segunda-feira, 6 de abril de 2009

OS MAIAS PARTE 2 (EÇA DE QUEIRÓS)

Capítulo VI
Carlos, nessa manhã, ia visitar de surpresa a casa do Ega, a famosa «Vila Balzac», que esse fantasista andara meditando e dispondo desde a sua chegada a Lisboa, e onde se tinha enfim instalado.
Ega dera-lhe esta denominação literária, pelos mesmos motivos porque a alugara num subúrbio longínquo, na solidão da Penha de França, - para que o nome de Balzac, seu padroeiro, o silêncio campestre, os ares limpos, tudo ali fosse favorável ao estudo, ás horas de arte e de ideal. Por que ia fechar-se lá, como num claustro de letras, a findar as Memórias dum Átomo! Somente, por causa das distâncias, tinha tomado ao mês um coupé da companhia.
Carlos teve dificuldades em encontrar a «Vila Balzac»: não era, como tinha dito Ega no Ramalhete, logo adiante do largo da Graça um chaletsinho retirado, fresco, assombreado, sorrindo entre árvores. Passava-se primeiro a Cruz dos Quatro Caminhos; depois penetrava-se numa vereda larga, entre quintais, descendo pelo pendor da colina, mas acessível a carruagens; e aí, num recanto, ladeada de muros, aparecia enfim uma casota de paredes enxovalhadas, com dois degraus de pedra à porta, e transparentes novos dum escarlate estridente.
Nessa manhã, porém, debalde Carlos deu puxões desesperados à corda da campainha, martelou a aldraba da porta, gritou a toda a voz por cima do muro do quintal e das copas das árvores o nome do Ega: - a «Vila Balzac» permaneceu muda, como desabitada, no seu retiro rústico. E todavia pareceu a Carlos que, justamente antes de bater, ouvira o estalar de rolhas de Champagne.
Quando Ega soube esta tentativa, mostrou-se indignado com os criados, que assim abandonavam a casa, lhe davam um ar suspeito de Torre de Nesle...
- Vai lá amanhã, se ninguém responder, escala as janelas, pega fogo ao prédio, como se fossem apenas as Tulherias.
Mas no dia seguinte, quando Carlos chegou, já a «Vila Balzac» o esperava, toda em festa: à porta «o pajem», um garoto de feições horrivelmente viciosas, perfilava-se na sua jaqueta azul de botões de metal, com uma gravata muito branca e muito tesa; as duas janelas em cima, abertas, mostrando o reps verde das bambinelas, bebiam à larga todo o ar do campo e o sol de inverno: e no topo da estreita escada, tapetada de vermelho, Ega, num prodigioso robe-de-chambre, de um estofo adamascado do século dezoito, vestido de corte de alguma das suas avós, exclamou dobrando a fronte ao chão:
- Bem vindo, meu príncipe, ao humilde tugúrio do filósofo!
Ergueu, com um gesto rasgado, um reposteiro de reps verde, dum verde feio e triste, e introduziu o «príncipe» na sala onde tudo era verde também: o reps que recobria uma mobília de nogueira, o tecto de tabuado, as listas verticais do papel da parede, o pano franjado da mesa, e o reflexo dum espelho redondo, inclinado sobre o sofá.
Não havia um quadro, uma flor, um ornato, um livro - apenas sobre a jardineira uma estatueta de Napoleão I, de pé, equilibrado sobre o orbe terrestre, nessa conhecida atitude em que o herói, com um ar pançudo e fatal, esconde uma das mãos por traz das costas, e enterra a outra nas profundidades do seu colete. Ao lado uma garrafa de Champagne, encarapuçada de papel dourado, esperava entre dois copos esguios.
- Para que tens tu aqui Napoleão, John?
- Como alvo de injurias, disse Ega. Exercito-me sobre ele a falar dos tiranos...
Esfregou as mãos, radiante. Estava nessa manhã em alegria e em verve. E quis imediatamente mostrar a Carlos o seu quarto de cama: aí reinava um cretone de ramagens alvadias sobre fundo vermelho; e o leito enchia, esmagava tudo. Parecia ser o motivo, o centro da «Vila Balzac»; e nele se esgotara a imaginação artística do Ega. Era de madeira, baixo como um divã, com a barra alta, um roda-pé de renda, e de ambos os lados um luxo de tapetes de felpo escarlate; um largo cortinado de seda da índia avermelhada envolvia-o num aparato de tabernáculo; e dentro, à cabeceira, como num lupanar, reluzia um espelho.
Carlos, muito seriamente, aconselhou-lhe que tirasse o espelho. Ega deu a todo o leito um olhar silencioso e doce, e disse depois do passar uma pontinha de língua pelo beiço:
- Tem seu chic...
Sobre a mesinha de cabeceira erguia-se um montão de livros: a Educação de Spencer ao lado de Beaudelaire, a Lógica de Stuart Mil por cima do Cavaleiro da Casa Vermelha. No mármore da cómoda havia outra garrafa de Champagne entre dois copos; o toucador, um pouco em desordem, mostrava uma enorme caixa de pó de arroz no meio de plastrons e gravatas brancas do Ega, e um maço de ganchos do cabelo ao lado de ferros de frisar.
- E onde trabalhas tu, Ega, onde fazes tu a grande arte?
- Ali! disse o Ega, alegremente, apontando para o leito.
Mas foi mostrar logo o seu recantosinho estudioso, formado por um biombo, ao lado da janela, e tomado todo por uma mesa de pé de galo, onde Carlos assombrado descobriu, entre o belo papel de cartas do Ega, um Dicionário de Rimas...
E a visita à casa continuou.
Na sala de jantar, quasi nua, caiada de amarelo, um armário de pinho envidraçado abrigava melancolicamente um serviço barato de louça nova; e do fecho da janela pendia um vestuário vermelho, que parecia roupão de mulher.
- É sóbrio e simples - exclamou o Ega - como compete àquele que se alimenta duma côdea de Ideal e duas garfadas de Filosofia. Agora, à cozinha!...
Abriu uma porta. Uma frescura de campos entrava pelas janelas abertas; e entreviam-se árvores de quintal, um verde de terrenos vagos, depois lá em baixo o branco de casarias rebrilhando ao sol; uma rapariga muito sardenta e muito forte sacudiu o gato do colo, ergueu-se, com o Jornal de Noticias na mão. Ega apresentou-a, num tom de farsa:
- A Sr.ª Josefa, solteira, de temperamento sanguíneo, artista culinária da «Vila Balzac», e como se pode observar pelo papel que lhe pende das garras, cultora das boas letras!
A moça sorria, sem embaraço, habituada de certo a estas familiaridades boémias.
- Eu hoje não janto cá, senhora Josefa, continuava o Ega no mesmo tom. Este formoso mancebo que me acompanha, duque do Ramalhete, e príncipe de Santa Olavia, dá hoje de papar ao seu amigo e filósofo... E, como quando eu recolher, talvez a senhora Josefa esteja entregue ao sono da inocência, ou à vigília da devassidão, aqui lhe ordeno que me tenha amanhã para meu lunch duas formosas perdizes.
E subitamente, numa outra voz, com um olhar que ela devia perceber:
- Duas perdisesinhas bem assadas e bem coradinhas. Frias, está claro... O costume.
Travou do braço de Carlos, voltaram à sala.
- Com franqueza, Carlos, que te parece a «Vila Balzac»?
Carlos respondeu como a respeito do episódio da Hebrea:
- Está ardente.
Mas elogiou o asseio, a vista da casa e a frescura dos cretones. De resto, para um rapaz, para uma cela de trabalho...
- Eu, dizia o Ega, passeando pela sala, com as mãos enterradas nos bolsos do seu prodigioso robe de chambre, eu não tolero o bibelot, o bric-à-brac, a cadeira arqueológica, essas mobílias de arte... Que diabo, o móvel deve estar em harmonia com a ideia e o sentir do homem que o usa! Eu não penso, nem sinto como um cavaleiro do século XVI, para que me hei de cercar de coisas do século XVI? Não há nada que me faça tanta melancolia, como ver numa sala um venerável contador do tempo de Francisco I recebendo pela face conversas sobre eleições e altas de fundos. Faz-me o efeito dum belo herói de armadura de aço, viseira caída e crenças profundas no peito, sentado a uma mesa de voltarete a jogar copas. Cada século tem o seu génio próprio e a sua atitude própria. O século XIX concebeu a Democracia e a sua atitude é esta... - E enterrando-se de estalo numa poltrona, espetou as pernas magras para o ar. - Ora esta atitude é impossível num escabelo do tempo do Prior do Crato. Menino, toca a beber o Champagne.
E como Carlos olhava a garrafa desconfiado, Ega acudiu:
- É excelente, que pensas tu? Vem directamente da melhor casa de Epernay, arranjou-mo o Jacob.
- Que Jacob?
- O Jacob Cohen, o Jacob.
Ia cortar as guitas da rolha, quando o atravessou uma súbita recordação, e pousando a garrafa outra vez, entalando o monóculo no olho:
- É verdade! Então, noutro dia, que tal, em casa dos Gouvarinhos? Eu infelizmente não pôde ir.
Carlos contou a soirée. Havia dez pessoas, espalhadas pelas duas salas, num zum-zum dormente, à meia luz dos candeeiros. O conde maçara-o indiscretamente com a política, admirações idiotas por um grande orador, um deputado de Mesão Frio, e explicações sem fim sobre a reforma da instrução. A condessa, que estava muito constipada, horrorizou-o, dando sobre a Inglaterra, apesar de inglesa, as opiniões da rua de Cedofeita. Imaginava que a Inglaterra é um país sem poetas, sem artistas, sem ideais, ocupando-se só de amontoar libras... Enfim, secara-se.
- Que diabo! murmurou o Ega num tom de viva desconsolação.
A rolha estalou, ele encheu os copos em silêncio; e numa saúde muda os dois amigos beberam o Champagne - que Jacob arranjara ao Ega, para o Ega se regalar com Rachel.
Depois, de pé, com os olhos no tapete, agitando de vagar o copo novamente cheio onde a espuma morria, Ega tornou a murmurar, naquela entoação triste de inesperado desapontamento:
- Que ferro!...
E após um momento:
- Pois menino, pensei que a Gouvarinho te apetecia...
Carlos confessou que nos primeiros dias, quando Ega lhe falara dela, tivera um caprichosinho, interessara-se por aqueles cabelos cor de brasa...
- Mas agora, mal a conheci, o capricho foi-se...
Ega sentara-se, com o copo na mão; e depois de contemplar algum tempo as suas meias de seda, escarlates como as dum prelado, deixou cair, muito sério, estas palavras:
- É uma mulher deliciosa, Carlinhos.
E, como Carlos encolhia os ombros, Ega insistiu: a Gouvarinho era uma senhora de inteligência e de gosto; tinha originalidade, tinha audácia, uma pontinha de romantismo muito picante...
- E, como corpinho de mulher, não há melhor que aquilo de Badajoz para cá!
- Vai-te daí, Mefistófeles de Celorico!
E Ega, divertido, cantarolou:
Je suis Mefisto...
Je suis Mefisto...
Carlos no entanto, fumando preguiçosamente, continuava a falar na Gouvarinho e nessa brusca saciedade que o invadira, mal trocara com ela três palavras numa sala. E não era a primeira vez que tinha destes falsos arranques de desejo, vindo quasi com as formas do amor, ameaçando absorver, pelo menos por algum tempo, todo o seu ser, e resolvendo-se em tédio, em «seca». Eram como os fogachos de pólvora sobre uma pedra; uma fagulha ateia-os, num momento tornam-se chama veemente que parece que vai consumir o Universo, e por fim fazem apenas um rastro negro que suja a pedra. Seria o seu um desses corações de fraco, moles e flácidas, que não podem conservar um sentimento, o deixam fugir, escoar-se pelas malhas laças do tecido reles?
- Sou um ressequido! disse ele sorrindo. Sou um impotente de sentimento, como Satanás... Segundo os padres da igreja, a grande tortura de Satanás é que não pode amar...
- Que frases essas, menino! murmurou Ega.
Como frases? Era uma atroz realidade! Passava a vida a ver as paixões falharem-lhe nas mãos como fósforos. Por exemplo, com a coronela de hussards em Viena! Quando ela faltou ao primeiro rendez-vous, chorara lágrimas como punhos, com a cabeça enterrada no travesseiro e aos coices à roupa. E daí a duas semanas, mandava postar o Baptista à janela do hotel, para ele se safar, mal a pobre coronela dobrasse a esquina! E com a holandesa, com Madame Rughel, pior ainda. Nos primeiros dias foi uma insensatez: queria-se estabelecer para sempre na Holanda, casar com ela (apenas ela se divorciasse), outras loucuras; depois os braços que ela lhe deitava ao pescoço, e que lindos braços, pareciam-lhe pesados como chumbo...
- Passa fora, pedante! E ainda lhe escreves! gritou Ega.
- Isso é outra coisa. Ficamos amigos, puras relações de inteligência. Madame Rughel é uma mulher de muito espírito. Escreveu um romance, um desses estudos íntimos e delicados, como os de Miss Brougton: chama-se as Rosas Murchas. Eu nunca li, é em holandês...
- As Rosas Murchas! em holandês! exclamou Ega apertando as mãos na cabeça.
Depois vindo plantar-se diante de Carlos, de monóculo no olho:
- Tu és extraordinário, menino!... Mas o teu caso é simples, é o caso de D. Juan. D. Juan também tinha essas alternações de chama e cinza. Andava á busca do seu ideal, da sua mulher, procurando-a principalmente, como de justiça, entre as mulheres dos outros. E après avoir couché, declarava que se tinha enganado, que não era aquela. Pedia desculpa e retirava-se. Em Espanha experimentou assim mil e três. Tu és simplesmente, como ele, um devasso; e hás-de vir a acabar desgraçadamente como ele, numa tragédia infernal!
Esvaziou outro copo de Champagne, e a grandes passadas pela sala:
- Carlinhos da minha alma, é inútil que ninguém ande à busca da sua mulher. Ela virá. Cada um tem a sua mulher, e necessariamente tem de a encontrar. Tu estás aqui, na Cruz dos Quatro Caminhos, ela está talvez em Pekin: mas tu, aí a raspar o meu reps com o verniz dos sapatos, e ela a orar no templo de Confúcio, estais ambos insensivelmente, irresistivelmente, fatalmente, marchando um para o outro!... Estou eloquentíssimo hoje, e temos dito coisas idiotas. Toca a vestir. E, em quanto eu adorno a carcassa, prepara mais frases sobre Satanás!
Carlos ficou na sala verde, acabando o charuto - em quanto dentro o Ega batia com as gavetas, lançando, a todo o desafinado da sua voz roufenha, a Barcarola de Gounod. Quando apareceu, vinha de casaca, gravata branca, enfiando o paletó - com o olho brilhante do Champagne.
Desceram. O pajem lá estava à porta perfilado, ao pé do coupé de Carlos, que esperara. E a sua fardeta azul de botões amarelos, a magnífica parelha baía reluzindo como um cetim vivo, as pratas dos arreios, a majestade do cocheiro louro com o seu ramo na libré, tudo ali fazia, junto da «Vila Balzac», um quadro rico que deleitou o Ega.
- A vida é agradável, disse ele.
O coupé partiu, ia entrar no largo da Graça, quando uma caleche de praça, aberta, o cruzou a largo trote. Dentro um sujeito de chapéu baixo ia
lendo um grande jornal.
- É o Craft! gritou Ega, debruçando-se pela portinhola.
O coupé parou. Ega de um pulo estava na calçada, correndo, bradando:
- Oh Craft! oh Craft!
Quando, daí a um momento, sentiu duas vozes aproximarem-se, Carlos desceu também do coupé, achou-se em face dum homem baixo, louro, de pele rosada e fresca, e aparência fria. Sob o fraque correcto percebia-se-lhe uma musculatura de atleta.
- O Carlos, o Craft, gritou o Ega, lançando esta apresentação com uma simplicidade clássica.
Os dois homens, sorrindo, tinham-se apertado a mão. E Ega insistia para que voltassem todos à Vila Balzac, fossem beber a outra garrafa de Champagne, a celebrar o advento do Justo! Craft recusou, com o seu modo calmo e plácido; chegara na véspera do Porto, abraçara já o nobre Ega, e aproveitava agora a viagem àquele bairro longínquo para ir ver o velho Shlegen, um alemão que vivia à Penha de França.
- Então outra coisa! exclamou Ega. Para conversarmos, para que vocês se conheçam mais, venham vocês jantar comigo amanhã ao Hotel Central. Dito,
hein? Perfeitamente. Ás seis.
Apenas o coupé partiu de novo, Ega rompeu nas costumadas admirações pelo Craft, encantado com aquele encontro que dava mais um retoque luminoso à sua alegria. O que o entusiasmava no Craft era aquele ar imperturbável de gentleman correcto, com que ele igualmente jogaria uma partida de bilhar, entraria numa batalha, arremeteria com uma mulher, ou partiria para a Patagónia...
- É das melhores coisas que tem Lisboa. Vais-te morrer por ele... E que casa que ele tem nos Olivais, que sublime bric-a-brac!
Subitamente estacou, e com um olhar inquieto, uma ruga na testa:
- Como diabo soube ele da Vila Balzac?
- Tu não fazes segredo dela, hein?
- Não... Mas também não a pus nos anúncios! E o Craft chegou ontem, ainda não esteve com ninguém que eu conheça... É curioso!
- Em Lisboa sabe-se tudo...
- Canalha de terra! murmurou Ega.
O jantar no Central foi adiado, porque o Ega, alargando pouco a pouco a ideia, convertera-o agora numa festa de cerimónia em honra do Cohen.
- Janto lá muitas vezes, disse ele a Carlos, estou lá todas as noites... É necessário repagar a hospitalidade... Um jantar no Central é o que basta. E para o efeito moral, pespego-lhe à mesa o marquês e a besta do Steinbroken. O Cohen gosta de gente assim...
Mas o plano teve ainda de ser alterado: o marquês partira para a Golegã, e o pobre Steinbroken estava sofrendo dum incomodo de entranhas. Ega pensou no Cruges e no Taveira - mas receou a cabeleira desleixada do Cruges, e alguns dos seus ataques de amargo spleen que estragaria o jantar. Terminou por convidar dois íntimos do Cohen; mas teve então de suprimir o Taveira, que estava de mal com um desses cavalheiros por palavras que tinham trocado em casa da «Lola gorda».
Decididos os convidados, fixado o jantar para uma segunda feira, Ega teve uma conferencia com o maitre de hotel do Central, em que lhe recomendou muita flor, dois ananases para enfeitar a mesa, e exigiu que um dos pratos do menu, qualquer deles, fosse à la Cohen; e ele mesmo sugeriu uma ideia: tomates farcies à la Cohen...
Nessa tarde, ás seis horas, Carlos, ao descer a rua do Alecrim para o Hotel Central, avistou Craft dentro da loja de bric-a-brac do tio Abraão.
Entrou. O velho judeu, que estava mostrando a Craft uma falsa faiança do Rato, arrancou logo da cabeça o sujo barrete de borla, e ficou curvado em dois, diante de Carlos, com as duas mãos sobre o coração.
Depois, numa linguagem exótica, misturada de inglês, pediu ao seu bom senhor D. Carlos da Maia, ao seu digno senhor, ao seu beautiful gentleman, que se dignasse examinar uma maravilhasinha que lhe tinha reservada; e o seu muito generous gentleman tinha só a voltar os olhos, a maravilhasinha estava ali ao lado, numa cadeira. Era um retrato de espanhola, apanhado a fortes brochadelas de primeira impressão, e pondo, sobre um fundo audaz de cor de rosa murcha, uma face gasta de velha garça, picada das bexigas, caiada, ressudando vício, com um sorriso bestial que prometia tudo.
Carlos, tranquilamente, ofereceu dez tostões. Craft pasmou duma tal prodigalidade; e o bom Abraão, num riso mudo que lhe abria entre a barba grisalha uma grande boca dum só dente, saboreou muito a «chalaça dos seus ricos senhores.» Dez tostõesinhos! Se o quadrinho tivesse por baixo o nomesinho de Fortuny, valia dez continhos de réis. Mas não tinha esse nomesinho bendito... Ainda assim valia dez notasinhas-de vinte mil réis...
- Dez cordas para te enforcar, hebreu sem alma! exclamou Carlos.
E saíram, deixando o velho intrujão à porta, curvado em dois, com as mãos sobre o coração, desejando mil felicidades aos seus generosos fidalgos...
- Não tem uma única coisa boa, este velho Abraão, disse Carlos.
- Tem a filha, disse o Craft.
Carlos achava-a bonita, mas horrivelmente suja.
Então, a propósito do Abraão, falou a Craft dessas belas colecções dos Olivais, que o Ega, apesar do desdém que afectava pelo bibelot e pelo móvel de arte, lhe descrevera como sublimes.
Craft encolheu os ombros.
- O Ega não entende nada. Mesmo em Lisboa, não se pode chamar ao que eu tenho uma colecção. É um bric-a-brac de acaso... De que, de resto, me vou desfazer!
Isto surpreendeu Carlos. Compreendera das palavras do Ega ser essa uma colecção formada com amor, no laborioso decurso de anos, orgulho e cuidado duma existência de homem...
Craft sorrio daquela legenda. A verdade era que só em 1872, ele começara a interessar-se pelo bric-a-brac; chegava então da América do Sul; e o que fora comprando, descobrindo aqui e além, acumulara-o nessa casa dos Olivais, alugada então por fantasia, uma manhã que aquele pardieiro, com o seu bocado de quintal em redor, lhe parecera pitoresco, sob o sol de abril. Mas agora se pudesse desfazer-se do que tinha, ia dedicar-se então a formar uma colecção homogénea e compacta de arte do século dezoito.
- Aqui nos Olivais?
- Não. Numa quinta que tenho ao pé do Porto, junto mesmo ao rio.
Entravam então no peristilo do Hotel Central - e nesse momento um coupé da Companhia, chegando a largo trote do lado da rua do Arsenal, veio estacar à porta.
Um esplêndido preto, já grisalho, de casaca e calção, correu logo à portinhola; de dentro um rapaz muito magro, de barba muito negra, passou-lhe para os braços uma deliciosa cadelinha escocesa, de pelos esguedelhados, finos como seda e cor de prata; depois apeando-se, indolente e poseur, ofereceu a mão a uma senhora alta, loura, com um meio véu muito apertado e muito escuro que realçava o esplendor da sua carnação ebúrnea. Craft e Carlos afastaram-se, ela passou diante deles, com um passo soberano de deusa, maravilhosamente bem feita, deixando atrás
de si como uma claridade, um reflexo de cabelos de ouro, e um aroma no ar. Trazia um casaco colante de veludo branco de Génova, e um momento sobre as lajes do peristilo brilhou o verniz das suas botinas. O rapaz ao lado, esticado num fato de xadresinho inglês, abria negligentemente um telegrama; o preto seguia com a cadelhinha nos braços. E no silêncio a voz de Craft murmurou:
- Très chic.
Em cima, no gabinete que o criado lhes indicou, Ega esperava, sentado no divã de marroquim, e conversando com um rapaz baixote, gordo, frisado como um noivo de província, de camélia ao peito e plastron azul celeste. O Craft conhecia-o; Ega apresentou a Carlos o Sr. Dâmaso Salcede, e mandou servir vermute, por ser tarde, segundo lhe parecia, para esse requinte literária e satânico do absinto...
Fora um dia de inverno suave e luminoso, as duas janelas estavam ainda abertas. Sobre o rio, no céu largo, a tarde morria, sem uma aragem, numa paz elisea, com nuvensinhas muito altas, paradas, tocadas de cor de rosa; as terras, os longes da outra banda já se iam afogando num vapor aveludado, do tom de violeta; a água jazia lisa e luzidia como uma bela chapa de aço novo; e aqui e alem, pelo vasto ancoradouro, grossos navios de carga, longos paquetes estrangeiros, dois couraçados ingleses, dormiam, com as mastreações imóveis, como tomados de preguiça, cedendo ao afago do clima doce...
- Vimos agora lá em baixo, disse Craft indo sentar-se no divã, uma esplêndida mulher, com uma esplêndida cadelinha grifon, e servida por um esplêndido preto!
O Sr. Dâmaso Salcede, que não despegava os olhos de Carlos, acudiu logo:
- Bem sei! Os Castro Gomes... Conheço-os muito... Vim com eles de Bordéus... Uma gente muito chic que vive em Paris.
Carlos voltou-se, reparou mais nele, perguntou-lhe, afável e interessando-se:
- O senhor Salcede chegou agora de Bordéus?
Estas palavras pareceram deleitar Dâmaso como um favor celeste: ergueu-se imediatamente, aproximou-se do Maia, banhado num sorriso:
- Vim aqui há quinze dias, no Orenoque. Vim de Paris... Que eu em podendo é lá que me pilham! Esta gente conheci-a em Bordéus. Isto é, verdadeiramente conheci-a a bordo. Mas estávamos todos no Hotel de Nantes... Gente muito chic: criado de quarto, governanta inglesa para a filhita, femme de chambre, mais de vinte malas... Chic a valer! Parece incrível, uns brasileiros... Que ela na voz não tem sotaque nenhum, fala como nós. Ele sim, ele muito sotaque... Mas elegante também, V. Ex.ª não lhe pareceu?
- Vermute? perguntou-lhe o criado, oferecendo a salva.
- Sim, uma gotinha para o apetite. V. Ex.ª não toma, Sr. Maia? Pois eu, assim que posso, é direitinho para Paris! Aquilo é que é terra! Isto aqui é um chiqueiro... Eu, em não indo lá todos os anos, acredite V. Ex.ª, até começo a andar doente. Aquele boulevarzinho, hein!... Ai, eu gozo aquilo!... E sei gozar, sei gozar, que eu conheço aquilo a palmo... Tenho até um tio em Paris.
- E que tio! exclamou Ega, aproximando-se. Intimo de Gambeta, governa a França... O tio do Dâmaso governa a França, menino!
Dâmaso, escarlate, estourava de gozo.
- Ah, lá isso influência tem. Intimo do Gambeta, tratam-se por tu, até vivem quasi juntos... E não é só com o Gambeta; é com o Mac-Mahon, com o Rochefort, com o outro de que me esquece agora o nome, com todos os republicanos, enfim!... É tudo quanto ele queira. V. Ex.ª não o conhece? É um homem de barbas brancas... Era irmão de minha mãe, chama-se Guimarães. Mas em Paris chamam-lhe Mr. de Guimaran...
Nesse momento a porta envidraçada abriu-se de golpe, Ega exclamou: «Saúde ao poeta»!
E apareceu um indivíduo muito alto, todo abotoado numa sobrecasaca preta, com uma face escaveirada, olhos encovados, e sob o nariz aquilino, longos, espessos, românticos bigodes grisalhos: já todo calvo na frente, os anéis fofos duma grenha muito seca caíam-lhe inspiradamente sobre a gola: e em toda a sua pessoa havia alguma coisa de antiquado, de artificial e de lúgubre.
Estendeu silenciosamente dois dedos ao Dâmaso, e abrindo os braços lentos para Craft, disse numa voz arrastada, cavernosa, ateatrada:
- Então és tu, meu Craft! Quando chegaste tu, rapaz? Dá-me cá esses ossos honrados, honrado inglês!
Nem um olhar dera a Carlos. Ega adiantou-se, apresentou-os:
- Não sei se são relações. Carlos da Maia... Tomás de Alencar, o nosso poeta...
Era ele! o ilustre cantor das Vozes da Aurora, o estilista de Elvira, o dramaturgo do Segredo do Comendador. Deu dois passos graves para Carlos, esteve-lhe apertando muito tempo a mão em silêncio - e sensibilizado, mais cavernoso:
- V. Ex.ª, já que as etiquetas sociais querem que eu lhe dê excelência, mal sabe a quem apertou agora a mão...
Carlos, surpreendido, murmurou:
- Eu conheço muito de nome...
E o outro com o olho cavo, o lábio tremulo:
- Ao camarada, ao insuperável, ao íntimo de Pedro da Maia, do meu pobre, do meu valente Pedro!
- Então, que diabo, abracem-se! gritou Ega. Abracem-se, com um berro, segundo as regras...
Alencar já tinha Carlos estreitado ao peito, e quando o soltou, retomando-lhe as mãos, sacudindo-lhas, com uma ternura ruidosa:
- E deixemo-nos já de excelências! que eu vi-te nascer, meu rapaz! trouxe-te muito ao colo! sujaste-me muita calça! Co'os diabos, dá cá outro
abraço!
Craft olhava estas coisas veementes, impossível; Dâmaso parecia impressionado; Ega apresentou um copo de vermute ao poeta:
- Que grande cena, Alencar! Jesus, Senhor! Bebe, para te recuperares da emoção...
Alencar esgotou-o dum trago: e declarou aos amigos que não era a primeira vez que via Carlos. Já o admirara no seu faeton, muitas vezes, e aos
seus belos cavalos ingleses. Mas não se quisera dar a conhecer. Ele nunca se atirava aos braços de ninguém, a não ser das mulheres... Foi encher outro cálice de vermute, e com ele na mão, plantado diante de Carlos, começou, num tom patético:
- A primeira vez que te vi, filho, foi no Pote das Almas! Estava eu no Rodrigues, esquadrinhando alguma dessa velha literatura, hoje tão desprezada... Lembro-me até que era um volume das Éclogas do nosso delicioso Rodrigues Lobo, esse verdadeiro poeta da natureza, esse rouxinol tão português, hoje, está claro, metido a um canto, desde que para aí apareceu o Satanismo, o Naturalismo e o Bandalhismo, e outros esterquilinios em ismo... Nesse momento passaste, disseram-me quem eras, e caiu-me o livro da mão... Fiquei ali uma hora, acredita, a pensar, a rever o passado...
E atirou o vermute ás goelas. Ega, impaciente, olhava o relógio. Um criado, entrando, acendeu o gás; a mesa surgiu da penumbra, com um brilho de cristais e louças, um luxo de camélias em ramos.
No entanto Alencar (que à luz viva parecia mais gasto e mais velho) começara uma grande história, e como fora ele o primeiro que vira Carlos depois de nascer, e como fora ele que lhe dera o nome.
- Teu pai, dizia ele, o meu Pedro, queria-te pôr o nome de Afonso, desse santo, desse varão de outras idades, Afonso da Maia! Mas tua mãe que tinha lá as suas ideias teimou em que havias de ser Carlos. E justamente por causa dum romance que eu lhe emprestara; nesses tempos podiam-se emprestar romances a senhoras, ainda não havia a pústula e o pus... Era um romance sobre o ultimo Stuart, aquele belo tipo do príncipe Carlos Eduardo, que vocês, filhos, conhecem todos bem, e que na Escócia, no tempo de Luís XIV... Enfim, adiante! Tua mãe, devo dize-lo, tinha literatura e da melhor. Consultou-me, consultava-me sempre, nesse tempo eu era alguém, e lembro-me de lhe ter respondido... (Lembro-me apesar de já lá irem vinte e cinco anos... Que digo eu? Vinte e sete! Vejam vocês isto, filhos, vinte e sete anos!) Enfim, voltei-me para tua mãe, e disse-lhe, palavras textuais: «Ponha-lhe o nome de Carlos Eduardo, minha rica senhora, Carlos Eduardo, que é o verdadeiro nome para o frontispício dum poema, para a fama dum heroismo ou para o lábio duma mulher!»
Dâmaso, que continuava a admirar Carlos, deu bravos estrondosos; Craft bateu ligeiramente os dedos; e o Ega, que rondava a porta, nervoso, de relógio na mão, soltou de lá um muito bem desenxabido.
Alencar, radiante com o seu efeito, derramava em roda um sorriso que lhe mostrava os dentes estragados. Abraçou outra vez Carlos, atirou uma palmada ao coração, exclamou:
- Caramba, filhos, sinto uma luz cá dentro!
A porta abriu-se, o Cohen entrou, todo apressado, desculpando-se logo da sua demora - enquanto Ega, que se precipitara para ele, lhe ajudava a despir o paletó. Depois apresentou-o a Carlos - a única pessoa ali de quem o Cohen não era íntimo. E dizia, tocando o botão da campainha eléctrica:
- O marquês não pôde vir, menino, e o pobre Steinbroken, coitado, está com a sua gota, a gota de diplomata, de lord e de banqueiro... A gota que tu hás-de ter, velhaco!
Cohen, um homem baixo, apurado, de olhos bonitos, e suissas tão pretas e luzidias que pareciam ensopadas em verniz, sorria, descalçando as luvas, dizendo, que, segundo os ingleses, havia também a gota de gente pobre; e era essa naturalmente a que lhe competia a ele...
Ega, no entanto, travara-lhe do braço, colocara-o preciosamente à mesa, à sua direita: depois ofereceu-lhe um botão de camélia dum ramo: o Alencar floriu-se também - e os criados serviram as ostras.
Falou-se logo do crime da Mouraria, drama fadista que impressionava Lisboa, uma rapariga com o ventre rasgado à navalha por uma companheira, vindo morrer na rua em camisa, dois faias esfaqueando-se, toda uma viela em sangue - uma sarrabulhada como disse o Cohen, sorrindo e provando o Bucelas.
Dâmaso teve a satisfação de poder dar detalhes; conhecera a rapariga, a que dera as facadas, quando ela era amante do visconde da Ermidinha... Se era bonita? Muito bonita. Umas mãos de duquesa... E como aquilo cantava o fado! O pior era que mesmo no tempo do visconde, quando ela era chic, já se empiteirava... E o visconde, honra lhe seja, nunca lhe perdera a amizade; respeitava-a, mesmo depois de casado ía vê-la, e tinha-lhe prometido que se ela quisesse deixar o fado lhe punha uma confeitaria para os lados da Sé. Mas ela não queria. Gostava daquilo, do Bairro Alto, dos cafés de lepes, dos chulos...
Esse mundo de fadistas, de faias, parecia a Carlos merecer um estudo, um romance... Isto levou logo a falar-se do Assomoir, de Zola e do realismo: - e o Alencar imediatamente, limpando os bigodes dos pingos de sopa, suplicou que se não discutisse, à hora asseada do jantar, essa literatura latrinaria. Ali todos eram homens de asseio, de sala, hein? Então, que se não mencionasse o excremento!
Pobre Alencar! O naturalismo; esses livros poderosos e vivazes, tirados a milhares de edições; essas rudes analises, apoderando-se da igreja, da Realeza, da Burocracia, da Finança, de todas as coisas santas, dissecando-as brutalmente e mostrando-lhes a lesão, como a cadáveres num anfiteatro; esses estilos novos, tão precisos e tão dúcteis, apanhando em flagrante a linha, a cor, a palpitação mesma da vida; tudo isso (que ele, na sua confusão mental, chamava a Ideia nova) caindo assim de chofre e escangalhando a catedral romântica, sob a qual tantos anos ele tivera altar e celebrara missa, tinha desnorteado o pobre Alencar e tornara-se o desgosto literário da sua velhice. Ao principio reagiu. «Para pôr um dique definitivo à torpe maré», como ele disse em plena Academia, escreveu dois folhetins cruéis; ninguém os leu; a «maré torpe» alastrou-se, mais profunda, mais larga. Então Alencar refugiou-se na moralidade como numa rocha sólida. O naturalismo, com as suas aluviões de obscenidade, ameaçava corromper o pudor social? Pois bem. Ele, Alencar, seria o paladino da Moral, o gendarme dos bons costumes. Então o poeta das Vozes da Aurora, que durante vinte anos, em cançoneta e ode, propusera comércios lúbricos a todas as damas da capital; então o romancista de Elvira que, em novela e drama, fizera a propaganda do amor ilegítimo, representando os deveres conjugais como montanhas-de tédio, dando a todos os maridos formas gordurosas e bestiais, e a todos os amantes a beleza, o esplendor e o génio dos antigos Apolos; então Tomás Alencar que (a acreditarem-se as confissões autobiográficas da Flôr de Martírio) passava ele próprio uma existência medonha de adultérios, lubricidades, orgias, entre veludos e vinhos de Chipre - de ora em diante austero, incorruptível, todo ele uma torre de pudicícia, passou a vigiar atentamente o jornal, o livro, o teatro. E mal lobrigava sintomas nascentes de realismo num beijo que estalava mais alto, numa brancura de saia que se arregaçava de mais - eis o nosso Alencar que soltava por sobre o país um grande grito de alarme, corria à pena, e as suas imprecações lembravam (a académicos fáceis de contentar) o rugir de Isaias. Um dia porém, Alencar teve uma destas revelações que prostram os mais fortes; quanto mais ele denunciava um livro como imoral, mais o livro se vendia como agradável! O Universo pareceu-lhe coisa torpe, e o autor de Elvira encavacou...
