútil pensando que ela está talvez numa cafua também. Senta-se como pode. Ratos
correm na cafua. Mas ele está por demais acostumado com os ratos, não liga. Mas
Dora terá medo deste ruído contínuo. É de enlouquecer um que não seja o chefe dos
Capitães Areia. Quanto mais uma menina... É verdade que Dora é a menina valente
de quantas mulheres já nasceram na Bahia, que é a terra das mulheres valentes. Mais
valente mesmo que Rosa Palmeirão, que deu em seis soldados, que Maria Cabaçu,
que não respeitava cara, que a companheira de Lampião, que maneja um fuzil igual
a um cangaceiro. Mais valente porque é apenas uma menina, apenas está começando
a viver. Pedro Bala sorri com orgulho, apesar das dores, do cansaço, sede que aos
poucos o aperta. Como seria bom um copo d’água! Diante do areal do trapiche é o
mar, um nunca acabar de água. Mar que o Querido-de-Deus, o grande capoeirista,
corta com seu saveiro para as pescarias nos mares do Sul. O Querido-de-Deus é um
bom sujeito. Se Pedro Bala não houvesse aprendido com ele o jogo capoeira de
Angola, a luta mais bonita do mundo, porque é também uma dança, não teria podido
dar fuga a João Grande, Gato e Sem-Pernas. Agora ali, na cafua, sem poder se
mexer, a capoeira não vai lhe servir de nada. Gostaria era de beber água. Será que
Dora também tem sede a estas horas?Deve estar também numa cafua, Pedro Bala
imagina o orfanato igualzinho ao reformatório. A sede é pior que uma cobra
cascavel. Faz mais medo que a bexiga. Porque vai apertando a garganta de um, vai
fazendo os pensamentos confusos. Um pouco de água. Um pouco de luz também.
Porque se houver um pouco de luz talvez ele veja o rosto de Dora risonho. Assim na
escuridão ele o vê cheio de sofrimento, cheio de dor. Uma raiva surda, impotente,
cresce dentro dele. Levanta-se um pouco, a cabeça encosta nos degraus escada que
lhe serve de teto. Esmurra a porta da cafua. Mas parece que lá fora não tem ninguém
que o ouça. Vê a cara malvada do diretor. Enterrará seu punhal até o mais fundo do
coração do diretor. Sem que sua mão trema, sem remorsos, gozando. Seu punhal
ficou na polícia. Mas Volta Seca lhe dará o seu, ele tem uma pistola.Volta Seca quer
ir para o bando de Lampião, que é seu padrinho. Lampião mata soldado, mata
homem ruim. Pedro Bala neste momento ama Lampião como a um seu herói, a um
seu vingador. É o braço armado dos pobres no sertão. Um dia ele poderá ser do
grupo de Lampião também. E quem sabe se não poderiam invadir a cidade da Bahia,
abrir a cabeça do diretor do reformatório?Que cara ele não faria quando visse Pedro
Bala entrar no reformatório na frente de uns cangaceiros... Soltaria a garrafa de
pinga, presente de um amigo de Santo Amaro, e Pedro Bala lhe abriria a cabeça.
Não. Antes o deixaria naquela mesma cafua, sem ter o que comer, sem ter o que
beber. Sede... A sede o maltrata. Faz com que ele veja na escuridão da parede o
rosto triste e doloroso de Dora. Aquela certeza de que ela está sofrendo... Fecha os
olhos. Procura pensar em Professor, Volta Seca, João Grande, Gato, Sem-Pernas,
Boa-Vida, todos os do trapiche salvando Dora. Mas não pode. Mesmo de olhos
fechados vê o rosto dela, amargurado pela sede. Esmurra a porta novamente.
Grita, xinga nomes. Ninguém o atende, ninguém o vê, ninguém o ouve. Assim deve
ser o inferno. Pirulito tem razão de ter medo do inferno. É por demais terrível.Sofrer
sede e escuridão. A canção dos presos dizia que lá fora é a liberdade e o sol. E
também a água, os rios correndo muito alvos sobre pedras, as cascatas caindo, o
grande mar misterioso. Professor, que sabe muitas coisas, porque à noite lê livros
furtados, à luz de uma vela (está comendo os olhos...) lhe disse certa vez que tem
mais água no mundo que terra. Tinha lido num livro. Mas nem um pingo de água na
sua cafua. Na de Dora não deve ter também. Para que esmurrar a porta como o faz
neste momento? Ninguém o atende, suas mãos já doem. Na véspera o surraram na
polícia. Suas costas estão negras, seu peito ferido, o rosto inchado. Por isso o diretor
disse que ele tinha cara de criminoso. Não tem, não. Ele quer é liberdade. Um dia
um velho disse que não se mudava o destino de ninguém. João de Adão disseque se
mudava, sim, ele acreditara em João de Adão. Seu pai morrera para mudar o destino
dos doqueiros. Quando ele sair, irá ser doqueiro também, lutar pela liberdade, pelo
sol, por água e de comer para todos. Cospe um cuspe grosso. A sede aperta sua
garganta. Pirulito quer ser padre para fugir daquele inferno. Padre José Pedro sabia
que o reformatório era assim, falava contra meterem os meninos lá. Mas que podia
um pobre padre sem paróquia contra todos? Porque todos odeiam os meninos
pobres, pensa Pedro Bala. Quando sair, pedirá à mãe-de-santo Don’Aninha que faça
um feitiço forte para matar o diretor. Ela tem força com Ogum, e ele uma vez tirara
Ogum da polícia. Fizera muita coisa para a sua idade. Dora também fizera muita
coisa naqueles meses entre eles. Agora passavam sede, Pedro Bala esmurra
inutilmente uma porta. A sede o rói por dentro como uma legião de ratos.Cai
enrodilhado no chão e o cansaço o vence. Apesar da sede, dorme. Mas tem sonhos
terríveis, ratos roem o rosto belo de Dora.
Acorda porque alguém bate pancadas leves num dos degraus da escada. Levanta-se
curvado, não pode ficar de pé direito, que a escada não consente. Pergunta em voz
baixa:
– Tem alguém aí?
Uma alegria doida o invade quando respondem:
– Quem é que tá aí?
– Pedro Bala.
– Tu é o chefe dos Capitães da Areia?
– Sou.
Ouve um assovio. A voz continua, agora rápida:
– Tenho um recado pra você, um trouxe hoje..
– Solta logo...
– Agora vem gente. Depois volto.
Pedro Bala ouve os passos que se afastam. Mas está mais alegre.
Pensa em seguida que o recado é de Dora, mas vê que é uma tolice pensar isso.
Como Dora havia de lhe enviar um recado? Deve ser um do grupo. Devem estar
tratando de tirá-lo dali. Mas primeiro é preciso que ele saia da cafua. Enquanto ele
estiver ali, os Capitães da Areia não poderão fazer nada. Depois que ele estiver
andando no reformatório todo, aí a fuga será fácil. Pedro Bala senta-se para pensar.
Que hora serão, que dia será? Ali é sempre noite, nunca brilha a luz do sol. Espera
impaciente que o seu informante volte. Porém este demora, ele se agita. Que estarão
fazendo os outros sem ele? Professor conceberá algum plano para o tirarem dali.Mas
enquanto ele estive na cafua é inútil. E enquanto não o tirarem, ele não poderá tirar
Dora do orfanato. Abrem a porta. Pedro Bala se atira para a frente, pensando que o
vão soltar. Uma mão o empurra:
– Ei, calma...
Vê o bedel Ranulfo na porta. Traz um caneco com água, que Pedro Bala arranca das
suas mãos e bebe em grandes goles. Mas é tão pouca... Não chega para matar a
sede.O bedel lhe entrega um prato de barro com uma água onde bóiam alguns
caroços de feijão. Pedro Bala pede:
– Pode me dar um pouco mais de água?
– Amanhã... – ri o bedel.
– Só um pouco mais.
– Amanhã tem mais. E se você continuar a bater na porta e gritar em vez de 8 passa
15 dias – empurra a porta na cara de Pedro Bala.
Ouve a chave que o tranca. Tateia na escuridão até encontrar o prato. Bebe a água
escura do feijão. Nem repara que é salgadíssima. Depois come os grãos duros.Mas a
sede o ataca novamente. O feijão muito salgado ativa a sede. O que é um caneco de
água para aquela sede que exigia uma moringa? Deita. Já não pensa em
nada.Passam-se horas. Ele apenas vê na escuridão o rosto triste de Dora. E sente
dores no corpo todo.
Muito mais tarde ouve novamente baterem na escada. Pergunta:
– Tá aí?
– Um capenga mandou dizer que vão te tirar daqui. Logo que tu saia da cafua...
– Já é de noite? – pergunta Pedro.
– Tá começando...
– Tou morto de sede.
A voz não responde. Pedro pensa com desespero que é capaz do menino ter ido
embora. No entanto, ele não ouviu passos na escada...
Mas volta a voz:
– Água não posso. Não tem como passar. Mas quer um cigarro?
– Quero, sim.
– Então espera.
Minutos depois as pancadas soam muito de leve na porta. A vi por debaixo da porta:
– Vou passar o cigarro por aqui. Ponha as mãos embaixo, bem no meio da greta da
porta.
Pedro Bala faz o que lhe mandam. Um cigarro amassado chega às suas mãos. Ele
acaba de o retirar de sob a porta. Logo depois é um fósforo que vem sobre um
pedaço de caixa, o pedaço onde se risca.
– Obrigado diz Pedro Bala.
Mas neste momento ouve um barulho lá fora. O som de uma bofetada, um corpo que
rola. E uma voz que ele não conhece fala:
– Se tentar se comunicar com os de fora, seu castigo será aumentado.
Pedro se encolhe. Agora um vai sofrer castigo por causa dele. Quando fugir, levará
aquele para os Capitães da Areia. Para o sol e liberdade. Acende o cigarro.Com
muito cuidado para não perder fósforo que é o único. Esconde a brasa do cigarro sob
a mão para que ninguém o possa ver pelas frestas da escada. O silêncio o envolve de
novo, e com o silêncio os pensamentos, as visões.
Quando termina de fumar, se enrodilha no chão. Se pudesse dormir... Pelo menos
não veria o rosto cheio de sofrimento de Dora.
Quantas horas? Quantos dias? A escuridão é sempre a mesma, a sede é sempre igual.
Já lhe trouxeram água e feijão três vezes. Aprendeu a não beber caldo de feijão, que
aumenta a sede. Agora está muito mais fraco, um desânimo no corpo todo. O barril
onde defeca exala um cheiro horrível. Não o retiraram ainda. E sua barriga dói, sofre
horrores para defecar. É como se as tripas fossem sair. As pernas não o ajudam. O
que o mantém em pé é o ódio que enche seu coração.
– Filhos da mãe... Desgraçados...
É tudo quanto consegue dizer. Assim mesmo, em voz baixa. Já não tem forças para
gritar, para esmurrar a porta. Agora está certo de que morrerá ali. Cada vez sofre
maiores dores para defecar. Vê Dora estendida no chão, morrendo de sede,
chamando por ele. João Grande está do lado dela, mas separado por grades.
Professore Pirulito choram.
Trouxeram-lhe água e feijão pela quarta vez. Ele bebe a água, mas demora a comer
o feijão. Só sabe dizer em voz baixa:
– Filhos da mãe... Filhos da mãe...
Antes que a comida se poderia chamar aquilo de comida? chegasse naquele dia para
Pedro era sempre noite, a voz voltou a chamá-lo na escada. Ele perguntou, sem se
levantar sequer:
– Quantos dias já tem que tou aqui?
– Cinco.
– Me dá outro cigarro.
O cigarro o reanima um pouco. Pode pensar que com mais cinco dias morrerá.
Aquilo é castigo para um homem, não para um menino. O ódio não cresce mais em
seu coração.Já atingiu o máximo.
É sempre noite. Dora morre lentamente ante suas vistas. João Grande ao seu lado, as
grades separando. Professor e Pirulito choram. Ele dorme ou está acordado?A
barriga dói violentamente.
Quanto tempo durará ainda a escuridão? E a agonia de Dora? O cheiro do barril é
insuportável. Dora agoniza ante seus olhos. Será que ele agoniza também?
A cara do diretor aparece ao lado do rosto de Dora. Vem torturar sua agonia ainda
mais? Quanto tempo ela leva para morrer... Pedro Bala pede que ela morra logo,
logo... Será melhor. Agora o direto veio, veio para aumentar a tortura. Ouve a voz
dele:
– Levanta... – e um pé o toca.
Abre mais os olhos. Agora não vê mais Dora. Só a cara do diretor que sorri:
– Vamos ver se agora fica mais manso.
Não pode fitar a claridade que entra pelas janelas. Mal se agüenta nas pernas. Cai no
meio do corredor. Dora teria morrido ou não? – pensa ao cair.
Está novamente na sala do diretor. Este o olha sorridente:
– Gostou do apartamento? Continua com muita vontade de roubar? Eu sei ensinar,
quebrar moleque aqui.
Pedro Bala está irreconhecível de tão magro. Os ossos aparecem junto à pele. O
rosto, verdoso da complicação intestinal. O bedel Fausto, dono daquela voz que ele
ouvira certa vez na porta da cafua, está ao seu lado. E um tipo forte, tem fama de ser
tão malvado quanto o diretor. Pergunta:
– Na oficina de ferreiro?
– Acho que é melhor na plantação de cana. Lavrar terra... – ri. Fausto diz que está
bem, o diretor recomenda:
– Olho nele. Este é um pássaro ruim. Mas eu te ensino...
Pedro Bala sustenta seu olhar. O bedel o empurra.
Agora vê detidamente o casarão. No meio do pátio o cabeleireiro raspa a sua cabeça
a zero. Vê a cabeleira loira rolar no chão. Dão-lhe umas calças e paletó de mescla
azul. Veste-se ali mesmo. O bedel leva o a uma oficina de ferreiro:
– Tem um facão? E uma foice?