Desde então reduziu a expressão do seu rancor ao mínimo, a essa frase curta, lançada com nojo:
- Rapazes, não se mencione o excremento!
Mas nessa noite teve o regozijo de encontrar aliados. Craft não admitia também o naturalismo, a realidade feia das coisas e da sociedade estatelada nua num livro. A arte era uma idealização! Bem: então que mostrasse os tipos superiores duma humanidade aperfeiçoada, as formas mais belas do viver e do sentir... Ega horrorizado apertava as mãos na cabeça - quando do outro lado Carlos declarou que o mais intolerável no realismo eram os seus grandes ares científicos, a sua pretensiosa estética deduzida duma filosofia alheia, e a invocação de Claude Bernard, do experimentalismo, do positivismo, de Stuart Mil e de Darwin, a propósito duma lavadeira que dorme com um carpinteiro!
Assim atacado, entre dois fogos, Ega trovejou: justamente o fraco do realismo estava em ser ainda pouco científico, inventar enredos, criar dramas, abandonar-se à fantasia literária! a forma pura da arte naturalista devia ser a monografia, o estudo seco dum tipo, dum vício, duma paixão, tal qual como se se tratasse dum caso patológico, sem pitoresco e sem estilo!...
- Isso é absurdo, dizia Carlos, os caracteres só se podem manifestar pela acção...
- E a obra de arte, acrescentou Craft, vive apenas pela forma...
Alencar interrompeu-os, exclamando que não eram necessárias tantas filosofias.
- Vocês estão gastando cera com ruins defuntos, filhos. O realismo critica-se deste modo: mão no nariz! Eu quando vejo um desses livros, enfrasco-me logo em água de colónia. Não discutamos o excremento.
- Sole normande? perguntou-lhe o criado, adiantando a travessa.
Ega ía fulminá-lo. Mas, vendo que o Cohen dava um sorriso enfastiado e superior a estas controvérsias de literaturas, calou-se; ocupou-se só dele, quis saber que tal ele achava aquele St. Emilion; e, quando o viu confortavelmente servido de sole normande, lançou com grande alarde de interesse esta pergunta:
- Então, Cohen, diga-nos você, conte-nos cá... O empréstimo faz-se ou não se faz?
E acirrou a curiosidade, dizendo para os lados, que aquela questão do empréstimo era grave. Uma operação tremenda, um verdadeiro episódio histórico!...
O Cohen colocou uma pitada de sal à beira do prato, e respondeu, com autoridade, que o empréstimo tinha de se realizar absolutamente. Os emprestamos em Portugal constituíam hoje uma das fontes de receita, tão regular, tão indispensável, tão sabida como o imposto. A única ocupação mesmo dos ministérios era esta - cobrar o imposto e fazer o empréstimo. E assim se havia de continuar...
Carlos não entendia de finanças: mas parecia-lhe que, desse modo, o país ia alegremente e lindamente para a banca-rota.
- Num galopesinho muito seguro e muito a direito, disse o Cohen, sorrindo. Ah, sobre isso, ninguém tem ilusões, meu caro senhor. Nem os próprios ministros da fazenda!... A banca-rota é inevitável: é como quem faz uma soma...
Ega mostrou-se impressionado. Olha que brincadeira, hein! E todos escutavam o Cohen. Ega, depois de lhe encher o cálice de novo, fincara os cotovelos na mesa para lhe beber melhor as palavras.
- A banca-rota é tão certa, as coisas estão tão dispostas para ela - continuava o Cohen - que seria mesmo fácil a qualquer, em dois ou três anos, fazer falir o país...
Ega gritou sofregamente pela receita. Simplesmente isto: manter uma agitação revolucionaria constante; nas vésperas de se lançarem os empréstimos haver duzentos maganões decididos que caíssem à pancada na municipal e quebrassem os candeeiros com vivas à República; telegrafar isto em letras bem gordas para os jornais de Paris, Londres e do Rio de Janeiro; assustar os mercados, assustar o brasileiro, e a banca-rota estalava. Somente, como ele disse, isto não convinha a ninguém.
Então Ega protestou com veemência. Como não convinha a ninguém? Ora essa! Era justamente o que convinha a todos! Á banca-rota seguia-se uma
revolução, evidentemente. Um país que vive da inscrição, em não lha pagando, agarra no cacete; e procedendo por principio, ou procedendo apenas por vingança - o primeiro cuidado que tem é varrer a monarquia que lhe representa o calote, e com ela o crasso pessoal do constitucionalismo. E passada a crise, Portugal livre da velha divida, da velha gente, dessa colecção grotesca de bestas...
A voz do Ega sibilava... Mas, vendo assim tratados de grotescos, de bestas, os homens de ordem que fazem prosperar os Bancos, Cohen pousou a mão no braço do seu amigo e chamou-o ao bom-senso. Evidentemente, ele era o primeiro a dize-lo, em toda essa gente que figurava desde 46 havia medíocres e patetas, - mas também homens de grande valor!
- Há talento, há saber, dizia ele com um tom de experiência. Você deve reconhece-lo, Ega... Você é muito exagerado! Não senhor, há talento, há saber.
E, lembrando-se que algumas dessas bestas eram amigos do Cohen, Ega reconheceu-lhes talento e saber. O Alencar porém cofiava sombriamente o bigode. Ultimamente pendia para ideias radicais, para a democracia humanitária de 1848: por instincto, vendo o romantismo desacreditado nas letras, refugiava-se no romantismo político, como num asilo pararelo: queria uma república governada por génios, a fraternização dos povos, os Estados Unidos da Europa... Além disso, tinha longas queixas desses politiquotes, agora gente de Poder, outrora seus camaradas de redacção, de café e de batota...
- Isso, disse ele, lá a respeito de talento e de saber, histórias... Eu conheço-os bem, meu Cohen...
O Cohen acudiu:
- Não senhor, Alencar, não senhor! Você também é dos tais... Até lhe fica mal dizer isso... É exageração. Não senhor, há talento, há saber.
E o Alencar, perante esta intimação do Cohen, o respeitado director do Banco Nacional, o marido da divina Rachel, o dono dessa hospitaleira casa da rua do Ferregial onde se jantava tão bem, recalcou o despeito - admitiu que não deixava de haver talento e saber.
Então, tendo assim, pela influência do seu Banco, dos belos olhos da sua mulher e da excelência do seu cozinheiro, chamado estes espíritos rebeldes ao respeito dos Parlamentares e à veneração da Ordem, Cohen condescendeu em dizer, no tom mais suave da sua voz, que o país necessitava reformas...
Ega porém, incorrigível nesse dia, soltou outra enormidade:
- Portugal não necessita reformas, Cohen, Portugal o que precisa é a invasão espanhola.
Alencar, patriota à antiga, indignou-se. O Cohen, com aquele sorriso indulgente de homem superior que lhe mostrava os bonitos dentes, viu ali apenas «um dos paradoxos do nosso Ega.» Mas o Ega falava com seriedade, cheio de razões. Evidentemente, dizia ele, invasão não significa perda absoluta de independência. Um receio tão estúpido é digno só de uma sociedade tão estúpida como a do Primeiro de Dezembro. Não havia exemplo de seis milhões de habitantes serem engolidos, de um só trago, por um país que tem apenas quinze milhões de homens. Depois ninguém consentiria em deixar cair nas mãos de Espanha, nação militar e marítima, esta bela linha de costa de Portugal. Sem contar as alianças que teríamos, a troco das colónias - das colónias que só nos servem, como a prata de família aos morgados arruinados, para ir empenhando em casos de crise...
Não havia perigo; o que nos aconteceria, dada uma invasão, num momento de guerra europeia, seria levarmos uma sova tremenda, pagarmos uma grossa indemnização, perdermos uma ou duas províncias, ver talvez a Galiza estendida até ao Douro...
- Poulet aux champignons, murmurou o criado, apresentando-lhe a travessa.
E em quanto ele se servia, perguntavam-lhe dos lados onde via ele a salvação do país, nessa catástrofe que tornaria povoação espanhola Celorico de Basto, a nobre Celorico, berço de heróis, berço dos Egas...
- Nisto: no ressuscitar do espírito publico e do génio português! Sovados, humilhados, arrasados, escalavrados, tínhamos de fazer um esforço desesperado para viver. E em que bela situação nos achávamos! Sem monarquia, sem essa caterva de políticos, sem esse tortulho da inscrição, porque tudo desaparecia, estávamos novos em folha, limpos, escarolados, como se nunca tivéssemos servido. E recomeçava-se uma história nova, um outro Portugal, um Portugal sério e inteligente, forte e decente, estudando, pensando, fazendo civilização como outrora... Meninos, nada regenera uma nação como uma medonha tareia... Oh Deus de Ourique, manda-nos o castelhano! E você, Cohen, passe-me o St. Emilion.
Agora, num rumor animado, discutia-se a invasão. Ah, podia-se fazer uma bela resistência! Cohen afiançava o dinheiro. Armas, artilharia, iam comprar-se à América - e Craft ofereceu logo a sua colecção de espadas do século XVI. Mas generais? Alugavam-se. Mac-Mahon, por exemplo, devia estar barato...
- O Craft e eu organizamos uma guerrilha, gritou Ega.
- Ás ordens, meu coronel.
- O Alencar, continuava Ega, é encarregado de ir despertar pela província o patriotismo, com cantos e com odes!
Então o poeta, pousando o cálice, teve um movimento de leão que sacode a juba:
- Isto é uma velha carcassa, meu rapaz, mas não está só para odes! Ainda se agarra uma espingarda, e como a pontaria é boa, ainda vão a terra um par de galegos... Caramba, rapazes, só a ideia dessas coisas me põe o coração negro! E como vocês podem falar nisso, a rir, quando se trata do país, desta terra onde nascemos, que diabo! Talvez seja má, de acordo, mas, caramba! é a única que temos, não temos outra! É aqui que vivemos, é aqui que rebentamos... Irra, falemos de outra coisa, falemos de mulheres!
Dera um repelão ao prato, os olhos humedeciam-se-lhe de paixão patriótica...
E no silêncio que se fez Dâmaso, que desde as informações sobre a rapariga do Ermidinha emudecera, ocupado a observar Carlos com religião, ergueu a voz pausadamente, disse, com um ar de bom senso e de finura:
- Se as coisas chegassem a esse ponto, se pusessem assim feias, eu cá, à cautela, ia-me raspando para Paris...
Ega triunfou, pulou de gosto na cadeira. Eis ali, no lábio sintético de Dâmaso, o grito espontâneo e genuíno do brio português! Raspar-se, pirar-se!...
Era assim que de alto a baixo pensava a sociedade de Lisboa, a malta constitucional, desde El-Rei nosso Senhor até aos cretinos de secretaria!...
- Meninos, ao primeiro soldado espanhol que apareça à fronteira, o país em massa foge como uma lebre! Vai ser uma debandada única na história!
Houve uma indignação, Alencar gritou:
- Abaixo o traidor!
Cohen interveio, declarou que o soldado português era valente, à maneira dos turcos - sem disciplina, mas teso. O próprio Carlos disse, muito sério:
- Não senhor... Ninguém há de fugir, e há de se morrer bem.
Ega rugiu. Para quem estavam eles fazendo essa pose heróica? Então ignoravam que esta raça, depois de cinquenta anos de constitucionalismo, criada por esses saguões da Baixa, educada na piolhice dos liceus, roída de sífilis, apodrecida no bolor das secretarías, arejada apenas ao domingo pela poeira do Passeio, perdera o musculo como perdera o carácter, e era a mais fraca, a mais covarde raça da Europa?...
- Isso são os lisboetas, disse Craft.
- Lisboa é Portugal, gritou o outro. Fora de Lisboa não há nada. O país está todo entre a Arcada e S. Bento!...
A mais miserável raça da Europa! continuava ele a berrar. E que exercito! Um regimento, depois de dois dias de marcha, dava entrada em massa no hospital! Com seus olhos tinha ele visto, no dia da abertura das Cortes, um marujo sueco, um rapagão do Norte, fazer debandar, a socos, uma companhia de soldados; as praças tinham literalmente largado a fugir, com a patrona a bater-lhe os rins; e o oficial, enfiado de terror, meteu-se para uma escada, a vomitar!...
Todos protestaram. Não, não era possível... Mas se ele tinha visto, que diabo!... Pois sim, talvez, mas com os olhos falazes da fantasia...
- Juro pela saúde da mamã! gritou Ega furioso.
Mas emudeceu. O Cohen tocara-lhe no braço. O Cohen ía falar.
O Cohen queria dizer que o futuro pertence a Deus. Que os espanhóis porém pensassem na invasão isso parecia-lhe certo - sobretudo se viessem, como era natural, a perder Cuba. Em Madrid todo o mundo lho dissera. Já havia mesmo negócios de fornecimentos entabulados...
- Espanholadas, galegadas! rosnou Alencar, por entre dentes, sombrio e torcendo os bigodes.
- No Hotel de Paris, continuou Cohen, em Madrid, conheci eu um magistrado, que me disse com um certo ar que não perdia a esperança de se vir estabelecer de todo em Lisboa; tinha-lhe agradado muito Lisboa, quando cá estivera a banhos. E em quanto a mim, estou que há muitos espanhóis que estão à espera deste aumento de território para se empregarem!
Então Ega caiu em êxtase, apertou as mãos contra o peito. Oh que delicioso traço! Oh que admiravelmente observado!
- Este Cohen! exclamava ele para os lados. Que finamente observado! Que traço adorável! Hein, Craft?
Hein, Carlos? Delicioso!
Todos cortesmente admiraram a finura do Cohen. Ele agradecia, com o olho enternecido, passando pelas suissas a mão onde reluzia um diamante. E nesse momento os criados serviam um prato de ervilhas num molho branco, murmurando:
- Petits pois a la Cohen.
A la Cohen? Cada um verificou o seu menu mais atentamente. E lá estava, era o legume: petit pois a la Cohen! Dâmaso, entusiasmado, declarou isto «chic a valer!» E fez-se, com o Champagne que se abria, a primeira saúde ao Cohen!
Esquecera-se a banca rota, a invasão, a pátria - o jantar terminava alegremente. Outras saúdes cruzaram-se, ardentes e loquazes: o próprio Cohen, com o sorriso de quem cede a um capricho de criança, bebeu à Revolução e à Anarquia, brinde complicado, que o Ega erguera, já com o olho muito brilhante. Sobre a toalha, a sobremesa alastrava-se, destroçada; no prato do Alencar as pontas de cigarros misturavam-se a bocados de ananás mastigado. Dâmaso, todo debruçado sobre Carlos, fazia-lhe o elogio da parelha inglesa, e daquele faeton que era a coisa mais linda que passeava Lisboa. E logo depois do seu brinde de demagogo, sem razão, Ega arremetera contra Craft, injuriando a Inglaterra, querendo exclui-la de entre as nações pensantes, ameaçando-a de uma revolução social que a ensoparia em sangue: o outro respondia com acenos de cabeça, imperturbável, partindo nozes.
Os criados serviram o café. E como havia já três longas horas que estavam à mesa, todos se ergueram, acabando os charutos, conversando, na animação viva que dera o Champagne. A sala, de tecto baixo, com os cinco bicos de gás ardendo largamente, enchera-se de um calor pesado, onde se ia espalhando agora o aroma forte das chartreuses e dos licores por entre a névoa alvadia do fumo.
Carlos e Craft, que abafavam, foram respirar para a varanda; e aí recomeçou logo, naquela comunidade de gostos que os começava a ligar, a conversa da rua do Alecrim sobre a bela colecção dos Olivais. Craft dava detalhes; a coisa rica e rara que tinha era um armário holandês do século XVI; de resto, alguns bronzes, faianças e boas armas...
Mas ambos se voltaram ouvindo, no grupo dos outros, junto à mesa, estridências de voz, e como um conflito que rompia: Alencar, sacudindo a grenha, gritava contra a palhada filosófica; e do outro lado, com o cálice de cognac na mão, Ega, pálido e afectando uma tranquilidade superior, declarava toda essa babuge lírica que por aí se publica digna da polícia correcional...
- Pegaram-se outra vez, veio dizer Dâmaso a Carlos, aproximando-se da varanda. É por causa do Craveiro. Estão ambos divinos!
Era com efeito a propósito de poesia moderna, de Simão Craveiro, do seu poema a Morte de Satanás. Ega estivera citando, com entusiasmo, estrofes do episódio da Morte, quando o grande esqueleto simbólico passa em pleno sol no Boulevard, vestido como uma cocote, arrastando sedas rumorosas
«E entre duas costelas, no decote,»
«Tinha um bouquet de rosas!»
E o Alencar, que detestava o Craveiro, o homem da Ideia nova, o paladino do Realismo, triunfara, cascalhara, denunciando logo nessa simples estrofe dois erros de gramática, um verso errado, e uma imagem roubada a Beaudelaire!
Então Ega, que bebera um sobre outro dois cálices de cognac, tornou-se muito provocante, muito pessoal.
- Eu bem sei por que tu falas, Alencar, dizia ele agora. E o motivo não é nobre. É por causa do epigrama que ele te fez:
O Alencar de Alenquer,
Aceso com a primavera...
- Ah, vocês nunca ouviram isto? continuou ele voltando-se, chamando os outros. É delicioso, é das melhores coisas do Craveiro. Nunca ouviste, Carlos? É sublime, sobre tudo esta estrofe:
O Alencar de Alenquer
Que quer? Na verde campina
Não colhe a tenra bonina
Nem consulta o malmequer...
Que quer? Na verde campina
O Alencar de Alenquer
Quer menina!
Eu não me lembro do resto, mas termina com um grito de bom senso, que é a verdadeira critica de todo esse lirismo pandilha:
O Alencar de Alenquer
Quer cacete!
Alencar passou a mão pela testa lívida, e com o olho cavo fito no outro, a voz rouca e lenta:
- Olha, João da Ega, deixa-me dizer-te uma coisa, meu rapaz... Todos esses epigramas, esses dichotes lorpas do raquítico e dos que o admiram, passam-me pelos pés como um enxurro de cloaca... O que faço é arregaçar as calças! Arregaço as calças... Mais nada, meu Ega. Arregaço as calças!
E arregaçou-as realmente, mostrando a ceroula, num gesto brusco e de delírio.
- Pois quando encontrares enchurros desses, gritou-lhe o Ega, agacha-te e bebe-os! Dão-te sangue e força ao lirismo!
Mas Alencar, sem o ouvir, berrava para os outros, esmurrando o ar:
- Eu, se esse Craveirete não fosse um raquítico, talvez me entretivesse a rola-lo aos pontapés por esse Chiado abaixo, a ele e à versalhada, a essa lambisgonhice excrementícia com que seringou Satanás! E depois de o besuntar bem de lama, esborrachava-lhe o crânio!
- Não se esborracham assim crânios, disse de lá o Ega num tom frio de troça.
Alencar voltou para ele uma face medonha. A cólera e o cognac incendiavam-lhe o olhar; todo ele tremia:
- Esborrachava-lho, sim, esborrachava, João da Ega! Esborrachava-lho assim, olha, assim mesmo! - Rompeu a atirar patadas ao soalho, abalando a
sala, fazendo tilintar cristais e louças. - Mas não quero, rapazes! Dentro daquele crânio só há excremento, vomito, pus, matéria verde, e se lho esborrachasse, por que lho esborrachava, rapazes, todo o miolo podre saía, empestava a cidade, tínhamos o cólera! Irra! Tínhamos a peste!
Carlos, vendo-o tão excitado, tomou-lhe o braço, quis calma-lo:
- Então, Alencar! Que tolice... Isso vale lá pena!...
O outro desprendeu-se, arquejante, desabotoou a sobrecasaca, soltou o ultimo desabafo:
- Com efeito, não vale a pena ninguém zangar-se por causa desse Craveirote da Ideia nova, esse caloteiro, que se não lembra que a porca da irmã é uma meretriz de doze vinténs em Marco de Canavezes!
- Não, isso agora é de mais, pulha! gritou Ega, arremeçando-se, de punhos fechados.
Cohen e Dâmaso, assustados, agarraram-no. Carlos puxara logo para o vão da janela o Alencar que se debatia, com os olhos chamejantes, a gravata solta. Tinha caído uma cadeira; a correcta sala, com os seus divãs de marroquim, os seus ramos de camélias, tomava um ar de taverna, numa bulha de faias, entre a fumaraça de cigarros. Dâmaso, muito pálido, quasi sem voz, ía dum a outro:
- Oh meninos, oh meninos, aqui, no Hotel Central! Jesus!... Aqui no Hotel Central!...
E, de entre os braços do Cohen, Ega berrava, já rouco:
- Esse pulha, esse covarde... Deixe-me, Cohen! Não, isso hei de esbofeteá-lo!... A D. Ana Craveiro, uma santa!... Esse caluniador... Não, isso hei de esgana-lo!...
Craft, no entanto, impassível, bebia aos golos a sua chartreuse. Já presenciara, mais vezes, duas literaturas rivais engalfinhando-se, rolando no chão, num latir de injurias: a torpeza do Alencar sobre a irmã do outro fazia parte dos costumes de critica em Portugal: tudo isso o deixava indiferente, com um sorriso de desdém. Além disso sabia que a reconciliação não tardaria, ardente e com abraços. E não tardou. Alencar saiu do vão da janela, atrás de Carlos, abotoando a sobrecasaca, grave e como arrependido. A um canto da sala, Cohen falava ao Ega
com autoridade, severo, à maneira dum pai: depois voltou-se, ergueu a mão, ergueu a voz, disse que ali todos eram cavalheiros: e como homens de talento e de coração fidalgo os dois deviam abraçar-se...
- Vá, um shake-hands, Ega, faça isso por mim!... Alencar, vamos, peço-lho eu!
O autor de Elvira deu um passo, o autor das Memórias dum Átomo estendeu a mão: mas o primeiro aperto foi gauche e mole. Então Alencar, generoso e rasgado, exclamou que entre ele e o Ega não devia ficar uma nuvem! Tinha-se excedido... Fora o seu desgraçado génio, esse calor de sangue, que durante toda a existência só lhe trouxera lágrimas! E ali declarava bem alto que Ana Craveiro era uma santa! Tinha-a conhecido em Marco de Canavezes, em casa dos Peixotos... Como esposa, como mãe, Ana Craveiro era impecável. E reconhecia, do fundo da alma, que o Craveiro tinha carradas de talento!...
Encheu um copo de Champagne, ergueu-o alto, diante do Ega, como um cálice de altar:
- Á tua, João!
Ega, generoso também, respondeu:
- Á tua, Tomás!
Abraçaram-se. Alencar jurou que ainda na véspera, em casa de D. Joana Coutinho, ele dissera que não conhecia ninguém mais cintilante que o Ega! Ega afirmou logo que em poemas nenhuns corria, como nos do Alencar, uma tão bela veia lírica. Apertaram-se outra vez, com palmadas pelos ombros. Trataram-se de irmãos na arte, trataram-se de génios!...
- São extraordinários, disse Craft baixo a Carlos, procurando o chapéu. Desorganizam-me, preciso ar!...
A noite alongava-se, eram onze horas. Ainda se bebeu mais cognac. Depois Cohen saiu levando o Ega. Dâmaso e Alencar desceram com Carlos - que
ía recolher a pé pelo Aterro.
Á porta, o poeta parou com solenidade.
- Filhos, exclamou ele tirando o chapéu e refrescando largamente a fronte, então? Parece-me que me portei como um gentleman!
Carlos concordou, gabou-lhe a generosidade...
- Estimo bem que me digas isso, filho, porque tu sabes o que é ser gentleman! E agora vamos lá por esse Aterro fora... Mas deixa-me ir ali primeiro comprar um pacote de tabaco...
- Que tipo! exclamou Dâmaso, vendo-o afastar-se. E a coisa ía-se pondo feia...
E imediatamente, sem transição, começou a fazer elogios a Carlos. 0 Sr. Maia não imaginava há quanto tempo ele desejava conhece-lo!
- Oh senhor...
Creia V. Ex.ª... Eu não sou de sabujices... Mas pode V. Ex.ª perguntar ao Ega, quantas vezes o tenho dito: V. Ex.ª é a coisa melhor que há em Lisboa! Carlos, baixava a cabeça, mordendo o riso. Dâmaso, repetia, do fundo do peito.
- Olhe que isto é sincero, Sr. Maia! Acredite v Ex.ª que isto é do coração!
Era realmente sincero. Desde que Carlos habitava Lisboa, tivera ali, naquele moço gordo e bochechudo, sem o saber, uma adoração muda e profunda; o próprio verniz dos seus sapatos, a cor das suas luvas eram para o Dâmaso motivo de veneração, e tão importantes como princípios. Considerava Carlos um tipo supremo de chic, do seu querido chic, um Brumel, um d'Orsay, um Morny, - uma «destas coisas que só se vêem lá fora», como ele dizia arregalando os olhos. Nessa tarde sabendo que vinha jantar com o Maia, conhecer o Maia, estivera duas horas ao espelho experimentando gravatas, perfumara-se como para os braços duma mulher; - e por causa de Carlos mandara estacionar ali o coupé, ás dez horas, com o cocheiro de ramo ao peito.
- Então essa senhora brasileira vive aqui? perguntou Carlos, que dera dois passos, olhava uma janela alumiada no segundo andar.
Dâmaso seguiu-lhe o olhar.
- Vive lá do outro lado. Estão aqui há quinze dias... Gente chic... E ela é de apetecer, V. Ex.ª reparou? Eu a bordo atirei-me... E ela dava cavaco! Mas tenho andado muito preso desde que cheguei, jantar aqui, soirée acolá, umas aventurasitas...Não tenho podido cá vir, deixei-lhes só bilhetes; mas trago-a de olho, que ela demora-se... Talvez venha cá amanhã, estou cá agora a sentir umas cócegas... E se me pilho só com ela, zás, ferro-lhe logo um beijo! Que eu cá, não sei se V. Ex.ª é a mesma coisa, mas eu cá, com mulheres, a minha teoria é esta: atracção! Eu cá, é logo: atracção!
Nesse momento Alencar voltava do estanco, de charuto na boca. Dâmaso despediu-se, atirando muito alto ao cocheiro, para que Carlos ouvisse, a adresse da Moreli, segunda dama de S. Carlos.
- Bom rapaz, este Dâmaso, dizia Alencar, travando de braço de Carlos, ao seguirem ambos pelo Aterro. É lá muito dos Cohens, muito querido na sociedade. Rapaz de fortuna, filho do velho Silva, o agiota, que esfolou muito teu pai; e a mim também. Mas ele assina Salcede; talvez nome da mãe; ou talvez inventado. Bom rapaz... O pai era um velhaco! Parece que estou a ouvir o Pedro dizer-lhe com o seu ar de fidalgo, que o tinha e do grande: «Silva judeu, dinheiro, e a rodo!»... Outros tempos, meu Carlos, grandes tempos. Tempos de gente!
E então por esse longo Aterro, triste no ar escuro, com as luzes do gás dormente luzindo em fila de enterro, Alencar foi falando desses «grandes tempos» da sua mocidade e da mocidade de Pedro; e, através das suas frases de lírico, Carlos sentia vir como um aroma antiquado desse mundo defunto... Era quando os rapazes ainda tinham um resto de calor das guerras civis, e o calmavam indo em bando varrer botequins ou rebentando pilecas de sejes em galopadas para Sintra. Sintra era então um ninho de amores, e sob as suas românticas ramagens as fidalgas abandonavam-se aos braços dos poetas. Elas eram Elviras, eles eram Anthonys. O dinheiro abundava; a corte era alegre; a Regeneração literata e galante ia engrandecer o país, belo jardim da Europa; os bacharéis chegavam de Coimbra, frementes de eloquência; os ministros da coroa recitavam ao piano; o mesmo sopro lírico inchava as odes e os projectos de lei...
- Lisboa era bem mais divertida, disse Carlos.
- Era outra coisa, meu Carlos! Vivia-se! Não existiriam esses ares científicos, toda essa palhada filosófica, esses badamecos positivistas... Mas havia coração, rapaz! Tinha-se faisca! Mesmo nessas coisas da política... Vê esse chiqueiro agora aí, essa malta de bandalhos... Nesse tempo ía-se ali à câmara e sentia-se a inspiração, sentia-se o rasgo!... Via-se luz nas cabeças!... E depois, menino, havia muitíssimo boas mulheres.
Os ombros descaíam-lhe na saudade desse mundo perdido. E parecia mais lúgubre, com a sua grenha de inspirado saindo-lhe de sob as abas largas do chapéu velho, a sobrecasaca coçada e mal feita colando-se-lhe lamentavelmente ás ilhargas.
Um momento caminharam em silêncio. Depois, na rua das Janelas Verdes, o Alencar quis refrescar. Entraram numa pequena venda, onde a mancha
amarela dum candeeiro de petróleo destacava numa penumbra de subterrâneo, alumiando o zinco húmido do balcão, garrafas nas prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenço amarrado nos queixos. Alencar parecia íntimo no estabelecimento: apenas soube que a Sr.ª Cândida estava com dor de dentes, aconselhou logo remédios, familiar, descido das nuvens românticas, com os cotovelos sobre o balcão. E quando Carlos quis pagar a cana branca zangou-se, bateu a sua placa de dois tostões sobre o zinco polido, exclamou com nobreza:
- Eu é que faço a honra da bodega, meu Carlos! Nos palácios os outros pagarão... Cá na taberna pago eu!
Á porta tomou o braço de Carlos. Depois de alguns passos lentos no silêncio da rua, parou de novo, e murmurou numa voz vaga, contemplativa, como repassada da vasta solenidade da noite:
- Aquela Rachel Cohen é divinamente bela, menino! Tu conhece-la?
- De vista.
- Não te faz lembrar uma mulher da Bíblia? Não digo lá uma dessas viragos, uma Judit, uma Dalila... Mas um desses lírios poéticos da Bíblia...É seráfica!
Era agora a paixão platónica do Alencar, a sua dama, a sua Beatriz...
- Tu viste há tempos, no Diário Nacional, os versos que eu lhe fiz?
«Abril chegou! Sê minha»
Dizia o vento à rosa.
Não me saiu mau! Aqui há uma maliciasinha: Abril chegou, sê minha... Mas logo: dizia o vento à rosa. Compreendes? Calhou bem este efeito. Mas não imagines lá outras coisas, ou que lhe faço a corte... Basta ser a mulher do Cohen, um amigo, um irmão... E a Rachel, para mim, coitadinha, é como uma irmã... Mas é divina. Aqueles olhos, filho, um veludo liquido!...
Tirou o chapéu, refrescou a fronte vasta. Depois noutro tom, e como a custo:
- Aquele Ega tem muito talento... Vai lá muito aos Cohens... A Rachel acha-lhe graça...
Carlos parara, estavam defronte do Ramalhete. Alencar deu um olhar à severa frontaria de convento, adormecida, sem um ponto de luz.
- Tem bom ar esta vossa casa... Pois entra tu, meu rapaz, que eu vou andando por aqui para a minha toca. E quando quiseres, filho, lá me tens na
rua do Carvalho, 52, 3.º andar. O prédio é meu, mas eu ocupo o terceiro andar. Comecei por habitar no primeiro, mas tenho ido trepando... A única coisa mesmo que tenho trepado, meu Carlos, é de andares...
Teve um gesto, como desdenhando essas misérias.
- E hás-de ir lá jantar um dia. Não te posso dar um banquete, mas hás-de ter uma sopa e um assado... O meu Mateus, um preto, (um amigo!) que
me serve há muito ano, quando há que cozinhar, sabe cozinhar! Fez muito jantar a teu pai, ao meu pobre Pedro... Que aquilo foi casa de alegria, meu rapaz. Dei lá cama e mesa, e dinheiro para a algibeira, a muita dessa canalha que hoje por aí trota em coupé da companhia e de correio atrás... E agora, quando me avistam, voltam para o lado o focinho...
- Isso são imaginações, disse Carlos com amizade.
- Não são, Carlos, respondeu o poeta, muito grave, muito amargo. Não são. Tu não sabes a minha vida. Tenho sofrido muito repelão, rapaz. E não o merecia! Palavra, que o não merecia...
Agarrou o braço de Carlos, e com a voz abalada:
- Olha que esses homens que por aí figuram embebedavam-se comigo, emprestei-lhes muito pinto, dei-lhes muita ceia... E agora são ministros, são embaixadores, são personagens, são o diabo. Pois ofereceram-te eles um bocado do bolo agora que o têm na mão? Não. Nem a mim. Isto é duro, Carlos, isto é muito duro, meu Carlos. E que diabo, eu não queria que me fizessem conde, nem que me dessem uma embaixada... Mas aí alguma coisa numa secretaria... Nem um chavelho! Enfim, ainda há para o bocado do pão, e para a meia onça do tabaco... Mas esta ingratidão tem-me feito cabelos brancos... Pois não te quero maçar mais, e que Deus te faça feliz como tu mereces, meu Carlos!
- Tu não queres subir um bocado, Alencar?
Tanta franqueza enterneceu o poeta.
- Obrigado, rapaz, disse ele, abraçando Carlos. E agradeço-te isso, porque sei que vem do coração... Todos vocês têm coração... Já teu pai o tinha, e largo, e grande como o dum leão! E agora crê uma coisa: é que tens aqui um amigo. Isto não é palavriado, isto vem de dentro... Pois adeus, meu rapaz. Queres tu um charuto?
Carlos aceitou logo, como um presente do céu.
- Então aí tens um charuto, filho! exclamou Alencar com entusiasmo.
E aquele charuto dado a um homem tão rico, ao dono do Ramalhete, fazia-o por um momento voltar aos tempos em que nesse Marrare ele estendia em redor a charuteira cheia, com o seu grande ar de Manfredo triste. Interessou-se então pelo charuto. Acendeu ele mesmo um fósforo. Verificou se ficava bem aceso. E que tal, charuto razoável? Carlos achava um excelente charuto!
- Pois ainda bem que te dei um bom charuto!
Abraçou-o outra vez; e estava batendo uma hora, quando ele enfim se afastou, mais ligeiro, mais contente de si, trauteando um trecho de fado.
Carlos no seu quarto, antes de se deitar, acabando o péssimo charuto do Alencar estirado numa chaise-longue, em quanto Baptista lhe fazia uma chávena de chá, ficou pensando nesse estranho passado que lhe evocara o velho lírico...
E era simpático o pobre Alencar! Com que cuidado exagerado, ao falar de Pedro, de Arroios, dos amigos e dos amores de então, ele evitara pronunciar sequer o nome de Maria Monforte! Mais de uma vez, pelo Aterro fora, estivera para lhe dizer: - podes falar da mamã, amigo Alencar, que eu sei perfeitamente que ela fugiu com um italiano!
E isto fê-lo insensivelmente recordar da maneira como essa lamentável história lhe fora revelada, em Coimbra, numa noite de troça, quasi grotescamente. Por que o avô, obedecendo à carta testamentária de Pedro, contara-lhe um romance decente: um casamento de paixão, incompatibilidades de naturezas, uma separação cortês, depois a retirada da mamã com a filha para a França, onde tinham morrido ambas. Mais nada. A morte de seu pai fora-lhe apresentada sempre como o brusco remate duma longa nevrose...