Entrega os objetos a Pedro Bala. Marcham para o canavial, onde outros meninos
trabalham. Neste dia, de tão fraco, Pedro Bala mal sustém o facão. Por isso os bedéis
o soqueiam. Ele nada diz.
À noite, na fila, olha para todos, querendo descobrir aquele que lhe falava e dava
cigarros. Sobem as escadas, andam para o dormitório, que fica no terceiro andar para
impedir qualquer idéia de fuga. A porta é fechada. O bedel Fausto diz:
– Graça, puxe a reza.
Um menino avermelhado faz o pelo-sinal. Todos repetem as palavras e os gestos.
Depois é um padre-nosso e uma ave-maria, ditas com voz forte apesar do cansaço.
Pedro se joga na cama. Uma coberta suja o espera. Mudam a roupa de cama de 15
em 15 dias. E a roupa de cama é apenas uma coberta e uma fronha para um
travesseiro de pedra.
Já está dormindo quando alguém toca no seu ombro.
– Tu que é Pedro Bala, não é?
– Sim.
– Fui eu que trouxe o recado.
Pedro olha o mulato que está a seu lado. Pode ter dez anos:
– Eles têm voltado?
– Todo santo dia. Só quer saber quando tu sai da cafua.
– Diz que eu tou no canavial...
– Tu não quer comer um sacana hoje? Tem uns aqui, a gente de noite...
Tou morto de sono... Quanto tempo levei?
– Oito dias. Já morreu um ali.
O menino vai embora. Pedro nem perguntou seu nome. Tudo o que quer é dormir.
Mas os que andam para as camas dos pederastas fazem ruído. O bedel Fausto sai do
seu quarto de tabiques:
– Que barulho é esse?
Silêncio. Ele bate as mãos:
– Todos de pé.
Fita a todos:
– Ninguém sabe?
Silêncio. O bedel esfrega os olhos, anda entre as camas. Um enorme relógio dá dez
horas na parede.
– Ninguém diz?
Silêncio. O bedel range os dentes:
– Então ficarão todos uma hora de pé... Até as onze. E o primeiro que tentar deitar
vai pra cafua. Agora está desocupada...
Uma voz de menino corta o silêncio:
– Seu bedel...
É um pequeno, meio amarelento.
– Fale, Henrique.
– Eu sei...
Os olhos todos estão fitos nele. Fausto anima a delação:
– Diga o que sabe.
– Foi Jeremias, que ia pra cama de Berto fazer coisa feia.
– Seu Jeremias, seu Berto!
Os dois saem das suas camas.
– De pé na porta. Até meia-noite. Os outros podem deitar – olha mais uma vez a
todos. Os castigados estão de pé na porta.
Quando o bedel se recolhe, Jeremias ameaça Henrique. Os outros comentam. Pedro
Bala dorme.
No refeitório, enquanto bebiam o café aguado e mastigavam o bolachão duro, seu
vizinho de mesa fala:
– Tu é o chefe dos Capitães da Areia? – sua voz é baixíssima.
– Sou, sim.
– Vi teu retrato no jornal... Tu é um macho! Mas te acabaram – olha o rosto magro
de Bala.
Mastiga o bolachão. Continua:
– Tu vai ficar aqui?
– Vou arribar...
– Eu também. Tenho um plano... Quando eu bater asa, posso ir pra teu grupo?
– Pode.
– Onde fica o buraco?
Pedro Bala olha com desconfiança:
– Tu encontra a gente no Campo Grande toda tarde – Pensa que vou dizer?
O bedel Campos bate as mãos Todos se levantam. Dirigem-se para as diversas
oficinas ou para os terrenos cultivados.
Pelo meio da tarde Pedro Bala vê o Sem-Pernas que passa na estrada. Vê também
um bedel que o tange.
Castigos... Castigos... É a palavra que Pedro Bala mais ouve no reformatório. Por
qualquer coisa são espancados, por um nada são castigados. O ódio se acumula
dentro de todos eles.
No extremo do canavial passa um bilhete a Sem-Pernas. No outro dia encontra a
corda entre as moitas de cana. Com certeza a puseram durante a noite. É um rolo de
corda fina e resistente. Está novinha. No meio dela o punhal que Pedro mete nas
calças. A dificuldade é levar o rolo para o dormitório. Fugir durante o dia é
impossível, com a vigilância dos bedéis. Não pode levar o rolo entre a roupa, que
notariam.
De repente surge uma briga. Jeremias se joga sobre o bedel Fausto com o facão na
mão. Outros meninos se atiram também, mas vem um grupo de bedéis armados de
chicotes.Estão sujeitando Jeremias.
Pedro mete o rolo de corda debaixo do paletó, abre para o dormitório. Um bedel
vem descendo a escada com um revólver na mão. Pedro se esconde atrás de uma
porta.O bedel vem rápido, passa.
Empurra a corda para baixo do colchão, volta para o canavial. Jeremias foi levado
para a cafua. Os bedéis agora juntam os meninos. Ranulfo e Campos foram em
perseguição de Agostinho, que pulou a cerca na confusão da briga. O bedel Fausto,
com um talho no ombro, foi para a enfermaria. O diretor está entre eles, os olhos
fuzilando de raiva. Um bedel conta os meninos. Pergunta a Pedro Bala:
– Onde estava metido?
– Saí pra não me meter no barulho.
O bedel o olha desconfiado, mas passa.
Voltam Ranulfo e Campos com Agostinho. O fujão é surrado na vista de todos.
Depois o diretor diz:
– Metam-no na cafua.
– Já está Jeremias – fala Ranulfo.
– Ficam os dois. Assim podem conversar...
Pedro Bala se arrepia. Como irão ficar dois na pequenez da cafua?
Nesta noite a vigilância é grande, ele não tenta nada. Os meninos rangem os dentes
de raiva.
Duas noites depois, quando o bedel Fausto já tinha se recolhido há muito ao seu
quarto de tabiques e quando todos dormiam, Pedro Bala se levantou, tirou a corda de
sob o colchão. Sua cama ficava junto a uma janela. Abriu. Amarrou a corda num dos
armadores de rede que existiam na parede. Deixou que a corda caísse pela janela.Era
curta. Faltava ainda muito. Recolheu. Procurava fazer o menor barulho possível,
mas assim mesmo um dos seus vizinhos de cama acordou:
– Tu vai bater asa?
Aquele não tinha boa fama. Costumava delatar. Por isso mesmo fora colocado ao
lado de Pedro Bala. Bala puxou o punhal, mostrou a ele.
– Olha, xereta, trata de dormir. Se tu piar, eu te abro a garganta, palavra de Pedro
Bala. E se tu disser alguma coisa depois que eu sair... Tu já viu falar nos Capitães da
Areia?
– Já.
– Pois eles me vinga.
Põe o punhal ao alcance da mão. Recolhe completamente a corda, amarra o lençol
na ponta com um daqueles nós que o Querido-de-Deus lhe ensinou. Ameaça mais
uma vez o menino, joga a corda, passa o corpo pela janela, começa a descida. Ainda
no meio ouve os gritos denunciadores do delator. Se deixa escorregar pela corda,
salta ao chão. O pulo é grande, mas ele já salta correndo. Pula a cerca, após evitar os
cachorros policiais que estão soltos. Desaba pela estrada. Tem alguns minutos de
vantagem. O tempo dos bedéis se vestirem e saírem em sua perseguição e soltarem
os cachorros também. Pedro Bala prende o punhal nos dentes, tira a roupa. Assim os
cachorros não o conhecerão pelo faro. E nu, na madrugada fria, inicia a carreira para
o sol, para a liberdade.
Professor lê a manchete do Jornal da Tarde:
“O CHEFE DOS «CAPITÃES DA AREIA» CONSEGUE FUGIR DO
REFORMATÓRIO”
Trazia uma longa entrevista com o diretor furioso. Todo o trapiche ri. Até o padre
José Pedro, que está com eles, ri em gargalhadas, como se fosse um dos Capitães da
Areia.
Orfanato
Um mês de orfanato bastou para matar a alegria e a saúde de Dora. Nascera no
morro, infância em correrias no morro. Depois a liberdade das ruas da cidade, a vida
aventurosa dos Capitães da Areia. Não era uma flor de estufa. Amava o sol, a rua, a
liberdade.
Fizeram duas tranças do seu cabelo, amarraram com fitas. Fitas cor-de-rosa. Deramlhe
um vestido de pano azul, um avental de um azul mais escuro. Faziam com que
ela ouvisse aulas junto com meninas de cinco e seis anos. A comida era má, havia
castigo também.
Ficar em jejum, perder os recreios. Veio uma febre, ela esteve na enfermaria.
Quando voltou estava macilenta. Tinha sempre febre, mas não dizia nada, porque
odiava o silêncio da enfermaria, onde o sol não entrava e das as horas pareciam a
hora agonizante do crepúsculo. Quando podia, chegava perto das grades, porque por
vezes divisava Professor ou João Grande que rondavam por ali. Um dia lhe
passaram um bilhete. Pedro Bala fugira do reformatório. Viria tirá-la dali. Nem
sentiu a febre em que estava.
A visaram por intermédio de outro bilhete, que Professor escreveu e lhe jogou, que
ela arranjasse um meio de ir para a enfermaria. Mas nem foi preciso, porque uma
irmã notou o avermelhado das suas faces. Pôs a mão no seu rosto:
– Estás queimando de febre.
Era sempre crepúsculo na enfermaria. Era como uma ante-sala do túmulo, com as
pesadas cortinas que impediam a luz de entrar. O médico que a vira balançara a
cabeça com tristeza.
Mas a luz entrou com eles. Como Pedro Bala estava magro, pensou Dora ao se pôr
ao seu lado. João Grande, Gato, Professor, estavam com ele. Professor mostrou
anavalha à Irmã, que abafou um grito. A menina que estava com catapora na outra
cama tremia sob os lençóis. Dora queimava de febre, mal podia estar de pé. A Irmã
murmurou:
– Ela está muito doente...
Dora respondeu:
– Eu vou, Pedro.
Saíram pela porta. Volta Seca tinha o grande cachorro preso pela coleira. Tinham
trazido um pedaço de carne. Gato abriu o portão. Na rua disse:
– Foi canja...
Professor avisou:
– Vamos embora antes que alarmem.
Se atiraram por uma ladeira. Dora nem sentia a febre porque ia junto com Pedro
Bala, ele pegando na sua mão.
Volta Seca fechava a marcha, a mão no punhal, um sorriso no rosto sombrio.
Noite de Grande Paz
Os Capitães da Areia olham mãezinha Dora, a irmãzinha Dora, Dora noiva,
Professor vê Dora, sua amada. Os Capitães da Areia olham em silêncio. A mãe-desanto
Don’Aninha reza oração forte para a febre que consome Dora desaparecer.
Com um galho de sabugueiro manda que a febre se vá. Os olhos febris de Dora
sorriem. Parece que a grande paz da noite da Bahia está também nos seus olhos.
Os Capitães da Areia olham em silêncio sua mãe, irmã e noiva.
Mal a recuperaram, a febre a derrubou. Onde está a alegria dela, por que ela não
corre picula com seus filhinhos menores, não vai para a aventura das ruas com seus
irmãos negros, brancos e mulatos? Onde está a alegria dos olhos dela? Só uma
grande paz, a grande paz da noite. Porque Pedro Bala aperta sua mão com calor.
A paz da noite da Bahia não está no coração dos Capitães da Areia. Tremem com
receio de perder Dora. Mas a grande paz da noite está nos olhos dela. Olhos que se
fecham docemente, enquanto a mãe-de-santo Aninha enxota a febre que a devora.
A paz da noite envolve o trapiche.
Dora, Esposa
O cachorro late a lua na areia. Sem-Pernas sai do trapiche, acompanha Don’Aninha
através do areal. Ela disse que a febre não tardaria a ir embora. Pirulito sai também,
vai chamar o padre José Pedro. Tem confiança no padre, ele pode saber um remédio.
Dentro do trapiche os Capitães da Areia estão silenciosos. Dora pediu que eles
fossem dormir. Se deitaram pelo chão, mas são raros os que dormem. Na paz imensa
da noite pensam na febre que consome Dora. Ela beijou Zé Fuinha, mandou que ele
fosse dormir. Ele não compreende bem. Sabe que ela está doente, mas não pensa um
momento que ela o poderá abandonar.Mas os Capitães da Areia temem que isso
aconteça. Então ficarão novamente sem mãe, sem irmã, sem noiva.
Agora só João Grande e Pedro Bala estão a seu lado. O negro sorri, mas Dora sabe
que o sorriso dele é forçado, é um sorriso para a animar, um sorriso arrancado à
força da tristeza que o negro sente.
Pedro Bala segura sua mão. Mais retirado, Professor está dobrado sobre si mesmo, a
cabeça enterrada nas mãos.
Dora diz:
– Pedro?
– Que é?
– Chegue aqui.
Ele se aproxima. A voz dela é um fio de voz. Pedro fala com carinho:
– Tu quer alguma coisa?
– Tu gosta de mim?
– Tu bem sabe...
– Deita aqui.
Pedro deita ao seu lado. João Grande se afasta, chega para perto de Professor. Mas
não conversam, ficam entregues à sua tristeza. No entanto é uma noite de paz que
envolve o trapiche. E a paz da noite está também nos olhos doentes de Dora.
– Mais perto...
Ele se chega mais, os corpos estão juntos. Ela toma a mão dele, leva ao seu peito.
Arde de febre. A mão de Pedro está sobre seu seio de menina. Ela faz com que ele a
acaricie, diz:
– Tu sabe que já sou moça?
A mão dele pousada nos seus seios, os corpos juntos. Uma grande paz nos olhos
dela:
– Foi no orfanato... Agora posso ser tua mulher.