Mas Ega sabia tudo, pelos tios... Ora uma noite tinham ceado ambos; Ega muito bêbedo, e num acesso de idealismo, lançara-se num paradoxo tremendo, condenando a honestidade das mulheres como origem da decadência das raças: e dava por prova os bastardos, sempre inteligentes, bravos, gloriosos! Ele, Ega, teria orgulho se sua mãe, sua própria mãe, em lugar de ser a santa burguesa que rezava o terço à lareira, fosse como a mãe de Carlos, uma inspirada, que por amor dum exilado abandonara fortuna, respeitos, honra, vida! Carlos, ao ouvir isto, ficara petrificado, no meio da ponte, sob o calmo luar. Mas não pôde interrogar o Ega, que já taramelava, agoniado, e que não tardou a vomitar-lhe ignóbilmente nos braços. Teve de o arrastar à casa das Seixas, despi-lo, aturar-lhe os beijos e a ternura borracha, até que o deixou abraçado ao travesseiro, babando-se, balbuciando - «que queria ser bastardo, que queria que a mamã fosse uma marafona!...»
E ele mal pudera dormir essa noite, com a ideia daquela mãe, tão outra do que lhe haviam contado, fugindo nos braços dum desterrado - um polaco talvez! Ao outro dia, cedo, entrava pelo quarto do Ega, a pedir-lhe, pela sua grande amizade, a verdade toda...
Pobre Ega! Estava doente: fez-se branco como o lenço que tinha amarrado na cabeça com panos de água sedativa: e não achava uma palavra, coitado! Carlos, sentado na cama, como nas noites de cavaco, tranquilizou-o. Não vinha ali ofendido, vinha ali curioso! Tinham-lhe ocultado um episódio extraordinário da sua gente, que diabo, queria sabe-lo! Havia romance? Para ali o romance!
Ega, então, lá ganhou animo, lá balbuciou a sua história - a que ouvira ao tio Ega - a paixão de Maria por um príncipe, a fuga, o longo silêncio de anos que se fizera sobre ela...
Justamente as ferias chegavam. Apenas em Sta. Olavia, Carlos contou ao avô a bebedeira do Ega, os seus discursos doidos, aquela revelação vinda entre arrotos. Pobre avô! Um momento nem pôde falar - e a voz por fim veio-lhe tão débil e dolente como se dentro do peito lhe estivesse morrendo o coração. Mas narrou-lhe, detalhe a detalhe, o feio romance todo até àquela tarde em que Pedro lhe aparecera, lívido, coberto de lama, a cair-lhe nos braços, chorando a sua dor com a fraqueza duma criança. - E o desfecho desse amor culpado, acrescentara o avô, fora a morte da mãe em Viena da Áustria, e a morte da pequenita, da neta que ele nunca vira, e que a Monforte levara... E eis aí tudo. E assim, aquela vergonha domestica estava agora enterrada, ali, no jazigo de Sta. Olavia, e em duas sepulturas distantes, em país estrangeiro...
Carlos recordava-se bem que nessa tarde, depois da melancólica conversa com o avô, devia ele experimentar uma égua inglesa: e ao jantar não se falou senão da égua que se chamava Sultana. E a verdade era que daí a dias tinha esquecido a mamã. Nem lhe era possível sentir por esta tragédia senão um interesse vago e como literário. Isso passara-se havia vinte e tantos anos, numa sociedade quasi desaparecida. Era como o episódio histórico de uma velha crónica de família, um antepassado morto em Alcácer-Quibir, ou uma das suas avós dormindo num leito real. Aquilo não lhe dera uma lágrima, não lhe pusera um rubor na face. De certo, preferiria poder orgulhar-se de sua mãe, como duma rara e nobre flor de honra: mas não podia ficar toda a vida a amargurar-se com os seus erros. E porque? A sua honra dele não dependia dos impulsos falsos ou torpes que tivera o coração dela. Pecara, morrera, acabou-se. Restava, sim, aquela ideia do pai, findando numa poça de sangue, no desespero dessa traição. Mas não conhecera seu pai: tudo o que possuía dele e da sua memória, para amar, era uma fria tela mal pintada, pendurada no quarto de vestir, representando um moço moreno, de grandes olhos, com luvas de camurça amarelas e um chicote na mão... De sua mãe não ficara nem um daguerreótipo, nem sequer um contorno a lápis. O avô tinha-lhe dito que era loura. Não sabia mais nada. Não os conhecera; não lhes dormira nos braços; nunca recebera o calor da sua ternura. Pai, mãe, eram para ele como símbolos dum culto convencional. O papá, a mamã, os seres amados, estavam ali todos - no avô.
Baptista trouxera o chá, o charuto do Alencar acabara; - e ele continuava na chaise-longue, como amolecido nestas recordações, e cedendo já, num meio adormecimento, à fadiga do longo jantar... E então, pouco a pouco, diante das suas pálpebras cerradas, uma visão surgiu, tomou cor, encheu todo o aposento. Sobre o rio, a tarde morria numa paz elisea. O peristilo do Hotel Central alargava-se, claro ainda. Um preto grisalho vinha, com uma cadelinha no colo. Uma mulher passava, alta, com uma carnação ebúrnea, bela como uma Deusa, num casaco de veludo branco de Guinava. O Craft dizia ao seu lado très-chic. E ele sorria, no encanto que lhe davam estas imagens, tomando o relevo, a linha ondeante, e a coloração de coisas vivas.
Eram três horas quando se deitou. E apenas adormecera, na escuridão dos cortinados de seda, outra vez um belo dia de inverno morria sem uma aragem, banhado de cor de rosa: o banal peristilo de Hotel alargava-se, claro ainda na tarde; o escudeiro preto voltava, com a cadelinha nos braços; uma mulher passava, com um casaco de veludo branco de Génova, mais alta que uma criatura humana, caminhando sobre nuvens, com um grande ar de Juno que remonta ao Olimpo: a ponta dos seus sapatos de verniz enterrava-se na luz do azul, por trás as saias batiam-lhe como bandeiras ao vento. E passava sempre... O Craft dizia très-chic. Depois tudo se confundia, e era só o Alencar, um Alencar colossal, enchendo todo o céu, tapando o brilho das estrelas com a sua sobrecasaca negra e mal feita, os bigodes esvoaçando ao vendaval das paixões, alçando os braços, clamando no espaço:
Abril chegou, sê minha!

Capítulo VII
No Ramalhete, depois do almoço, com as três janelas do escritório abertas bebendo a tépida luz do belo dia de março, Afonso da Maia e Craft jogavam uma partida de xadrez ao pé da chaminé já sem lume, agora cheia de plantas, fresca e festiva como um altar doméstico. Numa faixa oblíqua de sol, sobre o tapete, o Reverendo Bonifácio, enorme e fofo, dormia de leve a sua sesta.
Craft tornara-se, em poucas semanas, íntimo no Ramalhete. Carlos e ele, tendo muitas similitudes de gosto e de ideias, o mesmo fervor pelo bric-a-brac e pelo bibelot, o uso apaixonado da esgrima, igual diletantismo de espírito, uniram-se imediatamente em relações de superfície, fáceis e amáveis. Afonso, por seu lado começara logo a sentir uma estima elevada por aquele gentleman de boa raça inglesa, como ele os admirava, cultivado e forte, de maneiras graves, de hábitos rijos, sentindo finamente e pensando com rectidão. Tinham-se encontrado ambos entusiastas de Tácito, de Macaulay, de Burke, e até dos poetas lakistas; Craft era grande no xadrez; o seu carácter ganhara nas longas e trabalhadas viagens a rica solidez dum bronze; para Afonso da Maia «aquilo era deveras um homem». Craft, madrugador, saia cedo dos Olivais a cavalo, e vinha assim ás vezes almoçar de surpresa com os Maias; por vontade de Afonso jantaria lá sempre; - mas ao menos as noites passava-as invariavelmente no Ramalhete, tendo enfim, como ele dizia, encontrado em Lisboa um recanto onde se podia conversar bem sentado, no meio de ideias, e com boa educação.
Carlos saia pouco de casa. Trabalhava no seu livro. Aquela revoada de clientela que lhe dera esperanças duma carreira cheia, activa, tinha passado miseravelmente, sem se fixar; restavam-lhe três doentes no bairro; e sentia agora que as suas carruagens, os cavalos, o Ramalhete, os hábitos de luxo, o condenavam irremediavelmente ao diletantismo. Já o fino Dr. Teodosio lhe dissera um dia, francamente: «você é muito elegante para médico! As suas doentes, fatalmente, fazem-lhe olho! Quem é o burguês que lhe vai confiar a esposa dentro duma alcova?... Você aterra o pater-famílias!» O laboratório mesmo prejudicara-o. Os colegas diziam que o Maia, rico, inteligente, avido de inovações, de modernismos, fazia sobre os doentes experiências fatais. Tinha-se troçado muito a sua ideia, apresentada na Gazeta Medica, a prevenção das epidemias pela inoculação dos vírus. Consideravam-no um fantasista. E ele, então, refugiava-se todo nesse livro sobre a medicina antiga e moderna, o seu livro, trabalhado com vagares de artista rico, tornando-se o interesse intelectual de um ou dois anos.
Nessa manhã, em quanto dentro prosseguia grave e silenciosa a partida de xadrez, Carlos no terraço, estendido numa vasta cadeira índia de bambu, à sombra do toldo, acabava o seu charuto, lendo uma Revista inglesa, banhado pela carícia tépida daquele bafo de primavera que aveludava o ar, fazia já desejar árvores e relvas...
Ao lado dele, numa outra cadeira de bambu, também de charuto na boca, o Sr. Dâmaso Salcede percorria o Figaro. De perna estirada, numa indolência familiar, tendo o amigo Carlos ao seu lado, vendo junto ao terraço as rosas das roseiras de Afonso, sentindo por trás, através das janelas abertas, o rico e nobre interior do Ramalhete - o filho do agiota saboreava ali uma dessas horas deliciosas que ultimamente encontrava na intimidade dos Maias.
Logo na manhã seguinte ao jantar do Central, o Sr. Salcede fora ao Ramalhete deixar os seus bilhetes, objectos complicados e vistosos, tendo ao ângulo, numa dobra simulada, o seu retratosinho em fotografia, um capacete com plumas por cima do nome - DAMASO CANDIDO DE SALCEDE, por baixo as suas honras - COMMENDADOR DE CHRISTO, ao fundo a sua adresse - Rua de S. Domingos, à Lapa; mas esta indicação estava riscada, e ao lado, a tinta azul, esta outra mais aparatosa - GRAND HOTEL, BOULEVARD DES CAPUCINES, CHAMBRE N.º l03. Em seguida procurou Carlos no consultório, confiou ao criado outro cartão. Enfim, uma tarde, no Aterro, vendo passar Carlos a pé, correu para ele, pendurou-se dele, conseguiu acompanhá-lo ao Ramalhete.
Aí, logo desde o pátio, rompeu em admirações estáticas, como dentro dum museu, lançando, diante dos tapetes, das faianças e dos quadros, a sua grande frase - «chic a valer!» Carlos levou-o para o fumoir, ele aceitou um charuto; e começou a explicar, de perna traçada, algumas das suas opiniões e alguns dos seus gostos. Considerava Lisboa chinfrin, e só estava bem em Paris - sobre tudo por causa do género «fêmea» de que em Lisboa se passavam fomes: ainda que nesse ponto a Providencia não o tratava mal. Gostava também do bric-a-brac; mas apanhava-se muita espiga, e as cadeiras antigas, por exemplo, não lhe pareciam cómodas para a gente se sentar. A leitura entretinha-o, e ninguém o pilhava sem livros à cabeceira da cama; ultimamente andava ás voltas com Daudet, que lhe diziam ser muito chic, mas ele achava-o confusote. Em rapaz perdia sempre as noites, até ás quatro ou cinco da madrugada, no delírio! Agora não, estava mudado e pacato; enfim, não dizia que de vez em quando não se abandonasse a um excessozinho; mas só em dias duples... E as suas perguntas foram terríveis. O Sr. Maia achava chic ter um cab inglês? Qual era mais elegante, assim para um rapaz de sociedade que quisesse ir passar o verão lá fora, Nice ou Trouvile?... Depois ao sair, muito sério, quasi comovido, perguntou ao Sr. Maia (se o Sr.Maia não fazia segredo) quem era o seu alfaiate.
E desde esse dia, não o deixou mais. Se Carlos aparecia no teatro, Dâmaso imediatamente arrancava-se da sua cadeira, ás vezes na solenidade duma bela ária, e pisando os botins dos cavalheiros, amarrotando a compostura das damas, abalava, abria de estalo a claque, vinha-se instalar na frisa, ao lado de Carlos, com a bochecha corada, camélia na casaca, exibindo os botões de punho que eram duas enormes bolas. Uma ou duas vezes que Carlos entrara casualmente no Grémio, Dâmaso abandonou logo a partida, indiferente à indignação dos parceiros, para se vir colar à ilharga do Maia, oferecer-lhe marrasquino ou charutos, segui-lo de sala em sala como um rafeiro. Numa dessas ocasiões, tendo Carlos soltado um trivial gracejo, eis o Dâmaso rompendo em risadas soluçantes, rebolando-se pelos sofás, com as mãos nas ilhargas, a gritar que rebentava! Juntaram-se sócios; ele, sufocado, repetia a pilhéria; Carlos fugiu vexado. Chegou a odiá-lo; respondia-lhe só com monossílabos; dava voltas perigosas com o dog-cart se lhe avistava de longe a bochecha, a coxa roliça. Debalde: Dâmaso Cândido Salcede filara-o, e para sempre.
Depois, um dia, Taveira apareceu no Ramalhete com uma extraordinária história. Na véspera, no Grémio (tinham-lhe contado, ele não presenciara) um sujeito, um Gomes, num grupo onde se comentavam os Maias, erguera a voz, exclamara que Carlos era um asno! Dâmaso, que estava ao lado mergulhado na Ilustração, levantou-se, muito pálido, declarou que, tendo a honra de ser amigo do Sr. Carlos da Maia, quebrava a cara com a bengala ao Sr. Gomes se ele ousasse babujar outra vez esse cavalheiro; e o Sr. Gomes tragou, com os olhos no chão, a afronta, por ser raquítico de nascença - e porque era inquilino de Dâmaso e andava muito atrasado na renda. Afonso da Maia achou este feito brilhante: e foi por desejo seu que Carlos trouxe o Sr. Salcede uma tarde a jantar ao Ramalhete.
Este dia pareceu belo a Dâmaso como se fosse feito de azul e oiro. Mas melhor ainda foi a manhã em que Carlos, um pouco incomodado e ainda deitado, o recebeu no quarto, como entre rapazes... daí datava a sua intimidade: começou a tratar Carlos por você. Depois, nessa semana, revelou aptidões úteis. Foi despachar à alfândega (Vilaça achava-se no Alentejo) um caixote de roupa para Carlos. Tendo aparecido num momento em que Carlos copiava um artigo para a Gazeta Medica ofereceu a sua boa letra, letra prodigiosa, de uma beleza litográfica; e daí por diante passava horas à banca de Carlos, aplicado e vermelho, com a ponta da língua de fora, o olho redondo, copiando apontamentos, transcrições de Revistas, materiais para o livro... Tanta dedicação merecia um tu de familiaridade. Carlos deu-lho.
Dâmaso, no entanto, imitava o Maia com uma minuciosidade inquieta, desde a barba que começava agora a deixar crescer até à forma dos sapatos. Lançara-se no bric-a-brac. Trazia sempre o coupé cheio de lixos arqueológicos, ferragens velhas, um bocado de tijolo, a asa rachada de um bule... E se avistava um conhecido, fazia parar, entreabria a portinhola como um ádito de sacrário, exibia a preciosidade:
- Que te parece? Chic a valer!... Vou mostra-la ao Maia. Olha-me isto, hein! Pura meia idade, do reinado de Luís XIV. O Carlos vai-se roer de inveja!
Nesta intimidade de rosas havia todavia para Dâmaso horas pesadas. Não era divertido assistir em silêncio, do fundo duma poltrona, ás infindáveis discussões de Carlos e de Craft sobre arte e sobre ciência. E, como ele confessou depois, chegara a encavacar um pouco quando o levaram ao laboratório para fazer no seu corpo experiências de electricidade... - «Pareciam dois demónios engalfinhados em mim, disse ele à Sr.ª condessa de Gouvarinho; e eu então que embirro com o espiritismo!...»
Mas tudo isto ficava regiamente compensado, quando à noite, num sofá do Grémio, ou ao chá numa casa amiga, ele podia dizer, correndo a mão
pelo cabelo:
- Passei hoje um dia divino com o Maia. Fizemos armas, bric-a-brac, discutimos... Um dia, chic! Amanhã tenho uma manhã de trabalho com o Maia... Vamos ás colchas.
Nesse domingo, justamente, deviam ir ás colchas, ao Lumiar. Carlos concebera um boudoir, todo revestido de colchas antigas de cetim, bordadas a dois tons especiais, pérola e botão de ouro. O tio Abraão esquadrinhava-as por toda a Lisboa e pelos subúrbios; e nessa manhã viera anunciar a Carlos a existência de duas preciosidades, so beautiful! oh! so lovely! em casa de umas senhoras Medeiros que esperavam o Sr. Maia ás duas horas...
Já três vezes Dâmaso tossira, olhara o relógio, - mas, vendo Carlos confortavelmente mergulhado na Revista, recaia também na sua indolência de homem chic, investigando o Figaro. Enfim, dentro, o relógio Luís XV cantou argentinamente as duas...
- Esta é boa, exclamou Dâmaso ao mesmo tempo, com uma palmada na coxa. Olha quem aqui me aparece! A Suzana! A minha Suzana!
Carlos não despegara os olhos da pagina.
- Oh Carlos, acrescentou ele, fazes favor? Ouve. Ouve esta que é boa. Esta Suzana é uma pequena que eu tive em Paris... Um romance! Apaixonou-se por mim, quis-se envenenar, o diabo!... Pois diz aqui o Figaro que debutou nas Folies-Bergeres. Fala nela... É boa, hein? E era rapariguita chic... E o Figaro diz que ela teve aventuras, naturalmente sabia o que se passou comigo... Todo o mundo sabia em Paris. Ora a Suzana!... Tinha bonitas pernas. E custou-me a ver livre dela!
- Mulheres! murmurou Carlos, refugiando-se mais no fundo da Revista.
Dâmaso era interminável, torrencial, inundante a falar das «suas conquistas», naquela sólida satisfação em que vivia de que todas as mulheres, desgraçadas delas, sofriam a fascinação da sua pessoa e da sua toilete. E em Lisboa, realmente, era exacto. Rico, estimado na sociedade, com coupé e parelha, todas as meninas tinham para ele um olhar doce. E no démi-monde, como ele dizia, «tinha prestígio a valer.» Desde moço fora celebre, na capital, por por casas a espanholas; a uma mesmo dera carruagem ao mês; e este fausto excepcional tornara-o bem depressa o D. João V dos prostíbulos. Conhecia-se também a sua ligação com a viscondessa da Gafanha, uma carcassa esgalgada, caiada, rebocada, gasta por todos os homens válidos do país: ía nos cinquenta anos, quando chegou a vez do Dâmaso - e não era decerto uma delícia ter nos braços aquele esqueleto rangente e lúbrica; mas dizia-se que em nova dormira num leito real, e que augustos bigodes a tinham lambuzado; tanta honra fascinou Dâmaso, e colou-se-lhe ás saias com uma fidelidade tão sabuja, que a decrépita criatura, farta, enojada já, teve de o enxotar à força e com desfeitas. Depois gozou uma tragédia: uma actriz do Príncipe Real, uma montanha de carne, apaixonada por ele, numa noite de ciúme e de genebra, engoliu uma caixa de fósforos; naturalmente daí a horas estava boa, tendo vomitado abominavelmente sobre o colete do Dâmaso que chorava ao lado - mas desde então este homem de amor julgou-se fatal! Como ele dizia a Carlos, depois de tanto drama na sua vida quasi tremia, tremia verdadeiramente de fitar uma mulher...
- Passaram-se cenas com esta Suzana! murmurou ele depois de um silêncio em que estivera catando películas nos beiços.
E, com um suspiro, retomou o Figaro. Houve outra vez um silêncio no terraço. Dentro, a partida continuava. Para lá da sombra do toldo, agora, o sol ía aquecendo, batendo a pedra, os vasos de louça branca, numa refracção de ouro claro em que palpitavam as asas das primeiras borboletas voando em redor dos craveiros sem flor: em baixo, o jardim verdejava, imóvel na luz, sem um bulir de ramo, refrescado pelo cantar do repuxo, pelo brilho liquido da água do tanque, avivado, aqui e além, pelo vermelho ou o amarelo das rosas, pela carnação das ultimas camélias... O bocado de rio que se avistava entre os prédios era azul ferrete como o céu: e entre rio e céu o monte punha uma grossa barra verde-escura, quasi negra no resplendor do dia, com os dois moinhos parados no alto, as duas casinhas alvejando em baixo, tão luminosas e cantantes que pareciam viver. Um repouso dormente de domingo envolvia o bairro: e, muito alto, no ar, passava o claro repique dum sino.
- O duque de Norfolk chegou a Paris, disse Dâmaso num tom entendido e traçando a perna. O duque de Norfolk é chic, não é verdade, ó Carlos?
Carlos, sem erguer os olhos, lançou para os céus um gesto, como exprimindo o infinito do chic!
Dâmaso largara o Figaro para meter um charuto na boquilha; depois desapertou os últimos botões do colete, deu um puxão à camisa para mostrar melhor a marca que era um S enorme sob uma coroa de conde, e de pálpebra cerrada, com o beiço trombudo, ficou mamando gravemente a boquilha...
- Tu estás hoje em beleza, Dâmaso, disse-lhe Carlos que deixara também a Revista e o contemplava com melancolia.
Salcede corou de gozo. Escorregou um olhar ao verniz dos sapatos, à meia cor de carne, e revirando para Carlos o bogalho azulado da órbita:
- Eu agora ando bem... Mas, muito blazè.
E foi realmente com um ar blazè que se ergueu a ir buscar a uma mesa de jardim, ao lado, onde estavam jornais e charutos, a Gazeta Ilustrada, «para ver o que ia pela pátria.» Apenas lhe deitou os olhos soltou uma exclamação.
- Outro debute? perguntou Carlos.
- Não, é a besta do Castro Gomes!
A Gazeta Ilustrada anunciava que «o Sr. Castro Gomes, o cavalheiro brasileiro que no Porto fora vítima da sua dedicação por ocasião da desgraça ocorrida na Praça Nova, e de que o nosso correspondente J. T. nos deu uma descrição tão opulenta de colorido realista, acha-se restabelecido e é hoje esperado no Hotel Central. Os nossos parabéns ao arrojado gentleman.»
- Ora está s. Ex.ª restabelecida! exclamou Dâmaso, atirando para o lado o jornal. Pois deixa estar, que agora é a ocasião de lhe dizer na cara o que penso... Aquele pulha!
- Tu exageras, murmurou Carlos, que se apoderara vivamente do jornal, e relia a noticia.
- Ora essa! exclamou Dâmaso, erguendo-se. Ora essa! Queria ver, se fosse contigo... É uma besta! É um selvagem!
E repetiu mais uma vez a Carlos essa história que o magoava. Desde a sua chegada de Bordéus, logo que o Castro Gomes se instalara no Hotel Central, ele fora deixar-lhe bilhetes duas vezes - a ultima na manhã seguinte ao jantar do Ega. Pois bem, s. Ex.ª não se dignara agradecer a visita! Depois eles tinham partido para o Porto; fora aí que, passeando só na Praça Nova, vendo a parelha de uma caleche desbocada, duas senhoras em gritos, Castro Gomes se lançara ao freio dos cavalos - e, cuspido contra as grades, tinha deslocado um braço. Teve de ficar no Porto, no Hotel, cinco semanas. E ele imediatamente (sempre com o olho na mulher) mandara-lhe dois telegramas: um de sentimento, lamentando, outro de interesse, pedindo noticias. Nem a um, nem a outro, o animal respondeu!
- Não, isso - exclamava Salcede, passeando pelo terraço, e recordando estas injurias - hei de lhe fazer uma desfeita!... Não pensei ainda o quê, mas há de amargar-lhe... Lá isso, desconsiderações não admito a ninguém! a ninguém!
Arredondava o olho, ameaçador. Desde o seu feito no Grémio, quando o raquítico apavorado emudecera diante dele, Dâmaso ia-se tornando feroz. Pela menor coisa falava em «quebrar caras.»
- A ninguém! repetia ele, com puxões ao colete. Desconsiderações, a ninguém!
Nesse momento ouviu-se dentro, no escritório, a voz rápida do Ega - e quasi imediatamente ele apareceu, com um ar de pressa, e atarantado.
- Olá, Dâmasosinho!... Carlos, dás-me aqui em baixo uma palavra?
Desceram do terraço, penetraram no jardim, até junto de duas olaias em flor.
- Tu tens dinheiro? - foi aí logo a exclamação ansiosa do Ega.
E contou a sua terrível atrapalhação. Tinha uma letra de noventa libras que se vencia no dia seguinte. Além disso, vinte e cinco libras que devia ao Euzebiosinho, e que ele lhe reclamara numa carta indecente: e era isto que desesperava o Ega...
- Quero pagar a esse canalha, e quando o vir colar-lhe a carta à cara com um escarro. Além disso a letra! E tenho para tudo isto quinze tostões...
- O Euzebiosinho é homem de ordem... Enfim, queres cento e quinze libras, disse Carlos.
Ega hesitou, com uma cor no rosto. Já devia dinheiro a Carlos. Estava-se sempre dirigindo àquela amizade, como a um cofre inesgotável...
- Não, bastam-me oitenta. Ponho o relógio no prego, e a peliça, que já não faz frio...
Carlos sorriu, subiu logo ao quarto a escrever um cheque - em quanto Ega procurava cuidadosamente um bonito botão de rosa para florir a sobrecasaca. Carlos não tardou, trazendo na mão o cheque, que alargara até cento e vinte libras, para o Ega ficar armado...
- Seja pelo amor de Deus, menino! disse o outro, embolsando o papel, com um belo suspiro de alívio.
Imediatamente trovejou contra o Euzebiosinho, esse vilão! Mas tinha já uma vingança. Ia remeter-lhe a soma toda em cobre, num saco de carvão, com um rato morto dentro, e um bilhete, começando assim: - ascorosa lombriga e imunda osga, aí te atiro ao focinho, etc....
- Como tu podes consentir aqui, usando as tuas cadeiras, respirando o teu ar, aquele ser repulsivo!...
Mas era até sujo mencionar o Euzebiosinho!... Quis saber dos trabalhos de Carlos, do grande livro. Falou também do seu Átomo: - e, por fim, numa voz diferente, aplicando o monóculo a Carlos:
- Dize-me outra coisa. Porque não tens tu voltado aos Gouvarinhos?
Carlos tinha só esta razão: não se divertia lá.
Ega encolheu os ombros. Parecia-lhe aquilo uma puerilidade...
- Tu não percebeste nada, exclamou ele. Aquela mulher tem uma paixão por ti... Basta que se pronuncie o teu nome, sobe-lhe todo o sangue à cara.
E como Carlos ria, incrédulo, Ega, muito grave, deu a sua palavra de honra. Ainda na véspera, estava-se falando de Carlos, e ele espreitara-a. Sem ser um Balzac, nem uma broca de observação, tinha a visão correcta: pois bem, lá lhe vira na face, nos olhos, toda a expressão de um sentimento sincero...
- Não estou a fazer romance, menino... Gosta de ti, palavra! Tem-la quando quiseres.
Carlos achava deliciosa aquela naturalidade mefistofélica com que Ega o induzia a quebrar uma infinidade de leis religiosas, morais, sociais, domesticas...
- Ah bem, exclamou Ega, se tu me vens com essa blague da cartilha e do código, então não falemos mais nisso! Se apanhaste a sarna da virtude, com comichões por qualquer coisa, então era uma vez um homem, vai para a Trapa comentar o Eclesiastes.
- Não - disse Carlos, sentando-se num banco sob as árvores, ainda com uns restos da preguiça do terraço - o meu motivo não é tão nobre. Não vou lá, porque acho o Gouvarinho um maçador.
Ega teve um sorriso mudo.
- Se a gente fosse a fugir das mulheres que tem maridos maçadores...
Sentou-se ao lado de Carlos, começou a riscar em silêncio o chão areado; e sem erguer os olhos, deixando cair as palavras, uma a uma, com melancolia:
- Antes de ontem, toda a noite, a pé firme, das dez à uma, estive a ouvir a história da demanda do Banco Nacional!
Era quasi uma confidência, e como o desabafo dos tédios secretos em que se debatia, naquele mundo dos Cohens, o seu temperamento de artista. Carlos enterneceu-se.
- Meu pobre Ega, então toda a demanda?
- Toda! E a leitura do relatório da assembleia geral! E interessei-me! E tive opiniões!... A vida é um inferno.
Subiram ao terraço. Dâmaso reocupara a sua cadeira de vime, e, com um canivetesinho de madrepérola, estava tratando das unhas.
- Então decidiu-se? perguntou ele logo ao Ega.
- Decidiu-se ontem! Não há cotilon.
Tratava-se de uma grande soirée mascarada que iam dar os Cohens, no dia dos anos de Rachel. A ideia desta festa sugerira-a o Ega, ao principio com grandes proporções de gala artística, a ressurreição histórica de um sarau no tempo de D. Manuel. Depois viu-se que uma tal festa era realizável em Lisboa - e desceu-se a um plano mais sóbrio, um simples baile costumé, a capricho...
- Tu, Carlos, já decidiste como vais?
- De dominó, um severo dominó preto, como convém a um homem de ciência...
- Então, exclamou Ega se se trata de ciência, vai de rabona e chinelas de ourelo!... A ciência faz-se em casa e de chinelas... Nunca ninguém descobriu uma lei do Universo metido dentro de um dominó... Que sensaboria, um dominó!...
Justamente a Sr.ª D. Rachel desejava evitar, no seu baile, essa monotonia dos dominós. E em Carlos não havia desculpa. Não o prendiam vinte ou trinta libras; e, com aquele esplêndido físico de cavaleiro da Renascença, devia ornar a sala pelo menos com um soberbo Francisco I.
- É nisto, ajuntava ele com fogo, que está a beleza de uma soirée de mascaras! Não lhe parece você, Dâmaso? Cada um deve aproveitar a sua figura... Por exemplo, a Gouvarinho vai muito bem. Teve uma inspiração: com aquele cabelo ruivo, o nariz curto, as maçãs do rosto salientes, é Margarida de Navarra...
- Quem é Margarida de Navarra? perguntou Afonso da Maia, aparecendo no terraço com Craft.
- Margarida, a duquesa de Angouleme, a irmã de Francisco I, a Margarida das Margaridas, a pérola dos Valois, a padroeira da Renascença, a Sr.ª condessa de Gouvarinho!...
Rio muito, foi abraçar Afonso, explicou-lhe que se discutia o baile dos Cohens. E apelou logo para ele, para o Craft também, acerca do nefando dominó de Carlos. Não estava aquele mocetão, com os seus ares de homem de armas, talhado para um soberbo Francisco I, em toda a glória de Marignan?
O velho deu um olhar enternecido à beleza do neto.
- Eu te digo, John, talvez tenhas razão; mas Francisco I, rei de França, não se pode apear de uma tipóia e entrar numa sala, só. Precisa corte, arautos, cavaleiros, damas, bobos, poetas... Tudo isso é difícil.
Ega curvou-se. Sim senhor, de acordo! Ali estava uma maneira inteligente de compreender o baile dos Cohens!
- E tu, de que vais? perguntou-lhe Afonso.
Era um segredo. Tinha a teoria de que, naquelas festas, um dos encantos consistia na surpresa: dois sujeitos por exemplo que tendo jantado juntos, de jaquetão, no Bragança, se encontram à noite, um na púrpura imperial de Carlos V, outro com a escopeta de bandido da Calabria...
- Eu cá não faço segredo, disse ruidosamente Dâmaso. Eu cá vou de selvagem.
- Nú?
- Não. De Nelusko na Africana. Oh Sr. Afonso da Maia, que lhe parece? Acha chic?
- Chic não exprime bem, disse Afonso sorrindo. Mas grandioso, é, decerto.
Quiseram então saber como ía Craft. Craft não ía de coisa nenhuma; Craft ficava nos Olivais, de robe de chambre.
Ega encolheu os ombros com tédio, quasi com cólera. Aquelas indiferenças pelo baile dos Cohens feriam-no como injurias pessoais. Ele estava dando a essa festa o seu tempo, estudos na biblioteca, um trabalho fumegante de imaginação; e pouco a pouco ela tomava aos seus olhos a importância de uma celebração de arte, provando o génio de uma cidade. Os «dominós», as abstenções, pareciam-lhe evidencias de inferioridade de espírito. Citou então o exemplo do Gouvarinho: ali estava um homem de ocupações, de posição política, nas vésperas de ser ministro, que não só ía ao baile, mas estudara o seu costume: estudara, e ía muito bem, ía de marquês de Pombal!
- Reclame para ser ministro, disse Carlos.
- Não o precisa, exclamou Ega. Tem todas as condições para ser ministro: tem voz sonora, leu Mauricio Block, está encalacrado, e é um asno!...
E no meio das risadas dos outros, ele, arrependido de demolir assim um cavalheiro que se interessava pelo baile dos Cohens, acudiu logo:
- Mas é muito bom rapaz, e não se dá ares nenhuns! É um anjo!
Afonso repreendia-o, risonho e paternal:
- Ora tu, John, que não respeitas nada...
O desacato é a condição do progresso, Sr. Afonso da Maia. Quem respeita decai. Começa-se por admirar o Gouvarinho, vai-se a gente esquecendo, chega a reverenciar o monarca, e quando mal se precata tem descido a venerar o Todo-Poderoso!... É necessário cautela!
- Vai-te embora, John, vai-te embora! Tu és o próprio Anti-Cristo...
Ega ía responder, exuberante e em veia - mas dentro o tinir argentino do relógio Luís XV, com o seu gentil minuete, emudeceu-o.
- O que? quatro horas!
Ficou aterrado, verificou no seu próprio relógio, deu em redor rápidos, silenciosos apertos de mão, desapareceu como um sopro.
Todos de resto estavam pasmados de ser tão tarde! E assim passara a hora de ir ao Lumiar ver as colchas antigas das senhoras Medeiros...
- Quer você então meia hora de florete, Craft? perguntou Carlos.
- Seja: e é necessário dar a lição ao Dâmaso...
- É verdade, a lição... - murmurou Dâmaso sem entusiasmo, com um sorriso murcho.
A sala de esgrima era uma casa térrea, debaixo dos quartos de Carlos, com janelas gradeadas para o jardim, por onde resvalava, através das árvores, uma luz esverdinhada. Em dias enevoados era necessário acender os quatro bicos de gás. Dâmaso seguiu, atrás dos dois, com uma lentidão de rês desconfiada.
Aquelas lições, que ele solicitara por amor do chic, iam-se-lhe tornando odiosas. E nessa tarde como sempre, apenas se enchumaçou com o plastrão de anta, se cobriu com a caraça de arame, começou a transpirar, a fazer-se branco. Diante dele Craft de florete na mão, parecia-lhe cruel e bestial, com aqueles seus ombros de Hercules sereno, o olhar claro e frio. Os dois ferros rasparam. Dâmaso estremeceu todo.
- Firme, gritou-lhe Carlos.
O desgraçado equilibrava-se sobre a perna roliça; o florete de Craft vibrou, rebrilhou, voou sobre ele; Dâmaso recuou, sufocado, cambaleando e com o braço frouxo...
- Firme! berrava-lhe Carlos.
Dâmaso, exausto, abaixou a arma.
- Então que querem vocês, é nervoso! É por ser a brincar... Se fosse a valer, vocês veriam.
Assim acabava sempre a lição; e ficava depois abatido sobre uma banqueta de marroquim, arejando-se com o lenço, pálido como a cal dos muros.
- Vou-me até casa, disse ele daí a pouco, fatigado de tanto cruzar de ferro. Queres alguma coisa, Carlinhos?
- Quero que venhas cá jantar amanhã... Tens o marquês.
- Chic a valer... Não faltarei.