Ele a olha espantado:
– Não, que tu tá doente...
– Antes de eu morrer. Vem...
– Tu não vai morrer.
– Se tu vier, não.
Se abraçam. O desejo é abrupto e terrível. Pedro não a quer magoar, mas ela não
mostra sinais de dor. Uma grande paz em todo seu ser.
– Tu é minha agora fala ele com voz agitada.
Ela parecia não sentir a dor da posse. Seu rosto acendido pela febre se enche de
alegria. Agora a paz é só da noite, com Dora está a alegria. Os corpos se desunem.
Dora murmura:
– É bom... Sou tua mulher.
Ele a beija. A paz voltou ao rosto dela. Fita Pedro Bala com amor.
– Agora vou dormir – diz.
Deita ao lado dela, segura sua mão ardente. Esposa.
A paz da noite envolve os esposos. O amor é sempre doce e bom, mesmo quando a
morte está próxima. Os corpos não se balançam mais no ritmo do amor. Mas nos
corações dos dois meninos não há mais nenhum medo. Somente paz, a paz da noite
da Bahia.
Na madrugada, Pedro põe a mão na testa de Dora. Fria. Não tem mais pulso, o
coração não bate mais. O seu grito atravessa o trapiche, desperta os meninos. João
Grande a olha de olhos abertos. Diz a Pedro Bala:
– Tu não devia ter feito...
– Foi ela que quis – explica e sai para não rebentar em soluços.
Professor se chega, fica olhando. Não tem coragem de tocar no corpo dela. Mas
sente que para ele a vida do trapiche acabou, não lhe resta mais nada que fazer ali.
Pirulito entra com o padre José Pedro. O padre pega no pulso de Dora, bota a mão
na testa:
– Está morta.
Inicia uma oração. E quase todos rezam em voz alta.
– Padre nosso que estais no céu...
Pedro Bala se lembra das rezas à noite no reformatório. Seus ombros se encolhem,
tapa os ouvidos. Volta-se, vê o corpo de Dora. Pirulito pôs uma flor roxa entre seus
dedos. Pedro Bala rompe em soluços.
Veio a mãe-de-santo Don’Aninha, veio também o Querido-de-Deus. Pedro Bala não
toma parte da conversa. Aninha diz:
– Foi como uma sombra nesta vida. Vira santa na outra Zumbi dos Palmares é santo
dos candomblés de caboclo, Rosa Palmeirão também. Os homens e as mulheres
valentes viram santo dos negros...
– Foi como uma sombra... – repete João Grande.
Foi como uma sombra para todos, um acontecimento sem explicação. Menos para
Pedro Bala, que a teve. Menos para Professor que a amou.
Padre José Pedro fala – Vai pro céu, não tinha pecado. Não sabia o que era pecado...
Pirulito reza. Querido-de-Deus sabe o que esperam dele. Que leve o cadáver no seu
saveiro e o jogue no mar, adiante do forte velho. Como poderá sair um enterro do
trapiche? É difícil explicar tudo isso ao padre José Pedro. O Sem-Pernas o faz numa
voz apressada. O padre a princípio se horroriza. É um pecado, ele não pode
consentir num pecado. Mas consente, que não vai denunciar onde moram os
Capitães da Areia. Pedro Bala não fala.
Em torno é a paz da noite. Nos olhos mortos de Dora, olhos de mãe, de irmã, de
noiva e de esposa, há uma grande paz. Alguns meninos choram. Volta Seca e João
Grande vão levar o corpo. Mas, parado ante ele, está Pedro Bala, imóvel. Volta Seca
não pode estende as mãos. João Grande chora como uma mulher. Don’Aninha toma
do braço de Pedro, tira-o dali e envolve o corpo de Dora numa toalha branca de
rendas:
– Vai para Yemanjá – diz. – Ela também vira santo...
Mas ninguém pode levar o cadáver. Porque Pedro Bala está abraçado com ele, não o
larga. Professor o chama:
– Deixa. Eu também gostava dela. Agora...
Levam-na para a paz da noite, para o mistério do mar. O padre reza, é uma estranha
procissão que se dirige na noite para o saveiro do Querido-de-Deus. Do areal, Pedro
Bala vê o saveiro que se afasta. Morde as mãos, estende os braços.
Voltam para o trapiche. A vela branca do saveiro se perde no mar. A lua ilumina o
areal, as estrelas tanto estão no céu como no mar. Há uma paz na noite. Paz que veio
dos olhos de Dora.
Como uma estrela de loira cabeleira
Contam no cais da Bahia que quando morre um homem valente vira estrela no céu.
Assim foi com Zumbi, com Lucas da Feira, com Besouro, todos os negros
valentes.Mas nunca se viu um caso de uma mulher, por mais valente que fosse, virar
estrela depois de morta.
Algumas, como Rosa Palmeirão, como Maria Cabaçu, viraram santas nos
candomblés de caboclo. Nunca nenhuma virou estrela.
Pedro Bala se joga n’água. Não pode ficar no trapiche, entre os soluços e as
lamentações. Quer acompanhar Dora, quer ir com ela, se reunir a ela nas Terras do
Sem Fim de Yemanjá. Nada para diante sempre. Segue a rota do saveiro do
Querido-de-Deus. Nada, nada sempre. Vê Dora em sua frente, Dora, sua esposa, os
braços estendidos para ele. Nada até já não ter forças. Bóia então, os olhos voltados
para as estrelas e a grande lua amarela do céu. Que importa morrer quando se vai em
busca da amada, quando o amor nos espera?
Que importa tampouco que os astrônomos afirmem que foi um cometa que passou
sobre a Bahia naquela noite? O que Pedro Bala viu foi Dora feita estrela, indo para o
céu. Fora mais valente que todas mulheres, mais valente que Rosa Palmeirão, que
Maria Cabaçu. Tão valente que antes de morrer, mesmo sendo uma menina, se dera
ao seu amor. Por isso virou uma estrela no céu. Uma estrela de longa cabeleira loira,
uma estrela como nunca tivera nenhuma na noite de paz da Bahia.
A felicidade ilumina o rosto de Pedro Bala. Para ele veio também a paz da noite.
Porque agora sabe que ela brilhará para ele entre mil estrelas no céu sem igual da
cidade negra.
O saveiro do Querido-de-Deus o recolhe.
Canção da Bahia, canção da liberdade
Vocações
Não havia passado muito tempo sobre a morte de Dora, a imagem da sua presença
tão rápida e no entanto tão marcante, da sua morte também, ainda enchia de visões
as noites do trapiche. Alguns, quando entravam, todavia, olhavam para o canto onde
ela costumava sentar ao lado do Professor e de João Grande. Ainda com a esperança
de encontrá-la. Fora um acontecimento sem explicação. Fora o totalmente
inesperado na vida deles, o aparecimento de u’a mãe, de uma irmã. Motivo por que
eles ainda a procuravam, apesar de terem visto o Querido-de-Deus a levar no seu
saveiro para o fundo do mar. Só Pedro Bala não a procurava no trapiche. Procurava
ver, no céu de tanta estrela, uma que tivesse longa e loira cabeleira.
Um dia Professor entrou no trapiche e não acendeu sua vela, não abriu um livro de
histórias, não conversou. Para ele toda aquela vida tinha acabado desde que Dora
fora levada pela febre. Quando ela viera, enchera o trapiche com sua presença. Para
Professor tudo tinha uma nova significação. O trapiche ficara como a moldura de um
quadro: ora os cabelos loiros caindo sobre Gato, que via sua mãe, ora os lábios que
beijavam Zé Fuinha para ele dormir. Ou a boca que cantava cantigas de
ninar.Também sorrisos de orgulho para a coragem de Volta Seca, como se fosse
uma destemida mulata sertaneja. Ou a entrada no trapiche, os cabelos voando, o
rosto todo rindo, de volta da aventura do dia nas ruas da cidade. Ou os olhos cheios
de amor, a febre queimando seu rosto, as mãos chamando o amado para a posse
primeira e última. Agora Professor olhava o trapiche como para uma moldura sem
quadro. Inútil. Para ele deixara de ter significação, ou tinha uma significação terrível
demais. Mudara muito naqueles meses após a morte de Dora, andava calado, o rosto
sério, e entrara em relações com aquele senhor que certa vez, num passeio da rua
Chile, conversara com ele, lhe dera uma piteira e seu endereço.
Nesta noite Professor não acendeu vela, não abriu livro de história. Ficou calado
quando João Grande veio para seu lado. Arrumava suas coisas numa trouxa. Quase
tudo era livro. João Grande olhava sem dizer nada, mas compreendia muito, se bem
todos dissessem que não havia negro mais burro que o negrinho João Grande. Mas
quando Pedro Bala chegou e sentou também a seu lado e lhe ofereceu um cigarro,
Professor falou:
– Vou embora, Bala...
– Pra onde, mano?
Professor olhou o trapiche, os meninos que andavam, que riam, que se moviam
como sombras entre os ratos:
– Que adianta a vida da gente? Só pancada na polícia quando pegam a gente. Todo
mundo diz que um dia pode mudar... Padre José Pedro, João de Adão, tu mesmo.
Agora vou mudar a minha...
Pedro Bala não disse nada, mas a pergunta estava nos seus olhos. João Grande não
perguntava nada, compreendia tudo.
– Vou estudar com um pintor do Rio. Dr. Dantas, aquele da piteira, escreveu a ele,
mandou uns desenhos meus. Ele mandou dizer que me mandasse... Um dia vou
mostrar como é a vida da gente... Faço o retrato de todo mundo... Tu falou uma vez,
lembra? Pois faço...
A voz de Pedro Bala o animou:
– Tu também vai ajudar a mudar a vida da gente...
– Como? – fez João Grande.
Professor também não entendeu. Tampouco Pedro Bala sabia explicar. Mas tinha
confiança no Professor, nos quadros que ele faria na marca do ódio que ele levava
no coração, na marca de amor à justiça e à liberdade que ele levava dentro de si. Não
se vive inutilmente uma infância entre os Capitães da Areia. Mesmo quando depois
se vai se um artista e não um ladrão, assassino ou malandro. Mas Pedro Bala não
sabia explicar tudo isso. Apenas disse:
– A gente nunca te esquece, mano... Tu lia história para gente, era o mais batuta da
gente... O mais batuta...
Professor baixou a cabeça. João Grande se levantou, sua voz era um chamado, era
um grito de despedida também:
– Gentes! Gentes!
Vieram todos, ficaram em torno. João Grande estendeu os braços:
– Gentes, Professor vai embora. Vai ser um pintor no Rio de Janeiro. Gentes, viva
Professor!
O viva apertou o coração do menino. Olhou para o trapiche. Não era como um
quadro sem moldura. Era como a moldura de inúmeros quadros. Como quadros de
uma fita de cinema. Vida s de luta e de coragem. De miséria também. Uma vontade
de ficar. Mas que adiantava ficar? Se fosse, poderia ser de melhor ajuda. Mostraria
aquelas vidas... Apertam sua mão, o abraçam. Volta Seca está triste, tão triste como
se tivesse morrido um cangaceiro do grupo de Lampião.
Na noite do cais o homem da piteira, que era um poeta, entrega uma carta e dinheiro
a Professor:
– Ele o esperará no cais. Telegrafei. Espero que você não traia a confiança que
depositei no seu talento.
Nunca um passageiro de terceira teve tanta gente na sua despedida. Volta Seca lhe
dá um punhal de presente. Pedro Bala faz tudo para rir, para dizer coisas
gozadas.Mas João Grande não esconde a tristeza que vai dentro dele.
Professor ainda de longe vê o boné de Pedro, que se sacode no cais. E no meio
daqueles homens desconhecidos, oficiais fardados, comerciantes e senhoritas, fica
tímido, não sabe que fazer, sente que toda a sua coragem ficou com os Capitães da
Areia. Mas dentro do seu peito vem uma marca de amor à liberdade. Marca que o
faria abandonar o velho pintor que lhe ensina coisas acadêmicas para ir pintar por
sua conta quadros que, antes de admirar, espantam todo o país.
Passou o inverno, passou o verão, veio outro inverno, e este cheio de longas chuvas,
o vento não deixou de correr uma só noite areal. Agora Pirulito vendia jornais, fazia
trabalhos de engraxate, carregava bagagens dos viajantes. Conseguira deixar de
furtar para viver. Pedro Bata consentira que ele continuasse no trapiche, apesar que
ele não levava a mesma vida que os outros. Pedro Bala não entende o que vai dentro
de Pirulito. Sabe que ele quer ser padre, que quer fugir daquela vida. Mas acha que
aquilo não resolverá nada, não endireitará nada na vida de todos eles. O padre José
Pedro fazia tudo para mudar a vida deles. Mas era um só, os outros não achavam que
ele fizesse bem. Que tinha adiantado? Só todos unidos, como dizia João de Adão.
Mas Deus chamava Pirulito. Nas noites do trapiche o menino ouvia o chamado de
Deus. Era uma voz poderosa dentro dele. Uma voz poderosa como a voz do mar,
como a voz do vento que corre em torno ao casarão. Uma voz que não fala aos seus
ouvidos, que fala seu coração. Uma voz que o chama, que o alegra e o amedronta
mesmo tempo. Uma voz que exige tudo dele para lhe dar a felicidade a servir. Deus
o chama. E o chamado de Deus dentro de Pirulito é poderoso como a voz do vento,
como a voz potente do mar. Pirulito quer viver para Deus, inteiramente para Deus,
uma vida de recolhimento e de penitência, uma vida que o limpe dos pecados, que o
torne digno da contemplação de Deus. Deus o chama e Pirulito pensa na sua
salvação. Será um penitente, não olhará mais o espetáculo do mundo. Não quer ver
nada do que se passa no mundo para ter os olhos suficientemente limpos para
poderem ver a face de Deus. Porque para aqueles que não têm os olhos
completamente limpos de todo pecado, a face de Deus é terrível como o mar
enfurecido. Mas para que têm os olhos e o coração limpos de todo o pecado, a face
de Deus é mansa como as ondas do mar numa manhã de sol e de bonança.
Pirulito está marcado por Deus. Mas está marcado também pela vida dos Capitães da
Areia. Desiste da sua liberdade, de ver e ouvir o espetáculo do mundo, da marca de
aventura dos Capitães da Areia, para ouvir o chamado de Deus. Porque a voz de
Deus que fala no seu coração é tão poderosa que não tem comparação. Rezará pelos
Capitães da Areia na sua cela de penitente. Porque tem que ouvir e seguir a voz que
o chama. É uma voz que transfigura seu rosto na noite invernosa do trapiche.Como
se lá fora fosse a primavera.
Padre José Pedro foi chamado novamente ao arcebispado. Desta vez o Cônego está
acompanhado do superior dos Capuchinhos. Padre José Pedro treme, pensando que
novamente vão lhe ralhar, vão falar dos seus pecados. Fez uma coisa contra as leis
para ajudar os Capitães da Areia. Teme ter fracassado, porque em quase nada
conseguira melhorara vida deles. Mas em certos momentos cruéis levara um pouco
de conforto àqueles pequenos corações. E tinha Pirulito... Era uma conquista para
Deus. Se não fizera tudo, se não transformara como queria aquelas vidas, não tinha
perdido tudo também. Algo havia conseguido para Deus. Se alegrava, apesar da
tristeza do pouco que havia conseguido para os Capitães da Areia. Assim mesmo,
em certos momentos fora como a família que lhes faltava. Certas horas tinha sido
pai e mãe. Agora os chefes estavam já rapazes, quase homens. Professor já tinha ido
embora, outros não tardariam a ir. Mesmo que fossem ser ladrões, levar uma vida de
pecado, em certos momentos o padre conseguira minorar o espetáculo de miséria
das suas vidas com um pouco de conforto e de carinho. E de solidariedade.
Mas desta vez o Cônego não ralha. Anuncia que o arcebispado resolveu lhe dar uma
paróquia. Conclui:
– O senhor nos deu muito que fazer, padre, com suas idéias erradas acerca de
educação. Espero que a bondade do Sr. Arcebispo lhe dando esta paróquia fará com
que o senhor pense nas suas obrigações e desista dessas inovações soviéticas.
A paróquia nunca tivera cura porque o arcebispo nunca encontrara um padre que se
dispusesse a ir para o meio dos cangaceiros, numa perdida vila do alto sertão.Mas o
nome do lugarejo alegrou o coração do padre José Pedro. Ia para o meio dos
cangaceiros. E os cangaceiros são como crianças grandes. Agradeceu, ia falar, mas o
superior dos Capuchinhos o interrompeu:
– O Sr. Cônego me disse que entre estes meninos há um que tem vocação sacerdotal.
– Ia falar disso mesmo disse o padre. – Nunca vi uma vocação tão decidida.
O missionário sorriu:
– Porque nós estamos em falta de um irmão. Não é o mesmo que ser padre, bem sei.
Mas está muito próximo. E se a sua vocação verdadeira a ordem pode fazê-lo
estudar e mesmo se ordenar.
– Ele vai ficar louco de alegria.
– O senhor responde por ele?
Pirulito irá ser frade. Um dia talvez se ordene. O padre sai agradecendo a Deus.
Levam o padre à estação. O apito do trem é como um lamento. Estão ali vários dos
Capitães da Areia. Padre José Pedro os fita com amor. Pedro Bala diz:
– O senhor foi bom pra gente, padre. Um homem bom. A gente não vai esquecer o
senhor...
Não reconhecem Pirulito quando ele chega vestido com uma batina de frade, um
longo cordão pendendo ao lado. Padre José Pedro diz:
– Conhecem o irmão Francisco da Sagrada Família?
Eles olham Pirulito com certa vergonha. Mas Pirulito sorri. Está mais magro, um ar
de asceta. Com o hábito de capuchinho fica muito alto.
– Ele rezará por vocês... – diz o padre José Pedro.
Se despede. Entra para o vagão. O trem apita, é como uma despedida. Da janela, o
padre vê os meninos que agitam mãos e bonés, velhos chapéus, trapos que servem
de lenço. Uma velha que vai defronte dele, doidinha para puxar conversa, se espanta
do padre chorando.
Boa-Vida pouco aparece no trapiche. Tem um violão, faz sambas, está enorme, mais
um malandro nas ruas da Bahia. Ninguém tem uma vida igual à dos malandros.
Passa o dia conversando nas docas, no mercado, vai às festas dos morros e da
Cidade de Palha à noite, ou às macumbas. Toca seu violão, come e bebe do melhor,
apaixona as cabrochas bonitas com sua voz e sua música. Arma fuzuê nas festas e
quando a polícia o persegue vem se esconder no trapiche entre os Capitães da Areia.
Então toca para eles, ri com eles em gargalhadas como se ainda fosse um deles. Boa-
Vida vai se afastando aos poucos, à proporção que vai crescendo. Quando tiver
dezenove anos já não voltará. Será um malandro completo, um daqueles mulatos que
amam a Bahia acima de tudo, que fazem uma vida perfeita nas ruas da cidade.
Inimigo da riqueza e do trabalho, amigo das festas, da música, do corpo das
cabrochas. Malandro. Armador de fuzuês. Jogador de capoeira navalhista, ladrão
quando se fizer preciso. De bom coração, como canta um ABC que Boa-Vida faz
acerca de outro malandro. Prometendo às cabrochas se regenerar e ir para o trabalho,
sendo malandro sempre.Um dos valentões da cidade. Figura que os futuros Capitães
da Areia amarão e admirarão, como Boa-Vida amou e admirou o Querido-de-Deus.
Um dia, passado muito tempo, Pedro Bala ia com o Sem-Pernas pelas ruas.
Entraram numa igreja da Piedade, gostavam de ver as coisas de ouro, mesmo era
fácil bater uma bolsa de uma senhora que rezasse. Mas não havia nenhuma senhora
na igreja àquela hora. Somente um grupo de meninos pobres e um capuchinho que
lhes ensinava catecismo.
– É Pirulito... – disse Sem-Pernas.
Pedro Bala ficou olhando. Encolheu os ombros:
– Que adianta?
Sem-Pernas olhou:
– Não dá de comer...
– Um dia um vai ser padre também. Tem que ser é tudo junto.
Sem-Pernas disse:
– A bondade não basta.
Completou:
– Só o ódio...
Pirulito não os via. Com uma paciência e uma bondade extremas ensinava às
crianças buliçosas as lições de catecismo. Os dois Capitães da Areia saíram
balançando a cabeça. Pedro Bala botou a mão no ombro do Sem-Pernas.
– Nem o ódio, nem a bondade. Só a luta.
A voz bondosa de Pirulito atravessa a igreja. A voz de ódio do Sem-Pernas estava
junto de Pedro Bala. Mas ele não ouvia nenhuma. Ouvia era a voz de João de Adão,
o doqueiro, a voz de seu pai morrendo na luta.
Canção de amor da vitalina
Gato contou que a solteirona era cheia do dinheiro. Era a última de uma família rica,
andava pelos quarenta e cinco anos, feia e nervosa. Corna a notícia de que tinha uma
sala cheia de coisas de ouro, de brilhantes e jóias acumuladas pela família através de
gerações. Pedro Bala pensou que era uma coisa capaz de dar um bocado de dinheiro.
Gonzales, o dono da casa de penhor O 14, dava dinheiro por aqueles objetos.
Perguntou ao Sem-Pernas:
– Tu é capaz de penetrar?
– Se sou...
– Depois a gente invade.
Riram no trapiche. Gato saiu para ver Dalva. Sem-Pernas avisou:
– Amanhã de manhã vou lá.
A solteirona abriu a porta. Só tinha uma criada, uma negra velha, que parecia fazer
parte da herança, pois acompanhava a família há cinqüenta anos. A solteirona olhou
muito digna para o Sem-Pernas:
– Quer alguma coisa?
– Eu sou um pobre ódio e aleijado mostrava a perna coxa. – Não quero viver
furtando, nem pedindo esmola. A senhora tem um trabalho para mim? Posso fazer
compras.
A solteirona não tirava os olhos dele. Um menino... Não era a bondade que falava
dentro dela. Era a voz do sexo que dava seus últimos latidos. Dentro em pouco seu
sexo ficaria inútil, os médicos diziam que então o seu nervoso cessaria. Muito antes,
quando ainda era mocinha, houvera um menino na casa para fazer compras.Fora
bom... Mas seu irmão descobrira, expulsara o menino. Agora o irmão estava morto,
outro menino vinha pedir para fazer compras:
– Tá bem.
Mandou que ele tomasse banho. Pela tarde deu-lhe dinheiro para as compras e mais
para uma roupa para ele. Sem-Pernas conseguiu bater mil e duzentos nas
contas.Pensou:
– Aqui vou é fazer dinheiro...
Na cozinha a negra contava histórias antigas com sua língua embolada. Sem-Pernas
ouvia demonstrando excessivo interesse para ganhar confiança da negra. Mas
quando perguntou pelas coisas de ouro a negra não respondeu. Sem-Pernas não
insistiu. Sabia ser paciente, estava acostumado àquele trabalho. Na sala a solteirona
fazia ponto de cruz numa toalha, mirava Sem-Pernas com interesse, pela porta. Era
feia de cara, mas o corpo velhusco ainda tinha certo atrativo.
Chamou Sem-Pernas para ver o trabalho que ela estava fazendo, quando Sem-Pernas
olhou ela se curvou, ele viu os seios grandes. Mas não pensou que ela estivesse lhe
mostrando. Achou o trabalho muito bonito, disse:
– A senhora é muito inteligente...
Parecia até um menino bem-educado. Apesar da perna coxa e da cara feia, a
solteirona o achou lindo. Seria melhor que fosse um pouco menos crescido. Mas
assim mesmo... Novamente se curvou, mostrou os seios ao Sem-Pernas. Sem-Pernas
desviou o olhar, não pensava que fosse de propósito. Quando ele elogiou novamente
o trabalho, ela passou a mão no seu rosto:
– Obrigada, meu filho sua voz era lânguida.
A negra botou um colchão na sala de jantar para o Sem-Pernas dormir. Cobriu com
um lençol, arranjou um travesseiro. A solteirona conversava na casa de uma amiga,
na mesma rua, e quando voltou Sem-Pernas já estava deitado. Ouviu que ela se
despedia de alguém:
– Desculpe este trabalho de trazer uma vitalina pra casa.
– Dona Joana, não diga isso...
Entrou, trancou a porta da rua, tirou a chave. A negra já tinha ido dormir no quarto
junto da cozinha. A solteirona veio até a sala de jantar, deu uma espiada em Sem-
Pernas, que fez que estava dormindo. Suspirou. Marchou para seu quarto.
As luzes estavam todas apagadas na casa. Apesar de ser muito cedo em relação à
hora em que dormiam no trapiche, Sem-Pernas se entregou ao sono.
Por isso não sabe a que horas a vitalina veio. Sentiu foi uma mão que passava em
seus cabelos. Pensou que fosse um sonho bom. A mão deslizava, passava no seu
peito, na sua barriga, agora segurava de manso no seu sexo. Sem-Pernas despertou
completamente, mas ficou de olhos fechados. A solteirona machucava seu sexo, se
encostava contra ele. Estava de camisa de dormir, suspendeu a camisa, botou a mão
de Sem-Pernas no seu corpo, Sem-Pernas se encostou nela. Quis falar, ela pôs a mão
na sua boca, apontou para a cozinha:
– Pode ouvir...
Disse ainda mais baixo:
– Tu vai ser bom para mim, não vai?
Se apertava contra ele. Puxou as calças do Sem-Pernas. Depois se cobriram com o
lençol. Mas quando Sem-Pernas quis tudo, ela disse:
– Não. Só em cima.
Era uma coisa incompleta que enraivecia Sem-Pernas.
A solteirona gemia baixinho de amor. Apertava a cabeça do Sem-Pernas contra seus
seios enormes, o sexo dele contra suas coxas, a mão do menino no seu sexo.
Sem-Pernas levanta estremunhado. Um grande cansaço nos seus membros. Aquelas
noites são como batalhas. Nunca é um gozo completo, uma satisfação total. A
solteirona quer uma migalha de amor. Teme o amor completo, o escândalo de um
filho. Mas tem sede e fome de amor, quer nem que sejam as migalhas. Mas Sem-
Pernas quer fazer o amor completo, aquilo o irrita, faz crescer seu ódio. Ao mesmo
tempo se sente preso ao corpo da solteirona, às carícias a meio, trocadas na noite.
Uma coisa o retém naquela casa. Se bem ao acordar tenha ódio de Joana, uma raiva
impotente, uma vontade de a estrangular já que não a pode possuir totalmente, se a
acha feia e velha, quando a noite se acerca fica nervoso pelos carinhos da vitalina,
pela mão que movimenta seu sexo de menino, pelos seus seios onde repousa a
cabeça, pelas suas coxas grossas. Imagina planos para a possuir, mas a solteirona os
frustra, fugindo no último momento, e ralha com ele em voz baixa. Uma raiva surda
possui Sem-Pernas.Mas a mão dela vem de novo para seu sexo e ele não pode lutar
contra o desejo. E volta àquela luta tremenda da qual sai nervoso e esgotado.