Mas faltou. E, como toda essa semana aquele moço pontual não apareceu no Ramalhete, Carlos sinceramente inquieto, julgando-o moribundo, foi uma manhã a casa dele, à Lapa. Mas ai, o criado (um galego achavascado e triste, que, desde as suas relações com os Maias, Dâmaso trazia entalado numa casaca e mortalmente aperreado em sapatos de verniz) afirmou-lhe que o Sr. Dâmasosinho estava de boa saúde, e até saíra a cavalo. Carlos veio então ao tio Abraão; o tio Abraão também não avistara, havia dias, aquele bom senhor Salcede, that beautiful gentleman! A curiosidade de Carlos levou-o ao Grémio: no Grémio nenhum criado vira ultimamente o Sr. Salcede. «Está por aí de lua de mel com alguma bela andaluza» pensou Carlos.
Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que se dirigia ao Aterro, a pé, seguido da sua vitória a passo. Era a segunda vez que o diplomata fazia exercício depois do seu desgraçado ataque de entranhas. Mas não tinha já vestígios da doença: vinha todo rosado e loiro, muito sólido na sua sobrecasaca, e com uma bela rosa de chá na botoeira. Declarou mesmo a Carlos que estava «mais forrte». E não lamentava os sofrimentos, porque eles lhe tinham dado o meio de apreciar as simpatias que gozava em Lisboa. Estava enternecido. Sobretudo o cuidado de S. M. - o augusto cuidado de S. M. - fizera-lhe melhor que «todos os drogues de botique»! Realmente nunca as relações entre esses dois países, tão estreitamente aliados, Portugal e Finlândia, tinham sido «màs firmes, pur assi dizerre màs intimes, que durrante seu ataque de intestinais»!
Depois, travando do braço a Carlos, aludiu comovido ao oferecimento de Afonso da Maia, que pusera à sua disposição Sta. Olavia, para ele se restabelecer nesses ares fortes e limpos do Douro. Oh esse convite tocara-o au plus profond de son coeur. Mas, infelizmente, Sta. Olavia era longe, tão longe!... Tinha de se contentar com Sintra, de onde podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a Legação. C'était enuyeux, mais... A Europa estava num desses momentos de crise, em que homens de estado, diplomatas, não podiam afastar-se, gozar as menores ferias. Precisavam estar ali, na brecha, observando, informando...
- C'est très grave, murmurou ele, parando, com um pavor vago no olhar azulado... C'est excessivement grave!
Pediu a Carlos que olhasse em torno de si para a Europa. Por toda a parte uma confusão, um gachis. Aqui a questão do Oriente; alem o socialismo; por cima o Papa, a complicar tudo... Oh, très grave!
- Tenez, la France, par exemple... D'abord Gambeta. Oh, je ne dis pas non, il est très fort, il est excessivement fort... Mais... Voilá! C'est très grave...
Por outro lado os radicais, les nouveles couches... Era excessivamente grave...
- Tenez, je vais vous dire une chose, entre nous!
Mas Carlos não escutava, nem sorria já. Do fim do Aterro aproximava-se, caminhando depressa, uma senhora - que ele reconheceu logo, por esse andar que lhe parecia de uma deusa pisando a terra, pela cadelinha cor de prata que lhe trotava junto ás saias, e por aquele corpo maravilhoso, onde vibrava, sob linhas ricas de mármore antigo, uma graça quente, ondeante e nervosa. Vinha toda vestida de escuro, numa toilete de serge muito simples que era como o complemento natural da sua pessoa, colando-se bem sobre ela, dando-lhe, na sua correcção, um ar casto e forte; trazia na mão um guarda-sol inglês, apertado e fino como uma cana; e toda ela, adiantando-se assim no luminoso da tarde, tinha, naquele cais triste de cidade antiquada, um destaque estrangeiro, como o requinte raro de civilizações superiores. Nenhum véu, nessa tarde, lhe assombreava o rosto. Mas Carlos não pôde detalhar-lhe as feições; apenas de entre o esplendor ebúrneo da carnação sentiu o negro profundo de dois olhos que se fixaram nos seus. Insensivelmente deu um passo para a seguir. Ao seu lado Steinbroken, sem ver nada, estava achando Bismark assustador. Á maneira que ela se afastava, parecia-lhe maior, mais bela: e aquela imagem falsa e literária de uma deusa marchando pela terra prendia-se-lhe à imaginação. Steinbroken ficara aterrado com o discurso do Chanceler no Reichstag... Sim, era bem uma deusa. Sob o chapéu numa forma de trança enrolada, aparecia o tom do seu cabelo castanho, quasi louro à luz; a cadelinha trotava ao lado, com as orelhas direitas.
- Evidentemente, disse Carlos, Bismarck é inquietador...
Steinbroken porém já deixara Bismark. Steinbroken agora atacava lord Beaconsfield.
- Il est très fort... Oui, je vous l'acorde, il est excessivement fort... Mais voilà... Où va-t-il?
Carlos olhava para o cais de Sodré. Mas tudo lhe parecia deserto. Steinbroken antes de adoecer, justamente, tinha dito ao ministro dos negócios estrangeiros aquilo mesmo: lord Beaconsfield é muito forte, mas para onde vai ele? O que queria ele?... E s. Ex.ª tinha encolhido os ombros... S. Ex.ª não sabia...
- Eh, oui! Beaconsfield est très fort... Vous avez lu son speech chez le Lord-Maire? Epatant, mon cher, epatant!... Mais voilà... Où va-t-il?
- Steinbroken, não me parece que seja prudente deixar-se estar aqui a arrefecer no Aterro...
- Devérras? exclamou o diplomata, passando logo a mão rapidamente pelo estômago e pelo ventre.
E não se quis demorar um instante mais! Como Carlos ía recolher também, ofereceu-lhe um lugar na vitória até ao Ramalhete.
- Venha então jantar conosco, Steinbroken.
- Charmé, mon cher, charmé...
A vitória partiu. E o diplomata agasalhando as pernas e o estômago num grande plaid escocês:
- Pôs, Maia, fezemos um belo passêo... Mas este Atêrro no é deverrtido.
Não era divertido o Aterro!... Carlos achara-o nessa tarde o mais delicioso lugar da terra!
Ao outro dia, voltou mais cedo; e, apenas dera alguns passos entre as árvores, viu-a logo. Mas não vinha só; ao seu lado o marido, esticado, apurado numa jaqueta de casimira quasi branca, com uma ferradura de diamantes no cetim negro da gravata, fumava, indolente e lânguido, e trazia a cadelinha debaixo do braço. Ao passar, deu um olhar surpreendido a Carlos - como descobrindo enfim entre os bárbaros um ser de linha civilizada, e disse-lhe algumas palavras baixo, a ela.
Carlos encontrara outra vez os seus olhos, profundos e sérios: mas não lhe parecera tão bela; trazia uma outra toilete menos simples, de dois tons, cor de chumbo e cor de creme, e no chapéu, de abas grandes à inglesa, avermelhada alguma coisa, flor ou pena. Nessa tarde não era a deusa descendo das nuvens de ouro que se enrolavam alem sobre o mar; era uma bonita senhora estrangeira que recolhia ao seu hotel.
Voltou ainda três vezes ao Aterro, não a tornou a ver; e então envergonhou-se, sentiu-se humilhado com este interesse romanesco que o trazia assim numa inquietação de rafeiro perdido, farejando o Aterro, da rampa de Santos ao cais de Sodré, à espera de uns olhos negros e de uns cabelos louros de passagem em Lisboa, e que um paquete da Royal Mail levaria uma dessas manhãs...
E pensar que toda essa semana deixara o seu trabalho abandonado sobre a mesa! E que todas as tardes, antes de sair, se demorava ao espelho, estudando a gravata! Ah, miserável, miserável natureza.
Ao fim dessa semana, Carlos estava no consultório, já para sair, calçando as luvas, quando o criado entreabriu o reposteiro, e murmurou com alvoroço:
- Uma senhora!
Apareceu um menino muito pálido, de caracóis louros, vestido de veludo preto - e atrás uma mulher, toda de negro, com um véu justo e espesso
como uma mascara.
- Creio que vim tarde, disse ela, hesitando, junto da porta. O Sr. Carlos da Maia ia sair...
Carlos reconheceu a Gouvarinho.
- Oh senhora condessa!
Desembaraçou logo o divã dos jornais e das brochuras; ela olhou um momento, como indecisa, aquele amplo e mole assento de serralho; depois sentou-se à borda e de leve, com o pequeno junto de si.
- Venho trazer-lhe um doente, disse ela sem erguer o véu, como falando do fundo daquela toilete negra que a dissimulava. Não o mandei chamar, por que realmente pouco é, e tinha hoje de passar por aqui... Além disso, o meu pequeno é muito nervoso; se vê entrar o médico, parece-lhe que vai morrer. Assim é como uma visita que se faz... E não tens medo, não é verdade, Charlie?
O pequeno não respondeu; de pé, quedo ao lado da mamã; mimoso e débil sob os caracóis de anjo que lhe caiam até aos ombros, devorava Carlos com uns grandes olhos tristes.
Carlos pôs um interesse quasi terno na sua pergunta:
- Que tem ele?
Havia dias, aparecera-lhe uma empigem no pescoço. Além disso, por traz da orelha, tinha como uma dureza de caroço. Aquilo inquietava-a. Ela era forte, de uma boa raça, que dera atletas e velhos de grande idade. Mas na família do marido, em todos os Gouvarinhos, havia uma anemia hereditária. O conde mesmo, com aquela sólida aparência, era um achacado. E ela, receando que a influência debilitante de Lisboa não conviesse a Charlie, estava com o vago projecto de lhe fazer ir passar algum tempo ao campo, em Formoselha, a casa da avó.
Carlos, aproximando ligeiramente a cadeira, estendeu os braços a Charlie:
- Ora venha cá o meu lindo amigo, para vermos isso. Que magnífico cabelo ele tem, senhora condessa!...
Ela sorrio. E Charlie, seriosinho, bem ensinado, sem aquele terror do médico de que falara a mamã veio logo, desapertou delicadamente o seu grande colarinho, e, quasi entre os joelhos de Carlos, dobrou o pescoço macio e alvo como um lírio.
Carlos viu apenas uma pequena mancha cor de rosa desvanecendo-se; do «caroço» não havia vestígio; e então uma ligeira vermelhidão subiu-lhe ao rosto, procurou vivamente os olhos da condessa, como compreendendo tudo, querendo ver neles a confissão do sentimento que a trouxera ali com um pretexto pueril, sob aquela toilete negra, aqueles véus que a mascaravam...
Mas ela permaneceu impenetrável, sentada à borda do divã, com as mãos cruzadas, atenta, como esperando as suas palavras, num vago susto de mãe.
Carlos abotoou o colarinho do pequeno, e disse:
- Não é absolutamente nada, minha senhora.
No entanto, fez perguntas de médico sobre o regime e a natureza de Charlie. A condessa, num tom pesaroso, queixou-se de que a educação da criança não fosse, como ela desejava, mais forte e mais viril; mas o pai opunha-se ao que ele chamava «a aberração inglesa», a água fria, os exercícios a todo o ar, a ginástica...
- A água fria e a ginástica, disse Carlos sorrindo, têm melhor reputação do que merecem...
É o seu único filho, senhora condessa?
- É, tem os mimos de morgado, disse ela passando a mão pelos cabelos louros do pequeno.
Carlos assegurou-lhe que, apesar do seu aspecto nervoso e delicado, Charlie não devia dar-lhe cuidado; nem havia necessidade de o exilar para os ares de Formoselha... Depois ficaram um momento calados.
- Não imagina como me tranquilizou, disse ela, erguendo-se, dando um jeito ao véu. De mais a mais é um gosto vir consulta-lo... Não há aqui o menor ar de doença, nem de remédios... E realmente tem isto muito bonito... - acrescentou, dando um olhar lento em redor aos veludos do gabinete.
- Tem justamente esse defeito, exclamou Carlos rindo. Não inspira nenhum respeito pela minha ciência... Eu estou com ideias de alterar tudo, por aqui um crocodilo empalhado, corujas, retortas, um esqueleto, pilhas de in-fólios...
- A cela de Fausto.
- Justamente, a cela de Fausto.
- Falta-lhe Mefistófeles, disse ela alegremente, com um olhar que brilhou sob o véu.
- O que me falta é Margarida!
A senhora condessa, com um lindo movimento, encolheu os ombros, como duvidando discretamente; depois tomou a mão de Charlie, e deu um passo lento para a porta, puxando outra vez o véu.
- Como V. Ex.ª se interessa pela minha instalação, acudiu Carlos querendo retê-la, deixe-me mostrar-lhe a outra sala.
Correu o reposteiro. Ela aproximou-se, murmurou algumas palavras, aprovando a frescura dos cretones, a harmonia dos tons claros: depois o piano fe-la sorrir.
- Os seus doentes dançam quadrilhas?
- Os meus doentes, senhora condessa, respondeu Carlos, não são bastante numerosos para formar uma quadrilha. Raras vezes mesmo tenho dois para uma valsa... O piano está simplesmente ali para dar ideias alegres; é como uma promessa tácita de saúde, de futuras soirées, de bonitas árias do Trovador, em família...
- É engenhoso, disse ela dando familiarmente alguns passos na sala, com Charlie colado aos vestidos.
E Carlos, caminhando ao lado dela:
- V. Ex.ª não imagina como eu sou engenhoso!
- Já noutro dia me disse... Como foi que disse? Ah! que era muito inventivo quando odiava.
- Muito mais quando amo, disse ele rindo.
Mas ela não respondeu: parara junto do piano, remexeu um momento as músicas espalhadas, feriu duas notas no teclado.
- É um chocalho.
- Oh, senhora condessa!
Ela seguiu, foi examinar um quadro a óleo, copiado de Landseer - um focinho de cão de S. Bernardo, maciço e bonacheirão, adormecido sobre as patas. Quasi roçando-lhe o vestido, Carlos sentia o fino perfume de verbena que ela usava sempre exageradamente: e, entre aqueles tons negros que a cobriam, a sua pele parecia mais clara, mais doce à vista, e atraindo como um cetim.
- Este é um horror, murmurou ela, voltando-se; mas disse-me o Ega que há quadros lindos no Ramalhete... Falou-me sobretudo dum Greuze e dum Rubens... É pena que se não possam ver essas maravilhas.
Carlos lamentava também que uma existência de solteirões lhes impedisse, a ele e ao avô, de receberem senhoras. O Ramalhete estava tomando uma melancolia de mosteiro. Se assim continuassem mais alguns meses, sem que se sentisse ali um calor de vestido, um aroma de mulher, vinha a nascer a erva pelos tapetes.
- É por isso, acrescentou ele muito sério, que eu vou obrigar o avô a casar-se.
A condessa riu, os seus lindos dentes miudinhos alvejaram na sombra do véu.
- Gosto da sua alegria, disse ela.
- É uma questão de regime. V. Ex.ª não é alegre?
Ela encolheu os ombros, sem saber... Depois, batendo com a ponta do guarda-sol na sua botina de verniz que brilhava sobre o tapete claro, murmurou com os olhos baixos, deixando ir as palavras, num tom de intimidade e de confidência:
- Dizem que não, que sou triste, que tenho spleen...
O olhar de Carlos seguira o dela, pousara-se na botina de verniz que calçava delicadamente um pé fino e comprido: Charlie, entretido, mexia nas teclas do piano - e ele baixou a voz para lhe dizer:
- É que a senhora condessa tem um mau regime. É necessário tratar-se, voltar aqui, consultar-me... Tenho talvez muito que lhe dizer!
Ela interrompeu-o vivamente, erguendo para ele os olhos, de onde se escapou um clarão de ternura e de triunfo:
- Venha-mo antes dizer um destes dias, tomar chá comigo, ás cinco horas... Charlie!
O pequeno veio logo dependurar-se-lhe do braço.
Carlos, acompanhando-a abaixo à rua, lamentava a fealdade da sua escada de pedra:
- Mas vou mandar atapetar tudo para quando a senhora condessa volte a dar-me a honra de me vir consultar...
Ela gracejou, toda risonha:
Ah não! O Sr. Carlos da Maia prometeu-nos a todos a saúde... E naturalmente não espera que seja eu que venha cá tomar chá consigo...
- Oh, minha senhora, eu quando começo a esperar, não ponho limites nenhuns ás minhas esperanças...
Ela parou, com o pequeno pela mão, olhou para ele, como pasmada, encantada com aquela grandiosa certeza de si mesmo.
- Então vai por aí além, por aí além...?
- Vou por aí além, por aí além, minha senhora!
Estavam no ultimo degrau, diante da claridade e do rumor da rua.
- Mande-me chegar um coupé.
Um cocheiro, ao aceno de Carlos, lançou logo a tipóia.
- E agora, disse ela sorrindo, mande-o ir à igreja da Graça.
- A senhora condessa vai beijar o pé do Senhor dos Passos?
Ela corou de leve, murmurou:
- Ando fazendo as minhas devoções...
Depois saltou ligeiramente para o coupé - deixando Charlie, que Carlos ergueu nos braços e lhe colocou ao lado, paternalmente.
- Que Deus a leve em sua santa guarda, senhora condessa!
Ela agradeceu com um olhar, um movimento de cabeça - ambos tão doces como carícias.
Carlos subiu: e, sem tirar o chapéu, ficou ainda enrolando uma cigarrete, passeando naquela sala sempre deserta, sempre fria, onde ela deixara agora alguma coisa do seu calor e do seu aroma...
Realmente gostava daquela audácia dela - ter vindo assim ao consultório, toda escondida, quasi mascarada numa grande toilete negra, inventando um caroço no pescocinho são de Charlie, para o ver, para dar um nó brusco e mais apertado naquele leve fio de relações que ele tão negligentemente deixara cair e quebrar...
O Ega desta vez não fantasiara: aquele bonito corpo oferecia-se, tão claramente como se se despisse. Ah! se ela fosse de sentimentos errantes e fáceis - que bela flor a colher, a respirar, a deitar fora depois! Mas não: como dizia o Baptista, a senhora condessa nunca se tinha divertido. E o que ele não queria era achar-se envolvido numa paixão ciosa, uma dessas ternuras tumultuosas de mulher de trinta anos, de que depois se desembaraçaria dificilmente... Nos braços dela o seu coração ficaria mudo: e apenas esgotada a primeira curiosidade, começaria o tédio dos beijos que se não desejam, a horrível maçada do prazer a frio. Depois, teria de ser íntimo da casa, receber pelo ombro as palmadas do senhor conde, ouvir-lhe a voz morosa destilando doutrina... Tudo isto o assustava... E, todavia, gostara daquela audácia! Havia ali uma pontinha de romantismo, muito irregular, e picante... E devia ser deliciosamente bem feita... A sua imaginação despia-a, enrolava-se-lhe no cetim das formas onde sentia ao mesmo tempo alguma coisa de maduro e de virginal... E outra vez, como nas primeiras noites que os vira em S. Carlos, aqueles cabelos tentavam-no, assim avermelhados, tão crespos e quentes...
Saiu. E dera apenas alguns passos na rua Nova do Almada, quando avistou o Dâmaso, num coupé lançado a grande trote, que o chamava, mandava parar, com a face à portinhola, vermelho e radiante:
- Não tenho podido lá ir, exclamou ele, apoderando-se-lhe da mão, apenas Carlos se aproximou, e apertando-lha com entusiasmo. Tenho andado num turbilhão!... Eu te contarei! Um romance divino... Mas eu te contarei!... Tem cuidado com a roda! Bate lá, ó Calção!
A parelha abalou; ele ainda se debruçou da portinhola, agitou a mão, gritou no rumor da rua:
- Um romance divino, chic a valer!
Justamente, dias depois, no Ramalhete, na sala de bilhar, Craft que acabava de «bater» o marquês, perguntou, pousando o taco e acendendo o cachimbo:
- E noticias do nosso Dâmaso? Já se esclareceu esse lamentável desaparecimento?...
Carlos então contou como o encontrara, afogueado e triunfante, atirando-lhe da portinhola do coupé, em plena rua Nova do Almada, a noticia de um romance divino!
- Bem sei, disse o Taveira.
- Como sabes?... exclamou Carlos.
Taveira vira-o na véspera, num grande landeau da Companhia, com uma esplêndida mulher, muito elegante e que parecia estrangeira...
- Ora essa! gritou Carlos. E com uma cadelinha escocesa?
- Exactamente, uma cadelinha escocesa, um grifon cor de prata... Quem são?
- E um rapaz magro, de barba muito preta, com um ar inglesado?
- Justamente... Muito correcto, um ar sport... Que gente é?
- Uma gente brasileira, penso eu.
Eram os Castros Gomes, de certo! Isto parecia-lhe espantoso. Havia apenas duas semanas que no terraço o Dâmaso, de punhos fechados, bramara contra os Castro Gomes e as suas «desconsiderações»! Ia pedir outros pormenores ao Taveira - mas o marquês ergueu a voz do fundo da poltrona onde se estirara, e quis saber a opinião de Carlos sobre o grande acontecimento dessa manhã na Gazeta Ilustrada. - Na Gazeta Ilustrada?... Carlos não sabia, essa manhã não vira jornal nenhum.
- Então não lhe digam nada, gritou o marquês. Venha a surpresa! Cá há a Gazeta? Manda buscar a Gazeta!
Taveira puxou o cordão da campainha; - e quando o escudeiro trouxe a Gazeta, ele apoderou-se dela, quis fazer uma leitura solene.
- Deixa-lhe ver primeiro o retrato, berrou o marquês, erguendo-se.
- Primeiro o artigo! exclamava o Taveira, defendendo-se, com o jornal atrás das costas.
Mas cedeu, e pôs o papel diante dos olhos de Carlos, largamente, como um sudário desdobrado. Carlos reconheceu logo o retrato do Cohen... E a prosa que se alastrava em redor, encaixilhando a face escura de suissas retintas, era um trabalho de seis colunas, em estilo emplumado e cantante, celebrando até aos céus as virtudes domesticas do Cohen, o génio financeiro do Cohen, os ditos de espírito do Cohen, a mobília das salas do Cohen; havia ainda um parágrafo aludindo à festa próxima, ao grande sarau de mascaras do Cohen. E tudo isto vinha assinado - J. da E. - as iniciais de João da Ega!
- Que tolice! exclamou Carlos, com tédio, atirando o jornal para cima do bilhar.
- É mais que tolice, observou Craft; é uma falta de senso moral.
O marquês protestou. Gostava do artigo. Achava-o brilhante, e de velhaco!... E de resto em Lisboa quem dava por uma falta de senso moral?...
- Você, Craft, não conhece Lisboa! Todo o mundo acha isto muito natural. É íntimo da casa, celebra os donos. É admirador da mulher, lisongeia o marido. Está na lógica cá da terra... Você verá que sucesso isto vai ter... E lá que o artigo está lindo, isso está!
Tomou-o de cima do bilhar, leu alto o trecho sobre o boudoir cor de rosa de madame Cohen: «respira-se ali (dizia o Ega) alguma coisa de perfumado, íntimo e casto, como se todo aquele cor de rosa exalasse de si o aroma que a rosa tem»!
- Isto, caramba, é lindo em toda a parte! exclamou o marquês. Tem muito talento, aquele diabo! Tomara eu ter o talento que ele tem!...
- Nada disso impede, repetiu Craft, cachimbando tranquilamente, que seja uma extraordinária falta de senso moral.
- Pura e simplesmente insensato! disse Cruges, desenroscando-se do canto dum sofá, para deixar cair ás sílabas esta pesada opinião.
O marquês investiu com ele.
- Que entende você disso, seu maestro? O artigo é sublime! E saiba mais: é de finório!
O maestro, com preguiça de argumentar, foi-se enroscar em silêncio ao outro canto do sofá.
E então o marquês, de pé e bracejando, apelou para Carlos, e quis saber o que é que Craft em principio entendia por senso moral.
Carlos, que dava pela sala passos impacientes, não respondeu, tomou o braço do Taveira, levou-o para o corredor.
- Dize-me uma coisa: onde viste tu o Dâmaso, com essa gente? Para que lado iam?
- Iam pelo Chiado abaixo; ante-ontem, ás duas horas... Estou convencido que iam para Sintra. Levavam uma maleta no landau, e atrás ia uma criada num coupé com uma mala maior... Aquilo cheirava a ida a Sintra. E a mulher é divina! Que toilete, que ar, que chic!. É uma Vénus, menino!... Como conheceria ele aquilo?...
- Em Bordéus, num paquete, não sei onde!
- Eu do que gostei foi dos ares que ele se ia dando por aquele Chiado! Cumprimento para a direita, cumprimento para a esquerda... A debruçar-se, a falar muito baixo para a mulher, com olho terno, alardeando conquista...
- Que besta! exclamou Carlos, batendo com o pé no tapete.
- Chama-lhe besta, disse o Taveira. Vem a Lisboa, por acaso, uma mulher civilizada e decente, e é ele que a conhece, e é ele que vai com ela para Sintra! Chama-lhe besta!... Anda daí, vamos à partidinha de dominó.
Taveira ultimamente introduzira o dominó no Ramalhete - e havia agora ali, ás vezes, partidas ardentes, sobretudo quando aparecia o marquês. Porque a paixão do Taveira era bater o marquês.
Mas foi necessário que o marquês acabasse de bracejar, de desenrolar o arrazoado com que estava acabrunhando o Craft - que do fundo da poltrona, de cachimbo na mão e com um ar de sono, respondia por monossílabos. Era ainda a propósito do artigo do Ega, da definição de senso moral. Já tinha falado de Deus, de Garibaldi, até do seu famoso perdigueiro Finório; e agora definia a Consciência.... Segundo ele, era o medo da polícia. Tinha o amigo Craft visto já alguém com remorsos? Não, a não ser no teatro da Rua dos Condes, em dramalhões...
- Acredite você uma coisa, Craft - terminou ele por dizer, cedendo ao Taveira que o puxava para a mesa - isto de consciência é uma questão de educação. Adquire-se como as boas maneiras; sofrer em silêncio por ter traído um amigo, aprende-se exactamente como se aprende a não meter os dedos no nariz. Questão de educação... No resto da gente é apenas medo da cadeia, ou da bengala... Ah! vocês querem levar outra sova ao dominó como a de sábado passado? Perfeitamente, sou todo vosso...
Carlos, que estivera passando de novo os olhos pelo artigo do Ega, aproximou-se também da mesa. E estavam sentados, remexiam as pedras - quando à porta da sala apareceu o conde de Steinbroken, de casaca e crachá, gran-cruz sobre o colete branco, loiro como uma espiga, esticado e resplandecente. Tinha jantado no Paço, e vinha acabar no Ramalhete a sua soirée, em família...
Então o marquês que o não via desde o famoso ataque de intestinos, abandonou o dominó, correu a abraça-lo ruidosamente - e sem o deixar sequer sentar, nem estender a mão aos outros, implorou-lhe logo uma das suas belas canções filandesas, uma só, daquelas que lhe faziam tão bem à alma!...
- Só a Balada, Steinbroken... Eu também não me posso demorar, que tenho aqui a partida à espera. Só a Balada!... Vá, salta lá para dentro para o piano, Cruges...
O diplomata sorria, dizia-se cansado, tendo já feito música deliciosa no Paço com Sua Magestade. Mas nunca sabia resistir àquele modo folgazão do marquês - e lá foram para a sala do piano, de braço dado, seguidos pelo Cruges, que levara uma eternidade a desenroscar-se do canto do sofá. E daí a um momento, através dos reposteiros meio corridos, a bela voz de barítono do diplomata espalhava pelas salas, entre os suspiros do piano, a embaladora melancolia da Balada, com a sua letra traduzida em francês, que o marquês adorava, e em que se falava das névoas tristes do Norte, de lagos frios e de fadas loiras...
Taveira e Carlos, no entanto, tinham começado uma grande partida de dominó, a tostão o ponto. Mas Carlos nessa noite não se interessava, jogando distraído, a cantarolar também baixo bocados tristes da Balada: depois, quando já Taveira tinha só uma pedra diante de si, e ele estava comprando interminavelmente as que restavam, voltou-se para o lado, para o Craft, a perguntar se o hotel da Lawrence, em Sintra, estava aberto todo o ano...
- A ida do Dâmaso para Sintra deu-te no goto, rosnou Taveira impaciente. Anda, joga!
Carlos, sem responder, pousou molemente uma pedra.
- Dominó! gritou Taveira.
E em triunfo, aos pulos, contou ele mesmo os sessenta e oito pontos que Carlos perdia.
Justamente o marquês entrava, e a vitória de Taveira indignou-o.
- Agora nós, exclamou ele, puxando vivamente uma cadeira. Oh Carlos, deixe-me você dar aqui uma sova neste ladrão. Depois jogamos de três... Como queres tu isto, Taveirete? A dois tostões o ponto? Ah, queres só a tostão... Muito bem, eu te ensinarei. Anda, desembaraça-te já desse doble-seis, miserável...
Carlos ficou ainda um momento olhando o jogo, com uma cigarrete apagada nos dedos, o mesmo ar distraído: de repente, pareceu tomar uma decisão, atravessou o corredor, entrou na sala de música. Steinbroken fora ao escritório ver Afonso da Maia, e a partida de whist; e Cruges só, entre as duas velas do piano, com os olhos errantes pelo tecto, improvisava para si, melancolicamente.
- Dize cá, Cruges, perguntou-lhe Carlos, queres vir amanhã a Sintra?
O teclado calou-se, o maestro ergueu um olhar espantado. Carlos nem o deixou falar.
- Está claro que queres, não te faz senão bem vir a Sintra... Amanhã lá estou à porta, com o break.
Mete sempre uma camisa numa maleta, que talvez passemos lá a noite... Ás oito em ponto, hein?... E não digas nada lá dentro.
Carlos voltou para a sala, ficou a olhar a partida de dominó. Agora havia um largo silêncio. O marquês e Taveira moviam lentamente as pedras, sem uma palavra, com um ar de rancor surdo. Em cima do pano verde do bilhar as bolas brancas dormiam juntas, sob a luz que caia dos abat-jours de porcelana. Um som de piano, dolente e vago, passava por vezes. E Craft, com o braço descaído ao longo da poltrona, dormitava, beatificamente.


Capítulo VIII
Na manhã seguinte, ás oito horas pontualmente, Carlos parava o break na rua das Flores, diante do conhecido portão da casa do Cruges. Mas o trintanário, que ele mandara acima bater à campainha do terceiro andar, desceu com a estranha nova de que o Sr. Cruges já não morava ali. Onde diabo morava então o Sr. Cruges? A criada dissera que o Sr. Cruges vivia agora na rua de S. Francisco, quatro portas adiante do Grémio. Durante um momento, Carlos, desesperado, pensou em partir só para Sintra. Depois lá largou para a rua de S. Francisco, amaldiçoando o maestro, que mudara de casa sem avisar, sempre vago, sempre tenebroso!... E era em tudo assim. Carlos nada sabia do seu passado, do seu interior, das suas afeições, dos seus hábitos. O marquês uma noite levara-o ao Ramalhete, dizendo ao ouvido de Carlos que estava ali um génio. Ele encantara logo todo o mundo pela modéstia das suas maneiras e a sua arte maravilhosa ao piano: e todo o mundo no Ramalhete começou a tratar Cruges por maestro, a falar também do Cruges como de um génio, a declarar que Chopin nunca fizera obra igual à Meditação de Outono do Cruges. E ninguém sabia mais nada. Fora pelo Dâmaso que Carlos conhecera a casa do Cruges e soubera que ele vivia lá com a mãe, uma senhora viúva, ainda fresca, e dona de prédios na Baixa.
Ao portão da rua de S. Francisco, Carlos teve de esperar um quarto de hora. Primeiro apareceu furtivamente ao fundo da escada uma criada em cabelo, que espreitou o break, os criados de farda, e fugiu pelos degraus acima. Depois veio um criado em mangas de camisa trazer a maleta do senhor e um chaile-manta. Enfim, o maestro desceu, a correr, quasi aos trambolhões, com um cache-nez de seda na mão, o guarda-chuva debaixo do braço, abotoando atarantadamente o paletó.
Quando vinha pulando os últimos degraus, uma voz esganiçada de mulher gritou-lhe de cima:
- Olha não te esqueçam as queijadas!
E Cruges subiu precipitadamente para a almofada, para o lado de Carlos, rosnando que, com a preocupação de se levantar tão cedo, tivera uma insónia abominável...
- Mas que diabo de ideia é essa de mudar de casa, sem avisar a gente, homem? - exclamou Carlos, atirando-lhe para cima dos joelhos um bocado do plaid que o agasalhava, porque o maestro parecia arrepiado.
- É que esta casa também é nossa, disse simplesmente Cruges.
- Está claro, aí está uma razão! murmurou Carlos rindo e encolhendo os ombros.
Partiram.
Era uma manhã muito fresca, toda azul e branca, sem uma nuvem, com um lindo sol que não aquecia, e punha nas ruas, nas fachadas das casas, barras alegres de claridade dourada. Lisboa acordava lentamente: as saloias ainda andavam pelas portas com os seus ceirões de hortaliças: varria-se de vagar a testada das lojas: no ar macio morria a distância um toque fino de missa.
Cruges, tendo acabado de arranjar o cache-nez e de abotoar as luvas, estendeu um olhar à esplêndida parelha baia reluzindo como um cetim sob o faiscar de prata dos arreios, aos criados com os seus ramos nas librés, a todo aquele luxo correcto e rolando em cadencia - onde fazia mancha o seu paletó: mas o que o impressionou foi o aspecto resplandecente de Carlos, o olhar aceso, as belas cores, o belo riso, o quer que fosse de vibrante e de luminoso, que, sob o seu simples veston de xadresinho castanho, naquela almofada burguesa de break, lhe dava um arranque
de herói jovial, lançando o seu carro de guerra... Cruges farejou uma aventura, soltou logo a pergunta que desde a véspera lhe ficara nos lábios.
- Com franqueza, aqui para nós, que ideia foi esta de ir a Sintra?
Carlos gracejou. O maestro jurava o segredo pela alma melodiosa de Mozart, e pelas fugas de Bach? Pois bem, a ideia era vir a Sintra, respirar o ar de Sintra, passar o dia em Sintra... Mas, pelo amor de Deus, que o não revelasse a ninguém!
E acrescentou, rindo:
- Deixa-te levar, que não te hás-de arrepender...
Não, Cruges não se arrependia. Até achava delicioso o passeio, gostara sempre muito de Sintra... Todavia não se lembrava bem, tinha apenas uma vaga ideia de grandes rochas e de nascentes de águas vivas... E terminou por confessar que desde os nove anos não voltara a Sintra.
O que! o maestro não conhecia Sintra?... Então era necessário ficarem lá, fazer as peregrinações clássicas, subir à Pena, ir beber água à Fonte dos Amores, barquejar na várzea...
- A mim o que me está a apetecer muito é Sitiais; e a manteiga fresca.
- Sim, muita manteiga, disse Carlos. E burros, muitos burros... Enfim, uma écloga!
O break rodava na estrada de Benfica: iam passando muros enramados de quintas, casarões tristonhos de vidraças quebradas, vendas com o seu maço de cigarros à porta dependurado de uma guita: e a menor árvore, qualquer bocado de relva com papoulas, um fugitivo longe de colina verde, encantavam Cruges. Há que tempos ele não via o campo!
Pouco a pouco o sol elevara-se. O maestro desembaraçou-se do seu grande cache-nez. Depois, encalmado, despiu o paletó - e declarou-se morto de fome.
Felizmente estavam chegando à Porcalhota.
O seu vivo desejo seria comer o famoso coelho guisado, - mas, como era cedo para esse acepipe, decidiu-se, depois de pensar muito, por uma bela pratada de ovos com chouriço. Era uma coisa que não provava havia anos, e que lhe daria a sensação de estar na aldeia... Quando o patrão, com um ar importante e como fazendo um favor, pousou sobre a mesa sem toalha a enorme travessa com o petisco, Cruges esfregou as mãos, achando aquilo deliciosamente campestre.
- A gente em Lisboa estraga a saúde! disse ele, puxando para o prato uma montanha de ovo e chouriço. Tu não tomas nada?...