Durante o dia responde mal a Joana, diz brutalidades, a solteirona chora. Ele a
chama de vitalina, diz que vai embora. Ela lhe dá dinheiro, pede que ele fique. Mas
não é pelo dinheiro que ele fica. Fica porque o desejo o retém. Já sabe qual a chave
que abre a sala onde Joana guarda seus objetos de ouro. Sabe como tirar a chave
para levá-la aos Capitães da Areia. Mas o desejo o retém ali, junto dos seios e das
coxas da vitalina. Junto da mão da vitalina.Fora sempre infeliz para o lado de
mulher. Quando conseguia uma negrinha no areal era com a ajuda dos outros, era à
força. Nenhuma olhava para ele, convidando com os olhos. Outros eram feios, mas
ele era repulsivo com a perna coxa, andando feito caranguejo. Demais terminara por
se fazer antipático e a se acostumara possuir negrinhas a pulso. Agora vinha uma
mulher branca e com dinheiro, velha e feiúsca era verdade, mas bem comível ainda,
e se deitava com ele. Acariciava seu sexo com a mão, juntava coxa com coxa,
deitava sua cabeça nos seus seios grandes. Sem-Pernas não podia sair dali, se bem
cada dia estivesse mais bruto e mais inquieto.Seu desejo reclamava uma posse
completa. Mas a vitalina se contentava em colher migalhas do amor.
Sem-Pernas durante o dia a odeia, se odeia, odeia o mundo todo.
Pedro Bala reclamou a demora. Já era tempo do Sem-Pernas saber os segredos da
casa. Sem-Pernas diz que sim, que não demora mais. E naquela noite a batalha de
amor é mais forte ainda. A solteirona geme de amor, recolhendo as migalhas do
amor. Mas não cede a sua honra. Isso dá coragem ao Sem-Pernas para no outro dia
arribar com a chave.
A vitalina o espera para o amor. Está como uma esposa a quem o marido
abandonasse. Chora e se lastima. Seu amor não vem, ela também precisa de amor,
como todas essas moças que passam de vestidos bonitos na rua.
Mas o roubo a enfurece. Porque pensa que Sem-Pernas só amou nas noites longas de
vícios para a furtar. Sua sede de amor humilhada. É como se houvessem cuspido na
sua cara, dizendo que era por causa da sua feiúra. Chora, não geme mais uma canção
de amor. Se sente com coragem para estrangular o Sem-Pernas se
encontrasse.Porque burlaram do seu amor, da sede de amor que está no seu sangue.
A sua desgraça é mais completa porque durante uma semana foi plenamente feliz
com as migalhas de amor. Rola no chão com um ataque.
No trapiche, Sem-Pernas ri, relatando sua aventura. Mas no fundo sabe que a
solteirona o fez ainda pior, aumentou com seus vícios o ódio que vivia latente no seu
coração. Agora um desejo insatisfeito enche suas noites. Um desejo que impede seu
sono, que lhe dá raiva.
Na rabada de um trem
Os navios chegam a Ilhéus carregados de mulheres. Mulheres que vêm da Bahia, de
Aracaju, o mulherio todo de Recife, mesmo do Rio de Janeiro. Os gordos coronéis
olham das pontes a chegada das mulheres. Morenas, loiras e mulatas, vêm em busca
deles. Porque a notícia da alta do cacau correu pelo país todo. A notícia de que numa
cidade relativamente pequena como Ilhéus estavam abertos quatro cabarés. Que os
coronéis queimavam nas noites de jogo e de champanha notas de quinhentos milréis.
Que pela madrugada saíam nus pelas ruas da cidade, formando o chamado terno
do Y. A notícia corria pelas ruas de mulheres perdidas. Os caixeiros-viajantes
levavam a notícia. O cabaré da Brama, em Aracaju, ficou despovoado de mulheres.
Foram para o El-Dorado, cabaré de Ilhéus. O mulherio de Recife desceu todo em
alguns navios do Lloyd Brasileiro. Os pernambucanos ficaram sem mulheres,
vieram todas para o cabaré Bataclan, apelidado pelos estudantes em férias de Escola.
Vieram algumas do Rio de Janeiro e estas foram para o Trianon, ex-Vesúvio, o mais
luxuoso dos quatro cabarés da cidade do cacau. Até Rita Tanajura, célebre pelas
grandes nádegas reboleantes, deixou a paz da sua cidade de Estância, onde era a
rainha do pequeno mulherio de vida fácil e onde se dava com todo mundo, e veio ser
a rainha do Far-West, o cabaré da rua do Sapo, onde os beijos e o estalo das garrafas
de champanha se misturavam com os tiros, com o barulho das brigas. Porque o Far-
West era o cabaré dos capatazes, dos pequenos fazendeiros de repente enriquecidos.
Na rua de Dalva, na zona das mulheres perdidas da Bahia, a casas se despovoaram.
Vieram mulheres para o Bataclan, mulheres para o El-Dorado, mulheres para o Far-
West.Umas poucas vieram para o Trianon, onde dançavam com os coronéis. No
Bataclan mulheres pernambucanas e sergipanas davam parte do dinheiro que
ganhavam dos coronéis, e que era muito, aos estudantes que em compensação lhes
davam o amor. Os viajantes enchiam o El-Dorado Até no Far-West as mulheres
ganhavam jóias. Por vezes ganhavam um tiro também, como uma estranha jóia
vermelha no peito. Rita Tanajura dançava o charleston em cima de uma mesa, entre
champanha e tiros. Tudo isso foi naquela alta do cacau de há muitos anos.
Quando Dalva soube que Isabel tinha colares e anel de brilhante e, no entanto, não
estava no Trianon, que era o mais luxuoso dos cabarés, estava era no Bataclan, não
resistiu. Arrumou as malas. O que não faria ela no Trianon, ela que era a melhor das
mulheres da sua rua Enfardou Gato com uma elegantíssima roupa de casimira feita
sol medida, de repente Gato não era mais um menino, era o mais jovem dos
vigaristas da Bahia.
Na noite que, envergando seu traje novo, sapatos negros de verniz, gravata
borboleta, chapéu de palhinha, apareceu no trapiche João Grande soltou uma
exclamação de assombro:
– Pois não é o Gato?
Gato não fizera ainda dezoito anos. Fazia quatro que amava Dalva. Virou para João
Grande:
– Agora vou começar a vida...
Ofereceu cigarros tirados de uma cigarreira cara, alisou o cabelo bem assentado.
Botou a mão no ombro de Pedro Bala:
– Mano, vou para Ilhéus. A patroa vai cavar a vida. Eu vou com ela. Sou capaz de
enricar. Quando tiver fazendeiro a gente vai faze uma farra daquelas.
Pedro sorriu. Era outro que ia. Não seriam meninos toda vida... Bem sabia que eles
nunca tinham parecido crianças. Desde pequenos na arriscada vida da rua, os
Capitães da Areia eram como homens eram iguais a homens. Toda a diferença
estava no tamanho. No mais eram iguais: amavam e derrubavam negras no areal
desde cedo furtavam para viver como os ladrões da cidade. Quando eram preso
apanhavam surras como os homens.Por vezes assaltavam de armas na mão como os
mais temidos bandidos da Bahia. Não tinham também conversas de meninos,
conversavam como homens. Sentiam mesmo como homens. Quando outras crianças
só se preocupavam com brincar, estudar livros para aprender a ler, eles se viam
envolvidos em acontecimentos que só os homens sabiam resolver. Sempre tinham
sido como homens, na sua vida de miséria e de aventura, nunca tinham sido
perfeitamente crianças. Porque o que faz a criança é o ambiente de casa, pai, mãe,
nenhuma responsabilidade. Nunca eles tiveram pai e mãe na vida da rua. E tiveram
sempre que cuidar de si mesmos, foram sempre os responsáveis por si. Tinham sido
sempre iguais a homens. Agora os mais velhos, os que eram desde há anos os chefes
do grupo, estavam rapazolas, começavam a ir para seus destinos.Professor já fora,
fazia quadros no Rio de Janeiro. Boa-Vida se desligara aos poucos do trapiche, toca
violão nas festas, vai aos candomblés, arma fuzuê nas quermesses. É mais um
malandro na cidade. Seu nome já é conhecido até nos jornais. Como os outros
vagabundos, é conhecido pelos investigadores de polícia, que sempre estão de olho
nos malandros. Pirulito é frade num convento, Deus o chamou, nunca mais saberão
dele. Agora é o Gato que parte, vai arrancar dinheiro dos coronéis de Ilhéus.O
Querido-de-Deus certa vez disse que Gato enricaria. Porque a vida na rua, no
abandono, fez de Gato um jogador desonesto, um vigarista, um gigolô de mulheres.
Não demorará que os outros partam. Só Pedro Bala não sabe o que fazer. Dentro em
pouco será mais que um rapazola, será um homem e terá que deixar para outro a
chefia dos Capitães da Areia. Para onde irá? Não poderá ser um intelectual como
Professor, cujas mãos só viviam para pintar, não nasceu para malandro, como Boa-
Vida, que não sente o espetáculo da luta diária dos homens, que só ama andar
vagabundando pelas ruas, conversar acocorado nas docas, beber nas festas de morro.
Pedro sente o espetáculo dos homens, acha que aquela liberdade não é suficiente
para a sede de liberdade que tem dentro de si. Tampouco sente o chamado de Deus,
como Pirulito o sentiu. Para ele as pregações do padre José Pedro nunca disseram
nada. Gostava do padre como de um homem bom. Só as palavras de João de Adão
encontravam acolhida no seu coração. Mas João de Adão mesmo sabe muito pouco.
O que tem é músculos potentes e voz autoritária, e no entanto amiga, para chefiar
uma greve. Tampouco Pedro Bala quer ir como Gato enganar os coronéis de Ilhéus,
arranca o dinheiro deles. Quer qualquer coisa que não sabe ainda o que é, e por isso
se demora entre os Capitães da Areia.
O trapiche grita se despedindo do Gato. Este sorri, elegantíssimo, alisando o cabelo,
no dedo aquele anelão cor de vinho que furtar certa vez.
Do cais Pedro Bala dá adeus ao Gato. Vestido com suas roupas esfarrapadas,
agitando o boné, se sente muito longe do Gato, que ao lado de Dalva parece um
homem feito com sua roupa bem talhada Pedro sente uma aflição, uma vontade de
fugir, de ir para qualquer parte num navio ou na rabada de um trem.
Mas quem vai na rabada de um trem é Volta Seca. Uma tarde a polícia o pegou
quando o mulato despojava um negociante da sua carteira. Volta Seca tinha então
dezesseis anos. Foi levado para a polícia, o surraram porque ele xingava todos,
soldados e delegados com aquele imenso desprezo que o sertanejo tem pela polícia.
Ele não soltou um grito enquanto apanhou. Oito dias depois o puseram na rua, e ele
saiu quase alegre, porque agora tinha uma missão na vida matar soldados de polícia.
Passou uns dias no trapiche, o rosto sombrio, afogado em pensamentos. O sertão o
chamava, a luta do cangaço o chamava. Um dia disse a Pedro Bala:
– Vou passar uns tempos com os Maloqueiros em Aracaju.
Os Índios Maloqueiros eram os Capitães da Areia em Aracaju. Viviam sob as
pontes, roubavam e brigavam nas ruas. O juiz de menores Olimpio Mendonça era
um homem bom, procurava resolver os conflitos como melhor podia, se abismava
com a inteligência das crianças iguais a homens, compreendia que era impossível
resolver o problema.Contava aos romancistas coisas dos meninos, no fundo amava
os meninos. Mas se sentia aflito porque não podia resolver o problema deles.
Quando entre os Índios Maloqueiros aparecia algum novo, ele já sabia que era um
baiano que tinha chegado na rabada de um trem. E quando um sumia, sabia que
tinha ido para entre os Capitães da Areia na Bahia.
Uma madrugada o trem de Sergipe apitou na estação da Calçada. Ninguém tinha
vindo trazer Volta Seca à estação porque ele ia para voltar, ia passar uns tempos
entre os Índios Maloqueiros, esquecer a polícia baiana, que o tinha marcado. Volta
Seca se meteu no vagão de carga que estava aberto, se escondeu entre uns fardos.
Aos poucos o trem abandona a estação. Depois é a estrada do sertão, Índia
Nordestina. Nas casas de barro aparecem mulheres e meninas. Os homens seminus
lavram a terra.Na estrada de animais que corre paralela à estrada de ferro passam
boiadas. Vaqueiros gritam tangendo os animais. Nas estações vendem doces de
milho, mingau, mungunzá, pamonha e canjica. O sertão vai entrando pelo nariz e
pelos olhos de Volta Seca. Queijos e rapaduras passam em tabuleiros nas pequenas
estações, as paisagens agrestes jamais esquecidas enchem novamente os olhos do
sertanejo. Estes muitos anos na cidade não tinham arrancado seu amor ao sertão
miserável e belo. Nunca fora um menino da cidade igual a Pedro Bala, a Boa-Vida,
ao Gato. Fora sempre um deslocado na cidade, com uma fala diferente, falando em
Lampião, dizendo meu padrim, imitando as vozes dos animais sertanejos.
Antigamente ele e sua mãe tinham um pedaço de terra. Ela era comadre de Lampião,
os coronéis respeitavam sua terra. Mas quando Lampião se internou pelo sertão de
Pernambuco os coronéis ficaram com a terra da mãe de Volta Seca. Ela desceu para
a cidade para pedir justiça. Morreu no caminho, Volta Seca continuou a caminhada
com seu rosto sombrio. Muita coisa aprendeu na cidade, entre os Capitães da Areia.
Aprendeu que não era só no sertão que os homens ricos eram ruins para com os
pobres.Na cidade, também. Aprendeu que as crianças pobres são desgraçadas em
toda parte, que os ricos perseguem e mandam em toda parte. Sorriu por vezes, mas
nunca deixou de odiar. Na figura de José Pedro descobriu o motivo por que Lampião
respeitava os padre s. Se já pensava que Lampião era um herói, a sua experiência na
cidade, o ódio adquirido na cidade, fez com que amasse a figura de seu padrinho
acima de tudo. Acima mesmo da de Pedro Bala.
Agora é o sertão. Perfume das flores do sertão. Campos amigos, aves amigas,
magros cachorros nas portas das casas. Velhos que parecem missionários indianos,
negros de longos rosários no pescoço.
Cheiro bom de comidas de milho e mandioca. Homens magros que lavram a terra
para ganhar mil e quinhentos dos donos da terra. Só caatinga é que é de todos,
porque Lampião libertou a caatinga expulsou os homens ricos da caatinga, fez da
caatinga a terra dos cangaceiros que lutam contra os fazendeiros. O herói Lampião,
herói de todo o sertão de cinco estados. Dizem que ele é um criminoso, um
cangaceiro sem coração, assassino, desonrador, ladrão. Mas para Volta Seca, para os
homens, as mulheres e as crianças do sertão é um novo Zumbi dos Palmares, ele é
um libertador, um capitão de um novo exército. Porque a liberdade é como o sol, o
bem maior do mundo. E Lampião luta, mata, deflora e furta pela liberdade. Pela
liberdade e pela justiça para os homens explorados do sertão imenso de cinco
estados: Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe e Bahia.
O sertão comove os olhos de Volta Seca. O trem não corre, este vai devagar,
cortando as terras do sertão. Aqui tudo é lírico, pobre e belo. Só a miséria dos
homens é terrível. Mas estes homens são tão fortes que conseguem criar beleza
dentro desta miséria. Que não farão quando Lampião libertar toda a caatinga,
implantar a justiça e a liberdade?
Passam violeiros, improvisadores de poesia. Passam vaqueiros que tangem o gado,
homens plantam mandioca e milho. Nas estações os coronéis descem para estirar as
pernas. Levam grandes revólveres. Os violeiros cegos cantam pedindo uma esmola.
Um negro de camisa e rosário atravessa essa a estação dizendo estranhas coisas em
língua desconhecida. Foi escravo, hoje é um doido na estação. Todos temem, temem
suas pragas. Porque ele sofreu muito, o chicote de feitor rasgou suas costas.
Também o chicote da polícia, feitor dos ricos, rasgou as costas de Volta Seca. Todos
o temerão um dia também.
Caatingas do sertão, olor das flores sertanejas, o manso andar do trem sertanejo.
Homens de alpercatas e chapéu de couro. Criança que estudam para cangaceiro na
escola da miséria e da exploração do homem.
O trem pára no meio da caatinga. Volta Seca pula fora do vagão. Os cangaceiros
apontam os fuzis, o caminhão que os trouxe está parado no outro lado da estrada, os
fios do telégrafo cortados. Na caatinga agreste não se vê ninguém. Uma moça
desmaia num dos carros, um caixeiro-viajante esconde a carteira com dinheiro.Um
coronel gordo sai do vagão, fala:
– Capitão Virgulino...
O cangaceiro de óculos aponta o fuzil:
– Para dentro.
Volta Seca pensa que seu coração vai estalar de alegria. Encontrou seu padrinho,
Virgulino Ferreira Lampião, herói das crianças sertanejas. Chega para junto dele, um
outro cangaceiro o quer afastar, mas ele diz:
– Meu padrim...
– Quem é tu?
– Sou Volta Seca, filho de tua comadre...
Lampião o reconhece, sorri. Os cangaceiros estão entrando nos vagões de primeira,
não são muitos, uns doze. Volta Seca pede:
– Meu padrim, deixe eu ficar com você... Me dê um fuzil.
– Tu ainda é um menino... – Lampião olha com seus óculos escuros.
– Não sou mais não, já briguei com soldado...
Lampião grita:
– Zé Baiano, dá um fuzil a Volta Seca...
Olha o afilhado:
– Tu guarda esta saída. Se um quiser arribar, mete fogo.
Entra para a coleta. Desmaios e gritos lá dentro, o soar de um disparo. Depois o
grupo volta para a estrada. Traz dois soldados de polícia que viajavam no
trem.Lampião divide dinheiro com os cangaceiros. Volta Seca também recebe. De
um vagão sai um fio de sangue. O cheiro bom do sertão penetra as narinas de volta
Seca.Os soldados são encostados numas árvores. Zé Baiano prepara o fuzil, mas a
voz de Volta Seca faz um pedido:
– Deixe pra mim, padrim. Eles me bateram na polícia, bateram em muito menino.
Levanta o fuzil, qual é o sertanejo que não tem boa pontaria?
Seu rosto sombrio tem um riso que o enche todo. Cai o primeiro, o segundo tenta
fugir, mas a bala o alcança nas costas Depois Volta Seca corre para cima dele com o
punhal, sacia sua vingança. Zé Baiano diz:
– Este menino é dos bons...
– A mãe dele era um bicho, minha comadre... – lembra Lampião orgulhoso.
– Uma verdadeira fera... – pensa o viajante enquanto o trem se move lentamente
após os empregados afastarem os toros de madeira de sobre os trilhos. O grupo de
cangaceiros se perde na caatinga. O ar do sertão enche o peito de Volta Seca, que
pára e com o punhal faz dois traços na madeira do fuzil. Os dois primeiros...Ao
longe o trem apita angustiosamente.
Como um trapezista de circo
Fora demasiada audácia atacar aquela casa da rua rui Barbosa. Perto dali, na praça
do Palácio, andavam muitos guardas, investigadores, soldados. Mas eles tinham
sede de aventura, estavam cada vez maiores, cada vez mais atrevidos. Porém havia
muita gente na casa, deram o alarme, os guardas chegaram. Pedro Bala e João
Grande abalaram pela ladeira da Praça. Barandão abriu no mundo também. Mas o
Sem-Pernas ficou encurralado na rua. Jogava picula com os guardas. Estes tinham se
despreocupado dos outros, pensavam que já era alguma coisa pegar aquele coxo.
Sem-Pernas corria de um lado para outro da rua, os guardas avançavam. Ele fez que
ia escapuli por outro lado, driblou um dos guardas, saiu pela ladeira. Mas em vez de
descer e tomar pela Baixa dos Sapateiros, se dirigiu para a praça do Palácio. Porque
Sem-Pernas sabia que se corresse na rua o pegariam com certeza. Eram homens, de
pernas maiores que as suas, e além do mais ele era coxo, pouco podia correr. E
acima de tudo não queria que o pegassem. Lembrava-se da vez que fora à polícia.
Dos sonhos das suas noites más. Não o pegariam e enquanto corre este é o único
pensamento que vai com ele. Os guardas vêm nos seus calcanhares. Sem-Pernas
sabe que eles gostarão de o pegar, que a captura de um dos Capitães da Areia é uma
bela façanha para um guarda. Essa será a sua vingança. Não deixará que o peguem,
não tocarão a mão no seu corpo. Sem-Pernas os odeia como odeia a todo mundo,
porque nunca pôde ter um carinho. E no dia que o teve foi obrigado ao abandonar
porque a vida já o tinha marcado demais. Nunca tivera uma alegria de criança.
Se fizera homem antes dos dez anos para lutar pela mais miserável das vidas: a vida
de criança abandonada. Nunca conseguira amar ninguém, a não ser a este cachorro
que o segue. Quando os corações das demais crianças ainda estão puros de
sentimentos, o do Sem-Pernas já estava cheio de ódio. Odiava a cidade, a vida, os
homens.Amava unicamente o seu ódio, sentimento que o fazia forte e corajoso
apesar do defeito físico. Uma vez uma mulher foi boa para ele. Mas em verdade não
o fora para ele e sim para o filho que perdera e que pensara que tinha voltado. De
outra feita outra mulher se deitara com ele numa cama, acariciara seu sexo, se
aproveitara dele para colher migalhas do amor que nunca tivera. Nunca, porém, o
tinham amado pelo que ele era, menino abandonado, aleijado e triste. Muita gente
tinha odiado.E ele odiara a todos. Apanhara na polícia, um homem ria quando o
surravam. Para ele é este homem que corre em sua perseguição na figura dos
guardas. Se o levarem, o homem rirá novo. Não o levarão. Vêm em seus
calcanhares, mas não o levarão. Pensam que elevai parar junto ao grande elevador.
Mas Sem-Pernas não pára. Sobe para o pequeno muro, volve o rosto para os guardas
que ainda correm, ri com toda a força do seu ódio, cospe na cara de um que se
aproxima estendendo os braços, se atira de costas no espaço como se fosse um
trapezista de circo.
A praça toda fica em suspenso por um momento. Se jogou, diz uma mulher, e
desmaia. Sem-Pernas se rebenta na montanha como um trapezista de circo que não
tivesse alcançado o outro trapézio. O cachorro late entre as grades do muro.
Notícias de jornal
O Jornal da Tarde publica um telegrama do rio dando conta do sucesso da
exposição de um jovem pintor até então desconhecido. Dias depois transcreve uma
crítica de arte publicada também num jornal do Rio de Janeiro. Porque o pintor é
baiano, e o Jornal da Tarde é muito cioso das glórias baianas. Um trecho da crítica
de arte, após falar das qualidades e defeitos do novo pintor social, de usar e abusar
de expressões como clima, luz, cor, ângulos, força e outras mais, diz:... um detalhe
notaram todos que foram estranha exposição de cenas e retratos de meninos pobres.
É que todos os sentimentos bons estão sempre representados na figura de uma
menina magra de cabelos loiros e faces febris. E que todos os sentimentos maus
estão representados por um homem de sobretudo negro e um ar de viajante. Que
representará para um psicanalista a repetição quase inconsciente destas figuras em
todos os quadros? Sabe-se que o pintor João José tem uma história...
E continuava o abuso das palavras cor, força, clima, luz, ângulos e outras mais
complicadas.
Meses depois uma notícia informava aos leitores do Jornal da Tarde, sob o título de
PRESENTE DE GREGO
A POLÍCIA DE BELMONTE DEVOLVE O VIGARISTA GATO
que a polícia de Belmonte, havia recebido da policia de Ilhéus um verdadeiro
presente de grego. Um conhecido e jovem vigarista que atuava em Ilhéus com o
nome de °Gato ”, após ter abiscoitado bons cobres de muitos fazendeiros e
comerciantes, fora remetido para Belmonte. Lá continuava a passar contos do
vigário, em que era mestre. Conseguira vender uma imensidade de terras, ótimas
para o cultivo do cacau, a muitos fazendeiros. Quando estes foram ver as terras, não
eram mais que o leito sobre o qual corre o rio Cachoeira. A polícia de Belmonte
tinha conseguido deitar mão no temível vigarista e o remetia de volta para Ilhéus. Os
ilheenses são mais ricos que nós, terminava com certa ironia o correspondente que
assinava a notícia, podem sustentar com mais conforto o elegante Gato que os filhos
da bela Belmonte, a Princesa do Sul. Porque se Belmonte é a Princesa, Ilhéus é
muito justamente chamada a Rainha do Sul.
Entre fatos policiais sem importância o Jornal da Tarde noticiou um dia que um
malandro conhecido pelo nome de Boa-Vida armara um fuzuê tremendo numa festa
na Cidade de Palha, abrira a cabeça do dono da casa com uma garrafa de cerveja e
estava sendo procurado pela polícia.
Perto de um Natal o Jornal da Tarde apareceu com manchetes em tipos enormes.
Uma notícia de tanta sensação como aquela que fizera conhecida a história da
mulher que acompanhava o bando de Lampião, a amante do cangaceiro. Porque a
população dos cinco estados, de Bahia, Sergipe, Alagoas, Paraíba e Pernambuco,
vive com os olhos fitos em Lampião. Com ódio ou com amor, nunca com
indiferença. A manchete dizia em letras garrafais:
UMA CRIANÇA DE 16 ANOS NO GRUPO DE LAMPIÃO
Os tipos das letras dos títulos que encabeçavam a reportagem eram também
enormes:
É UM DOS MAIS TEMÍVEIS CANGACEIROS – TRINTA E CINCO
TRAÇOS NO SEU FUZIL – PERTENCEU AOS “CAPITÃES DA AREIA”
– A MORTE DE MACHADÃO DEVIDA A VOLTA SECA
A reportagem era extensa. Contava como as vilas saqueadas há algum tempo
vinham notando entre o bando de Lampião uma criança de uns dezesseis anos, que
levava o nome de Volta Seca. Apesar da sua idade, o jovem cangaceiro se fizera
temido em todo o sertão como um dos mais cruéis do grupo. Constava que seu fuzil
tinha trinta e cinco marcas. E cada marca num fuzil de cangaceiro representa um
homem morto. Depois vinha a história da morte de Machadão, um dos mais antigos
do grupo de Lampião.
Aconteceu que o grupo tinha pegado na estrada um velho sargento de polícia. E
Lampião o entregara a Volta Seca para que o despachasse. Volta Seca o despachara
devagarinho, à ponta de punhal, cortando os pedacinhos com visível satisfação. Fora
tanta a crueldade, que Machadão, horrorizado, levantou o fuzil para acabar com
Volta Seca. Mas antes que disparasse, Lampião, que tinha um grande orgulho de
Volta Seca, atirou em Machadão. Volta Seca continuara sua tarefa.
A notícia se estendia, narrando diversos outros crimes do cangaceiro de 16 anos.
Depois lembrava que entre os Capitães da Areia vivera um menino com o nome de
Volta Seca e que era possível que fosse o mesmo. Vinham então várias
considerações de ordem moral.
A edição se esgotou.
Meses depois a edição se esgotou novamente porque trazia a notícia da prisão de
Volta Seca, enquanto dormia, executada pela coluna volante que percorria o sertão
dando caça a Lampião. Anunciava que o cangaceiro chegaria no outro dia à Bahia.
Vinham vários clichês onde Volta Seca aparecia com seu rosto sombrio. O Jornal da
Tarde dizia que era rosto de criminoso nato.