Carlos, para lhe fazer companhia, aceitou uma chávena de café.
daí a pouco Cruges, que devorava, exclamou com a boca cheia:
- O Reno também deve ser magnífico!
Carlos olhou-o espantado e rindo. A que vinha agora ali o Reno?... É que o maestro, desde que saíra as portas, estava cheio de ideias de viagens e de paisagens; queria ver as grandes montanhas onde há neve, os rios de que se fala na História. O seu ideal seria ir à Alemanha, percorrer a pé, com uma mochila, aquela pátria sagrada dos seus deuses, de Beetoven, de Mozart, de Wagner...
- Não te apetecia mais ir à Itália? perguntou Carlos acendendo o charuto.
O maestro esboçou um gesto de desdém, teve uma das suas frases sibilinas:
- Tudo contradanças!...
Carlos então falou de um certo plano de ir à Itália, com o Ega, no inverno. Ir à Itália, para o Ega, era uma higiene intelectual: precisava acalmar aquela imaginação tumultuosa de nervoso peninsular entre a plácida majestade dos mármores...
- O que ele precisava antes de tudo era chicote, rosnou o Cruges.
E voltou a falar do caso da véspera, do famoso artigo da Gazeta. Achava aquilo, como ele dissera, pura e simplesmente insensato, e de uma sabujice indecorosa. E o que o afligia é que o Ega, com aquele talento, aquela verve fumegante, não fizesse nada...
- Ninguém faz nada, disse Carlos espreguiçando-se. Tu, por exemplo, que fazes?
Cruges, depois de um silêncio, rosnou encolhendo os ombros:
- Se eu fizesse uma boa ópera, quem é que ma representava?
- E se o Ega fizesse um belo livro, quem é que lho lia?
O maestro terminou por dizer:
- Isto é um país impossível... Parece-me que também vou tomar café.
Os cavalos tinham descansado, Cruges pagou a conta, partiram. daí a pouco entravam na charneca que lhes pareceu infindável. De ambos os lados, a perder de vista, era um chão escuro e triste; e por cima um azul sem fim, que naquela solidão parecia triste também. O trote compassado dos cavalos batia monotonamente a estrada. Não havia um rumor: por vezes um pássaro cortava o ar, num voo brusco, fugindo do ermo agreste. Dentro do break um dos criados dormia; Cruges, pesado dos ovos com chouriço, olhava, vaga e melancolicamente, as ancas lustrosas dos cavalos.
Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Sintra. E realmente não sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que ele não avistava certa figura que tinha um passo de deusa pisando a terra, e que não encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus: agora supunha que ela estava em Sintra, corria a Sintra. Não esperava nada, não desejava nada. Não sabia se a veria, talvez ela tivesse já partido. Mas vinha: e era já delicioso o pensar nela assim por aquela estrada fora, penetrar, com essa doçura no coração, sob as
belas árvores de Sintra... Depois, era possível que daí a pouco, na velha Lawrence, ele a cruzasse de repente no corredor, roçasse talvez o seu vestido, ouvisse talvez a sua voz. Se ela lá estivesse, decerto viria jantar à sala, aquela sala que ele conhecia tão bem, que já lhe estava apetecendo tanto, com as suas pobres cortininhas de cassa, os ramos toscos sobre a mesa, e os dois grandes candeeiros de latão antigo... Ela entraria ali, com o seu belo ar claro de Diana loira; o bom Dâmaso, apresentaria o seu amigo Maia; aqueles olhos negros que ele vira passar de longe como duas estrelas, pousariam mais de vagar nos seus; e, muito simplesmente, à inglesa, ela estender-lhe-ia a mão...
- Ora até que finalmente! exclamou Cruges, com um suspiro de alívio e respirando melhor.
Chegavam ás primeiras casas de Sintra, havia já verduras na estrada, e batia-lhes no rosto o primeiro sopro forte e fresco da serra.
E a passo, o break foi penetrando sob as árvores do Ramalhão. Com a paz das grandes sombras, envolvia-os pouco a pouco uma lenta e embaladora sussurração de ramagens, e como o difuso e vago murmúrio de águas correntes. Os muros estavam cobertos de heras e de musgos: através da folhagem, faiscavam longas flechas de sol. Um ar subtil e aveludado circulava, rescendendo ás verduras novas; aqui e além, nos ramos mais sombrios, pássaros chilreavam de leve; e naquele simples bocado de estrada, todo salpicado de manchas do sol, sentia-se já, sem se ver, a religiosa solenidade dos espessos arvoredos, a frescura distante das nascentes vivas, a tristeza que cai das penedias e o repouso fidalgo das quintas de verão... Cruges respirava largamente, voluptuosamente.
- A Lawrence onde é? Na serra? - perguntou ele com a ideia repentina de ficar ali um mês naquele paraíso.
- Nós não vamos para a Lawrence, disse Carlos saindo bruscamente do seu silêncio, e espertando os cavalos. Vamos para o Nunes, estamos lá muito melhor!
Era uma ideia que lhe viera de repente, apenas passara as primeiras casas de S. Pedro, e o break começara a rolar naquelas estradas onde a cada momento ele a poderia encontrar. Tomara-o uma timidez, a que se misturava um laivo de orgulho, o receio melindrado de ser indiscreto, seguindo-a assim a Sintra, ainda que ela o não reconhecesse, indo instalar-se sob as mesmas telhas, apoderando-se de um lugar à mesma mesa... E ao mesmo tempo repugnou-lhe a ideia de lhe ser apresentado pelo Dâmaso: via-o já, bochechudo e vestido de campo, a esboçar um gesto de cerimónia, a mostrar o seu amigo Maia, a trata-lo por tu, afectando intimidades com ela, cocando-a com um olho terno... Isto seria intolerável.
- Vamos para o Nunes, que se come melhor!
Cruges não respondeu, mudo, enlevado, recebendo como uma impressão religiosa de todo aquele esplendor sombrio de arvoredo, dos altos fragosos da serra entrevistos um instante lá em cima nas nuvens, desse aroma que ele sorvia deliciosamente, e do sussurro doce de águas descendo para os vales...
Só ao avistar o Paço descerrou os lábios:
- Sim senhor, tem cachet!
E foi o que mais lhe agradou - este maciço e silencioso palácio, sem florões e sem torres, patriarcalmente assentado entre o casario da vila, com as suas belas janelas manuelinas que lhe fazem um nobre semblante real, o vale aos pés, frondoso e fresco, e no alto as duas chaminés colossais, disformes, resumindo tudo, como se essa residência fosse toda ela uma cozinha talhada ás proporções de uma gula de Rei que cada dia come todo um Reino...
E apenas o break parou à porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar, tumido e de longe - receando alguma palavra rude da sentinela.
Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou à parte o criado do hotel, que descera a recolher as maletas.
- Você conhece o Sr. Dâmaso Salcede? Sabe se ele está em Sintra?
O criado conhecia muito bem o Sr. Dâmaso Salcede. Ainda na véspera pela manhã o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas pretas... Devia estar na Lawrence, porque só com raparigas e em pândega é que o Sr. Dâmaso vinha para o Nunes.
- Então, depressa, dois quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de criança, certo agora que ela estava em Sintra. E uma sala particular, só para nós, para almoçarmos!
Cruges, que se aproximava, protestou contra esta sala solitária. Preferia a mesa redonda. Ordinariamente na mesa redonda encontram-se tipos...
- Bem, exclamou Carlos, rindo e esfregando as mãos, põe o almoço na sala de jantar, põe-no até na Praça... E muita manteiga fresca para o Sr. Cruges!
O cocheiro levou o break, o criado sobraçou as maletas. Cruges, entusiasmado com Sintra, rompeu pela escada acima, a assobiar - conservando aos ombros o chaile-manta, de que se não queria separar, porque lho emprestara a mamã. E apenas chegou à porta da sala de jantar, estacou, ergueu os braços, teve um grito.
- Oh Euzebiosinho!
Carlos correu, olhou... Era ele, o viúvo, acabando de almoçar, com duas raparigas espanholas.
Estava no topo da mesa, como presidindo, diante de uns restos de pudim e de pratos de fruta, amarelado, despenteado, carregado de luto, com a larga fita das lunetas pretas passada por traz da orelha, e uma rodela de tafetá negro sobre o pescoço tapando alguma espinha rebentada.
Uma das espanholas era um mulherão trigueiro, com sinais de bexigas na cara; a outra muito franzina, de olhos meigos, tinha uma roseta de febre, que o pó de arroz não disfarçava. Ambas vestiam de cetim preto, e fumavam cigarro. E na luz e na frescura que entrava pela janela, pareciam mais gastas, mais moles, ainda pegajosas da lentura morna dos colchões, e cheirando a bafio de alcova. Pertencendo à súcia havia um outro sujeito, gordo, baixo, sem pescoço, com as costas para a porta e a cabeça sobre o prato, babujando uma metade de laranja.
Durante um momento, Euzebiosinho ficou interdito, com o garfo no ar; depois lá se ergueu, de guardanapo na mão, veio apertar os dedos aos amigos, balbuciando logo uma justificação embrulhada, a ordem do médico para mudar de ares, aquele rapaz que o acompanhara, e que quisera trazer raparigas... E nunca parecera tão fúnebre, tão reles, como resmungando estas coisas hipócritas, encolhido à sombra de Carlos.
- Fizeste muito bem, Euzebiosinho, disse Carlos por fim, batendo-lhe no ombro. Lisboa está um horror, e o amor é coisa doce.
O outro continuava a justificar-se. Então a espanhola magrita, que fumava, afastada da mesa e com a perna traçada, elevou a voz, perguntou ao Cruges se ele não lhe falava. O maestro afirmou-se um momento, e partiu de braços abertos para a sua amiga Lola. E foi, nesse canto da mesa, uma grulhada em espanhol, grandes apertos de mão, e hombre, que no se le há visto! e mira, que me he acordado de ti! e caramba, que reguapa estas... Depois a Lola, tomando um arzinho espremido, apresentou o outro mulherão, la señorita Concha...
Vendo isto, impressionado com tanta familiaridade - o sujeito obeso, que apenas levantara um instante a cabeça do prato, decidiu-se a examinar mais atentamente os amigos do Euzébio: cruzou o talher, limpou com o guardanapo a boca, a testa e o pescoço, encavalou laboriosamente no nariz uma grande luneta de vidros grossos, e erguendo a face larga, balofa e cor de cidra, examinou detidamente Cruges, e depois Carlos, com uma impudência tranquila.
Euzebiosinho apresentou o seu amigo Palma: e o seu amigo Palma, ouvindo o nome conhecido de Carlos da Maia, quis logo mostrar diante de um gentleman, que era um gentleman também. Arrojou para longe o guardanapo, arredou para fora a cadeira; e de pé, estendendo a Carlos os dedos moles e de unhas roídas, exclamou, com um gesto para os restos da sobremesa:
- Se V. Ex.ª é servido, é sem cerimónia... Que isto quando a gente vem a Sintra, é para abrir o apetite e fazer bem à barriga...
Carlos agradeceu, e ia retirar-se. Mas Cruges, que se animava e gracejava com a Lola, fez também do outro lado da mesa a sua apresentação:
- Carlos, quero que conheças aqui a lindissima Lola, relações antigas, e a señorita Concha, que eu tive agora o prazer...
Carlos saudou respeitosamente as damas.
O mulherão da Concha rosnou secamente os buenos dias: parecia de mau humor, pesada do almoço, amodorrada para ali, sem dizer uma palavra, com os cotovelos fincados na mesa, os olhos pestanudos meio cerrados, ora fumando, ora palitando os dentes. Mas a Lola foi amável, fez de senhora, ergueu-se, ofereceu a Carlos a mãosita suada. Depois retomando o cigarro, dando um jeito ás pulseiras de ouro, declarou com um requebro de olhos, que conhecia de há muito Carlos...
- No há estado ustêd con Encarnacion?
Sim, Carlos tivera essa honra... E que era feito dela, dessa bela Encarnacion?
A Lola sorriu com finura, tocou no cotovelo do maestro. Não acreditava que Carlos ignorasse o que era feito da Encarnacion... Enfim, terminou por dizer que a Encarnacion estava agora com o Saldanha.
- Mas olhe que não é com o duque de Saldanha! exclamou Palma, que se conservara de pé, com a bolsa do tabaco aberta sobre a mesa, fazendo um
grande cigarro.
A Lolita, com um modo seco, replicou que o Saldanha não seria duque, mas era um chico muy decente...
- Olha, disse o Palma lentamente, de cigarro na boca e tirando a isca da algibeira, duas boas bofetadas na cara lhe dei eu ainda não há três semanas... Pergunta ao Gaspar, o Gaspar assistiu... Foi até no Montanha... Duas bofetadas que lhe foi logo o chapéu parar ao meio da rua... O Sr. Maia há de conhecer o Saldanha... Há de conhecer, que ele também tem um carrito e um cavalo.
Carlos fez um gesto indicando que não; e despedia-se de novo, saudando as damas, quando Cruges o chamou ainda, retendo-o mais um instante, em quanto satisfazia uma curiosidade: queria saber qual daquelas meninas era a esposa do amigo Euzébio.
Assim interpelado, o viúvo encordoou, rosnou com uma voz morosa, sem erguer as lunetas da laranja que descascava, que estava ali de passeio, não tinha esposa, e ambas aquelas meninas pertenciam ao amigo Palma...
E ainda ele mascava as ultimas palavras, quando Concha, que digeria de perna estendida, se endireitou bruscamente como se fosse saltar, atirou um murro à borda da mesa, e com os olhos chamejantes, desafiou o Euzébio a que repetisse aquilo! Queria que ele repetisse! Queria que dissesse se tinha vergonha dela, e de dizer que a tinha trazido a Sintra!... E como o Euzébio, já enfiado, tentava gracejar, fazer-lhe uma festa - ela despropositou, atirou-lhe os piores nomes, dando sempre punhadas na mesa, com uma fúria que lhe torcia a boca, lhe punha duas manchas de sangue no carão trigueiro. A Lolita, vexada, puxava-lhe pelo braço: a outra deu-lhe um repelão; e, mais excitada com a estridência da própria voz, esvaziou-se de toda a bílis, chamou-lhe porco, acusou-o de forreta, usou-o como um trapo vil.
Palma aflito, debruçado sobre a mesa, exclamava num tom ansioso:
- Ó Concha, escuta lá!... Ouve lá!... Concha, eu te explico...
De repente, ela ergueu-se, a cadeira tombou para o lado: e o mulherão abalou pela sala fora, a grande cauda de cetim varreu desabridamente o soalho, ouviu-se dentro estalar uma porta. No chão ficara caído um pedaço da mantilha de renda.
O criado que entrava do outro lado com a cafeteira estacou, afiando o olho curioso, farejando o escândalo; depois, calado e secamente, foi servindo em roda o café.
Durante um momento houve um silêncio. Apenas porém o criado saiu - a Lolita e o Palma, agitados mas abafando a voz, atacaram o Euzebiosinho. Ele portara-se muito mal! Aquilo não fora de cavalheiro! Tinha trazido a rapariga a Sintra, devia-a respeitar, não a ter renegado assim, à bruta, diante de todos...
- Esto no se hace, dizia a Lolita, de pé, gesticulando, com os olhos brilhantes, voltada para Carlos, há sido una cosa muy fêa!...
E como o Cruges lamentava, sorrindo, ter sido a causa involuntária da catástrofe - ela baixou a voz, contou que a Concha era uma fúria, viera a Sintra com pouca vontade, e desde manhã estava de muy malo humor... Pero lo de Silbeira habia sido una gran pulhice...
Ele, coitado, com a cabeça caída e as orelhas em brasa, remexia desoladamente o seu café; não se lhe viam os olhos escondidos pelas lunetas pretas, mas percebia-se-lhe o grosso soluço que lhe afogava a garganta. Então Palma pousou a chávena, lambeu os beiços, e de pé no meio da sala, com a face luzidia, o colete desabotoado, fez num tom entendido o resumo daquele desgosto.
- Tudo provém disto, e desculpe-me você dize-lo, Silveira: é que você não sabe tratar com espanholas!
A esta cruel palavra o viúvo sucumbiu. A colher caiu-lhe dos dedos. Ergueu-se, acercou-se de Carlos e de Cruges, como refugiando-se neles, vindo reconfortar-se ao calor da sua amizade, - e desabafou, estas palavras angustiosas escaparam-se-lhe dos lábios:
- Vejam vocês! vem a gente a um sítio destes para gozar um bocado de poesia, e no fim é uma destas!...
Carlos bateu-lhe melancolicamente no ombro:
- A vida é assim, Euzebiosinho.
Cruges fez-lhe uma festa nas costas:
- Não se pode contar com prazeres, Silveirinha.
Mas Palma, mais pratico, declarou que era forçoso arranjarem-se as coisas. Virem a Sintra, para questões e amuos, isso não! Naquelas pândegas queria-se harmonia, chalaça, e gozar. Coices, não. Então ficava-se em Lisboa, que era mais barato.
Chegou-se a Lola, passou-lhe os dedos pela face, com amor:
- Anda Lolita, vai tu lá dentro à Concha, dize-lhe que se não faça tola, que venha tomar café... Anda, que tu sabe-la levar... Dize-lhe que peço eu!
Lolita esteve um momento escolhendo duas boas laranjas, foi dar um jeito ao cabelo diante do espelho, apanhou a cauda - e saiu, atirando a Carlos, ao passar, um olhar e um sorrisinho.
Apenas ficaram sós, Palma voltou-se para o Euzébio, e deu-lhe conselhos muito sérios sobre o sistema de tratar espanholas. Era necessário leva-las por bons modos; por isso é que elas se pelavam por portugueses, porque lá em Espanha era à bordoada... Enfim, ele não dizia que em certos casos, duas boas bolachas, mesmo um bom par de bengaladas, não fossem úteis... Sabiam, por exemplo, os amigos, quando se devia bater? Quando elas não gostavam da gente, e se faziam ariscas. Então, sim. Então zás, tapona, que elas ficavam logo pelo beiço... Mas depois bons modos, delicadeza, tal qual como com francesas...
- Acredite você isto, Silveira. Olhe que eu tenho experiência. E o Sr. Maia que lhe diga se isto não é verdade, ele que tem também experiência e sabe viver com espanholas!
E isto foi dito com tanto calor, tanto respeito - que Cruges desatou a rir, fez rir Carlos também.
O Sr. Palma, um pouco chocado, compôs mais as lunetas, e olhou para eles:
- Os senhores riem-se? Imaginam que eu que estou a mangar? Olhem que eu comecei a lidar com espanholas aos quinze anos! Não, escusam de rir, que nisso ninguém me ganha! Lá o que se chama ter jeito para espanholas, cá o meco! E, vamos lá, que não é fácil! É necessário ter um certo talento!... Olhem, o Herculano é capaz de fazer belos artigos e estilo catita... Agora tragam-no cá para lidar com espanholas e veremos! Não dá meia...
Euzebiosinho no entanto fora duas vezes escutar à porta. Todo o hotel caíra num grande silêncio, a Lolita não voltava. Então Palma aconselhou um grande passo:
- Vá você lá dentro, Silveira, entre pelo quarto, e assim sem mais nem menos, chegue-se ao pé dela...
- E tapona? perguntou Cruges, muito seriamente, gozando o Palma.
- Qual tapona! Ajoelhe e peça perdão... Neste caso é pedir perdão... E como pretexto, Silveira, leve-lhe você mesmo o café.
Euzebiosinho, com um olhar ansioso e mudo, consultou os seus amigos. Mas o seu coração já decidira: e daí a um momento, com o pedaço de mantilha numa das mãos, a chávena de café na outra, enfiado e comovido, lá partia a passos lentos pelo corredor a pedir perdão à Concha.
E, logo atrás dele, Carlos e Cruges deixaram a sala, sem se despedirem do Sr. Palma - que de resto, indiferente também, já se acomodara à mesa a preparar regaladamente o seu grog.
Eram duas horas quando os dois amigos saíram enfim do hotel, a fazer esse passeio a Sitiais - que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na praça, por defronte das lojas vazias e silenciosas, cães vadios dormiam ao sol: através das grades da cadeia os presos pediam esmola. Crianças, enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas tinham ainda as janelas fechadas, continuando o seu sono de inverno, entre as árvores já verdes. De vez em quando aparecia um bocado da serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se o castelo da Pena, solitário, lá no alto. E por toda a parte o luminoso ar de abril punha a doçura do seu veludo.
Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao Cruges.
- Tem o ar mais simpático, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir para o Nunes, só para ver aquela cena... E então com quê o Sr. Carlos da Maia tem experiência de espanholas?
Carlos não respondeu, os seus olhos não se despegavam daquela fachada banal, onde só uma janela estava aberta com um par de botinas de duraque secando ao ar. Á porta, dois rapazes ingleses, ambos de knicker-bokers, cachimbavam em silêncio; e defronte, sentados sobre um banco de pedra, dois burriqueiros ao lado dos burros, não lhes tiravam o olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa.
Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancólico, saindo do silêncio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as suas recordações, quasi certo de Dâmaso lhe ter dito que a bordo Castro Gomes tocava flauta...
- Isto é sublime! exclamou do lado o Cruges, comovido.
Parara diante da grade de onde se domina o vale. E dali olhava, enlevadamente, a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se vêem os cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro, e tendo àquela distância, no brilho da luz, a suavidade macia de um grande musgo escuro. E nesta espessura verde-negra havia uma frontaria de casa que o interessava, branquejando, afogada entre a folhagem, com um ar de nobre repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve uma ideia de artista: desejou habita-la com uma mulher, um piano e um cão da Terra-nova.
Mas o que o encantava era o ar. Abria os braços, respirava a tragos deliciosos:
- Que ar! Isto dá saúde, menino! Isto faz reviver!...
Para o gozar mais docemente, sentou-se adiante, num bocado de muro baixo, defronte de um alto terraço gradeado, onde velhas árvores assombreiam bancos de jardim, e estendem sobre a estrada a frescura das suas ramagens, cheias do piar das aves. E como Carlos lhe mostrava o relógio, as horas que fugiam para ir ver o palácio, a Pena, as outras belezas de Sintra - o maestro declarou que preferia estar ali, ouvindo correr a água, a ver monumentos caturras...
- Sintra não são pedras velhas, nem coisas góticas... Sintra é isto, uma pouca de água, um bocado de musgo... Isto é um paraíso!...
E, naquela satisfação que o tornava loquaz, acrescentou, repetindo a sua chalaça:
- E V. Ex.ª deve sabe-lo, Sr. Maia, porque tem experiência de espanholas!...
- Poupa-me, respeita a natureza, murmurou Carlos, que riscava pensativamente o chão com a bengala.
Ficaram calados. Cruges agora admirava o jardim, por baixo do muro em que estavam sentados. Era um espesso ninho de verdura, arbustos, flores e árvores, sufocando-se numa prodigalidade de bosque silvestre, deixando apenas espaço para um tanquesinho redondo, onde uma pouca de água, imóvel e gelada, com dois ou três nenúfares, se esverdinhava sob a sombra daquela ramaria profusa. Aqui e alem, entre a bela desordem da folhagem, distinguiam-se arranjos de gosto burguês, uma volta de ruasita estreita como uma fita, faiscando ao sol, ou a banal palidez de um gesso. Noutros recantos, aquele jardim de gente rica, exposto ás vistas, tinha retoques pretenciosos de estufa rara, aloés e cactos, braços aguardasolados de araucarias erguendo-se de entre as agulhas negras dos pinheiros bravos, lâminas de palmeira, com o seu ar triste de planta exilada, roçando a rama leve e perfumada das olaias floridas de cor de rosa. A espaços, com uma graça discreta, branquejava um grande pé de margaridas; ou em torno de uma rosa, solitária na sua haste, palpitavam borboletas aos pares.
- Que pena que isto não pertença a um artista! murmurou o maestro. Só um artista saberia amar estas flores, estas árvores, estes rumores...
Carlos sorriu. Os artistas, dizia ele, só amam na natureza os efeitos de linha e cor; para se interessar pelo bem-estar de uma tulipa, para cuidar de que um craveiro não sofra sede, para sentir magoa de que a geada tenha queimado os primeiros rebentões das acácias - para isso só o burguês, o burguês que todas as manhãs desce ao seu quintal com um chapéu velho e um regador, e vê nas árvores e nas plantas uma outra família muda, por que ele é também responsável...
Cruges, que escutara distraidamente, exclamou:
- Diabo! É necessário que não me esqueçam as queijadas!
Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a trote do lado de Sitiais. Carlos ergueu-se logo, certo de que era ela, e que ele ia ver os seus belos olhos brilhar e fugir como duas estrelas. A caleche passou, levando um ancião de barbas de patriarca, e uma velha inglesa com o regaço cheio de flores e o véu azul fluctuando ao ar. E logo atrás, quasi no pó que as rodas tinham erguido, apareceu, caminhando pensativamente, de mãos atrás das costas, um homem alto, todo de preto, com um grande chapéu Panamá sobre os olhos. Foi Cruges que reconheceu os longos bigodes românticos, que gritou:
- Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!...
Durante um momento, o poeta ficou assombrado, com os braços abertos, no meio da estrada. Depois, com a mesma efusão ruidosa, apertou Carlos contra o coração, beijou o Cruges na face - porque conhecia Cruges desde pequeno, Cruges era para ele como um filho. Caramba! Eis aí uma surpresa que ele não trocava pelo título de duque! Ora o alegrão de os ver ali! Como diabo tinham eles vindo ali parar?
E não esperou a resposta, contou ele logo a sua história. Tivera um dos seus ataques de garganta, com uma ponta de febre, e o Melo, o bom Melo, recomendara-lhe mudança de ares. Ora ele, bons ares, só compreendia os de Sintra: porque ali não eram só os pulmões que lhe respiravam bem, era também o coração, rapazes!... De sorte que viera na véspera, no ónibus.
- E onde estás tu, Alencar? perguntou logo Carlos.
- Pois onde queres tu que eu esteja, filho? Lá estou com a minha velha Lawrence. Coitada! está bem velha! mas para mim é sempre uma amiga, é quasi uma irmã!... E vocês, que diabo? Para onde vão vocês com essas flores nas lapelas?
- A Sitiais... Vou mostrar Sitiais ao maestro.
Então também ele voltava a Sitiais! Não tinha nada que fazer senão sorver bom ar, e cismar... Toda a manhã andara ali, vagamente, pendurando sonhos dos ramos das árvores. Mas agora já os não largava; era mesmo um dever ir ele próprio fazer ao maestro as honras de Sitiais...
- Que aquilo é sítio muito meu, filhos! Não há ali árvore que me não conheça... Eu não vos quero começar já a impingir versos; mas enfim, vocês lembram-se de uma coisa que eu fiz a Sitiais, e de que por aí se gostou...
Quantos luares eu lá vi!
Que doces manhãs de abril!
E os ais que soltei ali
Não foram sete, mas mil!
Pois então já vocês vêem, rapazes, que tenho razão para conhecer Sitiais...
O poeta lançou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam todos três calados.
- Dize-me uma coisa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e tocando no braço do poeta. O Dâmaso está na Lawrence?
Não, que ele o tivesse visto. Verdade seja que na véspera, apenas chegara, fora-se deitar, fatigado; e nessa manhã almoçara só com dois rapazes ingleses. O único animal que avistara fora um lindo cãosinho de luxo, ladrando no corredor...
- E vocês onde estão?
- No Nunes.
Então o poeta parando de novo, contemplando Carlos com simpatia:
- Que bem que fizeste em arrastar cá o maestro, filho!... Quantas vezes eu tenho dito àquele diabo, que se metesse no ónibus, viesse passar dois dias a Sintra. Mas ninguém o tira de martelar o piano. E olha tu que mesmo para a música, para compor, para entender um Mozart, um Chopin, é necessário ter visto isto, escutado este rumor, esta melodia da ramagem...
Baixou a voz, apontando para o maestro, que caminhava adiante, enlevado:
- Tem muito talento, tem muita ideia melódica!... Olha que andei com aquilo ás cabritas... E a mãe, menino, foi muitíssimo boa mulher.
- Vejam vocês isto! gritou Cruges que parara, esperando-os. Isto é sublime.
Era apenas um bocadito de estrada, apertada entre dois velhos muros cobertos de hera, assombreada por grandes árvores entrelaçadas, que lhe faziam um toldo de folhagem aberto à luz como uma renda: no chão tremiam manchas de sol: e, na frescura e no silêncio, uma água que se não via ia fugindo e cantando.
- Se tu queres sublime, Cruges, exclamou Alencar, então tens de subir à serra. Aí tens o espaço, tens a nuvem, tens a arte...
- Não sei, talvez goste mais disto, murmurou o maestro.
A sua natureza de tímido preferiria, de certo, estes humildes recantos, feitos de uma pouca de folhagem fresca e de um pedaço de muro musgoso, lugares de quietação e de sombra, onde se aninha com um conforto maior o cismar dos indolentes...
- De resto, filho, continuou Alencar, tudo em Sintra é divino. Não há cantinho que não seja um poema... Olha, ali tens tu, por exemplo, aquela linda florinha azul... - e, ternamente, apanhou-a.
- Vamos andando, vamos andando, murmurou Carlos impaciente, e agora, desde que o poeta falara do cãosinho de luxo, mais certo de que ela estava na Lawrence, e que a ía brevemente encontrar.
Mas, ao chegar a Sitiais, Cruges teve uma desilusão diante daquele vasto terreiro coberto de erva, com o palacete ao fundo, enxovalhado, de vidraças partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno céu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a ideia, de pequeno, que Sitiais era um montão pitoresco de rochedos, dominando a profundidade de um vale; e a isto misturava-se vagamente uma recordação de luar e de guitarras... Mas aquilo que ele ali via era um desapontamento.
- A vida é feita de desapontamentos, disse Carlos. Anda para diante!
E apressou o passo através do terreiro, em quanto o maestro, cada vez mais animado, lhe gritava a chalaça do dia:
- E V. Ex.ª deve sabe-lo, Sr. Maia, porque tem experiência de espanholas!...
Alencar, que se demorara atrás a acender o cigarro, estendeu o ouvido, curioso, quis saber o que era isso de espanholas? O maestro contou-lhe o encontro no Nunes e os furores da Concha.
Iam ambos caminhando por uma das alamedas laterais, verde e fresca, de uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava deserto; a erva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrelada de botões de ouro brilhando ao sol, e de malmequersinhos brancos. Nenhuma folha se movia: através da ramaria ligeira o sol atirava molhos de raios de ouro. O azul parecia recuado a uma distância infinita, repassado de silêncio luminoso; e só se ouvia, ás vezes, monótona e dormente, a voz de um cuco nos castanheiros.
Toda aquela vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os seus florões de pedra roídos da chuva, o pesado brazão rococó, as janelas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia estar-se deixando morrer voluntariamente naquela verde solidão, - amuada com a vida, desde que dali tinham desaparecido as ultimas graças do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de anquinhas tinham roçado essas relvas... Agora Cruges ía descrevendo ao Alencar a figura do Euzebiosinho, com a chávena de café na mão, a ir pedir perdão à Concha; e a cada momento o poeta, com o seu grande chapéu panamá, se agachava a colher florinhas silvestres.
Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado num dos bancos de pedra, fumando pensativamente a sua cigarrete. O palacete deitava sobre aquele bocado de terraço a sombra dos seus muros tristes; do vale subia uma frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o prantear de um repuxo. Então o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo, falou com nojo do Euzebiosinho. - Aí está uma torpeza que ele nunca cometera, trazer meretrizes a Sintra! Nem a Sintra, nem a parte nenhuma... Mas muito menos a Sintra! Sempre tivera, todo o mundo devia ter, a religião daquelas árvores e o amor daquelas sombras...
- E esse Palma, acrescentou ele, é um traste! Eu conheço-o; ele teve uma espécie de jornal, e já lhe dei muita bofetada na rua do Alecrim. Foi uma história curiosa... Ora eu ta conto, Carlos... Aquele canalha! quando me lembro!... Aquela vil bolinha de matéria pútrida!... Aquele chouricinho de pus!
Levantou-se, passando a mão nervosa sobre os bigodes, já excitado pela lembrança daquela velha desordem, vergastando o Palma com nomes ferozes, todo numa dessas fervuras de sangue que eram a sua desgraça.
Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planície de lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um pano feito de remendos assim que ele tinha na mesa do seu quarto. Tiras brancas de estradas serpeavam pelo meio: aqui e além, numa massa de arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, naquele solo onde as águas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro, correndo e reluzindo entre as ervas. O mar ficava ao fundo, numa linha unida, esbatida na tenuidade difusa da bruma azulada: e por cima arredondava-se um grande azul lustroso como um belo esmalte, tendo apenas, lá no alto, um farraposinho de névoa, que ficara ali esquecido, e que dormia enovelado e suspenso na luz...
- Tive nojo! exclamava o Alencar, rematando fogosamente a sua história. Palavra que tive nojo! Atirei-lhe a bengala aos pés, cruzei os braços e disse-lhe: aí tem você a bengala, seu covarde, a mim bastam-me as mãos!
- Que diabo, não me hão de esquecer as queijadas! murmurou Cruges, para si mesmo, afastando-se do parapeito.
Carlos erguera-se também, olhava o relógio. Mas antes de deixar Sitiais, Cruges quis explorar o outro terraço ao lado: e, apenas subira os dois velhos degraus de pedra, soltou de lá um grito alegre:
- Bem dizia eu! cá estão eles... E vocês a dizer que não!
Foram-no encontrar triunfante, diante de um montão de penedos, polidos pelo uso, já com um vago feitio de assentos, deixados ali outrora, poeticamente, para dar ao terraço uma graça agreste de selva brava. Então, não dizia ele? Bem dizia ele que em Sitiais havia penedos!
- Se eu me lembrava perfeitamente! Penedo da Saudade, não é que se chama, Alencar?
Mas o poeta não respondeu. Diante daquelas pedras cruzara os braços, sorria dolorosamente; e imóvel, sombrio no seu fato negro, com o panamá carregado para a testa, envolveu todo aquele recanto num olhar lento e triste.
Depois, no silêncio, a sua voz ergueu-se, saudosa e dolente:
- Vocês lembram-se, rapazes, nas Flores e Martírios, de uma das coisas melhores que lá tenho, em rimas livres, chamada 6 de Agosto? Não se lembram talvez... Pois eu vo-la digo, rapazes!
Maquinalmente tirara do bolso o lenço branco. E com ele fluctuante na mão, puxando Carlos para junto de si, chamando do outro lado o Cruges, baixou a voz como numa confidência sagrada, recitou, com um ardor surdo, mordendo as sílabas, tremulo, numa paixão efémera de nervoso:
Vieste! Cingi-te ao peito.
Em redor que noite escura!
Não tinha rendas o leito,
Nem tinha lavores na barra
Que era só a rocha dura...
Muito ao longe uma guitarra
Gemia vagos harpejos...
(Vê tu que não me esqueceu)...
E a rocha dura aqueceu
Ao calor dos nossos beijos!
Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol, atirou para lá um gesto triste, e murmurou:
- Foi ali.
E afastou-se, alquebrado sob o seu grande chapéu panamá, com o lenço branco na mão. Cruges, que aqueles romantismos impressionavam, ficou a olhar para os penedos como para um sítio histórico. Carlos sorria. E quando ambos deixaram esse recanto do terraço - o poeta, agachado junto do arco, estava apertando o atilho da ceroula.
Endireitou-se logo, já toda a emoção o deixara, mostrava os maus dentes num sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco:
- Agora, Cruges, filho, repara tu naquela tela sublime.
O maestro embasbacou. No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quasi fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o fundo de céu azul claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta escura, coroada pelo castelo da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro...
Cruges achou aquele quadro digno de Gustavo Doré. Alencar teve uma bela frase sobre a imaginação dos árabes. Carlos, impaciente, foi-os apressando para diante.
Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir à Pena. Alencar, por si, ía também com prazer. A Pena para ele era outro ninho de recordações. Ninho? Devia antes dizer cemitério... Carlos hesitava, parado junto da grade. Estaria ela na Pena? E olhava a estrada, olhava as árvores, como se pudesse adivinhar pelas pegadas no pó, ou pelo mover das folhas, que direcção tinham tomado os passos que ele seguia... Por fim teve uma ideia.