O que não era verdade, como o próprio Jornal da Tarde noticiou tempos depois, ao
relatar em edições extraordinárias e sucessivas o júri que condenou Volta Seca a 30
anos de prisão por 15 mortes conhecidas e provadas. No entanto, seu fuzil tinha 60
marcas. E o jornal lembrava esse fato, repetindo que cada marca era um homem
morto. Mas publicava também parte do relatório do médico-legista, cavalheiro de
honestidade e cultura reconhecidas, já então um dos grandes sociólogos e etnógrafos
do país, relatório que provava que Volta Seca era um tipo absolutamente normal e
que se virara cangaceiro e matara tantos homens e com tamanha crueldade não fora
por vocação de nascença. Fora o ambiente... e vinham as devidas considerações
científicas.
O que aliás não despertou tanta curiosidade entre o público como a descrição de
belíssimo, vibrantíssimo e apaixonadíssimo discurso de doutor Promotor Público,
que fizera os jurados chorar, e até o próprio juiz tinha limpado as lágrimas, ao
descrever o doutor Promotor, com sublime força oratória, o sofrimento das vítimas
do feroz cangaceiro-menino.
O público ficou indignado porque Volta Seca não chorou durante o júri. Seu rosto
sombrio estava cheio de estranha calma.
Companheiros
Há um movimento novo na cidade. Pedro Bala sai do trapiche com João Grande e
Barandão. O cais está deserto, parece que todos o abandonaram. Somente soldados
de policia guardam os grandes armazéns. Não há descarga de navios neste dia.
Porque os estivadores, com João de Adão à frente, foram prestar solidariedade aos
condutores de bonde que estão em greve. Parece que há uma festa na cidade, mas
uma festa diferente de todas. Passam grupos de homens que conversam, os
automóveis cortam as ruas conduzindo gente para o trabalho, empregados no
comércio riem, a ladeira da Montanha está cheia de gente que sobe e desce, pois os
elevadores também estão parados.As marinetes vão entupidas, gente sobrando pelas
portas. Os grupos de grevistas passam silenciosos para a sede do sindicato, onde vão
ouvir a leitura do manifesto dos estivadores, que João de Adão conduz nas suas
mãos grandes. Na porta do sindicato grupos conversam, soldados montam guarda.
Pedro Bala anda com João Grande e Barandão pelas ruas. Diz:
– Tá bonito...
João Grande também sorri, o negrinho Barandão fala:
– Hoje vai ter fuzuê.
– Eu é que não queria ser condutor de bonde, nem motorneiro.
Ganha uma porcaria. Eles faz bem... – fala João Grande.
– Vamos espiar? – propõe Pedro Bala.
Vão para a porta do sindicato. Entram homens negros, mulatos, espanhóis e
portugueses. Vêem quando João de Adão e os outros estivadores saem entre vivas
dos operários das linhas de bonde. Eles vivam também. João Grande e Barandão
porque gostam do doqueiro João de Adão. Pedro Bala não só por isso como porque
acha bonito o espetáculo da greve, é como uma das mais belas aventuras dos
Capitães da Areia.
Um grupo de homens bem vestidos entra no sindicato. Da porta eles ouvem uma voz
que discursa, uma que interrompe: Vendido, amarelo.
– Tá bonito... – repete Pedro Bala.
Tem vontade de entrar, de se misturar com os grevistas, de gritar e lutar ao lado
deles.
A cidade dormiu cedo. A lua ilumina o céu, vem a voz de um negro do mar em
frente. Canta a amargura da sua vida desde que a amada se foi. No trapiche as
crianças já dormem. Até o negro João Grande ronca estirado na porta, o punhal ao
alcance da mão. Somente Pedro Bala vela, estirado na areia, olhando a lua, ouvindo
o negro que canta as saudades da sua mulata que partiu. O vento traz trechos soltos
da canção e ela faz com que Pedro Bala procure Dora no meio das estrelas do céu.
Ela também virou uma estrela, uma estranha estrela de longa cabeleira loira. Os
homens valentes têm uma estrela em lugar do coração. Mas nunca se ouviu falar de
uma mulher que tivesse no peito, como uma flor, uma estrela. As mulheres mais
valentes da terra e do mar da Bahia, quando morriam, viravam santas para os negros,
como os malandros que foram também muito valentes. Rosa Palmeirão virou santa
num candomblé de caboclo, rezam para ela orações em nagô, Maria Cabaçu é santa
nos candomblés de Itabuna, pois foi naquela cidade que ela mostrou sua coragem
primeiro. Eram duas mulheres grandes e fortes. De braços musculosos como
homens, como grevistas. Rosa Palmeirão era bonita, tinha o andar gingado de
marítima, era uma mulher do mar, certa vez teve um saveiro, cortou as ondas da
entrada da barra. Os homens do cais a amavam não só pela sua coragem, como pelo
seu corpo também. Maria Cabaçu era feia, mulata escura, filha de negro e índia,
grossa e zangada. Dava nos homens que a achavam feia. Mas se entregou toda a um
cearense amarelo e fraco que a amou como se ela fosse uma mulher bonita, de corpo
belo e olhos sensuais. Tinham sido valentes, viraram santas nos candomblés de
caboclo, que são candomblés que de quando em vez inventam novos santos, não têm
aquela pureza de rito dos candomblés nagôs dos negros. São candomblés dos
mulatos. Mas Dora fora mais valente que elas. Era apenas uma menina, vivera igual
a um dos Capitães da Areia, e todos sabem que um capitão da areia é igual a um
homem valente. Dora vivera com eles, fora mãe para todos eles. Mas fora irmã
também, correra com eles pelas ruas, invadira casas, batera carteiras, brigara com o
grupo de Ezequiel.Depois, para Pedro Bala, fora noiva e esposa, esposa quando a
febre a devorava, quando a morte já a rondava naquela noite de tanta paz. Paz que ia
dos olhos dela para a noite em torno. Estivera no orfanato, fugira dele, igual a Pedro
Bala fugindo do reformatório. Tivera coragem para morrer, consolando seus filhos,
irmãos, noivos e esposo que eram os Capitães da Areia. A mãe-de-santo
Don’Aninha a enrolara numa toalha branca, bordada como se fora para um santo. O
Querido-de-Deus a levara no seu saveiro para junto de Yemanjá. Padre José Pedro
rezava. Todos a queriam. Mas só Pedro Bala quis ir com ela. Professor fugiu do
trapiche porque não pôde mais suportar o casarão depois que ela partiu. Mas só
Pedro Bala se jogou n’água para seguir o destino de Dora, ir fazer com ela aquela
maravilhosa viagem que os valentes fazem com Yemanjá no fundo verde do mar.
Por isso só ele viu quando ela virou estrela e cruzou os céus. Ela veio só para ele,
com sua longa cabeleira loira. Brilhou sobre sua cabeça de quase afogado e suicida.
Deu-lhe novas forças, o saveiro do Querido-de-Deus que voltava o pôde recolher.
Agora olha o céu procurando a estrela de Dora. É uma estrela de longa cabeleira
loira, uma estrela como não existe nenhuma outra. Porque nunca existiu nenhuma
mulher como Dora, que era uma menina. A noite está cheia de estrelas que se
refletem no mar calmo. A voz do negro parece se dirigir às estrelas, como que há
pranto na sua voz cheia. Ele também procura a amada que fugiu na noite da Bahia.
Pedro Bala pensa que a estrela que é Dora talvez ande agora correndo sobre as ruas,
becos e ladeiras da cidade a procurá-lo.Talvez o pense numa aventura nas ladeiras.
Mas hoje não são os Capitães da Areia que estão metidos numa bela aventura. São
os condutores de bonde, negros fortes, mulatos risonhos, espanhóis e portugueses,
que vieram de terras distantes. São eles, que levantam os braços e gritam iguais aos
Capitães da Areia. A greve se soltou na cidade. É uma coisa bonita a greve, é a mais
bela das aventuras. Pedro Bala tem vontade de entrar na greve, de gritar com toda a
força do seu peito, de apartear os discursos. Seu pai fazia discursos numa greve, uma
bala o derrubou. Ele tem sangue de grevista. Demais a vida da rua o ensinou a amar
a liberdade.A canção daqueles presos dizia que a liberdade é como o sol: o bem
maior do mundo. Sabe que os grevistas lutam pela liberdade, por um pouco mais de
pão, por um pouco mais de liberdade. É como uma festa aquela luta.
Os vultos que se aproximam o fazem levantar desconfiado. Mas logo reconhece a
figura enorme do estivador João de Adão. Junto a ele vem um rapaz bem vestido,
mas com os cabelos despenteados. Pedro Bala tira o boné, fala para João de Adão:
– Tu hoje ganhou viva, hein?
João de Adão ri. Distende seus músculos, seu rosto está aberto num sorriso para o
chefe dos Capitães da Areia:
– Capitão Pedro, eu quero apresentar a tu o companheiro Alberto.
O rapaz estende a mão para Pedro Bala. O chefe dos Capitães da Areia limpa
primeiro sua mão no paletó rasgado, depois aperta a do estudante. João de Adão está
explicando:
– É um estudante da Faculdade, mas é um companheiro da gente.
Pedro Bala olha sem desconfiança. O estudante sorri:
– Já ouvi falar muito em você e em seu grupo. Você é um batuta...
– A gente é macho, sim responde Pedro Bala.
João de Adão se aproxima mais:
– Capitão, a gente tem que conversar com tu. Tem um assunto com tu. Um troço
sério. Aqui o companheiro Alberto...
– Vamos para dentro? – fala Pedro Bala.
Acordam João Grande ao passar. O negro olha com desconfiança o estudante, pensa
que é um polícia, levanta um pouco o punhal por detrás do braço. Só Pedro Bala vê
e fala:
– É um amigo de João de Adão. Vem com a gente, Grande.
Vão os quatro. Sentam num canto. Alguns dos Capitães da Areia acordam e espiam
o grupo. O estudante olha o trapiche, as crianças que dormem. Treme como se um
vento frio tivesse passado pelo seu corpo:
– Que horror!
Mas Pedro Bala está dizendo a João de Adão:
– Que coisa porreta a greve! Nunca vi coisa tão bonita. É como uma festa...
– A greve é a festa dos pobres... – diz o estudante.
A voz de Alberto é mansa e boa. Pedro Bala o escuta enlevado, como se fosse a voz
de um negro cantando uma canção no mar.
– Meu pai morreu numa greve, tu sabe? Pergunte a João de Adão, se está
duvidando...
– Foi uma morte bonita fala o estudante. – Ele foi um campeão da sua classe. Não
foi o Loiro?
O estudante sabe o nome de seu pai. Seu pai foi um campeão... Todos o conhecem.
Teve uma morte bonita, morreu numa greve, a greve é a festa dos pobres... Escuta a
voz do estudante:
– Você acha a greve bonita, Pedro?
– Companheiro, esse é um porreta diz João de Adão. – Tu não conhece os Capitães
da Areia nem Capitão Pedro... É um companheiro...
Companheiro... Companheiro... Pedro Bala acha a palavra mais bonita do mundo. O
estudante diz como Dora dizia a palavra irmão.
– Pois companheiro Pedro, a gente precisa de você e do seu grupo.
– Pra quê? – pergunta João Grande curioso.
Pedro Bala apresenta:– Este negro é João Grande, um negro bom. Quem for bom é
igual a João Grande, melhor não é...
Alberto estende a mão ao negro. João Grande fica um momento indeciso, não está
acostumado a apertos de mão. Mas logo aperta aquela mão, meio encabulado. O
estudante novamente diz:
– Vocês são uns batutas...
De repente, interessado, pergunta:
– É verdade que Volta Seca foi um de vocês?
– Um dia a gente tira ele da cadeia... – é a resposta de Bala. O estudante olha meio
espantado. Dá uma espiada pelo trapiche, João de Adão faz um sinal como que
lembrando: Eu não lhe dizia?
Pedro Bala quer conversar sobre a greve, saber o que querem dele:
– É pra greve que precisa da gente?
– Se for? – perguntou o estudante.
– Se for pra ajudar os grevistas, tou decidido. Pode contar com a gente... – levantase,
está um rapazola, o rosto disposto para a luta.
– Tu não vê... – começa a explicar João de Adão.
Mas cala, porque o estudante está falando:
– A greve está indo muito em ordem. Nós queremos fazer coisas com muita ordem,
porque assim venceremos e os operários conseguirão o aumento. Nós não queremos
armar barulho, queremos mostrar que os operários são capazes de disciplina. Uma
pena, pensa Pedro Bala, que ama os barulhos. Mas acontece que os diretores da
Companhia andam contratando fura-greves para trabalhar amanhã. Se os operários
dissolverem os grupos de furadores de greve, darão margem a que a polícia
intervenha e está todo o trabalho perdido.
Então o companheiro João de Adão lembrou de vocês...
– Pra debandar os fura-greve? Tá certo – diz Bala alegríssimo O estudante pensa na
discussão daquela noite na organização. Quando João de Adão fizera a proposta de
chamar os Capitães da Areia, muitos companheiros tinham se declarado contra.
Sorriam da idéia. João de Adão só dizia:
– Vocês não conhece os Capitães da Areia.
Aquilo, aquela confiança, impressionara Alberto e alguns outros. Por fim a idéia
venceu, não perderiam nada em tentar. Agora está satisfeito de ter vindo. E na sua
cabeça já fazia planos para aproveitar na luta os Capitães da Areia. Para quanta coisa
não serviriam aqueles meninos esfomeados e mal vestidos? Lembrava-se de outros
exemplos, da luta antifascista na Itália, os meninos de Lusso. Sorria para Pedro Bala.
Explicou o plano: os furadores de greve viriam pela madrugada para os três grandes
depósitos de bondes para tomar conta dos carros. Os Capitães da Areia deviam se
dividir em três grupos, guardar as entradas dos três depósitos.E impedir, fosse como
fosse, que os furadores de greve conseguissem botar os bondes em marcha. Pedro
Bala assentia com a cabeça. Virou para João de Adão:
– Se Sem-Pernas tivesse vivo e Gato tivesse aqui...