- Vamos indo primeiro à Lawrence. E depois se quisermos ir à Pena, arranjam-se lá os burros...
E nem mesmo quis escutar o Alencar, que tivera também uma ideia, falava de Colares, de uma visita ao seu velho Carvalhosa; acelerou o passo para a Lawrence, enquanto o poeta tornava a arranjar o atilho da ceroula, e o maestro, num entusiasmo bucólico, ornava o chapéu de folhas de hera.
Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na boca, não tendo podido apoderar-se dos ingleses, preguiçavam ao sol.
- Vocês sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma família, que está aqui no hotel, foi para a Pena?...
Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarretando-se.
- Sim, senhor, foram para lá há bocado, e aqui está o burrinho também para V. Ex.ª, meu amo!
Mas o outro, mais honesto, negou. Não senhor, a gente que fora para a Pena estava no Nunes...
- A família que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palácio...
- Uma senhora alta?
- Sim senhor.
- Com um sujeito de barba preta?
- Sim senhor.
- E uma cadelinha?
- Sim senhor.
- Tu conheces o Sr. Dâmaso Salcede?
- Não senhor... É o que tira retratos?
- Não, não tira retratos... Tomai lá.
Deu-lhes uma placa de cinco tostões; e voltou ao encontro dos outros, declarando que realmente era tarde para subirem à Pena.
- Agora o que tu deves ver, Cruges, é o palácio. Isso é que tem originalidade e cachet! Não é verdade, Alencar?...
- Eu vos digo, filhos, começou o autor de Elvira, historicamente falando...
- E eu tenho de comprar as queijadas, murmurou Cruges.
- Justamente! exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas; é necessário não perder tempo; a caminho!
Deixou os outros ainda indecisos, abalou para o palácio, em quatro largas passadas estava lá. E logo da praça avistou, saindo já o portão, passando rente da sentinela, a famosa família hospedada na Lawrence e a sua cadelinha de luxo. Era, com efeito, um sujeito de barba preta, e de sapatos de lona branca; e, ao lado dele, uma matrona enorme, com um mantelete de seda, coisas de ouro pelo pescoço e pelo peito, e o cãosinho felpudo ao colo. Vinham ambos rosnando o quer que fosse, com mau modo um para o outro, e em espanhol.
Carlos ficou a olhar para aquele par com a melancolia de quem contempla os pedaços dum belo mármore quebrado. Não esperou mais pelos outros, nem os quis encontrar. Correu à Lawrence por um caminho diferente, avido de uma certeza: - e ai, o criado que lhe apareceu, disse-lhe que o Sr. Salcede e os srs. Castro Gomes tinham partido na véspera para Mafra...
- E de lá?...
O criado ouvira dizer ao Sr. Dâmaso que de lá voltavam a Lisboa.
- Bem, disse Carlos atirando o chapéu para cima da mesa, traga-me você um cálice de cognac, e uma pouca de água fresca.
Sintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. Não teve animo de voltar ao palácio, nem quis sair mais dali; e arrancando as luvas, passeando em volta da mesa de jantar, onde murchavam os ramos da véspera, sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr ao Hotel Central, invadir-lhe o quarto, vê-la, saciar os seus olhos nela!... Porque, o que o irritava agora era não poder encontrar, na pequenez de Lisboa, onde toda a gente se acotovela, aquela mulher que ele procurava ansiosamente! Duas semanas farejara o Aterro como um cão perdido: fizera peregrinações ridículas de teatro em teatro: numa manhã de domingo percorrera as missas! E não a tornara a ver. Agora sabia-a em Sintra, voava a Sintra, e não a via também. Ela cruzava-o uma tarde, bela como uma deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cair na alma por acaso um dos seus olhares negros, e desaparecia, evaporava-se, como se tivesse realmente remontado ao céu, de ora em diante invisível e sobrenatural: e ele ali ficava, com aquele olhar no coração, perturbando todo o seu ser, orientando surdamente os seus pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, para uma adorável desconhecida, de quem ele nada sabia senão que era alta e loira, e que tinha uma cadelinha escocesa... Assim acontece com as estrelas de acaso! Elas não são duma essência diferente, nem contém mais luz que as outras: mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e se esvaem, parecem despedir um fulgor mais divino, e o deslumbramento que deixam nos olhos é mais perturbador e mais longo... Ele não a tornara a ver. Outros viam-na. O Taveira vira-a. No Grémio, ouvira um alferes de lanceiros falar dela, perguntar quem era, porque a encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos os dias. Ele não a via, e não sossegava...
O criado trouxe o cognac. Então Carlos, preparando vagarosamente o seu refresco, conversou com ele, falou um momento dos dois rapazes ingleses, depois da espanhola obesa... Enfim, dominando uma timidez, quasi corando, fez, através de grandes silêncios, perguntas sobre os Castro Gomes. E cada resposta lhe parecia uma aquisição preciosa. A senhora era muito madrugadora, dizia o criado: ás sete horas tinha tomado banho, estava vestida, e saia só. O Sr. Castro Gomes, que dormia num quarto separado, nunca se mexia antes do meio dia; e, à noite, ficava uma eternidade à mesa, fumando cigarretes e molhando os beiços em copinhos de cognac e água. Ele e o Sr. Dâmaso jogavam o dominó. A senhora tinha montões de flores no quarto; e tencionavam ficar até domingo, mas fora ela que apressara a partida...
- Ah, disse Carlos depois de um silêncio, foi a senhora que apressou a partida?...
- Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado em Lisboa... V. Ex.ª toma mais cognac?
Com um gesto Carlos recusou, e veio sentar-se no terraço. A tarde descia, calma, radiosa, sem um estremecer de folhagem, cheia de claridade dourada, numa larga serenidade que penetrava a alma. Ele te-la-hia pois encontrado, ali mesmo naquele terraço, vendo também cair a tarde - se ela não estivesse impaciente por tornar a ver a filha, algum bebezinho loiro que ficara só com a ama. Assim, a brilhante deusa era também uma boa mamã; e isto dava-lhe um encanto mais profundo, era assim que ele gostava mais dela, com este terno estremecimento humano nas suas belas formas de mármore.
Agora, já ela estava em Lisboa; e imaginava-a nas rendas do seu peignoir, com o cabelo enrolado à pressa, grande e branca, erguendo ao ar o bebé nos seus esplêndidos braços de Juno, e falando-lhe com um riso de ouro. Achava-a assim adorável, todo o seu coração fugia para ela... Ah! poder ter o direito de estar junto dela, nessas horas de intimidade, bem junto, sentindo o aroma da sua pele, e sorrindo também a um bebé. E, pouco a pouco, foi-lhe surgindo na alma um romance, radiante e absurdo: um sopro de paixão, mais forte que as leis humanas, enrolava violentamente, levava juntos o seu destino e o dela; depois, que divina existência, escondida num ninho de flores e de sol, longe, nalgum canto da Itália...
E, toda a sorte de ideias de amor, de devoção absoluta, de sacrifício, invadiam-no deliciosamente - enquanto os seus olhos se esqueciam, se perdiam, enlevados na religiosa solenidade daquele belo fim da tarde. Do lado do mar subia uma maravilhosa cor de ouro pálido, que ia no alto diluir o azul, dava-lhe um branco indeciso e opalino, um tom de desmaio doce; e o arvoredo cobria-se todo de uma tinta loura, delicada e dormente. Todos os rumores tomavam uma suavidade de suspiro perdido. Nenhum contorno se movia como na imobilidade de um êxtase. E as casas, voltadas para o poente, com uma ou outra janela acesa em brasa, os cimos redondos das árvores apinhadas, descendo a serra numa espessa debandada para o vale, tudo parecera ficar de repente parado num recolhimento melancólico e grave, olhando a partida do sol, que mergulhava lentamente no mar...
- Oh Carlos, tu estás ai?
Era em baixo, na estrada, a voz grossa do Alencar gritando por ele. Carlos apareceu à varanda do terraço.
- Que diabo estás tu aí a fazer, rapaz? exclamou Alencar, agitando alegremente o seu panamá. Nós lá estivemos à espera, no covil real... Fomos ao Nunes... íamos agora procurar-te à cadeia!
E o poeta riu largamente da sua pilhéria - enquanto Cruges, ao lado, de mãos atrás das costas, e a face erguida para o terraço, bocejava desconsoladamente.
- Vim refrescar, como tu dizes, tomar um pouco de cognac, que estava com sede.
Cognac? eis aí o mimo por que o pobre Alencar estivera ansiando toda a tarde, desde Sitiais. E galgou logo as escadas do terraço - depois de ter gritado para dentro, para a sua velha Lawrence, que lhe mandasse acima meia da fina.
- Viste o Paço, hein, Cruges? perguntou Carlos ao maestro, quando ele apareceu, arrastando os passos. Então, parece-me que o que nos resta a fazer é jantar, e abalar...
Cruges concordou. Voltava do palácio com um ar murcho, fatigado daquele vasto casarão histórico, da voz monótona do cicerone mostrando a cama de S. M. El-Rei, as cortinas do quarto de S. M. a Rainha, «melhores que as de Mafra,» o tira-botas de S. A.; e trazia de lá uma pouca dessa melancolia que erra, como uma atmosfera própria, nas residências reais.
E aquela natureza de Sintra, ao escurecer, dizia ele, começava a entristece-lo.
Então concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar o espectáculo torpe do Palma e das damas, mandar vir à porta o break, e partir depois ao nascer do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia também a Lisboa.
- E, para ser festa completa, exclamou ele, limpando os bigodes do cognac, enquanto vocês vão ao Nunes pagar a conta, e dar ordens para o break, eu vou-me entender la abaixo à cozinha com a velha Lawrence, e preparar-vos um bacalhau à Alencar, recipe meu... E vocês verão o que é um bacalhau! Porque, lá isso, rapazes, versos os farão outros melhor; bacalhau, não!
Atravessando a praça, Cruges pedia a Deus que não encontrassem mais o Euzebiosinho. Mas, apenas puseram os pés nos primeiros degraus do Nunes, ouviram em cima o chalrar da súcia. Estavam na ante-sala, já todos reconciliados, a Concha contente - e instalados aos dois cantos duma mesa, com cartas. O Palma, munido duma garrafa de genebra, fazia uma batotinha para o Euzébio; e as duas espanholas, de cigarro na boca, jogavam languidamente a bisca.
O viúvo, enfiado, perdia. No monte, que começara miseravelmente com duas coroas, já luzia ouro; e Palma triunfava, chalaceando, dando beijocas na sua moça. Mas, ao mesmo tempo, fazia de cavalheiro, falava de dar a desforra, ficar ali, sendo necessário, até de madrugada.
- Então V. exas. não se tentam? Isto é para passar o tempo... Em Sintra tudo serve... Valete! Perdeu você outro mico no rei. Deve a libra mais quinze tostões, sô Silveira!
Carlos passara, sem responder, seguido pelo criado - no momento em que Euzebiosinho, furioso, já desconfiado, quis verificar, com as lunetas negras sobre o baralho, se lá estavam todos os reis.
Palma alastrou as cartas largamente, sem se zangar. Entre amigos, que diabo, tudo se admitia! A sua espanhola, essa sim, escandalizou-se, defendendo a honra do seu homem: então Palmita havia de ter empalmado o rei? Mas, a Concha, zelava o dinheiro do seu viúvo, exclamava que o rei podia estar perdido... Os reis estavam lá.
Palma atirou um cálice de genebra ás goelas, e recomeçou a baralhar magestosamente.
- Então V. Ex.ª não se tenta? repetia ele para o maestro.
Cruges, com efeito, parara, roçando-se pela mesa, com o olho nas cartas e no ouro do monte, já sem força, remexendo o dinheiro nas algibeiras. Subitamente um ás decidiu-o. Com a mão nervosa, escorregou-lhe uma libra por baixo, jogando cinco tostões, e de porta. Perdeu logo. Quando Carlos voltou do quarto com o criado que descia as malas, o maestro estava em pleno vício, com a libra entalada, os olhos acesos, o ar esguedelhado.
- Então tu?... exclamou Carlos com severidade.
- Já desço, rosnou o maestro.
E, à pressa, foi à paz da libra, num terno contra o rei. Cartada de cólicas! como disse o Palma: e foi com emoção que ele começou a puxar as cartas, espremendo-as uma a uma, num vagar mortal. A aparição de um bico arrancou-lhe uma praga. Era apenas um duque, Euzebiosinho perdia mais uma placa. Palma teve um suspirinho de alívio; e, escondendo com ambas as mãos o baralho, erguendo as lunetas faiscantes para o maestro:
- Então, sempre continua toda a libra?...
- Toda.
Palma teve outro suspiro, de ansiedade; e, mais pálido, voltou bruscamente as cartas.
- Rei! gritou ele, empolgando o ouro.
Era o rei de paus, a sua espanhola bateu as palmas, o maestro abalou furioso.
Na Lawrence o jantar prolongou-se até ás oito horas, com luzes; - e o Alencar falou sempre. Tinha esquecido nesse dia as desilusões da vida, todos os rancores literários, estava numa veia excelente; e foram histórias dos velhos tempos de Sintra, recordações da sua famosa ida a Paris, coisas picantes de mulheres, bocados da crónica intima da Regeneração... Tudo isto com estridências de voz, e filhos isto! e rapazes aquilo! e gestos que faziam oscilar as chamas das velas, e grandes copos de Colares emborcados de um trago. Do outro lado da mesa, os
dois ingleses, correctos nos seus fraques negros, de cravos brancos na botoeira, pasmavam, com um ar embaraçado a que se misturava desdém, para esta desordenada exuberância de meridional.
A aparição do bacalhau foi um triunfo: - e a satisfação do poeta tão grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega!
- Sempre queria que ele provasse este bacalhau! Já que me não aprecia os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto é um bacalhau de artista em toda a parte!... Noutro dia fi-lo lá em casa dos meus Cohens; e a Rachel, coitadinha, veio para mim e abraçou-me... Isto, filhos, a poesia e a cozinha são irmãs! Vejam vocês Alexandre Dumas... Dirão vocês que o pai Dumas não é um poeta... E então d'Artagnan? D'Artagnan é um poema... É a faisca, é a fantasia, é a inspiração, é o sonho, é o arroubo! Então, poço, já vêem vocês, que é poeta!... Pois vocês hão-de vir um dia destes jantar comigo, e há-de vir o Ega, e hei-de-vos arranjar umas perdizes à espanhola, que vos hão-de nascer castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! Lá essas coisas de realismo e romantismo, histórias... Um lírio é tão natural como um percevejo... Uns preferem fedor de sargeta; perfeitamente, destape-se o cano publico... Eu prefiro pós de marechala num seio branco; a mim o seio, e, lá vai à vossa. O que se quer, é coração. E o Ega tem-no. E tem faisca, tem rasgo, tem estilo... Pois, assim é que eles se querem, e, lá vai à saúde do Ega!
Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou mais baixo:
- E, se aqueles ingleses continuam a embasbacar para mim, vai-lhes um copo na cara, e é aqui um vendaval, que há-de a Gran-Bretanha ficar sabendo o que é um poeta português!...
Mas não houve vendaval, a Gran-Bretanha ficou sem saber o que é um poeta português, e o jantar terminou num café tranquilo. Eram nove horas, fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break.
Alencar, embuçado num capote, um verdadeiro capote de padre de aldeia, levava na mão um ramo de rosas: e agora, guardara o seu panamá na maleta, trazia um bonet de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um começo de spleen, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado na gola do paletó, com a manta da mamã sobre os joelhos. Partiram. Sintra ficava dormindo ao luar.
Algum tempo o break rodou em silêncio, na beleza da noite. A espaços, a estrada aparecia banhada duma claridade quente que faiscava. Fachadas de casas, caladas e pálidas, surgiam, de entre as árvores com um ar de melancolia romântica. Murmúrios de águas perdiam-se na sombra; e, junto dos muros enramados, o ar estava cheio de aroma. Alencar acendera o cachimbo, e olhava a lua.
Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada, silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou também para a lua, e murmurou de entre os seus agasalhos:
- Oh Alencar, recita para aí alguma coisa...
O poeta condescendeu logo - apesar de um dos criados ir ali ao lado deles, dentro do break. Mas, que havia ele de recitar, sob o encanto da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante da lua! Enfim, ía dizer-lhe uma história bem verdadeira e bem triste... Veio sentar-se ao pé do Cruges, dentro do seu grande capotão, esvaziou os restos do cachimbo, e, depois de acariciar algum tempo os bigodes, começou, num tom familiar e simples:
Era o jardim duma vivenda antiga,
Sem arrebiques de arte ou flores de luxo;
Ruas singelas de alfazema e buxo,
Cravos, roseiras...
- Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta, com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada, assustou o trintanário.
O break parara, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silêncio da charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou:
- Esqueceram-me as queijadas!


Capítulo IX
O dia famoso da soirée dos Cohens, ao fim dessa semana tão luminosa e tão doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janela sobre o jardim, vira um céu baixo que pesava como se fosse feito de algodão em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arrepiado e húmido; ao longe o rio estava turvo, e no ar mole errava um hálito morno de sudoeste. Decidira não sair - e desde as nove horas, sentado à banca, embrulhado no seu vasto robe-de-chambre de veludo azul, que lhe dava o belo ar de um príncipe artista da Renascença, tentava trabalhar: mas, apesar de duas chávenas de café, de cigarretes sem fim, o cérebro, como o céu fora, conservava-se-lhe nessa manhã afogado em névoas. Tinha destes dias terríveis; julgava-se então «uma besta»; e a quantidade de folhas de papel, dilaceradas, amarfanhadas, que lhe juncavam o tapete aos pés, davam-lhe a sensação de ser todo ele uma ruína.
Foi realmente um alívio, uma trégua naquela luta com as ideias rebeldes, quando Baptista anunciou Vilaça, que lhe vinha falar de uma venda de montados no Alentejo, pertencentes à sua legitima.
- Negociosinho, disse o administrador, pousando o chapéu a um canto da mesa e dentro um rolo de papéis, que lhe mete na algibeira para cima de dois contos de réis... E não é mau presente, logo assim pela manhã...
Carlos espreguiçou-se, cruzando fortemente as mãos por trás da cabeça:
- Pois olhe, Vilaça, preciso bem de dois contos de réis, mas preferia que me trouxesse aí alguma lucidez de espírito... Estou hoje duma estupidez!
Vilaça considerou-o um momento, com malícia.
- Quer V. Ex.ª dizer que antes queria escrever uma bonita pagina do que receber assim perto de quinhentas libras? São gostos, meu senhor, são gostos... Ele é bom sair-se a gente um Herculano ou um Garret, mas dois contos de réis, são dois contos de réis... Olhe que sempre valem um folhetim. Enfim, o negócio é este.
Explicou-lho, sem se sentar, apressado, enquanto Carlos, de braços cruzados, considerava quanto era medonho o alfinete de peito que Vilaça trazia (um macacão de coral comendo uma pêra de ouro) e distinguia vagamente, através da sua neblina mental, que se tratava de um visconde de Torral e de porcos... Quando Vilaça lhe apresentou os papéis, assinou-os com um ar moribundo.
- Então não fica para almoçar, Vilaça? disse ele, vendo o procurador meter o seu rolo de papéis debaixo do braço.
- Muito agradecido a V. Exa. Tenho de me encontrar com o nosso amigo Euzébio... Vamos ao ministério do reino, ele tem lá uma pretensão... Quer a comenda da Conceição... Mas este governo está desgostoso com ele.
- Ah, murmurou Carlos com respeito e através dum bocejo, o governo não está contente com o Euzebiosinho?
- Não se portou bem nas eleições. Ainda há dias, o ministro do reino me dizia, em confidência: «O Euzébio é rapaz de merecimento, mas atravessado...» V. Ex.ª noutro dia, disse-me o Cruges, encontrou-o em Sintra.
- Sim, lá estava a fazer jus à comenda da Conceição.
Quando Vilaça saiu Carlos retomou lentamente a pena, e ficou um momento, com os olhos na pagina meio-escrita, coçando a barba, desanimado e estéril. Mas quasi em seguida apareceu Afonso da Maia, ainda de chapéu, à volta do seu passeio matinal no bairro, e com uma carta na mão, que era para Carlos, e que ele achara no escritório misturada ao seu correio. Além disso, esperava encontrar ali o Vilaça.
- Esteve ai, mas deitou a correr, para ir arranjar uma comenda para o Euzebiosinho - disse Carlos, abrindo a carta.
E teve uma surpresa, vendo no papel - que cheirava a verbena como a condessa de Gouvarinho - um convite do conde para jantar no sábado seguinte, feito em termos de simpatia tão escolhidos que eram quasi poéticos; tinha mesmo uma frase sobre a amizade, falava dos átomos em gancho de Descartes. Carlos desatou a rir, contou ao avô que era um par do reino que o convidava a jantar, citando Descartes...
- São capazes de tudo, murmurou o velho.
E dando um olhar risonho aos manuscritos espalhados sobre a banca:
- Então, aqui, trabalha-se, hein?
Carlos encolheu os ombros:
- Se é que se pode chamar a isto trabalhar... Olhe aí para o chão. Veja esses destroços... Em quanto se trata de tomar notas, coligir documentos, reunir materiais, bem, lá vou indo. Mas quando se trata de pôr as ideias, a observação, numa forma de gosto e de simetria, dar-lhe cor, dar-lhe relevo, então... Então foi-se!
- Preocupação peninsular, filho, disse Afonso, sentando-se ao pé da mesa, com o seu chapéu desabado na mão. Desembaraça-te dela. É o que eu dizia noutro dia ao Craft, e ele concordava... O português nunca pode ser homem de ideias, por causa da paixão da forma. A sua mania é fazer belas frases, ver-lhes o brilho, sentir-lhes a música. Se for necessário falsear a ideia, deixa-la incompleta, exagera-la, para a frase ganhar em beleza, o desgraçado não hesita... Vá-se pela água abaixo o pensamento, mas salve-se a bela frase.
- Questão de temperamento, disse Carlos. Há seres inferiores, para quem a sonoridade de um adjectivo é mais importante que a exactidão de um sistema... Eu sou desses monstros.
- Diabo! então és um retórico...
- Quem o não é? E resta saber por fim se o estilo não é uma disciplina do pensamento. Em verso, o avô sabe, é muitas vezes a necessidade de uma rima que produz a originalidade de uma imagem... E quantas vezes o esforço para completar bem a cadencia de uma frase, não poderá trazer desenvolvimentos novos e inesperados de uma ideia... Viva a bela frase!
- O Sr. Ega anunciou o Baptista, erguendo o reposteiro, quando começava justamente a tocar a sineta do almoço.
- Falai na frase... - disse Afonso, rindo.
- Hein? Que frase? O que?... - exclamou Ega, que rompeu pelo quarto, com o ar estonteado, a barba por fazer, a gola do paletó levantada. Oh! por aqui a esta hora Sr. Afonso da Maia! Como está V. Ex.ª? Dize-me cá, Carlos, tu é que me podes tirar duma atrapalhação... Tu terás por acaso uma espada que me sirva?
E, como Carlos o olhava assombrado, acrescentou, já impaciente:
- Sim, homem, uma espada! Não é para me bater, estou em paz com toda a humanidade... É para esta noite, para o fato de mascara.
O Matos, aquele animal, só na véspera lhe dera o costume para o baile: e, qual é o seu horror, ao ver que lhe arranjara, em lugar de uma espada artística, um sabre da guarda municipal! Tivera vontade de lho passar através das entranhas. Correu ao tio Abraão, que só tinha espadins de corte, reles e pelintras como a própria corte! Lembrara-se do Craft e da sua colecção; vinha de lá; mas aí eram uns espadões de ferro, catanas pesando arrobas, as durindanas tremendas dos brutos que conquistaram a índia... Nada que lhe servisse. Fora então que lhe tinham vindo à ideia as panóplias antigas do Ramalhete.
- Tu é que deves ter... Eu preciso uma espada longa e fina, com os copos em concha, de aço rendilhado, forrados de veludo escarlate. E sem cruz, sobretudo sem cruz!
Afonso, tomando logo um interesse paternal por aquela dificuldade do John, lembrou que havia no corredor, em cima, umas espadas espanholas...
- Em cima, no corredor? exclamou Ega, já com a mão no reposteiro.
Inútil precipitar-se, o bom John não as poderia encontrar. Não estavam à vista, arranjadas em panóplia, conservavam-se ainda nos caixões em que tinham vindo de Benfica.
- Eu lá vou, homem fatal, eu lá vou, disse Carlos, erguendo-se com resignação. Mas olha que elas não têm bainhas.
Ega ficou sucumbido. E foi ainda Afonso que achou uma ideia, o salvou.
- Manda fazer uma simples bainha de veludo negro; isso faz-se numa hora. E manda-lhe cozer ao comprido rodelas de veludo escarlate...
- Esplêndido, gritou Ega: o que é ter gosto!
E apenas Carlos saiu, trovejou contra o Matos.
- Veja V. Ex.ª isto, um sabre da guarda municipal! E é quem faz aí os fatos para todos os teatros! Que idiota!... E é tudo assim, isto é um país insensato!...
- Meu bom Ega, tu não queres tornar de certo Portugal inteiro, o Estado, sete milhões de almas, responsáveis por esse comportamento do Matos?
- Sim senhor, exclamava o Ega passeando pelo gabinete, com as mãos enterradas nos bolsos do paletó; sim senhor, tudo isso se prende. O costumier com um fato do século XIV manda um sabre da guarda municipal; por seu lado o ministro, a propósito de impostos, cita as Meditações de Lamartine; e o literato, essa besta suprema...
Mas calou-se, vendo a espada que Carlos trazia na mão, uma folha do século XVI, de grande tempera, fina e vibrante, com copos trabalhado como uma renda - e tendo gravado no aço o nome ilustre do espadeiro, Francisco Rui de Toledo.
Embrulhou-a logo num jornal, recusou à pressa o almoço que lhe ofereciam, deu dois vivos shake-hands, atirou o chapéu para a nuca, ia abalar, quando a voz de Afonso o deteve:
- Ouve la, John, dizia o velho alegremente, isso é uma espada cá da casa, que nunca brilhou sem gloria, creio eu... Vê como te serves dela!
Ao pé do reposteiro, Ega voltou-se, exclamou, apertando contra o peito do paletó o ferro, enrolado no Jornal do Comercio:
- Não a sacarei sem justiça, nem a embainharei sem honra. Au revoir!
- Que vida, que mocidade! murmurou Afonso. Muito feliz é este John!... Pois vai-te arranjando filho, que já tocou a primeira vez para o almoço.
Carlos ainda se demorou um instante a reler, com um sorriso, a aparatosa carta do Gouvarinho; e ia enfim chamar o Baptista para se vestir, quando em baixo, à entrada particular, o timbre eléctrico começou a vibrar violentamente. Um passo ansioso ressoou na ante-câmara, o Dâmaso apareceu esbaforido, de olho esgazeado, com a face em brasa. E, sem dar tempo a que Carlos exprimisse a surpresa de o ver enfim no Ramalhete, exclamou, lançando os braços ao ar:
- Ainda bem que te encontro, caramba! Quero que venhas daí, que me venhas ver um doente... Eu te explicarei... É aquela gente brasileira. Mas pelo amor de Deus, vem depressa, menino!
Carlos erguera-se, pálido:
- É ela?
- Não, é a pequena, esteve a morrer... Mas veste-te, Carlinhos, veste-te, que a responsabilidade é minha!
- É um bebé, não é?
- Qual bebé!... É uma pequena crescida, de seis anos... Anda daí!
Carlos, já em mangas de camisa, estendia o pé ao Baptista, que, com um joelho em terra, apressado também, quasi fez saltar os botões da bota. E Dâmaso, de chapéu na cabeça, agitava-se, exagerando a sua impaciência, a estalar de importância.
- Sempre a gente se vê em coisas!... Olha que responsabilidade a minha! Vou visita-los, como costumo ás vezes, de manhã... E vai, tinham partido
para Queluz.
Carlos voltou-se, com a sobrecasaca meia vestida:
- Mas então?...
- Escuta, homem! Foram para Queluz, mas a pequena ficou com a governanta... Depois do almoço deu-lhe uma dor. A governante queria um médico inglês, porque não fala senão inglês... Do hotel foram procurar o Smit, que não apareceu... E a pequena a morrer!... Felizmente, cheguei eu, e lembrei-me logo de ti... Foi sorte encontrar-te, caramba!
E acrescentou, dando um olhar ao jardim:
- Também, irem a Queluz com um dia destes! Hão-de-se divertir... Estás pronto, hein? Eu tenho lá em baixo o coupé... Deixa as luvas, vais muito bem sem luvas!
- O avô que não me espere para almoçar, gritou Carlos ao Baptista, já do fundo da escada.
Dentro do coupé, um ramo enorme enchia quasi o assento.
- Era para ela, disse o Dâmaso, pondo-o sobre os joelhos. Pela-se por flores.
Apenas o coupé partiu, Carlos cerrando a vidraça, fez a pergunta que desde a aparição do Dâmaso lhe faiscava nos lábios.
- Mas então tu, que querias quebrar a cara a esse Castro Gomes?...
O Dâmaso contou logo tudo, triunfante. Fora tudo um equivoco! Ah, as explicações do Castro Gomes tinham sido dum gentleman. Senão quebrava-lhe a cara. Isso não, desconsiderações, a ninguém! a ninguém! Mas fora assim: os bilhetes de visita que ele lhe deixara conservavam o seu adresse do Grand Hotel em Paris. E o Castro Gomes, supondo que ele vivia lá, obedecendo à indicação, mandara para lá os seus cartões! Curioso, hein? E de estúpido... E a falta de resposta aos telegramas fora culpa de Madame, descuido, naquele momento de aflição, vendo o marido com o braço escavacado... Ah, tinham-lhe dado satisfações humildes. E agora eram íntimos, estava lá quasi sempre...
- Enfim, menino, um romance... Mas isso é para mais tarde!
O coupé parara à porta do Hotel Central. Dâmaso saltou, correu ao guarda portão.
Mandou o telegrama, Antonio?
- Já lá vai...
- Tu compreendes, dizia ele a Carlos, galgando as escadas, mandei-lhes logo um telegrama para o hotel em Queluz. Não estou para ter mais responsabilidades!...
No corredor, defronte do escritório, um criado passava, com um guardanapo debaixo do braço:
- Como está a menina? gritou-lhe o Dâmaso.
O criado encolheu os ombros, sem compreender.
Mas Dâmaso já trepava o outro lanço de escada, soprando, gritando:
- Por aqui Carlos, eu conheço isto a palmos! Numero 26!
Abriu com estrondo a porta do número 26. Uma criada, que estava à janela, voltou-se.
Ah bonjour, Melanie! exclamava Dâmaso, no seu extraordinário francês. A criança estava melhor? l'enfant etait meileur? Ali lhe trazia o doutor, monsieur le docteur Maia.
Melanie, uma rapariga magra e sardenta, disse que Mademoisele estava mais sossegada, e ela ia avisar miss Sarah, a governanta. Passou o espanador pelo mármore duma console, ajeitou os livros sobre a mesa, e saiu, dardejando a Carlos um olhar vivo como uma faisca.
A sala era espaçosa, com uma mobília de réps azul, e um grande espelho sobre a console dourada, entre as duas janelas: a mesa estava coberta de jornais, de caixas de charutos, e de romances de Capendu; sobre uma cadeira, ao lado, ficara enrolado um bordado.
- Esta Melanie, esta desleixada, murmurava o Dâmaso, fechando a janela com um esforço sobre o fecho perro. Deixar assim tudo aberto! Jesus, que gente!
- Este cavalheiro é bonapartista, disse Carlos, vendo sobre a mesa os números do País.
- Isso, temos questões terríveis! exclamou o Dâmaso. E eu enterro-o sempre... É bom rapaz, mas tem pouco fundo.
Melanie voltou pedindo a Monsieur le Docteur para entrar um instante no gabinete de toilete. E ai, depois de apanhar uma toalha caída, de dardejar a Carlos outro olharzinho petulante, disse que Miss Sarah vinha imediatamente, e retirou-se na ponta dos sapatos. Fora, na sala, ergueu-se logo a voz do Dâmaso, falando a Melanie de sa responsabilité, et que il etait très afligé.
Carlos ficou só, na intimidade daquele gabinete de toilete, que nessa manhã ainda não fora arrumado. Duas malas, pertencentes de certo a Madame, enormes, magníficas, com fecharias e cantos de aço polido, estavam abertas: duma transbordava uma cauda rica, de seda forte cor de vinho: e na outra era um delicado alvejar de roupa branca, todo um luxo secreto e raro de rendas e baptistes, dum brilho de neve, macio pelo uso e cheirando bem. Sobre uma cadeira alastrava-se um monte de meias de seda, de todos os tons, unidas, bordadas, abertas em renda, e tão leves, que uma aragem as faria voar; e, no chão corria uma fila de sapatinhos de verniz, todos do mesmo estilo, longos, com o tacão baixo, e grandes fitas de laçar. A um canto estava um cesto acolchoado de seda cor de rosa, onde de certo viajara a cadelinha.
Mas o olhar de Carlos prendia-se sobre tudo a um sofá onde ficara estendido, com as duas mangas abertas, à maneira de dois braços que se oferecem, o casaco branco de veludo lavrado de Génova com que ele a vira, a primeira vez, apear-se à porta do hotel. O forro, de cetim branco, não tinha o menor acolchoado, tão perfeito devia ser o corpo que vestia: e assim, deitado sobre o sofá, nessa atitude viva, num desabotoado de semi-nudez, adiantando em vago relevo o cheio de dois seios, com os braços alargando-se, dando-se todos, aquele estofo parecia exalar um calor humano, e punha ali a forma dum corpo amoroso, desfalecendo num silêncio de alcova. Carlos sentiu bater o coração. Um perfume indefinido e forte de jasmim, de marechala, de tanglewood, elevava-se de todas aquelas coisas intimas, passava-lhe pela face com um bafo suave de carícia...
Então desviou os olhos, aproximou-se da janela, que tinha por perspectiva a fachada enxovalhada do hotel Shneid. Quando se voltou, miss Sarah estava diante dele, vestida de preto e muito corada: era uma pessoa simpática, redondinha e pequena, com um ar de rola farta, os olhos sentimentais, e uma testa de virgem sob bandós lisos e louros. Balbuciava umas palavras em francês, em que Carlos só percebeu docteur.
- Yes, I am te doctor, disse ele.
A face da boa inglesa iluminou-se. Oh! era tão bom, ter enfim com quem se entender! A menina estava muito melhor! Oh, o doutor vinha livra-l
a duma responsabilidade!...
Abriu o reposteiro, fê-lo penetrar num quarto com as janelas todas cerradas, onde ele apenas distinguiu a forma dum grande leito e o brilho de cristais num toucador. Perguntou para que eram aquelas trevas?
Miss Sarah pensara que a escuridão faria bem à menina, e a adormeceria. E trouxera-a ali para o quarto da mamã, por ser mais largo e mais arejado.
Carlos fez abrir as janelas: e, quando a grande luz entrou, ao avistar a pequena no leito, sob os cortinados abertos, não conteve a sua admiração.
- Que linda criança!
E ficou um instante a contempla-la, num enlevo de artista, pensando que os brancos mais mimosos, mais ricos, sob a mais sabia combinação de luz, não igualariam a palidez ebúrnea daquela pele maravilhosa: e esta adorável brancura era ainda realçada por um cabelo negro, tenebroso, forte, que reluzia sob a rede. Os seus por dois olhos grandes, dum azul profundo e liquido, pareciam nesse instante maiores, muito sérios, e muito abertos para ele.
Estava encostada a um grande travesseiro, toda quieta, com o susto ainda da dor, perdida naquele vasto leito, e apertando nos braços uma enorme boneca paramentada, de pelo riçado, de olhos também azuis e arregalados também.
Carlos tomou-lhe a mãozinha e beijou-lha, - perguntando se a boneca também estava doente.
- Cri-cri também teve dor, respondeu ela muito séria, sem tirar dele os seus magníficos olhos. Eu já não tenho...
Estava com efeito fresca como uma flor, com a linguasinha muito rosada, e a sua vontade já de lanchar.
Carlos tranquilizou miss Sarah. Oh, ela via bem que mademoisele estava boa. O que a assustara fora achar-se ali só, sem a mamã, com aquela responsabilidade. Por isso a tinha deitado... Oh se fosse uma criança inglesa saía com ela para o ar... Mas estas meninas estrangeiras, tão débeis, tão delicadas... E o lábiosinho gordo da inglesa traia um desdém compassivo por estas raças inferiores e deterioradas.
- Mas a mamã não é doente?
Oh, não! Madame era muito forte. O senhor, esse sim, parecia mais fraco...
- E, como se chama a minha querida amiga? perguntou Carlos, sentado à cabeceira do leito.
- Esta é Cri-cri, disse a pequena, apresentando outra vez a boneca. Eu chamo-me Rosa, mas o papá diz que eu que sou Rosicler.
- Rosicler? realmente? disse Carlos sorrindo daquele nome de livro de cavalaria, rescendente a torneios, e a bosques de fadas.
Então, como colhendo simplesmente informações de médico, perguntou a miss Sarah se a menina sentira a mudança de clima. Habitavam ordinariamente Paris, não é verdade?
Sim, viviam em Paris no inverno, no parque Monceaux; de verão iam para uma quinta da Touraine, ao pé mesmo de Tours, onde ficavam até ao começo da caça; e iam sempre passar um mês a Diepe. Pelo menos fora assim, nos últimos três anos, desde que ela estava com Madame.
Enquanto a inglesa falava, Rosa, com a sua boneca nos braços, não cessava de olhar Carlos gravemente e como maravilhada. Ele, de vez em quando, sorria-lhe, ou acariciava-lhe a mãozinha. Os olhos da mãe eram negros: os do pai de azeviche e pequeninos: quem herdara ela aquelas maravilhosas pupilas dum azul tão rico, liquido e doce.
Mas a sua visita de médico findara, ergueu-se para receitar um calmante. Enquanto a inglesa preparava muito cuidadosamente o papel, e experimentava a pena, ele examinou um momento o quarto. Naquela instalação banal de hotel, certos retoques duma elegância delicada revelavam a mulher de gosto e de luxo: sobre a cómoda e sobre a mesa havia grandes ramos de flores: os travesseiros e os lençóis não eram do hotel, mas próprios, de bretanha fina, com rendas e largos monogramas bordados a duas cores. Na poltrona que ela usava uma cachemira de Tarnah disfarçava o medonho reps desbotado.
Depois, ao escrever a receita, Carlos notou ainda sobre a mesa alguns livros de encadernações ricas, romances e poetas ingleses: mas destoava ali, estranhamente, uma brochura singular - o Manual de interpretação dos sonhos. E ao lado, em cima do toucador, entre os marfins das escovas, os cristais dos frascos, as tartarugas finas, havia outro objecto extravagante, uma enorme caixa de pó de arroz, toda de prata dourada, com uma magnífica safira engastada na tampa dentro dum circulo de brilhantes miúdos, uma jóia exagerada de cocote, pondo ali uma dissonância audaz de esplendor brutal.
Carlos voltou junto do leito, e pediu um beijo a Rosicler: ela estendeu-lhe logo a boquinha fresca como um botão de rosa; ele não ousou beijá-la assim naquele grande leito da mãe, e tocou-lhe apenas na testa.
- Quando vens tu outra vez? perguntou ela agarrando-o pela manga do casaco.
- Não é necessário vir outra vez, minha querida. Tu estás boa, e Cri-cri também.
- Mas eu quero o meu lunch... Dize a Sarah que eu posso tomar o meu lunch... E Cri-cri também.
- Sim já podeis ambas petiscar alguma coisa...
Fez as suas recomendações à mestra, e depois, apertando a mãozinha da pequena:
- E agora adeus, minha linda Rosicler, uma vez que és Rosicler...
E não quis ser menos amável com a boneca, deu-lhe também um shake-hands.
Isto pareceu cativar Rosa ainda mais. A inglesa, ao lado, sorria, com duas covinhas na face.
Não era necessário, lembrou Carlos, conservar a criança na cama, nem tortura-la com cautelas exageradas...
- Oh, nò, sir!
E se a dor reaparecesse, ainda que ligeira, manda-lo logo chamar...
- Oh yes, sir!
E ali deixava o seu bilhete, com a sua adresse.
- Oh tank you, sir!
Ao voltar à sala, o Dâmaso saltou do sofá, onde percorria um jornal, como uma fera a quem se abre a jaula.
- Credo, imaginei que ias lá ficar toda a vida! Que estivestes tu a fazer? Irra, que estopada!
Carlos, calçando as luvas, sorria, sem responder.
- Então, é coisa de cuidado?
- Não tem nada. Tem uns lindos olhos... E um nome extraordinário.
- Ah, Rosicler, murmurou Dâmaso, agarrando o chapéu com mau modo; muito ridículo, não é verdade?
A criada francesa apareceu outra vez a abrir a porta da sala, - dardejando para Carlos o mesmo olhar quente e vivo. Dâmaso recomendou-lhe muito que dissesse aos senhores, que ele tinha vindo logo com o médico; e que havia de voltar à noite para lhes fazer uma surpresa, e para saber se tinham gostado de Queluz - si ils avaient aimè Queluz.
Depois, ao passar diante do escritório, meteu a cabeça, para dizer ao guarda-livros, que a menina estava boa, tudo ficava em sossego.
O guarda livros sorrio e cortejou.
- Queres que te vá levar a casa? perguntou ele a Carlos, em baixo, abrindo a porta do coupé, ainda com um resto de mau humor.
Carlos preferia ir a pé.
- E acompanha-me tu um bocado, Dâmaso, tu agora não tens que fazer.
Dâmaso hesitou, olhando o céu áspero, as nuvens pesadas de chuva. Mas Carlos tomara-lhe o braço, arrastava-o, amável e gracejando.
- Agora que te tenho aqui, velhaco, homem fatal, quero o romance... Tu disseste que tinhas um romance. Não te largo. És meu. Venha o romance. Eu sei que os tens sempre bons. Quero o romance!
Pouco a pouco Dâmaso sorria, as bochechas esbrazeavam-se-lhe de satisfação.
- Vai-se fazendo pela vida, disse ele a estoirar de jactância.
- Vocês estiveram em Sintra?...
- Estivemos, mas isso não foi divertido... O romance é outro!
Desprendeu-se do braço de Carlos, fez um sinal ao cocheiro para que os seguisse, e regalou-se pelo Aterro fora de contar o seu romance.
- A coisa é esta... O marido daqui a dias vai para o Brasil, tem lá negócios. E ela fica! Fica com as criadas e com a pequena, à espera, dois ou três meses. Diz que já andaram até a ver casas mobiladas, que ela não quer estar no hotel... E eu, íntimo, a única pessoa que ela conhece, metido de dentro... Hein, percebes agora?
- Perfeitamente, disse Carlos, arrojando para longe o charuto, com um gesto nervoso. E de certo, a pobre criatura já está fascinada! Já lhe deste, como costumas, um beijo ardente entre duas portas! Já a desgraçada se surtiu da caixa de fósforos, para mais tarde quando a abandonares!
Dâmaso enfiava.
- Não venhas já tu com o espírito e com a chufasinha... Não lhe dei beijos que ainda não houve ocasião... Mas, o que te posso dizer, é que tenho mulher!
- Pois já era tempo, exclamou Carlos, sem conter um gesto brusco, e atirando-lhe as palavras como chicotadas. Já era tempo! Andavas aí metido com umas criaturas ignóbeis, uma ralé de lupanar... Enfim, agora há progresso. E eu gosto que os meus amigos vivam numa ordem de sentimentos decentes... Mas vê lá... Não sejas o costumado Dâmaso! Não te vás pôr a alardear isso pelo Grémio e pela casa Havaneza!
Desta vez Dâmaso estacou, sufocado, sem compreender aquele modo, semelhante azedume. E terminou por balbuciar, lívido:
- Tu podes entender muito de medicina e de bric-a-brac, mas lá a respeito de mulheres, e da maneira de fazer as coisas, não me dás lições...
Carlos olhou-o, com um desejo brutal de o espancar. E de repente, sentiu-o tão inofensivo, tão insignificante, com o seu ar bochechudo, e mole, que se envergonhou do surdo despeito que o atravessara, tomou-lhe o braço, teve duas palavras amáveis.
- Dâmaso, tu não me compreendeste. Eu não te quis fazer zangar... É para teu bem... O que eu receava é que tu, imprudente, arrebatado, apaixonado, fosses perder essa bela aventura por uma indiscrição...
E o outro ficou logo contente, sorrindo já, abandonando-se ao braço do seu amigo, certo que o desejo do Maia era que ele tivesse uma amante chic. Não, ele não se tinha zangado, nunca se zangava com os íntimos... Compreendia bem que o que Carlos dizia era por amizade...
- Mas tu, ás vezes, tens essa coisa que te pegou o Ega, gostas do teu bocadinho de espírito...
E então tranquilizou-o. Não, por imprudência não havia ele de «perder a coisa». Aquilo ia com todas as regras. Lá nisso sobrava-lhe experiência. A Melanie já a tinha na mão; já lhe dera duas libras.
- Isto de mais a mais é uma coisa muito seria... Ela conhece meu tio, é intima dele desde pequena, tratam-se até por tu...
- Que tio?
- Meu tio Joaquim... Meu tio Joaquim Guimarães. Mr. de Guimaran, o que vive em Paris, o amigo de Gambeta...
- Ah sim, o comunista...
- Qual comunista, até tem carruagem!
Subitamente lembrou-lhe outra coisa, um ponto de toilete em que queria consultar Carlos.
- Amanhã vou jantar com eles, e vão também dois brasileiros, amigos dele, que chegaram aí há dias, e que partem pelo mesmo paquete... Um é chic, é da Legação do Brasil em Londres. De maneira que é jantar de cerimónia. O Castro Gomes não me disse nada; mas que te parece, achas que vá de casaca?...
- Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapela.
O Dâmaso olhou-o, pensativo.
- A mim tinha-me lembrado o habito de Cristo.
- O habito de Cristo... Sim, põe o habito de Cristo ao pescoço, e põe a rosa na botoeira.
- Será talvez de mais, Carlos!
- Não, fica bem ao teu tipo.
Dâmaso fizera parar o coupé que os tinha seguido a passo. E no ultimo aperto de mão a Carlos:
- Tu sempre vais à noite, aos Cohens, de dominó? O meu fato de selvagem ficou divino. Eu venho mostra-lo à noite à brasileira... Entro no Hotel embrulhado num capote, e apareço-lhes de repente na sala, de selvagem, de Nelusko, a cantar:
Alerta, marinari,
Il vento cangia...
Chic a valer!... Good bye!
Ás dez horas Carlos vestia-se para o baile dos Cohens. Fora, a noite fizera-se tenebrosa, com lufadas de vento, pancadas de água, que a cada instante batiam agrestemente o jardim. Ali, no gabinete de toilete, errava no ar tépido um vago aroma de sabonete e de bom charuto. Sobre duas cómodas de pau preto, marchetadas a marfim, duas serpentinas de velho bronze erguiam os seus molhos de velas acesas, pondo largos reflexos doces sobre a seda castanha das paredes. Ao lado do alto espelho-psyché alastrava-se, em cima duma poltrona, o dominó de já cetim negro com um grande laço azul claro.
Baptista, com a casaca na mão, esperava que Carlos acabasse a chávena de chá preto que ele estava bebendo aos golos, de pé, em mangas de camisa, e de gravata branca.
De repente, o timbre eléctrico da porta particular retiniu, apressado e violento.
- Talvez outra surpresa, murmurou Carlos, hoje é o dia das surpresas...
Baptista sorriu, ia pousar a casaca para abrir - quando em baixo vibrou outro repique brutal, duma impaciência frenética.
Então Carlos, curioso, saiu à ante-câmara: e ai, à meia luz das lâmpadas Carcel, ainda quebrantada pelo tom dos veludos cor de cereja, viu, ao abrir-se a porta por onde entrou um sopro áspero da noite, aparecer vivamente uma forma esguia e vermelha, com um confuso tinir de ferro. Depois, pela escada acima, duas penas negras de galo ondearam, um manto escarlate esvoaçou - e o Ega estava diante dele, caracterizado, vestido de Mefistófeles!
Carlos apenas pôde dizer bravo - o aspecto do Ega emudeceu-o. Apesar dos toques de caracterização que quasi o mascaravam, sobrancelhas de diabo, guias de bigode ferozmente exageradas - sentia-se bem a aflição em que vinha, com os olhos injectados, perdido, numa terrível palidez. Fez um gesto a Carlos, arremessou-se pelo gabinete dentro. Baptista, logo, discretamente, retirou-se cerrando o reposteiro.
Estavam sós. Então Ega, apertando desesperadamente as mãos, numa voz rouca e de agonia:
- Tu sabes o que me sucedeu, Carlos?
Mas não pôde dizer mais, sufocado, tremendo todo; e diante dele, devorando-o com os olhos, Carlos tremia também, enfiado.
- Cheguei a casa dos Cohens, continuou Ega por fim com esforço e quasi balbuciando, mais cedo, como tínhamos combinado. Ao entrar na sala, já estavam duas ou três pessoas... Ele vem direito a mim, e diz-me: «Você, seu infame, ponha-se já no meio da rua... Já no meio da rua senão, diante desta gente, corro-o a pontapés!» E eu, Carlos...
Mas a cólera outra vez abafou-lhe a voz. E esteve um momento mordendo os beiços, recalcando os soluços, com os olhos reluzentes de lágrimas.
Quando as palavras voltaram, foi uma explosão selvagem:
- Quero-me bater em duelo com aquele malvado, a cinco passos, meter-lhe uma bala no coração!
Outros sons estrangulados escaparam-se-lhe da garganta; e, batendo furiosamente o pé, esmurrando o ar, berrava, sem cessar, como cevando-se na estridência da própria voz.
- Quero mata-lo! Quero mata-lo! Quero mata-lo!
Depois, alucinado, sem ver Carlos, rompeu a passear desabridamente pelo quarto, ás patadas, com o manto deitado para traz, a espada mal afivelada batendo-lhe as canelas escarlates.
- Então descobriu tudo, murmurou Carlos.
- Está claro que descobriu tudo! exclamou o Ega, no seu passear arrebatado, atirando os braços ao ar. Como descobriu, não sei. Sei isto, já não é pouco. Pôs-me fora!... Hei-de-lhe meter uma bala no corpo! Pela alma de meu pai, hei-de-lhe varar o coração!... Quero que vás lá logo pela manhã com o Craft... E as condições são estas: à pistola, a quinze passos!
Carlos, agora outra vez sereno, acabava a sua chávena de chá. Depois disse muito simplesmente:
- Meu querido Ega, tu não podes mandar desafiar o Cohen.
O outro estacou de repelão, atirando pelos olhos dois relâmpagos de ira - a que as medonhas sobrancelhas de crepe, as duas penas de galo ondeando na gorra, davam uma ferocidade teatral e cómica.
- Não o posso mandar desafiar?
- Não.
- Então põe-me fora de casa...
- Estava no seu direito.
- No seu direito!... Diante de toda a gente?...
- E tu, não eras amante da mulher diante de toda a gente?...
O Ega ficou a olhar um momento para Carlos, como atordoado. Depois fez um grande gesto:
- Não se trata da mulher!... não se falou da mulher!... É uma questão de honra para mim, quero manda-lo desafiar, quero mata-lo...
Carlos encolheu os ombros.
- Tu não estás em ti. Tens só uma coisa a fazer; é ficar amanhã em casa, a ver se ele te manda desafiar a ti...
- O que, o Cohen! exclamou Ega. É um covarde, é um canalha!... Ou o mato, ou lhe rasgo a cara com um chicote. Desafiar-me! Olha quem... Tu estás doido...
E recomeçou o seu passear desabalado do espelho para a janela, soprando, rilhando os dentes, com repelões para traz ao manto que faziam oscilar, nas serpentinas, as chamas altas das velas.
Carlos não dizia nada, de pé junto da mesa, enchendo lentamente de novo a sua chávena. Tudo aquilo começava a parecer-lhe pouco sério, pouco digno, as ameaças de pontapés do marido, os furores melodramáticos do Ega: - e mesmo não podia deixar de sorrir diante daquele Mefistófeles esgrouviado, espalhando pelo quarto o brilho escarlate do seu manto de veludo, e a falar furiosamente de honra e de morte, com sobrancelhas postiças, e escarcela de coiro à cinta.
- Vamos falar ao Craft! exclamou de repente Ega, parando, com esta brusca resolução. Quero ver o que diz o Craft. Tenho lá em baixo uma tipóia, estamos lá num instante!
- Ir agora à quinta, aos Olivais? disse Carlos, olhando o relógio.
- Se és meu amigo, Carlos!...
Carlos imediatamente, sem chamar o Baptista, acabou de se vestir.
Ega, no entanto, ia preparando uma chávena de chá, deitando-lhe rum, ainda tão nervoso, que mal podia segurar a garrafa. Depois, com um grande suspiro, acendeu uma cigarrete. Carlos entrara na alcova de banho, ao lado, alumiada por um forte jacto de gás que assobiava. Fora, a chuva continuava seguida e monótona, as goteiras escoavam-se no chão mole do jardim.
- Achas que a tipóia aguentará? perguntou Carlos de dentro.
- Aguenta, é o Canhoto, disse Ega.
Agora reparara no dominó, fora ergue-lo, examinava-lhe o cetim rico, o belo laço azul claro. Depois, tendo encontrado diante de si o grande espelho-psyché, entalou o monóculo no olho, recuou um passo, contemplou-se de alto a baixo; - e terminou por pousar uma das mãos na cinta, apoiar a outra, galhardamente, sobre os copos da espada.
- Eu não estava mal, oh Carlos, hein?
- Estavas esplêndido, respondeu o outro de dentro da alcova. Foi pena estragar-se tudo... Como estava ela?
- Devia estar de Margarida.
- E ele?
- A besta? De beduíno.
E continuou ao espelho, gozando a sua figura esguia, as penas da gorra, os sapatos bicudos de veludo, e a ponta flamante da espada erguendo o manto por traz, numa prega fidalga.
- Mas então, disse Carlos, aparecendo a enxugar as mãos, tu não fazes ideia do que se passou, o que ele diria à mulher, o escândalo...
- Não faço ideia nenhuma, disse o Ega, agora mais sereno. Quando entrei na primeira sala estava ele, de beduíno; estava um outro sujeito de urso, e uma senhora não sei de que, de Tirolesa creio eu... Ele veio para mim, e disse-me aquilo: ponha-se fora! Não sei mais nada... Nem posso perceber... O canalha, se descobriu, naturalmente, para não estragar a festa, não disse nada a Rachel... Depois é que elas são!
Ergueu as mãos para o céu, murmurou:
- É horroroso!
Deu ainda uma volta pelo quarto, e depois numa outra voz, franzindo a face:
- Não sei que diabo aquele Godefroy me deu para colar as sobrancelhas, que me picam que tem diabo!
- Tira-as...
Diante do espelho, Ega hesitava em desmanchar o seu semblante feroz de Satanás. Mas arrancou-as por fim - e a gorra emplumada, muito justa, que lhe escaldava a cabeça. Então Carlos lembrou-lhe que, para ir a casa do Craft, se desembaraçasse do manto e da espada, se agasalhasse num paletó dele. Ega deu ainda um longo e mudo olhar ao seu flamejante traje infernal, e com um profundo suspiro começou a desafivelar o talim. Mas o paletó era muito largo, muito comprido; teve de lhe dar uma dobra nas mangas. Depois Carlos meteu-lhe um bonet escocês na cabeça. - E assim arranjado, com as canelas vermelhas de diabo aparecendo sob o paletó, a gargantilha escarlate à Carlos IX emergindo da gola, a velha casqueta de viagem na nuca, o pobre Ega tinha o ar lamentável dum Satanás pelintra, agasalhado pela caridade dum gentleman, e usando-lhe o fato velho.
Baptista alumiou, grave e discreto. Ega ao passar por ele, murmurou:
- Isto vai mal, Baptista, isto vai mal...
O velho criado teve um movimento triste de ombros, como significando que nada no mundo ia bem.
Na rua negra, a parelha quieta dobrava a cabeça sob a chuva. O Canhoto, ao ouvir falar duma gorjeta de libra, fez um grande espalhafato, rompeu ás chicotadas; e a velha traquitana lá partiu a galope, a escorrer água, atroando a calçada.
Por vezes um coupé particular cruzava-os, os casacos de guta-perche dos criados branqueavam à luz das lanternas. Então a ideia da festa que devia agora resplandecer; Margarida ignorando tudo, valsando nos braços de outros, ansiosa, à espera dele; a ceia depois, o champagne, as coisas brilhantes que ele teria dito - todas estas delícias perdidas se vinham cravar no coração do pobre Ega, arrancavam-lhe pragas surdas, Carlos fumava silenciosamente, com o pensamento no Hotel Central.
Depois de Santa Apolónia a estrada começou, infindável, desabrigada, batida pelo ar agreste do rio. Nenhum dizia uma palavra, cada um para o seu canto, arrepiados na friagem que entrava pelas gretas da tipóia. Carlos não cessava de ver o casaco branco de veludo, com as duas mangas abertas, como dois braços que se ofereciam...
Passava da uma hora quando chegaram à quinta: a sineta do portão, aos puxões do cocheiro encharcado, retumbou lúgubre naquele silêncio escuro
de aldeia. Um cão ladrou furiosamente: outros latidos ao longe responderam; e ainda esperaram muito, antes que um criado, sonolento e resmungão, aparecesse com uma lanterna. Uma rua de acácias conduzia à casa: o Ega praguejava, enterrando os seus belos sapatos de veludo no chão lamacento.
Craft, surpreendido com aquele tumulto, veio-lhes ao encontro no corredor, de robe-de-chambre, e a Revista dos Dois Mundos debaixo do braço. Percebeu logo que havia desastre. Levou-os em silêncio para o seu gabinete onde um bom lume de carvão na chaminé aquecia, alegrava o aposento todo estofado de cretones claros. Ambos foram direitos ao lume.
Ega rompera logo a contar o seu caso - enquanto Craft, sem espanto nem exclamações, ia preparando metodicamente sobre a mesa três grogs de cognac e limão. Carlos, sentado ao pé do fogão, aquecia os pés: e Craft veio acabar de ouvir o Ega, acomodando-se também na sua poltrona, do outro lado da chaminé, com o seu cachimbo na boca.
- Enfim, exclamou Ega, de pé, cruzando os braços, que me aconselhas tu agora?
- Tens a fazer só isto, disse Craft: esperar amanhã em casa que ele te mande os seus padrinhos... Que tenho a certeza que não manda... E depois, se vos baterdes, deixar-te ferir ou matar.
- Perfeitamente o que eu disse, murmurou Carlos, provando o seu grog.
Ega olhou-os a ambos, sucessivamente, petrificado. E logo, num fluxo de palavras desordenadas, queixou-se de não ter amigos. Ali estava, naquela crise, a maior da sua vida: e em lugar de encontrar, nos seus camaradas de infância e de Coimbra, apoio, solidariedade, lealdade à tort et à travers, abandonavam-no, pareciam querer enterra-lo, e expo-lo a irrisões maiores... Ia-se comovendo; os olhos vermelhejavam-lhe sob as lágrimas. E quando algum deles ia interrompe-lo, numa palavra de senso, batia o pé, persistia na sua teima - um desafio, matar o Cohen, vingar-se! Tinha sido insultado. Não existia outra coisa. Não se tinha falado na mulher. Era ele que devia primeiro mandar padrinhos, lavar a sua honra. Havia pessoas na sala, quando o outro o insultou. Havia um urso, e uma tirolesa... E enquanto a deixar-se varar por uma bala, não! Tinha mais direito a viver que o Cohen, que era um burguês, e um agiota... E ele era um homem de estudo e de arte! Tinha na cabeça livros, ideias, coisas grandes. Devia-se ao país, à civilização!... Se fosse ao campo, era para fazer a sua pontaria, e abater o Cohen, ali, como uma besta imunda...
- Mas o que é, é que não tenho amigos! gritou ele exausto por fim, caindo para o canto dum sofá.
Craft bebia em silêncio, e aos golos, o seu cognac.
Foi Carlos que se ergueu, sério e áspero. Ele não tinha direito de duvidar da sua amizade. Quando lhe tinha ela faltado? Mas era necessário não ser pueril, nem teatral... A questão estava simplesmente em que o Cohen o surpreendera, amando-lhe a mulher. Logo, podia mata-lo, podia entrega-lo aos tribunais, podia escavaca-lo na sala a pontapés...
- Ou pior, interrompeu Craft. Mandar-te a senhora, com este bilhetinho: «Guarde-a».
- Ou isso! continuava Carlos. Não, senhor: limita-se a proibir-te a entrada em casa, um pouco asperamente, sim, mas indicando que, depois de ter feito isto, não quer nada mais violento, nem mais dramático. Teve portanto um acto de moderação. E tu queres manda-lo desafiar por isso?...
Mas Ega revoltou-se outra vez, deu um pulo, disparatou pela sala, sem paletó agora, esguedelhado, parecendo mais fantástico naquele simples gibão escarlate, com os sapatos de veludo enlameados, as longas pernas de cegonha cobertas de malha de seda vermelha. E teimava que se não tratava disso! Não, não se tratava da mulher! A questão era outra...
Carlos então zangou-se.
- Para que diabo te expulsou ele de casa então? Não disparates, homem! Nós estamos-te a dizer o que faz um homem de senso. E é triste, que te custe tanto a perceber o que manda o senso. Traíste um amigo teu... Nada de equívocos! tu declaravas bem alto a tua amizade pelo Cohen. Traíste-lo, tens de aceitar a lei: se ele te quiser matar tens de morrer. Se ele não quiser fazer nada, tens de ficar de braços cruzados. Se ele te quiser chamar aí por essas ruas um infame, tens de baixar a cabeça, e reconhecer-te infame...
- Então tenho de engolir a afronta?
Os dois amigos explicaram-lhe que aquele fato de Satanás lhe perturbava a lucidez do critério mundano - e que chegava a ser torpe falar ele, Ega, de afronta.
Ega, outra vez acabrunhado sobre o sofá, conservou um momento a cabeça enterrada nas mãos.
- Eu já nem sei, disse ele por fim. Vocês devem ter razão... Eu estou-me a sentir idiota... Então, vamos, que hei de eu fazer?
- Vocês têm a tipóia à espera? perguntou tranquilamente Craft.
Carlos mandara desaparelhar, recolher o gado esfalfado.
- Excelente! Então, meu caro Ega, tens outra coisa a fazer, antes de morrer amanhã talvez, é cear esta noite. Eu ia cear, e por motivos longos de explicar, há nesta casa um peru frio. E há-de haver uma garrafa de Bourgonhe...
daí a pouco estavam à mesa - naquela bela sala de jantar do Craft, que encantava sempre Carlos, com as suas tapeçarias ovais representando bocados solitários de arvoredo, as severas faianças da Pérsia, e a sua original chaminé flanqueada por duas figuras negras de Núbios com olhos rutilantes de cristal. Carlos, que se declarara esfomeado, trinchava já o peru, enquanto Craft, desarrolhava, com veneração, duas garrafas do seu velho Chambertin, para reconfortar Mefistófeles.
Mas Mefistófeles, sombrio e com os olhos avermelhados, repeliu o prato, desviou o copo. Depois, sempre condescendeu em provar o Chambertin.
Pois eu, dizia Craft empunhando o talher, quando vocês chegaram, estava a ler um artigo interessante sobre a decadência do protestantismo em Inglaterra...
- Que é aquilo, além, naquela lata? perguntou Ega, com uma voz moribunda.
Um pâté de foie-gras. Mefistófeles escolheu com tédio uma trufa.
- Bem bom, este teu Chambertin, suspirou ele.
- Anda come e bebe com franqueza, gritou-lhe Craft. Não te romantizes. Tu o que tens é fome. Todas as tuas ideias esta noite se ressentem da debilidade!
Então Ega confessou que devia estar fraco. Com aquela excitação do seu traje de Satanás nem jantara, contando cear bem em casa do outro... Sim, com efeito, tinha apetite! Excelente foie-gras...
E daí a pouco devorava: foram talhadas de peru, uma porção imensa de língua de Oxford, duas vezes presunto de York, todas aquelas boas coisas inglesas que havia sempre em casa do Craft. E ele só bebeu quasi toda uma garrafa de Chambertin.
O escudeiro fora preparar o café: e, no entanto, ia-se discutindo, em todas as hipóteses, a atitude provável do Cohen com a mulher. Que faria ele? Talvez lhe perdoasse. Ega afirmava que não: era vaidoso, e de rancores longos! Num convento também não a fechava, sendo judia...
- Talvez a mate, disse Craft, com toda a seriedade. Ega, já com os olhos brilhantes do Bourgogne, declarou tragicamente que ele então entrava num mosteiro. Os dois gracejaram, sem piedade. Em que mosteiro queria ele entrar? Nenhum era congenere com o Ega! Para dominicano era muito magro, para trapista muito lascivo, muito palrador para jesuíta, e para benedictino muito ignorante... Era necessário criar uma ordem para ele! Craft lembrou a Santa Blague!
- Vocês não têm coração, exclamou Ega, enchendo outro grande copo. Vocês não sabem, eu adorava aquela mulher!
Então largou a falar de Rachel. E teve ali, de certo, os momentos melhores de toda aquela paixão, - porque pôde, sem escrúpulo, fazer reluzir a sua auréola de amante, banhar-se no mar deleite das confidências vaidosas. Começou por contar o encontro com ela na Foz - enquanto Craft, sem perder uma palavra, como quem se instrui, se erguera a abrir uma garrafa de Champagne. Disse depois os passeios na Cantareira; as cartinhas ainda hesitantes e platónicas, trocadas entre folhas de livros emprestados, em que ela se assinava Violeta de Parma; o primeiro beijo, o melhor, surripiado entre duas portas, enquanto o marido correra acima a buscar-lhe charutos especiais; os rendez-vous no Porto, no Cemitério do Repouso, as pressões ardentes de mãos à sombra dos ciprestes, e os planos de voluptuosidade combinados entre as lapides fúnebres...
- Muito curioso! dizia o Craft.
Mas Ega teve de se calar, o criado entrava com o café. Enquanto se enchiam as chávenas, e Craft fora buscar uma caixa de charutos, ele acabou a garrafa de Champagne, já pálido, com o nariz afilado.
O criado saiu, correndo o reposteiro de tapeçaria: e logo Ega, com o cálice de cognac ao lado, recomeçou as confidências, contou a volta a Lisboa, a Vila Balzac, as manhãs deliciosas passadas lá com ela no calor dum ninho de amor...
Mas agora interrompia-se, vago e com os olhos turvos, enterrando um momento a cabeça entre os punhos. Depois lá vinha outro detalhe, os nomes lúbricos que ela lhe dava, uma certa coberta de seda preta onde ela brilhava como um jaspe... Duas lágrimas embaciaram-lhe os olhos, jurou que queria morrer!
- Se vocês soubessem que corpo de mulher! gritou ele de repente. Oh meninos, que corpo de mulher... Imaginem vocês um peito...
- Não queremos saber, disse Carlos. Cala-te, tu estás bêbado, miserável!
Ega ergueu-se, retesando a perna, arrimado de lado à mesa.
Bêbado! Ele? Ora essa!... Era coisa que não podia, era empiteirar-se. Tinha feito o possível, bebido tudo, até água-ráz. Nunca! Não podia...
- Olha, vou pôr aquela garrafa à boca, tu verás... E fico frio, fico impossível. A discutir filosofia... Queres que te diga o que penso de Darwin? É uma besta... Ora aí tens. Dá cá a garrafa.
Mas Craft recusou-lha; e, um momento Ega ficou oscilando, a olhar para ele, com a face lívida.
- Ou me dás a garrafa... ou me dás a garrafa, ou te meto uma bala no coração... Não, nem vales a bala... Vou-te dar uma bolacha!
De repente os olhos cerraram-se-lhe, abateu-se sobre a cadeira, daí sobre o chão, como um fardo.
- Terra! disse tranquilamente Craft.
Tocou a campainha, o escudeiro entrou, apanharam João da Ega. E enquanto o levavam para o quarto dos hospedes e lhe despiam o fato de Satanás,
não cessou de choramingar, dando beijos babosos pelas mãos de Carlos, balbuciando:
- Rachelsinha!... Racaqué, minha Raquesinha! gostas do teu bibichinho?...
Quando Carlos partiu na tipóia para Lisboa, não chovia, um vento frio ia varrendo o céu, já clareava a alvorada.
Ao outro dia, ás dez horas, Carlos voltou aos Olivais. Achou Craft dormindo, e subiu ao quarto do Ega. As janelas tinham ficado abertas, um largo raio de sol dourava o leito; e ele ressonava ainda, no meio daquela auréola, deitado de lado, com os joelhos contra o estômago, o nariz dentro dos lençóis.
Quando Carlos o sacudiu, o pobre John abriu um olho triste, e bruscamente ergueu-se sobre o cotovelo, espantado para o quarto, para os cortinados de damasco verde, para um retrato de dama empoada que lhe sorria de dentro da sua moldura dourada. De certo as memórias da véspera o assaltaram, porque se enterrou para baixo, com os lençóis até ao queixo; e a sua face esverdeada, envelhecida, exprimiu a desconsolação de deixar aqueles fofos colchões, a paz confortável da quinta - para ir afrontar a Lisboa toda a sorte de coisas amargas.
- Está frio lá fora? perguntou ele melancolicamente.
- Não, está um dia adorável. Mas levanta-te, depressa! Se lá for alguém da parte do Cohen, podem imaginar que fugiste...
Ega deu imediatamente um pulo da cama, e atordoado, esguedelhado, procurava a roupa, com as canelas nuas, tropeçando contra os móveis. Só achou o gibão de Satanás. Chamaram o criado, que trouxe umas calças de Craft. Ega enfiou-as à pressa: e sem se lavar, com a barba por fazer, a gola do paletó erguida, enterrou enfim na cabeça o bonet escocês, voltou-se para Carlos, disse com um ar trágico:
- Vamos a isso!
Craft, que se erguera, foi acompanha-los ao portão, onde esperava o coupé de Carlos. Na alameda de acácias, tão tenebrosa na véspera sob a chuva, cantavam agora os pássaros. A quinta, fresca e lavada, verdejava ao sol. O grande Terra-nova do Craft pulava em roda deles.
- Doe-te a cabeça, Ega? perguntou Craft.
- Não, respondeu o outro, acabando de abotoar o paletó. Eu ontem não estava bêbado... O que estava era fraco.
Mas, ao entrar para o coupé, fez, com um ar profundo e filosófico, esta reflexão:
- O que é a gente beber bons vinhos... Estou como se não fosse nada!
Craft recomendou que, se houvesse novidade, lhe mandassem um telegrama; fechou a portinhola, o coupé partiu.
Durante a manhã não veio telegrama à quinta; e quando Craft apareceu na Vila Balzac, onde uma carruagem de Carlos esperava à porta, já escurecera, duas velas ardiam na triste sala verde. Carlos, estirado no sofá, dormitava, com um livro aberto sobre o estômago: e Ega passeava dum lado para outro, todo vestido de preto, pálido, com uma rosa na botoeira. Tinham estado ali na sala, naquela seca, esperando todo o dia as testemunhas do Cohen.
- Que te dizia eu? Não há nada, nem podia haver, murmurou Craft.
Mas Ega, agora agitado de ideias negras, temia que ele tivesse assassinado a mulher! O sorriso céptico de Craft indignou-o. Quem conhecia melhor o Cohen do que ele? Sob a aparência burguesa, era um monstro! Tinha-lhe visto matar um gato, só por capricho de derramar sangue...