Depois se lembra de Professor:
– Professor inventava um plano bom num minuto... Depois fazia um desenho da
briga. Agora tá no Rio.
– Quem é? – pergunta o estudante.
– Um chamado João José, que a gente tratava de Professor. Agora tá pintando
quadro no Rio.
– É o pintor João José?
Esse mesmo – fez Bala.
– Eu sempre pensei que fosse lenda essa história. Sabe que ele é um companheiro
bom?
– Sempre foi um companheiro bom disse Pedro Bala com força.
O estudante fazia planos sobre os Capitães da Areia. Agora Pedro Bala acordava
todos e explicava o que tinham que fazer. O estudante estava entusiasmado com as
palavras do moleque. Quando terminou de explicar, Bala resumiu tudo nestas
palavras:
– A greve é a festa dos pobres. Os pobres é tudo companheiro, companheiro da
gente.
– Você é um batuta disse o estudante.
– Vai ver como a gente acaba com os traidor.
Explicava a Alberto:
– Eu vou com um grupo pro depósito maior. João Grande vai com outro. Barandão
com o terceiro para o menor. Não entra ninguém. A gente sabe fazer. Tu vai ver...
– Eu estarei lá para ver fez o estudante. – Então, às quatro horas da madrugada?
– Tá certo.
O estudante faz um gesto.
– Até logo, companheiros...
Companheiros. Palavra bonita, pensa Pedro Bala. Ninguém dorme mais no trapiche
nesta noite. Preparam as mais diversas armas.
Na madrugada que nasce, as estrelas começam a desaparecer do céu. Mas Pedro
Bala parece ver numa estrela que corre a estrela de Dora que o alegra.
Companheira...Também ela tinha sido uma companheira boa. A palavra brinca na
sua boca, é a palavra mais bonita que ele já viu. Pedirá a Boa-Vida que faça um
samba dela, um samba para um negro cantar à noite no mar. Vão como se fossem
para uma festa. Armados com as mais diversas armas: navalhas, punhais pedaços de
pau. Vão para uma festa, porque a greve é a festa dos pobres, repete Pedro Bala para
si mesmo.
No pé da ladeira da Montanha se dividem em três grupos. João Grande chefia um,
Barandão vai com outro, o maior vai com Pedro Bala. Vão para uma festa. A
primeira festa verdadeira que têm aquelas crianças. Ainda assim é uma festa de
homens. Mas é uma festa dos pobres, dos pobres como eles.
A madrugada é fria. Na esquina do depósito, quando Pedro Bala está colocando os
meninos, Alberto se aproxima dele. Pedro se volta o rosto sorridente. O estudante
fala:
– Eles já vêm, companheiro.
– Espera pra ver.
Agora é o estudante quem sorri. Evidentemente está entusiasma do com os meninos.
Pedirá à organização para trabalhar com eles. Irão fazer muitas coisas juntos.
Os fura-greves vêm num grupo cerrado. Um americano o chefia com a cara fechada.
Se dirigem todos para a entrada. Da sombra, dos becos, ninguém sabe de onde,
como demônios fugidos do inferno, surgem meninos esfarrapados e de armas na
mão. Punhais, navalhas, paus. Tomam a porta, o grupo dos fura-greves pára. Logo
os demônios se atiram, é um bolo só. São em número maior que o grupo de furagreves.
Estes rolam com os golpes de capoeira, recebem pauladas, alguns já fogem.
Pedro Bala derruba o americano, com a ajuda de outro o soqueia.Os fura-greves
pensam que são demônios fugidos do inferno.
A gargalhada livre e grande dos Capitães da Areia ressoa na madrugada. A greve
não é furada.
Também João Grande e Barandão são vitoriosos. O estudante ri com eles a
gargalhada dos Capitães da Areia.
No trapiche diz para alegria dos meninos:
– Vocês são os mais batutas que eu já vi...
– Companheiros, companheiros diz João de Adão.
Diz o vento que passa, diz a voz do coração de Pedro Bala. É como a música de uma
canção cantada por um negro:
– Companheiros.
Os atabaques ressoam como clarins de guerra
Depois de terminada a greve o estudante continua a vir ao trapiche.Mantém longas
conversas com Pedro Bala, transforma os Capitães da Areia numa brigada de
choque.
Uma tarde Pedro Bala vai pela rua Chile, o boné desabado sobre os olhos,
assoviando, enquanto arrasta os pés no chão. Uma voz exclama:
– Bala!
Se volta. O Gato está elegantíssimo na sua frente. Uma pérola na gravata, um anel
no dedo mínimo, roupa azul, chapéu de feltro quebrado num jeito malandro:
– É tu, Gato?
– Vamos sair daqui.
Entram numa rua sem movimento. Gato explica que chegou de lá. Ilhéus há poucos
dias. Que arrancou um bocado de dinheiro de lá. Está um homem e todo perfumado
e elegante:
– Quase não te conheço... – diz Pedro Bala. – E Dalva?
– Ficou amigada com um coronel. Mas eu já tinha deixado ela. Agora tenho uma
moreninha do balacobaco...
– E aquele anelão que Sem-Pernas fazia troça?...
Gato ri:
– Empurrei por quinhentão num coronel cheio da nota... O bicho engoliu sem
gritar...
Conversam e riem. Gato pergunta notícia dos outros. Diz que no dia seguinte
embarcará para Aracaju com a morena, pois açúcar está dando dinheiro. Pedro Bala
o vê ir embora todo elegante. Pensa que se ele tivesse demorado mais algum tempo
no trapiche, talvez não fosse um ladrão. Aprenderia com Alberto, estudante, o que
ninguém soubera lhe ensinar. Aquilo que Professor como que adivinhara.
A revolução chama Pedro Bala como Deus chamava Pirulito nas noites do trapiche.
É uma voz poderosa dentro dele, poderosa como a voz do mar, como a voz do vento,
tão poderosa como uma voz sem comparação. Como a voz de um negro que canta
num saveiro o samba que Boa-Vida fez:
“Companheiros, chegou a hora...”
A voz o chama. Uma voz que o alegra, que faz bater seu coração. Ajudar a mudar o
destino de todos os pobres. Uma voz que atravessa a cidade, que parece vir dos
atabaques que ressoam nas macumbas da religião ilegal dos negros. Uma voz que
vem com o ruído dos bondes onde vão os condutores e motorneiros grevistas. Uma
voz que vem do cais, do peito dos estivadores, de João de Adão, de seu pai
morrendo num comício, dos marinheiros dos navios, dos saveiristas e dos canoeiros.
Uma voz que vem do grupo que joga a luta da capoeira, que vem dos golpes que o
Querido-de-Deus aplica. Uma voz que vem mesmo do padre José Pedro, padre
pobre de olhos espantados diante do destino terrível dos Capitães da Areia. Uma voz
que vem das filhas-de-santo do candomblé de Don’Aninha, na noite que a polícia
levou Ogum. Voz que vem do trapiche dos Capitães da Areia. Que vem do
reformatório e do orfanato. Que vem do ódio do Sem-Pernas se atirando do elevador
para não se entregar. Que vem no trem da Leste Brasileira, através do sertão, do
grupo de Lampião pedindo justiça para os sertanejos. Que vem de Alberto, o
estudante pedindo escolas e liberdade para a cultura. Que vem dos quadros de
Professor, onde meninos esfarrapados lutam naquela exposição da rua Chile. Que
vem de Boa-Vida e dos malandros da cidade, do bojo dos seus violões, dos sambas
tristes que eles cantam. Uma voz que vem de todos os pobres, do peito de todos os
pobres. Uma voz que diz uma palavra bonita de solidariedade, de amizade:
companheiros. Uma voz que convida para a festa da luta. Que é como um samba
alegre de negro, como ressoar dos atabaques nas macumbas. Voz que vem da
lembrança de Dora, valente lutadora. Voz que chama Pedro Bala. Como a voz de
Deus chamava Pirulito, a voz do ódio o Sem-Pernas, como a voz dos sertanejos
chamava Volta Seca para o grupo de Lampião. Voz poderosa como nenhuma outra.
Porque é uma voz que chama para lutar por todos, pelo destino de todos, sem
exceção. Voz poderosa como nenhuma outra. Voz que atravessa a cidade e vem de
todos os lados. Voz que traz com ela uma festa, que faz o inverno acabar lá fora e
ser a primavera. A primavera da luta. Voz que chama Pedro Bala, que o leva para a
luta. Voz que vem de todos os peitos esfomeados da cidade, de todos os peitos
explorados da cidade. Voz que traz o bem maior do mundo, bem que é igual ao sol,
mesmo maior que o sol: a liberdade. A cidade no dia de primavera é
deslumbradoramente bela. Uma voz de mulher canta a canção da Bahia. Canção da
beleza da Bahia. Cidade negra e velha, sinos de igreja, ruas calçadas de pedra.
Canção da Bahia que uma mulher canta. Dentro de Pedro Bala uma voz o chama:
voz que traz para a canção da Bahia, a canção da liberdade. Voz poderosa que o
chama. Voz de toda a cidade pobre da Bahia, voz da liberdade. A revolução chama
Pedro Bala.
Pedro Bata foi aceito na organização no mesmo dia em que João Grande embarcou
como marinheiro num navio cargueiro do Lóide. No cais dá adeus ao negro, que
parte para a sua primeira viagem. Mas não é um adeus como aqueles que dera aos
outros que partiram antes.
Não é mais um gesto de despedida. É um gesto de saudação ao companheiro que
parte:
– Adeus, companheiro.
Agora comanda uma brigada de choque formada pelos Capitães da Areia. O destino
deles mudou, tudo agora é diverso. Intervêm em comícios, em greves, em lutas
obreiras.O destino deles é outro. A luta mudou seus destinos.
Ordens vieram para a organização dos mais altos dirigentes. Que Alberto ficasse
com os Capitães da Areia e Pedro Bala fosse organizar os índios Maloqueiros de
Aracaju em brigada de choque também. E que depois continuasse a mudar o destino
das outras crianças abandonadas do país.
Pedro Bala entra no trapiche. A noite cobriu a cidade. A voz do negro canta no mar.
A estrela de Dora brilha quase tanto quanto a lua no céu mais lindo do mundo. Pedro
Bala entra, olha as crianças. Barandão vem para junto dele, agora tem 15 anos o
negrinho.
Pedro Bala olha. Estão deitados, alguns já dormem, outros conversam, fumam
cigarros, riem a grande gargalhada dos Capitães da Areia. Bala reúne a todos, bota
Barandão junto de si:
– Gentes, agora eu vou embora, vou deixar vocês. Vou embora, Barandão agora fica
o chefe. Alberto vem sempre ver vocês, vocês devem fazer o que ele diz. E todo
mundo ouça: Barandão agora é o chefe.
O negrinho Barandão fala:
– Gentes, Pedro Bala vai embora. Viva Pedro Bala!...
Os punhos dos Capitães da Areia se levantam fechados.
– Bala! Bala! – gritam numa despedida.
Os gritos enchem a noite, calam a voz do negro que canta no mar, estremecem o céu
de estrelas e o coração de Pedro. Punhos fechados de crianças que se
levantam.Bocas que gritam se despedindo do chefe: Ba1a! Bala!
Barandão está na frente de todos. Ele agora é o chefe. Pedro Bala parece ver Volta
Seca, Sem-Pernas, Gato, Professor, Pirulito, Boa-Vida, João Grande e Dora, todos
ao mesmo tempo entre eles. Agora o destino deles mudou. A voz do negro no mar
canta o samba de Boa-Vida:
“Companheiros, vamos pra luta...”
De punhos levantados, as crianças saúdam Pedro Bala, que parte para mudar o
destino de outras crianças. Barandão grita na frente de todos, ele agora é o novo
chefe.
De longe, Pedro Bala ainda vê os Capitães da Areia. Sob a lua, num velho trapiche
abandonado, eles levantam os braços. Estão em pé, o destino mudou.
Na noite misteriosa das macumbas os atabaques ressoam como clarins de guerra.
Uma Pátria e uma família
Anos depois os jornais de classe, pequenos jornais, dos quais vários não tinham
existência legal e se imprimiam em tipografias clandestinas, jornais que circulavam
nas fábricas, passados de mão em mão, e que eram lidos à luz de fifós, publicavam
sempre notícias sobre um militante proletário, o camarada Pedro Bala, que estava
perseguido pela policia de cinco estados como organizador de greves, como
dirigente de partidos ilegais, como perigoso inimigo da ordem estabelecida.
No ano em que todas as bocas foram impedidas de falar, no ano que foi todo ele uma
noite de terror, esses jornais únicas bocas que ainda falavam clamavam pela
liberdade de Pedro Bala, líder da sua classe, que se encontrava preso numa colônia.
E, no dia em que ele fugiu, em inúmeros lares, na hora pobre do jantar, rostos se
iluminaram ao saber da notícia. E, apesar de que fora era o terror, qualquer daqueles
lares era um lar que se abriria para Pedro Bala, fugitivo da polícia. Porque a
revolução é uma pátria e uma família.
Na casa mal-assombrada de Doninha Quaresma (existiam botijas
enterradas e a alma de Doninha), hoje do Capitão, na paz de Estância.
Sergipe, março de 937.
A bordo do Rakuyo Maru, subindo a costa da América do pelo
Pacífico, em caminho do México, junho de 937.
FIM

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O Aluno (por ele mesmo)

O aluno não copia: compara resultados.O aluno não fala: troca opinões.O aluno não dorme: se concentra.O aluno não se distrai: examina as moscas.O aluno não falta na escola: é solicitado em outros lugares.O aluno não diz besteiras: desabafa.O aluno não masca chiclete: fortalece a mandíbula.O aluno não lê revistas na sala: se informa.O aluno não destrói o colégio: decora a escola segundo seu gosto.
(BRINCADEIRINHA!!!!!!!!)