- Tenho um pressentimento de desgraça, balbuciou ele aterrado.
E logo nesse momento a campainha retiniu. Ega acordou precipitadamente Carlos, empurrou os dois amigos para o quarto de cama. Craft ainda lhe disse que, àquela hora, não podiam ser os amigos do Cohen. Mas ele queria estar só na sala: e lá ficou, mais pálido, rígido, muito abotoado na sobrecasaca, com os olhos cravados na porta.
- Que maçada! dizia Carlos dentro, tenteando a escuridão do quarto.
Craft acendeu no toucador um resto de vela. Uma luz triste espalhou-se, tudo apareceu num desarranjo: no meio do chão estava caída uma camisa de dormir; a um canto ficara a bacia de banho com água de sabão; e, no centro, o enorme leito, envolto nas suas cortinas de seda vermelha, conservava uma majestade de tabernáculo.
Um momento estiveram calados. Craft metódico, e como quem se instrui, examinava o toucador, onde havia um maço de ganchos de cabelo, uma liga com o fecho quebrado, um ramo de violetas murchas. Depois foi olhar o mármore da cómoda; aí ficara um prato com ossos de frango, e ao lado uma meia folha de papel escrita a lápis, toda emendada, de certo trabalho literário do Ega. Ele achava tudo isto muito curioso.
Da sala, no entanto, vinha um ciciar de vozes subtil e íntimo. Carlos escutando, julgou sentir uma fala abafada de mulher... Impaciente, foi à cozinha. A criada estava sentada à mesa, com a mão metida pelos cabelos, sem fazer nada, a olhar para a luz: o pagem, espaparrado numa cadeira, chupava o seu cigarro.
- Quem foi que entrou? perguntou Carlos.
- Foi a criada do Sr. Cohen, disse o garoto, escondendo o cigarro atrás das costas.
Carlos voltou ao quarto, anunciando:
- É a confidente. As coisas terminam amavelmente.
- E como queria você que terminassem? disse Craft. O Cohen tem o seu Banco, os seus negócios, as suas letras a vencer, o seu credito, a sua respeitabilidade, todo um arranjo de coisas a que não convém um escândalo... É isto que calma os maridos. Além disso, já se satisfez, já lhe ofereceu pontapés...
Nesse instante houve um rumor na sala, Ega abriu violentamente a porta.
- Não há nada, exclamou ele, deu-lhe uma coça, e vão amanhã para Inglaterra!
Carlos olhou para o Craft - que movia a cabeça, como vendo todas as suas previsões realizadas, e aprovando plenamente.
- Uma coça, dizia o Ega, com os olhos chamejantes e numa voz que sibilava. E depois fizeram as pazes... Vem ainda a ser um menage modelo! A
bengala purifica tudo... Que canalha!
Estava furioso. Nesse momento odiava Rachel - não perdoando ao seu ídolo ter-se deixado desfazer à paulada. Lembrava-se justamente da bengala do Cohen, um junco da índia, com uma cabeça de galgo por castão. E aquilo zurzira as carnes que ele tinha apertado com paixão! Aquilo pusera vergões roxos onde os seus lábios tinham avivado sinais cor de rosa! E tinham feito as pazes. E assim terminava, reles e chinfrim, o romance melhor da sua vida! Preferiria sabe-la morta, a sabe-la espancada. Mas não! levava a sova, deitava-se depois com o marido, e ele mesmo, decerto arrependido, chamando-lhe nomes doces, a ajudava, em ceroulas, a fazer as aplicações de arnica! Aquilo acabava em arnica!
- Entre vocemecê para aqui, Sr.ª Adélia, gritou ele para a sala, entre para aqui! Aqui só há amigos. O segredo acabou, o pudor acabou! Isto são amigos! Somos três, mas somos um! Tem vocemecê diante de si o grande mistério da Santíssima Trindade. Sente-se, Sr.ª Adélia, sente-se... Não faça cerimónia... E pode contar.... Aqui a Sr.ª Adélia, meninos, viu tudo, viu a coça!
A Sr.ª Adélia, uma moça gordinha e baixa, de bonitos olhos, com um chapéu de flores vermelhas, veio logo da sala rectificando. Não, ela não vira... Então o Sr. Ega não tinha percebido bem... Ela só ouvira.
- Aqui está como foi, meus senhores... Eu tinha ficado a pé, naturalmente, até ao fim do baile, que estava que nem me tinha nas pernas. Era já dia claro, quando o senhor, ainda vestido de moiro, se fechou no quarto com a senhora. Eu fiquei na cozinha com o Domingos à espera que eles tocassem a campainha. De repente ouvimos gritos!... Eu fiquei estarrecida, pensei até que eram ladrões. Corremos, eu e o Domingos, mas a porta do quarto estava fechada, e os dois estavam por dentro, lá para o fundo da alcova. Eu ainda pus o olho à fechadura, mas não pude ver nada... Lá o estalar de bofetadas, e trambolhões, e sons de bengalada, isso sim, isso ouvia-se perfeitamente; e os gritos. Eu disse logo ao Domingos «ai que é uma questão, ai que lá se foi tudo.» Mas de repente, silêncio geral! Nós voltámos para a cozinha; daí a pouco o Sr. Cohen apareceu, todo esguedelhado, em mangas de camisa, a dizer que nos podíamos deitar, que eles não precisavam nada, e que amanhã falaríamos!... Depois lá ficaram toda a noite, e pela manhã parece que estavam muito amiguinhos... Que eu não pus os olhos na senhora. O Sr. Cohen, apenas se levantou, veio à cozinha, fez-me ele as contas, e pôs-me fora; muito mal criado, até me ameaçou com a polícia... Foi pelo Domingos, que eu soube agora, quando fui buscar o baú com um galego, que o Sr. Cohen ía com a senhora para Inglaterra. Enfim, um chinfrim... Eu até tenho estado todo o dia com o estômago embrulhado.
A Sr.ª Adélia com um suspiro, pondo os olhos no chão, calou-se. Ega, com os braços cruzados, olhava amargamente para os seus amigos. Que lhes parecia aquilo? Uma coça!... Se um covarde daqueles não merecia uma bala no coração! Mas ela também, deixar-se tocar, não ter fugido, consentir ainda depois em dormir com ele!... Tudo uma corja!
- E a Sr.ª Adélia, perguntava Craft, não tem ideia de como ele descobriu?...
- Isso é que é prodigioso! gritou Ega, apertando as mãos na cabeça.
Sim, prodigioso! Não fora carta apanhada: eles não se escreviam. Não podia ter surpreendido as visitas à Vila Balzac: as coisas estavam combinadas com uma arte muito subtil, perfeitamente impenetráveis. Para vir ali, nunca ela cometera a indiscrição de se servir da sua carruagem. Nunca ela claramente entrara pela porta. Os criados dele nunca a tinham visto, não sabiam quem era a senhora que o visitava... Tantos cuidados, e tudo estragado!
- Estranho, estranho! murmurava Craft.
Houve um silêncio. A Sr.ª Adélia terminara por descansar familiarmente numa cadeira, com a sua trouxasinha no regaço.
- Pois olhe, Sr. Ega, disse ela, depois de reflectir, creia então uma coisa, é que foi em sonhos. Já tem acontecido... Foi a senhora que sonhou alto com V. Ex.ª, disse tudo, o Sr. Cohen ouviu, ficou de pedra no sapato, espreitou-a, e descobriu a marosca... E eu sei que ela sonha alto.
Ega, diante da Sr.ª Adélia, percorria-a desde as flores do chapéu até à roda das saias, com os olhos faiscantes.
- Como é possível que ele ouvisse? Se eles tinham quartos separados!... Eu sei que tinham.
A Sr.ª Adélia baixou as pálpebras, acariciou com os dedos calçados de luvas pretas a sua trouxasinha redonda, e disse mais baixo estas palavras:
- Não tinham, não senhor. Nem a senhora consentia em tal arranjo... A senhora gosta muito do marido, e tem muitos ciúmes dele.
Houve um silêncio embaraçado e desagradável. Sobre o toucador o resto da vela acabava, com uma luz lúgubre. E Ega, que afectara sorrir, encolher os ombros, dava pelo quarto passos lentos e murchos, triturando o bigode com a mão tremula.
Então Carlos enojado, cansado daquele episódio que durava desde a véspera, e onde constantemente se remexera em lodo, declarou que era necessário findar! Eram oito horas, e ele queria jantar...
- Sim, vamos todos jantar, murmurou o Ega, com o ar confuso e embaçado.
De repente fez um sinal à Sr.ª Adélia, arrastou-a para a sala, fechou-se lá outra vez.
- Você não está farto disto, Craft? exclamou Carlos, desesperado.
- Não. Acho um estudo curioso.
Esperaram ainda dez minutos. Subitamente a vela extinguiu-se. Carlos, furioso, gritou pelo pagem. E o garoto entrava com um imundo candeeiro de petróleo - quando Ega, mais composto, voltou da sala. Tudo acabara, a Sr.ª Adélia partira.
- Vamos lá jantar, disse ele. Mas aonde, a esta hora?
E ele mesmo lembrou o André, ao Chiado. Em baixo, alem do coupé de Carlos, esperava a tipóia do Craft. As duas carruagens partiram. A Vila Balzac ficava apagada, muda, de ora em diante inútil.
No André tiveram de esperar muito tempo, num gabinete triste, com um papel de estrelinhas douradas, cortininhas de cassa barata sob sanefas de reps azul, e dois bicos de gás que silvavam. Ega, enterrado no sofá de molas gastas e lassas, cerrara os olhos, parecia exausto. Carlos ía contemplando as gravuras pela parede, todas relativas a espanholas: uma saindo da igreja; outra saltando uma pocinha de água; outra, de olhos baixos, escutando os conselhos de um canónico. Craft, já à mesa, com a cabeça entre os punhos, percorria um Diário da Manhã, que o criado oferecera para os senhores se entreterem.
De repente o Ega deu um murro no sofá, que rangeu lamentavelmente.
- Eu o que não percebo, gritou ele, é como aquele malvado descobriu!...
- A hipótese da Sr.ª Adélia, disse Craft erguendo os olhos do jornal, parece provável. Ou em sonhos, ou acordada, a pobre senhora descaiu-se. Ou talvez uma denuncia anónima. Ou talvez apenas um acaso... O facto é que o homem desconfiou, espreitou-a, e apanhou-a.
Ega erguera-se:
- Eu não vos quis dizer diante da Adélia, que não estava no segredo todo. Mas vocês sabem a casa defronte da minha, do outro lado da viela, uma casa com um grande quintal? Aí mora uma tia do Gouvarinho, a D. Maria Lima, uma pessoa respeitável. A Rachel ía vê-la de vez em quando. São intimas, a D. Maria Lima é intima de todo o mundo. Depois saia por uma portinha do quintal, atravessava a viela, e estava à porta da minha casa, à porta escusa, à porta da escada que vai ter ao cacifro de banho. Já vocês vêem... Os criados nem a avistavam. Quando ela lá lanchava, o lunch estava já posto no meu quarto, as portas fechadas. Mesmo se alguém visse, era uma senhora com um véu preto, que vinha de casa da Lima... Como podia o homem apanha-la?... Além disso, em casa da Lima, ela mudava de chapéu, e punha um waterproof...
Craft cumprimentou.
- É brilhante! Parece de Scribe.
- Então, disse Carlos sorrindo, essa respeitável fidalga...
- A D. Maria, coitada... Eu te digo, é uma excelente velha, recebida em toda a parte, mas pobre, e faz destes favores... Ás vezes mesmo em casa dela.
- Leva caro por esses serviços? perguntou tranquilamente Craft, que em todo aquele caso procurava instruir-se.
- Não, coitada, disse o Ega. Dão-se-lhe de vez em quando cinco libras.
O criado entrava com uma travessa de camarões, os três em silêncio acomodaram-se à mesa.
Depois do jantar recolheram ao Ramalhete. Ega ía lá dormir, receando, com os nervos tão excitados, a solidão da vila Balzac. Partiram, de charutos acesos, numa caleche descoberta, sob a noite estrelada e doce.
Felizmente não estava ninguém no Ramalhete; Ega, cansado, pôde retirar-se logo para o seu quarto, um aposento de hospedes no segundo andar, onde havia um belo leito antigo de pau preto. Aí, apenas o criado o deixou, Ega aproximou-se do tremó onde ardiam as luzes, e tirou do pescoço, de sob a camisa, um medalhão de ouro. Tinha dentro uma fotografia de Rachel: - e a sua intenção agora era queima-la, deitar ao balde das águas sujas as cinzas daquela paixão. Mas, ao abrir o medalhão, a face bonita, banhada num sorriso, sob o vidro oval, pareceu olhar para ele com uma tristeza no veludo das pupilas lânguidas... A fotografia mostrava apenas a cabeça, com uma abertura de decote no começo do vestido: e as recordações de Ega alargaram aquele decote uma vez mais, revendo o colo, o extraordinário cetim da pele, o sinalsinho sobre o seio esquerdo... O sabor dos seus beijos passou-lhe de novo nos lábios, sentiu na alma outra vez como o eco dos suspiros cansados que ela soltara nos seus braços. E ela ia-se embora, nunca mais a veria! Esta desolada amargura do nunca mais revolveu-o todo - e com a face enterrada no travesseiro, o pobre demagogo, o grande fraseador soluçou muito tempo no segredo da noite.
Toda essa semana foi dolorosa para o Ega. Logo ao outro dia Dâmaso aparecera no Ramalhete, e por ele ouviram os rumores de Lisboa. Já se sabia no Grémio, no Chiado, por toda a parte, que ele fora expulso da casa dos Cohens. O urso, a pastora do Tirol, testemunhas do episódio, tinham-no badalado com entusiasmo. Dizia-se mesmo que o Cohen lhe dera um pontapé. Os amigos da casa, esses, sobretudo o Alencar, pregavam com fervor a inocência da Sr.ª D. Rachel. O Alencar contava publicamente que o Ega, provinciano inexperiente e leão de Celorico, tendo tomado por evidencias de paixão os sorrisos de amabilidade de uma senhora que recebe, - escrevera à Sr.ª D. Rachel uma carta quasi obscena, que ela, coitadinha, toda em lágrimas, viera mostrar ao marido.
- Então dão-me para baixo, hein, Dâmaso? murmurou Ega que, no gabinete de Carlos, embrulhado numa velha ulster, e encolhido numa poltrona, escutava estas coisas com um ar cansado e doente.
Dâmaso confessou que na sociedade lhe davam para baixo.
Ah, ele sabia-o bem! Tinha antipatias em Lisboa. Ninguém lhe perdoara ainda a peliça. A sua verve, toda em sarcasmos, ofendia. E era desagradável para muita gente que um homem, com esse espírito tão perigoso de ferro em brasa, tivesse uma mãe rica, e fosse independente.
Depois, no sábado seguinte, Carlos, ao voltar do jantar dos Gouvarinhos - que fora excelente - contou-lhe a conversa que tivera com a Sr.ª condessa. A condessa falara-lhe muito livremente, como um homem, daquele desastre do Ega. Tinha-se afligido muito, não só pela Rachel, coitada, de quem era amiga, mas pelo Ega, que ela apreciava tanto, tão interessante, tão brilhante, e que saia de tudo aquilo enxovalhado! O Cohen dizia a todos (dissera-o ao Gouvarinho) que ameaçara o Ega de pontapés, por ele ter escrito a sua mulher uma carta imunda. Os que não sabiam nada, como o Gouvarinho, acreditavam, apertavam as mãos na cabeça; e os que sabiam, os que havia seis meses sorriam da intimidade do Ega com os Cohens, afectavam também acreditar, cerravam os punhos de indignação. O Ega era odiado. E a pequena Lisboa, que vive entre o Grémio e a casa Havaneza, folgava em «enterrar» o Ega.
Ega, com efeito, sentia-se «enterrado». E nessa noite declarou a Carlos que decidira recolher-se à quinta da mãe, passar lá um ano a acabar as Memórias dum Átomo, e reaparecer em Lisboa com o seu livro publicado, triunfando sobre a cidade, esmagando os medíocres. Carlos não perturbou esta radiante ilusão.
Mas quando Ega, antes de partir, foi a recapitular os seus negócios de casa, de dinheiro, encontrou-se diante de coisas abomináveis. Devia a todo o mundo, desde o estofador até ao padeiro; tinha três letras a vencer; aquelas dividas, se as deixasse, soltas e ladrando, juntar-se-iam, na tagarelice publica, ao caso dos Cohens - e ele seria, além do amante ameaçado de pontapés, o pelintra perseguido pelos credores! Que havia de fazer, senão valer-se de Carlos? Carlos, para regular tudo, emprestou-lhe dois contos de réis.
Depois, tendo despedido os criados da Vila Balzac, surgiram-lhe outras complicações. A mãe do pagem veio daí a dias ao Ramalhete, muito insolente, gritando que o filho lhe desaparecera! E era exacto: o famoso pagem, pervertido pela cozinheira, sumira-se com ela para as vielas da Mouraria, a começar aí uma divertida carreira de faia.
Ega recusou-se a atender ás reclamações da matrona. Que diabo tinha ele com essas torpezas?
Então o amante da criatura interveio, ameaçadoramente. Era um polícia, um esteio da ordem: e deu a entender que lhe seria fácil provar como na Vila Balzac se passavam «coisas contra a natureza», e que o pagem não era só para servir à mesa... Nauseado até à morte, Ega pactuou com a intrujice, largou cinco libras ao polícia. Quando nessa noite, uma noite triste de água, Carlos e Craft o acompanharam a Santa Apolónia, ele disse-lhes na carruagem estas palavras, triste resumo dum amor romântico:
- Sinto-me como se a alma me tivesse caído a uma latrina! Preciso um banho por dentro!
Afonso da Maia ao saber este desastre do Ega, tinha dito a Carlos, com tristeza:
- Má estreia, filho, péssima estreia!
E nessa noite, depois de voltar de Santa Apolónia, Carlos pensava nestas palavras, dizia também consigo: - Péssima estreia!... E nem só a estreia do Ega era péssima; também a sua. E talvez, por pensar nisso, as palavras do avô tinham tido aquela tristeza. Péssimas estreias! Havia seis meses que o Ega chegara de Celorico, embrulhado na sua grande peliça, preparado a deslumbrar Lisboa com as Memórias dum Átomo,
a domina-la com a influência de uma Revista, a ser uma luz, uma força, mil outras coisas... E agora, cheio de dividas e cheio de ridículo, lá voltava para Celorico, escorraçado. Péssima estreia! Ele, por seu lado, desembarcara em Lisboa, com ideias colossais de trabalho, armado como um lutador: era o consultório, o laboratório, um livro iniciador, mil coisas fortes... E, que tinha feito? Dois artigos de jornal, uma dúzia de receitas, e esse melancólico capítulo da Medicina entre os Gregos. Péssima estreia!
Não, a vida não lhe parecia prometedora, nesse instante, passeando na sala de bilhar com as mãos nos bolsos, enquanto ao lado os amigos conversavam, e fora uivava o sudoeste. Pobre Ega, que infeliz ele iria, encolhido ao canto do seu wagon!... Mas os outros, ali, não estavam mais alegres. Craft e o Marquês tinham começado uma conversa sobre a vida, soturna e desconsoladora. De que servia viver, dizia Craft, não se sendo um Livingstone ou um Bismark? E o Marquês, com um ar filosófico, achava que o mundo se ia tornando estúpido. Depois chegou o Taveira com a história horrível dum colega dele, cujo filho caíra pela escada, se despedaçara, no momento em que a mulher estava a morrer duma pleurisia. Cruges resmungou o quer que fosse sobre suicídio. As palavras arrastavam-se, melancólicas. Instintivamente, Carlos, de vez em quando, ia despertar as lâmpadas.
Mas tudo lhe pareceu resplandecer, quando daí a instantes Dâmaso chegou, e lhe disse que o Castro Gomes estava incomodado, e de cama.
- Naturalmente, acrescentou o Dâmaso, mandam-te chamar, por teres já visto a pequena...
Carlos ao outro dia não saiu de casa, esperando um recado, faiscando de impaciência. Nenhum recado veio. E, duas tardes depois, ao descer para o Aterro - o primeiro encontro que teve, ás Janelas Verdes, foi o Castro Gomes, de caleche descoberta, com a mulher ao lado, e a cadelinha no colo.
Ela passou, sem o ver. E logo ali Carlos decidiu findar aquela tortura, pedir muito simplesmente ao Dâmaso que o apresentasse ao Castro Gomes, antes dele partir para o Brasil... Não podia mais, precisava ouvir a voz dela, ver o que os seus olhos diziam quando eram interrogados de perto.
Mas toda essa semana achou-se, constantemente, sem saber como, na companhia dos Gouvarinhos. Começou por encontrar o conde, que lhe travou do braço, arrastou-o à rua de S. Marçal, instalou-o numa poltrona, no seu escritório, e leu-lhe um artigo que destinava ao Jornal do Comercio sobre a situação dos partidos em Portugal: depois convidou-o a jantar. Na tarde seguinte eles tinham uma partida de croquet. Carlos foi. E, a uma janela, aberta sobre o jardim, teve um momento de intimidade com a condessa, contou-lhe, rindo, como os cabelos dela o tinham encantado, a primeira vez que a vira. Nessa noite, ela falou dum livro de Tenyson, que não lera; Carlos ofereceu-lho, foi-lho levar ao outro dia, de manhã. Encontrou-a só, toda vestida de branco: e riam, baixavam já a voz, as duas cadeias estavam mais juntas - quando o escudeiro anunciou a Sr.ª D. Maria da Cunha. Era uma coisa tão extraordinária, a D. Maria da Cunha àquela hora! Carlos, de resto, gostava muito da D. Maria da Cunha, uma velha engraçada, toda bondade, cheia de simpatia por todos os pecados - e ela mesma muito pecadora quando era a linda Cunha. D. Maria era muito faladora, parecia ter que dizer em particular à condessa; e Carlos deixou-as, prometendo voltar uma dessas tardes tomar chá, e falar de Tenyson.
Na tarde em que ele se vestia para lá ir, Dâmaso apareceu-lhe no quarto, a dar-lhe uma novidade que o enchia de desgosto e de «ferro». O telhudo do Castro Gomes mudara de ideia, já não ia ao Brasil! Ficava ali, no Central, até ao meado do verão! De sorte que estava tudo estragado...
Carlos pensou logo em falar da sua apresentação ao Castro Gomes. Mas, como em Sintra, sem saber porquê, veio-lhe uma repugnância de a conhecer por meio do Dâmaso. E foi-se vestindo em silêncio.
Dâmaso no entanto maldizia a sua chance:
- E eu que tinha mulher, eu que a tinha, se houvesse ocasião. Mas que diabo queres tu, assim?...
Queixou-se então do Castro Gomes. Em resumo, era um telhudo. E a vida daquele homem era misteriosa... Que diabo estava ele a fazer em Lisboa? Ali havia dificuldades de dinheiro... E eles não se davam bem. Na véspera houvera de certo questão. Quando ele entrara, ela estava com os olhos vermelhos, e enfiada; e ele, nervoso, a passear pela sala, a retorcer a barba... Ambos contrafeitos, uma palavra cada quarto de hora...
- Sabes tu? exclamou ele. Tenho minha vontade de os mandar à fava.
Queixou-se também dela. Era sobretudo muito desigual. Ora bom modo, ora regelada; e, ás vezes, ele dizia qualquer coisa muito natural, destas coisas de conversa de sociedade, e ela punha-se a rir. Era de encavacar, hein? Enfim, gente muito esquisita.
- Onde vais tu? disse ele, com um suspiro de aborrecimento, vendo Carlos pôr o chapéu.
Ia tomar chá com a Gouvarinho.
- Pois olha, vou contigo... Estou duma seca! Carlos hesitou um instante, terminou por dizer:
- Vem, fazes-me até favor...
A tarde estava lindissima, Carlos ia no dog-cart.
- Há que tempos que não damos assim um passeio juntos, disse Dâmaso.
- Tu andas lá metido com estrangeiros!...
Dâmaso deu outro suspiro, e não tornou a dizer mais nada. Depois, à porta dos Gouvarinhos, quando soube que a Sr.ª condessa recebia, resolveu
subitamente não entrar. Não, não entrava. Estava muito estúpido, incapaz de achar uma palavra...
- Ah, e outra coisa que me lembrou agora, exclamou ele, demorando ainda Carlos diante do portão. O Castro Gomes, ontem, perguntou-me o que te havia de mandar pela visita à pequena... Eu disse que tu tinhas ido lá por favor, como meu amigo. E ele disse que te havia de vir deixar um bilhete... Naturalmente vens a conhece-los.
Não era, pois, necessário que Dâmaso o apresentasse!
- Aparece à noite, Dâmasosinho, vai lá jantar amanhã! exclamou Carlos, subitamente radiante, dando um ardente aperto de mão ao seu amigo.
Quando entrou na sala, um escudeiro acabava de servir chá. A sala, forrada dum papel severo, verde e ouro, com retratos de família em caixilhos pesados, abria por duas varandas sobre a folhagem do jardim. Em cima das mesas havia cestos de flores. No sofá, duas senhoras de chapéu, ambas de preto, conversavam, com a chávena na mão. A condessa, ao estender os dedos a Carlos, ficara tão cor de rosa - como a seda acolchoada da cadeira em que estava recostada, ao pé dum velador de pau santo. Notou logo, sorrindo, o ar radiante de Carlos. Que
lhe tinha acontecido de bom? Carlos sorriu também, disse que não era possível entrar ali com outro ar. Depois perguntou pelo conde...
O conde ainda não aparecera, detido de certo na câmara dos pares, onde se discutia o projecto sobre a Reforma da Instrucção Publica.
Uma das senhoras de preto fazia votos para que se aliviassem os estudos. As pobres crianças sucumbiam verdadeiramente à quantidade exagerada de matérias, de coisas a decorar: o dela, o Joãozinho, andava tão pálido e tão desfigurado, que ela ás vezes tinha vontade de o deixar ficar ignorante de todo. A outra senhora pousou a chávena sobre um console ao lado, e passando sobre os lábios a renda do lenço, queixou-se sobretudo dos examinadores. Era um escândalo as exigências, as dificuldades que punham, só para poder deitar RR... Ao pequeno dela tinham feito as perguntas mais estúpidas, as mais reles; assim, por exemplo, o que era o sabão, porque lavava o sabão?...
A outra senhora e a condessa apertaram as mãos contra o peito, consternadas. E Carlos, muito amável, concordou que era uma abominação. O marido dela - continuava a dama de preto - ficara tão desesperado que, encontrando o examinador no Chiado, o ameaçou de lhe dar bengaladas. Uma imprudência, de certo; mas, enfim, o homem fora malvado!... Não havia verdadeiramente senão uma coisa digna de se estudar, eram as línguas. Parecia insensato que se torturasse uma criança com botânica, astronomia, física... Para que? Coisas inúteis na sociedade. Assim, o pequeno dela, agora, tinha lições de química... Que absurdo! Era o que o pai dizia - para que, se ele o não queria para boticário?
Depois dum silêncio, as duas senhoras ergueram-se ao mesmo tempo; e houve um murmúrio de beijos, um frou-frou de sedas.
Carlos ficou só com a Sr.ª condessa, que reocupara a sua cadeira cor de rosa.
Imediatamente ela perguntou pelo Ega.
- Coitado, lá está para Celorico.
Ela protestou, com um lindo riso, contra aquela frase tão feia «lá está para Celorico» Não, não queria... Coitado do Ega! Merecia uma melhor oração fúnebre. Celorico era horrível para um fim de romance...
- De certo, exclamou Carlos, rindo também, era mais belo dizer-se: lá está para Jerusalém!
Nesse momento o criado anunciou um nome, e apareceu o amigo Teles da Gama, um íntimo da casa. Quando soube que o conde devia estar ainda batalhando sobre a Reforma da Instrucção, levou as mãos à cabeça como lamentando um tão feio desperdício de tempo, e não se quis demorar. Não, nem mesmo o excelente chá da Sr.ª condessa o tentava. A verdade era que estava tão abandonado da graça de Deus, perdera de tal modo o sentimento das coisas belas, que entrara, não para ver a Sr.ª condessa - mas simplesmente falar ao conde. Então ela teve um bonito ar de princesa ofendida, perguntou a Carlos se uma tão rude sinceridade de montanhês não fazia saudades das maneiras polidas do antigo regime. E Teles da Gama, gingando de leve, declarava-se democrata, homem da natureza, com um riso que lhe mostrava dentes magníficos. Depois, ao sair, dando um shake-hands ao amigo Maia, quis saber quando o príncipe de Sta. Olavia lhe dava enfim a honra de vir jantar com ele. A Sr.ª condessa indignou-se. Não, era realmente de mais! Fazer convites, na sua sala, diante dela, - um homem que falava tanto da sua cozinheira alemã, e nem sequer lhe oferecera jamais um prato de chucrute!
Teles da Gama, rindo sempre e gingando, jurou que andava a arranjar a sua sala de jantar para dar à Sr.ª condessa uma festa, que havia de ficar nos anais do reino! Agora com o Maia era diferente: jantavam ambos na cozinha, com os pratos sobre os joelhos. E abalou, gingando sempre, rindo ainda da porta, mostrando os dentes magnífico.
- Muito alegre, este Gama, não é verdade? disse a condessa.
- Muito alegre, disse Carlos.
Então a condessa olhou o relógio. Eram cinco e meia, àquela hora ela já não recebia: podiam, enfim, conversar um momento, em boa camaradagem. E, o que houve, foi um silêncio lento, em que os olhos de ambos se encontraram. Depois Carlos perguntou por Charlie, o seu lindo doente. Não estava bem, com uma ligeira tosse apanhada no passeio da Estrela. Ah, aquela criança nunca deixava de lhe dar o cuidado! Ficou calada, com o olhar esquecido no tapete, movendo languidamente o leque: tinha nessa tarde uma toilete exagerada, dum tom de folha de outono amarelada, duma seda grossa, que ao menor movimento fazia um ruge-ruge de folhas secas.
- Que lindo tempo tem feito! exclamou ela de repente, como acordando.
- Lindo! disse Carlos. Eu estive há dias em Sintra, e não imagina... Era duma beleza de idílio.
E imediatamente arrependeu-se, quis-se mal por ter falado da sua ida a Sintra, naquela sala.
Mas a condessa mal o escutara. Tinha-se erguido, falando de algumas canções que essa manhã recebera de Inglaterra, as novidades frescas da season. Depois, sentou-se ao piano, correu os dedos no teclado, perguntou a Carlos se conhecia aquela melodia - The pale star. Não, Carlos não conhecia. Mas todas essas canções inglesas se parecem, sempre do mesmo tom dolente, romanesco, e muito miss. E trata-se sempre dum parque melancólico, um regato lento, um beijo sob os castanheiros...
Então a condessa leu alto a letra da Pale star. E era a mesma coisa, uma estrelinha de amor palpitando no crepúsculo, um lago pálido, um tímido beijo sob as árvores...
- É sempre o mesmo, disse Carlos, e é sempre delicioso.
Mas a condessa atirou o papel para o lado, achando aquilo estúpido. Começou a remexer entre os papéis de música, nervosa, e com um olhar que escurecia. Para quebrar o silêncio, Carlos gabou-lhe as suas lindas flores.
- Ah, vou-lhe dar uma rosa! exclamou ela logo, deixando as músicas.
Mas, a flor que ela lhe queria dar estava no boudoir, ao lado. Carlos seguiu a sua grande cauda, onde corria um reflexo dourado de folhagem de outono batida do sol. Era um gabinete forrado de azul, com um bonito tremó do século XVIII, e sobre um forte pedestal de carvalho, o busto em barro do conde, na sua expressão de orador, a fronte erguida, a gravata desmanchada, o lábio fremente...
A condessa escolheu um botão com duas folhas, e ela mesmo lhe veio florir a sobrecasaca. Carlos sentia o seu aroma de verbena, o calor que subia do seu seio arfando com força. E ela não acabava de prender a flor, com os dedos trémulos, lentos, que pareciam colar-se, deixar-se adormecer sobre o pano...
- Voila! murmurou enfim, muito baixo. Aí está o meu belo cavaleiro da Rosa Vermelha... E agora, não me agradeça!
Insensivelmente, irresistivelmente, Carlos achou-se com os lábios nos lábios dela. A seda do vestido roçava-lhe, com um fino ruge-ruge entre os braços; - e ela pendia para traz a cabeça, branca como uma cera, com as pálpebras docemente cerradas. Ele deu um passo, tendo-a assim enlaçada, e como morta; o seu joelho encontrou um sofá baixo, que rolou e fugiu. Com a cauda de seda enrolada nos pés, Carlos seguiu, tropeçando, o largo sofá, que rolou, fugiu ainda, até que esbarrou contra o pedestal onde o Sr. conde erguia a fronte inspirada. E um longo suspiro morreu, num rumor de saias amarrotadas.
daí a um momento estavam ambos de pé: Carlos, junto do busto, coçando a barba, com o ar embaraçado, e já vagamente arrependido: ela, diante do tremó Luís XV, compondo, com os dedos trémulos, o frisado do cabelo. De repente, na antecâmara, ouviu-se a voz do conde. Ela, bruscamente, voltou-se, correu a Carlos, e, com os longos dedos cobertos de pedrarias, agarrou-lhe o rosto, atirou-lhe dois beijos faiscantes ao cabelo e aos olhos. Depois, sentou-se largamente no sofá - e estava falando de Sintra, rindo alto, quando o conde entrou, seguido de um velho calvo, que se vinha a assoar a um enorme lenço de seda da índia.
Ao ver Carlos no boudoir, o conde teve uma bela surpresa, esteve-lhe apertando as mãos muito tempo, com calor, assegurando-lhe que ainda nessa manhã, na câmara, se lembrara dele...
- Então, por que vieram tão tarde? exclamou a condessa, que se apoderara logo do velho, rindo, mexendo-se, animada, amável.
- O nosso conde falou! disse o velho, ainda com o olho brilhante de entusiasmo.
- Falaste? exclamou ela, voltando-se com um interesse encantador.
É verdade, falara; e desprevenido! Quando ouvira porém o Torres Valente (homem de literatura, mas um doido, sem senso pratico) quando o ouvira defender a ginástica obrigatória nos colégios - erguera-se. Mas não imaginasse o amigo Maia, que ele tinha feito um discurso.
- Ora essa! exclamou o velho, agitando o lenço. E um dos melhores que eu tenho ouvido na câmara! Dos de arromba!
O Conde modestamente protestou. Não: tinha simplesmente lançado uma palavra de bom senso, e de bom principio. Perguntara apenas ao seu ilustre
amigo, o Sr. Torres Valente, se na sua ideia, os nossos filhos, os herdeiros das nossas casas, estavam destinados para palhaços!...
- Ah, esta piada, Sr.ª condessa! exclamou o velho. Eu só queria que V. Ex.ª ouvisse esta piada... E como ele a disse! com um chic!
O conde sorriu, agradeceu para o lado, ao velho. Sim, dissera-lhe aquilo. E, respondendo a outras reflexões do Torres Valente, que não queria nos liceus, nem nos colégios, um ensino «todo impregnado de catecismo», ele lançara-lhe uma palavra cruel.
- Terrível, exclamou o velho num tom cavo, preparando o lenço para se assoar outra vez.
- Sim, terrível... Voltei-me para ele, e disse-lhe isto... «Creia o digno par, que nunca este país retomará o seu lugar à testa da civilização, se, nos liceus, nos colégios, nos estabelecimentos de instrução, nós outros os legisladores formos, com mão ímpia, substituir a cruz pelo trapézio...
- Sublime, rosnou o velho, dando um ronco medonho dentro do lenço.
Carlos, erguendo-se, declarou aquilo duma ironia adorável.
E o conde, quando ele se despediu, não se contentou com um simples aperto de mão, passou-lhe o braço pela cinta, chamou-lhe o seu querido Maia. A condessa sorria, com o olhar ainda húmido, um resto de palidez, movendo o leque languidamente, recostada em duas almofadas do sofá - debaixo do busto do marido que erguia a fronte inspirada.

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